Importa muito

junho 27, 2011

Enquanto inicio, organizando os caracteres nessa seqüência insidiosa das letras, para que você aperceba-as, permaneces envolta num remoinho, são suas próprias ideias, tua conectividade com as criaturas, outros seres, as tuas coisas, ou são as louças, você insiste em lavá-las. O fato de ser segunda-feira, de inverno, pela manhã, e estar fazendo frio importa – e muito. Não há estrelas no céu. Quem nega a influência dos astros, paga caro os esbarrões. Era você mesma quem me dizia das flores, dos sorrisos dos gatos, que de tão tênues, eram quase nada, que desse pouco, por ser tão pouco, apenas isso, era o suficiente, permitia-lhes a espreita. E quando perguntastes sobre as canções, lembrei-me da mais triste, o coração dobrou-se em aperto, as lágrimas correram-me a face. Onde foi mesmo que você me deixou? Em que ano estamos? Não me lembro de mim, acho que foi outro remoinho desses, atingiu-me em cheio; nossos dias passam rápidos, gira a pedra de fogo, vem a lua, vem São Jorge e o dragão, vem tudo de novo. Hoje somos nós mesmos, naquilo que você fritou, naquela panela com o alho e a cebola picados, depois botou água, sal, levou ao ponto de fervura, serviu à mesa. Revira o meu coração, derrama-o dentro do teu, manda-me um cheiro dessa alegria, louca energia, desse brilho com as mangas de fora. Guarda o meu ser estranho, por gentileza, a desvanecer-se, filigrana qualquer com as letras, ou singela dança, para você acomodá-la, num canto quente, de tuas entranhas.

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Ajustando ao seu canal

junho 20, 2011

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moviam-se em direções opostas, mas eis que o destino os une, num desses emaranhados enigmas, mitos a serem desvendados, devorados, pouco a pouco, de uma boca pela outra, mastigarem-se noite adentro, só mesmo comendo, engolindo um ao outro, no mesmo instante, uma explosão de mil megatons, para sintonizar a freqüência, desvelar do outro em si, de si no outro

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junho 17, 2011

L3v4nt0 d4 c4m4 p3ns4nd0 n4qu1l0.

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Era uma vez um reino muito distante, num local e num tempo em que a natureza havia sido especialmente generosa: um reino cercado pelas montanhas, recobertas pelo verde, que crescia exuberante, banhado pelo leito de um rio caudaloso, sinuoso, rico em vida, haviam ainda cachoeiras, aqui e acolá, um vasto lago, de águas calmas, e todos os dias o sol aquecia aquelas paragens com o seu brilho incondicional.

Naquela época haviam muitos reinos – alguns eram pequenos, enquanto outros, verdadeiros impérios. Aquele reino, em especial, não era grande ou poderoso, mas era um bom lugar para se morar. O Rei era justo e comandava um exército de homens bem treinados, que era o suficiente para cuidar de suas fronteiras, sempre que estas eram ameaçadas por hordas de bárbaros.

Numa casinha simples, mas muito asseada, morava um jovem casal. Elza, era a mais bela e formosa das mulheres do reino, de longos cabelos castanhos cacheados, e Fraga, o seu senhor, jovem e bravo guerreiro, de coração puro, fiel ao Rei. Aquele jovem casal era mesmo admirável. Eles eram belos, carinhosos, trabalhadores, e essa harmonia, essa felicidade, parecia mesmo irradiar deles. Como o reino era pequeno e todas as pessoas se conheciam, Elza e Fraga eram mesmo muito queridos e sua companhia, motivo de grande contentamento, das crianças aos mais velhos.

Mas eis senão que, certo dia, o Rei enamorou-se pela bela Elza. Afinal, aquele seu viço e candura também não passavam desapercebidos ante os seus nobres olhos. O Rei tinha intenções de desposá-la e fazer dela a sua Rainha. Seria então Elza, além da mais formosa, a mais importante dama do reino.

Acontece que Elza só tinha olhos para Fraga e, para ele, sua esposa Elza era a razão de seu viver: eram completos um pelo outro; essa completude, essa perfeição envolvia todos aqueles que tinham o privilégio de compartilhar da presença deles. E, por mais que o Rei se exibisse, com os mimos de sua nobreza e poder, não chegava a tocar o coração da bela dama.

No afã de impressionar Elza, uma vez que não podia competir com a beleza singela e a bravura de Fraga, o Rei traçou planos de expandir as fronteiras de seu reino, num misto de demonstração de força e ambição pelo poder.

Aos poucos, novos homens foram amealhados ao contingente do exército, que deu início a uma extenuante série de exercícios e preparação tática para a empreitada. O Rei informou os seus súditos quanto aos seus planos, apesar da reticência dos conselheiros em apoiá-lo.

A apreensão era crescente no reino. Certa noite, Elza expressou ao marido a sua grande preocupação de que algo acontecesse a ele. Mas Fraga demonstrou muita segurança e acalentou-a. De fato, os homens estavam bem preparados, e ele destacava-se dentre os guerreiros, pela sua bravura, sagacidade e fidelidade ao exército do Rei.

As batalhas começaram e, apesar de algumas baixas, o Rei acumulava a riqueza recém subjugada – pertences, metais e pedras preciosas -, assim como as fronteiras do reino iam gradualmente se expandindo. Tempos de guerra eram alternados com tempos de paz, mas os guerreiros estavam em constante exercício: dedicavam-se ora as batalhas, ora aos cuidados com o reparo e a preparação de novos ataques.

Após as conquistas, o Rei promovia grandes celebrações, às quais todo o reino era convidado, e invadiam noites adentro. Era sempre uma fartura de comida, de bebida, muita algazarra, pompa e exagero. Nessas festas o Rei aparecia imponente, geralmente alardeava sobre as riquezas conquistadas. O Rei atraia a atenção de algumas das damas do reino. Entretanto isso não surtia efeito para Elza, sempre exuberante, radiante com o retorno de seu amado após cada batalha. Elza e Fraga dançavam com os seus corpos colados por horas a fio. (Isso deixava o Rei possesso).

Com o sucesso nas batalhas (e o insucesso no amor), a ambição do Rei tornou-se doentia. E essa insensatez, é claro, tinha desdobramentos sobre os seus súditos. Os homens estavam desgastados com o número crescente de combates, e as mulheres sobrecarregadas por terem de cuidar sozinhas da criação, da alimentação e da manutenção de seus lares. Os conselheiros do reino desde o início foram contra; agora, até Fraga, o mais bravo e fiel homem do exército, queixava-se dos desmandos do Rei. Achava que era hora daquela tensão insuportável ceder ante a normalidade, até mesmo os guerreiros sonhavam com dias de tranqüilidade e paz. Era visível que a guerra estava consumindo-os a todos. Elza tinha perdido peso, passava as noites em vigília orando pelo marido nos tempos de batalha, já não trazia em seu semblante o brilho de outrora.

Certa feita, Fraga comandava um grupo de homens após algumas semanas de batalha, quando sofreram uma emboscada. Fraga era um guerreiro incomum, mas encontrava-se exausto, assim como os demais. Por breve instante, sua excepcional concentração vacilou, e ele baixou a guarda. Foi o suficiente para que Fraga fosse ferido de morte: a lança do inimigo atravessou-lhe o tórax, dilacerando o seu peito. Reza a lenda que, naquele exato momento, como que por telepatia (ou sincronicidade), Elza sentiu um aperto em seu coração, uma fraqueza imensa, experiência tão tocante que a fez antecipar a notícia que, em breve, receberia.

Aquela batalha, o Rei perdeu. Foram necessárias, porém, muitas outras baixas em seu exército, mais algumas batalhas, até que o Rei, finalmente, cedesse ante ao seu desejo de poder e sangue. O reino finalmente voltou aos seus dias de paz. Entretanto, nunca mais foi o mesmo. Ele era agora maior, um reino com mais recursos, um maior número de súditos; mas as demandas também eram maiores.

Sobretudo Elza, nunca mais foi a mesma. Era agora uma dama de feições tristes, magérrima, sem a vivacidade de outrora. Apenas não a abandonaram os amigos do casal. É que aquele contentamento que Elza e Fraga emanavam, a cumplicidade, aquela vibração, sintonia, aquilo seria uma lembrança indelével para todos os que compartilharam daquela dádiva e traziam em seu íntimo o signo da dignidade.

Mas parecia mais forte do que ela. Todos os dias Elza ia até as margens do lago, passava longos momentos por lá, a observar o seu semblante refletido no espelho d’água, até que sua visão ficava turva, e a imagem que ela entrevia era a sombra do bravo guerreiro, seu amado Fraga. Então ela soluçava, chorava seco, sem verter uma única lágrima sequer. O Rei também sentiu compaixão pela dor de Elza. Ele bem que  guardou um período pelo seu restabelecimento, mas acabou por desposar outra dama, Safira, à época a mais bela e graciosa de seu então poderoso reino.

Muitos anos se passaram, os amigos sempre a reconfortá-la, ajudando Elza a suportar aquela dor, que não cedia. Certo dia, às margens do lago, ventava forte – coisa que era incomum naquelas cercanias – e isso impediu que os contornos de Fraga se formassem no espelho d’água. Aquilo era mais do que Elza podia suportar; e uma dor lancinante comprimia o seu peito. Ela não tinha forças para soluçar, gritar ou chorar. E então, uma única lágrima rolou pelo seu rosto e precipitou-se sobre a face do lago.

Elza imaginou-se como aquela única gota. Ela percebeu que, ainda que todo o reino velasse a perda de seu amado Fraga, mesmo que todos derramassem as suas lágrimas naquelas águas agitadas pelo vento, a figura do guerreiro jamais formar-se-ia. Mas sua imagem sempre estaria lá, em potência, junto às gotas que formavam aquele vasto lago. Se não fosse assim, o milagre da esperança inabalável que os seus amigos depositavam nela não se justificaria; toda a existência nesse mundo estaria fadada à dor e ao desencanto apenas.

De súbito, compreendeu a grandeza dessa idéia, de que guardamos um pouco do outro dentro de nós mesmos, e que o outro leva consigo um pouco de nós. Que as gerações se sucedem, que os reinos mudam de forma, de lugar, mas a essência está sempre presente: a mesma força que derruba é aquele vento indomável que sopra forte, nos leva adiante, através dos rumos da evolução. Então ela sorriu. E aquele sorriso era de grande ternura e compaixão. Tão grande, que nunca abandonou sua face. Até o último de seus dias.

 – dedicado à poetisa Elza Fraga

O cOnstrutOr de sOnhOs

junho 2, 2011

lá vai O cOnstrutOr de sOnhOs

bravO guerreirO

abatidO em batalha

nãO abandOna a labuta

chapa de frente

ante as agruras

faz seu própriO caminhO

traçadO a fé e fOgO

chupa dOs peitOs gOstOsOs

generOsOs da mãe natureza

se seu pau cresce tOrtO

é para cOmê-la de ladO

semear nOvOs

Os grãOs dO sOnhO