Da pressão dos dias

outubro 30, 2013

 

 

Enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu: da indescritível contrição de minha alma, suprema angústia, que verte através de meu punho esquerdo nessa grafia imprecisa, ziguezagueante e tonta; à umidade do papel que, agora seco, outrora sorveu parte das lágrimas deste inverossímil remetente. Pouco importa como estes parcos arranjos de letras, sílabas, palavras, sentenças chegarão aos teus sentidos; saiba que valem cada árvore derrubada para a preparação de redação simples em folha; ainda que você a despreze, de novo e de novo, como é teu o costume de negligenciar a essência em detrimento de outros tantos retalhos insignificantes, duma existência reles.

 

Que fique desde já grafada a ferro e fogo, como se marca o gado, a minha desaprovação a esse teu comportamento mesquinho, ao teu egoísmo; o que credito a mais absoluta falta de sensibilidade.

 

Entretanto, e apesar disso, prossigo. Faço votos que em momento oportuno você retorne a estas mal traçadas linhas, este raciocínio torto de poeta, de quem tenta enxergar por frestas, ou através da bruma.

 

Vale lembrar que o tubo de pitot foi inventado pelo engenheiro francês Henri Pitot no inicio do século XVIII e aprimorado na metade do século seguinte pelo cientista Henry Darcy ao seu formato atual. Este simples aparato é largamente utilizado em aeronaves para a medição da velocidade.

 

O medidor de pitot consiste em fino tubo alinhado na direção do fluxo atmosférico, ou seja, alinhado à direção de voo. Outra abertura é alinhada ortogonalmente ao fluxo de ar, em geral num plano paralelo à superfície da fuselagem. Essas tomadas de ar apresentam duas diferentes pressões: a primeira delas diz respeito à pressão de estagnação, enquanto a outra se refere à pressão estática. Ambas as pressões são confrontadas, conduzidas aos lados opostos de um vaso com diafragma central, de modo que a deformação desta membrana está associada à pressão dinâmica de fluxo. A pressão dinâmica é também igual à metade da densidade do ar vezes a velocidade da aeronave ao quadrado, sendo então possível a avaliação dessa grandeza.

 

Mas esta velocidade é medida em relação a qual referencial? A aeronave está viajando no espaço e para a sustentação interessa apenas a sua velocidade com relação ao fluxo de ar. Em última análise, pouco interessa a velocidade da aeronave com relação ao solo. A sustentação pode ser garantida mesmo com esta parada, desde que seja provido necessário fluxo ar, como é o caso dos ensaios em túnel de vento.

 

Habitando essa nossa pedra celeste, somos bombardeados por flutuações da pressão de estagnação advindas do meio. Estas ondas sonoras que viajam pelo ar chegam aos nossos tímpanos – as membranas internas dos nossos ouvidos. Doutro lado do tímpano há a pressão interna do aparelho auditivo, e a modulação da pressão dinâmica resultante é o que possibilita o sentido de audição.

 

Os padrões se repetem. Por analogia, podemos pensar nas demandas do mundo externo a se chocarem com as nossas expectativas mais íntimas – abordando a questão pelo viés da psicologia. As pressões conscientes se contrapõem àquelas inconscientes resultando daí o estado de espírito mais ou menos depressivo, mais ou menos maníaco. Enfim, a tênue fronteira entre o equilíbrio mental e a loucura.

 

Todos estes problemas estão associados à acomodação dos opostos em cada um desses pontos de medida, à nossa experiência. O frio e o calor, o leve e o pesado, a luz e a treva: são facetas da realidade última que é.

 

A percepção da realidade é atributo intrínseco à vida em todas as suas formas, das mais simples aos mais complexos organismos. E viver não passa de uma viagem no fluxo de eventos do espaço-tempo.

 

Por isso tudo, imagine dentro de cada uma de nossas cabeças um buraco negro, uma dobra do espaço-tempo, um ponto onde o observador se funde ao universo de eventos, com potencial de realimentação das expectativas, da geração de respostas criativas e reorganização dos padrões da realidade.

 

Se for isso mesmo, dobra no espaço-tempo, cada criatura pode ser representada por uma onda se propagando no oceano que é o universo. Uma dobra, uma onda, um vinco que surge pequenino da surpresa de aperceber-se vivo até a sua completa reintegração ao fluxo cósmico.

 

E fique desde já grafado a ferro e fogo, como se marca o gado: enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu. Noutro canto, entretanto, brotos nascem das sementes de sonhos.

 

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Passei as últimas semanas um tanto casmurro, estudando profundamente certo livro negro, escrito em caixas baixas, de um parágrafo só. Anjos fornicatórios devem mesmo habitar os céus. E que eles me perdoem se cheguei à conclusão equivocada, ferindo suas vaidades. Na lata, na humilde opinião deste leitor “palavras que devoram lágrimas (ou a felicidade cangaceira)” de Roberto Menezes é, de longe, a melhor obra de literatura deste terceiro milênio que tive a oportunidade de apreciar. Sinceramente recomendo-o aos seres humanos.

Promoção J.X.

outubro 27, 2013

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