tatoo n4

novembro 26, 2016

tatoo_n4_jorge_xerxes

Deu para entender?

novembro 5, 2016

   

Qual é a relação entre os números 3, 4, 4.35, 7 e 12?

3) A duração em meses de cada estação do ano.

4) Cada uma das estações do ano.

4.35) O número médio de semanas no mês.

7) São os dias da semana.

12) O número de meses no ano.

365) Deu para entender?

   

   

As caminhadas do que

outubro 24, 2016

caminhadas_que_jorge_xerxes

   

19 de outubro 2016

   

Hoje, caminhando pela praia,

encontrei pedras,

elas eram claras,

de verde mar para o branco.

Eu não sei o número delas,

mas eu as carreguei comigo.

Com estas pedras, você não entenderia,

que eu ainda não sei o número delas,

tenho muito o de aprender.

Pedras roladas,

posso ouvi-las noites inteiras.

   

   

17 de outubro 2016

   

Estas cartas narram, com a maior isenção possível, da geometria do símbolo. De antemão é lembrado ao leitor que tudo aquilo que é descrito passa, ao menos, por dois filtros naturais da subjetividade, tais quais àquele de quem escreve o episódio tanto o outro de quem se aventura a sua descoberta. Posto isso, imagina-se três segmentos de retas verticais. Um segmento de reta horizontal é sobreposto à imagem anterior, na parte de baixo. Sobrepondo a esta imagem formada, estão duas curvas ascendentes, com taxas de crescimento distintas. Estas últimas duas curvas lembram os quadrantes inferiores direitos de duas elipses. E elas partem próximo de uma origem imaginária, definida pelo primeiro dos segmentos de retas verticais – aquele à esquerda – e o segmento de reta horizontal inferior. Eu poderia desenhar o símbolo. Ainda assim, para o seu próprio bem, seria melhor que você o apreendesse.

   

   

12 de outubro 2016

   

Chamam-me de J. ou X., mas J. e X. não são nomes. Assertivas aparentemente ficcionais como esta levam a reflexão acerca da questão que diz respeito à realidade ou à irrealidade. Assim como a longa carta, redigida de próprio punho e destinada a M., cujo conteúdo desconhecemos. Se M. não a encontrou, ou não a leu, esvazia-lhe em absoluto a sua razão de existir. E, talvez, ela tenha caído em mãos erradas, o que seria ainda pior. Neste caso, tanto eu, J., quanto ela, M., corremos risco de morte. Há verdades que jamais deveriam ser ditas (ou escritas). Mas não posso me furtar de narrar a falta que um simples cigarro me faz enquanto rabisco estas poucas linhas. (Que M. guarde sempre em sua memória o que restar de doce, e não um improvável cinzeiro, repleto de cinzas).

   

   

14 de outubro 2016

   

Mesmo tendo ficado sem contato com T., parece que nunca deixamos de nos falar, pensou P. P. guardou-a num canto específico de suas lembranças, para vir buscá-la depois, inteira, pele contra pele. T. era pequena, dessas mulheres compactas, com bunda e seios apetitosos, facilmente eriçáveis pelos carinhos na nuca, beijos no pescoço e uma mordidela no lobo da orelha. A pele macia de T., o tato da mão de P. pegando firme na bunda de T., trazendo-a para junto de si, imprensando o seu pinto bem apertado dentro da boceta dela. Grave, guarde na memória, até um possível gemido de T., o seu gozo e um secreto beijo de entrega total. Guarde, mas venha retirar depois. Sanduichar T. contra o colchão, na posição de frango assado. Preenchê-la, separar suas carnes urge. Beijá-la a boca, úmida de vida.

   

   

19 de outubro 2016

   

O caminho destas caminhadas é a paz.

O sol, a iluminação interior.

E agradecer ao universo.

Passo a passo, a cada passo do que.

   

   

22 de outubro 2016

   

   

As escrituras neste momento, ao pôr do sol, processam-se em múltiplas camadas: há aquilo que realmente precisaria ser dito; mas há também uma trama ficcional que corre à revelia. Agora o vento sopra, rente à areia, moldando e polindo a realidade. É essa a artimanha de fluir através do tempo. O dia vai sendo desconstruído em noite. Assim, desliga-se o sol da tomada. As estrelas vão se acendendo len-ta-men-te, uma aqui, outra acolá, para que não seja possível calcular o seu número. E quando a gente se dá conta, a noite devorou o dia. E o seu número, aquele das estrelas no céu, permanece envolto em mistério. Este é o momento sagrado em que o sol fecunda a noite.

   

   

19 de outubro 2016

   

O deserto trás consigo dos seus descaminhos. O bólido vermelho de fogo através das dunas, de motor a combustão de gasolina Volkswagen 1.6l. O motorista Expedito, aquele mesmo das “causas impossíveis”, natural de Jericoacoara. Foi próximo à pedra furada, retornando pela trilha, quando J. propôs: vamos contornando a falésia, caminhando pela praia! A. não acreditava, era praticamente inconcebível para A. que Expedito e o seu bólido vermelho conseguissem mudar de frequência, de nível, vindo do alto da falésia, resgatá-los em baixo, na praia. J. disse (e insistiu): Vamos por aqui, A., não tem por que tomar a subida de volta, Expedito nos pegará aqui embaixo, se formos contornando pela praia. Mas A. subiu. Seguiu o seu caminho.

   

   

18 de outubro 2016

   

É recente a minha fascinação pela ideia de confinamento. E este é tão somente um problema de escala, como o ajuste de uma frequência no rádio, que nos limita de todas as outras possíveis programações musicais, ao mesmo tempo em que imprime próprio ritmo. Milênios se passaram desde a constatação de Hermes Trismegistus, segundo a qual assim como aquilo que está acima é aquilo que está abaixo. A ideia das pedras celestes, que impõem o seu limite em direção àquilo que denominamos de macrocosmo, tendo como contrapartida as partículas subatômicas, de decaimento rápido, forjando um novo limite na direção do chamado microcosmo. Observa-se, porém, no crepúsculo do segundo milênio D.C., o chamado século XX, quando o esgotamento da reserva transcendente estava prestes a sucumbir ao racionalismo em seu estado bruto, estas duas ideias: (1) O princípio da incerteza de Heisenberg, segundo o qual, podemos determinar a posição de uma partícula em prejuízo a noção de sua velocidade. (2) A teoria da relatividade de Einstein, aplicável em grande escala, limitando a capacidade de observação dos eventos à velocidade da luz, ao mesmo tempo em que propõe noções interessantíssimas, como a curvatura do espaço-tempo. São, pois, estas duas ideias, aparentemente sufocantes, respectivamente, no âmbito dos eventos no microcosmo e no macrocosmo (à medida que nos impõem limites), as mesmas a impulsionarem a exploração das esferas transcendentes. Porque, ora, se o princípio de Heisenberg é limitante sob o aspecto observacional das partículas subatômicas, ele permite o vislumbre de uma nova percepção sobre partículas de grande energia e decaimento rápido, capazes de transmudar a matéria de um estado a outro, pela troca simultânea de energia. Noutro extremo, está a teoria da relatividade de Einstein, que ao impor um limite observacional dos eventos à velocidade da luz, fez muito mais ao descortinar um novo cenário do céu, onde as trocas em grande escala se dão pela extinção de estrelas em buracos negros, arrastando quantidades absurdas de energia e matéria através de um remoinho, simetricamente projetado para o fluxo dessa matéria e dessa energia em uma posição remota, pela gestação de uma supernova. Isso tudo, pelo simples problema de escala da percepção humana, pode nos parecer muito distante (extrínseco), quando, em verdade, é de natureza intrínseca aos processos do quotidiano, à vida. E, se pensa que estou mentindo, a forjar uma estória apenas, vale lembrar-se do ciclo de alimentação e eliminação dos dejetos, aos quais cada criatura está sujeita. Também e, sobretudo, ao ritmo da inspiração e da expiração do organismo humano. Ritmo, pulso, dança, movimento atrelam-nos à essência dos seres animados. Esta frequência, sintonia fina, é o que leva ao céu ou ao inferno de si para com o outro, do universo para consigo. Reside aí o cerne para a ligação (conexão) da criatura na natureza.

   

   

20 de outubro 2016

   

A décima sexta e a décima sétima pedras foram encontradas muito distantes ao longo da praia. J. ficou contente por ter ido ao encontro delas. Quando a onda do mar recuava, em vazante sobre a décima sexta pedra, a água espirrava para o alto em spray, refletindo a luz do sol. A pedra era rolada, branca, rosa e trazia alguns riscos e trincas marrons, isso incrementava ainda mais o efeito. É óbvio que aquelas inscrições na pedra traziam, nada mais, nada menos, que a localização da décima sétima pedra, em “tão tão distante”. J. foi buscá-la, um processo que era quase o inverso. Enquanto isso, A. era muito braço, muita perna, muito cigarro, muita cerveja e soluço. A. não compreendia que era fase de libertar-se, não de reter para si.

   

   

21 de outubro 2016

   

A areia, correndo com o vento, sobre a superfície das dunas, parece criar um tecido movediço de ar imiscuído com o pó de pedra, o então denominado estado híbrido sólido-gasoso. A forma desaparece lentamente através desse limiar do que foi pedra para dar o seu lugar aquilo que é oxigênio, nitrogênio, gás carbônico. O estado inalterado não passa de utopia da mente nas caminhadas do que.

   

   

16 de outubro 2016

   

Você é formada pelo Sol

cada poro seu uma Estrela

o seu corpo é Éter que hei de Sorver

(para a nossa Transcendência)

em fusão da minha Carne com a tua

não há Arrebatamento maior

quando duas Criaturas se dispõem

a Foder.

 

 

18 de outubro 2016

 

Viajando com A. pelos sertões, me apercebi que A. era A. e, ao mesmo tempo, já não era A. Eu, cá do meu lado, continuava sendo eu mesmo, J., o bom e velho J., se é que assim poderia ser dito. O sol fazia-me muito bem, o cérebro pensava bem, intuía, iluminado pelo sol. A. distanciava-se de A. e de J. à medida que submergia em seu mundo interior. Era como se A. consumisse a sua própria energia, um buraco negro mental que arrastava consigo toda a negatividade do mundo. As “coincidências” ruins aconteciam. Eu tentava ajudar A., mas A. estava mudando de espírito. Era como o processo de um buraco negro drenando-se para gerar uma supernova. Eu tentava apenas flutuar ao entorno, sem me deixar drenar. A., eu vou à Marte quando eu voltar.

   

   

12 de outubro 2016

   

Levo uma cartinha escrita a mão, com estes malditos alfarrábios, e dois vasos de plantas minúsculas, super delicadas, com as quais presentearei M. na festa antecipada do seu aniversário. Ela nasceu no dia 16, o mesmo dia de minha avó D. Não esquecer isso. Nem de cada pessoa por detrás de cada signo.

   

17 de outubro 2016

   

“Uma mão direita

deu a mão a esquerda

um olho esquerdo

olhou pro olho direito

uma perna direita

trançou outra perna esquerda

do útero nasceram flores

ela fez as pazes

com a parte dela

que era ela

a mãe, a irmã

o feminino sagrado.”

              

A. partiu sem deixar vestígios. Nunca saberemos ao certo se foi A. quem deixou J. ou se foi J. quem deixou A. Mais um desses mistérios em que cada um dos sujeitos carrega consigo parte da razão, mas a nenhum deles é facultada a visão ulterior da verdade. São como as linhas a serem preenchidas por signos, os cacos de azulejos que virão a compor um novo mosaico. O que parte de mim é o desejo de paz interior e prosperidade para A. e para J. – onde é que eles estejam!

   

   

12 de outubro 2016

   

Existiu um peixe elétrico. Um peixe elétrico individual dentre a espécie de todos os peixes elétricos como ele. Este peixe elétrico já morreu. Mas antes, ele habitou o mar. Vivenciou a sua existência naquele ambiente líquido e marinho. Conheceu algas amigas e a luz do sol. Assombrou-se com correntes de água salobra supergeladas. A sua vida pode afetar em nada as leis da natureza e a imensidão do universo. Mas ninguém pode tirar dele, deste singelo e finado peixe elétrico, o fato inquestionável dele haver existido… um dia.

   

   

16 de outubro 2016

              

N. sentia-se preenchida na piscina do hotel. A simples imaginação a deixava excitada, seus seios se eriçavam, a pele das costas, a parte anterior dos braços era puro arrepio, mas o melhor e o mais intenso vinha das contrações de sua xoxota. Trinta e um graus, o vento refrescante da beira mar, uma caipirinha de vodca com morango. A pele ardendo ao sol e depois um mergulho súbito, de corpo inteiro, na piscina. Muita liberdade e hormônios demais para aquele corpo em tenra idade. Era pura a ebulição.

   

   

20 de outubro 2016

   

A forma da folha de um coqueiro em planta, vista através de sua sombra na areia, com o sol a pino, lembra a coluna vertebral, com as suas respectivas ramificações nervosas periféricas, é uma analogia para a medicina (e deve ser também o caminho de mínima energia). No deserto, pouco é muito.

   

   

18 de outubro 2016

   

O deserto é de múltiplas camadas verdes, o sol queima a pele, o maior dos órgãos do ser humano. Isso seria comum de se ler escrito por aí, mas naturalmente incomum por estar sendo lido agora. Reflita sobre isso. O tempo estancado, extraído do contexto, trata disso apenas: a ideia da subjetividade, desdobramento; num análogo ao sol, queimadura; num análogo ao deserto, areia; num análogo às distâncias, anos-luz.

   

   

21 de outubro 2016

   

Pego B. com as mãos firmes em seus quadris. Trago de encontro, com violência, em direção ao meu pinto. Este, por sua vez, eu cravo ele todo e profundo dentro da xota molhada de B. Meu nome é J., mas J. não é nome. Meu nome é X., mas X. não é nome. Meu nome preenche a xota de B., que se contrai de um gozo demorado. Aumento a frequência das ondas de choque. Resta o farfalhar de corpos se batendo na penumbra, entremeado aos gemidos de B. Ah… ainda posso ouvi-los. Estado de ser delirante. Estado de que. A cabeça e a cabeleira de B. afundadas no travesseiro, comigo a imprensá-la com o meu quadril e o meu pinto. Todo ele a insuflá-la de tesão. Égua sendo fodida por trás, a posição predileta de B. Ontem você estava aqui, hoje já não está, B. Parece que foi ontem que botei reparo no seu corpo de felina, refestelada, ao vento e ao sol. Nem Bob Marley entenderia ou saberia descrever nos versos de seus reggaes. Nada posso fazer senão creditar ao universo, creditar ao criador o milagre da vida. Acreditar que mesmo o que termina começa de novo nas caminhadas do que.

   

    

Smartphone

setembro 30, 2016

                    

ainda que em forma rudimentar e recarregável,

o smartphone representa o anseio pela onipresença.

                        

                             

xerxes_versus_dick

         

Enquanto eu sofria um desmaio súbito – e sem nenhuma causa aparente – D. e P. estavam reunidos noutro canto da cidade, discutindo como reduzir os seus gastos com o meu salário, como forma de maximizar os dividendos para as suas respectivas empresas. Ser funcionário terceirizado tem dessas coisas. Dois chefes, duas empresas que precisam fechar o mês no azul. E Você, além de ter de trabalhar com o que quer que te mandem fazer, precisa também fechar o mês no azul, para sobreviver.

        

Foi no início do mês de agosto de 2016 que eu tive a infeliz ideia de iniciar a leitura da obra “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos” de Emmanuel Carrére, recém publicada pela Editora Aleph aqui no Brasil. Para quem não sabe do que se trata, “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos” é a controvertida biografia do escritor Philip K. Dick (PKD).

        

O estadunidense Philip K. Dick – falecido aos 53 anos no dia 02 de março de 1982 – escreveu “Ubik”, “O Homem do Castelo do Alto”, “VALIS”, “O Homem Duplo”, dentre muitas outras obras que deram novo significado ao gênero da ficção científica. Grandes sucessos do cinema como “Blade Runner”, “Minority Report”, “Total Recall”, “Screamers”, “Paycheck”, “Impostor”, “Next”, “A Scanner Darkly” e “The Adjustment Bureau” são adaptações dos livros de PKD.

         

Até aí tudo bem, e Você pode estar pensando: este tal Philip K. Dick era um sortudo. Acontece que não é bem assim: PKD teve uma vida muito difícil. Ele tinha grande dificuldade em se relacionar com as pessoas, era esquizofrênico, paranoico e hipocondríaco, tendo sido internado duas vezes por acessos de loucura. Apesar da genialidade manifesta em suas obras, morreu praticamente desconhecido, tendo sofrido restrições financeiras ao longo de sua vida – uma condição bastante distinta do glamour que seu nome exerce no meio literário, naquele do cinema ou da ficção científica dos nossos dias.

          

Por mais triste ou depressiva que seja a vida de Philip K. Dick, pode ainda assim ser uma ótima estória, especialmente por se tratar da história de um dos maiores escritores de ficção científica. Mas o momento não era bom. E o tempo estava a favor dele, e não a meu favor.

          

O câncer neuroendócrino (NET) é maligno. O tumor NET de grau 3 acontece em 20% das ocorrências, sendo as suas principais vítimas do sexo masculino. Patologias associadas são esporádicas. Se o câncer apresenta-se em um tumor único, variando de 2 a 5 centímetros, especialmente no pâncreas, o prognóstico é pobre. E a morte iminente.

             

Eu vinha fazendo muitos exames e consultas, em médicos de diferentes especialidades, para a investigação das causas de dois desmaios súbitos. Não poderia haver momento mais inoportuno para a minha convalescença: a crise econômica em alta e a empresa reduzindo pontualmente o seu quadro. Eu, por ser terceiro, estava literalmente com o cu na mão.

             

Como não havia o que fazer, eu lia “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos” de Emmanuel Carrére nas salas de espera dos consultórios. Foi quando aconteceu: eu recebi o diagnóstico de um câncer neuroendócrino na mesma semana em que P. e F. me convocaram para uma reunião. Eles aventavam a possibilidade da mudança de uma empresa para outra, falavam da crise econômica, formas de se reduzir a carga tributária e blá, blá, blá, blá. Eu, com o pensamento longe, só torcendo para que estivesse adormecido, para que tudo aquilo não passasse de um simples pesadelo. Mas que nada, esta era a minha realidade e eu tinha de encará-la de frente. Ponto para Philip K. Dick.

            

Tumores múltiplos de até 2 centímetros caracterizam o câncer neuroendócrino de grau 2. Esta variante é responsável por 10% das ocorrências do NET, sendo igualmente observada em homens e mulheres. Geralmente estão associadas a outras patologias, dentre as quais Zollinger Ellison e MEN-1. O prognóstico, na maior parte dos casos, é bom.

            

Então eu tomei a firme decisão de continuar trabalhando e não revelei o diagnóstico aos meus colegas de empresa – apesar das minhas escapadelas para as consultas médicas e os exames, que estavam me levando às raias da loucura. Confesso que a leitura de “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos”, naquele momento em específico, não contribuía em nada para serenar os meus ânimos. Muito pelo contrário. Ainda assim, levei ao extremo a convicção de não esmorecer.

             

O auge da minha ansiedade ocorreu na segunda semana de setembro, enquanto eu aguardava o resultado da tomografia computadorizada de abdome superior, feita com contraste, cujo laudo informaria se eu tinha focos de NET espalhados pelo corpo ou, se no meu caso, este estava restrito a um único órgão. E nessa semana eu me senti particularmente próximo de PKD.

              

Um ou múltiplos tumores de tamanhos inferiores a 1 centímetro caracterizam o câncer neuroendócrino de grau 1. Esta variante da doença responde por 70% dos casos, sendo a sua ocorrência predominante no sexo feminino. O tumor NET grau 1 está associado à gastrite crônica atrófica e à anemia perniciosa.

             

Para a minha sorte, era este o meu caso: um único e pequeno tumor NET de grau 1, identificado e retirado através de endoscopia. Ponto para mim. Agora, já próximo ao final do mês de setembro, com o início da primavera e o termino da leitura de “Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos”, experimento a sensação de renascimento, de esperança renovada.

             

Philip K. Dick, eu estou vivo e é Você quem está morto! (Você venceu esta batalha, Jorge Xerxes, mas eu ainda vou trazê-lo para junto de mim! Parece que posso ouvi-lo sussurrar ao meu ouvido).

            

Independente dessa nossa disputa, eu me curvo ante a genialidade de PKD e ao ótimo livro de Emmanuel Carrére, que me acompanharam nos últimos dois meses. Apresento, a seguir, alguns trechos colecionados dessa aventura, que podem não significar nada para muita gente, mas representam muito para mim.

            

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Ele brincou um momento com a ideia de trocar seu cérebro, durante o tempo de um livro, pelo cérebro de Nixon, depois abandonou a ideia: Phil Dick acordando um belo dia na pele do senador da Califórnia e este, na pele de um escriba de Berkeley, o que certamente daria uma bela história, fértil em repercussões. Mas não era nisso que ele pensava. Num manual de filosofia, ele tinha descoberto a distinção entre o idios kosmos, a visão singular do universo que cada um de nós leva dentro da cabeça, e o koino kosmos, que passa pelo universo objetivo. Enquanto falamos da “realidade”, nos referimos por comodidade ao koino kosmos, mas este não existe, propriamente falando: sua percepção resulta de um acordo convencional entre os homens, desconfiados de que suas relações se desenrolam sobre um terreno estável; é uma espécie de ficção diplomática, o menor denominador comum entre o meu idios kosmos e o de meus vizinhos.

               

Na verdade, sua ideia não era trocar o seu idios kosmos pelo de outra pessoa – correndo o risco de nem se dar conta disso, pois ele seria essa outra pessoa, e não mais si próprio –, mas visitar o idios kosmos de outra pessoa sem se desfazer do seu. De nele viajar como se fosse um país estrangeiro. Ele precisaria só de um artifício para possibilitar essa viagem, e o gênero com que ele trabalhava tinha pelo menos a vantagem de lhe permitir uma profusão dessas coisas. Na mesma noite, ele digitou essas linhas, um notável apanhado daquilo que, em ficção científica, é capaz de persuadir parte importante do público cultivado a se arriscar até a página seguinte:

               

“Em 2 de outubro de 1959, o defletor do feixe de prótons do Bevatron de Belmont sofreu uma avaria: um arco de 6 milhões de volts disparou rumo ao teto da sala, queimando tudo o que estava no caminho, em especial a plataforma de observação sobre a qual estavam oito pessoas. Elas caíram no chão e nele permaneceram, feridas ou mergulhadas no coma até que o campo magnético foi interrompido e as radiações mais rigorosas foram parcialmente reabsorvidas.”

             

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Como romances em que o herói é um escritor despertam legítima desconfiança dos editores, ele mudou de nome e de emprego em “O homem mais importante do mundo”. Há muitos anos, depois de ter obtido sucesso pela primeira vez, Ragle Gumm ganha a vida respondendo às perguntas de um concurso organizado pela gazeta local e intitulado “Onde estará o homenzinho verde amanhã?”

              

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Ele também tinha lido numa revista de vulgarização o registro de uma experiência psicológica: são traçados dois riscos num quadro negro, o primeiro deles, A, claramente mais longo que o segundo, B. Depois o quadro é mostrado a um grupo de cinco pessoas ao qual se pede para que digam qual é o mais longo, A ou B. Depois de todo mundo gargalhar diante de um teste ridiculamente fácil desses, cada um responde. Quatro membros do grupo, cúmplices do pesquisador, afirmam, contra as evidências, que B é mais longo do que A. O quinto membro, que na verdade é o sujeito da experiência, acaba, invariavelmente e à custa de um grande transtorno psíquico, por rejeitar o testemunho dos seus sentidos e se une a opinião geral. É esse tipo de experiência que os Estados totalitários levaram à grande escala. Eles desenvolveram a capacidade de mostrar uma cadeira para uma pessoa e fazê-las dizer que é uma mesa. Melhor: de fazê-las acreditar nisso. Desse ponto de vista, aquilo que ele, impulsionado pelo oráculo, tinha contado em seu livro, não era de todo absurdo. Tinha inclusive atingido uma verdade profunda.

               

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Como o oráculo havia previsto, “O homem do castelo do alto” foi o primeiro sucesso de sua carreira: ele ganhou o prêmio Hugo, a mais importante recompensa que um autor de ficção científica americano pode esperar.

            

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Depois que um oráculo de 5 mil anos de idade lhe havia assegurado a “verdade interior”, ele mergulhou de maneira metódica no labirinto do seu idios kosmos. Sua “idiotice” pessoal agora se organizava em torno da intuição de que não só é impossível apreender o real diretamente, posto que passa pelo filtro da subjetividade de cada um, mas que o consenso um pouco generalizado em relação a isso resulta de uma enganação. Aquilo que todos os seres razoáveis concordam em considerar realidade, para além de suas diferenças de percepção e julgamento, não passa de uma ilusão, um simulacro forjado ou por uma minoria para se aproveitar da maioria, ou por uma potência exterior para se aproveitar de todo mundo. O que chamamos de realidade não é a realidade.

                

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Então, um psiquiatra melífluo lhe apresenta uma tese em voga, segundo a qual o autismo e a esquizofrenia são, de modo geral, problemas da percepção do tempo: o que distingue a existência do esquizofrênico da nossa é que ele tem tudo, quer queira ou não – como se todo o rolo do filme a que assistimos desfilando imagem atrás de imagem tivesse lhe caído na cabeça. Para ele, a causalidade não existe, e sim, em seu lugar, esse princípio de conexão desprovido de causa que Wolfgang Pauli chamou de “sincronicidade” e pelo qual Jung, substituindo um enigma por outro, pretendia explicar as coincidências. Como uma pessoa sob o efeito do LSD ou como Deus, por mais que se conheça a maneira do seu idios kosmos, ele está mergulhado num presente eterno. A realidade lhe chega num bloco: uma espécie de acidente de carro perpétuo, que segue persistindo e persistirá para sempre. De certa maneira, é possível defender que um esquizofrênico tem acesso àquilo que chamamos de futuro.

                

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No romance, a crise se produz quando o blade runner, por motivos mais eróticos do que evangélicos ou turingianos, começa a sentir empatia por uma de suas presas, mais precisamente por uma dentre elas. Essa falha profissional é, ao mesmo tempo, facilitada e agravada por um novo dado: os fabricantes pregaram uma peça particularmente viciosa nos androides mais sofisticados, implantando em seus programas uma memória fictícia que faz com que eles acreditem que são humanos. Eles têm lembranças de infância, impressões de dejá-vù e emoções como os homens. Nada os distingue do lado de fora, tampouco do lado de dentro. Eles simplesmente não sabem. E quando se tornam suspeitos e são submetidos ao teste, ficam danados como qualquer um de nós ficaria. “Você vai me dizer a verdade, hein? Se eu for um androide, você vai me dizer?” É curioso encontrar na pluma de um escritor de ficção científica, além de um deplorável estilista, esse tipo de trechos memoráveis que causam não só arrepios, mas também a certeza de tocar em algo essencial, fundador. Entrever um abismo que faz parte de nós e que ninguém tinha sondado. Blade Runner comporta um desses instantes: o grito de horror do androide que descobre a sua condição. Um horror absoluto, sem remédio nem consolação, a partir do qual tudo se torna monstruosamente possível.

                

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Essa caixa de empatia, instrumento de um culto clandestino na sociedade policial onde se pratica também a caça de androides, tem a aparência de um pequeno televisor com punhos. Aquele que puxa os punhos e se inclina sobre a caixa logo assiste a uma cena cuja repetição consiste no núcleo do culto: um homem velho, do qual a única coisa que se sabe é que se chama Mercer, escala com dificuldade o declive de uma montanha e, ao longo dessa subida, é apedrejado. Mas um adepto do “mercerismo” não se contenta em apenas assistir, ele tem que participar. São os seus pés que se embaralham sobre o chão acidentado, a sua carne é atingida pelas pedras, a sua alma que está triste a ponto de morrer e, no entanto, também está inexplicavelmente feliz. Ele se funde em Mercer e também em todos aqueles que puxaram os punhos de sua caixa de empatia simultaneamente na Terra e nos planetas colonizados. Ele sente os outros ao redor de si, igualmente sofredores e exultantes. Ele os incorpora. A fusão com Mercer, percurso da cruz e da comunhão com os santos, é o exato oposto da tradução sob o controle de Palmer Eldritch: ela não isola, mas une; não traz perdas, mas salvação. E sempre se renova. Ao chegar no topo da montanha, Mercer cai e agoniza. Levado ao sepulcro, ele torna a se levantar. “Sempre, e nós junto com ele”, diz o herói maravilhado. “É isso que faz com que nós também sejamos eternos.” Tudo isso desagrada sobremaneira o poder temporário, que considera o culto ilegal, persegue seus adeptos e conduz uma vigorosa campanha ideológica contra sua fé. Colocando uma caixa contra a outra, logicamente o instrumento dessa campanha era a televisão, cujo apresentador queridinho, Buster Gente Fina, ridiculariza noite após noite, essa pulsão masoquista que leva os mercerianos a fugir da realidade para sofrer em conjunto. Se fosse para viver um momento agradável, vá lá, mas levar pedradas e partilhar das tristezas de milhares de desconhecidos ultrapassava o seu entendimento, ainda mais considerando que era tão simples ajustar mecanicamente o seu humor para ter uma alegria permanente ou até mesmo uma boa e velha depressão laica. Por volta do fim do romance, Buster Gente Fina chuta o pau da barraca ao revelar, com provas à mão, que o mercerismo é um embuste, o ópio do povo forjado pelo governo que, maquiavélico, organizou sua proibição somente para impulsionar ainda mais o consumo. A cena da montanha é gravada em estúdio e transmitida por um canal diferente do programa televisivo, mas tem a mesma natureza. O próprio Mercer, cujos sectários se perguntavam no começo se era de fato um homem ou uma entidade arquetípica qualquer introduzida na cultura terráquea por uma insondável vontade cósmica, não passa de um ator alcoólatra de quinta categoria, sobrevivente de séries de televisão moribundas e que, para fazer o papel de sua vida, molestado por pedras de borracha e sangrando ketchup, só sofreu mesmo, durante as filmagens, o desmame de uísque. Com esses pesados gracejos de Buster Gente Fina, toda a esperança religiosa do homem parece estar arruinada. Entretanto, não é bem assim. Numa cena realmente magnífica em que Dick transpõe o encontro de Emaús, Mercer aparece para um desses discípulos, um blade runner prostrado diante da caixa de empatia que agora preenche o chuvisco da televisão quando os programas se encerram, explicando-lhe tranquilamente que tudo o que o Buster Gente Fina dissera era verdade, tudo mesmo, incluindo o detalhe do uísque, que foi uma abstinência muito desagradável para o velho ator acoólatra, mas que isso não mudava nada. Absolutamente nada. “Porque você está aqui e eu estou aqui.”

                

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Nesse ponto da discussão, o bispo assumia um ar incomodado de quem hesita em desenganar uma criança que acredita em Papai Noel. Acompanhado de Maren, ele ia a Londres a cada dois ou três meses para encontrar John Allegro, um exegeta que representava a Grã-Bretanha na equipe internacional encarregada de estudar e publicar os Manuscritos do Mar Morto. Ele voltava de cada uma dessas viagens ao mesmo tempo destruído e hiper-excitado, portando verdades escandalosas. De acordo com as últimas novidades que ele comunicava com temor e deleite ao mesmo tempo, parecia mesmo que os Evangelhos eram um embuste, e, Jesus, o epígono da seita dos essênios em torno do qual um bando de judeus malandros havia construído uma fraude colossal. Diante dessas revelações – “científicas”, insistia o bispo, o dedo indicador erguido –, Dick se viu no papel de defensor dos dogmas, algo que não desagradava nem o seu espírito de contradição, nem seus votos mais profundos. Às investidas de seu amigo, ele respondia igual a Mercer: “Tudo bem, mas, mesmo que seja verdade, isso não muda nada. Você me leva a pensar naquele universitário segundo o qual Hamlet não foi escrito por Shakespeare, mas sim por um sujeito que tinha o mesmo nome. Se você acredita que Cristo era o filho de Deus, que Ele ressuscitou e matou a morte, sempre podemos lhe provar por a + b que Ele não passava de um personagem de segundo plano ou até mesmo que Ele nem existiu – isso não muda absolutamente nada. Você tem toda a razão em buscar a verdade, mas deveria saber que a verdade é Ele. Caso contrário, todas as suas resoluções significam apenas que você não acredita n’Ele, ou seja, que você é ignorante.” O bispo devia confessar que não tinha mais tanta certeza assim de acreditar na religião à qual servia. E que isso o deixava inquieto.

                

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Quando essa ideia lhe ocorreu, Dick ficou aterrorizado. Porque aquela substância miraculosa que ele tinha apresentado como um inencontrável produto de consumo corriqueiro, como um pertinente paradoxo, não representava a seus olhos apenas comprimidos capazes de restaurar o domínio do mundo, mas sim, e de maneira muito mais profunda, a potência redentora que nos prende às garras da entropia, à perversidade do demiurgo, à morte. Ele se divertia – cada um diverte seus cupins como pode – colocando na epígrafe de cada capítulo do livro um slogan publicitário vangloriando uma das diversas virtudes do produto, à moda de Runciter: “A melhor forma de pedir uma cerveja é gritar Ubik.” “Ubik instantâneo possui todo o sabor fresco do café recém-coado.” “Desperte para Ubik e seja extraordinário.” “Se você está se sentindo no fundo do posso por causa das preocupações com dinheiro, fale com a moça da Ubik Poupanças & Empréstimos.” “O novo sutiã Ubik extra suave e o sutiã especial Ubik longline significam ‘erga os braços e fique mais curvilínea na mesma hora!’” “Será que tenho mau hálito, Tom? Ed, se está preocupado com isso, experimente o novo e atual Ubik, com ação espumante germicida.” Mas, ao chegar ao final, em vez de fazer um pastiche da Madison Avenue, ele recorreu ao prólogo de São João (e a um pouco do primeiro poema do Tao Te King): “Eu sou Ubik. Antes que o universo fosse, eu sou. Eu fiz os sóis, eu fiz os mundos. Eu criei a vida e os lugares que elas habitam. Eu as transfiro para cá, eu as ponho ali. Elas seguem minhas ordens, fazem o que mando. Eu sou o verbo e o meu nome nunca é dito, o nome que ninguém conhece. Eu sou chamado de Ubik, mas este não é o meu nome. Eu sou. Eu sempre serei.”

                

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Em pânico ele escreveu o final do livro. Nada além de uma corrida tresloucada, batizada por mortes e metamorfoses atrozes, ao longo da qual Joe Chip tenta, ao mesmo tempo, colocar as mãos num frasco de Ubik ainda isento de regressão e identificar as forças que disputavam aquele limbo. “Acho”, disse a si mesmo, “que não encontramos nosso inimigo cara a cara, nem nosso amigo.” Dick se perguntava que rosto daria a esse Amigo, do qual Runciter era apenas um representante: jovens e caridosas mulheres percorrem a meia-vida, trazendo consigo um pouco de Ubik e uma frágil esperança, antes de desaparecer num sopro. Elas deixam poucas lembranças. Por outro lado, ele sabia muito bem que, tivesse o Inimigo o rosto que fosse, ele tinha cruzado várias vezes em sonho com seu olhar angustiante e cruel de um roedor psicótico. Em Ubik, ele lhe deu o nome de Jory. Trata-se de uma criança morta na tenra idade que foi colocada em situação de meia-vida no Moratório Entes Queridos. Dotado, por causa de sua juventude, de uma energia encefálica maior do que os ocupantes dos outros caixões, ele se vale da fusão entre os seus fluxos mentais para devorá-los literalmente, como um emissor de rádio mais potente faz com seus vizinhos de freqüência. A seu bel-prazer, ele molda o universo onde essas consciências se movem para torturá-las, enganá-las e atraí-las a um canto da imensa teia tecida para recebê-los. Morto, ele sobrevive e aumenta a potência da morte ao absorver o que resta de vida dos outros mortos. E essa criança era um gêmeo.

                

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Nancy não agüentava mais suas crises, as drogas, o medo de ficar louco. Ela própria estava sentindo próxima a reaproximação de sua depressão. Em setembro, partiu, levando com ela a filha Isa. Então com três anos de idade, a pequena viu, pelo vidro do banco de trás, seu pai correndo atrás do carro e sua silhueta se apequenando, depois viraram a esquina e ela não mais o viu.

                

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Ao fim de duas semanas, acharam que ele tinha esfregado privadas o bastante e, como tinham por princípio de usar as capacidades de cada um da melhor forma possível, ele foi parar detrás de uma máquina de escrever. Num currículo, aquilo que ele fazia pelo nome de relações públicas: compilava relatórios sobre as atividades de X-Kalay, classificava recortes de matérias sobre problemas com drogas e escrevia cartas solicitando a generosidade de eventuais doadores. Em seus momentos livres, desenvolvia uma teoria sobre o funcionamento do centro que, segundo ele, abrigava um laboratório onde se fabricava heroína. A mesma mão distribuía o veneno e o contraveneno, a fim de criar um novo tipo de indivíduo: o cidadão dócil e alienado da sociedade do futuro, transformado em escravo pela organização, que lhe ensinava a amar e odiar o único mestre capaz de protegê-lo. E Dick tinha se tornado uma das engrenagens dessa organização, ocupando um maravilhoso posto de observação. Vestido com uma blusa branca, ele vistoriava os corredores com um ar desenvolto e abria todas as portas na esperança de encontrar um acesso ao tal laboratório clandestino. Suas desconfianças não o impediam de, a cada vez que cruzava com um membro da equipe, exprimir sua gratidão de maneira calorosa e sincera: pela primeira vez na vida ele se sentia útil; tinha encontrado uma família; se o quisessem ali, ele ficaria em X-Kalay a vida toda, dando o melhor de si para os pobres drogados, seus semelhantes, seus irmãos.

                

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Até onde conseguia remontar, ele sempre afastara com todo o seu ser a ideia de que aquilo que lhe acontecia poderia ser fruto do acaso, uma dança de elétrons desprovida de coreógrafo, meras combinações aleatórias. Para ele, tudo precisava ter um sentido, e toda sua vida tinha sido vivida e escrutinada em função desse postulado. Ora, a partir da ideia que tudo tem um significado escondido, esbarra-se fatalmente na concepção de uma intenção. Quando a vida é encarada como um desenho, logo se chega a vê-la também como uma execução de um plano, questionando quem seria o responsável por seu traçado. Essa intuição que nos acomete a todos de maneira mais ou menos vergonhosa atinge sua medida plena em dois sistemas de pensamento: o primeiro era a fé religiosa e o segundo, a paranóia; e, por ter experimentado as duas coisas, ele duvidava cada vez mais que houvesse uma diferença entre elas. Calejado, ele não queria acreditar mais que o real era o disfarce de uma outra coisa, uma tapeçaria que, ao tecer, vemos somente a parte de trás, mas cuja parte da frente nos será um dia revelada, na glória. Ele tinha percorrido longamente a ladainha de São Paulo e do Ursinho Pooh: “Agora estamos nos vendo num espelho sombrio, mas um dia chegaremos a ver e seremos vistos face a face… Estaremos noutro ponto da floresta, onde sempre haverá uma criança com seu urso.” Tinha chegado a hora de fazer as pazes com a áspera sabedoria de Lucrécio: “Não sentiremos mais nada porque não sentiremos mais”; não existirá mais ninguém para ser visto frente a frente à luz plena, e aquilo que agora se acredita estar vendo num espelho sombrio não passa de nosso reflexo deformado pelo medo de morrer e de ter sofrido sem razão. Por mais que, nas sociedades agnósticas modernas, esse materialismo faça as vezes de expressão oficial do bom senso, ele sabia que poucos eram os homens que, no fundo do coração, se resignavam verdadeiramente a isso de tanto que seus desejos tinham sido feridos. Apesar de tudo, queremos acreditar em algo, encontrar um sentido. A contragosto, ele tinha aprendido até onde isso pode levar: seu dever agora era alertar seus semelhantes. Quando vinham entrevistá-lo, ele exibia essa nova teoria sobre o real, sobre a qual todas as teorias sobre o real são vãs, falsas e puramente sintomáticas. O real é simples, só isso, compacto e idiota como uma pedra. Não existe um fundo falso. Nós sentimos a necessidade de observar e deduzir regras a partir disso para conseguir funcionar na nossa vidinha de todo dia, mas é preciso parar por aí e admitir que a maioria dos acontecimentos se dão por acaso. Com a mesma veemência que antigos stalinistas ou padres excomungados se punham a desancar suas antigas igrejas, ele citava milhares de exemplos de condutas que trazem consigo a mania de procurar um sentido onde não há.

                

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Convivendo com a familiaridade lúcida de seu mal, como acontece a alguns grandes doentes, ele fazia uma distinção bastante clara entre: 1) escrever sobre como organizações iguais à X-Kalay na verdade escondem laboratórios clandestinos para produção de drogas ou como Nixon era comunista; 2) acreditar nisso; 3) acreditar que isso era verdade. Ele considerava possível escrever a respeito, na medida em que era autor de ficção científica e que esse ofício consistia justamente em imaginar essas hipóteses, mas achava condenável acreditar nelas. Ele tinha entendido que, acima de tudo, podia acreditar em alguma coisa sem que ela fosse de fato verdade, por que ele não só era escritor de ficção científica, como também um paranóico confirmado e, portanto, tendia a confundir o mundo real com o mundo de seus livros. Ele sentia orgulho dessa lucidez e estava decidido a apoiar-se nela, mas isso não impedia que ele achasse a vida morna sem esse artifício, como costuma acontecer aos sobreviventes de um vício. O último capítulo de Dom Quixote mostra o cavaleiro de triste figura curado de sua loucura e morrendo por causa disso. Durante sua agonia, ele profere discursos tão emocionantes quanto sensatos, celebrando o bom senso de Sancho Pança e maldizendo os romances de cavalaria. É um dos capítulos mais tristes da história da literatura.

                

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“Eu sei que você não é mau caráter”, ele reconhecia; “sei que você dá aos pobres, que envia cheques para associações de caridade, que o sofrimento das crianças e dos gatos pode levá-lo às lágrimas. Mas isso não muda em nada o fato de que você continua sendo incapaz de demonstrar empatia. Por mais que você queira e reze, não tem um acesso maior ao outro do que tem ao mundo real e sensorial, à verdadeira vida, da qual um vidro impermeável continua te separando. É isso, o pecado moral, e não é sequer culpa sua. Você é mais vítima do que culpado. O pecado não é uma escolha moral, mas sim uma doença do espírito que o condena a se restringir ao seu próprio comércio, ou seja, a eterna repetição. Você foi atingido por essa doença, constrangido a residir confinado no labirinto do seu cérebro. Você nunca ouve, ouviu ou sequer ouvirá outra coisa senão as fitas magnéticas nas quais sua voz se imprime e se esvazia, em circuito fechado. Não crie ilusão para si mesmo: é ela que você está ouvindo neste exato momento. É ela quem te diz isso. Às vezes você se deixa enrolar, pois para suportar essa voz você teve aprender a forjar outras, fazê-las ecoar, realizando verdadeiros colóquios enquanto ventríloquo. Mas, na realidade, você está sozinho, assim como Palmer Eldritch no mundo que ele esvaziou de substância e cujos habitantes carregavam os seus estigmas.

                

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Não tenho como garantir que você esteja errado ao não acreditar em mim, mas posso garantir que você também não teria acreditado em São Paulo. Você teria dado de ombros, falado em epilepsia ou num acesso de um doidivanas, assim como um bando de judeus devotos e gregos cultivados. OK, não tenho nada a dizer contra isso. Também não tenho nada a dizer contra os ecologistas ferrenhos que, por mais que eu ache uma extravagância conceder às árvores e aos animais os mesmos direitos jurídicos que têm os homens, alegam que um tempo atrás não achávamos menos extravagante a possibilidade de conceder este mesmo direito às mulheres e aos negros. Não tenho nada a dizer contra as pessoas que, depois de admitir que aos olhos de nossos ancestrais as tecnologias modernas pareceriam magia, obrigam-me a admitir que as coisas que agora nos parecem ser inexplicáveis e perturbadoras, como você colocou muito bem, e as quais eu escondo embaixo do tapete com uma vassoura, um dia virão a integrar o campo da ciência: aqueles que hoje negam a percepção extra-sensorial teriam condenado Galileu no passado. Pessoalmente, eu desconfio disso.

               

               

             

Eu desço nesta estação

setembro 23, 2016

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dizem dos tempos de agora
remotos, imprevisíveis dias
o que antes era rotina:
estação
das trilhas entre possíveis caminhos
quando prima Vera chegar
trazendo alento, vida
amor no coração

Maluco

setembro 7, 2016

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poesia

 

Saúde

setembro 4, 2016

[4/9 10:18] Jorge: Como beber cerveja se eu não tenho geladeira em casa?

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[4/9 10:18] Jorge: Esta receita é dedicada a todos vocês que estão sedentos por uma boa cerveja gelada.

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[4/9 10:40] Jorge: O primeiro passo consiste em ir até o supermercado mais próximo para comprar gelo. 5kg de gelo em cubos é mais do que o suficiente.

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[4/9 10:56] Jorge: Muitas pessoas, que se consideram bom bebedores, iriam direto para casa. Mas esta é uma opção sabidamente equivocada. O correto é: você se exercitou nos últimos três dias? Sim, então retorne direto para casa.

[4/9 10:58] Jorge: Mas se sua resposta for: não, eu não me exercitei. Então, porque não, tapear o gelo e deixar ele suar por Você enquanto toma um bom café da manhã?

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[4/9 11:36] Jorge: Dá tempo até de você passar na casa daquele seu amigo vesgo e pegar a blusa verde que esqueceu no último churrasco. Só toma cuidado para não postar isso se ele estiver no mesmo grupo do whats.

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[4/9 12:04] Jorge: Etapa da máxima importância consiste em preparar um berço suave de gelo onde os bebês irão descansar.

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[4/9 12:16] Jorge: Sobre o sal: após cobrir as ampolas com o gelo para o seu merecido resfriamento, uma pergunta freqüente é quanto ao uso do sal. Diz-se que o sal reduz a temperatura de fusão do gelo, colaborando para o resfriamento mais rápido da cerveja.

[4/9 12:17] Jorge: Isto é verdadeiro, mas este não é o uso adequado do sal. Lembre-se, Você não tem pressa e o médico recomendou cortar o sal. Se não pretende preparar um churrasco, melhor guardá-lo para um banho de descarrego!

[4/9 13:10] Jorge: Bebedores com décadas de experiência nos botecos desta vida dirão que você falhou por não ter adquirido tira-gostos, dentre os mais recomendados: uns 100g de tremoços, salsichas em conserva ou até um ovo cozido e empanado. Estão redondamente enganados estes Senhores, pois qual é senão o melhor acompanhamento para uma cerveja do que outra cerveja?

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[4/9 13:20] Jorge: Para, enfim, degustar a cerveja, sempre é bom convidar um bom entendedor de cervejas, por questões relacionadas à socialização e também para tecer opiniões e uma intrincada discussão quanto ao paladar de tão precioso e nutritivo líquido. Neste quesito, seja esperto: escolha alguém que beba pouco.

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[4/9 13:29] Jorge: Mas se Você é do tipo que odeia perder tempo com bobagem e acha um pé no saco essa trupe de fanfarrões travestida em degustadores gourmets, seja ainda mais esperto neste quesito. Afinal, ao menos nos momentos agradáveis, a sua opinião deve prevalecer.

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[4/9 13:38] Jorge: Enfim: Saúde!!

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quebra-cabeças

agosto 21, 2016

Yin:

enigma_jorge_xerxes

Yang:

yang_jorge_xerxes1 yang_jorge_xerxes2 yang_jorge_xerxes3

jorge_xerxes_fatia_cerebro

3nqunto você lava a roupa,

0utro cara trabalha num escritório,

3la cuida da filha pequena,

c4sais fazem amor num quarto

n4lgum canto mundo afora.

qu4l o sentido da existência de cada uma dessas vidas?

5erá obra do acaso?

qu3m já se debruçou um bocado sobre a física sabe que,

qu3m quer que tenha arbitrado as leis

d4 cosmologia e das ligações nucleares,

5abia muito bem o que estava criando.

c0m uma precisão milimétrica,

4s chances da existência do universo

d4 forma como o percebemos

5ao as mesmas de se ganhar sozinho num concurso acumulado da loteria,

0u como aquela de um raio cair sobre a sua cabeça.

3 como se um raio realmente tivesse caído

5obre a cabeça de cada um de nós.

1sso só pode acontecer com a unidade superior dando voz de comando.

Um4 hiper-consciência sustentando o palco desse teatro universo.

3ssa ideia que é o tecido de amarração de todas as criaturas

n4o é senão a soma da realidade de todas elas.

num pr0cesso dinâmico caracterizado por aquilo que se é.

c4da um de nós

um4 simples fatia desse cérebro.