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Agradeço Sinceramente a Todos Aqueles que Puderem Colaborar. E tenho certeza que a leitura será prazerosa.

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7R4UM4

abril 10, 2012

7R4UM4 – de Alessandro Teixeira Neto e André Fenili, 2006.

O Sr. Ptolomeu sai de casa exatamente às oito horas da manhã, horário de Brasília. Ele tem feito isso nos últimos doze anos. Caminha até o ponto de ônibus perto da casa onde mora e espera. Deixa passar um ou dois ônibus por estarem muito lotados. Ele sabe que, mesmo assim, chegará cerca de dez minutos adiantado.

Sentado no banco do ônibus, a caminho do serviço, ele só consegue pensar na montanha de papel que o espera sobre a mesa e no que não faria com a colegial gostosa que está em pé bem a seu lado. O Sr. Ptolomeu é católico devoto, e essa sempre é uma boa desculpa. Quem olha para ele, cínico, olhando para o vazio, imagina que ele está pensando no dízimo que vai dar este mês, para a reforma da igreja e a renovação da frota do seu pároco.

O Sr. Ptolomeu acha uma grande benção que ninguém consiga ler os seus pensamentos. Ele sabe que Deus consegue, mas é exatamente por isso que se confessa todo final de semana, antes da missa.

 

“Deve ser dura a vida de peixe de aquário. Esta rotina interminável. Aguardar o momento em que a superfície da água esteja ligeiramente polvilhada. Então emergir, abocanhar, submergir. Emergir, abocanhar, submergir. E de novo. Depender do sistema de oxigenação da água. E, de alguma forma, esperar que a água seja mensalmente trocada, e que o aquário seja limpo. Este paralelepípedo que limita o seu mundo e que ele conhece como ninguém. Não… prefiro ser eu mesma a ser um peixe de aquário.”

Melhor ainda, estar em frente ao aquário, sentada no conforto de seu lugar à mesa da família para o café da manhã – o aquário e o peixe e as bolhas dele numa estante cobrindo a face oposta da parede da copa.

A garota havia despertado suavemente por uma antiga canção no rádio-relógio do seu quarto cor-de-rosa. Tinha aberto os olhinhos e visto, com a visão ainda embaraçada, os três botões de rosa vermelhos, ainda fechados, esperando o momento certo de desabrochar. Presente de sua avó, quando se encontraram no dia anterior.

Antes do agradável encontro com a avó, ela esteve numa sessão com a manicure. Depilou as pernas tenras e bem torneadas, típicas de uma garota da sua idade. Pernas claras. Aplicar a cera quente, tirar a cutícula e passar um esmalte bem suave faziam parte do seu ritual bissemanal, do qual ela não dedicava atenção em excesso, e tão pouco desprezava. Porque aos dezesseis anos são muitos os hormônios que correm pelo seu belo corpo, ainda em formação, e, além disso, todas as suas amiguinhas são bastante vulgares. Muitas as novidades do seu cotidiano. Pura descoberta da mulher que ela virá a ser. O transbordar dos sonhos e do romance. O arco-íris num frasco em forma de donzela: Estér.

Quando Estér tomou o ônibus, todas as poltronas já estavam ocupadas. Mas se aguardasse por outro, chegaria atrasada para a primeira aula – e sua carteira na primeira fila chamaria demasiada atenção. Posicionou-se próxima de um senhor distinto e segurou na barra presa ao teto do lotação.

“Hoje aconteceu novamente. Despertei com aquela sensação estranha, que ainda não entendo direito. A xoxota um pouco úmida. Os mamilos durinhos. E que acontece eventualmente, quando sonho com um beijo ou um paquera da escola. Sinto muita vergonha. Tamanha que não confesso este pecado ao padre, antes da missa de domingo. E isto deve ser pecado ainda maior… Será que padre tem tesão?…”

Então procurou desfazer-se do pensamento. Olhou para o senhor distinto, sentado próximo a ela. E teve muito nojo dele.

“Como pode olhar minhas pernas desta forma? Deve ser um pai de família. Por que sofro tanto? A vida de peixe de aquário deve ser muito mais simples que a minha. Por que tenho que passar por tudo isto?”

Mas Estér havia nascido para brilhar. E simplesmente ainda não era o momento dela saber disso.

 

“A espera desesperada de Jacinto já durava horas. Depois de preso e amordaçado, e deixado ao lado de pneus velhos na garagem, nada mais lhe restava a fazer. Tudo de que se lembrava, tudo que passava pela cabeça dele era a imagem dos dois encapuzados, gritando como insanos. Um contra o outro, ameaçando e sendo ameaçado por canivetes. Então Jacinto desmaiou. E quando acordou, não tinha passado de um de seus milhares de pesadelos.”

“Os dias transcorriam tranqüilos na loja. Tinha bebido todas, mas não se lembrava. Assim como eu não. Meu nome é Jacinto, tenho um espelho em casa e escrevo sobre mim mesmo. Se você não me entende é por que certamente não sou eu. E ainda que fosse, não entenderia. Sentir transcende a consciência, viver é a experiência, e ninguém tem de se meter com isso.”

Apenas mais um texto de Jorge, pseudo-escritor, enganador e folgado. Ele toma o ônibus rumo ao centro. Pela manhã ainda está alcoolizado e permite-se viajar, ainda que num coletivo lotado.

Jorge não levanta para as mulheres, senhoras ou donzelas. Cede seu lugar para as grávidas quando está de bom humor. O que é raro. Despreza as pernas lisas e tenras de Estér. Jorge é apenas mais um imbecil egocêntrico como milhares de outros. Aquele tipo de imbecil que acha que é muito mais do que realmente é. E geralmente eles são bem pouca coisa.

E assim, descreve-se a trajetória de mais um par de peitinhos duros e ilesos. Ele escreve, mas não age: ele é Jorge; e seu personagem, Jacinto.

 

O Sr. Ptolomeu sabe que o seu ponto está chegando. Até inconscientemente ele sabe quando deve se levantar e sair do ônibus. Nem precisa olhar pela janela. Um dia ele chegou a adormecer sentado, mas, quando chegou a hora de descer, o deus da rotina o despertou.

Tem que se levantar, vencer a inércia.

Na verdade, não agüenta o bafo de pinga do cara sentado bem atrás dele. Sente ânsias. Fica imaginando a vida imunda que aquele bebum deve levar. Imagina até o time para o qual ele deve torcer. Ou em quem ele votou nas últimas eleições.

A garota em pé a seu lado encosta a coxa grossa e deliciosa em seu braço quando o ônibus faz uma curva. Ele agradece aos céus por estar de paletó. Se o contato fosse pele a pele, talvez ele não conseguisse se controlar e seu pênis poderia ficar ereto. Seria uma vergonha, pois está usando calça social e cueca samba-canção.

Ele pede licença para a garota e se levanta. Os bicos duros dos seios da colegial tocam de leve em seu rosto. Ela não está usando sutiã. No mundo que existe dentro de sua mente, o Sr. Ptolomeu arranca a blusa da garota e lambe os dois bicos até cansar a língua, depois mama à vontade naquele peito jovem. Mas na realidade em que seu corpo de carne e osso definha, ele começa a pensar em algum caso obscuro que terá de relatar daqui a pouco, com o intuito de desviar os pensamentos para algo frio e impessoal e não se excitar.

Ester está realmente esperando o homem de terno se levantar e sair para poder se sentar. Ele está cheirando a loção de barba. Ester odeia esse perfume.

Jorge não tira os olhos da garota. Uma idéia passa-lhe pela cabeça. Como imbecil que é, acha a idéia genial. Vai se levantar e ir até o cobrador, para pedir-lhe uma informação, apenas para encoxá-la. Mas o almofadinha acaba de se levantar e a garota se senta imediatamente.

 

“A chuva, enquanto objeto de condensação das nuvens, nada mais é do que queda, retorno, daquele que ousou o vôo mais alto em termos de gotículas d’água. Forma violenta e úmida de refrescância necessária às plantas secas. Enfim, matéria dos relâmpagos – expulsa em luz – e música aos ouvidos de intenso trovão.”

E Jorge, pseudo-escritor, enganador e folgado, vomita mais um parágrafo que será atribuído ao seu personagem, Jacinto.

 

Dona Yolanda não se incomoda com o fedor de álcool que exala de Jorge – mesmo estando sentada bem ao seu lado. Foram tantas as noites que ela já teve de suportar o marido (e tantos namorados antes e depois dele), que se sentar ao lado do rapaz embriagado é quase como um deja vu dos anos de juventude. Hoje, os cabelos grisalhos, compridos e presos; o vestido longo e a forma recatada que ela assume como um sinal claro de seu amadurecimento.

“Ao menos é o que dizem na igreja.”

Estar em dia com o sacramento da confissão é uma arte que já está integrada a sua rotina.

“Esta adolescente devia ter vergonha de andar por aí vestida deste jeito. Que pouca vergonha! Deve ser uma vagabundinha destas que se enrosca com qualquer um.”

O passado pouco importa para ela. É passado. Sim, Dona Yolanda lembra-se perfeitamente das festinhas na década de sessenta.

“Mas aqueles eram outros tempos: dos anos dourados, da juventude transviada, da cuba libre e do lança pefume… nada a ver com a degeneração dos adolescentes de hoje: a base de ecstasy, do whiskey com energético e dos bailes funk.”

O passado foi feito para se esquecer. De que adianta se lembrar dos rapazes que se vestiam em ternos bem cortados e passavam brilhantina no cabelo? Daqueles rapazes que tinham topetes e lambretas. Sim. É só se esforçar e Dona Yolanda bem se lembra das orgias, das curras e de que disputava com as colegas o líquido viscoso, esbranquiçado e quente que jorrava em jatos dos pênis dos almofadinhas. O líquido que ela fazia questão de engolir, apesar do gosto de fel – porque para Dona Yolanda era pecado o desperdício.

O que passou, passou. Dona Yolanda é uma outra mulher agora. E exige respeito. Tudo bem em fazer filme pornográfico, ficar se insinuando na tv, dar a bunda para meio mundo e ser fotografada em cenas escandalosas. Tudo bem em casar com cada novo galã da tv e receber uma pequena fortuna para ser fotografada nua e com perna aberta ou comendo um travesti. Mesmo quando você já tem um filho. Tudo bem, desde que você se arrependa depois. Não é? Certo?

Dona Yolanda quer acreditar que sim.

 

“Era meio-dia em ponto quando ele chegou. O sol escaldante de verão fazia com que o mormaço embaraçasse levemente a visão em vapor salgado da água do mar. Os contornos do corpo dele, então, não eram definidos, fundiam-se ao céu azul e ao sol. Ele sentou-se na areia e iniciou o antigo projeto de cavar com as mãos: arte esta que havia desenvolvido ao longo de sucessivas eras, desde o homem de Java. Mas quem era o homem de Java afinal? E esta questão era a quinta-essência do antigo problema. Ele prosseguia cavando e cavando indiferente a todas as demais figuras que aproveitavam o momento de outra forma, nadando, paquerando ou admirando a embarcação que cruzava o horizonte. Cada palmo de areia abaixo era mais um em direção a ele mesmo. E quando, enfim, o buraco torna-se fundo o suficiente para todo o seu braço esquerdo, também era aquele o nível do mar. A água invadiu a obra como que demonstração algébrica de que, sendo ela um fluido, e a areia nada além de pedra moída, não haveria nada mais a ser feito. Mais um palmo abaixo, com muito esforço. O sol refletia o seu rosto. Ele gritou: Tem alguém aí? O reflexo do seu rosto deixava-o ainda mais perplexo. Pensou que para entender era preciso primeiro esvaziar-se de si mesmo. O que? Fala mais alto, não estou ouvindo. Ecoava no buraco. A voz parecia outra. Quando uma lágrima de seu suor respingou ao fundo, a lâmina d’água emanava em ondas concêntricas a expandirem-se. Deformava a imagem refletida do rosto dele. Toda a assimetria da esquerda mostrava-se a direita. E vice-versa. A imagem fez movimentos com a mão, chamando-o. Já vou, gritou ele. Só então foi visto de cabeça para baixo, entrando no buraco. Os pés para cima. E depois nunca mais.”

Jorge era um bastardo. Não estava nem aí para o surrealismo de Jacinto.

 

O Sr. Ptolomeu chega ao escritório cinco minutos antes do horário de início do expediente. Ele é um verdadeiro caxias e gosta que todos saibam disso.

A garota de mini-saia com as coxas deliciosas e o peito divino ainda teima em querer dominar-lhe o pensamento. Ele imagina novamente mil formas de fazer sexo com ela, agarrando-a por todos os lados, lambendo-a por todos os ângulos, enquanto carimba e assina um documento oficial. Apesar da orgia mental, porém, seu rosto se mantém sereno. Parece mesmo estar preocupado com a papelada a sua frente. Nem os seus lábios se movem. Ele quase não pisca. O que a prática não faz!

Sentado à mesa que lhe fora designada, cumprimenta educadamente uma ou outra pessoa com a maior naturalidade, enquanto embrenha-se cada vez mais adiante numa selva de papéis e vias, folhas e mais folhas que não servem para nada a não ser alimentar uma máquina estúpida que, por sua vez, alimenta-se da desgraça de ignorantes e azarados, mas cuja ação lhe dá uma boa remuneração. Lá no fundo até que ele gosta do trabalho que faz. Talvez não saiba fazer nada melhor. Se você falar mal da Burocracia perto dele ele irá defendê-la até a morte.

Os teclados começam a metralhar letras e números na tela do computador com a mesma ferocidade e persistência de polícias e bandidos na Cidade Maravilhosa.   

 

Dona Yolanda desce do ônibus bem em frente ao templo evangélico. As pessoas já estão se aglomerando na entrada. Aqui e ali, crianças correm e gritam vestidas como gente grande e gente grande caminha com orgulho segurando suas bíblias como se fossem um brinquedinho favorito. Em uma pequena mesa montada do lado direito da escadaria de acesso ao templo, um rapaz de terno e gravata encontra-se à disposição para receber doações e contribuições mensais. Enquanto não chega clientes, ele passa o tempo imaginando cenas violentas, como aquelas dos antigos filmes de Bruce Lee ou aquelas outras dos filmes imbecis do maldito governador da Califórnia ou do soldadinho do Bush, que já foi O Rato na televisão e que não sossegou enquanto não fosse também um rato na vida real. A outra coisa que sua mente pode compreender é uma daquelas comediazinhas estadunidenses feitas para retardados.

Apesar dos sorrisos (forçados), a maioria dos denominados fiéis vem aqui apenas para quebrar a rotina massacrante de suas vidinhas medíocres. O mesmo serve para os carismáticos, por exemplo. Tirando suas casas, seus programas de televisão, o dinheirinho que ganham do Silvio Santos e o templo, todo o resto é obra do demônio. Se algum dia alguém conseguir fazer com que entendam que tudo isso é uma bem montada farsa, mesmo assim eles não acreditarão. Cada um deles é um bom exemplo para o pior cego do velho ditado. Nada é mais confortável que a ignorância.

Dona Yolanda escolhe um lugar na ponta de um banco no fundo do templo, bem perto do ventilador, e espera o pastor chegar. Com certeza ele virá de helicóptero e irá pousar no heliporto em cima do telhado. Nada menos para quem acredita em Deus.

Dona Yolanda está bastante receptiva hoje.

 

Estér desce do ônibus perto do cursinho. No final desse ano ela deve estar prestando o vestibular. Para garotas como ela, sempre vigiadas pelos pais, entrar em uma universidade em outra cidade significa liberdade. Liberdade de fazer o que quiser, liberdade de fazer sexo com quem quiser, onde e quando quiser. Tomara que ela consiga passar na primeira vez. Estér sabe como é difícil. Não ia agüentar outro ano assim.

Subindo a escadaria, Estér percebe alguém se aproximando pelo seu lado esquerdo. O Professor Azevedo. Estér gosta dele. Ele dá aula de Transferência de Calor e Termodinâmica. Ela gosta de seu jeito bruto e estúpido. O cara é um verdadeiro animal. Quando ele começa a gritar na aula, ela pensa logo no King Kong. O homem realmente parece um orangotango. Um dia ele ficou invocado com um pessoal que fazia bagunça e mandou um aluno filhinho de papai tomar no cu. O bostinha saiu chorando da sala. Estér se apaixonou por ele na hora.

Professor Azevedo passa por ela e nem a percebe. Ele olha insistentemente para o relógio e Estér o escuta dizer “Caralho!” repetidas vezes.

Isso a excita.   

 

“Acorde, vagabundo. Acorde!”

Ele abre os olhos e nada daquilo faz sentido. Assim como nada nunca fez. O pátio lotado de ônibus estacionados, o seu pescoço suado ou o sol.

“Sai fora, vagabundo!”

Arremessado para fora da empresa num bairro da periferia, nada mais nada menos trivial do que mais um dia na vida de Jorge.

De repente, dá falta de seu caderno de anotações. Jorge já havia cambaleado por alguns quarteirões e teve de refazer o percurso, em direção oposta – mais um retrocesso na vida de Jorge. E quando chega à portaria da empresa:

“Por favor. Adormeci no coletivo e vim parar aqui. Não tenho dinheiro para voltar. O meu caderno de anotações deve ter ficado no ônibus. Sou escritor. Por favor, ajude-me..” (Ele sabe ser educado quando lhe é conveniente.) Mas o fedor de álcool ainda exala de seu corpo.

“Sai fora, vagabundo!”

Então ele decide batalhar por alguns trocados no sinal. Diz ser um ex-drogado em tratamento, arrecadando dinheiro para a manutenção da instituição. Até mostra um cartão. Mais uma das múltiplas facetas de Jorge. A princípio, o seu intuito é apenas o de voltar ao centro da cidade. Mas havendo um retorno maior que o desejado, por que não celebrar? E, então, ele torra toda a grana das doações em algumas doses de Cinzano num boteco sujo do subúrbio. Dez horas da manhã. Jorge, completamente ensandecido, sobe numa mesa e começa a gritar batendo com os punhos cerrados contra o próprio peito. São nestes momentos extremos que Jorge torna-se poderoso, do tamanho imenso de seu ego.

 

   A sala de aula do cursinho de Estér pega fogo num burburinho generalizado. Professor Azevedo acaba de propor um problema da matéria que ainda está por ser dada, valendo nota. Uma tentativa desesperada de tomar as rédeas da situação. Azevedo é um covarde, não tem domínio sobre os seus alunos, exceto quando exerce de sua autoridade inconteste. Sabendo apenas fazer cálculos (e não tendo o mínimo tato no trato com seres humanos) não passa de mais um ridículo e rudimentar autômato – escravo de seu próprio cérebro (sem sequer se aperceber disso). E isto excita Estér, que de tão sensível, não esperava por esta atitude radicalmente exata, fria e dura do professor.

 

Onze horas da manhã, em plena Era de Aquário. Sincronicidade ou acaso? Existirá de fato uma tênue ligação entre almas afins, através de instâncias profundas do subconsciente? Perguntas sem respostas.

Fato um: Ar. O culto no templo evangélico atinge o ápice, que é o momento no qual o pastor convida algum fiel a prestar o seu testemunho. “A Senhora sentada na ponta do banco, bem próxima do ventilador, aí no fundo do templo. A Senhora poderia nos abençoar com o seu testemunho de fé?” Dona Yolanda levanta-se.

Fato dois: Terra. Jorge é expulso da espelunca por quatro homens que o arrastam para fora do bar e o cobrem de porrada. Ele fica largado na sarjeta, sangrando. Até conseguiria levantar-se, mas prefere permanecer onde está. E, neste mesmo instante, Jacinto toma o ônibus, rumo ao centro da cidade.

Fato três: Água. A testa suando de tanto fazer força. Sr. Ptolomeu interrompe a sua rotina de trabalho. Sente o cu dilatando, permitindo a eliminação de uma grande massa de bosta. E finalmente o som desta caindo no vaso sanitário. Ele rapidamente se imagina parindo um Golem. Limpa-se de forma um tanto descuidada. (filigranas de merda permanecem na sua bunda, o que no decorrer do dia causará uma leve assadura e desagradável coceira e fará, mais tarde, com que a sua esposa reclame). Senhor Ptolomeu, que ainda está no reservado, e não consegue tirar de sua mente grosseira a imagem daquela garota adolescente que estava no ônibus pela manhã – par de coxas em tenra idade, embalado por minúscula mini-saia – decide masturbar-se ali mesmo, em pleno horário de expediente do escritório. Mas não é isso que os burocratas fazem o dia todo enquanto trabalham?

Fato Quatro: Fogo. Professor Azevedo dirige-se para uma garota sentada na primeira fila da sala de aula e manda-a para a lousa. Estér fica molhada e totalmente sem reação. Não consegue sequer interpretar o enunciado do problema proposto, o que diria, então, de sua solução? Aquela situação, em que se sente encurralada pelo professor e exposta para todos os colegas de sala, deixa a adolescente ainda mais excitada. Estér sente sua vagina efervescer como um vulcão em intensa atividade, a instantes de devastadora erupção, expelindo lava quente por seus orifícios. Seus mamilos ficam duros, pontudos e isto transparece claramente através de uma delicada blusa colada ao corpo. Isto leva os seus colegas de sala à beira da loucura. De fato, todos os pênis contidos no conjunto discreto que é caracterizado pelas fronteiras da sala de aula estão eretos, menos um. Professor Azevedo é o único que não está em sintonia com a estranha dinâmica subliminar em processo. Ele bem que poderia ter mandado um moleque para a lousa e seu pinto murcho mais parecia o casulo de uma larva – em gestação eterna de um lepidóptero natimorto.

 

Dona Yolanda caminha desengonçada e envergonhada até o palanque em frente da multidão e começa a falar. O pastor sorri para ela. Isso lhe dá forças. Ele é a pessoa mais decente do mundo.

Ela fala sobre uma porção de mediocridades que não deveria interessar a mais ninguém (como o marido a abandonou, como ela ajuda a vizinha idosa a subir a escada, como ela vem ao templo pelo menos uma vez por dia, como consegue fazer uma sopa deliciosa com apenas dois tomates,…) e é aplaudida. Alguém lá no fundo começa a cantar “Deus é amor” em ritmo de funk.

Dona Yolanda volta para o seu lugar e o pastor elogia seu testemunho. (Na verdade, se ela tivesse falado meia hora sobre a maneira como o seu gato de estimação gosta de fazer cocô atrás da pia da cozinha teria surtido o mesmo efeito. O pastor consegue usar qualquer assunto para incitar a massa. É uma multidão completamente susceptível. Ainda bem. Se fosse de outra maneira, ele ainda estaria andando de ônibus lotado e usando a mesma roupa duas vezes.)

Uma pessoa ou outra sentada a seu lado ou a sua frente a cumprimenta. Dona Yolanda se sente uma celebridade por cerca de quinze minutos (e ela nunca ouviu falar de Andy Warhol).

O que seria dela se não fosse o Pastor Nemésio? Ele é muito mais do que sua ponte para com Deus. Muito mais do que uma luz que a guia nesse vale de lágrimas. Ele é a única distração que ela tem na vida. Nessa sua vida onde nada acontece.

O culto acaba. As pessoas vão saindo aos poucos. Todos estarão de volta ao circo na próxima semana.

Hoje, no entanto, foi um dia especial para Dona Yolanda. Ela precisa agradecer ao pastor antes de ir embora. Precisa lhe dizer o quanto ele é importante para ela. Precisa lhe dizer o quanto ela reza para ele todos os dias, para que tenha saúde e jamais esmoreça. E o quão santo ela sabe que ele é.

Dona Yolanda caminha na direção da secretaria. A porta está aberta. Ela entra sem fazer barulho. Ele deve estar meditando antes de voltar para casa.

Dona Yolanda pára.

Ela está congelada, petrificada.

Ela não acredita em seus olhos. Seus malditos olhos.

Sempre que se lembrou desse exato momento a partir de hoje e para o resto de sua vida, desejou que tivesse ficado cega no dia anterior.

A secretária está seminua, a saia na altura do joelho. A calcinha está nos tornozelos. A calça e a cueca do pastor também estão abaixadas. A secretária abraça os setenta mil reais da coleta de hoje e joga para cima, enquanto é penetrada por trás. O dinheiro imundo cai sobre os dois corpos e os excita ainda mais. É tudo por causa dele, não é?

Eles não percebem a senhora que, reunindo forças e chorando e tremendo muito, retira-se do recinto, do templo. Para nunca mais voltar.

Foi nesse dia que Dona Yolanda perdeu a fé. 

 

Nunca perca a fé. “(1) O trabalho adiabático efetuado para levá-lo do estado ‘A’ até o estado ‘B’ é independente da forma em que é efetuado e depende apenas dos estados inicial e final do sistema. (2) É impossível que uma máquina qualquer, operando em ciclo, receba calor de uma fonte e efetue uma quantidade equivalente de trabalho sem provocar nenhum efeito nas suas vizinhanças. Ou seja, nenhuma máquina térmica, que opera entre dois reservatórios térmicos, pode ter rendimento maior que uma máquina operando entre os mesmos reservatórios. (3) Em qualquer processo, a variação de entropia do universo ou é positiva ou é nula. A variação de entropia do universo só é nula se o processo for reversível.” Assim pensou Arlindo; cdf convicto provido de óculos cujas lentes facilmente superam os cinco milímetros de espessura, e portador de uma devoção platônica por Estér – típica dos cdfs do seu naipe – da qual ela jamais ficaria sabendo. Mas ele nunca perdeu a fé.

 

“Os túneis: possibilidades subterrâneas dos veículos de maior ou menor porte transportarem-se através de inevitáveis segmentos de reta iluminados entre  pontos distintos do caótico tráfego urbano. E também free shop dos usuários de drogas pesadas, onde as seringas – ainda que usadas – sempre serão esterilizadas pelo eterno sereno noturno. Dúvida entre o transporte e a conexão entre os mundos da razão, da política e da solidariedade. Dentro desta impossibilidade do entendimento, donde hei de permanecer por apenas alguns segundos, experimento de sensação transcendental onde a unidade é viável – muito longe daqui. Dado o grau precário do amadurecimento intelectual e psicológico da civilização humana, o que esperar desta corja de insanos usurpando o poder infalível de Deus em nome da sabedoria e do bem estar universal?”

Reinaldo não podia acreditar naquilo que estava lendo.

“Este tal de Jacinto é brilhante!” pensa com seus botões. E pensar que tudo aconteceu por acaso. Ônibus lotado do subúrbio em direção ao centro, sol escaldante, onze horas da manhã, apenas um lugar vago no coletivo, ocupado por um caderno ao lado de um senhor de idade – que usava bengala. “O senhor pode pegar o seu caderno para que eu possa me sentar?” disse Reinaldo. “Este caderno não é meu” respondeu o velho com um ar de poucos amigos. Então Reinaldo tomou o manuscrito e passou a folheá-lo. Reinaldo trabalha na editora e seu patrão vive dizendo que precisam publicar alguma obra de efeito, que venha a fazer com que a empresa saia da difícil situação de concordata.

“Só um milagre pode nos salvar. Temos que encontrar um outro “O Código Da Vinci” ou qualquer merda desse tipo.”

Reinaldo esboça um sorriso. “Jacinto!”.

 

Neste instante, Jorge desperta, ainda na sarjeta. Sua cabeça lateja de uma dor insuportável. Não do abuso de álcool, por que disto ele já está acostumado, mas dos sopapos que tomou dos fregueses do boteco. Quer voltar lá e chutar uns caras. Pelo menos um. Qualquer um. Mas fica com medo de apanhar mais. Já está fodido o suficiente.

Enquanto tenta achar o caminho de casa, com uma raiva que procura conter, Jorge imagina-se dentro daquele carro no videoclipe do Audioslave. Aquele videoclipe que ele adora. A músiva é “Show me how to live”. Ele está lá dentro do carro com os caras da banda, em alta velocidade, fugindo da polícia. No outro extremo da estrada, uma barreira policial. Os tiras emparelham dois tratores enormes bem no meio da pista, impedindo a passagem. Não há como passar. Todo mundo que assiste a esse videoclipe acha que os pretensos mocinhos vão desviar ou parar. Todos acham que eles vão se safar mais uma vez. No entanto, no final da música, lá vão eles direto para os tratores. E morrem em uma apoteótica explosão.

Jorge sempre teve vontade de pegar um carro e fazer isso. Sair por aí a toda, pouco se lixando para o que estivesse ao seu redor ou à sua frente. E como isso tudo fosse terminar. A cada dia ele se sente cada vez mais perto de realizar esse sonho.

Ele precisa achar o rascunho de sua obra prima.

 

“Vamos ver do que você é capaz, mocinha”.

A frase do professor Azevedo soa como uma sentença de morte aos ouvidos de Estér. Mas ele não conta com o fenômeno subjacente da sincronicidade. E, traçando alguns esquemas do fluxo de calor entre máquinas térmicas, Estér demonstra – de forma inesperada e surpreendente – que é impossível o coeficiente de eficiência unitário.

“E se isto não fosse verdade, seria como dizer que é viável o moto-contínuo”.

A classe vem abaixo com aquele comentário desconcertante e o professor Azevedo sente-se agora no lugar de Éster – que havia brilhantemente invertido o jogo a seu favor. Ele está atônito e, por um momento, não sabe o que dizer para a garota. Sente-se como um animalzinho acuado – coisa que de fato ele seria, não fosse o corpo branquelo e um pouco acima do peso, a calvície e o ego inflado por alguns pontos acima da média do Q.I. – muito mal usados por sinal.

            Todos os alunos copiaram os esquemas de fluxo que Estér havia escrito na lousa, como forma de solucionar o problema para nota que havia sido proposto pelo professor Azevedo. Em mais uma atitude covarde e pequena, o professor Azevedo diz que todos terão apenas nota cinco porque, apesar de Estér ter conseguido obter a solução correta para o problema, ela havia usado de um raciocínio pouco científico e diferente daquele que se encontra descrito no livro texto – quando, na verdade, a solução apresentada por Estér era a mais concisa e elegante resposta para o problema. E, então, alguns garotos do fundo da sala decidiram murchar os quatro pneus do carro do professor, que se encontrava no estacionamento do pátio da escola, tão logo saíssem para o intervalo.

 

Foi um dia exaustivo, como todos os outros. O Sr. Ptolomeu chega em casa por volta das sete da noite. Como sempre, salvo nos dias em que chove. Sua esposa está sentada na frente da televisão. Seus dois filhos menores estão brincando no tapete que cobre toda a extensão do piso da sala e o maior está assistindo novela ao lado da mãe. Dona Miquelângela não parece se importar muito com eles. Ela percebe quando o marido entra. Os filhos dizem um “Oi, pai!” sem saírem de seus  lugares.

“Oi, bem. Como foi o seu dia?”

O Sr. Ptolomeu odeia quando ela pergunta isso. É a mesma coisa por quase dez anos. O melhor a fazer é responder sem delongas e acabar logo com a questão. É uma pergunta mecânica, mas exige uma resposta. Qualquer uma. Como tem feito sempre. Senão, a próxima pergunta será “Algum problema?”

Queria ter respondido “A merda de sempre.” mas disse:

“Cansativo. Mas está tudo em ordem. O Júlio mandou lembranças. Está querendo marcar um jantar na casa dele. A esposa dele insistiu para que fôssemos.”

“Ok”, responde a mulher, já retornando a atenção para a novela. “Vamos marcar no domingo.”

Mais uma daquelas merdas de jantares aonde só se discute banalidades, pensa o Sr. Ptolomeu. Um encontro de medíocres para se medir felicidades e ficar reclamando dos outros e do país.

A ninfetinha do ônibus ainda está lá, na sua cabeça. Imagina se estivesse casado com ela! Aquele docinho abriria a porta quando ouvisse o elevador chegar e viria ao seu encontro, nua e perfumada. E se atiraria sobre ele. Treparia ali mesmo na porta de entrada, esfregando-se em seu corpo suado de um longo dia de trabalho. E ele iria se esquecer do cansaço. E os dois iriam tomar um banho juntos. E fazer sexo de novo.

“Eu vou tomar um banho.”

“Ok, querido. Quando der o comercial eu esquento a comida. Ah! A conta do telefone chegou hoje.”

Ptolomeu abaixa a cabeça e, resignado, vai para o banheiro, tentando imaginar aonde teria errado.

 

“Coisa ruim não morre”. Dito popular que tem suas origens nas antigas fazendas de cafezais, onde o trabalho escravo era o sustentáculo de uma sociedade baseada na ostentação e em falsa erudição – imitação caricata da estrutura social da Europa em terras sul-americanas. Nesta condição improvável e torpe é que a escória da sociedade de Portugal prosperava na colônia, às custas das almas de negros oriundos do continente africano, vendidos como reles mercadorias e submetidos a condições sub-humanas pelos feitores de escravos.

“Coisa ruim não morre” – assim diziam os escravos referindo-se aos seus feitores, paus mandados dos proprietários de grandes latifúndios, e síntese do abstrato conceito de demônio – dentro das possibilidades do contexto humano.

Esta absurda estrutura social permaneceu praticamente inalterada por aproximadamente três séculos, para então se transfigurar através dos mecanismos de abolição da escravatura e de emancipação da colônia. Porém, do ponto de vista prático, nada mudou. Há quem diga até que a situação é ainda pior, na medida em que a escravidão degenerou-se nas mazelas sutis do subemprego, da discriminação racial, da exploração da mulher e do nepotismo. Legalizou-se o abuso, instituiu-se a insegurança e o medo. E nesta moderna configuração social, ninguém representa melhor a figura do feitor de escravos – daquela figura frágil, porém revestida do poder demoníaco dos loucos – do que Jorge.

“Coisa ruim não morre”. Jorge adentra o bar com a coragem refeita, pede caneta e algumas folhas para o dono da espelunca. Senta-se numa mesa mal iluminada e, debruçado sobre o papel, vomita mais um texto que viria a ser atribuído ao seu personagem, Jacinto.

Enough is enough. Minha mente desdobra-se em sua contrapartida etérea e parte, em disparada assombrosa. Aceleração imensa de recordações de um remoto passado rumo ao futuro. Próximo da velocidade do som os termos convectivos da equação de Navier podem então se expressar de forma plena. E a sensação, eu posso afirmar-te, é indescritível. Porém, sensível à alma dos fortes. Estou falando, ouça bem, estou falando no descolamento da camada limite. Estou falando em cavitação, em turbulência. Estou falando da propagação de uma onda de choque. Será que eu estou viajando? Pode ter certeza que sim. Quando é que seria possível então imaginar desfrutar desta experiência singular do fenômeno sem sequer uma seqüela? Por que é preciso marcar o corpo com metal em brasa para fazer parte do rebanho. Dormir ao relento para a experiência do pasto. Ou de ponta cabeça, quem sabe, para entender um morcego – ainda que não passe de um rato com asas. Ouça bem querida, não quero ter a experiência de um homossexual para saber o que é ser viado. E vou comer agora do teu cu tenro e virgem, para que depois você me diga. Afinal, há limites para tudo nesta vida.”

É claro que Jorge estava referindo-se – através de Jacinto – àquela ninfeta que tinha visto no ônibus, pela manhã – Estér.

 

Dona Yolanda sente-se extremamente triste e vazia desde aquela noite. Porque perdeu o chão podre onde pisava – sem saber sequer do que ele era feito.

“Como pude ceder ao poder vazio da palavra torta do homem?”

Sem saber como e a quem recorrer, Dona Yolanda lança-se em profundo pensamento.

“Sublime e poderosa luz do universo, ilumina e abranda as chagas destas terras distantes onde ainda prevalece o medo e o terror entre as criaturas. Que o teu facho inquebrantável sirva de segura baliza para as atitudes e o pensamento positivo até onde avança o firmamento – e além. Que os nutrientes sejam providos de maneira equânime entre as criaturas animadas e inanimadas. Minimiza com teu brilho alvo os pontos negros deste mar de almas na medida do reconhecimento das atitudes insanas, grotescas e das aberrações de comportamento. E não permita que sejamos engolidos pelo ralo assustador do vórtice negro. Liberta-nos do nefasto, do funesto, do cambaleante e triste fardo daquele que é monstruoso, feio e demoníaco. E seja sempre assim.”

Dona Yolanda adormece com um sorriso de alívio na face surrada de sua velha cara.

Era preciso desabafar de toda esta sua experiência. Afinal, após anos observando as árvores e as suas ramificações em galhos, soube ela interpretar cada nódulo de bifurcação como que uma resposta natural a um meio ambiente intrinsecamente agressivo. Daí a aleatoriedade em resposta à surpresa. Daí as mudanças bruscas de comportamento do caule em resposta ao medo e à insegurança. Enfim, concluiu que toda a planta seja ela árvore ou arbusto, é fotografia de sua história. E assim os animais mamíferos como o gato, o cachorro e também o ser humano. A memória, enquanto planta, é curta de si mesma, transborda em seiva, alimenta as folhas e floresce em amor e pétalas.

“E um dia eu chego lá.”

Mas infelizmente tudo não tinha passado de um torpor inconsciente, e Dona Yolanda não se lembraria de nada disso no dia seguinte.

 

Aquele dia era igual a todos os outros. Não tinha por que ser diferente. Com a mente em completa letargia – o corpo acordou na hora, mas a mente continua roncando em algum lugar. A carne e os ossos de Ptolomeu, com movimentos automatizados pela repetição incessante ao longo de tantos anos, realiza todos os rituais matutinos necessários para a sua ida ao trabalho. Atos necessários ou desnecessários, mas que sempre foram feitos assim. Tocar a imagem de Nossa Senhora Aparecida e depois beijar a própria mão e fechar a porta e depois verificar três vezes se a porta está realmente fechada. A imagem, assim como a maçaneta, está bastante descascada de tanto ser alisada, mas a santa nunca reclamou. Nem a porta.

A ida para o trabalho. Os mesmos atrasos do coletivo, o mesmo ônibus velho e barulhento cheio de gente, o mesmo empurra-empurra e as mesmas pessoas suadas e fedendo a suor e perfume barato. O cobrador ignorante e preguiçoso reclama do troco de novo e o motorista não bate, novamente, porque, em algum reino celestial ou infernal, deve haver um deus para os desgraçados e para os fedidos. Na verdade, se Ptolomeu parasse para pensar, iria concluir que deixou algo em casa. Seu cérebro.

A garota não pegou aquele ônibus hoje.

A entrada no prédio de escritórios também é igual. A mesma piada sem-graça e de baixo nível do porteiro, as mesmas pessoas com sorriso amarelo no elevador. Na enorme sala cheia de mesas e divisórias de um metro de altura, as mesmas pessoas, os mesmos cheiros, os mesmos risinhos irritantes, a mesma atividade inútil. Os mesmos colegas de trabalho passam em frente à sua mesa e lhe saúdam com as mesmas palavras e brincadeiras.

O mesmo, o mesmo, o mesmo.

Tudo cansa um dia!

Então, alguma coisa começa a crescer dentro de Ptolomeu. De repente. Algo incontrolável. Algo que sempre existiu lá, mas que se achava acorrentado. Alguma coisa quebrou a corrente e cutucou a fera. Alguns dirão que foi um alinhamento de astros ou que outro cometa atingiu Júpiter, enviando emanações. Outros dirão que Ptolomeu, depois de vinte e tantos anos como funcionário público e dez casado com a mesma mulher, finalmente descobriu que tem algo mais na cabeça além de cabelo molhado de gel.

Foi repentino como uma singularidade e ninguém poderia estar preparado para isso.

Durante sessenta anos, essa repartição tem sido um local de maracutaias protegidas pela lei e de burocracias idiotas, mas um local suficientemente silencioso. Um local de conivência e de risinhos imbecis e choros abafados, no qual o maior barulho já registrado ocorreu durante a ditadura militar e foi o peido não intencional de um estagiário. O estagiário foi mandado embora no dia seguinte, e o peido foi, aos poucos, se transformando em lenda. Nem música ambiente havia.

Assim, sem aviso, uma nova lenda estaria para nascer.

Levantando-se de sua cadeira sem fazer barulho, e enchendo o pulmão com todo o ar parado que podia sugar do ambiente decadente ao redor, Ptolomeu grita com toda a força:

“Filhos da puta!”

E colapsa sobre a mesa.

Depois do choque, alguém chama uma ambulância. E Ptolomeu, após quinze anos pagando o maldito plano de saúde sem utilizar nenhum serviço médico, finalmente é internado em um leito confortável, fazendo valer todo o dinheiro empregado.

A esposa foi chamada. Ela chorou muito naquela noite, ao lado da cama do esposo, e imaginou besteiras. Ela rezou o terço também.

O funcionário, até então exemplar, estava em coma.

 

O cerco se fecha. Ela abre os olhinhos e sente uma fragrância suave que invade o seu quarto cor-de-rosa na manhã daquele dia. Estér está docemente envolvida por suave lençol e seu rosto repousa sobre um travesseiro macio. Olha para o rádio-relógio sobre a escrivaninha e nota que falta um minuto para o despertar.

“Que coincidência!”

Ao lado, dois dos três botões de rosa que sua avozinha havia lhe dado tinham acabado de desabrochar. E ela não suspeita que este é o sutil marca-passo de uma contagem regressiva para a descoberta da mulher que virá a ser.

Pensa em sua avó e o rádio-relógio começa a tocar uma doce melodia.

“Sinto uma ligação tão intensa com minha avozinha, é como se seu instinto maternal fosse potencializado com o passar dos anos. A contrapartida do envelhecimento do corpo, das restrições físicas as quais inevitavelmente estamos sujeitos, deve ser então esta purificação da alma, este adocicar. Que sublime criatura!”

Estér espreguiça-se deliciosamente, seu corpo seminu envolvido apenas por camisola curtíssima de pura seda, o longo cabelo castanho, sua pele macia, seus dezesseis aninhos.

            Cada detalhe naquela manhã tem um leve toque onírico, como que a transcendência – ou travessia de uma ponte – para o mundo da pureza. De sua posição na mesa do café com a família, Estér pode ver o enorme aquário que cobre a parede oposta da sala. Dentro dele o peixe. E o peixe sorri. Não é sorriso jocoso, mas o sorriso mínimo, como deve ser o verdadeiro sorriso de um peixe.

“A felicidade é tão etérea. Vivemos em busca dela e ora ela está ao alcance das mãos, ora não está. Tudo depende do foco e da sintonia, como longas e nobres cordas de um violino.”

            Toma o ônibus para a escola. Sabe que a carteira vazia na primeira fila da sala de aula estará esperando pelo seu toque. Naquele dia ela parece inspirada e perceptiva aos pequenos detalhes. Algumas coisas haviam definitivamente mudado. Os garotos não deixam de reparar no seu jeans justíssimo, na mini-blusa que realça os seios de intenso vigor, no seu lábio vermelho e carnudo, ou no castanho dos seus olhos penetrantes. Mas o fazem de forma diferenciada e lúdica. Mesmo as garotas – sagazes e ferozes competidoras – parecem lançar-lhe olhares discretos, envoltos de sincera admiração e respeito. E na sua carteira, da primeira fila, há um delicado botão de rosa – presente este que ninguém sabe quem havia deixado (exceto aquele que jamais permitira escorrer seu desejo através de espessa couraça de introspecção: o cdf quatro-olhos de nome Arlindo).

            Professor Azevedo adentra o recinto. Seus sentidos estão espantosamente aguçados – como que uma presa atenta, no ímpeto antinatural de atravessar perigosas paragens, ainda pouco conhecidas.

 

Ponto de bifurcação (ou soma zero). De fato, as últimas quatorze horas na vida do professor Azevedo prenunciaram a estranha transformação que estava por vir. Desde aquele evento da prova surpresa imposta sobre a classe terceiranista. A solução inusitada de Estér à questão a cerca das máquinas térmicas – ou o Ciclo de Carnot. Ele não consegue deixar de pensar naquele raciocínio espantosamente cristalino e conciso, o qual conduziu de forma direta a uma resposta irrefutável. Afinal, debaixo de fina e oleosa camada sebácea habitava, sim, uma mente científica.

Ao sair do colégio, ele pensa estar livre de mais um cansativo dia de aborrecimento, lecionando para as carteiras e para as paredes, e que poderá chegar em casa, tomar um banho, comer hambúrguer e tomar refrigerante bem defronte à tv. Enfim, pensa que terá a necessária paz de espírito para avaliar a validade de hipotética demonstração inédita de importante teorema sobre a transferência de calor. Doce ilusão. Pois, lá no pátio repousa seu Monza 92 com os quatro pneus completamente arriados. Deixou lá o carro. Não havia condições psicológicas para outra atitude. Tomou o coletivo lotado de fim de expediente. Fez a baldeação num terminal da periferia e desceu do segundo ônibus, próximo ao centro. Caminhou por mais quatro quadras. Enfim, chegou ao prédio onde mora – e já está bem escuro a esta altura. “Caralho, caralho, caralho.”

É exatamente uma hora e trinta e seis minutos do novo dia quando um Azevedo ínfimo e exausto conclui que a garota tinha, de fato, razão. Ele tinha metido os pés pelas mãos. Seu brio como mestre e homem das ciências exatas havia sido gravemente ferido. E aquilo é insuportável para a cabeça dele.

Para surpresa de todos, ele diz perante a classe, na aula seguinte:

“Tenho algo a dizer sobre a prova de ontem. Tenho que admitir que a solução que vocês apresentaram está correta. Vocês merecem a nota máxima.”

Os olhinhos de Estér brilham de alegria.

“Que presente dos céus.”

São estas atitudes incontestavelmente retas do professor que nutrem na garota profunda admiração e estranhos desejos sensuais.

“Mas… ontem, após a nossa aula, algo muito grave aconteceu. Murcharam os pneus do meu carro! Quero saber quem foi o responsável por este ato de van-da-lis-mo, e os envolvidos terão de arcar com os seus atos! Se os espertinhos aparecerem, a classe toda levará dez.”

E professor Azevedo lança o olhar de um demônio para o fundo da sala.

“Porém, se estes covardes não aparecerem, será zero pra todo mundo!”

Estér praticamente desaba sobre a carteira. Seu corpo todo treme. Seus mamilos ficam muito eriçados. Seu útero virgem é invadido por imenso volume de sangue. A atividade é intensa. Em poucos segundos sua vagina estará irresistivelmente úmida e escorregadia.

Obviamente os alunos do fundo acovardam-se. Ninguém se manifesta. E Azevedo brada autoritário:

“Então é zero pra todo mundo!”

Estér, de súbito, salta da carteira, fica em pé, seu corpo como que em transe (talvez não fosse ela que estivesse em seu corpo naquele exato momento):

“Mas Professor… isto não é justo!”

E Azevedo profere – quiçá – seu mais sincero e cristalino discurso:

“Quem é você pra falar assim comigo, sua garota imbecil! Só porque conseguiu, de cagada, resolver a prova acha que pode alguma coisa co-mi-go! De que planeta você veio? Acha que o mundo é cor-de-rosa ou que está na porra da Disneylândia? Vai tomar no teu cu, pirralha lazarenta!”

E aquilo é pura descontinuidade – assíntota intangível do relacionamento humano. Suas vidas estariam vinculadas para sempre a esta restrição no espaço-tempo.

Azevedo sai atônito da sala. Havia perdido definitivamente o controle. Na diretoria, reconhece que sua situação é irreversível. Pede a demissão da escola e parte.

A vida de Azevedo transfigurou-se em verdadeiro tormento a partir daquele dia – uma alma encomendada às trevas. Desistiu de lecionar em colégios e cursinhos. Decidiu fazer o doutorado. Ensimesmou-se de insuportável arrogância. Quatro anos mais tarde, tendo terminado seu até certo ponto elogiado doutorado, conseguiu uma bolsa de pesquisador em um instituto de pesquisas. Depois, prestando um daqueles concursos fajutados, tornou-se professor universitário – por que no meio acadêmico, área de exatas, via de regra os alunos são submissos e gostam de puxar o saco dos professores, aumentando-lhes a auto-estima e inflando-lhes o ego. Mas, se numa medida ferrava com a vida de almas medíocres, noutra medida – amplificada – ele era fodido. A disputa política na instituição era acirrada. Azevedo era bruto e arrogante, mas não era burro. Despertava a inveja e o ódio de seus pares. Participando de comissões e comitês – depois de ter entrado para a maçonaria – buscava se vingar de quem não gostava negando-lhes verbas para pesquisa e bolsas para seus alunos. Cada dia afundava mais e mais em espessa areia movediça – que era a massa corporativa fétida e podre que o envolvia. Disseram até que foi obrigado a mudar várias vezes de departamento – esmolando amparo e atenção. Até que não lhe restou mais nada – nem seus amigos do avental, da pá de pedreiro, do esquadro e do compasso puderam (ou quiseram) ajudá-lo. Um dia, durante uma das reuniões semanais, numa das lojas mais ritualísticas do Brasil, sem mais nem menos, ele comentou em voz alta que esse negócio de usar avental era coisa de bicha. Então, expulso da ordem, parou de publicar artigos a toque de caixa como fazia antes. Depois parou de publicar por completo. E isso foi a sua morte acadêmica. Pronto. Desapareceu definitivamente da estória.

 

Dias depois dos incidentes com o professor Azevedo – na verdade, fazia um bom tempo que ela não o via –  Estér estava em seu quarto cor-de-rosa quando foi tocada por estranho pensamento.

“Muito esquisito como isso tudo aconteceu. Acho que nunca mais verei o professor Azevedo; que me parecia um homem tão decente. Às vezes me parece que a humanidade toda não passa de um videogame jogado numa outra dimensão – por outros seres, supra-humano. Estes semideuses têm nas pessoas as suas cartas. O baralho é lançado na Terra. De forma que, no computo final, uma vida não passa de determinada soma. Começa de um valor e vai correndo o jogo. Vai sendo subtraída desta ou daquela outra carta. E então bate. Parte deste mundo sem deixar sombra que o valha: soma zero.”

 

Ptolomeu sente as raízes. Elas perfuram a terra e somem por entre objetos arqueológicos muito antigos e nutrientes inorgânicos. As raízes são parte de Ptolomeu.

Ele está plantado no meio de uma vasta planície. O céu está pintado de magenta e as nuvens azuis passam impossivelmente rápidas no céu. Mais vasta ainda é a sua conecção com o planeta através do entrelaçamento com as inúmeras outras raízes ao seu redor. Ptolomeu e o planeta são uma única coisa.

Um pequeno pássaro desce dos céus, um certo dia, e faz um ninho em um de seus galhos. O galho da árvore chamada Ptolomeu. Ele observa pacientemente enquanto o tempo passa.

As eras se sucedem.

Muitos ventos têm assolado a região. Os fortes deslocamentos de ar o curvam e tentam arrancá-lo do chão, mas ele resiste. Sua união com as outras árvores, por baixo da superfície, aumenta a sua força. Ptolomeu também dá frutos. Ele vê os frutos de si mesmo ficarem maduros e caírem no chão. Ptolomeu não sente remorsos.

Então tudo muda, de repente, e Ptolomeu não é mais uma árvore.

Ele é maior que uma árvore, maior que toda a matéria do universo. Ele observa todas as coisas vivas e não vivas de uma posição superior e agora são elas que se curvam perante a sua presença. Ptolomeu olha para todos os lados e, permeando todas as coisas, todos os mundos e todos os aglomerados de galáxias, e os aglomerados de aglomerados de galáxias, toda a existência enfim, ele vê a sua influência. Ptolomeu nunca se sentiu tão só.

Ele vê templos sendo erigidos em seu nome em um mundo e, em outros, vê seres estúpidos tentando diminuí-lo em representações grosseiras de gesso ou equivalentes cósmicos. Vê também as criaturas nesses templos usarem o seu nome em benefício próprio e se esquecerem se seus ensinamentos.

Em um momento de tédio absoluto, Ptolomeu cria um novo universo com Adão e Eva e sem a serpente. Mas não dá certo. 

Então tudo muda novamente, de repente, e Ptolomeu não é mais Deus.

Uma escuridão. Um nada. Uma vida simples.

Então, depois de ter sido árvore e de ter sido Deus, assim como o poeta um dia escreveu, Ptomomeu desperta do coma em um hospital qualquer da rede pública de saúde.

Da mesma maneira que no final – ou no início – de qualquer bom drama, está chovendo.

Sua esposa dorme sentada em uma cadeira precária bem ao seu lado.

 

“Querida Filha,

E_crevo para pedir que não te preocupe_ comigo. Tudo aquilo que houve já e_tava no_ plano_ – de uma forma ou de outra. E você bem _abe que o_ plano_ vêm ante_ de tudo, embora tenho de admitir que não e_tava de todo preparada para i_to. Ma_ _e deve _er a__im o que há de _e fazer, não é me_mo? Cumprir a _ina.

Aqui exi_tem pe__oa_ diferente_ e e_tou aprendendo muito com ela_. É bem verdade que _ão conceito_ ou propo_ta_ que, a princípio, podem parecer-te e_tranha_ e tran_gre__iva_. Ma_ ainda a__im _ão po__ibilidade_ di_tinta_ de expre__ão e convivência, e_tado_ da mente pa__ívei_ de um _er humano, de uma vida. _im, a_ pe__oa_ aqui e_tão viva_ e têm _onho_, de_ejo_, nece__idade_ _uti_ que tran_cendem a _imple_ capacidade operacional padrão. E por i_to tornam-_e a__im – como poderia colocar i_to? – e_peciai_, vindo a fazer parte de_te rol re_trito.

_ei que você deve e_tar achando ab_urda e_ta minha lógica e i_to pode deixá-la tri_te, ma_ do fundo do meu coração não go_taria que você _e _enti__e a__im. É como _e você ou eu ou nó_ e_tivé__emo_ num outro paí_, cuja cultura, o_ co_tume_, a_ tradiçõe_ e a moeda _ão ba_tante di_tinta_ daquilo que e_tamo_ aco_tumada_. E i_to não _e aprende na e_cola, não e_tá e_crito no_ livro_ e nem no_ _ite_ da Internet. É bem verdade que tudo i_to é muito pe__oal. Outra pe__oa pode enxergar a me_ma que_tão _ob uma outra per_pectiva. Pode afirmar que um paí_, no _entido contextual da palavra, pre__upõe determinada_ relaçõe_ e_tabelecida_ entre o_ cidadão_, afinidade_, direito_ e devere_. E que i_to não pode _er ob_ervado ne_te verdadeiro cada-um-por-_i-e-Deu_-por-todo_ (ou por ninguém?). Ma_ imagine _e houve__e uma terra onde e_te_ elo_ do relacionamento inter-pe__oal pude__em _er relaxado_ até o limite: é mai_ ou meno_ i_to que acontece aqui.

Para terminar, go_taria que você _oube__e que a liberdade ab_oluta não é o paraí_o à medida que _epara e divide. Tudo aquilo que conqui_tamo_ – em e__ência – deve _er compartilhado com alma_ afin_. Acre_centado a obra e _ervir de alimento para a_ nova_ realizaçõe_, de_ta ou de uma outra geração. Daí o motivo de_ta _ingela carta, endereçada a você minha filha, que é o meu amor. E a mamãe _ó e_tá aqui no _anatório por que _e e_queceu como _e articulam o_ e__e_.

Beijo_, Gilda”

 

Ptolomeu chega em casa, trazido pela esposa, por volta das cinco da tarde. Seus filhos o recebem com bastante alegria. Parece que esteve ausente por uma eternidade ou duas. Talvez seja simplesmente o fato de que ele poderia não ter voltado nunca mais. A casa está exatamente do jeito que ele deixou há uma semana, mas parece outro lugar. Alguma coisa dentro dele está impaciente, pois sabe que as coisas jamais serão as mesmas.

 

 O amor de mãe é infinito. A leitura da carta que Gilda tinha deixado pouco antes de partir era sempre motivo de grande alívio para a filha. Ela recorria a este artifício extremo sempre que seu coração era ferido, a angústia insuportável, o mundo parecia sucumbir a seus pés. A leitura do manuscrito na tarde do dia anterior tinha feito com que Dona Yolanda tivesse a sua primeira noite de sono verdadeiramente tranqüilo desde o evento fatídico envolvendo o Pastor Nemésio.

   Para o seu estranhamento e surpresa, não se lembrava de nenhum sonho ou temor noturno, eventos bastante corriqueiros ao seu cotidiano. Por outro lado, sentia as energias renovadas e sabia de cabeça tudo aquilo que tinha de fazer.

“Para terminar, go_taria que você _oube__e que a liberdade ab_oluta não é o paraí_o à medida que _epara e divide.”

Releu o trecho da carta e meteu-a no bolso do paletó, meio que sem jeito. Sente muita falta da mãe. Tomou um gole de café preto, fechou a casa e correu para o ponto de ônibus – por que sabia que já era hora dele passar.

 

O homem enquanto escravo dele mesmo. Naquela mesma manhã Reinaldo acordou bastante irritado, dirigia seu carro lentamente e sem vontade. Não tinha tomado banho ou feito a barba.

“Isto é ridículo, como se não bastasse eu ter encontrado uma saída em grande estilo para a bancarrota desta editora vagabunda, agora o chefe energúmeno me pede que eu deixe de lado o meu trabalho para encontrar pessoalmente esse tal de Jacinto – ou o autor dele. Falta de reconhecimento. Isto é coisa para office-boy, não para um profissional da minha envergadura.”

Reinaldo estaciona o carro e dirige-se hesitante para uma pequena reunião de desfavorecidos que se aglomeravam na esquina, bem defronte a um boteco vagabundo de subúrbio, onde fica um ponto de ônibus. O dia mal tinha começado. O odor de suor misturado a uma gama de perfumes vagabundos faz com que Reinaldo perca a consciência por um átimo de segundo. Esbarra numa jovem:

“Não mexe comigo, Tio, que o meu namorado dá dois de você.”

Quando o coletivo chega, entra no jogo de empurra, como que resignado a sua triste sina.

 

Uns nascem para a fornicação, outros para a masturbação. Dona Yolanda desce do ônibus e faz o trajeto habitual que a leva até o templo. Pensa no pastor, sente nojo e um arrepio que lhe desce pela velha espinha.

“Hoje ele vai ter o que merece.”

Dobra uma esquina, caminha a passos seguros, dobra outra esquina a direita, depois outra a esquerda. Mais duas quadras. Finalmente chega até o prédio que ela sempre reparara, a poucos metros do templo, do outro lado da rua. E pensa o quão irônico é fazer agora praticamente o mesmo trajeto, com este objetivo afinal.

 

Na repartição, o Sr Ptolomeu está prestes a iniciar o ritual burocrático diário. Mas faz tudo diferente. Liga o computador antes de se sentar, e não depois, por exemplo. Tira alguns papéis de sua escrivaninha e, meticulosamente, dirige-se ao arquivo, onde retira uma pasta específica. Antes ele pedia ao estagiário. Tudo bem. O estagiário está preparando café para ele, coisa que nunca havia pensado em pedir para o rapaz antes. O café continua aguado e um pouco morno – já pela manhã. Ah! Não viu a garota hoje no ônibus de novo. Foda-se!

Diz bom dia aos colegas que encontra pela frente, mas apenas àqueles que sempre respondem. A maioria não consegue disfarçar um olhar suspeito – afinal ele acabara de retornar de uma licença médica e parecia diferente. O Sr Ptolomeu sentia-se extremamente constrangido com aquela situação. “Que merda!”, ele pensou. “Que merda!”, ele disse para quem pudesse escutar.

Pouco depois o delegado veio chamá-lo para a sua sala.

Sentou-se a mesa lateral, bem defronte a velha máquina de escrever. Botou o papel carbono no meio de duas folhas do boletim de ocorrência.

“Meu nome é Yolanda Gomes Porfírio Gonçalves, tenho 59 anos. Sempre fui muito religiosa. De uns tempos para cá comecei a freqüentar o templo do pastor Nemésio Manuel Cortazar, que fica nesta mesma rua, logo ali em frente…” – digitava Ptolomeu.

Como escrivão de polícia, ele era uma espécie de lavabo da desgraça humana, do fracasso, da vergonha dos seres que se consideram racionais. E ele estava farto disso – enquanto fazia o seu ofício, procurava mentalizar o Pai Nosso ou uma Ave Maria, desvincular-se de um cotidiano insuportável. Hoje foi o primeiro dia em que pensou pedir demissão.

            “A secretária é uma loira de cabelos longos, enrolados. Deve ter uns vinte e poucos anos. Ela estava com a calcinha baixada na altura do joelho. Sem blusa ou sutiã. O pastor Nemésio a abraçava por trás. Brincava com os seus seios. Ela parecia estar gostando. Nem sei como dizer isso… ele estava sem roupa, com o seu… pinto… dentro dela, entrando e saindo por trás. A moça pegava o dinheiro da coleta e jogava pra cima. Eles gemiam… tenho até nojo de lembrar a cena.”

Sr Ptolomeu definitivamente não consegue concentrar-se nas suas orações. Seu pênis assume uma configuração moderadamente ereta, faz com que este roçasse na velha cueca samba-canção, elevando-a, e causando certa saliência da calça de linho. Por sorte, ele está protegido pela mesa. Era certo que, uma vez tomado o depoimento, o conteúdo serviria de inspiração para alguns minutos a mais trancafiado no banheiro – a testa suada, exercício para a imaginação e para a mão canhota. (Contrapartida é que isto exigiria uma confissão antes da missa de domingo).

            De súbito, Sr Ptolomeu compreende o real contexto da terceira lei da termodinâmica: “Num processo irreversível em que a variação de entropia do universo é C, parte da energia se torna indisponível para a realização de trabalho. A quantidade de energia que se torna indisponível é Cu, onde u é a temperatura do reservatório térmico mais frio que participa do processo. Re-configuração das partículas para uma condição mais estável. Caminhamos para a morte inexorável. A não ser que, através do coito…

O delegado tenta disfarçar um sorriso sutil, mantendo a autoridade. Só quando Dona Yolanda finalmente cala-se, é que ele diz:

“Entendo como a Senhora deve estar se sentindo. Mas o que a Senhora acabou de descrever não incorre em nenhuma infração perante a lei. Pelo que me diz, o Sr Nemésio não é casado, nem tão pouco a sua secretária. Infelizmente, o máximo que eu posso fazer é documentar a ocorrência.”

Mesmo assim a mulher parecia satisfeita.

Um mês depois o Sr. Ptolomeu pediu demissão e resolveu escrever um livro. O livro fala sobre repressão de desejos e pode ser encontrado na sessão de auto-ajuda das livrarias através do país, já na sua décima edição. Foi um sucesso imediato e ele pôde finalmente sossegar um pouco e curtir mais a vida. Seus filhos cresceram e foram para a universidade. Sua esposa morreu logo. A sua fama internacional fez com que ele cruzasse com o Paulo Coelho em uma de suas viagens ao exterior. Os tablóides sensacionalistas dizem que ele mandou o mago de araque tomar no olho do cu. Esses mesmos tablóides não cansam de fotografá-lo nas noites cariocas e paulistas cercado de ninfetinhas gostosas.

 

            A dádiva. Reinaldo está incumbido do impossível. Decide ir e vir no mesmo coletivo onde havia encontrado, por acaso, os cadernos de notas de Jacinto. Quando chega ao ponto final da linha, no terminal, observa os passageiros deixando o ônibus. Observa as criaturas, algumas mais novas, outras mais maduras; porém, todas aparentando a ignorância em excesso para a criatividade.

“São uns coitados. Modern slaves.”

(Ele acha que pensar noutra língua o faz melhor que os outros; covarde que é; almofadinha; de família classe média-alta; apenas mais uma merda que havia recebido o fermento do dinheiro em abundância e um maldito diploma de curso superior para limpar o cú.).

E finalmente outros homens, mulheres e crianças entraram no veículo para a viagem de volta. Ônibus lotado. Uma mulher em estado de gravidez avançada – os cabelos sujos e despenteados, o vestido amassado – esfrega a barriga no seu ombro a cada frenagem. É insuportável. Reinaldo decide ceder o lugar e acabar com a tortura de uma vez. Vai para o fundo do coletivo, esbarrando nos passageiros com a movimentação brusca do veículo. É quando percebe uma folha de papel ao chão. E, com alguma dificuldade, consegue alcançá-la.

“É bem verdade que _ão conceito_ ou propo_ta_ que, a princípio, podem parecer-te e_tranha_ e tran_gre__iva_. Ma_ ainda a__im _ão po__ibilidade_ di_tinta_ de expre__ão e convivência, e_tado_ da mente pa__ívei_ de um _er humano, de uma vida.”

“Jacinto!”

Reinaldo não consegue esconder o seu contentamento ante a descoberta de mais um fragmento daquele manuscrito que poderá garantir o seu salário por mais algum tempo (e quem sabe até um aumento)!

 

Cada ser padece de seu próprio veneno. “Você me pede o que eu tenho para oferecer-te. Sempre assim. A sanguessuga tem o zape; e tem também o sete de copas (no jogo dos covardes). Chama seis com a garganta limpa dos sujos. O sorriso dos frouxos. A ereção dos sexagenários. Sem graça. Sem respeito. Tira vantagem de quem pode. Nove aos otários. Doze aos falsos. Mas não convence. Por que o céu (e o inferno) pertence(m) aos lutadores de verdade – e o jogo baixo não passa de uma diversão para os boçais.”

Tendo escrito isto, Jorge pede mais uma vodca de rótulo duvidoso, mas de sabor sincero e efeito honesto até a última gota.

Paga a conta e deixa o bar.

           

Um carro em disparada acerta em cheio ao transeunte enquanto ele atravessa a rua. E fim. O motorista, editor de nome Reinaldo Senise. Ficha limpa, velocidade pouco acima do limite de quarenta quilômetros por hora (pelo menos assim dizia o B.O. preenchido por Ptolomeu Ferreira dos Santos, alguns dias antes de abandonar o emprego), deixa uma vítima fatal, a qual aparenta entre vinte e cinco e trinta anos, portador de uma meia dúzia de documentos distintos; com diferentes nomes, datas de nascimento ou estados civis. Eventualmente Oswaldo S. Martins, Flávio S. Rosa, D. Charles ou um tal de Jorge Quintino Santana… sabe-se lá. Fato é que ninguém reclamou o corpo.

 

Depois de um tempo, Reinaldo desiste de sua busca por Jacinto (ou seu alter ego). Ele perde o emprego na editora e resolve viajar pelo mundo. Em uma Bienal do Livro na Alemanha ele conhece Dan Brown. Conversa vai, conversa vem, nasce o esboço de uma nova mina de ouro. A vítima agora é o “David” de Michelangelo. Uma vez que o povo adora uma boa baixaria e se diverte mais com pintos e vaginas do que com religião e seitas secretas, o novo livro bateu o sucesso anterior do mesmo autor. A inútil versão hollywoodiana não ficou atrás.

A história escrita por um e editada por outro (Reinaldo convenceu Dan a buscar um outro editor; talvez seja a cara-de-pau dos brasileiros) versa sobre um segredo escondido por dentro do pinto da famosa estátua de mármore. Durante a noite, uma louca resolve sair das sombras, onde havia se escondido por meio dia, e realizar seu grande sonho: dar uma chupada no pau do homem perfeito. Ela até escala as imensas pernas e dá uma boa lambida. Mas se desequilibra. Aí agarra onde antes estava chupando e cai segurando um pedaço daquela obra prima nas mãos. Um antigo pergaminho se faz notar no recente orifício que fica entre as pernas do colosso. É o pergaminho que…

 

Jorge chega ao Inferno. A temperatura lá é um pouco maior do que nos trópicos. Na sala principal, Lúcifer está confortavelmente sentado em seu trono de danação. Ele é exatamente como Gustave Doré o desenhou na versão ilustrada da Divina Comédia de Dante, com os três rostos. Ao lado direito do Senhor do Submundo senta-se Jacinto. Jorge senta-se ao seu lado esquerdo.

 

Depois de ter sido escorraçada em público pelo professor simiesco, Estér resolveu estudar como nunca. Ela havia decidido: se não passar no vestibular da primeira vez, vai cortar os pulsos. Foram dias horríveis sem se divertir, sem nem mesmo ver a luz do sol nos finais de semana. Mas Estér prestou o vestibular e passou. Foi aquela choradeira quando saiu de casa e foi morar em outra cidade.

 

M U 7 4 C 4 0. “Ontem dormimos juntos como dois corvos em seu ninho de amor. As bicadas da noite não nos deixaram marcas. Pois são sinceras falhas de garras afiadas. Penas perdidas não me espantam em absoluto, desde que a compensação nos valha em milhos.”

Penso na total falta de personalidade dos artistas. Fico deprimido e me enjôo. Será que bebi demais? Afinal, depois de consumado o coito, foi exatamente isto que ela me disse:

“Preciso que você saiba disto, ainda que seja um tanto difícil para que eu possa te contar: Quando eu voltava da casa de uma colega ontem, por volta das dez da noite (preciso que você compreenda que estávamos finalizando um trabalho de escola para o dia seguinte), dobrei a esquina e dei de encontro com um rapaz. Quase caí. Ele me apoiou e pediu desculpas. Vestia-se todo de branco, inclusive os sapatos. Tinha os cabelos encaracolados e um sorriso encantador. Me disse que era poeta. Recitou algumas estrofes às quais não prestei a mínima atenção. Eu estava apenas fitando os contornos de seu corpo, que reluziam levemente… e pensava qual sabão em pó poderia causar aquele efeito. Antes que chegasse a uma conclusão, ele me beijou. Tentei fugir, eu juro, mas ele me agarrou. Suspirou próximo à minha nuca, tocou os meus seios de leve, acariciou a minha vagina… confesso que não pude resistir ao seu encanto. Vestia-se de branco! Pouco depois estávamos nus. Ele passou a mão sobre a minha bunda de leve, correu pelas minhas costas, tocou o meu pescoço. Deixou-me totalmente em êxtase. Então me penetrou com o seu pau latejante – pela primeira vez em minha vida. Disse que se chamava Jorge e parecia ser um profissional de respeito. Profissional de qualquer coisa importante. Então despertei sobressaltada. Daí decidi que era o momento de nos amarmos! Você percebe o quanto eu te amo?”

Estamos juntos há cinco anos. Nunca disse isto diretamente para ela; mas não entendo exatamente o que é o 4 M 0 R. Pessoal ou universal? Centrífugo? Caótico?

Quem sou eu? Não importa.

“O som do rock’n’roll me deixa confusa. Não sei se sou eu que penso ou se ele próprio… saudades do Jorge… eu te amo, moço, mas você é um mero estudante…”, pensa Estér.         

 

Quase um ano depois, quando voltou para o Natal, Estér estava grávida. O pai não assumiu o filho e nem quis se casar, mas Estér teve a criança assim mesmo. Não foi fácil terminar o curso e cuidar da criança.

 

Hoje Estér é uma médica muito requisitada e bastante cara em seu consultório num dos prédios mais altos da Av. Paulista e, com seu marido quinze anos mais velho, seu antigo professor de Anatomia, vive feliz. Eles tiveram mais três filhos.

 

Hoje está um dia ensolarado.

Dona Yolanda se veste com uma de suas melhores roupas, como se fosse para o templo. Seu deus hoje, no entanto, será a sua mãe.

São dez anos desde que ela a visitou pela última vez, lá no sanatório. Sua mãe está com noventa e oito. Na verdade, hoje é o aniversário dela. Talvez Dona Gilda nem se lembre da filha. Mas isso não importa.

Dona Yolanda se anuncia e é recebida.

Dona Gilda a vê entrando no quarto e sorri.

A mãe ainda se lembra dela e isso, não o pastor ou o templo, é para Dona Yolanda a prova definitiva de que Deus realmente existe.

Instantâneos

abril 4, 2012

Dezoito excertos de, e duas palavrinhas sobre, “O fotógrafo”, de Cristovão Tezza.

“…o Brasil é uma concentração estúpida de gente em subespaços esmagados e inabitáveis rodeados de um vazio continental.”

“Para o renascimento, ela determinou-se, é preciso controlar também essas pontas ressentidas: muitas coisas que podia ter ou ser e que se esvaíam, com os dias, pelos longos dedos da mão.”

“Não há grandeza nenhuma em estar sozinho, ao contrário do que parece – a solidão é só a forma discreta do ressentimento: quem disse isso? Era como se a conversa do homem e a memória de Lídia se misturassem. O pior que pode acontecer aceitando esse trabalho é você ganhar dinheiro, ele mesmo se disse, no elevador, os 200 dólares no bolso.”

“Você quer saber por que tudo é ressentimento? Porque morremos no fim. Ressentir contra Deus é inútil. Assim, ressentimos contra os outros, que nos atravancam; ou contra ninguém, sozinhos, na nossa toca escura. É isso que você quer? Essa cidade, como todas as outras, quer exatamente isso de você. Não aceite, recuse, saia para fotografar o mundo.”

“Jesus te ama, o homem repetiu sorridente, abrindo a gaveta de onde tirou as duas notas novas, estalantes, cheirosas. Vá em frente.”

“A menina acomodou-se a mesa, surpreendentemente tranquila: a mãe nervosa como que eletrificava a casa inteira, reduzindo-a a um silêncio expectante e temeroso. Eu não preciso de muita coisa para viver, ele calculou; sou um ser mínimo, leve, transparente. Praticamente não ocupo espaço, mesmo com um peso um pouco acima da média, e ele sorriu, pensando em dizer isso em voz alta, alguém que faz uma piada e pede paz. Deu mais um gole de cerveja.”

“Danton olhou para ela e viu, deve ter visto, ela imaginou, que Íris estava prestes a chorar, é a tal pornografia, coisa que nos transforma sem passar pela alma, só pela mecânica dos nervos. A prostituição, disse dona Mara – por isso, só por isso, não foi hoje à sessão. Terá de pagar pela falta. As pessoas pensam que sabem o que está na nossa cabeça e na nossa pele, ela pensou, lembrando o dia em que fez a tatuagem no tornozelo, aquelas asinhas doídas, ponto a ponto. Ao gemer, ela lembrou – a imagem familiar do vulto voltando segundo a segundo – ele disse algo como ‘espere’ ou ‘aguarde’, ou ‘você vai ver’, ou ‘eu vou pegar você’. Talvez não tenha dito nada, ela fechou os olhos tentando se transportar para aquele segundo, mas era isso que ele diria se a dor do chute no saco que ele levou o deixasse falar; mas ele gemeu alto falando. E eu estou com medo.”

“Debruçou-se com a lupa em outro fotograma: agora ela estava em pé, nítida no quadro da porta daquela cozinha sem foco, e o sol, num instante, derramou-se sobre ela pelas beiradas como um bico de pena ao avesso fazendo o contorno de luz de todas as coisas. Íris era uma sombra, mas o rosto, no instante da foto, voltou-se para ele e a luz como que se propagava nela. Deteve-se no rosto: é por isso que eu amo os retratos, ele pensou. Agora havia surpresa, e a lupa lhe dizia, era uma mulher surpreendida que ele via, suspensa no gesto do tempo, olhando firme para ele, quase inquisitiva; mais um segundo e a surpresa teria dado lugar à pergunta.”

“A minha composição é sempre conservadora – uma vez lhe disseram; se ela chega a ser clássica, ótimo; se fica no meio do caminho, o fotógrafo está morto. Mas este enquadramento está perfeito, ele teimou, como uma vingança infantil contra o exército digital: essa foto não precisa ser recortada – o olhar do fotógrafo e o olhar de Íris se bastavam.”

“Em pouco tempo, se ele fosse um bom feiticeiro, veria a sua Íris surgindo, do nada, sombra a sombra, na folha em branco: era o momento de seu trabalho, cada vez mais raro, que parecia não perder o sopro do encantamento, como se ainda ouvisse o sussurro do tio aprovando sua perícia e seu talento.”

“Acordou suado, no clímax de um sonho que não lembrou nada no segundo seguinte: alguma coisa escura, tentou pensar, e levou um lapso de tempo até voltar a terra, aqui e agora, como uma fita que se rebobina, imaginou. Interrompeu o gesto de acender a luz da cabeceira lembrando-se da mulher que, nua, o abraçava ressonante sobre o lençol – uma noite quente. Com delicadeza, desvencilhou-se do braço que o enlaçava, e a mulher, um bebê que se ajeita na oitava nuvem do sono, virou-se para o lado, agora em silêncio absoluto.”

“Ela acordou de um sonho devastador e, ao abrir os olhos para a escuridão do quarto, tateou a cama e descobriu-se só. Procurou o interruptor da luz de cabeceira e a luz como que lhe devolveu um senso brutal de realidade, naquele instante não muito melhor que o sonho, do qual, aliás, se esqueceu imediata e completamente. Fez um esforço inútil para lembrar-se dele, mas isso funcionou apenas como um álibi para não acordar – e a memória recusava a servi-la. Sonhei nada, ela se disse, pensando vagamente que horas seriam e onde andaria seu fotógrafo, e sentou-se na cama, totalmente acordada agora, mais um dia irrevogável. O mau humor das manhãs, ela relembrou o que ouviu a vida inteira de sua mãe – custava a sintonizar o mundo para enfim se mover.”

“É preciso recuperar os sinais por onde andei para saber onde estou exatamente.”

“E encheu outro cálice, o último, brindando à porta fechada por onde entrevia o vulto imaginário de seu antigo fotógrafo chegando para ouvir dela, enfim, claramente, nitidamente, palavra por palavra, uma coisa de cada vez, que as pessoas se transformam, e isso é muito bom.”

“Ele sentiu alguma coisa pesada e o coração começou a bater mais forte. Deu outro gole no vinho, vigiado pelo olhar devastador de Íris. Podia sentir a sua aura diante dele, e com ela um toque de medo. Ela é mais alta do que eu, ele calculou, vendo as sombras das cabeças na parede, e os dedos brancos e longos de Íris batendo o cigarro no cinzeiro; ele ouvia a respiração dela, e lutou para não se amedrontar – isso não é nada, ele se disse, olhando o cálice; é um encontro fortuito que se transforma em confissão, e, através dela, em purificação…”

“…era só um escapismo, eu sei. As coisas não dão certo de um jeito e daí você imediatamente inventa uma moda para justificar, uma espécie de álibi. Não é assim? Você diz que está num lugar mas nunca esteve nele. – Ela riu, pensando no que tinha acabado de dizer. – Alguém me disse que eu podia ser modelo e… bem, muitas vezes me disseram isso. – E como se ela quisesse confirmar a consistência do que diziam, abriu de novo o envelope e de novo se concentrou em ver-se, mas agora com uma dureza no olhar, sem admiração nem autopiedade, ele avaliou, agora ela estava vendo também o olhar dele, fotógrafo, e no fundo tentava descobrir o que aquele olhar tinha de verdade, no que aquela imagem equilibrada em preto e branco, no que aquela delicadeza em chiaroscuro teria parentesco com ela mesma. Agora – ele continuou avaliando, dando mais um gole de vinho e tentando ganhar tempo – parece que o sonho acabou, é isso que está no rosto dela, alguma descoberta; é como se ela visse um longo filme naquela imagem que do papel olhava para ela, e ali fosse se decifrando – a fotografia como espécie de chave, ele pensou, tentando adivinhar o que era a umidade dos olhos de Íris, se fumaça, se lágrima, se pornografia, ela pensou, tentando se controlar, aquilo sobre o que não temos controle, e mordeu o lábio devagarinho para não se entregar enquanto se via assim, tão bonita no papel e tão desesperadamente inútil na vida real…”

“– Porque o dinheiro não é tudo na vida – e, primeiro ele, depois ela, caíram na gargalhada, como quem enfim descarrega a eletricidade de um dia inteiro.”

“– Fotografar, é claro. – E ela abriu mais uma vez o envelope. – São as duas melhores fotografias da minha vida. Só quem ama o que faz poderia me ver assim – ela acrescentou, como um enigma.”

Lançada originalmente no ano de 2004 – e apreciada em sua segunda edição, revista, do ano de 2011, pela Editora Record – a obra descreve o drama psicológico de umas poucas personagens que se desenvolve ao longo de um único dia na cidade de Curitiba.

Um livro sobre a dicotomia dos anseios e das inseguranças no universo interior frente à crueza do quotidiano; também sobre a interação dessas polaridades na determinação de certo grau de aleatoriedade na dinâmica das relações estabelecidas entre as criaturas.