Uma síntese da terra

setembro 28, 2011

Esse artigo apresenta alguns excertos especialmente selecionados e colhidos da “Terra dos homens” de Antoine de Saint-Exupéry. A obra, cujo título original em francês é “Terre des hommes”, foi lançado em dezembro do ano de 1939 e garantiu ao escritor o Grande Prêmio de Literatura da Academia Francesa. Os trechos abaixo, entretanto, foram extraídos da vigésima sexta edição do livro em língua portuguesa, cuja tradução foi realizada pelo também escritor Rubem Braga. Este exemplar, que tenho em minhas mãos, é do ano de 1986 e foi publicado pela Editora Nova Fronteira.

*   *   *

Éramos três tripulações da Aeropostale. Havíamos descido, ao cair do dia, na costa do Rio do Ouro. Meu companheiro Riguelle havia descido primeiro com uma biela partida; um outro companheiro, Bougart, aterrissou então para socorrê-lo, mas não pôde retomar vôo devido a uma avaria sem gravidade. Afinal, aterrissei, mas a noite já avançava. Resolvemos salvar o avião de Bougart, e, para fazer o conserto bem-feito, era preciso esperar a manhã.

Um ano antes nossos companheiros Gourp e Erable, descidos em pane naquele mesmo lugar, haviam sido massacrados pelos revoltosos. Sabíamos que naquele momento também um bando de mouros armados de trezentos fuzis estava acampado em algum lugar de Bojador. Nossas três aterrisagens, visíveis de longe, haviam com certeza alertado os revoltosos. Começamos uma vigília que podia ser a última.

Instalamo-nos para passar a noite. Tiramos dos aviões cinco ou seis caixas de mercadorias e as dispusemos em círculo, depois de esvaziá-las. No fundo de cada caixa, como dentro de uma guarita, acendemos uma pobre vela, mal protegida contra o vento. Assim, em pleno deserto, na crosta nua do planeta, num isolamento dos primeiros anos do mundo, construímos uma aldeia de homens.

Reunidos para passar a noite na praça grande da nossa aldeia, naquele círculo de areia onde as velas jogavam suas luzes trêmulas, ficamos à espera. À espera da madrugada, que nos salvaria – ou dos mouros. E não sei o que dava aquela noite um gosto de noite de Natal. Contamos velhas histórias, fizemos pilhérias e cantamos.

Saboreávamos o mesmo fervor leve do melhor de uma festa bem preparada. Entretanto, éramos infinitamente pobres. Vento, areia, estrelas. Um estilo duro para trapistas. Contudo, naquele círculo de areia mal iluminado, cinco ou seis homens que não possuíam mais coisa alguma no mundo a não ser suas lembranças trocavam invisíveis riquezas.

Nós nos havíamos, finalmente, encontrado. Anda-se lado a lado muito tempo, cada um fechado em seu silêncio, ou trocando palavras que não encerram nada. Mas eis a hora do perigo. Então vem a ajuda mútua. Descobre-se que se pertence à mesma comunidade. Cada um se enriquece com a descoberta de outras consciências. Então os homens se olham com um grande sorriso. E parecem prisioneiros libertados que se maravilham com a imensidão do mar.

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O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça…

*   *   *

E pouco a pouco, sem dúvida, nossa casa se fará mais humana. A própria máquina quanto mais se aperfeiçoa mais se apaga e desaparece atrás de sua função. Parece que todo o esforço industrial do homem, todos os cálculos, todas as noites de vigília sobre as plantas, conduzem apenas à simplicidade, como se fosse necessária a experiência de várias gerações para libertar a curva de uma coluna, de uma quilha ou de uma fuselagem de avião até lhe dar a pureza elementar da curva de um seio ou de um ombro. Parece que o trabalho dos engenheiros, dos desenhistas e dos calculistas dos escritórios de estudos é apenas polir e apagar, realizar da maneira mais suave esta juntura de peças, equilibrar esta asa até que não se note mais nada, até que não haja mais uma asa ligada a uma fuselagem e sim uma forma perfeitamente desenvolvida, libertada de sua ganga, uma espécie de conjunto espontâneo, misteriosamente ligado, e da mesma qualidade de um poema.

*   *   *

Entre um homem e outro homem o espírito reserva um estranho espaço. Um sonho de moça a distancia de mim. Como atingi-la? Que posso saber dessa moça que volta para casa a passos lentos, os olhos baixos, sorrindo para si mesma, cheia de descobertas e mentiras adoráveis? Com os pensamentos, a voz e os silêncios de seu amado ela construiu um Reino – e desde então, para ela, fora desse Reino todos são bárbaros. Mais do que se estivesse em outro planeta, ela está isolada de mim em seu segredo, em seus costumes, nos murmúrios encantados de sua memória. Nascida ontem dos vulcões, da relva, do sal dos mares, essa moça já é meio divina.

*   *   *

Uma estrela já brilhava, e eu a contemplei. Imaginei que aquela superfície branca em que me achava havia estado ali, feito uma oferta, perante os astros somente, durante centenas de milhares de anos. Lençol imaculado estendido sob a pureza do céu. E senti alguma coisa no coração, assim como no limiar de uma grande descoberta, quando descobri sobre esse lençol, a quinze ou vinte metros de mim, um pedaço de pedra negra.

Eu estava sobre trezentos metros de espessura de conchas moídas. Toda a formação do terreno se opunha, como uma prova peremptória, à presença de uma pedra. Sílices poderiam dormir, talvez, nas profundezas subterrâneas, surgidos das lentas digestões do globo, mas que milagre teria feito subir um dentre eles até o alto, até aquela superfície por demais recente? O coração batendo com força, abaixei-me para apanhar o meu achado; um pedaço de pedra dura, negra, do tamanho de um punho, pesada como metal, em forma de lágrima.

Um lençol estendido sob uma macieira só pode receber maçãs; um lençol estendido sob as estrelas só pode receber poeira dos astros. Nunca antes um aerólito havia mostrado a sua origem com uma tal evidência.

*   *   *

Não sei o que se passa em mim. Esta força de gravidade me liga ao chão quando tantas estrelas são imantadas. Uma outra força de gravidade me prende a mim mesmo. Sinto o meu peso que me une a tantas coisas! Meus sonhos são mais reais que essas dunas, esta lua, estas presenças. Oh, o que há de maravilhoso numa casa não é que ela nos abrigue e nos conforte, nem que tenha paredes. É que deponha em nós, lentamente, tantas provisões de doçura. Que forme, no fundo de nosso coração, essa nascente obscura de onde correm, como água da fonte, os sonhos…

*   *   *

Mas eu conheço a solidão. Três anos no deserto me ensinaram bem o seu gosto. O que nos contrista não é a mocidade que se gasta numa paisagem mineral. É o pensamento de que, longe de nós, é o mundo que envelhece.

*   *   *

Abordando o Mediterrâneo, encontro nuvens baixas. Desço até vinte metros. O aguaceiro bate no pára-brisa e o mar parece estar fumegando. Faço grandes esforços para enxergar alguma coisa e não esbarrar no mastro de um navio.

O meu mecânico, André Prévot, acende um cigarro para mim.

– Café…

Desaparece no fundo do avião e retorna com a garrafa térmica. Tomo um pouco de café. Puxo, de vez em quando, o acelerador para manter duas mil e cem rotações. Passo os olhos pelos mostradores: meus súditos são obedientes, cada agulha está em seu lugar justo. Lanço os olhos para o mar que, sob a chuva, desprende vapores como uma grande bacia de água quente. Se estivesse num hidravião não gostaria de vê-lo tão “esburacado”. Mas estou em avião. Esburacado ou não, de qualquer modo não posso descer. E isso me fornece, não sei por quê, um absurdo sentimento de segurança. O mar faz parte de um mundo que não é meu. A pane, aqui, não me concerne, nem mesmo me ameaça: não tenho negócios com o mar.

*   *   *

Mais uma vez andei ao lado de uma verdade sem compreendê-la. Pensei que estava perdido, pensei que havia chegado ao fundo do desespero. E, uma vez aceita a renúncia, conheci a paz. Em horas assim parece que um homem descobre a si mesmo e se torna seu próprio amigo. Nada mais prevalece contra um sentimento de plenitude que satisfaz em nós não sei que necessidade essencial que nem sabíamos possuir. Imagino que Bonnafous, perseguidor de ventos, conheceu essa serenidade. E Guillaumet também, na neve. Eu, por mim, não sei como poderia esquecê-la: enterrado na areia até a nuca, lentamente estrangulado pela sede, senti esse calor no coração, sob minha pelerine de estrelas.

Como favorecer em nós essa espécie de libertação? Tudo é paradoxal no homem, já o sabemos. Asseguramos o pão a um homem para que ele possa criar alguma coisa – e ele se põe a dormir. O conquistador vitorioso amolece. E se enriquecemos o generoso ele se torna avarento. Que nos importam as doutrinas políticas que pretendem elevar o homem se, para começar, não sabemos que tipo de homem elas elevarão na terra? Quem vai nascer? Não somos um rebanho na engorda. E a aparição de um Pascal pobre pesa mais que o nascimento de alguns anônimos prósperos.

*   *   *

Nada sabemos, a não ser que há certas condições que nos fertilizam. Onde reside a verdade do homem?

A verdade não é o que se demonstra. Se nesta terra, e não em outra, as laranjeiras lançam sólidas raízes e se carregam de frutos, esta terra é a verdade das laranjeiras. Se esta religião, esta cultura, esta escala de valores, esta forma de atividade, e não outras, favorecem no homem sua plenitude, libertam nele o grande senhor que se ignorava, esta escala de valores, esta cultura, esta forma de atividade são a verdade do homem. E a lógica? Ela que se arranje para tomar conhecimento da vida.

*   *   *

A verdade para um homem é o que faz dele um homem. Quando um homem que conheceu essa dignidade de relações, essa lealdade no jogo, esse dom mútuo de uma estima em que se empenha a vida, compara essa elevação à facilidade medíocre do demagogo que exprime sua fraternidade aos mesmos árabes com grandes tapas nas costas adulando-os, mas ao mesmo tempo os humilhando, esse homem, se acaso não concordais com ele, sentirá de vós uma piedade um pouco desdenhosa. E terá razão.

*   *   *

Queremos ser libertados. O que dá a enxadada no chão quer saber o sentido dessa enxadada. E a enxadada do forçado, que humilha o forçado, não é a mesma enxadada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está onde se trabalha com a enxada. Não há o horror material. A prisão está onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens.

E nós queremos fugir da prisão.

*   *   *

Antoine de Saint-Exupéry, nascido aos 29 dias de Junho do ano de 1900 em Lyon, na França, foi escritor, poeta e pioneiro aviador. Seu livro mais conhecido é “Le Petit Prince” (O Pequeno Príncipe), originalmente publicado no ano de 1943.

Faleceu prematuramente, aos 44 anos de idade, no dia 31 de Julho de 1944 durante um vôo de reconhecimento sobre o Mediterrâneo, ao sul de Marseille, na França. Não se sabe ao certo se o seu avião foi abatido ou sofreu uma pane.

*   *   *

Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.

Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de vôo, na Argentina – uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.

Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre tantas estrelas vivas, tantos homens adormecidos…

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.

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Crescer para dentro*

setembro 21, 2011

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* versos extraídos e adaptados do texto “Quando eu crescer… quero ser um poeta…” de Dhiogo José Caetano

Pluto and Charon as seen by Hubble

Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Em troca daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino vegetal, é que ele garantia sustento. A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.

Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.

Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-lhes desapercebido.  E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito, num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’ ‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.

As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados. Foi durante esse período que Diogo acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta assomava em volume e brilho a cada anoitecer.

Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este esforço também, lhe era vão. Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra.

Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.

Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo, beber daquela sua gradual e crescente sapiência.

Certa noite Diogo lhe falou da alquimia, que era para ele a supremacia do espírito sobre a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do grande regenerador, sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.

Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de nome Percival Lowell e o projeto de busca do nono planeta, denominado ‘Planeta X’, ao alvorecer do século XX.

Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste, que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo. Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.

Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.

Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu falar de Plutão? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e Caronte, o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro (ou centro de massa) das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.

Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com a Terra a configuração de um novo sistema planetário binário no sistema solar.

Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. Como a semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento.

Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

O encantamento em Olalla

setembro 12, 2011

Foi mais exatamente a parábola da vida de toda uma família que li naquela sucessão de faces e de corpos tão atraentes. Eu até então não tinha me apercebido do milagre da continuidade de uma raça; da criação e do renascimento; o desdobrar, o modificar e o despojar dos elementos carnais. Que uma criança nasce de sua mãe, que ela cresce, desenvolve-se por si mesma (não sei como) em humanidade, mas bebe da fisionomia herdada, e move sua cabeça à maneira de seus ascendentes.

Adentrei o amplo e requintado salão, e rumei escadaria acima. Tinha a sensação de que, apesar do profundo silêncio, alguém me seguia. Meu pé já deixava o degrau mais alto quando, subitamente, uma porta se abriu, e me encontrei face a face com Olalla. A surpresa deixou-me atônito, sua beleza assaltou meu coração; ela surgia das sombras de seu quarto, um brilho de luz; seus olhos se abraçaram aos meus e lá permaneceram, uniram-se fortes como num aperto de mãos; e os momentos em que ficamos a nos entreolhar, bebendo um do outro, foram sagrados como o casamento de almas. Eu não sei quanto tempo se passou até que eu despertasse daquele transe e, movendo-me com dificuldade, avançasse pelo corredor, passando defronte a porta de seu quarto. Ela não se mexeu, seus olhos vivos e penetrantes me acompanharam e, finalmente, quando deixei o seu alcance, senti como se ela própria desvanecesse, quarto adentro.

De súbito, percebi Olalla se aproximando. Ela surgiu por detrás de alguns arbustos, ao fundo do magnífico jardim, vinha em minha direção, e eu permaneci de pé, a esperá-la. Ela parecia, em seu caminhar, uma criatura com tanta vida, esplendor e leveza que me deixou encantado. Sua energia repousava na economia dos movimentos; por uma força inimitável, eu a percebia como se estivesse avançando em velocidade, como se ela quisesse correr em minha direção.

Então, por um momento, ela pareceu ter abandonado a sua firme resolução; tomou minha mão junto da sua, e movendo seu corpo levemente à frente, pousou-a sobre o seu coração. ‘Aqui’, ela disse, ‘você sente realmente pulsar minha vida. Ela se move por você, minha vida é sua. Mas ela é minha também? Ela é minha, certamente, para que eu a ofereça a você; e eu posso tirar essa medalha de meu pescoço, assim como eu posso extrair a muda viva de uma árvore e dá-la a você. E, apesar disso, não é minha! Eu vivo, ou penso que eu vivo (se é que existo de fato), numa outra instância; uma prisioneira impotente; eu sou levada, e sou arrastada, por algo maior, que eu mesma desconheço’.

‘Sou eu quem você ama, amigo? Ou a raça que me produziu? A garota que você não conhece, e que não pode responder pela ínfima parte dela mesma? Ou o fluxo da qual ela não passa de um transitório remoinho, a árvore da qual ela é senão um fruto passageiro? A raça existe; ela é antiga e é sempre renovada; carrega em seu peito eterno o destino; e através dele, como as ondas sobre o mar, indivíduo sucede indivíduo, revestidos de aparente autocontrole, mas eles não são nada’.

‘Lembre-se de mim de vez em quando como alguém a quem as lições da vida foram ensinadas de forma demasiadamente severa, mas que soube suportá-las com coragem; como alguém que o mandou embora e ainda assim gostaria de tê-lo mantido para sempre ao seu lado; alguém que não tem esperança senão a de esquecê-lo, e não tem medo maior àquele de ser esquecida’.

A fábula gótica “Olalla” foi publicada originalmente na edição de Natal da “The Court and Society Review” no ano de 1885. O texto, em primeira pessoa, é narrado pela personagem anônima do soldado ferido que viaja para o interior da Espanha e hospeda-se num casarão, por recomendação de um padre, para a sua recuperação; uma fantástica e tocante história do amor místico desse jovem militar pela misteriosa Olalla, uma adolescente de beleza estonteante, cuja família guarda um terrível segredo.

Robert Louis Stevenson, o autor de “Olalla”, faleceu prematuramente aos quarenta e quatro anos de idade, ao terceiro dia de dezembro de 1894, vítima de tuberculose, em Apia, nas Ilhas Samoa onde, apaixonado pela paisagem paradisíaca, estabeleceu residência. Stevenson, escritor de romances, roteiros de viagens e poeta, casou-se com Fanny Van de Grift Osbourne (1840-1914) em maio de 1880, e viveu com ela até o fim de seus dias. Ele nasceu ao décimo terceiro dia de novembro de 1850 em Edimburgo, na Escócia, filho de tradicional família de engenheiros civis, mas não seguiu a profissão.

Os trechos de “Olalla”, selecionados e apresentados acima em tradução livre, denotam a excelência da habilidade narrativa de Stevenson, além de profunda humanidade e sensibilidade, características marcantes em sua obra.

Muita vez os acontecimentos não nos parecem justos. Mas não é justo pensarmos isso. Afinal, a justiça não habita a superfície; e sendo grave a sua natureza, há de residir na essência que move o universo dos eventos.

Chercher

setembro 7, 2011

Se algo parece certo é porque,

certamente,

está errado.

Boris Karloff e Bela Lugosi,

(Frankenstein e Drácula),

esses outros tantos corpos.

Por que tamanha obsessão

em manter eterna a farsa?

Dois tipos de nós mesmos,

para a própria salvaguarda dos desígnios:

reflete-se interna,

a verdade não vaza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

…the more things are wrong, the more we must act as if all were right.

…‘what a boy are you! What harm has come to you? What harm can come to you if you hold your tongue? Why, man, do you know what this life is? There are two squads of us – the lions and the lambs.

To rustic neighbourhoods, where love is more than commonly tenacious, and where some bonds of blood or fellowship unite the entire society of a parish, the body snatcher, far from being repelled by natural respect, was attracted by the ease and safety of his task.

– Some excerpts from The Body Snatcher by Robert Louis Stevenson, 1884.