A minha história em 3D

abril 1, 2017

      

Eu fui sendo levada pelo rio, arrastada pela força de suas águas, eu vi peixes, até que eu me acomodei num depósito aluvial, numa curva de rio, e lá eu fiquei confinada, entre outros sedimentos, porque a correnteza já não me levava. Não era isso que eu tinha nos meus planos. Mas isso foi antes, muito antes.

     

E um dia ela quis fazer para você um poema, como um daqueles de Vinícius de Moraes ou de Chico Buarque, mas ela não era poeta. E aquelas suas poesias lhe pareciam muito estranhas, como vórtices, com um gargalo muito estreito, quase hermético, na sua capacidade de absorver silêncios, mesmo em meio a tantas palavras. Ela achava aquelas tuas poesias até bonitinhas, só que elas não lhe diziam nada. Mesmo assim, ela queria fazer um poema para você.

     

O mundo dá voltas. O tempo passou e um dia eu fui recolhida. Fizeram então um bloco úmido de mim, in natura, como tantos outros blocos, dispostos numa prateleira. Era então essa a minha sina. Uma espécie de corpo amorfo, despido de qualquer significado senão minha própria matéria, sem um espírito a me animar. E não era isso que eu tinha nos meus planos.

      

Olha cara, eu te amo, mas o plantio nesse terreno tem pouca chance de ser fértil, porque o meu coração já derramou lágrimas demais. E eu preciso de atenção, de segurança, de carinho; assim como aqueles que eu dispenso para com as plantas do meu jardim. E eu sinceramente não sei se você é capaz disso. Eu preciso que você me prove, mas as provas podem doer em você muito mais do que você é capaz de suportar. E será então, que valerá a pena para você? Ou você se perderá no caminho, assim como eu certa vez me perdi? Eu quero você caminhando ao meu lado, mas você precisará entender da minha dor, aceitar-me como sou e, ainda assim, achar isso bom. Olha cara, eu te amo, mas seja o que Deus quiser. Era essa a poesia que ela queria escrever. Mas isso não era poesia. E ela não a escreveu.

       

Eu sei disso porque um dia ela me tomou em suas mãos e me modelou carinhosamente, imbuindo-me de um espírito, de um significado enquanto me acariciava, definindo em mim curvas doces, superfícies suaves, com as suas mãos molhadas na água, para o acabamento final. Depois, com um palito de dentes, ela tatuou signos em ambos as superfícies abaloadas com a sua mão canhota. Estes signos que eu não sei dispor em palavras. Do que eu já pude descrever, dá pra você imaginar que eu não fui alfabetizada, mas eu posso senti-los, porque eles já fazem parte de mim.

       

E, sem nenhum aviso, ela me tocou no fogo alto do forno, me deixando lá por mais de três horas! Depois pincelou a superfície cuidadosamente com verniz acrílico, revestindo-me de carinho, de esperança. Para que eu renascesse da argila, na forma de um coração.

         

Sempre que eu penso nisso, em vir a ser o que eu sempre quis, agradeço a ela por ter tido a ideia de acreditar na minha matéria simples, no barro, como meio de expressão mais sublime. E esta história eu escrevi para você, que cuida de mim com zelo, mesmo depois de tanto tempo.

       

Olha cara, um dia o mundo vai acabar. Um asteroide gigante vai se chocar com a Terra e você sabe disso, só finge que não sabe. Isso já aconteceu antes, bem antes. Esse seu planetinha comparado ao céu, é como um grão de caulinita, de ilita, ou de vermiculita, sendo levado através do leito de um rio pelo poderoso fluxo hidrodinâmico, um único grão, como um dia eu fui. Mas enquanto isso não acontece, enquanto há vida, cuida de mim, que eu cuido de você. Isso ela não disse, não escreveu, sou eu que estou te dizendo.

       

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Creio que o estopim para o meu devaneio foi a elevação da taxa de oxigênio (ao menos para os meus padrões) naquelas noites do outono de 1914. A máquina do sono, assim a denominei. Um caso de amor a primeira vista, não podia mais repousar sem ela, qual boneca inflável para abraçá-la de bruços e, depois do sexo, adormecermos juntos em conchinha. E quando tomei o táxi, em Niterói, o senhorzinho negro e delgado, aparentando seus oitenta e tantos anos, me disse que o ser humano estava melhorando, a cidade “cada dia tão mais bonita” que não se importava de trabalhar mesmo depois de aposentado do emprego público, ao contrário, era um prazer conversar com os fregueses enquanto dirigia através de veredas naqueles tempos ídos. Invejei-o pelo seu anel prateado de São Jorge. Invejei-o a ponto de tomar a barca, seguir para o outro lado da baia, vagar a esmo e casmurro pelo centro do Rio de Janeiro na busca doutro amuleto daquele, porque eu acreditava emanar dele o elixir para a felicidade. O elixir para a felicidade é o que eu buscava naquele outono de 1914. E o leão do imposto de renda já não me botava medo. Sentia-me senhor de meu próprio terreno. Nem a morte daquele chão me subtrairia, senão para sete palmos debaixo dele (macio e aquecido ventre). Então, não obstante ao imóvel, declarei o jardim, o orvalho e ainda, por via das dúvidas, a nuvem da qual ele se desprendia, se a manhã era fria. Tão somente por via de todas as dúvidas, mas de todas as dúvidas do mundo, foi que eu declarei as flores. E as flores eu as declarei em alto e bom som. É de se imaginar que eu havia aposentado de velho todos os medicamentos para os meus miolos quando me lancei à singular empreitada de vigorosas caminhadas noturnas. Devo confessar que passado tanto tempo, e apesar de tudo, de nada disso me arrependo. Mesmo tendo atrasado meu relógio exatamente cem anos, o século mais intenso eu vivi naquele singular outono de 1914.

 

Sobrevivência

setembro 6, 2013

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Silêncio.

A hora ou o dia pouco interessa. Jacinto chega à praia, tira a sua camisa, avança os pés descalços pela areia.

Agora ouça ao fundo: oceano. Ele toma um gole da aguardente enquanto espera pelo momento oportuno de salgar o corpo.

Jorge imagina Jacinto que (por sua vez) o descreve com a esferográfica. É o que tem que ser. Jacinto existe e filtra o mundo através dos seus sentidos.

Ele é essa massa humana. E = m c2, segundo Einstein. E quem sou eu para duvidar dele? Quanto maior a massa, mais de Jacinto atrelado ao seu próprio mundo.

Jorge está do outro lado. Noutro plano, donde expulsa ideias imundas sobre o papel. Um punhado menor da inércia nesse sistema ligado de molas, de amortecedores. A energia se equilibrando nos pratos da balança.

E deve você saber que Jacinto fumava tranquilamente um cigarro natural ao longo de todo o último parágrafo.

Ah, o mar! Pensa Jorge. Jacinto recebe uma baforada refrescante da maresia. As ondas fluindo, energia em movimento. Jacinto leva-as diretas na cara. Até aquele ponto que chamamos de realidade.

Jacinto toma mais um gole da aguardente. E o outro se decide finalmente por um mergulho…

Sobreviveremos?

Mau juízo

abril 19, 2013

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Não dou bola para as pessoas do prédio onde eu moro. Elas não são confiáveis.

As pessoas, do prédio onde eu moro, pensam que tenho uma vida social ativa, muitas amigas e amigos.

Entretanto, essas mesmas pessoas, do prédio onde eu moro, ignoram por completo minha exímia habilidade gastronômica. Elas também não sabem que divido meu pequeno apartamento com uma estátua em escala de redução 1:3 de Virgulino Ferreira.

Algumas dessas pessoas, do prédio onde eu moro, simplesmente desconhecem que Virgulino Ferreira foi um grande mestre na empunhadura de seu facão. É exatamente por esta sua qualidade, dentre tantos defeitos que lhe são atribuídos, que admiro Virgulino Ferreira.

As pessoas, do prédio onde eu moro, nunca viram uma única criatura, senão eu, deixar o apartamento.

E eu, só engordando.

Daí os malentendidos…

Virgulino Ferreira é mudo e não dá com a língua nos dentes.

Não vá, você, fazer mau juízo.

As pessoas, do prédio onde eu moro, nunca me viram entrar acompanhado.

Sob o mesmo céu

agosto 10, 2012

Ele dizia que a cidade grande não passava de um amontoado de braços, de pernas, de passos apressados em incessante movimento por entre as vias de piche. Dentro das enormes caixas de concreto, acondicionados às mesas das repartições, repousavam os corpos, com os dedos indicadores de suas mãos direitas a clicarem frenéticos os mouses, os olhos fixos no monitor. E resultaria daí a suspensão temporária da vida.

Dentro das barcas – ao sabor das ondas – ou ainda no sacolejar de velhos ônibus enferrujados, a rotina do transporte para a manutenção da metrópole, como que o fluxo sanguíneo a oxigenar um gigante organismo, nesse nosso eterno ir e vir.

Ele me disse que a vida – a verdadeira vida – habita os interstícios desse complexo de concreto e piche. Ela reside nas fendas. No burburinho às portas estreitas do botequim; a gargalhada sincera no bate-papo dos camaradas cujos destinos se cruzam no coletivo; na algazarra das crianças, brincando inocentes na areia da praia em pleno horário de expediente.

Expurgou as suas dores, contou dos seus amores, alguns temores e outros sonhos. Tudo isso ele despejou em meus ouvidos num breve instante; desses raros, nos quais a vida mostra-se plena. E não recordo ao certo onde foi que nos falamos; se o sol estava a pino, ou se fazia noite escura como o breu. Importa que aquela ideia fez com que eu refletisse. Estou vivo.