Tom Balladino

julho 28, 2009

Entra pela porta do quarto com seu andar – e aquele olhar – apressado logo pela manhã. Salta sobre meu corpo que jaz sobre a cama, ainda meio dormente e com as vestes de dormir. Tom Balladino abraça forte, me enche de beijos, espanta meu mau humor antes mesmo que ele se manifeste. De repente estamos lá: brincando como se fossemos duas crianças. Ele gosta das carícias, das cócegas no seu corpo torneado e forte. Ri como ser pleno de certa felicidade, dessas bem meladas – dele transborda, escorre… Contagia.

Depois, apesar da mesa exageradamente farta para o desjejum, Tom Balladino alimenta-se de maneira frugal. Logo mostra o seu semblante disperso, a matutar os afazeres todos e as ocupações do dia recém chegado. Fico a fitá-lo assim, distante em pensamento. Sinto-me só com ele. Rapidamente ele me deixa à mesa para se juntar aos amigos em suas atividades extenuantes. Assim preenche as necessidades de desenvolvimento e as múltiplas habilidades do relacionamento humano. Trabalho que só alguém como ele desenvolve.

Sei que sou apenas coadjuvante desta sua vida desvairada. Tom Balladino tem seu andar peculiar, leve, quase que corre andando (anda correndo, sempre que possível); e ele sabe que eu não agüento tanto. Organizamos um passeio em sua carruagem de cor roxa. (Ele diz que assim deve ser para espantar os maus espíritos. Eu acredito). O grupo de seis pessoas se acomoda. Deixamo-nos levar pelos causos do condutor Ligeirinho; pela potência do puro sangue de nome Maracujá. Divertíamo-nos muito com aquele mais chegado de Balladino, que insistia em chamar o cavalo de Mandioca. Ele deixava Ligeirinho – que estava à boléia – meio sem jeito.

Paramos no Jóquei Clube onde permanecemos alimentando as aves suntuosas – os colibris, os patos e os cisnes. Habitavam o lago de um verde único (verdadeiro) que fora cultivado e mantido ao longo de sucessivas gerações. Os sagüis também se nutriam das bananas que o próprio Tom descascava; ele as cortava e as deixava a mão de símios divertidos. Os seus malabarismos eram milagres do arborismo sobre o qual Balladino tinha vasta experiência e conhecimento. Orgulhava-se de discorrer longamente sobre o assunto, apontando e dando nome às manobras, para o deleite dos presentes.

O temperamento dele nem sempre me agradava, isso é fato. Muita vez Tom Balladino parecia atirado em demasia às suas convicções e ambições – como se o presente fosse a única condição do tempo existente (porém outrora o tempo se arrasta; sabe-se que às vezes ele voa; há ainda o passado; e muito ainda há por vir). Seu imediatismo causava o desconforto que minimizava, em certo grau (embora não afetasse gravemente), aquela sua capacidade transcendente de entreter, de envolver, de seduzir. Era coisa dele ser ele mesmo, ou semelhante daquele cara. Quando se encontrava em condição de constrito lançava logo um sorriso chinês. Os olhos levemente alongados e um sorriso enigmático. E se a situação era realmente embaraçosa (ameaçava reduzir os seus desejos a pó) havia ainda a força de dizer um: – Por favor, com gentileza… qualquer pedido que se seguisse faria das mais obtusas restrições estilhaços improváveis de resistência.

Certa vez Balladino propôs um passeio (ou visita) ao topo da montanha mais alta das cercanias. E para isso lançaríamos mão de um mecanismo de transporte duvidoso, tipo ônibus, ou caixa de fibra de vidro, presa aos cabos e polias – teleférico para elevação das idéias (dos medos?). Forma de ver de cima as mesmas coisas. Um meio de decidir melhor. Muita discussão entre os amigos. (Eu a lhos observar; mero coadjuvante). Não é que Tom debateu longamente sobre a segurança, de modo a todos convencer? Pouco depois lá estávamos nós, aos pés do Cristo, dando vivas pela graça; pela vista privilegiada!

Numa dessas noitadas desvairadas fomos visitar amigo meu de longo cabelo branco. Sua casa aconchegante. Ele se valia de um forno a lenha para o preparo dos alimentos: da carne de vaca, passando pelo arroz, até o feijão com trambiques. Ofereceu-nos a aguardente. Cervejas da preta e da clara. Labirinto para os sentidos. Mas enquanto bebíamos e nos deliciávamos dos causos, Tom Balladino permanecia abstêmio. Dava-se por satisfeito com a caçulinha de guaraná. Outrora coca-cola. Guardava sempre as tampinhas. Ele comeu um queijo achando que era boneco de neve. Primeiro a cabeça, depois o pescoço, lascas da barriga. Depois se rendeu: caiu num sono profundo. Nessa noite o levamos embora, carregado.

Ao dia de nossa despedida, Tom seguiu quieto, no banco de trás. O avião de brinquedo pela janela. Girava a hélice do monomotor tosco, de madeira. Ao vento do carro em velocidade. No posto desceram ele e o irmão. Fiquei a fitá-los; a observa-lhes a reação. Estavam felizes de rever a mãe. Entraram no carro dela. Deram-me beijos e abraços. Com os cintos já apertados. Do banco detrás Balladino me disse: – Tchau pai.

Acho que é por essa sua naturalidade, espontaneidade, inocência que admiro tanto Tom Balladino – meu filho de quatro anos – e ao seu irmão que leva o nome de um anjo.

Resta a certeza de que as férias foram inesquecíveis. Que apesar de eu não ter mais o pique deles, me sinto renovado. E, principalmente, eternamente agradecido.

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Trabalho com a serra

julho 5, 2009

Observou ainda debaixo a magnificência do acidente de relevo que se manifestava onipotente frente aos seus olhos. Logo estarei lá em cima – pensou Antonio. O monte é de um verde asfixiante. Algumas rochas que transparecem aos arbustos quebram esta constância, como o gelo no copo da bebida. Subiu calado e taciturno.

A repetição é de natureza triste e enfadonha. Já a liberdade, mesmo quando boceja aos gracejos de boa idéia, será sempre bem-vinda. Assim como a criatividade é irmã dos relâmpagos.

Antonio sentou-se sobre uma das três grandes rochas do cume. O fim de tarde era a quintessência do dia, o instante em que seria possível ao Sol beijar a Lua – pelo menos em sua cabeça simples de homem da terra. As mãos grossas que são também hábeis no manuseio do canivete. Ele picava o naco de fumo de rolo com a grande habilidade dos anos.

Geraldo subia triste a trilha que levava acima. A montanha era símbolo da árvore, que por sua vez era símbolo da resistência. Ela reinava soberba naquele topo. Mas naquele dia Geraldo trazia consigo a razão do impreciso. A duvida habitava o âmago daquele coração bruto de pedra, que não pertencia ao reino da natureza. Era aquilo que existia fora dele.

Antonio acochava a palha imprimindo-lhe certa maciez que não era sua. Pedia ao bom vento o sopro de sorte doce do crepúsculo. E preencheu a leda com todo o fumo enquanto Geraldo se achegava.

A vez de Jacinto era maquinada da energia dos omissos. Subia sem o devido respeito à aclividade como quem invade uma virgem ignorante da sua pureza. Arredio e bêbado das suas contas. Pastava noutros campos onde os loucos, os culpados e os indecentes se escondem da razão. Trazia consigo a ferramenta.

Antonio passava a lábia com a língua espessa dos sucos digestivos que moravam em sua boca. Era a ambição dos sentidos que fazia dele a cola dos pântanos. Sua arte lhe permitia ainda os amarrilhos nas duas extremidades  com cintas de palha que dariam ao cigarro o formato final de um confeito – bala ou cande esfumegante.

Jorge subiu por fim. O sol quase na linha do horizonte. Eles botaram fogo na bagana e tocaram fumaça no mundo. Ela expandia abraçando todo o universo.

Jorge, Antonio, Geraldo e Jacinto eram amigos. Eles riram, mas sentiram o pesar daquele momento. O crepúsculo que nunca seria o mesmo.

Botaram a ferramenta numa perpendicular com o tronco e começaram num vai-e-vem frenético. A árvore resistiu o quanto pode.

Naquela noite a fogueira ao centro dos casebres foi mais vívida que todas as Estrelas.

O vazio do coração é a morte da árvore – dói a dor dos dias e das noites eternas.