Dislexia

março 28, 2012

Acima: SUN, a suavidade, vento, madeira

Abaixo: KÊN, a quietude, a montanha

Hexagrama 53 do I-Ching

Oráculo: CHIEN – Desenvolvimento (O Progresso Gradual)

Imagem: Uma árvore sobre a montanha exerce uma influência, através de seu lento crescimento, sobre a paisagem. Assim também, a influência do sábio sobre os homens não se dá de forma rápida, mas é construída gradualmente, através do desenvolvimento de sua força interior, para que tenha efeito duradouro.

“Xnxoxmxex, dez anos de idade. Vindo de pequena cidade do interior devido à mudança da família / transferência do pai para a capital por motivos profissionais. Extrovertido, divertido e extremamente inteligente.” – é o que ela lê na pasta que retirara pela manhã na secretaria. Aquilo parece não fazer o menor sentido. Levanta os seus olhos da mesa, disposta bem defronte aos alunos, procura na quarta coluna da direita, penúltima carteira, e lá está ele: um garoto magro, esquálido, cabelo curto, quase raspado, cutucando com o indicador direito uma de suas narinas, cabeça baixa, escrevendo textos naquela sua linguagem incompreensível.

6 p17f244716 24t6 82nd7 6 m3nh6 f35h6. 286 n67 p2152b2 qu2 tud7 n67 p6446 d2 um t26t17, um j7g7 42m v2n52d7124, p21d2m74 t7d74. 24464 6u864, 6 m6n3pu86567 d2 t2n164 m2nt24 3nf6nt34, 4u6 p42ud7-p124un567 d2 2n43n61 7 7bv37 2 7 j6 57nh253d7, p286 v36 3n46n6 d6 12p2t3567. 4216 qu2 n67 p6446 p286 56b256 d286 qu2 n67 47m74 6ut7m6t74? 7nd2 24t67 74 2×21535374 p616 7 d242nv78v3m2nt7 d6 57mp122n467, d6 12f82x67 2 d7 qu24t37n6m2nt7, 24t64 43m, h6b383d6d24 2442n53634 p616 64 t7m6d64 d2 d2534724, 64 mud6n564 d2 6t3tud2, 2nf3m, 7 p17g12447? (Pepino, o Breve / Carlos Magno)

A professora risca da folha os adjetivos extrovertido, divertido, extremamente inteligente; sobrescreve; substitui a anotação por desatento, introvertido, quase um demente. Então ela se levanta e inicia a aula, na forma de ditado, enquanto avança, lentamente, através das fileiras, com o livro de história em mãos: “Pepino III, também conhecido como Pepino, o Breve ou Pepino, o Moço, nasceu no ano de 714 e faleceu aos 24 de Setembro de 768. Foi o rei dos francos do ano de 751 até o ano de 768; é mais conhecido por ter sido pai de Carlos Magno e o filho de Carlos Martel.”

Quando a professora passa ao lado da carteira do menino bate o olho naquele trecho sem o menor nexo, cujas únicas analogias que ela percebe com o ditado de história são os nomes de Pepino, o Breve e Carlos Magno, anotados entre parênteses.

– Mas que é isso, menino? Ele não responde, a cor de sua pele torna-se, de súbito, rubra, o garoto baixa a cabeça na carteira e desanda a derramar lágrimas, num choro baixo e tímido. A professora pede ao menino que deixe com ela aquelas suas anotações e anexa à pasta escolar do garoto.

Troca de correspondências: A escola envia um comunicado para a mãe do menino recomendando que ela encaminhe-o a um psicologista. Entre os adjetivos que lhe são atribuídos figuram desatento, introvertido e dislexo (este último substituindo quase um demente, anotado na ficha escolar do garoto). A mãe, nervosa e preocupada com a dificuldade de adaptação do menino, mostra o recado na mesma noite para o pai. Este, por sua vez, perplexo, observa menção ao ditado incompreensível recolhido pela professora de história.

– Mas como isso é possível? Pergunta a mãe.

– Peça que, por favor, apresentem-nos esse texto, responde o pai.

Dias depois o pai tem uma cópia xerox daquela sequência insidiosa de letras e números assinada pela dupla de reis Pepino, o Breve e Carlos Magno. Ele, um geólogo respeitado e amante da paleolinguistica, respondeu à escola em carta de próprio punho.

“O menino vai bem. Parece que ainda não totalmente adaptado à nova escola, mas da dislexia ele não sofre, a professora que me desculpe por discordar. Trata-se de um trecho criptografado, numa variante bastante simplista do código usado por Zimmermann no seu famoso telegrama. Este foi um telegrama codificado e despachado pelo ministro do exterior do Império Alemão, Arthur Zimmermann, em 16 de Janeiro de 1917, para o então embaixador alemão no México, Heinrich von Eckardt. O telegrama foi interceptado,  decodificado pelos britânicos e o seu conteúdo levou ao envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Grande Guerra. A chave para a mensagem do menino está obviamente nos nomes anotados entre parênteses; as letras diferentes são substituídas pelos numerais crescentes, de um até oito, à medida que aparecem. Assim a mensagem deve ter sido codificada pelo garoto para evitar maior constrangimento, e a decodificação é possível pelo caminho inverso.” A carta do pai terminava dessa forma brusca, sem qualquer menção ao conteúdo da mensagem do menino (ou aquele do telegrama de Zimmermann), e sem nota final de cumprimento.

A professora recebeu a mensagem enviada pelo pai das mãos da diretora e ficou intrigada com aquela história. Alguns dias depois ela redigiu a terceira carta, um tanto enigmática e indelicada, endereçada ao pai, e encaminhada pela própria mãe do menino.

“P E P I N O _ O _ B R E V E

1 2 _ 3 4 5 _ _ _ 6 7 _ 8 _

b pprfennrpb entb vendr b minhb fiohb. evb nbr pepoebe que tudr nbr pbnnb de um tebtpr, um jrgr nem venoedrpen, pepdemrn trdrn. ennbn buvbn, b mbnipuvbobr de tenpbn menten infbntin, nub pneudr-ppenunobr de enninbp r rbvir e r jb ornheoidr, pevb vib innbnb db pepetiobr. nepb que nbr pbnnb pevb obbeob devb que nbr nrmrn butrmbtrn? rnde entbr rn exepoioirn pbpb r denenvrvvimentr db ormppeennbr, db pefvexbr e dr quentirnbmentr, entbn nim, hbbividbden ennenoibin pbpb bn trmbdbn de deoinren, bn mudbnobn de btitude, enfim, r pprgpennr?

C A R L O S _ M A G N O

1 2 3 4 5 6 _ 7 _ 8 _ _

s pcmfallmcs alts gandm s mrnhs frohs. ags nsm pacoaba qua tudm nsm pslls da um tastcm, um jmgm lam vanoadmcal, pacdamml tmdml. allsl sugsl, s msnrpugsosm da tancsl mantal rnfsntrl, lus plaudm-pcalunosm da anlrnsc m mbvrm a m js omnhaordm, pags vrs rnlsns ds capatrosm. lacs qua nsm pslls pags osbaos dags qua nsm lmmml sutmmstml? mnda altsm ml axacororml pscs m dalanvmgvrmantm ds ommpcaanlsm, ds cafgaxsm a dm qualtrmnsmantm, altsl lrm, hsbrgrdsdal allanorsrl pscs sl tmmsdsl da daorlmal, sl mudsnosl da strtuda, anfrm, m pcmgcallm?

Com todo o respeito, recomendo que o senhor procure um psicologista junto com o garoto, pois, observado que o senhor o compreende, é bem possível que deva sofrer de enfermidade léxica da mesma natureza.”

Naquela noite o pai quase mijou de tanto rir. Ele pediu ao menino para entregar um pequeno envelope lacrado a sua professora de história. O garoto, que não estava ciente da troca de mensagens, cumpriu sua simples incumbência de mensageiro. O conteúdo do envelope trazia breve anotação em apenas duas linhas.

“R E I S _ C A R O L I N G E O S

1 2 3 4 _ 5 6 _ 7 8”

(É redundante, mas) não custa dizer que, com o tempo, o menino se socializou com os colegas da escola; dizem até que o nível do curso de história melhorou (um pouco).

A professora está lendo a minha ficha. Ela não percebe que tudo não passa de um teatro, um jogo sem vencedores, perdemos todos. Essas aulas, a manipulação de tenras mentes infantis, sua pseudo-presunção de ensinar o óbvio e o já conhecido, pela via insana da repetição. Será que não passa pela cabeça dela que não somos autômatos? Onde estão os exercícios para o desenvolvimento da compreensão, da reflexão e do questionamento, estas sim, habilidades essenciais para as tomadas de decisões, as mudanças de atitude, enfim, o progresso?

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Os quatro desdobramentos do p4554r0

A n47ur3z4 do 50nh0

A conjunção f0r7ui74

 

Os quatro desdobramentos do p4554r0

 

Não deve o p4554r0 abater-se ou vilipendiar

a sua condição atual de criatura falível às manobras.

Este sentimento não é próprio

da realidade do p4554r0 senão

ao desejo de exercício pleno

da liberdade.

O porta-voz de um p4554r0

anuncia o sentimento oblíquo

de vôo rasante à alma

– ele grasna.

Mesmo ao p4554r0 existem restrições físicas

imputadas pelas correntes de vento,

o fluxo imanente do universo

que o compreende.

 

A n47ur3z4 do 50nh0

 

Se o 50nh0 está à mão,

então a realização é certa,

em momento oportuno.

A n47ur3z4 da providência

é a matriz dos aspectos consonantes.

Ele deve reter a essência dos 50nh05

enquanto possibilidades de alçar vôos perfeitos

em concórdia às condições favoráveis

de seu entorno.

 

A conjunção f0r7ui74

 

O 4rc0-íri5, a 357r314, a nuv3m:

são exemplos de alteridade

na perfeição inefável dos ventos

quando eles sopram ao sabor.

O p4554r0, o 4r, a v457id40 d0 35p4c0

devem entender-se como personagens

de um mesmo e amplo espetáculo porvir.

Então será:

pur0 m0vim3n70.

 

É sabido que valemo-nos dos nossos sentidos para a percepção da realidade. Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?

Os sentidos constituem capacidades fisiológicas dos organismos que suportam a percepção. Os sentidos, sua operação, classificação e teoria caracterizam tópicos que se sobrepõem e são estudados numa grande variedade de áreas da ciência; especialmente a neurociência, a psicologia cognitiva e a filosofia da percepção. O sistema nervoso tem um sistema sensorial ou órgão específico e dedicado para cada um dos sentidos.

Os seres humanos apresentam uma multiplicidade de sentidos, sendo os cinco sentidos primários, tradicionalmente reconhecidos: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Dentre os outros sentidos humanos podemos citar: a percepção térmica; a dor; as sensações de equilíbrio e de aceleração; e a próprio-percepção (ou percepção e controle dos nossos próprios membros e músculos, esta inclusive pode ser treinada para tornar-se semi-automática, ou mesmo automática, possibilitando que o nosso cérebro se ocupe prioritariamente de outras atividades simultaneamente à realização de tarefas já internalizadas, um exemplo: conversar e dirigir, apesar de politicamente incorreto).

O sistema visual é parte do sistema nervoso central que possibilita ao organismo o processamento detalhado da visão, assim como coordena várias outras funções de foto-resposta não imagética. Ele inclui os olhos, os conectores para o córtex visual e outras partes do cérebro. O sistema visual interpreta a informação recebida através da luz visível e é responsável pela construção da representação do mundo à nossa volta.

Os nossos olhos constituem um complexo mecanismo biológico. O funcionamento de uma câmera fotográfica é frequentemente comparado àquele dos olhos, pelo fato de ambos focalizarem a luz dos objetos externos que estão no campo de visão sobre um meio sensível à luz. No caso da câmera, este meio é o filme fotográfico ou um sensor eletrônico; no caso do olho trata-se de uma matriz de receptores visuais. Valendo-se ambos do mecanismo da similaridade geométrica embasado pelas leis da ótica. A luz que penetra através dos nossos olhos é refratada na passagem pela córnea. Ela atravessa então pela pupila (controlada pela íris) e é novamente refratada. A córnea e a pupila trabalham em sincronia, como um conjunto de lentes para projetar uma imagem invertida e passível de percepção sobre a retina.

A retina consiste numa miríade (ou uma matriz) de células fotorreceptoras. Essas células fotorreceptoras contêm moléculas de proteínas específicas denominadas opsinas. A rhodopsina é encontrada nas células radiais que são periféricas à retina e tem a função de captação da luz para a visão noturna. Existem três tipos de opsinas cônicas, as quais são encontradas, por sua vez, nas células do cone central da retina: cada um desses tipos é diferenciado conforme as faixas do comprimento de onda luminosa que é capaz de absorver, sendo as opsinas curtas aquelas que absorvem o espectro do azul, as opsinas médias aquelas que absorvem o espectro do verde e as opsinas longas aquelas que absorvem o espectro da luz vermelha. Essa matriz de opsinas que compõem a retina é a responsável pela absorção dos fótons e a transmissão do sinal nervoso para células conectoras que o encaminham ao córtex visual.

Um estudo da Universidade da Pensilvânia calculou que a estrutura da retina humana é capaz de absorver aproximadamente 8960 kilobits por segundo de informação visual, enquanto um porco de Guiné tem a capacidade da absorção através de sua retina de apenas 875 kilobits por segundo.

Entretanto, diferentes espécies são capazes de ver (são sensíveis a) diferentes faixas do espectro luminoso. Os gatos têm a habilidade de enxergar mesmo com grande escassez de luz graças aos músculos no entorno de sua íris, permitindo contrair e expandir muito as suas pupilas, bem como ao tapetum lucidum, uma membrana reflexiva que otimiza a visão felina.

Pitvipers, pythons e outras serpentes venenosas (especialmente aquelas que habitam as cavernas) apresentam órgãos sensíveis ao infravermelho, os quais permitem a percepção do calor do corpo de suas presas. O famoso morcego-vampiro apresenta também um sensor infravermelho no seu nariz. Foi descoberto que os pássaros e alguns outros animais são tetra-cromatos; i.e. eles apresentam a capacidade de percepção da luz ultravioleta até o comprimento mínimo de onda de 300 nanômetros. E as abelhas e as libélulas são também sensíveis ao ultravioleta.

A audição também é um dos cinco sentidos primários; caracteriza-se pela habilidade da percepção de ondas sonoras pela detecção de vibrações através de um órgão como o ouvido Nos humanos e noutros vertebrados ouvir é possível graças ao sistema auditivo: as vibrações são detectadas pelo ouvido e transmitidas através de impulsos nervosos para o cérebro, especialmente para o lobo temporal. Assim como o tato, a audição dá-se pela sensibilidade ao choque de moléculas do mundo exterior contra a superfície do organismo; e por isso ambos, a audição e o tato, são denominados sentidos mecânicos.

Simplificadamente, o mecanismo da audição consiste no seguinte: O canal do ouvido ajusta a pressão das ondas de ar recebidas para uma mesma faixa de comprimento de onda. No ouvido interno, essas vibrações sonoras são detectadas por células capilares localizadas na membrana basilar, e a decomposição em diferentes frequências de onda dá-se ao longo do comprimento dessa mesma membrana. A membrana basilar separa as frequências: as frequências altas produzem maior ressonância próxima ao final do ouvido médio, enquanto as frequências mais baixas produzem maior ressonância na extremidade oposta. Em suma, a membrana basilar realiza ininterruptamente análises do tipo de uma transformada de Fourier, transmitindo a informação da frequência e da intensidade sonora através do nervo auditivo diretamente para o fluxo cerebral.

Nos humanos, o limite inferior e a capacidade de localizar fontes sonoras são reduzidos significativamente debaixo d’água, meio no qual a velocidade do som é maior que aquela do ar. A audição subaquática é pela condução dos ossos e a localização do som parece depender de diferenças na amplitude detectadas pela condução através dos ossos.

Nem todos os sons são normalmente audíveis por todos os animais. Cada espécie apresenta as suas faixas específicas de audição tanto no que diz respeito à amplitude quanto à frequência sonora. Muitos animais usam o som como meio de comunicação e, portanto, a audição nessas espécies é de importância ímpar para a sobrevivência e a reprodução. Em espécies que usam o som como fonte primária de comunicação, a audição é mais apurada na faixa de frequência da fala. Frequências de áudio, ou sonoras, é como são comumente denominadas aquelas capazes de serem ouvidas pelos humanos, tipicamente na faixa de frequências entre os 20 Hz e os 20 mil Hz.

As frequências mais elevadas que aquelas de áudio são denominadas ultrassônicas, enquanto as inferiores são denominadas infrassônicas. Alguns morcegos usam a faixa de ultrassom para a ecolocalização em vôo. Os cães também são capazes de ouvir ultrassons, e este é o princípio de funcionamento dos apitos caninos silenciosos (ao menos para nós, humanos). As cobras têm sensibilidade aos infrassons pelas suas barrigas alongadas e esbeltas; enquanto as girafas, os elefantes, os golfinhos e as baleias usam a faixa de frequência dos infrassons para a comunicação.

Alguns animais incluindo os morcegos e os cetáceos tem a capacidade de determinar a sua orientação e velocidade com relação a outros corpos ou objetos pela interpretação da reflexão sonora e do efeito Doppler, como se tivessem um sonar. A este sentido específico denomina-se ecolocalização.

Insetos como as moscas e as borboletas têm sensibilidade ao paladar nos seus pés, permitindo que eles saboreiem qualquer superfície sobre a qual eles pousem (daí a preferência pelos doces e flores, respectivamente, no caso dos primeiros e dos segundos). O peixe-gato, por sua vez, possui o seu sistema palatável ao longo de toda a superfície externa do corpo, permitindo que ele identifique apuradamente a qualidade e acidez do meio aquático no qual ele se encontra (e por isso você nunca encontrará essa espécie nadando em águas poluídas).

A maioria dos mamíferos não-humanos apresenta o sentido de olfato muito mais apurado que aquele dos humanos, apesar de em ambos os casos os sistemas olfativos serem bastante similares. Os tubarões têm um senso de olfato tão apurado que estes são capazes de determinar com grande precisão inclusive a direção do estímulo, fazendo com que localizem mais eficientemente a sua presa, mesmo a grande distância. Já os insetos apresentam receptores olfativos em suas antenas.

A eletro-percepção é o sentido da percepção de campos elétricos. Várias espécies de peixes, tubarões e arraias têm a habilidade de alterar os campos elétricos dos seus entornos imediatos. Alguns peixes têm a percepção passiva de mudanças sutis nos campos elétricos; outros podem ainda se expressar através dos seus próprios campos elétricos e captar o padrão potencial elétrico ao longo de toda a superfície externa dos seus corpos para fins de comunicação social.

As ordens dos golfinhos e dos monotrématos (à qual pertencem os ornitorrincos) são as únicas que apresentam eletro-percepção dentre os mamíferos; sendo o ornithorhynchus anatinus aquele que apresenta este sentido mais desenvolvido.

Já a magneto-percepção refere-se ao sentido da direção com relação ao campo magnético da Terra. Esse senso direcional é particularmente desenvolvido nos pássaros, embora também seja observado em insetos, como as abelhas. Apesar de não restar dúvidas quanto à existência deste sentido em muitas aves, sendo de importância fundamental para a habilidade de navegação dos pássaros migratórios, o mecanismo através do qual se dá a magneto-percepção ainda não é bem compreendido pela ciência.

Outro sentido bastante peculiar é aquele da detecção de correntes no meio líquido. As linhas laterais ao longo do comprimento de peixes e outros seres aquáticos anfíbios são órgãos externos para a percepção de correntes aquáticas, na forma de vórtices. Essa linha lateral é também sensível às vibrações de baixa frequência. Estes receptores mecânicos consistem também em células capilares, da mesma natureza daquela das células auditivas, sendo de desenvolvidos principalmente nos peixes para a navegação em meio líquido e para a caça.

E os sensores de deslocamento relativo dos aracnídeos detectam a deformação mecânica de seus exoesqueletos, provendo informações sobre forças e vibrações às quais estes insetos estão sujeitos.

Com base na exposição dos múltiplos e diferenciados sentidos, apresentados acima, chegamos à conclusão de que cada espécie apresenta recursos próprios para a percepção da realidade – sendo esta sim, comum a todos nós.

Pode-se avançar ainda um pouco mais nessa ideia, chegando mesmo ao entendimento de que dois indivíduos de mesma espécie apresentam uma percepção diferenciada da realidade, uma vez observadas diferenças sutis nos órgãos (ou sistemas) responsáveis pelos seus sentidos, bem como na forma como essas informações ou percepções se complementam de forma particular na reconstrução mental do universo individual. Assim, para um individuo o clima (o conjunto das variáveis de temperatura, umidade, luminosidade, etc.) pode parecer agradável, enquanto para outro, não; apesar de se encontrarem numa mesma sala!

Apesar de a realidade ser única, os nossos sentidos são diferenciados e a percepção é individual. Pode-se concluir, portanto, que a percepção plena da realidade é impossível para o indivíduo, senão para o conjunto de todos os seres, observado que os nossos sentidos para a percepção são diferenciados e, além disso, limitados.

Nessa imensidão de sensações, de percepções, é como se a realidade só fosse acessível à mônada. Mônada é o termo cunhado para representar a Divindade, o ser primário essencial ou a totalidade de todos os seres. Logo, a mônada é a percepção total ou o Uno, representando o Um anterior à divisão, estando associado à cosmogênese.

É como se a realidade só tivesse habitado o individuo há muito tempo atrás, enquanto imerso na sopa primordial de aminoácidos, anterior à sua separação ou diferenciação em organismos distintos. Ao longo das eras formaram-se as macromoléculas (como aquelas das proteínas, dos polissacarídeos e dos ácidos nucleicos) donde, através de sucessivas combinações e arranjos, cada vez mais complexos, resultou a multiplicidade dos seres vivos – as atuais espécies e os seus indivíduos.

Vamos explorar uma abordagem matemática (e, portanto, exata) para elucidar essas ideias um tanto abstratas sobre as quais discorremos anteriormente. Imagine que a realidade consistisse dos números naturais apenas: zero, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze e assim por diante.

Usualmente representamos os números na base dez. Isso significa que, da direita para a esquerda, o primeiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a zero (que é igual à unidade), o segundo algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a potência um (que é igual à dezena), o terceiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a dois (que é igual à centena), e assim sucessivamente. Logo, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 179 na base decimal (que é igual a nove vezes um, mais sete vezes dez, mais uma vez a centena).

Da mesma forma, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 263 (= 2×64 + 6×8 + 3×1 = 179) na base octal (base oito). Entretanto, para a “realidade” do número cento e setenta e nove não há “percepção” na base duodecimal (base doze)! De fato, a “percepção” do número 129 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 177 (= 1×144 + 2×12 + 9×1), enquanto a “percepção” do número 130 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 180 (= 1×144 + 3×12 +0x1). Existe, portanto, a impossibilidade de “percepção” na base duodecimal par a “realidade” dos números inteiros 178 e 179.

Quanto mais complexo o organismo (ou quanto maior a base na qual se dá a “percepção”) maior é a perda observada com relação à realidade. Valendo-se dessa assertiva (?) e recordando do objeto inicial de investigação desse texto (Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?), nós poderíamos mesmo ser levados à conclusão de que não. E ainda mais: que, eventualmente, as espécies mais simples seriam aquelas naturalmente mais eficazes na percepção da realidade!

Ledo engano: Na elaboração desse nosso modelo simples esquecemo-nos de levar em conta as faculdades da intuição e do raciocínio, que são sentidos bastante aguçados na espécie humana! Estes nos permitem exercitarmos a imaginação, o sonho e a criatividade; são tênues vínculos que mantém os nossos laços atrelados à mônada. E cabe a cada criatura exercitar estes músculos mentais, para a expansão da consciência e a (re-)conexão supramental.

Antonio avança pela antiga e íngreme rota das pedras; rumo ao cume do monte a passos lentos, sucessivos, inseguros. Espera que o tempo lhe restitua aquela sua velha dignidade da qual este mesmo se encarregou, de súbito, a tomar-lhe. A vida! A vida tem sido dura com ele. O sol do fim de tarde queima a pele enrugada de sua testa; escorre e arde o suor daqueles dias intermináveis de luta. Mas tão perversa e belicosa, que é mesmo de meter medo; uma prova para o seu ânimo de fogo; dessas de deixar os seus ideais inquebrantáveis em frangalhos, prestes a sucumbir ante as vicissitudes; enfim, deixar-se levar pelo fluxo fácil das ilusões, dos destemperos do campo.

A mata é verde e sopra-lhe o seu hálito úmido; um bafo que turva as suas retinas; são vapores doutras eras assomarem-se ao extremo da agonia, da dor; e uma gralha grasna clamando a sua rendição. Antonio segue adiante, reduz o ritmo, conduz seu corpo judiado, simples, de humano falível, pelas curvas com as últimas reservas de suas energias; mas com perseverança, a garra de uma centena mais uma daquelas gralhas, às quais ele amaldiçoa até a sétima de suas gerações.

A altura é nauseante, por vezes Antonio precisa se apoiar às pedras para não deixar-se desabar. Os galhos secos dos arbustos avançam obstruindo lhe o caminho, são como braços a agarrá-lo bradando: “Daqui você não passa, verme!” E ferem-lhe os ombros, tinge-os de sangue em alongados arranhões.

Mas eis que o caminho aplana, a vegetação abre-lhe passagem ao cimo e a gralha toma também o seu rumo, deixando-o em paz. O sol baixa à linha do horizonte, presenteia-lhe o crepúsculo, que por sua vez cede o seu espaço a lua cheia. A vida tem dessas coisas: o orvalho da noite acaricia a sua face surrada, o brilho intenso das super-novas renova-lhe o sonho e uma estrela cadente é verdadeiro bálsamo para todas as suas aflições. Então ela se achega; beija-lhe à fronte. E a isso denomina-se vida: ação do amor através dos elementos na natureza.