O Livro Do Que

maio 18, 2017

             

Foi lançado ontem, 17 de Maio de 2017, pela Amazon “O Livro Do Que”.

             

“O Livro Do Que” é o quinto livro de Jorge Xerxes. O primeiro publicado exclusivamente em versão digital. Sessenta e seis páginas do que há de melhor na imaginação e na fantasia em prosa, poesia e imagem deste autor inventivo.

              

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O.cul.osa

julho 1, 2013

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Quando os estranhos fenômenos começaram a se reproduzir, ou melhor, quando se renovaram nestes últimos tempos, suscitaram antes de mais nada a dúvida. Sobre a sua realidade e mais ainda sobre a sua causa. – Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Capítulo IV, Sistemas.

Encho o copo que foi de requeijão com água da rua. Jogo dentro o comprimido de laranja. Ele afunda e as bolhas de gás carbônico começam a subir. Boto o copo no parapeito da janela. O comprimido de vitamina C. A que ponto cheguei, este é o meu último alimento.

Dos cinco sentidos foi a visão que fez sua a arte. Comecei a ver mais cores onde elas haviam, mais cores nas cores, menos vida onde há pouca a vida, com mais intensidade onde há a intensidade. Àquela mudança súbita, sobrevieram os borrões ou as manchas, incialmente na forma dos discos, depois de elipses, que passavam lentas em minha vista. O olho direito era o sensitivo, o olho esquerdo, o racional – como se fosse o previsto.

Mas nunca, nunca mesmo, imaginei desenvolver este sentido sobreposto ao visual, quando começaram a tomar conta as formas das criaturas da noite, a ditarem-me estranhos manuscritos, a semelhança deste. Isso, por si só, esvaziava-lhes o propósito. Ainda assim, eu a dá-los ouvido, e fazia isso a olhos vistos.

Passaram a inferir sobre os meus pensamentos com suas ações, bem ao modo do início do cinema, quando eram apenas sopradas as sombras às paredes, mudas. Com seus movimentos lentos das ideias, da redução pela lambedura da pelagem, a silhueta de um gato, na imagem de fundo, o carimbo dos infernos.

Caí de febre, deixei o trabalho, deixei a visão de fundo tomar conta das decisões. Como um velho aparelho televisor, o meu corpo. Sexto sentido. Nunca me achei louco, agora já não trago comigo certezas. Não é devaneio, sou eu mais a visão de fundo, lenta das ideias, cinco sentidos, mais um. Salto e não alcanço o alto da geladeira. Não sou um felino.

Tomo rápido o conteúdo do copo – anestésico; mortal – enquanto ainda tem bolhas. Eu acredito nas bolhas associadas de alguma forma à vitamina C. Este é o meu último alimento, antes da minha morte. Deito na cama, fecho os olhos, este é o meu suicídio.

Noutro dia, seguido da noite: embaralho a vista, o.cul.osa, tente de novo, oclusão, me diz o oftalmologista. Você vai ficar bom.

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O quotidiano esvazia as expectativas do mágico.

Repousa no condicionamento as potencialidades da vigília.

Desperta do sonho!

O sábio se vale tanto dos dias quanto das noites,

na mesma medida.

Cada grão da ampulheta abandona a inércia para o próprio movimento.

Faz valer o fluxo de energia que anima tua carne.

Usa das dobras do tempo para coser a realidade:

vibra as ideias na frequência de alumiar o breu

dos dias.

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Almeja o efêmero da centelha,

não deixa as rochas inertes,

acumularem lodo.

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Convalescença

dezembro 19, 2012

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Despertei com o estranhamento súbito de enxergar as auras. Algum efeito causado pela alteração visual do meu olho direito. Eventual flash de uma luz púrpura que envolvia os objetos e, principalmente, as pessoas.

Quando minha mãe morreu, deixou como herança a tristeza infinita de sua ausência. A nossa casa não era a mesma sem ela; meu pai, meu irmão e eu pusemo-nos num patamar distinto de comunicação, pautado em silêncios. A inexistência do som parecia-nos então natural ou, ao menos, a única condição viável. O ruído mínimo, ocasional, do choque metálico de um simples talher com o prato de porcelana desencadeava uma súbita desordem das ideias, que se desdobrava em insustentável troca de olhares de repreensão. Os olhares, sempre eles, a expressarem alguma coisa que, de tão grave, não cabia nas palavras.

Depois que ela partiu, o corpo de uma menina apareceu na parede da sala, dependurado no prego onde havia, até então, o quadro de um palhaço. A garota, aparentando pouco menos de dez anos de idade, vestia-se de roupas antiquadas, como aquelas da segunda metade do século passado. Ela tinha longo cabelo liso e negro, a pele pálida, e acompanhava o nosso vagar com aqueles seus olhos avermelhados e úmidos. Parecia chorar em silêncio. Passou dias ali, pregada naquela parede. Não pronunciava uma palavra sequer. Era esse o fato inusitado que agravava significativamente a estranheza daqueles dias.

Fato é que meu pai e meu irmão faziam vistas grossas à menina. Eu a via, mas por causa da alteração em meu olho direito, nada mencionei a respeito. Percebi que meu pai e meu irmão evitavam sequer fitar aquela parede. É bem possível que eles também a vissem. Pode ser que também sofressem de algum dano visual decorrente do trauma e, pelo mesmo motivo meu, evitassem tocar no assunto. Nunca saberei nada além do que descrevo nesse breve relato, porque a condição de luto estabelecida preconizava o mais absoluto silêncio.

Àqueles dias, saí poucas vezes de casa. O sol ofuscava a minha visão, chegava a ficar sem energias; é verdade que eu não vinha me alimentando bem. Algumas pessoas eu via rodeadas por imensa aura púrpura, com os raios de luz emanando do coração em linhas concêntricas que se tornavam difusas proporcionalmente a distância desse órgão, sabidamente pulsante e vital. Outras criaturas já não tinham essa característica: a extremidade de seus corpos era simplesmente delimitada pela superfície das suas carnes, sem qualquer alteração na luminosidade. Curiosamente os “luminescentes” caminhavam espaçados mesmo em meio à multidão, permitindo o trânsito livre de suas luzes. Os demais se permitiam uma maior aproximação. Isso me deixava ainda mais intrigado. Mas não cheguei a desenvolver especulação ou experimentos nesse sentido. Como adiantei, minha própria fragilidade impunha limites ao raciocínio, e me limito a descrever aqui essas percepções e imagens com a clareza e a isenção possíveis.

Eu estava só no quarto com minha mãe quando, em seus estertores, ela pronunciou a sua frase derradeira: Eu voltarei para vê-los. Essa fala, inesperada, causou a sensação de súbita compressão dos meus pulmões,  concomitante a uma corrente atravessando minha espinha ao desvanecer de sua vida. Tenho de confessar que, desde aquele instante, o ar me tem sido escasso. Apesar disso, não abandonei o meu hábito de fumar.

Não me considero sensível ou supersticioso, visto que não chorei em seu velório ou durante o enterro; assim como aconteceu com o meu pai e o meu irmão. Apenas – e aos poucos – aquele mutismo foi-se instalando em nossas vidas. Especialmente após retornarmos para casa.

Contavam quatro dias quando, pela manhã, encontramos minha mãe sentada ao sofá da sala, vestida de branco, onde costumava ficar com o gato em seu colo. Na parede, às suas costas, a menina pregada; os olhos ainda mais vermelhos e úmidos que de costume.

Ela nos disse que não estava gostando nada daquilo, daquela sua nova função e levou-nos para um passeio noutra residência onde, à semelhança da garota, era ela quem estava pregada à parede da casa, a velar pelos sombrios moradores. E então estava claro para nós três, do mundo dos vivos, que compartilhávamos daquilo tudo quanto não ousávamos conversar a respeito: a menina pregada, as visões e as sensações funestas.

Mas quanto ao que minha mãe alentava, em nada podíamos minorar o seu fardo, senão aquiescermos à presença da garota em nossas vidas – para todo o sempre.

Despertei encharcado em suor. O súbito estranhamento de enxergar as auras. Minha cabeça latejava de dor. Algum efeito causado pela alteração visual do meu olho direito. Senti-me, porém, infinitamente aliviado. O meu pai me acompanhou ao oftalmologista. Foi este quem diagnosticou o descolamento da retina. Não poderei escrever por uns tempos. Mas, enquanto eu dito, minha mãe digita ao computador.

Regar as plantas

dezembro 26, 2011

The Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch

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Que morram as plantas, foi o que ele disse. Essa frase até poderia soar natural vindo da boca de outro; mas ele, aos noventa e sete anos de idade, ocupara-se da incumbência de cultivá-las desde o dia em que sua amada deixou de acompanhar-nos nessa viagem à crosta desta estranha pedra celeste, no ano de um mil novecentos e noventa e oito. Assim, as verdes folhagens que habitam a varanda da casa dele tornar-se-ão, aos poucos e gradualmente, tênues, amareladas, sem viço pela falta de água e dos demais cuidados despendidos a terra. Enfim, morrerão como todas as outras plantas que inexistem nas casas de outros velhos.

Antes dessa revelação desconcertante, conversávamos tranquilamente. Ele contava, por detrás de um sorriso enigmático, que passava alguns dias na casa de um de seus filhos, que quando esse primeiro se enfadava pela sua presença, botava-o num ônibus interurbano e mandava-o para outra cidade, onde outro de seus filhos ansiava por recebê-lo. Mas em breve, passados alguns dias, quebrava-se o encanto, num passe de mágica o seu segundo filho se sentia importunado, botava-o num transporte interurbano e mandava-o para uma terceira cidade. Essa sim, era sua morada, e as verdes folhagens aguardavam-no sedentas, saudosas, complacentes de sua companhia.  

De um sorriso imperceptível, que vazava mínimo de um dos cantos de sua boca, ele dizia que essa era sua rotina, a história de sua vida. E devido a esses e outros detalhes menores, não era possível inferir sobre a veracidade ou não daquilo que ele contava sendo, nessa última hipótese, reminiscência da mais fina ironia.

 

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Enquanto isso, noutra cidade, à varanda de uma casa singela, era puro o devaneio. Naquela tarde escaldante de verão, samambaias desciam, com os peitos de fora, a Marquês de Sapucaí. Cactos, com a barba por fazer, fumavam charutos, usavam óculos de Sol e fingiam ler o jornal para observarem, atentos, as curvas de uma bromélia a desfilar, em minúsculo biquíni, pela praia. Orquídeas faziam compras num shopping.

A papoula, o peiote e outras plantas psicotrópicas bebiam e fumavam demasiadamente.  Suspeitava-se que cola bebia café e cheirava coca à calada da noite, quando as vincas e as trombeteiras faziam serão na ala de oncologia de um hospital do SUS. Requisitaram o guaraná, com seus olhos esbugalhados, para averiguar, mas faltaram-lhe as provas. E por isso é que, todo o dia primeiro do ano, o maracujá deixa um ramalhete de flores para Iemanjá. 

As gramíneas querem o poder, não baixam os olhos dos indicadores da bolsa, passam a vida em busca de acumular riquezas, sem nunca terem mirado o próprio umbigo. Plantas carnívoras comem frango e arrotam peru, roncam enquanto dormem largadas nas redes. Malditas plantas egoístas. Mas nem em sonho superam a espada-de-são-jorge no tocante àquela sua loucura desmedida de fatiar a Lua, como se esta fosse queijo. Sorte grande é a das trepadeiras, gozam plenas das delícias desse mundo.

 

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Um silêncio paira no ar. As plantas são melhores que os seres humanos; deixo escapar alto, de minha boca, num pensamento. O segundo silêncio perpassa o ambiente. Sinto um calafrio percorrer a minha espinha. Arrependo-me do comentário até o último fio de cabelo. Não, não são; diz o velho, enfim. Mas é tarde e o processo, irreversível: o terceiro silêncio soa infinito.

Dias depois o velho toma novamente o ônibus interurbano. Ao chegar a casa, ele rega as plantas de sua varanda. Verdes folhagens. 

A vida habita inextricável o verde da matéria.

Pluto and Charon as seen by Hubble

Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Em troca daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino vegetal, é que ele garantia sustento. A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.

Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.

Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-lhes desapercebido.  E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito, num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’ ‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.

As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados. Foi durante esse período que Diogo acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta assomava em volume e brilho a cada anoitecer.

Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este esforço também, lhe era vão. Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra.

Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.

Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo, beber daquela sua gradual e crescente sapiência.

Certa noite Diogo lhe falou da alquimia, que era para ele a supremacia do espírito sobre a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do grande regenerador, sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.

Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de nome Percival Lowell e o projeto de busca do nono planeta, denominado ‘Planeta X’, ao alvorecer do século XX.

Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste, que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo. Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.

Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.

Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu falar de Plutão? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e Caronte, o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro (ou centro de massa) das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.

Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com a Terra a configuração de um novo sistema planetário binário no sistema solar.

Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. Como a semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento.

Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

O encantamento em Olalla

setembro 12, 2011

Foi mais exatamente a parábola da vida de toda uma família que li naquela sucessão de faces e de corpos tão atraentes. Eu até então não tinha me apercebido do milagre da continuidade de uma raça; da criação e do renascimento; o desdobrar, o modificar e o despojar dos elementos carnais. Que uma criança nasce de sua mãe, que ela cresce, desenvolve-se por si mesma (não sei como) em humanidade, mas bebe da fisionomia herdada, e move sua cabeça à maneira de seus ascendentes.

Adentrei o amplo e requintado salão, e rumei escadaria acima. Tinha a sensação de que, apesar do profundo silêncio, alguém me seguia. Meu pé já deixava o degrau mais alto quando, subitamente, uma porta se abriu, e me encontrei face a face com Olalla. A surpresa deixou-me atônito, sua beleza assaltou meu coração; ela surgia das sombras de seu quarto, um brilho de luz; seus olhos se abraçaram aos meus e lá permaneceram, uniram-se fortes como num aperto de mãos; e os momentos em que ficamos a nos entreolhar, bebendo um do outro, foram sagrados como o casamento de almas. Eu não sei quanto tempo se passou até que eu despertasse daquele transe e, movendo-me com dificuldade, avançasse pelo corredor, passando defronte a porta de seu quarto. Ela não se mexeu, seus olhos vivos e penetrantes me acompanharam e, finalmente, quando deixei o seu alcance, senti como se ela própria desvanecesse, quarto adentro.

De súbito, percebi Olalla se aproximando. Ela surgiu por detrás de alguns arbustos, ao fundo do magnífico jardim, vinha em minha direção, e eu permaneci de pé, a esperá-la. Ela parecia, em seu caminhar, uma criatura com tanta vida, esplendor e leveza que me deixou encantado. Sua energia repousava na economia dos movimentos; por uma força inimitável, eu a percebia como se estivesse avançando em velocidade, como se ela quisesse correr em minha direção.

Então, por um momento, ela pareceu ter abandonado a sua firme resolução; tomou minha mão junto da sua, e movendo seu corpo levemente à frente, pousou-a sobre o seu coração. ‘Aqui’, ela disse, ‘você sente realmente pulsar minha vida. Ela se move por você, minha vida é sua. Mas ela é minha também? Ela é minha, certamente, para que eu a ofereça a você; e eu posso tirar essa medalha de meu pescoço, assim como eu posso extrair a muda viva de uma árvore e dá-la a você. E, apesar disso, não é minha! Eu vivo, ou penso que eu vivo (se é que existo de fato), numa outra instância; uma prisioneira impotente; eu sou levada, e sou arrastada, por algo maior, que eu mesma desconheço’.

‘Sou eu quem você ama, amigo? Ou a raça que me produziu? A garota que você não conhece, e que não pode responder pela ínfima parte dela mesma? Ou o fluxo da qual ela não passa de um transitório remoinho, a árvore da qual ela é senão um fruto passageiro? A raça existe; ela é antiga e é sempre renovada; carrega em seu peito eterno o destino; e através dele, como as ondas sobre o mar, indivíduo sucede indivíduo, revestidos de aparente autocontrole, mas eles não são nada’.

‘Lembre-se de mim de vez em quando como alguém a quem as lições da vida foram ensinadas de forma demasiadamente severa, mas que soube suportá-las com coragem; como alguém que o mandou embora e ainda assim gostaria de tê-lo mantido para sempre ao seu lado; alguém que não tem esperança senão a de esquecê-lo, e não tem medo maior àquele de ser esquecida’.

A fábula gótica “Olalla” foi publicada originalmente na edição de Natal da “The Court and Society Review” no ano de 1885. O texto, em primeira pessoa, é narrado pela personagem anônima do soldado ferido que viaja para o interior da Espanha e hospeda-se num casarão, por recomendação de um padre, para a sua recuperação; uma fantástica e tocante história do amor místico desse jovem militar pela misteriosa Olalla, uma adolescente de beleza estonteante, cuja família guarda um terrível segredo.

Robert Louis Stevenson, o autor de “Olalla”, faleceu prematuramente aos quarenta e quatro anos de idade, ao terceiro dia de dezembro de 1894, vítima de tuberculose, em Apia, nas Ilhas Samoa onde, apaixonado pela paisagem paradisíaca, estabeleceu residência. Stevenson, escritor de romances, roteiros de viagens e poeta, casou-se com Fanny Van de Grift Osbourne (1840-1914) em maio de 1880, e viveu com ela até o fim de seus dias. Ele nasceu ao décimo terceiro dia de novembro de 1850 em Edimburgo, na Escócia, filho de tradicional família de engenheiros civis, mas não seguiu a profissão.

Os trechos de “Olalla”, selecionados e apresentados acima em tradução livre, denotam a excelência da habilidade narrativa de Stevenson, além de profunda humanidade e sensibilidade, características marcantes em sua obra.

Muita vez os acontecimentos não nos parecem justos. Mas não é justo pensarmos isso. Afinal, a justiça não habita a superfície; e sendo grave a sua natureza, há de residir na essência que move o universo dos eventos.

Livros podem ser adquiridos com o Autor.

Email para contato: jorgexerxes@gmail.com

Importa muito

junho 27, 2011

Enquanto inicio, organizando os caracteres nessa seqüência insidiosa das letras, para que você aperceba-as, permaneces envolta num remoinho, são suas próprias ideias, tua conectividade com as criaturas, outros seres, as tuas coisas, ou são as louças, você insiste em lavá-las. O fato de ser segunda-feira, de inverno, pela manhã, e estar fazendo frio importa – e muito. Não há estrelas no céu. Quem nega a influência dos astros, paga caro os esbarrões. Era você mesma quem me dizia das flores, dos sorrisos dos gatos, que de tão tênues, eram quase nada, que desse pouco, por ser tão pouco, apenas isso, era o suficiente, permitia-lhes a espreita. E quando perguntastes sobre as canções, lembrei-me da mais triste, o coração dobrou-se em aperto, as lágrimas correram-me a face. Onde foi mesmo que você me deixou? Em que ano estamos? Não me lembro de mim, acho que foi outro remoinho desses, atingiu-me em cheio; nossos dias passam rápidos, gira a pedra de fogo, vem a lua, vem São Jorge e o dragão, vem tudo de novo. Hoje somos nós mesmos, naquilo que você fritou, naquela panela com o alho e a cebola picados, depois botou água, sal, levou ao ponto de fervura, serviu à mesa. Revira o meu coração, derrama-o dentro do teu, manda-me um cheiro dessa alegria, louca energia, desse brilho com as mangas de fora. Guarda o meu ser estranho, por gentileza, a desvanecer-se, filigrana qualquer com as letras, ou singela dança, para você acomodá-la, num canto quente, de tuas entranhas.