Este texto apresenta uma viagem ao espírito do rock brasileiro na década de oitenta. Sem a pretensão de ser um estudo abrangente sobre o assunto (veja dica de leitura ao final), explora quatro álbuns representativos e algumas músicas selecionadas destes discos (como eram chamados os vinis naqueles dias). Dezessete canções, para ser mais exato. O interesse aqui está mais nas letras dessas faixas, que dizem muito de quem viveu a adolescência nessa época em específico.

            

Eu ainda tenho estes álbuns, que comprei na época do lançamento de cada um deles, além de muitos outros – na verdade, uma coleção de pouco mais de trezentos discos de rock. Lembro com saudade daqueles tempos, em que economizava as minhas parcas economias para conseguir adquirir um disco a cada quinze dias, aproximadamente. Das muitas fitas cassete que gravávamos e trocávamos entre os amigos.

            

E tive a oportunidade de assistir a estes quatro shows, na época em que os respectivos álbuns foram lançados, com os hormônios correndo em altas concentrações pelo sangue, o coração na boca e aquele ímpeto juvenil. Todos eles no ginásio poliesportivo da Associação Atlética Caldense, em Poços de Caldas, MG; onde aconteciam os grandes shows de rock mais próximos da cidade em que nasci e vivi até o final da década de 80 – São João da Boa Vista, SP.

            

Acredito que esta seleção caberia bem numa fita cassete de 90 minutos (na verdade, ainda sobrariam alguns minutos, que poderiam ser preenchidos com Titãs ou Plebe Rude, por exemplo). Creio que este é um registro interessante para quem nasceu mais ou menos na mesma época que eu (não vou dizer o ano em que nasci, mas darei pistas).

           

Sem mais delongas, vamos aos álbuns e às canções, é o que interessa…

           

           

“Vivendo e não aprendendo”, álbum original da banda Ira! lançado no ano 1986. Este disco do Ira! se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e violão), Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria). Edgard Scandurra é o principal compositor. Lado “A”: (1) Envelheço na Cidade; (2) Casa de Papel; (3) Dias de Luta; (4) Tanto Quanto Eu; (5) Vitrine Viva. Lado “B”: (1) Flores em Você; (2) Vivendo e Não Aprendendo; (3) Nas Ruas; (4) Gritos na Multidão; (5) Pobre Paulista.

            

Casa de papel: “Na dura frieza do dia a dia / Que você aprendeu, pobre Daniel / Que as respostas não caem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Será que o prazer de tocar sua guitarra / E a gratidão de chutar uma bola / Vão lhe render juros ou não? // Foram bons os tempos das descobertas da juventude / Mas hoje você gosta de pernas bem mais grossas / O padrão tão baixo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel! // E quando você está inseguro / Fazendo sempre as mesmas perguntas / Esperando respostas caírem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Você não vai ouvir nada do céu / Será que não notou que nós vivemos num inferno? / E o padrão caindo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel!”

             

Dias de luta: “Só depois de muito tempo / Fui entender aquele homem / Eu queria ouvir muito / Mas ele me disse pouco… // Quando se sabe ouvir / Não precisam muitas palavras / Muito tempo eu levei / Pra entender que nada sei / Que nada sei!… // Só depois de muito tempo / Comecei a entender / Como será meu futuro / Como será o seu… // Se meu filho nem nasceu / Eu ainda sou o filho / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois? / Cantar depois!… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?… // Só depois de muito tempo / Comecei a refletir / Nos meus dias de paz / Nos meus dias de luta… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?…”

               

Flores em você: “De todo o meu passado / Boas e más recordações / Quero viver meu presente / E lembrar tudo depois… // Nessa vida passageira / Eu sou eu, você é você / Isso é o que mais me agrada / Isso é o que me faz dizer… // Que vejo flores em você!…”

                 

Vivendo e não aprendendo: “Quando me sinto assim / Volto a ter quinze anos / Começando tudo de novo / Vou me apanhar sorrindo // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando // Vivendo e não aprendendo / Eis o homem, este sou eu / Que se diz seguro / Que se diz maduro // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando”

                  

                  

“Dois”, álbum original da banda Legião Urbana lançado em 1986 (quando eu tinha 15 anos). Este disco da Legião se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Renato Russo (voz, teclados e violão), Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria). Renato Russo é o principal compositor. Lado “A”: (1) Daniel na Cova dos Leões; (2) Quase Sem Querer; (3) Acrilic on Canvas; (4) Eduardo e Mônica; (5) Central do Brasil; (6) Tempo Perdido. Lado “B”: (1) Metrópole; (2) Plantas Embaixo do Aquário; (3) Música Urbana 2; (4) Fábrica; (5) Andrea Doria; (6) Índios.

 

Acrilic on canvas: “É saudade, então / E mais uma vez / De você fiz o desenho / Mais perfeito que se fez / Os traços copiei / Do que não aconteceu / As cores que escolhi / Entre as tintas que inventei / Misturei com a promessa / Que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três / Trabalhei você / Em luz e sombra // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que nunca quis deixar você tão triste / Sempre as mesmas desculpas / E desculpas nem sempre são sinceras / Quase nunca são // Preparei a minha tela / Com pedaços de lençóis / Que não chegamos a sujar / A armação fiz com madeira / Da janela do seu quarto / Do portão da sua casa / Fiz paleta e cavalete / E com as lágrimas que não brincaram com você / Destilei óleo de linhaça / Da sua cama arranquei pedaços / Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes // E fiz, então / Pincéis com seus cabelos / Fiz carvão do batom que roubei de você / E com ele marquei / Dois pontos de fuga / E rabisquei meu horizonte // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você / Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez / E era sempre, sempre o mesmo novamente / A mesma traição // Às vezes é difícil esquecer / Sinto muito, ela não mora mais aqui // Mas então, por que eu finjo / Que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim / Não foi desse jeito / Ninguém sofreu / É só você / Que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome / De amor-perfeito / E não-te-esqueças-de-mim”

           

Tempo perdido: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo // Todos os dias antes de dormir / Lembro e esqueço como foi o dia / Sempre em frente / Não temos tempo a perder // Nosso suor sagrado / É bem mais belo que esse sangue amargo / E tão sério // E selvagem / Selvagem / Selvagem // Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos teus olhos / Castanhos // Então me abraça forte / E diz mais uma vez que já estamos / Distantes de tudo // Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo // Não tenho medo do escuro / Mas deixe as luzes / Acesas agora // O que foi escondido / É o que se escondeu / E o que foi prometido / Ninguém prometeu / Nem foi tempo perdido // Somos tão jovens / Tão jovens / Tão jovens”

            

Fábrica: “Nosso dia vai chegar / Teremos nossa vez / Não é pedir demais / Quero justiça // Quero trabalhar em paz / Não é muito o que lhe peço / Eu quero um trabalho honesto / Em vez de escravidão // Deve haver algum lugar / Onde o mais forte / Não consegue escravizar / Quem não tem chance // De onde vem a indiferença / Temperada a ferro e fogo? / Quem guarda os portões / Da fábrica? // O céu já foi azul / Mas agora é cinza / O que era verde aqui / Já não existe mais // Quem me dera acreditar / Que não acontece nada / De tanto brincar com fogo / Que venha o fogo então // Esse ar deixou minha vista cansada / Nada demais”

              

Andrea Doria: “Às vezes parecia que de tanto acreditar / Em tudo que achávamos tão certo / Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais / Faríamos floresta do deserto // E diamantes de pedaços de vidro / Mas percebo agora que o teu sorriso / Vem diferente / Quase parecendo te ferir // Não queria te ver assim / Quero a tua força como era antes / O que tens é só teu / E de nada vale fugir / E não sentir mais nada // Às vezes parecia que era só improvisar / E o mundo então seria um livro aberto / Até chegar o dia em que tentamos ter demais / Vendendo fácil o que não tinha preço // Eu sei, é tudo sem sentido / Quero ter alguém com quem conversar / Alguém que depois / Não use o que eu disse contra mim // Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei / Com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei / Tenho o que ficou / E tenho sorte até demais / Como sei que tens também”

                

Índios: “Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que eu não tinha // Quem me dera ao menos uma vez / Esquecer que acreditei que era por brincadeira / Que se cortava sempre um pano de chão / De linho nobre e pura seda // Quem me dera ao menos uma vez / Explicar o que ninguém consegue entender / Que o que aconteceu ainda está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente // Quem me dera ao menos uma vez / Provar que quem tem mais do que precisa ter / Quase sempre se convence que não tem o bastante / Fala demais por não ter nada a dizer // Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto como o mais importante / Mas nos deram espelhos / E vimos um mundo doente // Quem me dera ao menos uma vez / Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três / E esse mesmo Deus foi morto por vocês / Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Quem me dera ao menos uma vez / Acreditar por um instante em tudo que existe / E acreditar que o mundo é perfeito / E que todas as pessoas são felizes // Quem me dera ao menos uma vez / Fazer com que o mundo saiba que seu nome / Está em tudo e mesmo assim / Ninguém lhe diz ao menos obrigado // Quem me dera ao menos uma vez / Como a mais bela tribo / Dos mais belos índios / Não ser atacado por ser inocente // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Nos deram espelhos e vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui”

            

            

“O passo do Lui”, álbum original da banda Os Paralamas do Sucesso do ano de 1984 (quando eu tinha 13 anos). Este disco dos Paralamas se enquadra nos gêneros new wave e ska. Os integrantes da banda são: Herbert Vianna (vocal e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria e percussão). Herbert Vianna é o principal compositor. A música “Assaltaram a Gramática” é de Lulu Santos e Waly Salomão. Lado “A”: (1) Óculos; (2) Meu Erro; (3) Fui Eu; (4) Romance Ideal; (5) Ska. Lado “B”: (1) Mensagem de Amor; (2) Me Liga; (3) Assaltaram a Gramática; (4) Menino e Menina; (5) O Passo do Lui.

             

Meu erro: “Eu quis dizer / Você não quis escutar / Agora não peça / Não me faça promessas // Eu não quero te ver / Nem quero acreditar / Que vai ser diferente / Que tudo mudou // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone // Mesmo querendo / Eu não vou me enganar / Eu conheço os seus passos / Eu vejo os seus erros / Não há nada de novo / Ainda somos iguais / Então não me chame / Não olhe pra trás // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone jamais”

                   

Romance ideal: “Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros que eu nem sei se eu cometi / Ela é só uma menina / E eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal // Eu não pedi que ela ficasse / Ela sabe que na volta / Ainda vou estar aqui // Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros / Que eu nem sei se cometi // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal”

                   

Mensagem de amor: “Os livros na estante / Já não tem mais / Tanta importância / Do muito que eu li / Do pouco que eu sei / Nada me resta // A não ser / A vontade de te encontrar // E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor // A noite eu me deito / Então escuto / A mensagem no ar / Tambores rufando / Eu já não tenho / Nada pra te dar // A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ver / No teu rosto / Uma mensagem de amor // No céu estrelado / Eu me perco / Com os pés na terra / Vagando entre os astros / Nada me move / Nem me faz parar / A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu ja nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor”

               

Me liga: “Eu sei, jogos de amor são pra se jogar / Ah, por favor, não vem me explicar / O que eu já sei, e o que eu não sei / O nosso jogo não tem regras nem juiz / Você não sabe quantos planos eu já fiz / Tudo que eu tinha pra perder eu já perdi / O seu exército invadindo o meu país / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Mas sei, que não se pode terminar assim / O jogo segue e nunca chega ao fim / E recomeça a cada instante a cada instante / Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto, seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se quiser lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga”

              

              

“A Revolta dos Dândis” álbum original da banda Engenheiros do Hawaii lançado no ano de 1987 (quando eu tinha 16 anos). Este disco dos Engenheiros se enquadra nos gêneros pós punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria). Humberto Gessinger é o principal compositor. Lado “A”: (1) A Revolta De Dândis I; (2) Terra De Gigantes; (3) Infinita Highway; (4) Refrão De Bolero; (5) Filmes De Guerra, Canções De Amor. Lado “B”: (1) A Revolta De Dândis II; (2) Além Dos Out-Doors; (3) Vozes; (4) Quem Tem Pressa Não Se Interessa; (5) Desde Aquele Dia; (6) Guardas Da Fronteira.

                

A revolta dos dândis I: “Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato / Entre a loucura e a lucidez / Entre o uniforme e a nudez / Entre o fim do mundo e o fim do mês / Entre a verdade e o rock inglês / Entre os outros e vocês // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre mortos e feridos, entre gritos e gemidos / (A mentira e a verdade, a solidão e a cidade) / Entre um copo e outro da mesma bebida / Entre tantos corpos com a mesma ferida // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre americanos e soviéticos, gregos e troianos / Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos / Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos / Mas eu nunca sei pra onde vamos”

              

Terra de gigantes: “Hey, mãe! / Eu tenho uma guitarra elétrica / Durante muito tempo isso foi tudo / Que eu queria ter // Mas, hey mãe! / Alguma coisa ficou pra trás / Antigamente eu sabia exatamente o que fazer // Hey, mãe! / Tem uns amigos tocando comigo / Eles são legais, além do mais / Não querem nem saber / Mas agora, lá fora / Todo mundo é uma ilha / A milhas e milhas e milhas / De qualquer lugar // Nessa terra de gigantes / Eu sei, já ouvimos tudo isso antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // As revistas, as revoltas, as conquistas / Da juventude são heranças / São motivos pras mudanças de atitude / Os discos, as danças, os riscos / Da juventude / A cara limpa, a roupa suja / Esperando que o tempo mude // Nessa terra de gigantes / Tudo isso já foi dito antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // Hey, mãe! / Já não esquento a cabeça / Durante muito tempo / Isso foi só o que eu podia fazer // Mas, hey, hey, mãe! / Por mais que a gente cresça / Há sempre coisas que a gente / Não pode entender // Por isso, mãe / Só me acorda quando o sol tiver se posto / Eu não quero ver meu rosto / Antes de anoitecer”

              

Infinita highway: “Você me faz correr demais / Os riscos desta highway / Você me faz correr atrás / Do horizonte desta highway / Ninguém por perto, silêncio no deserto / Deserta highway / Estamos sós e nenhum de nós / Sabe exatamente onde vai parar // Mas não precisamos saber pra onde vamos / Nós só precisamos ir / Não queremos ter o que não temos / Nós só queremos viver / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e isto é tudo / É sobretudo a lei / Da infinita highway // Quando eu vivia e morria na cidade / Eu não tinha nada, nada a temer / Mas eu tinha medo, medo desta estrada / Olhe só! Veja você / Quando eu vivia e morria na cidade / Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor / Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava / E, à noite, eu acordava banhado em suor // Não queremos lembrar o que esquecemos / Nós só queremos viver / Não queremos aprender o que sabemos / Não queremos nem saber / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e é só / Só obedecemos a lei / Da infinita highway // Escute garota, o vento canta uma canção / Dessas que a gente nunca canta sem razão / Me diga, garota: Será a estrada uma prisão? / Eu acho que sim, você finge que não / Mas nem por isso ficaremos parados / Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão / Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre / Se tanta gente vive sem ter como viver // Estamos sós e nenhum de nós / Sabe onde quer chegar / Estamos vivos sem motivos / Que motivos temos pra estar? / Atrás de palavras escondidas / Nas entrelinhas do horizonte / Dessa highway / Silenciosa highway // Eu vejo um horizonte trêmulo / Eu tenho os olhos úmidos / Eu posso estar completamente enganado, posso estar correndo pro lado errado / Mas A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza / Eu vejo as placas dizendo / Não corra, Não morra, Não fume / Eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes // Minha vida é tão confusa quanto a América Central / Por isso não me acuse de ser irracional / Escute garota, façamos um trato / Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato / Eu posso ser um Beatle, um beatnik / Ou um bitolado / Mas eu não sou ator, eu não tô à toa do teu lado / Por isso, garota, façamos um pacto / De não usar a highway pra causar impacto // Cento e dez / Cento e vinte / Cento e sessenta / Só pra ver até quando / O motor aguenta / Na boca, em vez de um beijo / Um chiclet de menta / E a sombra do sorriso que eu deixei / Numa das curvas da highway / Infinita highway”

                  

Desde aquele dia: “Desd’aquele dia / Nada me sacia / Minha vida tá vazia / Desd’aquele dia / Parece que foi ontem / Parece que chovia / Um rosto apareceu / (Uma heroína) / O rosto era o seu / (Seu rosto de menina) / Parece que foi ontem / Parece que chovia // Desd’aquele dia / Minhas noites são iguais / Se eu não vou à luta / Eu não tenho paz / Se eu não faço guerra / Eu não tenho mais paz / Não aguento mais / Um dia mais, um dia a menos / São fatais / Pra quem tem sonhos pequenos / Sonhos tão pequenos / Que nunca têm fim // Eu só queria saber / O que você foi fazer no meu caminho / Eu não consigo entender / Não consigo mais viver sozinho”

              

              

Todas as letras das músicas foram extraídas do site https://www.letras.mus.br/ Isso vale para as dezessete canções elencadas. Para quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo o ótimo “Dias de luta, o rock e o Brasil dos Anos 80”, do jornalista Ricardo Alexandre, 432 páginas, Editora Arquipélago, 2013, ISBN: 8560171398. Trata-se de um livro muito agradável de ler e fruto de extensa pesquisa. Bem interessante também por relacionar o rock nacional e o seu desenvolvimento ao contexto social e político daquela década.

               

Uma opinião pessoal

abril 28, 2017

um4 0p1n140 p35504l :: Em dias como estes que estamos vivendo no Brasil, vejo muita polarização das ideias. Alguém é a favor daquilo, outro é a favor disso. De repente, a gente se esquece de que somos todos seres humanos. Ninguém (em Absoluto) é Dono da Verdade. Esquecemos-nos que Dependemos (Todos) Uns dos Outros. E a melhor solução é aquela que satisfaz a totalidade da população. Vale lembrar que a grande maioria das Famílias do nosso País é extremamente pobre, não tem acesso às necessidades básicas, ao estudo, à saúde. Sim, somos um País orquestrado por minorias, que precisam entender que não há mais de onde tirar riqueza, se não abrirem mão de conchavos, da corrupção, de negociatas, de obras grandiosas que não trazem benefício para a maioria da população, a não ser para interesses próprios. Olhar Menos para o Próprio Umbigo. Estão sufocando um grande organismo que se chama Brasil. É pequeno pensar que não fazemos parte disso. Afinal, Somos Todos Brasileiros.

                 

Sobre a imagem: A cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem através de informação pré-processada ao nervo óptico, impressões para o sistema nervoso.

A cor de um objeto é determinada pela frequência da onda que ele reflete. Um objeto terá determinada cor se não absorver os comprimentos de onda que correspondem àquela cor. Assim, um objeto é vermelho se absorve preferencialmente as frequências fora do vermelho.

A cor é relacionada com os diferentes comprimentos de onda do espectro eletromagnético. São percebidas pelas pessoas, em faixa específica, e por alguns animais através dos órgãos de visão, como uma sensação que nos permite diferenciar os objetos do espaço com maior precisão.

Considerando as cores como luz, a cor branca resulta da sobreposição de todas as cores primárias (verde, azul e vermelho), enquanto o preto é a ausência de luz. Uma luz branca pode ser decomposta em todas as cores (o espectro) por meio de um prisma. Na natureza, esta decomposição origina um arco-íris. Ref.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cor

                  

            

Esta é uma simples composição a partir de fragmentos do romance Enquanto Deus Não Está Olhando, de Débora Ferraz. O livro de 368 páginas, publicado em sua primeira edição pela Editora Record, foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2014. Espero que este texto ajude a divulgar o romance, cuja leitura vale muito à pena!

            

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Quando meu pai foi embora, a casa, subitamente, tornou-se obsoleta. Como se a decoração estivesse, agora, completamente fora de moda. Não faz sentido. Foi só uma semana, meu Deus! E nessa semana a casa tinha se tornado um mausoléu. Eu caminhava meio cabreira dentro dela. Ficou inexplicavelmente escura, como se tivesse mudado e o sol já não entrasse mais pela janela. (página 28)

 

A vontade de chorar vinha o tempo inteiro ultimamente, e por um segundo pensei: Meu pai se transformou em dígitos. Espalhado no inventário da casa, no valor do sedã que ficou na garagem, em contas espalhadas no Fundo de Garantia, na minha conta, na conta da minha mãe, na conta do meu irmão. Meu pai se depositaria distribuído em 50% para a esposa, 25% para cada um dos filhos, em parcelas. De vários pontos, em números reais positivos em umas partes, negativos em outras. Meu pai transformou-se em números, como em um tolo espetáculo de mágico amador que não sabia desfazer o truque. Olhei para o advogado querendo dizer-lhe: “Moço.” Então lhe olharia atencioso com seus papéis miraculosos e eu pediria: “Não podemos transformar esses números em meu pai, de novo?” (página 143)

 

Eu queria voltar ao ponto no qual o deixei sozinho e dizer-lhe: são laços delicados, pai. Rompem e ficam irrecuperáveis do dia pra noite. Nosso abandono precede o nosso encontro. Vem tudo de antes, muito antes, de nós dois. (página 119)

 

Eu era incapaz de chegar a um lugar e dizer o que eu queria. Sempre envolvida pelas possibilidades de estar querendo – ou acreditando querer – a coisa errada. Sempre que eu ia a uma lanchonete com o meu pai, eu precisava ver o cardápio inteiro, todas as vitrines de bolos, ponderando, desesperadamente, sobre as opções. Ele sempre se impacientava com isso. Em lanchonetes, ele caminhava decidido ao balcão e, sem perguntar o que serviam, sem ter em mãos o cardápio, pedia: Um misto quente e um café. Ele não se preocupava com as opções. E por que deveria? Eu é que tive opções demais na vida. Ele, não. Ele sabia o que queria. Adaptou-se ao fato de que qualquer birosca ofereceria misto quente e café. Ele teve uma só possibilidade.

– Tem que ser simples – ele dizia. (página 179)

 

A viagem não podia ter sido mesmo confortável. Eu estava partida, e Vinícius, ao meu lado, se machucava com os cacos. (página 14)

 

– Você vai querer me dizer que isso é muito natural? Que pais abandonam filhos e esposa neste estado? Veja só como estou.

– É natural, sim – ele diz, guardando o frasco –, mas não deixa de ser foda. É aí que entra a bebida. (página 10)

 

O estado de espírito leve havia ficado no quarteirão anterior. Ele sabia. O sol estava se pondo e aquela gravidade entre Vinícius e mim, agora, mais constrangia que machucava. Ele não sabia lidar com metáforas e todas as nuances da dor que eu arrastava e que ele, sem querer, acabava carregando junto, não como cúmplice, mas como um refém que vê tudo, e precisa colaborar para sobreviver, mas, simplesmente, não entende o mecanismo daquilo. (página 79)

 

Ele traga o cigarro com prazer, defende-se do sol debaixo da árvore e da crítica dos outros. Não é permitido fumar.

Escondo-me melhor por trás da janela basculante. Tenho que observar os detalhes. O cigarro é a mais nova invenção dos baixos teores (noto o padrão: no decorrer dos anos a cor do filtro vai clareando e as marcas na embalagem deixam o vermelho para variar entre gradações de azul, chegam ao tom prateado e agora são brancas). Suas unhas parecem arroxeadas. Ele também não fez a barba. A camisa, furada, foi minha mãe quem deu de presente em um Natal distante. Interrogo em silêncio para onde ele olha. (página 31)

 

Minha mãe já está lá quando entro. Escorada no espaço da porta dos fundos. Olhando, assim, para o nada que se perdia na parede salpicada, tomada de musgo, como se estivesse catatônica. Um cigarro numa das mãos, xícara de café na outra. Por um segundo penso em sair dali. Talvez ela não tenha me visto entrar. (página 36)

 

Então trocou, rapidamente, o disco e voltou rebolando ao som de um samba-canção regravado. Completamente bêbada, fazendo o vestido vermelho balançar. Sorri com o nó que se formou na minha garganta quando naquela imagem vi meu próprio pai cantarolando os versos de “A volta do boêmio”. No passo trôpego dela, eu o via em sua solidão ébria. Decadência era a palavra, mas não era qualquer uma, e sim uma decadência terna dos que não pararam de sonhar. (página 195)

 

Porque daquela vez tivemos todos muito medo. Ele garantia ter visto a morte de perto. Disse a mesma coisa quando veio o primeiro trombo venoso e quando se internou por tantas outras coisas. Esse era o problema. Ele via a morte com freqüência demais. E tudo que a gente vê demais, olho ao redor – a escrivaninha, a cama, a parede do meu quarto pintada de azul, a camisa de flanela de Vinícius –, tudo que a gente vê demais acaba se tornando invisível. (página 186)

 

Além do peso do meu corpo e algumas culpas, carrego comigo o fardo dessa falta. Ela que chega em madrepérola. Essa coisa só, que se arrasta comigo fazendo vultos pelos lados. Será imortal?

Segurei forte as mãos do meu fantasma. Temos andado abraçados e concretos. Temos sido tão pouco. Sou apenas eu de mãos dadas a esperanças que nem são reais. Eu as pinto em tinta a óleo e me convenço de que são minhas. (página 345)

 

Foi numa luta dessa natureza que troquei os sapatos de camurça azul Klein por um de verniz preto e, com certa descrença, cumpri todo o resto do processo: igualar o tom de pele com base, criar efeitos de pontos de luz, sombras e profundidade. Técnica: base, pó, blush (entre outros pozinhos coloridos) sobre a pele. Além de secar os cabelos com secador e escova, usar perfume, lingerie e vestir, delicadamente, a roupa. (página 282)

 

E ela me abraça, os fogos explodem e então eu começo a chorar como se tivesse acabado de acontecer. Enquanto os fogos explodem, o som deles se mistura ao de vários espumantes que espocam, milhares de pessoas a nossa volta batem as taças. E todas elas se abraçam. E ela quer me abraçar, quer fazer com que eu me sinta melhor. Quer que eu a faça sentir-se melhor. (página 221)

 

Primeiro era gostar da cerveja em ondas macias. Uma onda a rebentar. Um mergulho em útero macio. Depois era gostar da espuma com os lábios finos e roxos. Passando o inferior pelo superior, limpando um bigode inexistente há dez anos. Ar. Depois era sentir o gelo no estômago. Aquela sozinhez inteira de faltar raízes. (página 228)

 

– E sempre ao final ficamos não apenas com a impressão de ter feito tudo errado, mas que o outro havia feito, também, tudo errado. Passar o réveillon com você foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.

– Você ia morrer afogada.

– Bom, então você salvou minha vida. (página 269)

 

Não havia nada de errado com aqueles sonhos. Mas eu duvidava que isso pudesse se tornar realidade. Pensava, ao mesmo tempo, nos milhares de quinquilharias acumuladas por ele mesmo dentro do quarto. Eu via que ele já havia passado da adolescência e que apesar de ter sido um dos mais brilhantes do colégio não tinha alcançado um desempenho muito superior ao dos outros quando saiu dele. Isso eu não dizia para ele, mas pensava quanto exatamente custaria chegar aquele ponto. A essa solidão sagrada. Eu pensava na história da garota que tinha dispensado ele. Todos os sonhos dele exigiam desapego. Um desapego que ele parecia ostentar. Um desapego que era milimetricamente trabalhado em cada uma de suas aspirações e gestos. Em não ter carro, namorada, em não depender da família. (página 189)

 

As palavras são como cores. Misturando na proporção certa, é possível chegar a qualquer gradação. E eu não encontrava nenhuma. (página 37)

 

– Olhando você fazer, dá vontade de fazer também. Parece a coisa mais interessante do mundo.

– É… – concordei. – São coisas pequenas que salvam a vida. (página 271)

 

Acordei num salto quando vi que Vinícius estava ao meu lado.

– Calma – ele disse, e eu o abracei com força.

– Você me deixa mais perto – eu disse, como se a frase fizesse parte de um sonho quebrado. Não saberia explicar.

– Perto do quê?

Mas não respondi nada. Apenas fechei os olhos e me deixei acolher. (página 251)

 

            

Earth Station

abril 6, 2017

         
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Image: Skylab as photographed by its departing final crew

         

A minha história em 3D

abril 1, 2017

      

Eu fui sendo levada pelo rio, arrastada pela força de suas águas, eu vi peixes, até que eu me acomodei num depósito aluvial, numa curva de rio, e lá eu fiquei confinada, entre outros sedimentos, porque a correnteza já não me levava. Não era isso que eu tinha nos meus planos. Mas isso foi antes, muito antes.

     

E um dia ela quis fazer para você um poema, como um daqueles de Vinícius de Moraes ou de Chico Buarque, mas ela não era poeta. E aquelas suas poesias lhe pareciam muito estranhas, como vórtices, com um gargalo muito estreito, quase hermético, na sua capacidade de absorver silêncios, mesmo em meio a tantas palavras. Ela achava aquelas tuas poesias até bonitinhas, só que elas não lhe diziam nada. Mesmo assim, ela queria fazer um poema para você.

     

O mundo dá voltas. O tempo passou e um dia eu fui recolhida. Fizeram então um bloco úmido de mim, in natura, como tantos outros blocos, dispostos numa prateleira. Era então essa a minha sina. Uma espécie de corpo amorfo, despido de qualquer significado senão minha própria matéria, sem um espírito a me animar. E não era isso que eu tinha nos meus planos.

      

Olha cara, eu te amo, mas o plantio nesse terreno tem pouca chance de ser fértil, porque o meu coração já derramou lágrimas demais. E eu preciso de atenção, de segurança, de carinho; assim como aqueles que eu dispenso para com as plantas do meu jardim. E eu sinceramente não sei se você é capaz disso. Eu preciso que você me prove, mas as provas podem doer em você muito mais do que você é capaz de suportar. E será então, que valerá a pena para você? Ou você se perderá no caminho, assim como eu certa vez me perdi? Eu quero você caminhando ao meu lado, mas você precisará entender da minha dor, aceitar-me como sou e, ainda assim, achar isso bom. Olha cara, eu te amo, mas seja o que Deus quiser. Era essa a poesia que ela queria escrever. Mas isso não era poesia. E ela não a escreveu.

       

Eu sei disso porque um dia ela me tomou em suas mãos e me modelou carinhosamente, imbuindo-me de um espírito, de um significado enquanto me acariciava, definindo em mim curvas doces, superfícies suaves, com as suas mãos molhadas na água, para o acabamento final. Depois, com um palito de dentes, ela tatuou signos em ambos as superfícies abaloadas com a sua mão canhota. Estes signos que eu não sei dispor em palavras. Do que eu já pude descrever, dá pra você imaginar que eu não fui alfabetizada, mas eu posso senti-los, porque eles já fazem parte de mim.

       

E, sem nenhum aviso, ela me tocou no fogo alto do forno, me deixando lá por mais de três horas! Depois pincelou a superfície cuidadosamente com verniz acrílico, revestindo-me de carinho, de esperança. Para que eu renascesse da argila, na forma de um coração.

         

Sempre que eu penso nisso, em vir a ser o que eu sempre quis, agradeço a ela por ter tido a ideia de acreditar na minha matéria simples, no barro, como meio de expressão mais sublime. E esta história eu escrevi para você, que cuida de mim com zelo, mesmo depois de tanto tempo.

       

Olha cara, um dia o mundo vai acabar. Um asteroide gigante vai se chocar com a Terra e você sabe disso, só finge que não sabe. Isso já aconteceu antes, bem antes. Esse seu planetinha comparado ao céu, é como um grão de caulinita, de ilita, ou de vermiculita, sendo levado através do leito de um rio pelo poderoso fluxo hidrodinâmico, um único grão, como um dia eu fui. Mas enquanto isso não acontece, enquanto há vida, cuida de mim, que eu cuido de você. Isso ela não disse, não escreveu, sou eu que estou te dizendo.

       

O elixir da vida

março 25, 2017

         

círculos, círculos

círculos, círculos

ele não é o macho alfa

círculos, círculos

ponto

ele é o espermatozoide alfa

aquele que acertou na mosca

naquela da qual você

pôde vir a ser

um em todos nós

          

Adrenalina pura

março 23, 2017

        

Este texto apresenta uma seleção dos meus versos prediletos de “Surto Poético Delirante”, livro da minha Amiga e Poeta Ana Lyra, Colecção World Art Friends IV, Corpos Editora, ISBN: 978-989-617-577-1, cuja primeira edição é de outubro de 2009.

        

“Surto Poético Delirante” transita, em doses exatas, de sentimento e de intensidade. É adrenalina pura na forma de versos. Inspire-se Você lendo!

        

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

PREFÁCIO

Uma manifestação artística, de uma forma quase cística, do meu eu poético. Os mundos dentro de mim em mutante processo estético, fecundo, em verso rimado, cada substantivo, verbo e artigo, lado a lado, loucos, entrelaçados aos poucos, em som encadeado.

Do meu “Eu” torno-me turista, nesta viagem altruísta, curando-me no verbo que minha alma ecoa. Acordo amando Fernando Pessoa.

NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN

UNI-VERSO

O dia foi em verso

pensando em verso

um modo de entender o universo

e o universo é vasto

é um sentimento

os pensamentos, em fileiras

foram se organizando

e o universo se revelando

em muda escrita

minha língua favorita

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

OS CORPOS

seguem o amor do tempo

os corpos são só momentos

a alma eterna nunca some

já os corpos um dia

serão mortos

e as almas

portos

para outros corpos

LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

AFETOS SEM TETOS…

é isso… um estado novo

recém formado…

de afetos desencontrados

que estão aí no teu coração

se debatendo em entrópica dança

afetos em caixinhas

organizados

nos escaninhos da sociedade

afetos de verdade

selecionados por uma rede

pendurados na parede

exacerbados momentos

da alma movimentos

afetos mansos e violentos

afetos sem dor

geradores de calor

buscando um super condutor que lhes dê vazão

YYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY

O QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

vou fazer uma promessa

prometo não ter mais pressa

e nunca mais cortar o cabelo

enquanto não puder tê-lo

vou ficar sozinha

numa vida só minha

de amor e desvelo

vou ficar me poupando

enquanto o tempo vai passando

na espera de tê-lo

vou ficar em metade

aguardando oportunidade

de ver-te em pelo

vou ficar todo o dia

em serena agonia

espera incessante

RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

NÃO QUERO AMOR DE LUA

deixas as horas incertas

pões-me em desalinho

deixas-me ave sem ninho

voando sem descanso…

embaça-me a visão

acelera o coração

faz-me adiantar a viagem

não quero outra paisagem

além de teu corpo

absorto no meu

servindo de cenário

que passou por entre o tempo

e não morreu

que seja amor de loucura

não morro ser um dia ser tua

ter o meu corpo no teu

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

A MÃE QUE HOUVE

foi a mãe que te coube

não me perguntes o que houve

é sorte finalmente

é por onde deixas de ser morte

e voltas a ser gente

julgo inconteste

minha decisão

já havias nascido

dentro do meu coração

e, crescido,

agarrado em minha mão

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

LUIZA

és sabia profetiza

analisas a vida

com propriedade

és minha filha querida

parida

na adversidade

quero ser tua mãe

amiga e parceira

te ensinar a ser feiticeira

transformar sonho em realidade

a guia que te levará

a conhecer o mundo

e a inventar a realidade

NNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN

INTENSIDADE

sou intensidade

momento de pico, ápice

bebo a vida agora

tudo, entorno o cálice

um segundo me é uma hora

vivo diferente da velocidade lá fora

sou esgotamento

rápido, veloz e atroz

por isso, às vezes tormento

vivido não só por mim

por todos após

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

SEPARAÇÃO

disse “adeus!”

peguei meus filhos (os teus)

e depois só desencanto

de lágrimas teci um manto

enquanto os pequenos dormiam

no meu leito de pano e pranto

e fui levando, levando, remando,

te chorando a cada triste noite

fria, gelada, nua, te suando,

ardendo em chagas sem mais o teu açoite

e agora, da derradeira hora

onde já tudo é confesso

(em nosso surreal universo)

observo e vejo, ah, como vejo…

como suspiro, não mais grito

(nem trovejo)

sou no máximo um vento leve

um suave ar em movimento

e, que de nós, humanos sós

sobrou apenas frouxos nós

epiléticos movimentos patéticos

imotivados e sem nexo

usualmente chamados de sexo

LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

A TI QUE ME VISITAS EM MEU LEITO RAREFEITO

carreguei-te com todo o cuidado dentro do peito

deitei-me com o coração cortado no meu frio leito

trazia-te imaginado, lindo, perfeito e distante

meu amor errante, irascível, louco e dilacerante

tua luz me invade, doce Marques de Sade, surgido deste abismo

me desvendas, me revelas, me penetras, pelo teu psiquismo

termina a senda desta dor em fenda que arde e me afasta

nada mais me afasta, nem me arrasta, ou deixa-me casta

YYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYYY

AMOR PRÓPRIO PARTIDO

aceito-te, mesmo pouco e rarefeito

um amor que poderia ser perfeito

desfaz-se, cresce a cruz, perco o dia

mas insistes, persistes em minha cama

és-me triste, perdido tu, em tua fama

me amas? ou só tu, ainda em chamas?

RRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR

BOM DIA!

olhos de manhã de sol de verão

meus olhos de noite se ofuscam

com o teu brilho no esplendor matutino

de teu espetáculo de luz e som

és meu palco de pele onde danço

e sou a mulher de olhos de noite

com cabelos soltos de açoite

apaixonada pelo homem de sol

num encontro proibido

por leis físicas, tísicas e universais,

onde um existe, o outro não mais…

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

“NEURO-POEMA” DE AMOR

queria girar em teus giros

povoados de papiros secretos

abstratos e concretos

do teu intelecto inquieto

passear por teu encéfalo que me espanta

absorve-me e encanta

a cada contato abstrato

que tenho contigo

queria ser imagem nua, crua (e só tua)

povoando seu sistema límbico

queria ser o químico mediador

que estimula o teu hipocampo

preencher-te de encanto

modulando qualquer dor

quem sabe assim, descubra no fim

uma via, um caminho, uma mão

um giro, uma circunvolução

onde possa tatuar com amor

meu nome em teu coração

         

        

Trevo de 4 folhas

março 16, 2017

        

trevo de quatro folhas

vou abraçar teu corpo

peito contra peito, pele contra pele

beijar sua boca carnuda, suculenta

que eu devoro

9rudar com os meus dentes

ó lóbulo da tu4 orelha, esquerda

roçar 7ua nuca com a minha barba

morder o seu pescoço

depois be1já-lo

abraçando-a por trás

vou usar meus dedos,

a minh4 língua

e o meu pau

para penetrar os teus segredos

ouvir os teus gemidos

olhar fundo nos teus olhos

que é para você saber,

pra quem eu escrevi isso

nossos corpos fundem-se nos colos

enfim, um raio nos atinge

parece magia, mas não:

somos apenas nós dois

        

m3m3 1

março 15, 2017

      

Agora são doze horas e doze minutos, o que eu avalio pela fumaça do meu malboro, ziguezagueante, através dos raios de Sol, frente a minha vista. Parto sem destino rumo ao sul.

        

#    #    #    #

        

Caminho rápido ao longo de quatro quadras sobre um Sol escaldante. O ponto de táxi fica a trinta metros da padaria, onde quero comprar uma coca e um pacote de baconzitos. As duas malas pretas, dessas de couro, antigas, paralelepídecas, com uma alça para a mão, estão pesadas pra caralho. Digo pro taxista olhar minhas malas, enquanto vou até a padaria, que depois pegarei o táxi para a rodoviária. Ele me diz que nem fodendo, eu que cuide de minhas coisas, só tem ele no ponto, vai que chega outro passageiro antes e ele perde a corrida. Eu carrego as malas com muito sofrimento, trinta metros para ir, mais trinta para voltar com minha coca super-gelada e um pacote gigante de baconzitos, minha barba espessa e grisalha toda ensebada, tinha passado a noite toda sem dormir. Os sovacos suados, fétidos. Volto lá e é o mesmo motorista. Digo pra ele, toca para a rodoviária agora então. Ele tenta puxar assunto, eu fico fitando o infinito do céu através do vidro fumê. Lá dentro do veículo tem ar condicionado, mas lá fora está um calor do caralho, sigo pensando. Quando chegamos ao destino, o taxímetro marca vinte e seis reais. Ele me diz que faz por vinte e cinco. Eu saco a carteira, dela uma nota de vinte, outra de cinco e uma moeda de um real. Ele diz que a moeda de um real não precisa. Eu jogo a moeda com força na pança dele e digo, enfia a moeda no teu cu. Parto sem destino rumo ao sul.

        

#    #    #    #

        

Música incidental vindo do smartphone da garota loura de cabelos encaracolados, vindo da mesma fileira do ônibus, três poltronas à esquerda, um amor em cada porto, ah seu eu fosse marinheiro, não pensaria em dinheiro, um amor em cada porto, ah seu eu fosse marinheiro, Adriana Calcanhoto (se não me engano). Solto um peido longo e constante, sem qualquer ruído, pior que o gás mostarda, a senhora da poltrona ao lado me fita com uma expressão de assombro, em poucos segundos, ao menos umas três fileiras de assentos do ônibus sofrem com a implicação de meus atos pregressos: duas coxinhas amanhecidas, um copo de groselha, uma coca e um pacote de baconzitos, que eu comi até o farelo. Eles sofrem calados e resignados, como Jesus Cristo em sua via-crúcis. Rezo pela alma deles, sei que sempre é mais suportável a própria cruz, os próprios gases que aquele do outro, é a lei do carma. Causa e efeito. Parto sem destino rumo ao sul.

        

#    #    #    #

        

Chegando em Porto Alegre, o primeiro lugar em que eu vou é um karaokê chamado Babilônia Club. A temperatura em Porto Alegre está bem mais amena, mas como não tomei banho e viajei horas de ônibus, as mangas de minha camisa estão colando nos meus sovacos, donde se desprende um odor azedo, fétido, de baixa freqüência, que parece distorcer o espaço-tempo ao meu redor, faz de meu corpo uma massa pastosa e amorfa, sustentada apenas por uma frágil estrutura de músculos e ossos gravéticos, por sua vez a carregar duas malas pretas de couro paralelepípedecas. Deixo-as no canto, próximo do balcão e peço um rabo de galo, dois rabos de galo, três rabos de galo, e só então estou pronto para cantar. Escolho a canção Samba da Benção, de Vinícius de Moraes. Atravesso a melodia, erro a letra, e então o DJ acelera o ritmo da música, a casa está cheia, tem uma lista enorme de canções para ele botar e eu estou pagando o maior mico, ainda mais agora, com o Samba da Benção em ritmo de rap. Quando percebo a traquinagem, mando ele ir tomar bem no meio do olho do seu cu, do microfone mesmo, em alto e bom som. Uns perceberam que a música foi drasticamente acelerada e tomam meu partido, outros me vaiam e mandam eu me foder, vai se foder bêbado, grita um bêbado gaúcho alto e magro, usando gola role. Eu grito vai se foder você seu gaúcho viado. O Babilônia Club ferve, vira uma confusão generalizada, copos voam, sopapo pra tudo quanto é lado, eu pego uma garrafa das grandes de Heineken que está pela metade na mesa ao lado e, segurando-a pelo gargalo, dou um golpe só, com toda a minha força, de baixo para cima, estraçalhando-a bem no queixo do DJ, a papada dele abre de fora a fora, descola a pele, agora é sangue jorrando para todo o lado. Nessa hora um merdinha tenta me defender de vários caras que partem pra cima de mim, ele abre os braços entre eu e os caras, é nessa hora que eu escapo, fujo correndo pelos fundos, mas deixo minhas malas para trás. Saio correndo pela rua estreita, gritando filhos da puta, filhos da puta, pela noite escura como o breu. Sem as malas fica mais fácil a minha locomoção e dou graças pelo incidente. As malas que se fodam. Parto sem destino rumo ao sul.

        

#    #    #    #

        

Com muito custo e no limite de minhas forças alcanço o Hotel Scala, faço o check in roçando minha barba e fazendo cara de poucos amigos para o gerentezinho simpático, engomadinho, apenas mais um bosta, subserviente a estrutura de castas sociais, evidente na capital gaúcha. Moleque babaca, eu penso, e respondo ao mínimo possível das perguntas do seu formulário. Para algumas de suas perguntas, eu apenas rosnava, para outras, permanecia em silêncio fitando-o profundamente, com cara de ódio. Por fim, depois de uns dez minutos, ele se deu por vencido. O seu quarto é o 304, Senhor. Grrrr, eu assenti. Não é que eu seja maleducado, estava apenas cagando e andando para ele, além de realmente cansado. De tudo. Liguei o chuveiro bem quente, tirei minhas roupas. Nesse momento você pode me imaginar, homem de meia idade, um pouco grisalho, barba estilo lenhador, mal desenhada no rosto, um metro e setenta centímetros de altura, uns cento e trinta quilos, obeso, mas um bocado parrudo e peludo pra cacete, enfim, traçando uma analogia, coisa feia de se ver, um cão chupando manga. Permito-me relaxar de pé no box do banheiro, sob a ducha forte e quente, revigorante. O sabonete do Hotel Scala é verde e minúsculo, mal dá para ensaboar as partes. O shampoo, fedido igual a desodorizante de automóvel. Permaneço assim, imóvel, sob essa cachoeira, fitando os azulejos azuis a minha frente, revestindo a parede. O rejunte é praticamente invisível, revestido por uma asquerosa camada verde de musgo. Noutros lugares, onde não há musgo, ou ele se desprendeu, o rejunte é preto de camadas pré-históricas de fuligem, camadas e mais camadas sobrepostas, ignoradas, desprezadas, omitidas pela rotina diária da limpeza, que era parca, apenas uma atividade pró-forma, a qual o administrador do hotel fazia vistas grossas, e os hóspedes desconversavam como se fosse espécie de acordo silencioso revertido em diárias super econômicas. Depois do banho, caí pelado e de costas sobre a cama de casal de molas, as pernas e os braços abertos. Não ouvi, mas devo ter roncado como um porco. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Só quando despertei no outro dia eu me dei conta do quanto estava enrascado, além de ter perdido todos os meus pertences, deixados em duas velhas malas pretas de couro paralelepípedecas, dei falta dos meus documentos, do cartão de crédito e de um montante de dinheiro em espécie que trazia comigo, eu tinha perdido a minha carteira. Eu podia jurar que trazia a carteira comigo, no bolso direito da calça preta de pano, como de costume. Mas não dessa vez. A lei de Murphy é implacável, ela te abraça nos momentos mais singulares, para fazê-lo lembrar de sua força, não a minha, a força dela, para mostrar o quanto é forte a lei. Desço para o café da manhã, mas ele já havia encerrado. O relógio marcava dez horas e quarenta minutos e a entrada para o café da manhã no salão do Hotel Scala se encerrava pontualmente às dez mais trinta, me explicou a recepcionista. Mas isso com algum jeito, boas maneiras, um bom dia, o por favor usado no momento adequado, porta de acesso, passaporte, para as necessidades vitamínicas, de carboidratos, de proteínas, pães diversos e uma boa xícara de café preto. Do salão do hotel eu parti direto para a rua, já que não tinha um puto no bolso, sai batido do hotel. Caminhei por algumas ruas de Porto Alegre a esmo e com vagar, observando a correria das pessoas, com tantos afazeres, ideias na cabeça, até que dei de frente com uma grande rede de magazines, as Lojas Centauro. Ponderei que se fosse para prejudicar alguém, que fosse um estabelecimento como aquele, uma loja grande, onde o desfalque dividido pelo total das vendas, resultasse num valor tão próximo quanto possível de zero. Disse bom dia para o atendente, pedi para experimentar uma camisa branca social de manga longa, calças pretas também sociais, cuecas samba canção amarelas, meias pretas sociais, cinto e sapatos pretos confortáveis e de couro. O atendente pegou alguns modelos, variações sobre o mesmo tipo de roupa que uso desde os meus vinte e poucos anos, disse para eu usar o provador. As meias e as cuecas eu as tomei furtivamente e as botei nos bolsos de uma das calças, antes de seguir para o provador. Fui até o provador onde deixei dependuradas as minhas próprias roupas, vesti-me com calma, olhei-me no espelho, bem alinhado, agora sim, estava tudo bem. Olhei pelo vão da cortininha e, quando um cliente interpelou o atendente com uma pergunta, deixei rápido o provador e sai andando naturalmente da loja, como se nada tivesse acontecido. Imiscui-me em meio ao vai e vem das criaturas no centro de Porto Alegre, ali eu era apenas mais um, uma simples alma em meio ao cardume de tantas outras, caminhei por quase uma hora, deixando o centro, paralelo às vias que levavam para fora da cidade. Acenei para um caminhão que transportava fardos de lenha. O veículo parou alguns metros a minha frente, no acostamento à direita. Eu perguntei ao motorista para onde é que ele ia, vou levar essa carga para Passos de Torres. Eu pedi uma carona e montei na boleia do Mercedes Benz. Era impressionante, o pen drive do cara só tocava Raul Seixas. Infinitamente. Várias versões de uma mesma música, algumas muito mal gravadas, por sinal, depois outra e mais outra, algumas delas eu nunca tinha escutado, mas era sempre Raul, e o motorista parecia não se importar com isso. Meio sem saco para conversas, perguntei ao motorista se ele gostava de Raul Seixas. Ele não respondeu a minha pergunta. Ele, ao contrário, parecia animado por ter alguém com quem conversar. Contou que vinha de Pelotas, donde tinha saído muito cedo, antes do Sol nascer. Então iriam para Torres, a cidade litorânea mais ao norte do Rio Grande do Sul. O dia era limpo e ensolarado. Veja como o dia está bom para um mergulho no mar, ficar de bobeira na areia, pena que eu tenho de retornar ainda hoje para Pelotas. O motorista contou que bastavam cruzar a ponte sobre o rio, em Torres, e eles estariam em Passos de Torres, já no Estado de Santa Catarina. Lá ele iria descarregar os fardos de lenha, almoçar e tomar a estrada de volta. A volta é sempre mais rápida, sem a carga, mesmo sendo morro acima. Mas ele disse que se fosse sexta, ou dia de sábado, esticaria até Mira Torres, que fica logo adiante de Passos de Torres, que por sua vez é a cidade seguinte de Torres, e teceu explicações sobre a lógica intrínseca destes nomes de cidades gaúcha e catarinenses, na ordem das progressões de suas distâncias. Explicações óbvias, desnecessárias, dessas usadas por quem está simplesmente querendo manter o diálogo, aplacando a solidão do quotidiano dos motoristas de caminhão. Contou que em Mira Torres ele tinha um amigo, Roberto, sua esposa Beatriz e a filha Fernanda. O motorista e Roberto tinham estudado desde o terceiro ano do fundamental juntos, nenhum deles terminou o ensino médio, mas quanto a isso ele não mencionou a razão. Ele morava numa casa de praia, simples, mas muito bem cuidada. Roberto era pedreiro e ele, o motorista, costumava pernoitar por lá, se era fim de semana e, principalmente, se estivesse fazendo Sol, com o céu limpo, dia quente de verão, para um banho de mar em Mira Torres e um bate papo descontraído com o amigo de longa data. Em nenhum momento o motorista disse o seu nome ou perguntou o meu. Em nenhum momento perguntou o que eu ia fazer por aquelas bandas. Pensei em como os gaúchos são discretos, ou talvez o tipo de pessoa que toma caronas seja um tipo desinteressante, mais um bom ouvido que boa boca, com uma vida vazia e erma, tão contada e recontada que já não lhe dava atenção, ou, por ventura, um misto de ambas as coisas. Eu ajudei o motorista a descarregar os fardos de lenha. Para isso, antes eu tirei a camisa branca social e a dobrei com zelo, deixando-a sobre o assento, na boléia do caminhão. E, depois, feito também o trabalho com calma e cuidado para não suar muito, não sujar a calça preta de pano, também social. Minha única vestimenta. O motorista pagou o almoço num restaurante barato e ainda me deu trinta reais pela ajuda com o trabalho. Você adiantou o meu dia em uma hora e meia, ou duas horas, obrigado e até mais. Então, antes dele partir, perguntei o seu nome. Meu nome é Anderson, ele respondeu, sem perguntar como eu me chamava. Melhor assim, pensei cá com os meus botões. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Com nove reais mais vinte e cinco eu compro uma vodka balalaika bem gelada, e ainda me sobram vinte reais mais setenta e cinco, em cash. Eu estava me sentindo muito bem, com roupas novas, descansado, bem alimentado, o parrudo com a sua barba de lenhador mal desenhada. Sigo tomando a balalaika aos poucos, enquanto caminho de Passos de Torres para Mira Torres. Boas três horas e meia de caminhada, aos goles da vodka barata, que aos poucos ia aquecendo. Mas beber e caminhar era técnica que eu havia desenvolvido desde a adolescência, quiçá, de vidas pregressas, outras encarnações. Quando se bebe ao caminhar, o álcool é absorvido e queimado mais rápido, funcionando como um amortecedor das ideias com ação analgésica concomitante para a jornada. Chegando na praia de Mira Torres, apesar de um leve bafo de álcool, eu ainda me sentia otimista e bem apessoado, cabelo e barba grisalhos, roupa social. Fui perguntando para um camarada aqui, outro acolá, elicitando, até que, enfim, já quase ao final da tarde, o cara da mercearia me disse, tu segues duas quadras, dobra à esquerda, tu desces uma quadra, vira à esquerda de novo, é no meio dessa quadra, do lado esquerdo, é lá que ele mora. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Dou três socos na porta, não muito fortes, não muito fracos, pancadas assertivas, seguras de si. Roberto. Roberto. Uma linda loura gaúcha, de pele muito branca, olhos muito azuis, bunda e seios firmes, generosos, portando uma cabeleira encaracolada que lhe caia até cinco dedos abaixo da linha dos ombros. Deve ser Beatriz, pensei com os meus botões. Roberto está? O Roberto foi dar um mergulho no mar, ele sempre faz isso no fim da tarde. Já volta. Você deve ser Beatriz, não é? Sim, sou eu mesma, ela faz uma cara de preocupada, talvez pelo inusitado da situação: um cara de estatura mediana, cento e trinta kilos, aquela barba de lenhador mal desenhada, a roupa social, os sapatos pretos, brilhantes, de couro. Eu a acalmei com a minha fala. Eu sou bruxo (amigo, em bom gauches) do Anderson, o motorista, faço frete de carga também, o meu caminhão quebrou, precisou de um conserto, perdi dois pneus e amassei a roda num buraco, numa cratera, deixei no borracheiro em Passos de Torres, ele me disse que é bom com o martelo para desentortar a roda, não tinha onde dormir, passei um rádio para o Anderson, ele disse que não sabia, mas talvez eu pudesse pernoitar na casa de vocês. Ah… pode sim, uma mão lava a outra, o Roberto já chega, são amigos desde antes de eu conhecer o Roberto, o Anderson. Por sorte a Fernanda não está em casa, foi dormir na casa de uma amiga, diz que é trabalho de escola, mas nessa idade, não sei não. Mas a gente também tem o direito de se divertir, não dá pra ficar o tempo todo na cola da menina, né?! Entra, quer um café? O Roberto já vem, senta aí. Passa um café fresco, com calma, com a água aquecida no fogão a lenha, ao invés de filtro de papel, coador de pano, adiciona quatro sementes de cardamomo, eu fico sentado à mesa, a fitá-la. Ela chega com três jogos de xícaras e pires, depois traz o bule de café fresco, fumegante, a saborosa fumaça incensando o ambiente. A porta da sala dá para a praia. Ao longe vejo um homem alto, moreno, tipo atlético, ainda assim magro, que vem caminhando lentamente da praia em direção à casa. Ela acena com a cabeça na direção dele, Roberto. Roberto entra e Beatriz começa a falar. Primeiro me apresenta, esse aí é um amigo do Anderson, diz que teve um problema com o bruto, quer pernoitar aqui em casa. Eu não preciso falar nada, só estendo a mão e digo, prazer Roberto, ele diz prazer amigo do Anderson. Nesse ponto fico imaginando se já não é um absurdo esse desinteresse pelo outro ser humano, coisa de gente dali, muito na deles. Beatriz e Roberto engatam uma conversa sobre o dia a dia, o que você fez hoje, amor? E aí, deu certo de pegar a nova obra? E a outra, quando termina? Você também tem de descansar, Roberto. Hoje eu estou aqui contigo, não estou, Bia? Eles se beijam, era como se eu fosse completamente invisível, não pertencesse às mesmas dimensões do espaço-tempo do universo deles. E, é bem provável que, de fato, não. Ou talvez tivessem pressentido algo de podre na minha aura, algo cinza, ou denso, ou pesado, ou enuvarado. Roberto me diz, dorme lá no quarto da Fernanda, aqui a gente deita cedo. Ele toma um banho demorado, se arruma devagar, depois vai para o seu quarto. Beatriz já está lá. E assim eu faço também, tomo um banho e me fecho no quarto de Fernanda, quem sou eu para recusar o pernoite. São oito horas e eu me deito, não consigo pregar os olhos, é muito cedo, o sono não vem. Em geral eu durmo tarde, acordo cedo, sofro de insônia. Leio uma antiga revista Manchete, que é o único texto que me agrada no quarto da menina. Nada de Harry Potter, romances adolescentes, livros de ficção, alguma coisa de misticismo, psicologia, religião, não, apenas a revista Manchete, com muitas fotos de celebridades, textos curtos, letras grandes, legendas com os nomes das atrizes, tudo numerado, organizado, então essa gostosa aqui se chama X, e aquela gostosa lá se chama Y. Nunca me lembro dos seus nomes. O rádio no quarto do casal toca Kid Abelha Acústico MTV, num som que, lá dentro, deve estar num volume bem alto. Não demora muito para que os gemidos, gritos truncados de penetração, coisas que eu não sei, mas posso imaginar, que devem estar acontecendo entre Beatriz e Roberto, alguns gritos dele também, mais espaçados, ah…, mete, mete, assim, mete, mete, mete mais, na voz de Beatriz. E isso vai se estendendo, das quinze para as nove até quase uma hora da manhã. A coisa toda acontece em ciclos. São três ciclos de quinze minutos de ação com intervalos de cinco minutos entre eles, completando cada hora de sexo selvagem, pura entrega. O ápice, os orgasmos de Beatriz, parece se estender por quase oito minutos, quando ela uiva baixo, geme, grita abafado mete, mete. O de Roberto é mais pontual e intenso, acontecendo sempre entre o décimo segundo e o décimo terceiro minutos. Mas cada jogo, vamos chamar assim, parece uma nova música, uma nova sinfonia, de diferentes ritmos, outro tipo de encanto. Eu sei disso porque não consigo adormecer até que tudo termine, com o Kid Abelha ao fundo, em modo repeat ao reiniciar o DVD. Resultado: uma taxa de três punhetas por hora para mim, acordo noutro dia com o pau ardendo de esfolado. Ao despertar fico imaginando como eles conseguem foder tanto, fico imaginando quanto amor tem um pelo outro, porque isso é evidente, a marca registrada de cada uma das treze sinfonias de sexo, uma reciprocidade, cumplicidade, um querer amar de deixar qualquer observador cabisbaixo, se sentindo um merda, só de imaginar ser possível existir amor daquele tamanho. Ele com tão pouco, o pau esfolado, a cabeça baixa no café da manhã. Beatriz nem liga, está iluminada, fala, conta da sua vida com alegria à mesa do café, parece cantar, mas fala, um sabiá transmudado na forma de mulher. Roberto, um pouco mais contido, mas milhões de anos luz adiante da insignificância e uma boa dose de vergonha que me afligiam. Muito. Disse, obrigado, até mais, e sai caminhando pela praia de Mira Torres. Os sapatos e as meias sacados, estes e a camisa branca dobrada eu carregava em minhas mãos, a calça social preta dobrada até pouco abaixo do joelho, seguia sobre a fronteira móvel das ondas na areia, procurando manter a água do mar ao nível de meus tornozelos. Ah… a liberdade. Ah… a liberdade. E, no fim, não é nada disso. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Em Passos de Torres, ainda na orla, cruzo com uma vendedora de brincos, miçangas, biquínis, que, por razões óbvias, me fita ao longe, mas vira o rosto quando estamos nos aproximando. Ela não é feia, apenas um pouco seca demais, com a pele judiada pelo Sol e de caminhar pela praia o dia todo, parece também meio riponga, ou algo mais pesado, deve ter se introduzido recentemente no mundo do crack, ou talvez o limiar entre uma coisa e outra, vai saber. Então eu me dirigi a ela e perguntei, quanto custa este brinco, apontando para um jogo de peças no formato de gotas curvadas, deviam ser de prata, por certo, formas fluidas, como as ondas, como o yin apenas, como o yang apenas, separados um do outro, ideia da mente de algum artesão muito maconheiro e com um bom equipamento para a fusão. Estes custam oitenta reais, meu senhor. E para irmos atrás daquela construção e darmos uma rapidinha, quanto é que fica? Tem camisinha? Tenho. Então são cem reais, ela se empinou, exibindo o corpo. Eu não podia perder aquela chance de liberar o tesão recolhido da noite anterior. Então caminhamos em direção a construção, para trás de um muro de lajes planas pré-fabricadas, bem rente a praia. Além da construção, pela metade, tinha um bocado de areia e um bocado de mato verde, como se a obra tivesse sido abandonada a própria sorte. Ela encostou a bolsa e o quadro com as pratas e as miçangas no muro, tirou a roupa, me pediu a grana e a camisinha. Eu enfiei a mão no bolso, saquei tudo que havia lá e lhe dei. Vinte reais mais setenta e cinco, nada de camisinha. Ela me disse, mas o que é isso? Isso é tudo que eu tenho, pronunciei com um ar desolado e honesto. Olha, você não quer levar umas pulseiras de couro, ela tentou desconversar. Não, eu preciso de você, eu disse. Olha, por isso aí, só se for um boquete, pode ser? Eu assenti com a cabeça, abri o botão da calça de pano, baixei o zíper e a parte da frente da cueca samba canção amarela (para dar sorte). E o meu pau saltou rijo pra frente. Ela me olhou com aquele ar de onde é que eu fui me meter? O meu pau era pequeno e fino, quase sem carne, sem músculo, parecia o osso da coxa de um frango. Com a glande à semelhança das cartilagens da extremidade maior do osso da coxa, o pinto com uma seção fina e a cabeça cheia de pelanca, fimose. Mas ela chupou bem, enfiou o osso de coxa de frango todo dentro da boca, pressionava a glande em direção a garganta, massageou a cabeça sebenta com a língua, depois roçou de leve a seção do osso com os dentes, então ela o tirou rápido da boca, astuta, enquanto aquele ossinho pulsava e expelia um generoso volume de sêmen. Olha, engolir, eu não engulo. Botou o biquíni, uma canga, pegou a mochila e o quadro de artesanato, e partiu. Deixou-me ali, suando e com o pinto murcho, a cueca samba canção agora arriada até a altura dos meus joelhos. E voltou para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Eu boto minhas roupas, deixo a orla e atravesso a ponte pênsil que me transporta de Passos de Torres (SC) para Torres (RS). Entro num restaurante simples, peço um copo d’água da torneira, explico que tive os meus pertences, carteira e celular furtados, o garçom se prontifica a ligar para a polícia, diz que num caso desses é recomendável ao menos que se faça um B.O., mas ele não sabe da minha história, então eu desconverso, digo que é desnecessário, depois eu cuido disso. Conforme os clientes vão deixando suas mesas, peço ao garçom para comer os restos de seus pratos e, logo, já estou almoçado. Agradeço ao garçom pela gentileza, peço desculpas pela situação constrangedora e me despeço. Sigo para fora da cidade, novamente margeando uma rodovia. Tento chamar a atenção dos carros com o dedo polegar da mão direita em movimentos pendulares centrados no cotovelo, indicando o sentido da via, ou, para quem não entendeu, pedindo carona, carona para qualquer lugar. Então pára uma camioneta branca com um grande refrigerador sobre o chassis, dois grandes marfins azuis formando um xis e compondo o logo lateral, placa de Gramado. Na Chevrolet branca estão o motorista e o ajudante que perguntam para onde é que eu vou. Digo que é para Gramado, mal entro no veículo e os dois começam a me contar sobre o trabalho diário do transporte de peixes, pegam o peixe fresco de Passos de Torres e os levam para a distribuição, a comercialização, o abastecimento das cozinhas dos hotéis e restaurantes de Gramado. Falam sobre os diversos tipos de peixes e outros frutos do mar, falam das suas quantidades em kilos, que transportam. Sobre as flutuações do mercado de acordo com as estações do ano, porque um determinado tipo de peixe é mais comum em tal e qual época, menos acessível nas outras, e assim é a dança da vida, de certa forma, a alimentação é apenas mais uma de nossas necessidades guiada pelos ciclos, a interagir com os ciclos de vigília e sono no ser humano, as fases da Lua, os ritmos dos ventos, das correntes oceânicas, estando assim, guardadas as devidas proporções, tudo interconectado, nós todos conectados através de anzóis, linhas de pesca, redes e outras estruturas de conexão, mesmo as nossas ondas cerebrais, a emitirem pulsos de alta freqüência, que são modulados pela freqüência dos batimentos do coração. Não estou aqui a discorrer sobre sístoles e diástoles apenas, estou, antes, me referindo ao metafísico associado a este órgão de natureza pulsante, vibrante e sensível ao meio, estou a discorrer das nossas escolhas, dos nossos sonhos, ao nível conceitual e potencial de construção da própria realidade, aquilo que verdadeiramente nos anima, nos faz seguir adiante, apesar das adversidades. Estou a tratar da fé, no seu sentido mais amplo. No amor, na caridade, no desejo de ver o outro feliz, em última instância, no anseio pela completude, na realização pessoal, a justificar toda a existência, se é que você me entende. Acho que não. Isso não foram eles que disseram, fui eu que pensei. Sou apenas um passageiro a ouvir, a ouvir, a ouvir, e registrar. Deixar fluir para dentro da mente, imiscuir aos sentidos, tirar as minhas próprias conclusões e sonhos, estes irão se materializar em breve. Sou gestante de ideias. Salto na cidade de Canela. Entro na Catedral de Pedra, escondo-me antes da nave ser fechada. Aqui passarei a noite só e em oração. Imerso aos cheiros de velas sendo queimadas, centenas de milhares de pedidos erguidos aos céus e agradecimentos por graças alcançadas reverberam simultaneamente na cavidade que é o interior daquela nave, edificada exatamente como um neurônio retransmissor do ser humano à divindade, para o equilíbrio de todo o cosmo. Deito-me sobre um banco da Catedral de Pedra e adormeço. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Na manhã seguinte o pároco se assusta ao ver-me deitado sobre um dos bancos da nave roncando como um porco. Mas poucos segundos depois, isso ele me disse depois, estava refeito do susto, porque sabia não se tratar de uma nova aparição de Jesus Cristo ou mesmo um desdobramento do Satanás com muitas cabeças, como fora descrito no apocalipse de São João Evangelista. Apenas um cara grisalho, centro e trinta quilos, parrudo, com a barba de lenhador mal desenhada no rosto, apenas um ser humano comum, sem grandes propensões para o bem ou para o mal, ele avaliou. Nada relacionado à ocorrência dos milagres, nada de possessões ou grandes distúrbios psíquicos, aqueles de natureza psico-cinética, exceção feita ao peido com forte odor de enxofre, ao bafo de centenas de serpentes, aos pêlos que remontam ao Tony Ramos, nada que estivesse de alguma forma relacionada aos mitos do herói ou àquele do asceta. Um bosta, apenas um bosta, com o perdão da palavra, ele me confidenciou. Sem saber como reagir àquela investida, eu disse que havia dormido na Catedral de Pedra porque precisava de confissão. Obviamente julguei que ele não tivesse qualificação para fazê-lo, e eu sairia ileso daquela sinuca de bico. Pois então vamos tomar um bom café preto, eu preparo, trouxe pão fresco e manteiga com sal, o pão é contado, mas deve sobrar um ou dois filões para você, sempre aparecem visitas inesperadas na hora do café, hoje foi você, depois eu faço a tua confissão. Trato é trato, retruquei. Então eu narrei para ele a história absurda de um cara que, sem norte, decide viajar sem destino rumo ao sul. Mas a história era outra, completamente diferente dessa narrativa sem pé nem cabeça, porque o que eu contei é como a minha vida devia ter sido, e também como é que ela foi, nada de sair por aí mandando os outros tomarem bem no meio dos seus respectivos cus, que se fodessem, cada qual a sua maneira e gosto, mas sim um processo conduzido por tênue encadeamento, de elos, uma fina corrente, filigrana, estes elementos de conexão flexíveis a unir as contas de vidro. Aquilo que eu narrei para o pároco, aquela jóia, era o que eu gostaria que você soubesse, tudo aquilo que eu não soube descrever aqui. Não por vergonha, mas porque de repente a vida se tornou um televisor cuspindo informações aleatórias, nunca uma história com continuidade, com altos e baixos, sim, a modularem a experiência, mas uma história com encadeamento, passível de renovação, de renascimento, como o Sol, como o dia, como a noite, como as fases da Lua. Então eu decidi mentir, omitir, distorcer, não na confissão para o pároco, mas na história paralela, nessa minha narrativa. Porque eu gostava de brincar de Deus, foder com os personagens, na mesma medida que Deus nos outorgou o livre arbítrio, enquanto eu escrevia. E isso tudo era apenas balela, de quem está fugindo, tentando esconder da vida a intensidade, enchendo-a de adornos, furtando-lhe a essência, do significado, e este não sou eu, em definitivo. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Caminho a pé da cidade de Canela para Gramado. Deixo para trás os meus pecados, deixo para trás a minha narrativa sobre um dos bancos da Catedral de Pedra. Daqui para frente, tudo o que está descrito nesse caderno foi anotado a priori, antes de se manifestar como realidade. Eu escrevo sobre um futuro que eu imagino, esse que é o da narrativa ficcional. Não a ideação mental da semente para a realidade da árvore, essa é outra história. Mas há ainda uma terceira possibilidade. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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No meio do caminho vejo a sinalização de acesso para uma cachoeira. Caminho por vinte e dois minutos, os vinte e dois minutos mais longos da minha vida. Chego numa clareira que se descortina frente à trilha na mata. Eu vejo rochas, arbustos de hortênsias, borboletas brancas, ao fundo, a banheira cavada na pedra por uma imensa queda d’água. Tiro toda a minha roupa, dobro-a, organizo com zelo sobre uma grande pedra ao Sol, distante da água. Entro na água super-gelada aos poucos, molhar as bolas do saco é quase premonitório, dá um aperto profundo na garganta. Então eu mergulho, dou braçadas parrudas, toscas, porém vigorosas em direção ao centro da cachoeira. Entro debaixo dela, sinto a pressão da água sobre os meus ombros, sobre a minha cabeça. Então subitamente relaxo o corpo, deixo o fluxo me levar para a borda. Faço isso por três vezes. Na quarta investida sinto câimbras fortes em ambas as panturrilhas. Simultaneamente. Depois outra fisgando o abdômen, fazendo eu me curvar, sem reação, apenas tentando respirar, permanecer na superfície. É quando dou com a cabeça forte numa pedra. Aquilo que cada um acredita ser a realidade, a narrativa dum certo homenzinho parrudo ou o exercício da imaginação para a construção da realidade. Esta é a terceira via, como se fossem três as caixas do gato de Schrödinger [*]. Enquanto nas duas primeiras caixas, nunca sabemos em qual delas ele está, só a intuição é bússola precisa, ela vai de encontro ao gato, assim como o gato procura por ela. Enfim.

        

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Escrito de 27-fev à 02-mar-2017

[*] https://pt.wikipedia.org/wiki/Gato_de_Schr%C3%B6dinger

Revisto e publicado em 07-mar-2017