O problema dos robôs

maio 30, 2014

badargument

Não tenho nenhum problema com o método científico ou com o pragmaticismo.

 

Eles são até bonitinhos: não cheiram, não fedem, nem soltam as tiras.

 

Protegem-nos de grandes viagens na maionese. Embora uma ou outra, vá lá, é o tempero da vida.

 

Afinal, nascemos pelados, carecas, banguelos e não sabemos sequer a razão disso.

 

Há problema quando o investigador passa a fazer vistas grossas a toda e qualquer variável que foge a sua compreensão.

 

Esta pessoa v4i gradu4lm3nte p3rd3nd0 a su4 hum4n1dad3, 473 7r4n5f0rm4r-53 1n739r4lm3n73 3m 4u70m470.

 

E o problema dos robôs é que eles não pensam; você sabe. Eles apenas reproduzem rotinas pré-estabelecidas. (Você sabe?)

 

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Os extraterrestres

maio 27, 2014

cabecas

Cabeças dando as cartas do destino.

Pensam que estão com tudo

quando se entendem.

Em meio ao remoinho de ideias,

miríade de traquinagens,

nem se apercebem.

Entrementes a estas cabeças

(dur45)

estranhas criaturas

observam.

Para um dia desfazerem o novelo de forma humana,

no sentido exato do compadecer-se,

que o uso tão frequente do prefixo

des

fez questão de obscurecer

de nossos lábios.

Tornamo-nos sombras,

formas puídas de nós mesmos.

Mas isso não prevalecerá.

Perceba…

 

Não há vagas

maio 16, 2014

nao_ha_vagas_jorge_xerxes

Há uma noção equivocada de que o tempo passa. Quando, em verdade, ele não passa de elemento rítmico a compassar os eventos. Daí os batimentos cardíacos, a inspiração e a expiração. Acrescente-se a estes os ciclos lunares, a rotação da Terra – os dias e as noites – e a translação desta nossa pedra celeste ao redor do Sol. Estes são eventos que fluem. Não é o tempo que escorre, é a vida que passa através dele. Nestes nossos dias não há vagas. O tempo é justo, exato e não há de sobra. Cada criatura é responsável por sua própria história.

naquele_outono_de_1914_jorge_xerxes

Creio que o estopim para o meu devaneio foi a elevação da taxa de oxigênio (ao menos para os meus padrões) naquelas noites do outono de 1914. A máquina do sono, assim a denominei. Um caso de amor a primeira vista, não podia mais repousar sem ela, qual boneca inflável para abraçá-la de bruços e, depois do sexo, adormecermos juntos em conchinha. E quando tomei o táxi, em Niterói, o senhorzinho negro e delgado, aparentando seus oitenta e tantos anos, me disse que o ser humano estava melhorando, a cidade “cada dia tão mais bonita” que não se importava de trabalhar mesmo depois de aposentado do emprego público, ao contrário, era um prazer conversar com os fregueses enquanto dirigia através de veredas naqueles tempos ídos. Invejei-o pelo seu anel prateado de São Jorge. Invejei-o a ponto de tomar a barca, seguir para o outro lado da baia, vagar a esmo e casmurro pelo centro do Rio de Janeiro na busca doutro amuleto daquele, porque eu acreditava emanar dele o elixir para a felicidade. O elixir para a felicidade é o que eu buscava naquele outono de 1914. E o leão do imposto de renda já não me botava medo. Sentia-me senhor de meu próprio terreno. Nem a morte daquele chão me subtrairia, senão para sete palmos debaixo dele (macio e aquecido ventre). Então, não obstante ao imóvel, declarei o jardim, o orvalho e ainda, por via das dúvidas, a nuvem da qual ele se desprendia, se a manhã era fria. Tão somente por via de todas as dúvidas, mas de todas as dúvidas do mundo, foi que eu declarei as flores. E as flores eu as declarei em alto e bom som. É de se imaginar que eu havia aposentado de velho todos os medicamentos para os meus miolos quando me lancei à singular empreitada de vigorosas caminhadas noturnas. Devo confessar que passado tanto tempo, e apesar de tudo, de nada disso me arrependo. Mesmo tendo atrasado meu relógio exatamente cem anos, o século mais intenso eu vivi naquele singular outono de 1914.