no dia do juízo final
de nada servirão os múltiplos pézinhos
do tatu-bola:
ele sairá girando!
todas as vaquinhas de presépio
cairão por terra.
só restarão os verdadeiros gatos,
de longos bigodes.
eu lhe disse, charles,
nem tudo é herança gen ética.
essas ideias im plantadas ajudam,
mas não salvam vidas.
não passam de mitos lógicos,
o tempo irá di ssolve-los.
o que há de melhor,
de mais nobre e de valor
se conquista com esforço.
se um cometa queima
na gravidade
é porque já perdeu sua sus
tentação no e s p a ç o,
sua razão de existir.
e de nada adianta
chorar o leite derramado.
melhor entender antes
do que lamentar depois
– só uma dica.
e para os malabaristas de plantão
saibam que do chão não caem
as bolinhas.
sim,
as girafas triunfarão ao final
porque esticaram o pescoço.
na árvore da sabedoria
pastarão tranquilas e imunes
ao choro dos bebezões:
seres hu, manos,
que só querem tirar vantagem
de tudo.
no dia do juízo final,
mas só lá, marck,
entenderemos, afinal,
que os poetas não são tolos.
no é?

 

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As cartas de Rilke

julho 28, 2018

   

1n7r0 :: O Mestre Rainer Maria Rilke trocou correspondências com o Jovem Franz Xaver Kappus no período de fevereiro de 1903 até dezembro de 1908. Dez cartas de Rilke, endereçadas a Kappus, foram publicadas posteriormente – em junho de 1929 – resultando nesta Pequena-Grande Obra que trago hoje em Minhas Mãos – às vésperas do mês de agosto de 2018.

   

Trechos especialmente selecionados de cada uma dessas Dez Cartas de Rilke são apresentados nesta singela compilação. Entretanto, fica a minha forte recomendação quanto a leitura integral de “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, 96p., Coleção L&PM POCKET PLUS, v.530, Porto Alegre, 2013.

   

c4r74 1 :: “Sua carta só me alcançou há poucos dias. Quero lhe agradecer por sua grande e amável confiança. Mas é só isso que posso fazer. Não posso entrar em considerações sobre a forma dos seus versos; pois me afasto de qualquer intenção crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.”

   

“O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda.”

   

c4r74 2 :: “Deve ter certeza de que sempre me alegrará com cada carta, só tem de ser indulgente em relação à resposta, que talvez venha a deixá-lo de mãos vazias. Pois, no fundo, e justamente quanto aos assuntos mais profundos e mais importantes, estamos indizivelmente sozinhos, de modo que muita coisa precisa acontecer para que um de nós seja capaz de aconselhar ou mesmo ajudar o outro, muitos êxitos são necessários, toda uma constelação de acontecimentos tem de se alinhar para que isso dê certo alguma vez.”

   

c4r74 3 :: “Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.”

   

“Ser artista significa: não calcular, nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio às dores às quais sou grato: a paciência é tudo!”

   

c4r74 4 :: “Pois mesmo os melhores erram nas palavras quando elas devem significar o que há de mais leve e quase indizível. Apesar disso, acredito que o senhor não precise ficar sem uma solução, caso se atenha as coisas que lhe são semelhantes, nas quais meus olhos descansam agora. Se o senhor se ativer à natureza, ao que há de mais simples nela, às pequenas coisas que quase não vemos e que, de maneira imprevista, podem se tornar grandes e incomensuráveis; se o senhor tiver esse amor pelo ínfimo e procurar com toda simplicidade conquistar como um servidor a confiança do que parece pobre – então tudo se tornará mais fácil, pleno e de algum modo reconciliador para o senhor, talvez não no campo do entendimento, que fica para trás, espantado, mas em sua consciência mais íntima, no campo da vigília e do saber.”

   

“A volúpia corporal é uma vivência dos sentidos, não difere do simples olhar ou da pura sensação de água na boca causada por uma fruta; ela é uma grande experiência, infinita, que nos é dada, um saber do mundo, a plenitude e o brilho de todo saber. Não é ruim o fato de a aceitarmos; ruim é o fato de que quase todos abusam dessa experiência e a desperdiçam, usando-a como um estímulo nos momentos cansados de sua vida, como uma distração, em vez de uma concentração para alcançar pontos mais altos. Os homens converteram até mesmo o ato de comer em uma outra coisa: carência de um lado e excesso por outro obscureceram a clareza dessa necessidade; e igualmente obscurecidas se tornaram todas as necessidades profundas e simples nas quais a vida se renova.”

   

c4r74 5 :: “Chegamos a Roma faz mais ou menos seis semanas.”

   

“Águas infinitamente vivas correm nos antigos aquedutos para a grande cidade e dançam nas diversas praças sobre conchas brancas de pedra, jorram em pias amplas e espaçosas, rumorejam durante o dia e aumentam o seu murmúrio noite adentro, pela madrugada grandiosa e estrelada, com ventos suaves. Há por aqui jardins, alamedas e escadas inesquecíveis, escadas projetadas por Michelangelo, escadas construídas segundo o modelo das águas que escorrem por córregos – amplo declive em que um degrau gera o outro como uma onda sai da outra. Por meio de tais impressões, uma pessoa se recolhe, recupera-se da multidão pretensiosa que fala (como é expansiva!) e aprende devagar a reconhecer as poucas coisas em que perduram o que de eterno se pode amar e a solidão de que se pode tomar parte em silêncio.”

   

“Passarei ali todo o inverno, alegrando-me com uma grande quietude, da qual espero receber de presente horas boas e produtivas…”

   

c4r74 6 :: “Pense, meu caro, no mundo que o senhor leva dentro de si, então dê a esse pensamento o nome que quiser; pode ser lembrança da própria infância ou anseio do próprio futuro – apenas preste atenção no que surgir de dentro e eleve-o acima de tudo que o senhor percebe em torno. Se um acontecimento íntimo é digno de todo o seu amor, é nesse acontecimento que o senhor deve trabalhar de algum modo, sem perder muito tempo nem muito esforço para esclarecer sua posição em relação aos outros homens.”

   

“As crianças ainda são como o senhor era quando criança, igualmente tristes e igualmente felizes. Quando pensar em sua infância, viva de novo entre elas, de modo que os adultos não sejam nada e suas virtudes não tenham valor algum.”

   

“O senhor não percebe como tudo o que acontece é sempre de novo um começo?”

   

“Assim como as abelhas juntam o mel, reunimos o que há de mais doce em tudo e o construímos.”

   

c4r74 7 :: “Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a verdadeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar.”

   

“Um dia se encontrarão a menina e a mulher cujos nomes não significarão apenas uma oposição ao elemento masculino, mas algo de independente, algo que não fará pensar em complemento ou em limite, apenas na vida e na existência: o ser humano feminino.”

    

Tal progresso transformará profundamente a vivência do amor, agora cheia de equívocos, trará alterações profundas (a princípio contra a vontade dos homens ultrapassados), configurando uma relação de ser humano com ser humano, não mais de homem e mulher. E esse amor mais humano (que se realizará de modo infinitamente delicado e discreto, certo e claro, em laços atados e desatados) será semelhante àquele que nós preparamos, lutando com esforço, portanto ao amor que consiste na proteção mútua, na delimitação e saudação de duas solidões.”

   

c4r74 8 :: “Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós. Isso porque estamos sozinhos com o estranho que entrou em nossa casa, porque tudo o que era confiável e habitual nos foi retirado por um instante, porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração.”

   

“Vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer.”

   

“É necessário – e dessa maneira nos dá aos poucos a nossa evolução – que não experimentemos nada de estranho, mas apenas aquilo que nos pertence há muito tempo. Já foi preciso modificar tantos conceitos relativos ao movimento, e também se aprenderá gradativamente que vem de dentro dos homens aquilo que damos o nome de destino, não se trata de algo que entre neles partindo de fora.”

   

“Assim como, por muito tempo, os homens se enganaram a respeito do movimento do sol, eles ainda se enganam quanto ao movimento do porvir. O futuro permanece firme, caro senhor Kappus, mas nós nos movemos no espaço infinito.”

   

“No entanto é necessário que vivamos também isso. Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de ser possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e inexplicável entre tudo com que nos deparamos.”

   

“Mas apenas quem está pronto para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, viverá a relação com uma outra pessoa como algo vivo e irá até o fundo de sua própria existência.”

   

Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los.”

   

c4r74 9 :: “É sempre o que eu já disse, sempre o desejo que o senhor descubra em si mesmo paciência o bastante para suportar e simplicidade o bastante para acreditar. Que o senhor ganhe mais e mais confiança para aquilo que é difícil, para a sua solidão em meio aos outros. De resto, deixe a vida acontecer. Acredite em mim: a vida tem razão em todos os casos.”

   

“Quanto aos sentimentos: são puros todos os sentimentos que o senhor acumula e eleva; impuro é o sentimento que abrange apenas um lado de seu ser e assim o desfigura. Tudo que o senhor pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo que faz do senhor mais do que foi até agora em suas melhores horas é correto. Toda a intensificação é boa, caso esteja em todo o seu sangue, caso não seja embriaguez, nem obscuridade, mas alegria da qual se enxerga o fundo. Entende o que quero dizer?”

   

c4r74 10 :: “O senhor deve saber, caro senhor Kappus, como estou alegre por ter em mãos esta sua bela carta. As notícias que me dá, reais e explícitas como são desta vez, parecem-me boas, e quanto mais considero o assunto, mais as percebo como sendo boas de fato.”

   

“Deve ser imenso o silêncio em que tais ruídos e movimentos têm lugar. E quando se pensa que a tudo isso ainda se acrescenta a presença do mar longínquo, ressoando talvez como o tom mais íntimo daquela harmonia pré-histórica, só se pode desejar ao senhor que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em sua pessoa a grandiosa solidão que não poderá mais ser riscada de sua vida.”

   

“O fato de nos encontrarmos em situações que trabalham em nós, que de tempos em tempos nos põem diante das grandes coisas da natureza, é tudo que se faz necessário.”

   

Taxa de Compressão = 6,5 páginas de excertos / 96 páginas do livro = 6,77 %

   

 

 

Shock wave

julho 27, 2018

   

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53r h0n3570 c0n5190 m35m0 ::

issO se espalha, cOmO uma Onda, através dOs relaciOnamentOs humanOs.

3 0 un1v3r50 49r4d3c3!

   

   

“O fato aconteceu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi de imediato porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo, para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrever, os outros o lerão como um conto e, com os anos, talvez o seja para mim”.

   

“Tive de repente a impressão (que segundo os psicólogos corresponde aos estados de cansaço) de já ter vivido aquele momento”.

   

“– Posso lhe provar que não minto. Vou lhe contar coisas que um desconhecido não pode saber”.

   

“De repente me lembrei de uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Quando ele acorda, ali está a flor”.

   

“– Tudo isso é um milagre – conseguiu dizer – e milagres dão medo. Os que foram testemunhas da ressureição de Lázaro devem ter ficado horrorizados.”

   

Trechos do conto “o outro” de Jorge Luis Borges.

   

“Nossos caminhos cruzaram-se. Ulrica, naquela tarde, prosseguiria a viagem para Londres; eu, para Edimburgo.

– Em Oxford Street – disse – repetirei os passos de De Quincey, que procurava sua Anna perdida em meio à multidão de Londres.

– De Quincey – respondi – deixou de procurá-la. Eu, ao longo do tempo, continuo a procurá-la.

– Talvez – disse em voz baixa – a tenhas encontrado.

Compreendi que uma coisa inesperada não estava proibida para mim e lhe beijei a boca e os olhos. Afastou-se com suave firmeza e declarou em seguida:

– Serei sua na pousada de Thorgate. Peço-lhe que, por enquanto, não me toque. É melhor assim”.

   

“Acrescentou em seguida:

– Ouça bem. Um pássaro está prestes a cantar”.

   

Trechos do conto “ulrica” de Jorge Luis Borges.

   

“Meu nome é Alexandre Ferri”.

   

“Por indecisão ou por negligência ou por outras razões, não me casei, e agora estou só”.

   

“De qualquer modo, a tarefa que me impus não é fácil”.

   

“Trouxe consigo uns cem livros, os únicos que, atrevo-me a afirmar, dom Alejandro leu no decurso de sua vida. (Falo desses livros heterogêneos, que tive nas mãos, porque num deles está a raiz de minha história)”.

   

“Planejar uma assembleia que representasse todos os homens era como fixar o número exato dos arquétipos platônicos, enigma que ocupou durante séculos a perplexidade dos pensadores”.

   

“Sinto que agora, e só agora, começa a história. As páginas já escritas não registraram nada além das condições que o acaso ou o destino exigia para que acontecesse o fato incrível, talvez o único de toda a minha vida”.

   

“– Levei quatro anos para compreender o que lhes digo agora. O empreendimento que realizamos é tão vasto que abarca, agora sei, o mundo inteiro”.

   

“O Congresso do Mundo começou com o primeiro instante do mundo e prosseguirá quando formos pó. Não existe um lugar em que não esteja”.

   

Trechos do conto “o congresso” de Jorge Luis Borges.

   

“Às vésperas de prestar o último exame na Universidade do Texas, em Austin, soube que meu tio Edwin Arnett morrera de um aneurisma, nos confins remotos do continente. Senti o que sentimos quando alguém morre: a angústia, já inútil, de que nada nos teria custado ter sido melhores”.

   

“Uma das laranjas da sobremesa foi seu instrumento para me iniciar ao idealismo de Berkeley; o tabuleiro de xadrez bastou-lhe para os paradoxos eleáticos. Anos mais tarde me emprestaria os tratados de Hinton, que busca demonstrar a realidade de uma quarta dimensão do espaço, a qual o leitor consegue intuir mediante complicados exercícios com cubos coloridos. Não me esquecerei dos prismas e pirâmides que construímos no piso do escritório”.

   

“Meu tio era engenheiro. Antes de se aposentar de seu cargo na Ferrovia, decidiu se estabelecer em Turdera, que lhe oferecia as vantagens de uma solidão quase agreste e da proximidade de Buenos Aires”.

   

“Meu tio, à maneira de quase todos os senhores de sua época, era livre-pensador”.

   

“Aquela tarde passei em frente à casa. O portão da grade estava fechado e umas barras retorcidas. O que antes fora jardim era mato. À direita havia uma sanga de pouca fundura e as bordas estavam pisoteadas.

Restava-me uma jogada, que fui retardando durante dias, não só para senti-la de todo inútil, mas porque me arrastaria à inevitável, à última”.

   

“Disse a mim mesmo repetidas vezes que não existe outro enigma senão o tempo, essa infinita urdidura do ontem, do hoje, do futuro, do sempre e do nunca”.

   

“Dentro haviam tirado as lajotas e pisei num capim desgrenhado. Um cheiro doce e nauseabundo penetrava a casa. À esquerda ou à direita, não sei muito bem, tropecei numa rampa de pedra. Subi apressadamente. Quase sem refletir, fiz girar a chave de luz”.

   

Trechos do conto “there are more things” de Jorge Luis Borges.

   

“O conselho de vender o que se possui e dá-los aos pobres é acatado rigorosamente por todos; os primeiros beneficiados o dão a outros e estes a outros. É esta a explicação suficiente da indigência e da nudez que também os avizinha do estado paradisíaco”.

   

“Sei a Verdade, mas não posso discorrer sobre ela. O inestimável dom de comunicá-la não me foi concedido. Que outros, mais felizes que eu, salvem os sectários da palavra. Pela palavra ou pelo fogo. Mais vale ser executado que dar a morte a si mesmo”.

   

“Era preciso que as coisas fossem inesquecíveis”.

   

“Não há culpado único; não há um que não seja um executor, sabendo ou não, do plano traçado pela Sabedoria. Agora todos compartilham a Glória”.

   

Trechos do conto “a seita dos trinta” de Jorge Luis Borges.

   

“Debatia-se o problema do conhecimento. Alguém invocou a tese platônica de que já vimos de tudo num mundo anterior, de modo que conhecer é reconhecer-se; meu pai, creio, disse que Bacon tinha escrito que, se aprender é recordar, ignorar é de fato ter esquecido”.

   

“Vocês nunca estiveram em Lobos? Dá no mesmo; não existe um único povoado na província que não seja idêntico aos demais, até no fato de se acreditar diferente. As mesmas ruelas de terra, os mesmos terrenos baldios, as mesmas casas baixas, como se feitas para um homem a cavalo ganhar importância. Numa esquina apeamos defronte a uma casa pintada de azul-celeste ou de rosa, com algumas letras que diziam La Estrella”.

   

“Havia bastante gente; cerca de meia dúzia de mulheres com batas floridas iam e vinham. Uma senhora de respeito, trajada inteiramente de preto, pareceu-me a dona da casa. Rufino cumprimentou-a e disse:

– Aqui lhe trago um novo amigo, que não é muito de montar a cavalo.

– Já vai aprender, não se preocupe – respondeu a senhora.

Senti vergonha. Para despistar ou para que vissem que eu era menino, comecei a brincar com o cachorro, na ponta de um banco”.

   

“Chamavam-na Cativa. Notei-lhe algo de índia, mas os traços eram um desenho e os olhos muito tristes. A trança chegava até sua cintura. Rufino, que percebeu que eu a olhava, disse-lhe:

– Conte de novo o ataque de índios, para refrescar a memória”.

   

“– Quando me trouxeram de Catamarca, eu era muito pequena”.

   

“As mulheres eram levadas para Tierra Adentro e faziam de tudo com elas. Fiz o que pude para não acreditar. Lucas, meu irmão, que depois foi ferido de lança, me jurava que era tudo mentira, mas, quando uma coisa é verdade, basta que alguém a diga uma única vez para sabermos que é verdade. O governo reparte mantimentos e erva entre eles para mantê-los quietos, mas eles têm bruxos muito precavidos que lhes dão conselho. A uma ordem do cacique não lhes custa nada atacar entre os fortins, que estão espalhados”.

   

“Não sei calcular o tempo”.

   

“Vi uma flor de cardo numa sanga e sonhei com os índios. De madrugada aconteceu”.

   

“Depois a voz da Cativa me chamou num sussurro.

– Estou aqui para servir, mas às pessoas de paz. Aproxime-se que não vou lhe fazer nenhum mal”.

   

“– É isso mesmo. Ao cabo de umas poucas horas eu havia conhecido o amor e encarado a morte. Todas as coisas são reveladas a todos os homens ou, pelo menos, tudo aquilo que a um homem é dado conhecer, mas a mim, da noite à manhã, me foram reveladas essas duas coisas essenciais”.

   

Trechos do conto “a noite dos dons” de Jorge Luis Borges.

   

“A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro”.

   

“O Rei trocou umas poucas palavras com os homens de letras que o rodeavam e falou desta maneira:

– De tua primeira loa pude afirmar que era um feliz resumo de quanto se cantou na Irlanda. Esta supera todo o anterior e também o aniquila. Eleva, maravilha e deslumbra. Não a merecerão os ignaros, mas, sim, os doutos, a minoria. Um cofre de marfim será a custódia do único exemplar. Da pena que produziu obra tão eminente podemos esperar ainda uma obra mais alta”.

   

“O aniversário voltou. As sentinelas do palácio observaram que o poeta não trazia manuscrito algum. Não sem estupefação o Rei olhou para ele; quase era outro. Algo, que não era o tempo, tinha sulcado e transformado seus traços. Os olhos pareciam olhar muito longe ou ter ficado cegos. O poeta pediu-lhe que trocasse umas palavras com ele. Os escravos esvaziaram a câmara.

– Não executaste a ode? – perguntou o Rei.

– Sim – disse tristemente o poeta. – Tomara Cristo Nosso Senhor me tivesse proibido.

– Pode repeti-la?

– Não me atrevo.

– Eu te dou a coragem que te faz falta – declarou o Rei.

O poeta disse o poema. Era uma única linha”.

   

“– Nos anos de minha juventude – disse o Rei – naveguei rumo ao ocaso. Numa ilha vi lebréus de prata que matavam javalis de ouro. Noutra nos alimentamos com a fragrância das maçãs mágicas. Noutra vi muralhas de fogo. Na mais longínqua de todas um rio abobadado e pendente sulcava o céu e por suas águas iam peixes e barcos. Essas são maravilhas, mas não se comparam com o teu poema, que de alguma forma as encerra”.

 

Trechos do conto “o espelho e a máscara” de Jorge Luis Borges.

    

“Ainda havia estrelas na madrugada. Atravessamos um espaço de terra com choças dos dois lados. Tinham me falado de pirâmides; o que vi na primeira das praças foi um poste de madeira amarela. Distingui numa ponta a figura negra de um peixe. Orm, que nos acompanhara, disse-me que aquele peixe era a Palavra. Na praça seguinte vi um poste vermelho com um disco. Orm repetiu que era a Palavra. Pedi-lhe que a dissesse. Disse-me que era um simples artesão e que não a sabia”.

   

“Vi alguma lágrima. O homem levantava ou distanciava a voz e os acordes quase iguais eram monótonos ou, melhor ainda, infinitos. Eu teria gostado se o canto continuasse para sempre e fosse minha vida”.

   

“Respondi:

– Não pude ouvi-la. Peço-te que me digas qual é.

Vacilou alguns instantes e respondeu:

– Jurei não revelá-la. Além disso, ninguém pode ensinar coisa alguma. Deves procurá-la sozinho”.

   

“Se o vento for favorável, amanhã navegarás rumo ao sul”.

   

“Mais de uma vez o destino me obrigou a matar. Um soldado grego desafiou-me e ofereceu a escolha entre duas espadas. Uma era um palmo maior que a outra. Compreendi que tentava me intimidar e escolhi a mais curta. Perguntou-me por quê. Respondi-lhe que de meu punho ao coração dele a distância era igual”.

   

“– Também a mim a vida deu tudo. A todos a vida dá tudo, mas a maioria ignora isso”.

   

“– Tu me entendeste”.

   

Trechos do conto “undr” de Jorge Luis Borges.

   

“– Que aconteceu com os governos?

– Segundo a tradição foram caindo gradualmente em decurso. Convocavam as eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e efígies. Os políticos tiveram de procurar ofícios honestos; alguns foram bons cômicos ou bons curandeiros. A realidade, sem dúvida, terá sido mais complexa que este resumo”.

   

“– Esta é minha obra – declarou.

Examinei as telas e detive-me diante da menor, que representava ou sugeria um pôr do sol e que encerrava algo infinito.

– Se lhe agrada, pode ficar com ela, como lembrança de um amigo futuro – disse com palavra tranquila”.

   

Trechos do conto “utopia de um homem que está cansado” de Jorge Luis Borges.

   

“Sabem também que lhes é proibido fumar em classe e que não podem se apresentar disfarçados de hippies. Quanto ao meu frustrado rival, seria de péssimo gosto que eu o criticasse”.

   

“Devo ao senhor, Doutor Winthrop, uma explicação pessoal”.

   

“Ao contrário dos demais, eu sei quase imediatamente quem é o outro. Aquela manhã me bastou. Compreendi, meu querido Winthrop, que o senhor se rege pela curiosa paixão americana da imparcialidade”.

   

Trechos do conto “o suborno” de Jorge Luis Borges.

   

“Não procurava entender o que ia lendo. Era livre-pensador, mas não deixava passar uma única noite sem repetir o Pai-Nosso”.

   

“Sabia que sua meta era a manhã do dia 25 de agosto. Sabia o número preciso de dias que tinha de transpor. Uma vez alcançada a meta, o tempo cessaria, ou melhor, nada que acontecesse depois importava. Esperava a data como quem espera a felicidade ou a libertação”.

   

“De início quis construir uma rotina. Matear, fumar os cigarros de fumo crioulo que enrolava, ler e repassar uma determinada cota de páginas”.

   

Trechos do conto “avelino arredondo” de Jorge Luis Borges.

   

“– É o disco de Odin. Tem um único lado. Na Terra, não existe outra coisa que tenha um só lado. Enquanto estiver em minha mão, serei rei.

– É de ouro? – disse a ele.

– Não sei. É o disco de Odin e tem um só lado.

Então senti a cobiça de possuir o disco. Se fosse meu, poderia vender por uma barra de ouro e seria um rei”.

   

Trechos do conto “o disco” de Jorge Luis Borges.

   

“Afirmar que é verídica é agora uma convenção de toda narrativa fantástica; a minha, no entanto, é verídica”.

   

“Disse-me que seu livro se chamava O Livro De Areia, porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim”.

   

“– Isso não pode ser.

Sempre em voz baixa, o vendedor de bíblias disse:

– Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito”.

   

“Depois, como se pensasse em voz alta:

– Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo”.

   

“Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta”.

   

Trechos do conto “o livro de areia” de Jorge Luis Borges.

   

Nota do Leitor :: Jorge Luis Borges publicou O Livro de Areia no ano de 1975, aos setenta e cinco anos de idade. Jorge Luis Borges viveu até o ano de 1986.

   

 

 

No Land for Old Men (1)

julho 11, 2018

   

“Nem todos os futuros são para desejar, porque há muitos futuros para temer.”

Antônio Vieira (1608-1697), religioso, filósofo, escritor e orador

português da Companhia de Jesus

   

Alessandro conheceu Georges Kirsteller Ryoki Inoue meio que “por acaso” em 2011. Alessandro era, naqueles dias, engenheiro de estruturas aeronáuticas na Embraer e tinha como “hobby” escrever contos e poesias. Georges estava trabalhando com o pai, José Carlos, na Bienal do Livro em São José dos Campos, realizada de 08 até 17 de abril daquele ano.

   

Alessandro estava “prenhe” do segundo livro de Jorge Xerxes, intitulado Para Pescar a Lua (2), e foi Georges quem viabilizou a edição e publicação da obra pela Ryoki Inoue Produções numa tiragem de um milhar de exemplares. José Carlos, o pai de Georges, foi quem escreveu o prefácio do livro. Naquela época, Alessandro “leu” naquele prefácio um tom de adulação ou marketing. Só depois, bem depois, ele foi entender (era Sincero).

   

Alessandro conheceu José Carlos pessoalmente no dia 12 de maio de 2011. Alessandro o visitou em sua casa para tratar detalhes da publicação de Para Pescar a Lua. Naquela época José Carlos morava numa casa simples no centro de São José dos Campos. Enquanto conversavam, José Carlos perguntou se podia acender um cachimbo. Claro. Posso fumar também? Você tem um cachimbo? Não. Então não pode. Este era o estilo José Carlos. Conciso e Verdadeiro.

   

Alessandro contou para José Carlos que estava pensando em deixar a Embraer para se tornar professor de engenharia mecânica. José Carlos mostrou-se preocupado com ele. Olha, eu sei que você gosta de escrever, mas nunca deixe de trabalhar para viver da escrita. José Carlos sabia o que estava dizendo. O que José Carlos não sabia é que Alessandro já havia topado com alguns de seus antagonistas, como L.R., M.A.M.M. e C.A.E. A sua situação na Embraer era insustentável e, na metade daquele ano, ele se mudaria para São Carlos, onde engataria um pós-doutorado.

   

Nossa, você escreve tanto! E Alessandro perguntou para José Carlos: qual o seu melhor livro? É O Fruto do Ventre (3). Ele tomou um exemplar em suas mãos, olhou profundamente para Alessandro, escreveu uma dedicatória e o entregou para Alessandro. Tome, é um presente para você.

   

A grande maioria dos exemplares de Para Pescar a Lua ficou guardada em nove caixas de papelão, sob os cuidados de José Carlos. Só depois de quase um ano, foram retiradas por Júlio Antônio Beltrami da Silva, a pedido de Alessandro. Júlio foi buscar as caixas numa chácara, em São José dos Campos, onde José Carlos estava morando naquele ano de 2012. Júlio ficou revoltado com Alessandro, que não havia dito o número daquelas caixas, e teve de guardá-las por alguns meses em seu apartamento, até que Alessandro se mudasse de São Carlos para Niterói, e as levasse consigo.

   

Ryoki Inoue nasceu em São Paulo no ano de 1946. Formou-se em medicina pela USP no ano de 1970. No ano de 1986 deixou a medicina para se dedicar exclusivamente a literatura. Escrevia livros de faroeste sob o pseudônimo de, nada mais, nada menos, que trinta e nove pseudônimos! Está anotado no Livro Guiness dos Recordes como o escritor com o maior número de obras publicadas.

   

Alessandro passou por uma forte crise de depressão nos meses de janeiro e fevereiro de 2018. Ele vivia se drogando desde 2001: um comprimido de Venlift 75mg para acordar, oito gotas de Rivotril para dormir. Uma vida sem propósito. Então, finalmente, ele entendeu o que eu estava querendo lhe dizer. Hard to Explain (4). No dia do seu quadragésimo sétimo aniversário, se livrou das drogas.

   

No Vídeo do YouTube (5) o repórter pergunta para José Carlos: Você é um escritor realizado? Sim, em primeiro lugar pela quantidade que eu consegui publicar e também porque acho que consegui provar, nessa vida, que é perfeitamente possível – pode ser difícil, mas é possível – sobreviver com aquilo que você gosta realmente de fazer. (Havia um terceiro motivo. José Carlos é Humilde. Haviam Comunicações a Serem Feitas).

   

O único texto de José Carlos que Alessandro efetivamente leu foi o seu prefácio ao livro Para Pescar a Lua. Alessandro está bem e feliz. Assumiu sua pequena medida, saltando para o banco do carona de seu veículo. Riding With The King (6). Quando ele ler O Fruto do Ventre, terá uma Grata Surpresa – cada coisa no Seu Tempo!

   

(1) No Land for Old Men :: filme escrito e dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen.

(2) Para Pescar a Lua :: livro de Jorge Xerxes

(3) O Fruto do Ventre :: livro de Ryoki Inoue

(4) Hard to Explain :: canção da banda The Strokes

(5) Vídeo do YouTube :: Escritor que entrou no Guiness Book, Ryoki Inoue vive uma vida simples no ES – Record News ES

(6) Riding with the King :: canção de B.B. King & Eric Clapton

   

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Jorge Xerxes Short Bio

junho 23, 2018

           

Jorge Xerxes – heterônimo de Alessandro Teixeira Neto – é pisciano; nascido no ano de 1971. Natural de São João da Boa Vista, SP; “cresci ao pé da serra da Mantiqueira; por entre trilhas e cachoeiras; sempre em rota de colisão àquele verde inconcebível”.

                   

Estudou por pouco mais de dez anos na Unicamp; “tinha o meu próprio ritmo de assimilar as coisas” diz com um sorriso enigmático no canto da boca. Interessa-se por tudo aquilo que nos passa desapercebido; “gosto de escrever sobre as coisas pequenas”.

            

Mantém o sítio “Palavras Órfãs de Poesia: O que Restou”, desde 03 de Dezembro de 2008. https://jorgexerxes.wordpress.com/

         

Publicou: (a) “As Cinquenta Primeiras Criaturas”, Livro de Contos e Poesias, 150 pp, Editora Multifoco, ISBN: 978-85-7961-109-4, (2010). (b) “Para Pescar a Lua”, Livro de Contos e Poesias, 138 pp, Ryoki Inoue Produções, ISBN: 978-85-63427-09-0, (2011). (c) “Trama e Urdidura”; Livro de Contos, Crônicas e Poesias; 156pp; Scortecci Editora; ISBN: 978-85-366-2764-9; (2012). (d) “Jornada Rumo ao Sol”; Livro de Contos e Poesias; 132pp; Scortecci Editora; ISBN: 978-85-366-4181-2; (2015).

              

Para Adquirir As Obras :: https://jorgexerxes.wordpress.com/about/

                 

 

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