Fragmentos de consciência

março 20, 2018

 

Zero: A proposta deste texto é a simples transcrição de trechos especialmente selecionados a partir da releitura do livro “Alquimia da Mente” de Hermínio Corrêa de Miranda, Terceira Edição, Editora 3 de Outubro, 2010. O livro eu adquiri e li em dezembro de 2011, quando morava em São Carlos – SP. À época foi-me uma leitura muito útil. Agora, às vésperas do primeiro equinócio de 2018, eu torno a revisitá-lo e decidi compartilhar destes fragmentos do livro original, à medida que vou realizando a leitura. Este é, portanto, um processo dinâmico. Entendam que ainda estou trabalhando no material enquanto ainda observam ao fim do texto o Infinito. Espero fazer atualizações diárias, se assim for permitido. Eu espero, um dia, chegar ao Fim.

 

Um: “Os sentidos,” – lê-se em A Grande Síntese (p. 17) – “que muito bem vos servem para os vossos objetivos imediatos, mal esfloram a superfície das coisas e essa incapacidade deles para penetrar a essência vós a sentis.” E mais adiante: “A utilização dos sentidos como instrumentos de pesquisa, embora com o auxílio de meios apropriados, vos fará permanecer sempre na superfície, trancando-vos a via do progresso.”

 

Dois: Não há, pois, uma comprovação aceitável, do ponto de vista da ciência contemporânea, para a doutrina ou teoria da reencarnação, menos ainda para a da sobrevivência do ser e, muito menos que isso, para a imortalidade. Sem lamentar-se ou acusar gente ou instituições científicas, Teilhard de Chardin limita-se a escrever, em O Fenômeno Humano, o óbvio, que nem por isso deixa de ser contundente, ao declarar que tais aspectos fazem parte de “um problema que a ciência decidiu ignorar provisoriamente” (p. 43). Anteriormente (p. 10), lamentara da mesma maneira educada a tendência do pesquisador “em não aceitar do homem, como objetivo da ciência, senão o seu corpo”.

 

Três: É o seguinte: este livro cuida de uma complexa temática, explora aspectos ainda controvertidos da mente, busca apoios em numerosos autores antigos e mais recentes e propõe algumas hipóteses que possam, eventualmente, contribuir para melhor entendimento do ser humano como um todo e não apenas como um engenhoso mecanismo cibernético no campo da biologia. O corpo físico precisa ser transcendido – não ignorado ou abandonado – para que possamos alcançar contexto mais amplo, onde vamos necessitar de informações que não se encontram nos limites da matéria que o compõe. Em poucas palavras: precisamos da realidade espiritual. Quer essa realidade seja tomada como crença, hipótese, teoria, convicção, formulação mística ou o que seja; ela é exigida pelo modelo com o qual temos de trabalhar, ou a discussão suscitada no livro não faria o menor sentido.

 

Quatro: “Para começar com uma definição para os termos: consciência e vida são idênticas, dois nomes para uma só coisa quando considerada de dentro ou de fora. Não há vida sem consciência: não há consciência sem vida” (p. 25). Já vimos, em rápidas tomadas de seu texto, que Annie Besant identifica um componente psíquico em qualquer partícula material, até mesmo na matéria considerada inerte. Apoio para essa postura ela encontra nas pesquisas científicas do professor Chandra Bose, de Calcutá, sobre a resposta ao estímulo por parte da chamada matéria inorgânica. “Um germe de psiquismo” – lê-se em A Grande Síntese (p. 197) – “já existe, conforme vimos, na complexa estrutura cinética dos motos vorticosos.” No entender do autor desse livro, as condições para que a vida seja eventualmente criada e daí passe a cuidar de sua própria expansão consciencial começa com um movimento que envolve certas partículas em vórtices embrionariamente individualizados. É a sua “teoria cinética da origem da vida” (p 162). Matéria e espírito constituiriam, portanto, partes inseparáveis de uma “dualidade que se manifesta no tempo e no espaço”, dado que uma não existe sem o outro.

 

Cinco: Por outro lado, ao mesmo tempo em que a matéria mais densa constitui instrumento do trabalho, ela nos mantém acorrentados ao contexto espaço-tempo para o necessário aprendizado. A duração desse aprisionamento depende exclusivamente do ritmo pessoal que cada um de nós imprime ao seu processo de maturação. “Essa terra, discípulo, é a sala da tristeza” – lê-se em A Voz do Silêncio (tradução de Helena Blavastky, para o inglês e desta para o português, por Fernando Pessoa, Civilização Brasileira, 1969, Rio) – “onde existem, pelo caminho das duras provações, armadilhas para prender o teu Eu na ilusão chamada ‘a grande heresia’.” O universo objetivo é “a grande ilusão”, à qual se acopla a “ilusão da personalidade”, ao passo que “a grande heresia” é a de que a alma – que os espíritos conceituam como espírito encarnado – é algo separado do “Ser universal, uno e infinito”. Por isso, escreve Besant (p. 31) que, ao nos convencermos de nossa integração no todo, “a matéria não mais terá poder algum sobre nós, dado que a contemplaremos como irrealidade que ela, de fato, é”. Integração, contudo, é tradução inadequada para o termo inglês, oneness, adjetivação de one, ou seja, o número um, a unidade, a unicidade. Mais uma vez podemos ver a perfeita colocação de Cristo, ao declarar: “Eu e o Pai somos um”, não para significar que ele também é Deus, igual a Deus, mas que em Deus ele estava integrado. A matéria não exercia sobre ele nenhum poder residual, nenhuma restrição sobre sua liberdade, nenhum fascínio sobre sua mente.

 

Seis: Esses seres mais atentos ao processo evolutivo teriam, provavelmente, desenvolvido melhor capacidade de manipular a matéria densa, sem se deixarem envolver e paralisar por ela, ou fascinar pelas mordomias que ela proporciona. Mas por que o engodo? – perguntaríamos. Por que não eliminar o processo evolutivo os ardis e atrativos da matéria, a fim de que o ser espiritual adquira logo o conhecimento de que necessita, sem comprometer-se inapelavelmente com ela? Não creio que alguns de nós tenhamos procuração do Criador para responder a essa questão. Não é difícil, contudo, imaginar as razões. Em primeiro lugar porque, juntamente com as primeiras manifestações da consciência, veio o privilégio responsável do livre-arbítrio, sem o qual a criatura não teria nem o mérito dos seus acertos nem a responsabilidade dos seus erros. Em segundo lugar, porque a dificuldade do aprendizado está sempre na razão direta da sua importância e significado para qualquer ser vivo, mesmo porque a vida oferece crescente complexidade para aquele que se apresenta disposto a decifrar os seus enigmas. Ela não se nega a servir de objeto de aprendizado, pelo contrário se oferece a isso, mas exige muito daquele que se aproxima para estudá-la.

 

Sete: A muito comentada separação ou dualidade é meramente operacional, não em essência. Em outras palavras, a parcela encarnada não se separa do todo, apenas fica imersa, por uma ponta, num plano vibratório diferente, para não dizer inferior. O Dr. Gustave Geley adverte para esse aspecto a fim de não se criar a imagem incorreta da convivência de dois seres, duas personalidades, numa só entidade espiritual em processo evolutivo. Eis por que tenho manifestado certo desconforto com o termo inconsciente para caracterizar a atividade mental que se põe fora do alcance da consciência de vigília. Entendo que qualquer atividade mental tem de ser, necessariamente, consciente, mesmo em nível não habitual de percepção.

 

Oito: Está certo, pois, Aksakof quando distingue com nitidez uma consciência interior – a que ele chama de alma individual – e outra exterior, que ele considera sensorial e a Sra. Besant, cerebral. A rigor, portanto, não há áreas inconscientes no ser humano. Ao contrário, até o campo da consciência pessoal externa está sob o controle de outra consciência oculta, como um mecanismo auxiliar que funciona acoplado à unidade central da consciência interior e sob suas ordens programáticas. Paradoxalmente, contudo, a consciência externa precisa dispor de margem de manobra para o exercício de seu livre arbítrio; do contrário, não teria como aprender as lições que veio estudar, ao mergulhar na matéria densa, a primeira das quais é saber decidir, ou seja, escolher, escolher sempre, um caminho entre tantos outros, entre bem e mal. Não é, pois, de admirar-se que, como o cavalo bravio e rebelde, a personalidade possa tomar o freio nos dentes e praticamente emancipar-se da tutela silenciosa da individualidade. Ela se vale do programa, que já está gravado na sua memória operacional para fazer o que entende e não aquilo que a individualidade deseja que seja feito. Há, portanto, nesse caso, um conflito de programações, ou, no mínimo, de objetivos. A individualidade está interessada em objetivos a longo prazo e quanto mais cedo chegar a eles, melhor, ao passo que a personalidade prefere ficar brincando pelos caminhos, como assinala Besant, fixada no imediatismo sedutor do prazer, fascinada pelo exercício de poder, embevecida na contemplação narcisista de sua própria imagem, encantada com o seu falso brilho social ou cultural. A essa altura a personalidade já se confundiu com o corpo físico perecível, ao qual transfere todas as suas aspirações e do qual exige todas as satisfações. Essas “criancices”, mais ou menos irresponsáveis, podem consumir faixa larga de tempo, não só porque a personalidade deixou de realizar o aprendizado e o conseqüente processo da maturação espiritual, como ainda cria condições negativas que a retém no passado, obrigando-a a voltar sobre seus passos, a fim de corrigir, reparar, reconstruir refazer aspectos que já poderiam estar consolidados na experiência cumulativa de suas vivências, na carne ou fora dela. Desnecessário, portanto, enfatizar a importância transcendental de um conhecimento mais profundo da interface personalidade / individualidade, consciência exterior / consciência interior.

 

Nove: A face dita objetiva das coisas que nos cercam e que constituem o próprio corpo físico de que somos dotados é uma projeção da realidade invisível que está dentro de cada partícula material. “O atomismo” – insiste Chardin – “é uma propriedade comum ao dentro e ao fora das coisas” (p. 39). No fundo, são uma só realidade, com duas faces, uma externa, outra interna, duas manifestações vibratórias diferentes da energia. “Ligar entre si de maneira coerente as duas energias do corpo e da alma” – escreve ele (p. 43) – “eis um problema que a ciência decidiu ignorar provisoriamente.” É bem verdade que o fenômeno da vida propriamente dita “começa com a célula” – ensina ele, mais adiante (p. 63) –, mas o psiquismo já estava na partícula, é da essência dela. Ele não hesita em conceituar o dentro da partícula como consciência. Em nota de rodapé a essa mesma página, esclarece que o termo consciência “é tomado na sua acepção mais geral, para designar qualquer espécie de psiquismo, desde as formas mais rudimentares de percepção interior que se possam conceber até ao fenômeno humano do conhecimento reflexivo”. A célula é, portanto, uma partícula de vida que, a seu ver, “mergulha quantitativamente e qualitativamente, no mundo dos edifícios químicos”. Ela é o tijolo de toda essa arquitetura biológica. Embora conservando sua individualidade, ela se entrega para que o organismo tenha a sua vez, sacrificando-se, portanto, ao todo. E leva consigo, para onde quer que vá, o seu conteúdo psíquico, através do qual mantém intercâmbio com o psiquismo global do ser maior. Inicia-se com ela a grande jornada rumo à unicidade, à total conscientização do universo, desde as primeiras colônias celulares que começam a especializar-se nesta ou naquela função, até as comunidades intergalácticas, passando pela família, pelas nações, as tribos, as comunidades, os povos e os mundos. É “o esforço da matéria para se organizar”. O mesmo conceito está consagrado em A Grande Síntese, na qual se lê (p. 77): “Toda individualidade resulta de individualidades menores que, ao seu turno, são agregados de outras individualidades ainda menores, até o infinito negativo, e é, por sua vez, elemento constitutivo de individualidades maiores, até o infinito positivo”.

 

Dez: Há, portanto, um encadeamento inexorável, do átomo às galáxias, dos primeiros ensaios do psiquismo até a superconsciência dos que já se fizeram um com a Divindade. Trata-se, pois, de um projeto global de gigantescas proporções e complexidades. Por isso, entende Chardin que a ciência marca passo neste momento porque “os espíritos hesitam em reconhecer que há uma orientação precisa e um eixo privilegiado de evolução” (p. 142). A progressiva conscientização da vida é processo irreversível desse projeto cósmico. Para isso, a vida mergulha tão fundo na matéria densa, como que buscando arrastá-la consigo, aos mais elevados patamares evolutivos.

 

Onze: “O ser humano” – ensina Besant, à página 115 – “é o microcosmo do universo e seu corpo serve de campo evolutivo para miríades de consciências menos evoluídas do que ele”. “Cada célula – reitera-se adiante (p. 204) – tem a sua pequenina consciência” em permanente intercâmbio com todo o organismo. E mais: “Uma consciência coletiva mais elevada lhe dirige o funcionamento”. De outra maneira, a mente central do ser não teria como gerir o complexo celular que lhe serve de corpo físico.

 

Doze: Há, contudo, outras implicações de considerável importância na visão da Dra. Besant. A primeira delas é a de que toda a criação está, mais do que ligada, contida no âmbito da consciência divina, dado que há uma impossibilidade filosófica de existir alguma coisa que não tenha sido criada pela Inteligência Suprema e que nela exista e se movimente, como intuiu Paulo de Tarso. André Luiz compara a humanidade a “peixes num oceano” de energia cósmica luminosa. Isso nos leva à conclusão de que a conscientização progressiva de que todos esses autores nos falam vai ampliando gradativamente em cada um de nós a capacidade de acessar e expressar a realidade cósmica.

 

Treze: A autora chama a atenção para o fato de que, no estágio evolutivo do animal, há “uma atividade muito mais intensa de parte da consciência situada no plano astral, o que resulta em mais poderosas vibrações, que passam para o duplo etérico do animal, e daí suscitam a criação de um sistema nervoso”. Estaríamos, com esse conceito, praticamente resgatando do esquecimento a debatida teoria lamarquiana, segundo a qual a função – fator imponderável, certamente mental – cria o órgão, ou seja, seu mecanismo de expressão. É precisamente isso que diz Besant, ao informar que o trabalho construtor da consciência realiza-se no plano a que ela denomina astral e que, posteriormente, se traduz no plano físico, “pelos esforços da consciência em expressar-se” (p.118).

 

Quatorze: O elemento primordial, que Emmanuel vê como “matéria amorfa e viscosa… celeiro sagrado das sementes da vida”, a partir do protoplasma, como “embrião de todas as organizações do globo terrestre” (A Caminho da Luz, p. 22), J. B. S. Haldane, apud Lyall Watson, em Lifetide, p. 35 – caracteriza como uma espécie de “sopa primeva” de moléculas, que funcionou como “berço da vida”. Para André Luiz, em Evolução em Dois Mundos, a “sopa primeva” de Haldane é “plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio”, e acrescenta: “Nesse elemento primordial, vivem e vibram constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano” (p. 19).

 

Quinze: “Os cromossomos, estruturados em grânulos infinitesimais de natureza fisiopsicossomática, partilham do corpo físico pelo núcleo da célula em que se mantêm e do corpo espiritual pelo citoplasma em que se implantam”. Do que se depreende que cada célula dispõe de seu próprio sistema de interface, no qual a matéria está representada no núcleo e o espírito, no citoplasma.

 

Dezesseis: Mesmo assim, há insights dignos de toda a atenção. Exemplo (p. 219): ao declarar o protoplasma como elemento de ligação entre os átomos de um lado e o espírito, de outro. André Luiz apenas modificaria o texto para fazê-lo dizer que a ligação com os átomos, ainda que no âmbito da célula, é feita pelo núcleo, ficando a cargo do citoplasma as “negociações” com a realidade espiritual. Seja como for, ao referir-se à dicotomia matéria/espírito, Sinnott considera o protoplasma essencial ao esquema de interpretação da realidade transcendente na matéria. “A matéria viva – ensina (p. 132) – o protoplasma, base física da vida – é o ponto onde os dois se encontram face a face”.

 

Dezessete: Enquanto os antigos falavam da “alma da terra”, Lovelock desenvolveu nova abordagem na sua engenhosa e criativa “hipótese Gaia”, termo este que foi buscar no grego (ge = terra), segundo a qual o planeta em que vivemos é um organismo vivo, em processo de homeostase (equilíbrio sistêmico). A terra dispõe de seus próprios mecanismos de auto-regulagem, bastante perturbados hoje pela desastrada interferência do que costumamos chamar de civilização. Como não poderia deixar de ser, a humanidade integra, convive e interage com esse sistema, mas ainda não está claro para a ciência qual o seu verdadeiro papel nele. Para uns, a humanidade seria uma espécie de “vasto sistema nervoso, um cérebro global, no qual cada um de nós seria uma célula individual” (The Global Brain, Peter Russell, p. 31).

 

Dezoito: Ao lamentar o equívoco de persistir a ciência “no encalço das… sensações” e, portanto, “circunscrita como num cárcere”, menciona o autor espiritual de A Grande Síntese (p. 23) aquela parte do nosso ser que se encontra “mergulhada na treva”, ao passo que ele, autor, se acha “no outro pólo do ser, no extremo oposto em que vos achais: vós, racionalistas, sois análise; eu, intuitivo (contemplação, visão), sou síntese” (p. 27). Russell entende essa modalidade de alienação como um modelo desenvolvido para abrigar o conceito de que somos seres “encapsulados na pele”, em vez de entender “a unidade de toda a criação” (p. 151). Willis Harman, apud Peter Russell, prega uma nova “revolução copernicana” na visão filosófica, com o objetivo de “inverter o modelo egocêntrico” em proveito de uma órbita em torno do “ser puro”. Por isso diz o autor espiritual de A Grande Síntese que o modelo de raciocínio lógico-dedutivo está esgotado e, portanto, estéril, ao passo que se desenha a etapa criativa da intuição. Isso não significa que a individualidade aniquilaria, por sufocação, a personalidade, mas certamente a poria no seu devido lugar, mudando radicalmente o enfoque do ser perante a vida e o universo, preservando, dentro de bem definidos limites, a autonomia desta última para atuar no contexto que lhe é próprio, ou seja, no plano da matéria densa, segundo um racional (este sim) modelo de “hierarquia das necessidades”, como conceituado por Abraham Maslow, apud Russell (p. 204). Só então, assumindo o comando da situação, a individualidade poderá trazer para a personalidade e para o mundo como um todo a sua contribuição de conhecimento… A partir desse ponto evolutivo, teremos condição de não apenas entender o universo como um todo, mas estaremos conscientes de que cada um de nós tem acesso a esse todo, somos esse todo.

 

Dezenove: Consultado a despeito desses e de outros aspectos da pesquisa de Backster, o Dr. Howard Miller, de New Jersey opinou no sentido de que há uma espécie de “consciência celular” comum a todas as manifestações da vida. Rogo ao leitor que se lembre bem dessa hipótese, porque a retomaremos mais adiante, tentando demonstrar a realidade desse mecanismo de comunicação universal, que de muitos milênios antecedeu a invenção da palavra falada, a partir, primeiro de gestos e posturas corporais, e depois, de grunhidos, gemidos, exclamações, para chegar-se ao patamar da palavra falada, e, ainda mais tarde, ao pictograma e, finalmente, à escrita, por meio de uma quarta ou quinta geração de símbolos… O trabalho de Backster sugere a existência de “uma forma primária de comunicação instantânea entre todas as coisas vivas e que transcende as leis físicas conhecidas”. Mais que isso, porém, Tompkins e Bird (p. 27) acolhem a hipótese de que além de se perceber “uma espécie de memória” em cada célula, é bem provável que o cérebro seja apenas algo como um painel de controle, e “não necessariamente um órgão de memorização”. Por mais desvairada que possa parecer, a hipótese me é simpática e não difere substancialmente do conceito formulado pela Dra. Annie Besant, como vimos, segundo a qual os eventos, mesmo aqueles que nós próprios vivemos, ficam guardados na memória cósmica e não em nossos arquivos pessoais. Ou seja, nossa história evolutiva se documenta naquela pequena “área” que cada um de nós ocupa na imensidão do universo, ou então estaríamos nós e as nossas lembranças como que fora da memória de Deus, hipótese incoerente com o princípio de que o universo – holográfico, não nos esqueçamos – é um pensamento de Deus.

 

Vinte: Poderíamos dizer a coisa de outra maneira, ao propor que, mesmo nos seres vivos mais rudimentares como as plantas, funcionam terminais de uma central única de processamento à qual todos têm um nível de acesso compatível com a sua potência mental específica. Há, portanto, em cada célula um programa que lhe permite não apenas trabalhar articuladamente com as demais de qualquer comunidade celular, como acessar o mínimo de informação que lhe permita desempenhar sua tarefa na imensa orquestração cósmica.

 

Vinte e um: Por isso tudo, diria dele (Dr. Chandra Bose), mais tarde, o veterano Times, de Londres, que, enquanto na Europa ainda predominava um “rude empirismo de vida bárbara”, vinha aquele sutil oriental ensinar que o universo é uma síntese e que ele “via a unidade em todas as suas manifestações mutáveis” (p. 114). Antecipando algumas décadas o conceito do universo holográfico, ele insistia em dizer que “toda a natureza é pulsante de vida” e está pronta a revelar incríveis segredos, bastando para isso que o homem aprenda a comunicar-se com as inúmeras manifestações. Também ele achava, portanto, que “o que está embaixo é igual ao que está acima”, e que a mais insignificante partícula é um retrato vivo do cosmos, tanto quanto a célula traz em si mesma toda a programação genética do ser cuja manifestação biológica ela integra.

 

Vinte e dois: “O germe do psiquismo” – diz A Grande Síntese (p. 183) – “há descido do céu, como um fulgor, às vísceras da matéria, que o apertou em seu seio, num amplexo profundo, envolvendo-o, dando-lhe, tirado de si mesma, um corpo, uma veste, a forma de sua manifestação concreta”. A Grande Síntese (p. 175) coloca a “eletricidade globular” como “primeira organização de um sistema de vórtices, com uma especialização embrionária de funções. Daí nascerá a primeira célula.”

 

Vinte e três: O mesmo Hauschka, de quem vínhamos falando ainda há pouco, explica o aparente paradoxo da homeopatia, segundo a qual, quanto mais diluídos os elementos básicos utilizados na medicação, mais potente o efeito deles. Isso é coerente com a sua hipótese de que a matéria é uma cristalização ou condensação de energia cósmica e, portanto, quanto mais liberada do seu envolvimento ou aprisionamento nas malhas materiais, mais poderosa se torna (p. 335). Ele vai além disso, ao propor que parte do segredo de Hahnemann com a medicação homeopática estaria no rigoroso processo de manipulação, dado que o ritmo “matemático” da agitação por ele prescrita produziria o mesmo efeito que se observa nos seres humanos que, em danças rítmicas, conseguem liberar o espírito da prisão corporal (p. 335). Paracelso, como Hipócrates, antes dele, e como Hahnemann, depois, propunha a doutrina das “semelhanças simpáticas”, ou seja, certa sintonia vibracional entre plantas e seres humanos (ou animais) capaz de restabelecer harmonias psicossomáticas e, em conseqüência, reverter um quadro mórbido em saúde. Hahnemann redescobriu esse mesmo princípio, segundo o qual “semelhante cura o semelhante”. Aliás, em comunicação mediúnica transmitida por intermédio da Sra. W. Krell, em Bordeaux, em março de 1875, o criador da homeopatia assinou-se Hahnemann, autrefois Paracelse, ou seja, identificou-se, ele próprio, em encarnação precedente, como Paracelso.

 

Vinte e quatro: Alguns dos seus princípios fundamentais (de Edward Bach) estão expostos em Heal Thyself (Cure-se a si mesmo), publicado originariamente em 1931. Havia para ele algumas verdades ignoradas, a primeira das quais informa que o ser humano é, essencialmente, uma alma, centelha divina, “invencível e imortal”. A segunda, a de que nos apresentamos no mundo como “personalidades, aqui colocadas com o propósito de obter todo o conhecimento e experiência” disponíveis. A terceira verdade é a de que o curto estágio na terra é apenas um período letivo em nossa trajetória evolutiva. O quarto princípio diz respeito à interação individualidade / personalidade. Se a relação for harmoniosa, seremos felizes e, conseqüentemente, saudáveis; do contrário, cria-se um profundo conflito que suscita a doença. O estabelecimento da saúde, portanto, consiste em realinhar personalidade e individualidade. Outro conceito que, segundo ele, precisamos ter sempre em mente é o da “unidade de todas as coisas” num contexto cósmico em que o amor é o grande e único princípio criador universal. Suas intermináveis meditações levaram-no à identificação de alguns sentimentos negativos como principais responsáveis pela desarmonia a que costumamos chamar doenças. Um deles, o primeiro, era o orgulho. Seguiam-se a crueldade, o ódio, a ignorância, a instabilidade, a indecisão, a fraqueza de propósito e a ambição. Em muitos desses estados mentais e emocionais, ele identificava uma atitude de “negação de unidade de todas as coisas”. Na realidade, a causa básica de todas as doenças era, a seu ver, o egoísmo que, em última análise, iria bater sempre no seu princípio fundamental, o da desarmônica interação personalidade / individualidade. Era preciso, portanto, substituir a lista de impulsos negativos por outra de atitudes positivas vitalizadas pelo amor.

 

Vinte e cinco: De início, chama atenção para o fato de que as características principais da inteligência animal são comuns e que raras são as pessoas que não as tenham observado. Habitualmente, contudo, não nos damos conta de que essas “humildes manifestações representam sentimentos, associações de ideias, inferências e deduções, ou seja, todo um esforço intelectual absolutamente humano”. Isso nos leva a supor toda uma estrutura de conhecimento aos quais os animais ditos irracionais têm acesso como nós temos. A dificuldade não estaria tanto em acessar tais conhecimentos, que são universais e se encontram à disposição de todos os seres vivos; o problema reside mais em comunicar aos demais seres aquilo que cada um de nós – plantas, animais ou gente – encontrou nos livros imensos e inescritos da vida cósmica. Maeterlinck parece pensar de maneira semelhante e o expressa com elegância e precisão indesejáveis, ao dizer que os cavalos de Karl Krall se encontram, em relação a outros animais, num plano onde estaria o ser humano que conseguisse viver num nível subliminal elevado. Nesse ponto, prossegue o autor, “a inteligência, que é a nossa letargia e que nos mantém cativos, ao fundo de uma pequena concavidade de tempo e espaço, seria substituída pela intuição ou, antes, por uma espécie de sabedoria imanente que, sem esforço, nos faria partilhar de tudo o que sabe o universo que, talvez, saiba tudo” (p. 241).

 

Vinte e seis: Isso parece indicar que o hemisfério (cerebral) esquerdo, verbal, consciente, é território onde se implantam as raízes da personalidade, dotada pelos mecanismos da evolução para lidar com os problemas do dia-a-dia no lado material da vida, entre os quais avulta, certamente, o da comunicação verbal com os demais seres no ambiente em que vive. Ficaria, pois, o lado direito (do cérebro), não verbal, espacial, dotado para a apreciação de aspectos imaterial como a música e reservado para as tomadas da individualidade que, pela outra ponta, estaria conectada com a realidade invisível, à qual tem acesso como se demonstra com as experiências de visão cósmica. Considero incorreto, não obstante, catalogar a atividade desenvolvida com apoio no lado direito como inconsciente. Ela é tão consciente (ou mais) do que a que se desenrola à esquerda; o acesso do pensamento dito consciente a ela é que é difícil. Não há dúvida, porém, de que constituem as duas um todo operativo, entregues a uma interação que pode não ser claramente percebida pela chamada consciência de vigília, mas que ali está presente, atuante, consciente e responsável. Uma delas – a esquerda – se ocupa do imediato, das coisas do mundo, da sobrevivência física do ser, ao passo que a outra – a direita – está programada para as tarefas que promovem, a longuíssimo prazo, os objetivos finais do processo evolutivo. Uma, portanto, dedica-se à transitoriedade e outra à permanência, uma a estar, outra ao ser, uma constitui o que os instrutores do Prof. Kardec caracterizavam como o espírito; a outra é território da alma, ou seja, o ser encarnado. Aquela continua como que pairando sobre a matéria, mergulhando nela apenas alguns aspectos sensores instalados no corpo espiritual e, por conseguinte, no corpo físico. Isso parece reiterar, como um toque de confirmação, a inteligente observação de Maurice Maeterlinck de que o ser, como entidade espiritual, não se encarna a não ser parcialmente.

 

Vinte e sete: Devemos lembrar ainda que a ideia de espírito, em contraste com a de alma encarnada, é entendida sob muitos rótulos diferentes, mantendo, contudo, as características essenciais que estamos lidando aqui. Servem como rótulos para essa mesma realidade essencial termos e expressões como overself, higher self, Cristo interior, hóspede desconhecido, ego superior, inconsciente, individualidade e outras. Predomina em toda essa terminologia o conceito de que se trata de uma área do ser que se mantém acoplada ao cosmos e, por isso, a todos os demais seres que povoam o universo. O fenômeno conhecido como de visão ou integração cósmica seria, portanto, uma evidência a mais da participação de cada individualidade no todo, não apenas com acesso – difícil, mas possível – ao todo, do qual nunca se desliga. Podemos, ainda, encontrar aqui a gênese do brilhante achado de que o Dr. Carl Gustav Jung identificou como inconsciente coletivo, perdoável erro de rotulagem, mas, ainda assim, uma ideia genial, por conceber o psiquismo de cada ser vivo como partícula da Inteligência Cósmica, que também figura no pensamento humano com numerosas expressões que querem dizer a mesma coisa. Disse, porém, que houve da parte do Dr. Jung um perdoável erro de rotulagem. Explico-me, com o devido respeito pelo eminente sábio suíço. Vejo o chamado inconsciente coletivo precisamente ao reverso, como consciente coletivo ou cósmico. Só a personalidade – espírito encarnado – é que não tem consciência dessa realidade, a não ser episodicamente e sob condições especiais de sintonização com ele. Na verdade, todo o conhecimento e toda a memória do universo estão lá, são da essência mesma da consciência cósmica, que A Grande Síntese considera “pensamento de Deus”.

 

Vinte e oito: Insisto em ver o hemisfério cerebral esquerdo como unidade central processadora da personalidade, ao passo que o direito fica reservado à individualidade. Para refrescar a memória, devo lembrar que o termo personalidade pode ser tido como sinônimo de alma e que alma deve ser entendida como espírito encarnado. Para ser mais preciso, poderemos admitir que a alma é a “área” da entidade espiritual que se encontra mergulhada na carne, ao passo que a porção mais nobre, se assim podemos nos expressar, ou seja, a individualidade, permanece, como temos insistido, ligada às suas origens e ao seu ambiente cósmico, em relativa liberdade.

 

Vinte e nove: Mais do que isso, ainda, recentes especulações sobre os enigmas da função cerebral pareciam autorizar a ideia de que o lado direito funciona como “uma câmara de eco” para o esquerdo, ou, mais especificamente, como um supervisor, dado que atua, no dizer de Smith, como “um modificador ou qualificador para a personalidade esquerda”. De minha parte, acho que o autor empregou com propriedade o termo personalidade, localizando-o à esquerda. Eu apenas acrescentaria que, em lugar de outra personalidade à direita, o que temos aqui é a individualidade, ou seja, o ser total, a entidade cósmica, o espírito. A hipótese oferece, ainda, um bônus adicional, ao abrir espaço para os conceitos freudianos de ego e superego, cabendo a este, como expressão da individualidade, implantado do lado direito do cérebro, a função controladora ou, pelo menos, crítica, sobre o ego (personalidade), sediado à esquerda, dado que, de volta a Anthony Smith, encontramos o que ele chama de “metáfora médica”, segundo a qual “é o lado direito que gera uma segunda opinião”, certamente revisionista, quando discordante.

 

Trinta: Teremos oportunidade de ver com o Dr. Gustave Geley que, a despeito dessa aparência de dualidade, não há duas pessoas entre nós, uma para uso, digamos, externo, outra internamente. Em Annie Besant encontramos a mesma advertência, no capítulo XII, no qual estuda a natureza da memória. “Temos de ter sempre em mente o fato de que a nossa consciência é uma unidade, e que essa unidade de consciência opera em vários níveis, o que lhe confere uma falsa aparência de multiplicidade”. Depois de lembrar que o Ser é um “fragmento do Universo”, a Dra. Besant descreve com sua característica clareza que, ao chegar ao plano da matéria, a consciência tem que se entregar às limitações impostas pelo corpo físico, ao qual as informações e os estímulos do ambiente em que vive chegam-lhe pelo sistema sensorial, ou seja, olhos, ouvidos, tato, paladar e olfato. Claro que um vetor da consciência precisa estar permanentemente atento a esses aspectos, mesmo porque não seria inteligente ocupar a consciência global nessa tarefa limitadora. Este é o momento em que a autora vai buscar em Paulo de Tarso a imagem literária de que necessita para marcar a sua visão do fenômeno. “Não há memória a não ser a permanente consciência do Logos, no qual, literalmente, vivemos e nos movemos e temos o nosso ser. Nossa memória se limita a colocar-nos em contato com aquelas áreas da consciência d’Ele, das quais tenhamos anteriormente partilhado” (p. 217).

 

Trinta e um: Experiências pessoais e bem documentadas com a morte, fenômeno para o qual foi cunhada a sigla NDE (near death experiences, experiências de morte iminente que, em texto de minha autoria, propus chamar de “morte provisória”). Em alguns desses casos, a pessoa vive o intenso processo de integração com o cosmos, ou melhor, toma conhecimento de que é parte integrante de tudo aquilo que a cerca, não apenas o que vê e percebe, mas também o que sente. O magno problema está aqui em relatar a experiência. A pessoa fica como que a tatear no vazio por palavras e expressões que traduzam razoavelmente as sensações que viveu naqueles breves momentos de eternidade.

 

Trinta e dois: Alguém que sofreu um esmagamento debaixo de um caminhão conseguiu explicar melhor o que experimentou: Outra coisa que você percebe quando se vê na presença da luz – depõe ele – é que você se encontra subitamente em comunicação com o conhecimento absoluto. É difícil descrever, mas o melhor que posso dizer é que você pensa numa pergunta e a resposta vem imediatamente, É simplesmente isso. Pode ser a respeito de qualquer coisa, mesmo sobre assunto do qual você não sabe nada. É possível que você nem entenda a informação recebida, mas a resposta é instantânea e você perceberá imediatamente o significado dela. Basta formular uma ideia acerca do que você quer saber que a resposta correta será prontamente recebida. É tão estranho que só posso compará-la ao fato de você ligar-se num computador e receber, em segundos, a resposta correta. Muitas das minhas perguntas foram respondidas, algumas de natureza estritamente pessoal, algumas que têm a ver segundo a qual a pessoa vive sua vida e suas conseqüências, algumas sobre aspectos religiosos, tanto quanto certos detalhes de eventos futuros (p. 118-119).

 

Trinta e três: Nas experiências de visão cósmica, a personalidade se vê, de repente, diante de um insuspeitado saber ao qual jamais teria acesso em sua condição normal. A individualidade, por sua vez, por sua origem divina, participa de todo o conhecimento, mas a ele vai acessando gradativamente, segundo seu grau de adiantamento evolutivo, nunca atingindo, contudo, o conhecimento total, infinito, que só a Divindade possui. Pelo mecanismo da encarnação, a individualidade vai aprendendo a vencer as limitações da matéria e a dominá-la, sendo cada vez mais ela própria, até que a personalidade não lhe constitua empecilho à sua manifestação. Se assim não fosse, não haveria etapas evolutivas a vencer e o próprio conceito de evolução não faria sentido. A individualidade evolui; a personalidade, não – ela apenas revela parcialmente o grau evolutivo daquela. Quando uma individualidade atinge o nível evolutivo do Cristo, por exemplo, a matéria na qual se acha mergulhada a personalidade não oferece mais nenhum obstáculo à expressão da individualidade – não representará mais qualquer limitação. Neste ponto, a individualidade terá atingido a perfeita união com a Divindade. Ao declarar que era um com o Pai, o Cristo caracterizou sutil modalidade de relacionamento: estar em, sem ser, Deus. Assim como a individualidade está na personalidade sem ser a personalidade, a individualidade está em Deus sem ser Deus. Pode-se dizer, portanto, que as individualidades são formas de expressão da Divindade.

 

Trinta e quatro: Do que depreende que, em situações como essa, retido pelas limitações da lógica e de sua capacidade de análise, o consciente (leia-se personalidade) tem de ceder lugar ao procedimento intuitivo e não-verbal sediado no hemisfério direito, de onde opera a individualidade. “Nossa mente consciente” – ensina Snow – “e sua maneira lógica e analítica de pensar, aparentemente filtrada através do hemisfério esquerdo do córtex cerebral, naturalmente resiste à intrusão do tempo não-linear ou da atemporalidade em nossa percepção mental. Não obstante, tais conceitos, facilmente aceitáveis como reais, parecem constituir condição normal de operação para outros níveis mentais – ou acessíveis através do hemisfério cerebral direito, quando experimentamos os chamados estados alterados de consciência” (p. 5). Acha mesmo Snow, como vimos, que tendemos a aceitar melhor o processo de reavaliação do passado porque “acreditamos que ele já aconteceu”. O Dr. Snow considera inexistente a categoria tempo linear, ou seja, não há passado, presente e futuro, mas uma só realidade atemporal. Dentro dessa mesma conceituação, entendemos por que Larry Dossey (em Reencontro com a Alma) insiste, e amplia sua concepção de que a mente é uma categoria “não localizada”, além de tempo e espaço, Aproveito a oportunidade para propor uma correção, mais de forma do que de fundo nessa observação: não-localizada, sim, mas em termos espirituais, dado que a função mental correspondente está sediada no hemisfério direito, a cargo da individualidade. A personalidade, contudo, com suas raízes e sensores no hemisfério esquerdo, precisa estar ancorada nas categorias de tempo linear, espaço, lógica e limitações lingüísticas, sem o que não poderia cumprir as tarefas para as quais é programada em cada existência do lado de cá da vida. Talvez, por isso, tenha dito Meister Eckhart, apud Dossey, que “não há maior obstáculo à união com Deus do que o tempo”.

 

Trinta e cinco: Uma vez alcançado o nível desejado de relaxamento – não necessariamente o de hipnose profunda – a Dra. Wambach sugere aos seus pacientes que eles próprios se ponham em estado alfa, autoinduzindo-se um ritmo de cinco ciclos por segundo na atividade cerebral. Vejamos como ela descreve o que ocorre, nesse ponto: “Quando as mandíbulas se relaxam, o aparelho fonador também se relaxa. Com os centros de fala relaxados, meus pacientes parecem transferir-se dos centros cerebrais da fala – o lobo temporal, à esquerda do cérebro – para outras áreas de interesse, deslocando-se para o hemisfério direito, onde sonhos, aspirações artísticas e intuições científicas parecem ter suas origens”. Ante o silêncio temporário do hemisfério esquerdo, o direito assume o controle ou, pelo menos, consegue entender-se melhor com a parte do ser que se encontra implantada à esquerda. É o momento a partir do qual a doutora começa a formular suas perguntas.

 

Trinta e seis: Há, portanto, à direita, um diferente conceito de racionalidade e não um estado de irracionalidade, simplesmente porque as coisas se passam numa área psíquica fora do alcance da consciência de vigília.

 

Trinta e sete: “Na verdade, como os místicos têm atestado durante milênios, nos seus mais profundos níveis, a mente perde contato com a realidade espaço / tempo e flutua em estado de pura felicidade não-material, além de quaisquer limitações físicas ou temporais”. Também o Dr. Snow chama a atenção para a resistência que a área analítica da mente – implantada a esquerda do cérebro – oferece ao que ele caracteriza como “intrusão do tempo não-linear ou atemporalidade em nossa função mental”. Não obstante, essa atemporalidade constituiria “normalidade operacional” em outros planos mentais somente acessíveis ao hemisfério direito. Acha, ainda, o Dr. Snow que esse mecanismo funciona tanto nos processos de regressão de memória (ida ao passado), como nos de progressão (ida ao futuro). Isso nos remete de volta a Annie Besant, ao ensinar, em A Study in Consciousness (p. 227), que o problema não reside na onipresença e imutabilidade da vida, mas “em nossos veículos” de manifestação. Daí a proposta de Snow, segundo a qual a mente consciente consegue “aceitar mais facilmente a ideia de relembrar o passado porque acreditamos que ele já aconteceu”. É o que realmente parece ocorrer. Como contornar o “racionalismo” do ser consciente, ancorado no hemisfério esquerdo, quando, para o direito, passado, presente e futuro parecem constituir uma só e simultânea realidade? Ainda há pouco considerávamos a perplexidade do Dr. Jung com a impactante ideia da atemporalidade. “Como representar” – pergunta-se Jung – “que vivi o ontem, o hoje e o amanhã?”

 

Trinta e oito: Daí o fascínio do ser humano em tentar decifrar o futuro pela predição. Além disso – prossegue –, em razão da especialização funcional da mente em hemisférios com diferentes concepções e tarefas, “dispomos de duas maneiras fundamentalmente diferentes de expressar conscientemente o que nossa mente sabe”. O que ele diz a seguir me parece importante demais para ser apenas parafraseado. É imperioso traduzir o trecho: “Assim, ou desenvolvemos os sistemas imaginativos e profético no cérebro direito para nos dizer o que nos reserva o futuro, ou instalamos um processo ‘esquerdo’ de coletar, organizar e comparar tantas informações sensoriais passadas e presentes quanto possíveis, a fim de tentar predizer os eventos a partir de uma correlação de dados. Chamamos, hoje, a primeira delas predição ‘psíquica’ (ou seja, mediúnica) e a segunda, ‘projeção’ (forecasting). Elas têm tido diferentes nomes no passado, mas tudo se reduz a uma diferença básica, ou seja, que parte do cérebro estamos primariamente recorrendo em busca de respostas” (p. 34).

 

Trinta e nove: A Dra. Wambach, por exemplo, inferiu de suas pesquisas que, de certa forma, o hemisfério direito, por mais silencioso e desligado que pareça da realidade ambiental do ser encarnado, revela insuspeitada liderança e exerce nítida autoridade sobre o esquerdo. O que nada tem de surpreendente, aliás, porque a individualidade realmente supervisiona a distância – não muito distante! – tudo o que se passa na personalidade. Como diz o Dr. Jung, o inconsciente é muitíssimo mais amplo, sábio e rico de informações do que o consciente, que se restringe aos dispositivos estritamente necessários para gerenciar a vida terrena.

 

Quarenta: A imagem da máscara (persona) é, pois, de uma precisão irretocável. A individualidade a põe para representar o papel que lhe cabe na vida, tal como os antigos atores a colocavam para viver as personagens que lhes eram atribuídas. Num caso como no outro, a personalidade é uma condição transitória, quase diria postiça, ao passo que, mesmo mascarada, a individualidade preserva-se na permanência, no eterno e, certamente, no comando, na liderança. Uma “é”, a outra “está”, e, por algum tempo, a que está no palco se mantém consciente e gesticula, e fala, e ri, e chora, tudo dentro do papel que lhe é atribuído.

 

Quarenta e um: “Opero a fusão entre as duas metades do pensamento humano” – lê-se em A Grande Síntese (p. 113) –, “até agora separadas e inimigas, entre o oriente, sintético, simbólico e sonhador, e o ocidente, analítico e realista.” E, mais adiante (p. 116): “Fé e ciência, intuição e razão, oriente e ocidente, se completam, quais termos complementares, quais duas metades do pensamento humano”.

 

Quarenta e dois: Nesse ponto da sua exposição, Watson nos passa uma preciosa informação do Dr. D’Aquili que se encaixa no que estamos aqui a debater. É o seguinte: como cada hemisfério tem sua própria maneira de se expressar, as mensagens do direito para o esquerdo têm de passar por um processo de tradução, ou melhor, de verbalização. Num caso típico de comunicação por meio do corpo caloso, o direito, no exemplo sugerido por D’Aquili, vê a presença de Deus num belo pôr do sol, mas a ideia é “muito vaga e metafísica” para o gosto do esquerdo, que se limita, algo desajeitado, a comentar as cores pintadas no horizonte. Quando, porém, entra em ação o componente emocional, a comunicação entre os dois hemisférios parece ignorar a ligação habitual e se utiliza do sistema límbico (a passagem secreta do sonho) e vai direto ao lado esquerdo, produzindo a experiência transcendente (p. 112). Watson traz para o âmbito da discussão o Dr. Andre Weil, caracterizado como “um médico livre-pensador” que considera esse tipo de bypass essencial à visão de “mundo sem os filtros nos seus lugares habituais”.

 

Quarenta e três: Eu diria que o estado de percepção transcendental se torna viável quando conseguimos separar personalidade de individualidade, ou melhor, fazemos silenciar o lado esquerdo, na sua infatigável tagarelice, a fim de poder “ouvir” a linguagem silenciosa e não-verbal que circula pelo hemisfério direito. Daí porque todo processo de meditação que se preze começa com o exercício de “esvaziar” a mente, ou seja, fazer calar o pensamento consciente e os sentidos. Não é que se interrompa a comunicação entre um hemisfério e outro; o que acontece é que a personalidade e a individualidade se entendem, em tais circunstâncias, não mais pelo corpo caloso, mas pela conexão límbica, que funcionaria como uma passagem secreta através da qual o ser humano como que se encontra consigo mesmo, integrando personalidade e individualidade.

 

Quarenta e quatro: Se a estrutura cerebral fosse excessiva e, portanto, ociosa e desnecessária, ela própria estaria condenada a minguar e não a expandir-se em ritmo que nenhum outro dispositivo biológico pode imitar. Na realidade, o que me parece é que estamos avaliando o cérebro como um todo apenas pela utilização que lhe dá a personalidade, essa sim, interessada nos mecanismos de sobrevivência física. Continuamos a ignorar como a individualidade opera e a parte que lhe toca e que “espaço” ocupa no edifício cerebral. As extraordinárias amplitudes do inconsciente, em confronto com a exíguas “dimensões”e capacidades conscientes, estão a indicar, por si mesmas, a razão da constante expansão cerebral, de vez que a cada existência terrena que se encerra todo o material acumulado passará automaticamente para o inconsciente na existência subseqüente a fim de abrir espaço para as novas experiências.

 

Quarenta e cinco: “No princípio, havia o movimento (p. 139) e o movimento se encontrou na matéria; da matéria nasceu a energia; da energia, emergirá o espírito”. “Um germe de psiquismo (p. 197) já existe, conforme vimos, na complexa estrutura cinética dos motos vorticosos”. Talvez a tarefa de cada ser inteligente, na sua condição de co-criador, seja a de vir para esta dimensão a fim de recolher tantas partículas de inteligência quanto possíveis de toda essa incalculável quantidade delas que ainda estão adormecidas na matéria, à espera de que alguém venha buscá-las para a glória suprema da consciência. Estavam certos, portanto, os gnósticos que consideravam a vida na carne como exílio, esquecimento, estado de embriaguez semelhante ao da morte. Vivo era o ser redimido, reintegrado não propriamente em Deus, dado que nunca nos desligamos totalmente dele. Por mais estranho que possa isso parecer, o que nos separa de Deus não é o estado de inconsciência que atribuímos a tudo quanto se passa no âmbito da individualidade, e que, no corpo físico, localiza-se no hemisfério direito; ao contrário, é precisamente aquilo que chamamos de consciência, ou seja, o pólo do ser que se acha restrito à personalidade e, portanto, o hemisfério esquerdo, que nos limita de tal maneira a visão cósmica que nos põe como que separados de Deus.

 

Quarenta e seis: Em Space, Time and Medicine, o Dr. Larry Dossey propõe a hipótese de que o cérebro seja um holograma. Como sabe o leitor, por mais diminuta que seja a partícula de um holograma, ela é sempre uma integral réplica do todo. Isso quer dizer que cada um de nós, como “princípio inteligente individualizado”, é um microcosmo integrado no macrocosmo, ao mesmo tempo em que preservamos a nossa condição de indivíduos. Mais: este paradoxal conceito revela que somos, ao mesmo tempo, a partícula e o todo. Aliás, o módulo do livro em que Dossey trata desse aspecto abre com uma citação de David Bohm, segundo o qual “todo o universo” (com todas as suas “partículas”, inclusive as que constituem os seres humanos, seus laboratórios, instrumentos de observação, etc.) “tem de ser entendido como um único todo integral”. Estudá-lo analiticamente em suas pretensas partes não faz sentido. Portanto, mesmo ao tomarmos a partícula holográfica do ser humano, temos de estar conscientes que estamos diante do cosmos, do todo, do indivisível. A antiga sabedoria ocultista dizia isso mesmo, ensinando: “o que está em cima está também em baixo”. Em outras palavras, disse o Cristo que a vontade de Deus é para ser feita “assim na terra como nos céus”, ou seja, por toda parte, dado que o universo é um só pensamento e a lei cósmica uma só, para tudo e todos.

 

Quarenta e sete: “Sente-se diante do fato” – propõe T. H. Huxley (Dossey, II, p. 225) – “como uma criança e esteja preparado para abrir mão de qualquer noção preconcebida; siga humildemente para qualquer abismo a que a natureza o conduzir, ou você não aprenderá coisa alguma”.

 

Quarenta e oito: Dossey obteve declaração não menos importante de Einstein sobre como via o ser humano no universo: “Um ser humano é parte limitada no tempo e no espaço de um todo por nós chamado de ‘universo’. Ele tem pensamentos e sentimentos como algo separado do restante – uma espécie de ilusão de ótica da consciência. Essa ilusão é como uma prisão para nós, restringindo-nos a decisões pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A tarefa que nos cabe é libertar a nós mesmos dessa prisão, ampliando nosso círculo de compaixão para abraçar todas as criaturas e toda a natureza em sua beleza”.

 

Quarenta e nove: Uma vez desdobrado ou parcialmente separado do corpo físico, o ser subconsciente denota conhecimentos obtidos “à revelia do ser consciente”, sem trânsito obrigatório pelas vias sensoriais normais. Esta observação de Geley antecipa, em cerca de meio século, importantes aspectos da futura parapsicologia, a que o Prof. J. B. Rhine deu status de ciência acadêmica, queiram ou não queiram seus detratores: o da percepção extrassensorial. Foi a ESP (Extra Sensorial Perception), cientificamente demonstrada em severos testes de laboratório, o que derrubou de uma vez para sempre o bimilenar postulado aristotélico da indispensável participação dos sentidos na aquisição do conhecimento. “Dentro desse esquema” – escreve Geley, p. 132 – “acha-se a noção nítida de acontecimentos afastados, passados ou futuros, que o ser consciente não pode aprender, nem direta nem indiretamente. No mesmo rol estão, sobretudo, as aquisições psíquicas complexas, que não podem ser devidas ao ser consciente, e por ele ignoradas: conhecimentos científicos, artísticos, literários, profissionais, etc. nunca aprendidos; conhecimento preciso de um idioma ignorado pelo sujeito normal, e assim por diante”. Do que se depreende que, uma vez exteriorizado ou desdobrado, isto é, parcialmente livre da severa contenção do corpo físico, o ser subconsciente tem acesso a uma dimensão em que até mesmo tempo e espaço são transcendidos, o que explicaria também as faculdades premonitórias ou francamente proféticas em pessoas especialmente dotadas. Entendo essas faculdades e outras sensibilidades da mesma natureza como conseqüentes de melhor sistema de comunicação entre consciente e inconsciente.

 

Cinquenta: Mesmo com as reconhecidas dificuldades de comunicação entre consciente e inconsciente, os dois “seres” se entendem e desenvolvem um procedimento de colaboração, até que a morte do corpo físico venha romper o isolamento entre as duas faces da individualidade. É nesse momento que ocorre o fenômeno que caracterizei em A Memória e o Tempo como transcrição das memórias e dos “programas” de uma área do psiquismo para outra, ou seja, o psiquismo provisório da personalidade para o psiquismo definitivo da individualidade. É o que também parece entender o Dr. Geley, que informa o seguinte: “A ruptura total dos dois psiquismos, o que acontece na morte, deve devolver ao ser subconsciente a utilização dessas faculdades e desses conhecimentos, utilização essa tanto mais perfeita quanto mais desenvolvida a sua evolução”. A Grande Síntese (p. 205) entende o fenômeno de maneira idêntica, ao ensinar que o processo da assimilação está na “base do desenvolvimento da consciência” e “se realiza precisamente por transmissão ao subconsciente, onde tudo se conserva, ainda que esquecido, pronto a ressurgir, desde que uma excitação o desperte, um fato o exija”. Segundo A Grande Síntese, o aprendizado vai-se acumulando na memória para futura utilização automática. “Os dois pólos do ser (p. 19): consciência exterior, clara, e consciência interior, latente, tendem a fundir-se. A primeira experimenta, assimila e introduz na outra os produtos assimilados através do movimento da vida; destilação de valores, automatismos, que serão os instintos do futuro”.

 

Cinquenta e um: “Toda a matéria” – confirma A Grande Síntese (48) –, “ainda mesmo a camada bruta ou inerte, vive, sente e pode plasmar-se e obedece, desde que atingida por uma ordem profunda”. Mecanismo idêntico funcionaria, segundo Geley, nos fenômenos de materialização, nos fenômenos mediúnicos de efeito físico, que também exigem um molde invisível segundo o qual entidades desencarnadas possam reassumir, por breve tempo, suas formas físicas, às expensas de substância tomada por empréstimo aos médiuns dotados de faculdades específicas para o caso. “Sabe-se que diferentes observadores, Crookes e Richet, entre outros, descreveram materializações completas. Não se trata de fantasmas, no sentido próprio da palavra, mas de seres que dispõem, momentaneamente, de todas as particularidades vitais dos seres vivos, cuja aparência corporal era perfeita”.

 

Cinquenta e dois: Para ele, “ao lado e acima das causas admitidas pela natureza, há um princípio superior ao que ele chama inconsciente, que constitui o que há de essencial, de divino no universo, no qual se encontram potencialmente todo o poder da vontade e o da representação”. Dentro desse quadro, portanto, tudo se realiza por vontade do inconsciente, tanto no processo mesmo da evolução, quanto na área circunscrita do indivíduo. “Na evolução, o inconsciente desempenha papel primordial. A seleção natural não explica a origem das novas formas, ela é apenas um meio através do qual o inconsciente se utiliza para chegar aos seus objetivos. No indivíduo, o inconsciente desempenha papel predominante junto aos fenômenos vitais. Ele tem em si a essência da vida, ele forma o organismo e o mantém; repara seus danos internos e externos e guia com finalidade específica seus movimentos” (p. 205).

 

Cinquenta e três: Por isso, o Dr. Geley mostra-se convicto de que “a própria evolução, como veremos, nada é senão sua própria passagem do inconsciente para o consciente”. O que, de outra forma, confere com o pensamento de Teilhard de Chardin, segundo o qual a vida é “imensa ramificação do psiquismo que se busca através da forma” (O Fenômeno Humano). Depois de armado todo o cenário que acabamos de repassar, o Dr. Geley expõe seus “dois postulados primordiais da filosofia” e que assim estão redigidos: (1) O que há de essencial no universo e no indivíduo é um dínamo-psiquismo único, primitivamente inconsciente, mas tendo em si todas as potencialidades. As aparências diversas e as coisas inumeráveis não são mais que representações suas. (2) O dínamo-psiquismo essencial e criador passa, pela evolução, do inconsciente para o consciente.

 

Cinquenta e quatro: O que confere com o dínamo-psiquismo do Dr. Geley, com a busca através da forma, proposta por Chardin, com a evolução criadora de Bergson e com a técnica cósmica de “intelectualizar a matéria”, como ensinaram os instrutores espirituais do Dr. Rivail. Em suma, o ser vivo, tanto quanto o universo, são da mesma essência única. A Grande Síntese não é estranha a esses conceitos; ao contrário, os acolhe, ao definir o universo como “unidade orgânica em evolução” (p. 112). Para acrescentar adiante (p. 296), que “o universo é organismo monístico, que funciona sob o império de um princípio único”. Aliás, no início da obra (p. 29), ficou dito que “como estrutura, o universo é um organismo, isto é, um todo composto de partes reunidas, não ao acaso, mas com ordem, com recíproca proporção”.

 

Cinquenta e cinco: Por muito tempo vimos dividindo as coisas criadas em vivas e inertes, ou seja, dotadas ou não dotadas de um componente psíquico. Ao que tudo indica, essa postura está sendo, senão questionada, pelo menos reformulada em razão de especulações e pesquisas mais recentes, como a hipótese Gaia, segundo a qual o próprio planeta seria um ser vivo a interagir com aqueles que o povoam. Annie Besant (capítulo VI, p. 105 e seg.), ao discorrer sobre a consciência como uma só realidade cósmica, invoca o apoio científico do Prof. Jagadish Chandra Bose, de Calcutá, que “provou definitivamente, que a chamada ‘matéria inorgânica’ responde a estímulos de maneira idêntica aos metais, vegetais, animais e – tanto quanto se pode experimentar – o ser humano” (p. 109). É com apoios como esse que a Dra. Besant se sente autorizada a declarar, à página 115 do seu livro que: “O homem é o microcosmos do universo e seu corpo serve de campo evolutivo para miríades de consciências menos desenvolvidas do que sua própria”.

 

Cinquenta e seis: Quanto ao mal, não teria mais que uma importância relativa, sendo sempre reparável. Ele acha mesmo (I, p. 332) que o mal acaba sendo “o acompanhamento inevitável do despertar da consciência”. A Grande Síntese prefere ver esse conceito sob a ótica da dor como fator evolutivo, mas como a dor resulta, invariavelmente, de nosso atrito com a lei cósmica – e isso é o que se chama erro ou pecado – as posturas de Geley e as do autor espiritual de A Grande Síntese são convergentes.

 

Cinquenta e sete: De alguma forma ou de outra, em conflito intimo ou nos momentos de serenidade e meditação – especialmente nesses –, ele se punha a observar ao que chama “jogo alternado das personalidades número 1 e número 2”. Ressalva que nada disso tem a ver com a famigerada dissociação de personalidade, sendo, ao contrário, algo que “se desenrola em todo o indivíduo”. E prossegue (p. 52): “Em primeiro lugar, são as religiões que sempre se dirigiram ao número 2, ao ‘homem interior’. Em minha vida, o número 2 desempenhou o papel principal e sempre experimentei dar livre curso àquilo que irrompia em mim, a partir do íntimo. O número 2 é uma figura típica que só é sentida por poucas pessoas. A compreensão consciente da maioria não é suficiente para perceber sua existência. Seja como for, essa dicotomia íntima revelou-se muito cedo na vida de Jung, já que ele informa, à página 66 da tradução brasileira, que o processo paralelo dentro do qual o seu número 2 (a individualidade) se desenvolvia era secreto. Nos intervalos, deixava que seu aspecto número 1 (a personalidade) lesse obras inexpressivas, como romances ou os clássicos ingleses, em tradução, com “suas explicações inúteis e enfadonhas do óbvio”. A partir de certa época, contudo, “a personalidade número 1 começou a preponderar”, em prejuízo da sua convivência com a de número 2, que ele caracteriza como aquela parte de si mesmo que “pertencia aos séculos”. Para melhor entendimento das disparidades dessa dicotomia, ele usa para o número 1 a expressão “homem velho”, que passou a envolver-se cada vez mais com a rotina da vida terrena.

 

Cinquenta e oito: A partir de certo ponto, a número 1 começa a preponderar, como diz Jung, simultaneamente com a retirada para os bastidores da tutela da número 2, implantada, segundo nossa hipótese, no hemisfério direito. A partir desse ponto, a individualidade apenas acompanha as experimentações da personalidade, interfere em momentos mais críticos, mas procura deixá-la tão livre quanto possível no exercício de seu livre-arbítrio. Jung cuidou, por todos os meios ao seu alcance, de manter condições favoráveis de acesso aos ricos arquivos e à experiência milenar da número 2. Por isso, manteve-se atento ao fluxo de suas intuições, ao mesmo tempo em que se abria para os grandes pensadores e filósofos do passado. Seu psiquismo é por demais rico, seus interesses são amplos, suas intuições abundantes e, logicamente, seus conflitos íntimos uma constante. Queixa-se também da ansiedade do seu número 1 em livrar-se da “melancolia do número 2”. Poderia, à primeira vista, tratar-se do desconforto que a individualidade experimenta ao sentir-se contida pelas limitações que lhe impõe o acoplamento obrigatório com a matéria, enquanto a personalidade aprende e se exercita no uso do livre-arbítrio. Descobre, contudo, que em realidade, não é o número 2 que se sente deprimido, “e sim o número 1, quando se lembra do número 2”. Tudo lhe constitui motivação para profundos insights.

 

Cinquenta e nove: De repente, deu com o sentido da cifrada mensagem onírica e que se traduzia no conceito de que “onde há uma vontade, há um caminho” (p. 160). Embora atento à realidade de que o inconsciente recorre a imagens simbólicas, e situações arquetípicas para transmitir o seu recado ao consciente, Jung parece não distinguir bem o sonho da atividade de seu próprio ser em desdobramento ou projeção, o que é mesmo difícil. É que, em ambas as situações, o inconsciente ( = individualidade = personalidade número 2) continua como interlocutor não-verbal, recorrendo ao que os instrutores do Prof. Rivail caracterizaram como “linguagem do pensamento”. A individualidade “fala”, portanto, de uma dimensão onde imperam a permanência, o eterno, o imutável, a uma parcela de si mesma que está mergulhada na transitoriedade, na qual a linguagem devidamente articulada constitui instrumento indispensável ao processo de comunicação com os demais seres que povoam o ambiente em que vive.

 

Sessenta: Não me arrisco, neste ponto, a uma conclusão resolutiva (quanto ao sonho), mas tenho uma hipótese a oferecer àqueles que, mais habilitados do que eu, desejem testá-la. Penso que o recado inconsciente / consciente é elaborado mentalmente, ou seja, é um conjunto de informações e ideias que se traduzem em imagens dotadas de conteúdo ético, ainda que oculto, ao passo que a atividade em desdobramento e projeção se reduz a uma vivência experimentada no plano da realidade invisível. Pode até conter também uma imagem ou ensinamento, mas não passa de monitoração do que fazemos na outra dimensão da vida, enquanto o corpo dorme ou se encontra em estado de relaxamento.

 

Sessenta e um: Mais adiante, à página 262, faz veemente declaração de confiança na tutela do inconsciente, ao qual deve ser atribuída suficiente liberdade para evitar que seja neutralizado pelos excessos da razão. “Quanto maior for o predomínio da razão crítica – opina –, tanto mais nossa vida se empobrecerá” (p. 262). O problema consiste em que não estamos suficientemente treinados e nem convencidos de que devamos nos entregar com maior confiança à orientação do inconsciente. Ao contrário, educados num contexto que se orgulha das convicções e práticas ditas racionalistas, queremos tudo submetido não propriamente à razão, mas aos critérios pessoais que elaboramos na construção de um modelo pessoal de racionalidade.

 

Sessenta e dois: Jung demonstrou, em numerosas oportunidades, a consciência de tal dualismo. É o que se pode conferir, ainda uma vez, do relato de suas experiências na África, dado que tudo para ele constituía motivação para o aprendizado. “Transbordando de impressões e pensamentos, voltei a Túnis. Na noite anterior ao nosso embarque para Marselha tive um sonho que, segundo meu sentimento, representava a súmula dessa experiência; era o que eu desejava; estava habituado a viver sempre, simultaneamente, em dois planos: um consciente, que queria compreender – e não conseguia –, e o outro, inconsciente, que desejava se exprimir – e só o fazia mediante o sonho.” Essa observação de Jung tem tudo a ver com o que estamos tentando passar com este livro. Não devemos perder de vista a realidade já percebida por muita gente de que há uma perda de tempo precioso, em termos evolutivos, naquilo que poderemos considerar como indiferença ou falta de atenção ao processo de interação entre consciente e inconsciente.

 

Sessenta e três: Mais enfático e preciso do que nesse ponto, ele reitera, à página 27, que, “em proveito da estabilidade mental e até da saúde fisiológica, inconsciente e consciente devem se manter integralmente acoplados e se movimentarem em paralelo. Se ocorrer uma clivagem, ou ‘dissociação’, sobrevém distúrbios psicológicos”. O leitor está sabendo que a dicotomia consciente / inconsciente pode ser expressa com a mesma propriedade pela dicotomia personalidade / individualidade. É pelo adequado entendimento entre essas duas facetas do ser que passa a rota que leva aos elevados patamares evolutivos da perfeição.

 

Sessenta e quatro: Lamentando mais uma vez a submissão do ser humano ao racionalismo extremado e mal formulado, escreve, ainda, à página 91 que, “nossas vidas atuais são dominadas pela deusa Razão, nossa maior e mais trágica ilusão”. Tão fascinados vivemos pela razão e pelo falatório da “consciência subjetiva que nos esquecemos do milenar fato de que Deus fala principalmente através dos sonhos e das visões”. Por tudo isso, conclui ele, “temos estado obviamente tão ocupados com o problema do que pensamos que nos esquecemos totalmente de perguntar o que pensa de nós a psique inconsciente”.

 

Sessenta e cinco: “Somente os limites da vossa consciência atual” – diz A Grande Síntese (p. 83) – “é que não vos permitem reconhecer-vos, ‘sentir-vos’ uma roda da imensa engrenagem, uma célula eterna, indestrutível, que concorre com o seu labor para o funcionamento do grande organismo”. “Não vos isoleis no vosso pequenino eu” – lê-se mais adiante (p. 123) – “nesse separatismo que vos limita e aprisiona. Compreendei essa unidade, lançai-vos nessa unidade e vos tornareis imensos”.

 

Sessenta e seis: Por isso, adverte-nos sobre uma realidade sempre ignorada ou desatendida, ao informar que sabemos das coisas que nos cercam “apenas o que os sentidos nos dizem”. Nossa experiência é uma construção sensorial, opina, e “nunca chegamos à verdade absoluta sobre as coisas, mas apenas naquilo em que elas afetam a observação direta” (p. 18). Mais para o fim do livro (p. 352), ele voltará ao tema específico dos sentidos para dizer que cada um deles nos mostra apenas um corte de certos detalhes do espetáculo da vida, mas não tem condições de nos oferecer uma experiência global em qualquer momento dado de tempo e espaço. Nas instruções finais acerca de sua metodologia da meditação, ele ensina que é indispensável ao aprendiz “fechar a porta dos sentidos ao mundo exterior” e evitar que o pensamento fique a vagar, sem rumo, levado pelas fantasias do momento. É necessário, insiste, “desfazer o trabalho dos cinco sentidos”, ou seja, impedir que eles funcionem por algum tempo ou, então, você não conseguirá mergulhar na sua própria intimidade, que, afinal de contas, é parte integrante da mente universal. Brunton expressa esse mesmo conceito em diferentes oportunidades e com palavras diversas, mas o conteúdo delas é o mesmo. Vejamos: “A experiência humana” – lê-se à página 150 – “é o resíduo final de um processo de interação, um tecido tramado de parceria com a mente comum, na qual todos os seres humanos vivem e pensam e que vive e pensa neles. O próprio mundo resulta de uma combinação da imaginação cósmica com a individual”.

 

Sessenta e sete: O autor recorrera a um colega cientista, cujo nome não menciona, que manifesta a seguinte e importantíssima opinião: “O crescimento e o desenvolvimento de qualquer sistema vivo parecem controlados por alguém de ‘dentro do organismo’ a dirigir todo o processo da vida”. Esse “alguém” existe de fato, como estamos vendo. É o “hóspede desconhecido” de Maurice Maeterlinck, o “ser subconsciente” de Gustave Geley e de Gabriel Delanne, a “personalidade 2” de Carl Gustav Jung, o “hidden observer” (observador oculto) de Paul Brunton (p. 140) e de Ernest Hilgard, da Universidade de Stanford, apud Lyall Watson, em Beyond Supernature (I, p. 305), ou o espírito, na sua pura expressão, no dizer dos instrutores do Prof. Rivail. Estou propondo, neste livro, que esse ser consciente, responsável, lúcido e permanentemente ligado à mente cósmica, tenha instalado no hemisfério cerebral direito seu posto de monitoração e comando. É a individualidade que traz, nas suas próprias estruturas espirituais, não apenas a vivência de todo um passado de experiências, como a programação para cada nova existência que se inicia na carne. Uma vez colocados na memória operacional da criança, no hemisfério esquerdo, os programas necessários ao funcionamento da vida, ela se retira para o contexto que lhe é próprio e, através de seus terminais no lobo direito, monitora a atividade que a personalidade vai desenvolvendo.

 

Sessenta e oito: Em Ensinamentos de Silvanus, por exemplo, está expressa a advertência habitual, sobre o engodo da matéria, que atrai a pessoa para a treva quando a luz se encontra a sua disposição, bebe a água suja, quando a limpa está ao seu alcance, ignora o chamado da sabedoria e atende ao da insensatez. Não porque assim o deseje a pessoa, mas porque “é a natureza animal dentro de você que o faz”. Mais adiante, aconselha: “Viva de acordo com a mente. Não pense nas coisas pertencentes à carne. Adquira força, pois a mente é forte”. Aconselhava-se, portanto, e com muita ênfase, a viver mais à direita, aconchegado ao espírito do que à esquerda, envolvido com a matéria. Para evitar excessos, contudo, o Evangelho de Felipe propunha uma solução conciliatória, ao ensinar “não tema a carne nem a ame. Se você a temer, ela o dominará. Se você a amar, ela o engolirá e o paralisará”. Continuamos, pois, no âmbito daquele conceito lembrado alhures, neste livro, segundo o qual a vida na carne deve fluir, tão suavemente quanto possível, entre o transitório e o permanente, entre o ser e o estar, e não entre o ser e o não-ser, como se questionava Hamlet.

 

Sessenta e nove: Em The Crack in the Cosmic Egg, o autor se apresenta mais enfático do que nunca. Para ele o “ovo cósmico”, mencionado no título, é “a soma total de nossas noções sobre que coisa é o mundo”. De certa forma, vivemos confortavelmente instalados nesse ambiente cultural, sem nos lembrarmos de que o “ovo” é também “uma prisão, que inibe a imaginação e o impulso de explorar novas ideias”. A postura de Pearce tem minha simpatia. Eu apenas diria que o ovo não se quebra sozinho, como dizem os editores, ele precisa ser quebrado, e mais, de dentro para fora. Se a ave não tomasse tal iniciativa, morreria na casca sem ter nascido. Daí a gente identificar sempre certo componente de inconformismo e até de rebeldia em muitos daqueles que realmente criam coisas e abrem caminhos rumo ao futuro. “Vivemos tempos nos quais a concha, na qual nos encerramos, não mais nos protege, mas sufoca e destrói”.

 

Setenta: “A mente separa-se em duas, a porção à qual estamos continuamente atentos e que constitui a pessoa observada e a porção que nos faz atentos ao fato de que há uma pessoa que constitui a mente que observa”. Ou seja, há em nós uma parte da mente, dita consciente, continuamente observada e outra, tida por inconsciente, que observa. Para que isso funcione dessa maneira, dispomos do seguinte esquema: (1) o corpo físico, (2) a consciência pessoal, que consiste em impressões, pensamentos, desejos, imagens e tendências cármicas e, (3) o observador impessoal, cuja presença é indiretamente revelada pela pessoa, da mesma misteriosa maneira pela qual a presença de um campo magnético se revela na movimentação da limalha de ferro. O eu total opera dentro desse contexto. “A pessoa” – prossegue (p. 147) – “é apenas uma projeção do overself, como uma figura onírica é a projeção da mente daquele que sonha. Não passa de uma criatura dependente que se esqueceu de suas origens e imagina agora ser o eu real”. Daí porque, somente após entender e superar essa fase de auto-ilusão, poderemos alcançar a realidade que se situa atrás da personalidade, até atingir a um ponto de otimização na trajetória evolutiva, na qual não há mais o observado – personalidade – e o observador – individualidade –, mas o ser total, consciente de sua integração e interação com a consciência cósmica. Esse estágio, contudo, somente é atingido quando se dá “a passagem de nossa personalidade inferior para a nossa mais elevada individualidade” (p. 183).

 

Setenta e um: Para ele, o universo é coisa “viva e mental”, conceito que reitera mais adiante (p. 307). Mais que isso, é também consciente, e nem poderia deixar de sê-lo, de vez que é pensamento de Deus, tanto quanto a criatura humana é a “individualização” desse princípio universal inteligente. Mais que isso, ainda, nada existe senão em Deus, cada galáxia e cada átomo. Daí porque Brunton, e o Dr. Gustave Geley consideram a vida um contínuo processo de expansão da consciência (p. 308), uma progressiva conscientização. Eis por que Brunton conta com a vitória final do que identifica como “as forças do Bem” (p. 456). “Há um plano geral por trás do universo. Podemos aninhar nossas vidas mansamente nele e encontrar, se o desejarmos, uma felicidade digna de ser vivenciada, ou podemos nos opor ao plano e sofrer inexoráveis conseqüências. Isso vale tanto para os indivíduos como para os povos. Mas o espírito redentor do plano é imbatível”.

 

Setenta e dois: Também na velha e lendária Suméria, Jaynes foi descobrir um provérbio que se traduz mais ou menos assim: “Aja imediatamente, faça a felicidade do seu deus!”

 

Setenta e três: Eu disse convicção. Este livro não foi concebido nem escrito para debater problemas de fé ou crença, que continuam, como lhes compete, implantados no território da teologia. Como venho reiterando em diferentes oportunidades, a fé é precursora da convicção. Não que se torne, de repente, obsoleta e inútil – ao contrário –, é que no patamar do conhecimento, ela abre os olhos, deixa de ser cega e adquire as tonalidades e dimensões da certeza, transmutando-se de uma fé que apenas crê naquela que sabe. Além do mais, examinamos aqui mesmo, neste livro, evidências que apontam para três estágios de um só processo ininterrupto: vida antes da vida, vida entre vidas e vida depois da vida, e, portanto, vida sempre. O leitor e a leitora tem todo o meu respeito pelo direito de duvidar ou discordar de tais formulações. “Tendes como sabedoria” – diz o autor espiritual de A Grande Síntese (p. 16) – “a ignorância das altas coisas do espírito… O limite sensório” – reitera adiante (p. 84) – “é apertado e vos mantém, diante da realidade das coisas, num estado que poderia chamar-se de constante alucinação”. E mais: “O relativo vos submerge, a consciência que se apóia na síntese sensória é um horizonte circular, fechado”.

 

Setenta e quatro: A julgar pelas informações de que dispomos em dissertações mediúnicas confiáveis, parece intenso o intercâmbio extracorpóreo entre individualidades encarnadas e desencarnadas, em contexto e dimensão nos quais a palavra é dispensável, dado que o pensamento se comunica, como tenho dito, in natura. Isto se torna possível porque o sono fisiológico comum e outras modalidades de relaxamento corporal possibilitam o desdobramento temporário do corpo invisível (perispírito). Nesse estado de relativa liberdade de ir e vir pela dimensão espiritual, são freqüentes as oportunidades de entendimento com os seres desencarnados que, por não disporem de corpo físico, já têm a personalidade da mais recente encarnação absorvida pela individualidade e, portanto, presumivelmente livres de suas interferências e limitações. Esse aspecto parece confirmado em A Grande Síntese, onde se lê, à página 20, o seguinte: “Indico-vos grandes descobertas que a ciência terá de realizar, sobretudo, a das vibrações psíquicas, por meio das quais dado nos é a nós, espíritos sem corpo, comunicar-nos com a parte que, em vós, é espírito, como nós”. É tão importante essa informação que a entidade autora do livro diz estar oferecendo, com ela, o nosso amanhã.

 

Setenta e cinco: Esse mesmo tipo de dificuldade – de traduzir símbolos em palavras – vimos enfrentado pelo Dr. Jung às voltas com os freqüentes sonhos que relatava em seus escritos. Algumas dessas mensagens oníricas eram de tão vital relevância para ele que a individualidade insistia em suscitar nele um esforço interpretativo que o levasse, afinal, ao entendimento da informação cifrada. Por isso tudo é de ressaltar-se a intuição de alguns pensadores (Maeterlinck, Freud, Jung, por exemplo) que preconizaram melhor entrosamento entre consciente e inconsciente.

 

Setenta e seis: Nas etapas mais avançadas do processo evolutivo, portanto, isso acontece a partir do momento em que personalidade / individualidade, alma / espírito, consciente / inconsciente começam a entenderem-se melhor, utilizando-se com maior competência e sensibilidade dos dispositivos em operação no corpo físico – os hemisférios direito e esquerdo, onde uma dialoga com a outra. A tendência, como se percebe, é a de uma eventual integração da personalidade na individualidade, equivalente à total conscientização do ser espiritual, como preconiza o Dr. Geley, tanto quanto se lê em A Grande Síntese e que, afinal de contas, era o que também desejava Maurice Maeterlinck.

 

Setenta e sete: Estamos assim, ante a perspectiva de uma extinção da personalidade, ou seja, uma expansão da consciência a ponto de que ela passe a ser uma com a individualidade, sem mais separações ou dicotomias. Isso não é nada surpreendente e nem preocupante, dado que constitui legítimo propósito da evolução espiritual. Alcançado um elevado patamar evolutivo, o ser liberta-se do ciclo das encarnações compulsórias, como já assinalavam os remotos místicos orientais.

 

Setenta e oito: Daí porque o escritor, o poeta, o compositor ou o artista plástico partem para as suas criações do que se habituaram a considerar como inspiração. “Alguma coisa” lhes diz, dentro de si mesmos, que eles têm algo a expressar, a criar ou no qual se podem projetar, ainda que não se saiba precisamente o que seja isso. No nebuloso território fronteiriço, torna-se difícil distinguir inspiração de intuição, que parecem fundidas numa só atividade mental, empenhada em fazer emergir no ambiente da personalidade aquilo que a individualidade elaborou: uma dissertação, um poema, um quadro, uma sinfonia. Eis por que, ao iniciar a sua tarefa de “materializar” do lado de cá o que é apenas uma criação mental do “lado de lá” da consciência, a personalidade ainda não sabe ao certo como será o produto acabado. Tem razão, pois, Ashbery, ao dizer que escreve para saber o que será pensado. Colocado no contexto das propostas deste livro, sua observação ficaria assim: “Minha personalidade escreve para saber o que pensa a individualidade”.

 

Setenta e nove: Poincaré descreve, com a precisão meticulosa do cientista acostumado a observar os fenômenos, como chegou à formulação das equações fucsianas. Mozart fala de uma condição ou estado onírico, semelhante ao do transe, por meio do qual já encontrava como prontos, num só acorde, os achados musicais que lhe bastava desdobrar posteriormente, em vigília. Simonton também se revela consciente desse mecanismo que produz uma nova acomodação criativa a partir de noções preexistentes, por meio de uma transposição ou permuta de “elementos mentais” que povoam a mente e que a autora do artigo identifica como “imagens, frases, lembranças fragmentárias, conceitos abstratos, sons, versos”. Simonton aproveita o exemplo para caracterizar uma sutil diferença, ao propor que “os gênios são gênios porque produzem mais combinações renovadoras do que os meramente talentosos”. Seja como for, a evidência de um processo de elaboração inconsciente parece uma constante ou, pelo menos, figura em vários depoimentos reveladores. John Ashbery, por exemplo, informa não planejar seus escritos, declaração que me lava a alma, pois eu pensava que isto seria um defeito de escritor meramente intuitivo ou empírico como eu. É bom observar que você tem algo em comum, por mais remoto que seja, com gênios como ele. Ele prefere deixar a coisa fluir. Como não parte de um esquema preestabelecido, o que acaba obtendo é sempre inesperado, mesmo para ele. Sua frase para descrever essa condição precisa ser destacada para mais profundas meditações: “Escrevo para saber o que estou pensando”. Há, portanto, para Ashbery um dispositivo mental algo misterioso com o qual ele pensa. Para saber o que essa outra parte de si mesmo está pensando, ele precisa escrever. Não é estupendo isso? Para dizer a mesma coisa de outra maneira, é um processo pelo qual a individualidade fala ou escreve à personalidade.

 

Oitenta: Se entendermos a metáfora como um mecanismo de transposição simbólica – o que de fato é – estaremos igualmente sintonizados com outra faixa de pensadores entre os quais eu colocaria com merecido destaque o Dr. Carl Gustav Jung, assíduo estudioso do simbolismo no rico intercâmbio secreto que se opera no âmbito da natureza, ser humano nela incluído, claro, tanto quanto dentro do próprio indivíduo. Na mesma matéria da Newsweek, aliás, é relembrada a curiosa “vidência” introspectiva de Kekulé, em 1865, ao “sonhar” o modelo da molécula de benzeno, figurada numa cobra mordendo a própria cauda. Mais um exemplo no qual o inconsciente conversa com o consciente. Como o inconsciente não dispõe de recursos verbais, a mensagem precisa ser desenhada metaforicamente. Não seria, pois, o gênio – pergunto-me e ao leitor – aquela pessoa especial dotada de competência e experiência suficientes para interpretar corretamente as mensagens não-verbais do inconsciente? O segredo da genialidade estaria, pois, neste aspecto do processo criativo, não apenas em estabelecer a presença de mensagem simbólica, como em traduzir e explicitar verbalmente seu conteúdo metafórico.

 

Oitenta e um: Há, porém, traços comuns entre eles: todos eles gostam do que fazem. Mais do que isso, Begley chama a atenção para um aspecto que me parece fundamental no entendimento do mecanismo da genialidade: eles demonstram um “prazer infantil”, seja pintando um quadro, compondo uma peça musical ou pesquisando uma nova hipótese científica. Bem diz, portanto, Howard Gardner, ao declarar, segundo Begley, que a criatividade do gênio tende “a retornar ao mundo conceptual da infância”. Acho mesmo que essa observação tem profundidade e sentido mais amplos do que Gardner tenha imaginado. Não apenas é necessário, na dinâmica intelectual do gênio, viver num estado de encantamento perante aos fenômenos da natureza, como a criança é propensa a formular perguntas, não as programadas e esperadas, mas as inesperadas e aparentemente estapafúrdias ou fora de contexto. Além disso, ainda, estou convencido de que a criança tem acesso às fontes intuitivas, por não estar ainda mergulhada mais fundo nos instrumentos inibidores da matéria densa que compõe o seu corpo físico. Em outras palavras: a personalidade, ainda em formação, oferece espaço interior para que a individualidade lidere o processo intelectual. Estamos sabendo, por tudo o que vem sendo dito aqui, que a individualidade mantém as suas tomadas ligadas na consciência cósmica, ao passo que a personalidade tem de se contentar com as limitações que lhe impõe a matéria para conviver com elas. O jovem tende, naturalmente, para certa inoclastia, ou, pelo menos, se mostra menos inibido ao questionar aspectos cristalizados do conhecimento. Ele precisa ousar, ou não conseguirá produzir a mágica de obter novas combinações renovadoras com os elementos de que dispõe. Tanto mais criativos e inovadores serão os jovens e as jovens, quanto melhor conservarem a capacidade infantil de se maravilhar com as coisas, procurando explorar o mundo em que vieram nascer para surpreender seus segredos e encantos.

 

Oitenta e dois: Já é tempo de saberem, leitor e leitora, como e por que surge a alquimia num livro que pretende oferecer umas tantas reflexões sobre consciente e inconsciente, personalidade e individualidade, bem como sobre o encaixe de tais aspectos do ser humano no contexto cósmico da evolução.

 

Oitenta e três: É certo que Oman Amar al-Jahiz, falecido em 869, propôs uma hipótese, semelhante à de seu compatriota al-Masudi, segundo a qual a vida seria um processo de ascensão, “do mineral à planta, da planta ao animal, e do animal ao ser humano”. O sábio al-Jahiz antecipa Teilhard de Chardin, quase que com as mesmas palavras, em cerca de mil anos e ainda combina Chardin com o autor de A Grande Síntese, para o qual o princípio inteligente ensaia seus primeiros passos num movimento vorticoso, trabalhando com os “tijolos” fundamentais mais leves da matéria: hidrogênio, carbono, nitrogênio e oxigênio – pesos atômicos 1, 12, 14 e 16, respectivamente – com os quais construirá, ao cabo de milênios e milênios, as primeiras estruturas da matéria viva, nas plantas. Lyall Watson (p. 176) vê a alquimia dotada de dois “braços” e usa para caracterizá-los termos que fazem lembrar Teilhard de Chardin, um deles voltados para fora (o “fora” das coisas) e outro “escondido e mais interessado num sistema devocional”, ocupando-se do “dentro” das coisas. Para ele, “a transmutação mundana dos metais era apenas simbólica da transformação do ser humano em algo mais perfeito, por meio da exploração do potencial da natureza”.

 

Oitenta e quatro: Na verdade, Jung, como lembra Watson (p. 176), “considerava a alquimia mais como precursora da moderna psicologia do que da química moderna”. Para o enciclopédico doutor suíço, ainda no dizer de Watson, “as raízes da psicologia no inconsciente” estavam solidamente implantadas nos textos alquímicos, que ele estudou diligentemente durante mais de uma década. O leitor poderá conferir esse e outros aspectos do pensamento de Jung em Memórias, Sonhos, Reflexões, livro imperdível para quem deseja uma visão lúcida dessas complexidades ideológicas.

 

Oitenta e cinco: O meio mais insistente de comunicação eram os sonhos. São numerosos, constantes, pejados de sentido metafórico, enfeitados de simbolismos visuais ou puramente mentais marcados por enigmas que lhe cumpria decifrar ou ser devorado, como ameaçava a esfinge. Às vezes eram vozes mesmo, inaudíveis para qualquer outra pessoa, mas articuladas e claramente percebidas por ele. Parece que, em certos momentos de maior exaltação, em transe anímico, a individualidade conseguia vencer as barreiras impostas à comunicação interna e, literalmente, falar com a personalidade de Jung. Entre 1918 e 1920 tornou-se claro para ele que “a meta do desenvolvimento psíquico é o Si-mesmo” (p. 174), como resultante eventual de um diálogo aberto com o inconsciente. Era de lá que vinham as orientações e a sabedoria acumulada durante suas pregressas vivências. Entendeu que a aproximação àquela parte mais nobre e mais ampla de si mesmo “não é linear, mas circular, isto sim, circum-ambulatória”. Atingira, nesse estágio, “a expressão de si mesmo”, o que considerava uma nova mandala. Daí em diante ficou claro o seu objetivo para a vida, como está dito mais adiante (p. 182): “o de penetrar no segredo da personalidade”, que eu poria aqui como desvendar o mecanismo do intercâmbio personalidade / individualidade.

 

Oitenta e seis: Deve-se, ainda, assinalar que o texto chinês traz a informação de que “o objetivo da alquimia… era o de produzir um corpo etérico conhecido como corpo de diamante” (p. 414). Ponho aqui, mais uma vez, minha própria interpretação, ao sugerir que isso corresponderia a uma total purificação da individualidade, ao cabo de longuíssimo roteiro de aprendizado e correções de rumo, que passa, necessariamente, pelos processos da natureza, como o diamante, carbono puro que se cristaliza em um dramático processo de depuração pelo fogo a altíssimas temperaturas. Segundo o relato de Wilson, a meta da purificação proposta pelo tratado chinês é alcançada por “uma transferência dos nossos propósitos e impulsos do ego para os domínios da pura impersonalidade”.

 

Oitenta e sete: Entende-se, por isso, o quanto foi importante para Jung o encontro com a alquimia. (Eu diria reencontro.) Ele identificou prontamente nas estruturas do pensamento alquímico a simbologia que a caracterizava como um processo de interpretação do universo, na dinâmica do qual mente e matéria interagem, mas é a mente que comanda e impõe, ainda que pacientemente, suas diretrizes evolutivas, desde que, como vimos em A Grande Síntese, começam os primeiros ensaios nos chamados “motos vorticosos”.

 

Oitenta e oito: No seu “Texto e comentários…”, Richard Wilhelm lembra, em consonância com Jung, que “as designações alquímicas tornam-se símbolos de processos psicológicos…” (p. 88) e que o ser humano “participa por sua natureza de todo acontecimento cósmico e está entretecido a ele, interna e externamente” (p. 91), o que faz apresentar-se bipartido à vida, com “o pólo luminoso (yang) e o pólo obscuro (yin)”. Como também o texto de Wilhelm encontra-se a disposição do leitor brasileiro, na tradução referida na bibiliografia, passemos logo a O Segredo da Flor de Ouro.

 

Oitenta e nove: O livro chinês apresenta-se como um compacto de ensinamentos do mestre Liu Dsu, que caracteriza o Tao como “ser uno, o espírito originário e único”que, ao mergulhar na matéria, divide-se em dois. “Assim que o toque da individuação entra no nascimento” – diz Liu Dsu (p. 99) – “o ser e a vida dividem-se em dois”. Não que se separem para sempre os dois pólos, mesmo porque ficam lado a lado, tendo entre eles o “campo de uma polegada da casa de um pé”. Ao que parece é atuando sobre esse ponto que se pode obter a reunificação da dualidade, mesmo ainda em vida terrena. A casa que mede um pé é tida como o rosto da pessoa. Eu arriscaria dizer que é, antes, o crânio, já que o local designado como de uma polegada é o espaço entre os olhos, precisamente onde se acha o chamado “terceiro olho”. É ali, no dizer do livro, que “mora a magnificência”, ou “a passagem escura”, pela qual o ser pode articular-se lucidamente com “o verdadeiro ser… o espírito originário”. Fundindo e misturando as duas metades do ser, “passaremos através do desfiladeiro”. O texto chinês faz, portanto, uma clara distinção entre o que identifica como “espírito originário” e o “espírito consciente”, o que, na terminologia dos instrutores da codificação espírita, ficou sendo espírito e alma. A reunião do que estava dividido se consegue por um movimento circular iniciado a partir da aquietação dos sentidos. Trata-se, no meu entender, de uma interpenetração esquerda / direita, alma / espírito, consciente / inconsciente. “Os olhos” – informa o sábio (p. 101) – “impelem a luz ao movimento circular como dois ministros, um à direita, outro à esquerda, apoiando o soberano com toda a sua força”.

 

Noventa: Mais do que isso, os chineses ensinavam que a felicidade suprema do Tao só poderia ser alcançada quando a anima (espírito) subjugasse o animus (alma), mesmo porque a natureza desta “é a do obscuro” em virtude de estar “presa ao coração corpóreo e carnal” (p. 102). A “prática dessa alta magia” – informa-se mais adiante – consiste, portanto, em “dirigir-se para o ponto em que o espírito modelador ainda não se manifestou”, a um “estado isento de polaridade” (p. 121), ou seja, buscando retornar ao que a entidade era antes que a encarnação a dividisse em duas. Como o texto chinês também usa imagem semelhante à da câmara nupcial dos gnósticos, parece que a reunião das duas manifestações do ser seria meta suprema e conceito comum às duas correntes de pensamento. “É como se homem e mulher se unissem e houvesse uma concepção” – diz O Livro da Flor de Ouro (p. 105).

 

Noventa e um: “Mediante a concentração dos pensamentos, podemos voar; mediante a concentração dos apetites, caímos”. Se, portanto, em vez de trabalhar para elevar a alma ao nível do espírito, procurarmos arrastar este para o nível da alma, estaremos nos afastando cada vez mais das metas alquímicas da transmutação pessoal. Para isso não é necessário – diz Liu Dsu (p. 123) – “abandonar a profissão habitual”, mas aprender a lidar com os afazeres da vida material sem neles se envolver demais. “Quando, mediante pensamentos corretos, os assuntos são postos em ordem, a luz não é manipulada pelas coisas externas, mas circulará segundo sua própria lei”.

 

Noventa e dois: A convivência com a matéria não precisa, portanto, assumir as proporções de um confronto e nem as características de uma acomodada entrega, mesmo porque ela foi provida de espaço para a movimentação de nosso psiquismo. Exatamente, como disseram os gnósticos, isto é, que a matéria não precisa ser amada nem temida. Cabe reiterar aqui a observação de A Grande Síntese, ao declarar enfaticamente, primeiro: que “a matéria, ainda mesmo chamada bruta ou inerte, vive, sente, e pode plasmar-se e obedece, desde que atingida por uma ordem profunda” (p. 48); segundo: que “também na ciência há zonas sagradas, das quais ninguém pode aproximar-se sem o sentimento de veneração e sem a prece” (p. 182); terceiro: a conquista de novo patamar de consciência implica, necessariamente, uma alteração qualitativa que a obra caracteriza como mudança de dimensão. Eis porque vejo no modelo evolutivo pontos críticos nos quais, sem dar saltos, a vida nos coloca diante de mutações alquímicas, ou seja, provocadas por algo que ao mesmo tempo está em nós e nos transcende. Não é algo fora de nós que se acrescenta, mas aspectos ocultos de nós mesmos que, de repente, por alguma razão se revelam e nos projetam numa nova dimensão do ser, em novo patamar de percepção e, portanto, de aprendizado e maturação.

 

Noventa e três: Em “O livro da consciência”, incluído em O Segredo da Flor de Ouro, há uma introdução que assim diz: “Se você quiser concluir o corpo de diamante sem nenhum desperdício, aqueça diligentemente as raízes da consciência e da vida. Acenda a chama luminosa no sagrado território ao lado e lá, abrigado, deixe seu verdadeiro eu habitar para sempre”. O que primeiro se percebe é que o corpo de diamante de alguma forma já existe e está em processo de elaboração, porque o texto fala em concluí-lo e não em fazê-lo. Recomenda que ele seja elaborado na medida certa, sem desperdícios nem de tempo, nem de oportunidades ou conhecimento. É preciso, ainda, que se vá buscar no silêncio cósmico as fontes da vida e da consciência para aquecê-las ao coração. Para isso é necessário agir com diligência e buscar a iluminação que está ali mesmo, ao alcance de todos nós, ou seja, no chamado inconsciente, na individualidade, no espírito.

 

Noventa e quatro: Encontramos, no material consultado para a elaboração deste estudo, numerosas referências a certo grau de psiquismo na matéria densa, a partir dos cristais. Abaixo dessa linha divisória, mais uma gradação do que um limite, a matéria se apresenta a matéria se apresenta em espaços rigidamente demarcados por campos magnéticos, dentro dos quais se movimentam a velocidades vertiginosas as partículas de energia que compõem cada corpo dito sólido.

 

Noventa e cinco: Cientistas e pensadores contemporâneos, familiarizados com a física quântica, estão reformulando antigos conceitos e propondo uma visão mais inteligente e aberta, não apenas de nós mesmos como de nossa posição no universo. O Dr. Deepak Chopra, médico de origem indiana, residente nos Estados Unidos, informa em Ageless Body, Timeless Mind, que o ambiente em que vivemos é uma extensão do nosso próprio corpo. “A cada vez que respira, você inala centenas de milhões de átomos de ar exalados ontem por alguém na China”, ensina ele (p. 27). A cada momento, pois, estamos, segundo o Dr. Chopra, “fazendo e desfazendo os nossos corpos” (p. 41), o que o leva a concluir que o corpo é um processo, não um objeto estável. Isto significa que ainda somos, basicamente, aquele vórtice inicial de consciência dentro do qual circula a matéria, ou melhor, movimentam-se partículas intelectualizadas de “luz coagulada”.

 

Noventa e seis: O que importa é suscitar em cada um de nós aquela mutação alquímica da mente, de que falamos alhures. Para isso, não é necessário nenhum processo mágico de iniciação mística. Basta fazer calar o tumulto em torno de nós e a estática interior a fim de nos ser possível mergulhar em nós mesmos os sensores de percepção de que fomos dotados. A resposta está em nós, não “lá fora”. “O reino de Deus está dentro de vós”.

 

Noventa e sete: Temos falado muito aqui em ser e estar, permanência e transitoriedade e, por isso, achei conveniente esclarecer um aspecto mais relevante do que poderia parecer à primeira vista. É que permanente é o processo das leis cósmicas que representam o pensamento daquele que, sendo incriado, é eterno e, portanto, imutável. Mas permanência não é sinônimo de imobilidade, de inconformismo, de inação. E tudo no universo se move e evolui.

 

Fim: Dou por encerrado aqui esse processo de colecionar e transcrever passagens sensíveis do livro “Alquimia da Mente” de Hermínio C. de Miranda. Propus-me a esta tarefa porque eu senti que precisava, de alguma forma, trabalhar com essas ideias ou, quem sabe, aspirar um sopro de vida. Creio que consegui cobrir a essência do que foi tratado no livro ao longo dessas 35 páginas (de um total de 315 páginas do original). Este documento é, portanto, um resumo com taxa de compressão de 11% (=35/315). Se você chegou até aqui, espero que a leitura tenha sido uma aventura revigorante, assim como foi para mim. Este texto é dedicado aos meus filhos Gabriel e Davi. O arquivo pdf para o download gratuito pode ser encontrado através do link abaixo.

 

fragmentos_de_consciencia

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Medicina for all

novembro 13, 2017

   

Ricola de Paula, meu irmão na poesia, está de livro novo. “Sobre Tudo: tarjas bulas caixas e outros poemas sobre mim”, seu sétimo livro de poesia, foi lançado neste ano de 2017 pela Tachion Editora, de São José dos Campos, ISBN 978-85-65111-78-2, com 140 páginas.

   

Ricola é desses raros poetas de verdade, seus versos saem da cartola (que ele não usa) nas mais variadas espécies, todas elas animais. Outrora derrete as palavras em cria divindade pura.

   

Para começo de conversa, o simples título dessa sua nova obra já dá ideia do tamanho da encrenca: Sobre Tudo, ou sobretudo? Tarjas, bulas e caixas, serão remédios? Poemas sobre mim. Mas para a cura de quem: do autor, do leitor? Responda se puder.

   

O sumário (ou sumério?) traz os poemas organizados em cinco capítulos: Outros Poemas. Sobre Mim. Caixas. Tarjas. Bulas. E gostei do que Oswaldo Almeida Jr, escreveu no prefácio: “É assim Ricola. O homem da cultura urbana fincado como uma estaca no ambiente rural. Como se vivesse, ele próprio, ‘o fim da linha imaginária que separa os sonhos’”.

   

Enfim, um livraço para despertar, sair do torpor quotidiano. Abaixo uma prescrição minha, em doses homeopáticas, para os não-iniciados. Uma seleção de trechos dos meus poemas prediletos. Over top. Se for ler, não dirija.

    

— Polar —

Extirpo

o que é podre

Do abismo fujo

enquanto posso

Não hesito

trans

flor

mar

pasto

em jardim

    

— Poeminha —

Hoje sei que sou pequeno

Viajei no tempo

Ferraduras

Não me acostumei

matadouros

homens bombas

seguro de vida

respostas prontas

site de compras

Mas lhe asseguro

Difícil é descer a ladeira

com pedregulhos

Desligo tudo

Destituído do cargo

de coisa nenhuma

Durmo

depois assalto

a geladeira

Calado

Eu penso em escadas

Nas penas

que se desprenderam

das suas asas

    

— Olhei para dentro —

Olhei para dentro e achei soluções

que desabrocham com um simples ato.

Com o desenrolar da língua

ao falar a frase, sim eu te amo.

Olhei para fora com outra lente

vi o fim e o meio de voltar

ao início da palavra amor.

Não me incomodo

Se meu sangue, células, poemas

multiplicam-se pelos cômodos

tronco, cabeça, membros

desta residência frágil e humana

onde minha alma insiste em habitar.

    

— Residência humana —

Sobre tudo

amor é alquimia

Transmuta

Aumenta nossa vibração.

    

— En ciclope dia —

Ontem era unicórnio

Se bobear

Hoje mula sem cabeça

Conhece a ti mesmo e não se engane

O resto é dialética ou imagens distorcidas

    

— Quando você transbordar —

Transbordaremos juntos

como o Rio Buquira

que vaza e se esparrama

por pastagens e várzeas.

As ingazeiras arqueadas

tantas garças boiadeiras

outros pássaros em fuga.

Mourões submersos

Vacas nos atoleiros.

    

— Cartilha da psicodelia —

O outro vulgo marvel

Atalaia centauro

Mestre do imprevisível

O que azara as trutas

Dorme pelado na gruta

Tem ciência dos seus pe(s)cados

    

— Metalquemia —

Leva consigo espectros da morte

(foice) o medo, o lince dos apegos

O choque com o morcego

Aceitar, redimir, retroceder, perdoar

Palavras chaves, transformadoras

chicoteiam amiúde o ego

    

— Relax ou esculacho —

Tá na veia que explode a capela.

Amarra seu destroyer na fivela.

Olha bem o seu presente paramilitante.

Bem alto “paranoid” é Black Sabbath.

Se seu amor for canino, fácil você cotrair raiva.

Todos de pedalinho na riviera dos enganos.

Praias de oil, sanguinolentas

na orla do stablishment.

Suco de etanol, pomada de tracajá.

Garatéias na espera

dos gordos agronegócios.

    

— Esculax ou relax —

Quem muito mentex

qualquer dia vira fritex

Tá durex se rende a marmitex

E assim vamos na mesma vibe

de Indra e Agne

As palavras vibram no tambor

vibrax e fica relax quando

rachar o concretex

    

— O que eu sei —

Presto-me a fazer versos

muita gente boquiaberta

por que não?

Fiz o inverso

na margem ou fora da linha

circulei por retas e planos

estorvo ciclone torvelinho

extasiado

normal rebelde ou maldito

filosoficamente estúpido

não é no final do mês passagem de ano

mudança de século

aniversário bodas lobotomia

que você deixa de ser poeta

    

— Sobre mim —

Nossa azul continência

a simetria dos cristais de água.

Os assédios da metafísica

as pesquisas espaciais.

As mensagens emanando cura

terra, astros, e fases da lua.

O banhado

envolto em brumas

se oculta

na espinha dorsal

da igreja matriz.

    

— Sobre mim —

Decretar um fim pacífico

a tantas guerras

que você trava consigo mesmo.

Canalizar energia mater.

Reconhecer vórtices

formadores de holocaustos

salas self tortura

repletas de baixa estima.

    

— Sobre mim —

A terra gira.

Vórtice magnético.

Tropeço no amanhã

deixo que o sol

ressurja

mesmo que de soslaio.

A vida e sua parte elétrica

ligo o dispositivo.

Disposto vou vivendo.

Não desisto

demoro

na filosofia.

    

— Tarjas mutantes —

Quando as luzes desaparecerem do céu…

Você pode desligar os impulsos

andar sobre os cacos das explosões,

conferir os danos nos estilhaços.

Corte a sílaba “bá” da palavra bomba

se ficar bom, olhe o mapa do céu.

Seu quadrado na parede,

moldura o tempo circular

Tempo perdido na curva

onde eclipsa os enganos.

    

— Tarjas sulphurosas —

Quilômetros de sedimentos são depositados

nos tubos de ensaio das redes sociais.

Sei que emburreço neste carnaval de ofertas.

Esgotado saio antes do recuo da bateria.

Sicário não deixo rastro na cripta

do seu desleixo.

São tiras de papel de embrulho

papiro intrigo. Suavemente acredito

que torpes pombas sacio.

Um bom exorcismo abrirá

novos caminhos, água benta sanitária

dissolvendo ladainhas.

Segura na mão uma granada

Sentinelaaaaaaaaaaaaaaaa

A explosão dos significados

O refil da bagaça neném

A cuca já vem pegar.

    

— Bulas sem lactose —

As tetas daquela jumenta

já não dão leite

Um dia foram úberes

Poesia fervente láctea

O arco e a rabeca

o sol ainda castiga

A mesma nota dó

ronda a caatinga

Repetida no pífaro

inicia a cantiga

No final do arco-íris

um saco de confeitos

cactos amanteigados

    

— Bulas com inspeções no controle de qualidade —

Rezo pela bondade

que emana dos seus atos

por palavras sinceras

que sempre hão de brotar

como relâmpago no silêncio

da sua boca

Rezo por quem jogou

seu manto azul-estrelado

sobre nós

Equilíbrio

e perdão sincero

permitam

que a consciência

iluminada

possa reinar

    

— Bulas para ninar monstros —

O melhor de cada um

(mesmo que você não veja)

repousa

no ventre da bondade

onde começa

o fraterno ser

Acho que o conteúdo seria

– Impróprio às 18 horas –

às 19 horas chove

e poderemos

felizmente gritar

palavras de amor na chuva

Incitar o amoroso

premia a todos

salva a todos

lava a alma

    

— Bulas encabuladas —

Ao entregar minha inteira pessoa

pude assim conseguir bons feitos.

Benefícios, religare, bons escritos.

Apesar dos calos e digitais gastas

me parece que nessa vida as coisas

sempre carecem de um bom polimento.

Os riscos e o embaço desaparecem.

Com um toque hábil

delicado

surgem novos cristais.

Novo brilho, novas facetas

o processo aplicado

beneficia

a todos

os seres vivos.

Vamos lentamente

morrendo aos poucos.

    

— Bulas de coisa nenhuma —

espreguiçar

o gozo o êxtase

o santo gostinho

cruz invertida nas argolas

os escolhidos

que cessem a dança das cabeças

que cessem o acesso a falsa salvação

os peixes não estavam na arca

   

O Livro Do Que

maio 18, 2017

             

Foi lançado ontem, 17 de Maio de 2017, pela Amazon “O Livro Do Que”.

             

“O Livro Do Que” é o quinto livro de Jorge Xerxes. O primeiro publicado exclusivamente em versão digital. Sessenta e seis páginas do que há de melhor na imaginação e na fantasia em prosa, poesia e imagem deste autor inventivo.

              

https://www.amazon.com.br/dp/B0716Z3TC8/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1495095622&sr=8-1&keywords=jorge+xerxes

              

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This article presents some quotes carefully extracted from the book ‘The science of Leonardo: inside the mind of the great genius of the Renaissance’, Fritjof Capra, Anchor Books, 1st Edition, December 2008.

          

1) …in the collection of his notes on painting, known as Trattato della pittura (Treatise on Painting), he writes: The science of painting extends to all the colors of the surface of bodies, and to shapes of the bodies enclosed by those surfaces… [Painting] with philosophic and subtle speculation considers all the qualities of forms… Truly this is science, the legitimate daughter of nature, because painting is born of nature.

          

2) Nature as a whole was alive for Leonardo. He saw the patterns and processes in the microcosm as being similar to those in the macrocosm. He frequently drew analogies between human anatomy and the structure of the Earth, as in the following beautiful passage from Codex Leiscester: We may say that the Earth has vital force of growth, and that its flesh is the soil; its bones are the successive strata of the rocks which form the mountains; its cartilage is the porous rock, its blood the veins of the waters. The lake of blood that lies around the heart is the ocean. Its breathing is the increase and decrease of the blood in the pulses, just as the in the Earth it is the ebb and flow of the sea.

            

3) As a painter, Leonardo felt that he should use gestures to portray the frames of mind and emotions that provoked them. He asserted that, in the painting of a human figure, the most important task was to “express in gesture the passion of its soul.” Indeed, to portray the body’s expression of the human spirit was the artist’s highest aspiration, in Leonardo’s view. And it was one in which he himself excelled, as the paintings of his mature period attest. As art historian Irma Richter explains in the introductory comments to her classical selections from the Notebooks, for Leonardo, “the human body was an outward and visible expression of the soul; it was shaped by its spirit.” We shall see that this vision of soul and spirit, unmarred by the mind-body split that René Descartes would introduce in the seventeenth century, is perfectly consistent with the conception of the “embodied mind” in today’s cognitive science.

         

4) Leonardo did not pursue science and engineering to dominate nature, as Francis Bacon would advocate a century later. He had a deep respect for life, a special compassion for animals, and great awe and reverence for nature’s complexity and abundance. While a brilliant inventor and designer himself, he always thought that nature’s ingenuity was vastly superior to human design. He felt that he would be wise to respect nature and learn from her. It is an attitude that has reemerged today in the practice of ecological design. Leonardo’s synthesis of art and science is infused with a deep awareness of ecology and systems thinking. It is not surprising that he spoke with great disdain of the so-called “abbreviators”, the reductionists of his time: The abbreviators of works do injury to knowledge and to love… Of what value is he who, in order to abbreviate the parts of those things of which he professes to give complete knowledge, leaves out the greater part of the things of which the whole is composed?… Oh human stupidity!… You don’t see that you are falling into the same error as one who strips a tree of its adornment of branches full of leaves, intermingled with fragrant flowers and fruit, in order to demonstrate that the tree is good for making planks.

             

5) Leonardo’s physical beauty in his youth and middle aged years must have been exceptional, as it is mentioned by all his contemporary commentators, even though this was not customary at the time. An anonymous writer called the Anonimo Gaddiano exclaimed, “He was so unusual and many-sided that nature seemed to have produced a miracle in him, not only in the beauty of his person, but in many gifts with which she endowed him and which he fully mastered.” Others marveled at the unique combination of physical strength and grace seemed to embody. Many authors, including Vasari, referred to him with the ultimate epithet – il divino.

          

6) Throughout his life, Leonardo displayed an air of serene self-confidence, which helped him to overcome professional setbacks and disappointments with equanimity and allowed him to calmly pursue his research even during times of great political turbulence. He was aware of his unique genius and skill, yet he never boasted about them. Nowhere in his Notebooks does he vaunt the originality of his inventions and discoveries, nor does he flaunt the superiority of his ideas, even as he explains how they differ from traditional beliefs. This lack of arrogance and ego was remarkable indeed. Another quality that distinguished him was his passion for life and for all living things.

            

7) The artist’s fascination with the grotesque forms also led him to devise the most extravagant, and often quite macabre, practical jokes, which delighted the courtiers in Milan and Rome. At the papal court in Rome, Vasari tells us that Leonardo obtained a large lizard to which he attached “with a mixture of quicksilver some wings, made from the scales stripped from other lizards, which quivered as it walked along. Then, after he had given it eyes, horns, and a beard he tamed the creature, and keeping it in a box he used to show it to his friends and frightened the life out of them.”

           

8) During Leonardo’s time, the term “genius” did not have our modern meaning of a person endowed with extraordinary intellectual and creative powers. The latin word genius originated in Roman religion, where it donate the spirit of the gens, the family. It was understood as a guardian spirit, first associated with individuals and then also with people and places. The extraordinary achievements of artists and scientists were attributed to their genius, or attendant spirit. This meaning of genius was prevalent throughout the Middle Ages and the Renaissance. In the eighteen century, the meaning of the word changed to its familiar modern meaning to denote these individuals themselves, as in the phrase “Newton is a genius”.

            

9) The first is an intense curiosity and great enthusiasm for discovery and understanding. This was indeed an outstanding quality of Leonardo, whom Kenneth Clark called “the most relentlessly curious man in history.” Another striking sign of genius is an extraordinary capacity of intense concentration over long periods of time. Isaac Newton apparently was able to hold a mathematical problem in his mind for weeks until it surrendered to his mental powers. When asked how he made his remarkable discoveries, Newton is reported to have replied, “I keep the subject constantly before me and wait until the first dawnings open little by little into the full light.” Leonardo seems to have worked in a very similar way, and most of the time not only on one but on several problems simultaneously.

           

10) Indeed the Italian humanists were so bold as to compare artistic creations to the creations of God. This comparison was first applied to the creativity of poets, and was then extended, especially by Leonardo, to the painter’s creative power: If the painter wants to see beauties that make him fall in love, he is the lord who can generate them, and if he wants to see monstrous things that frighten, or funny things that make him laugh, or things that truly arouse compassion, he is their lord and God… In fact, whatever there is in the universe, by essence, presence, or imagination, he has it first in his mind and than in his hands.

           

11) He wished to achieve relief through the scientific use of the light and shade. According to Leonardo, such an achievement is “the soul of painting”. Leonardo’s technique of using light and shade to give his figures “great vigor and relief,” as Vasari put it, culminated in his celebrated creation of sfumato, the subtle melting of shades that eventually became the unifying principle of the paintings. “Leonardo’s sfumato was the power behind the poetry of his paintings,” Arasse claimed, “and the mystery that seems to emanate from them.”

          

12) Leonardo could have not developed his mastery of chiaroscuro, nor his characteristic sfumato style, without a major advance in Renaissance paint – the use of oil-based paints. Oil painting makes it possible to put layers of paint on top of each other without blurring the colors (provided the layers are allowed to dry individually), to go back over work again, and to mix paints at ease, all of which were essential for Leonardo to achieve his special effects of relief and sfumato.

           

13) Over the years, Leonardo achieved a sublime mastery in applying the finest layers of paint to create the luminous color tones that give his paintings their special magic. As Serge Bramly describes it, “The light passes through his paintings as if through stained glass, straight on to the printed surface beneath, which reflects it back, thus creating the impression that it emanates from the figures themselves.

          

14) On the other hand, Leonardo’s completed masterpieces always involved radical innovations at several levels – artistic, philosophical, and scientific. For example, the Virgin of the Rocks was not only revolutionary in its rendering of light and dark. It also represented a complex and controversial meditation on the destiny of Christ, expressed through the gestures and relative positions of the four protagonists, as well as in the intricate symbolism of the surrounding rocks and vegetation.

          

15) In a similar vein, Vasari refers to Leonardo as “Florentine painter and sculptor” in the title of his biography. And yet, we have no known sculpture from Leonardo’s hand. His reputation rests on a single piece of work: a monumental bronze horse that was never cast, but which occupied Leonardo intensely for over ten years.

          

16) Good designers have the ability to think systematically and to synthesize. They excel at visualizing things, at organizing known elements into new configurations, at creating new relationships; and they are skillful in conveying these mental processes in the form of drawings almost as rapidly as they occur. Leonardo, off course, possessed all these abilities to a very high degree. In addition, he had an uncanny knack of perceiving and solving technical problems – another key characteristic of a good designer – so much so, in fact, that it was almost second nature to him.

          

17) What made Leonardo unique as a designer and engineer, however, was that many of the novel designs he presented in his Notebooks involved technological advances that would not be realized until several centuries latter. And second, he was the only man among the famous Renaissance engineers who made the transition from engineering to science. Like painting, engineering became a “mental discourse” for him. To know how something worked was not enough for Leonardo, he also needed to know why. Thus an inevitable process was set in motion, which led him from technology and engineering to pure science. As art historian Kenneth Clark notes, we can see the process at work in Leonardo’s manuscripts: First, there are questions about the construction of certain machines, then… questions about the first principles of dynamics; finally questions which had never been asked before about winds, clouds, the age of the earth, generation, the human heart. Mere curiosity has become profound scientific research, independent of the technical interests which had preceded it.

          

18) In other words, the problems Leonardo addresses are theoretical problems of architectural design. The questions he asks are the same questions he explores throughout his science of organic forms – questions about patterns, spatial organization, rhythm, and flow. The notes accompanying his drawings (written in his customary mirror writing, and hence intended for himself) can be seen as fragments of a treatise on architecture that Leonardo, according to Heydenreich, may have intended to compose.

           

19) In view of Leonardo’s central focus on understanding nature’s forms, both in the macro- and the microcosm, it is not surprising that he emphasized similarities between architectural structures and structures in nature, especially in human anatomy. In fact, this linking of architecture and anatomy goes back to antiquity and was common among Renaissance architects, who recognized the analogy between a good architect and a good doctor. As Leonardo explained, “Doctors, teachers, and those who nurse the sick should understand what man is, what is life, what is health, and in what manner a parity and concordance of the elements maintains it… The same is also needed for the ailing cathedral, that is, a doctor-architect who understands well what buildings is and from what rules the correct way of building derives.”

          

20) Leonardo’s science, by contrast, cannot be reduced to a single foundation, as we have seen. Its strength does not derive from a single trunk, but from the complex interconnectedness of the branches of many trees. For Leonardo, recognizing the numerous patterns of relationships in nature was the hallmark of a universal science. Today, we, too, sense a greater need for such universal, or systemic, knowledge, which is one of the reasons why Leonardo’s unified vision of the world is so relevant to our time.

          

21) Leonardo showed greatly artistic talent early in his youth; his synthesis of art and science was also foreshadowed early on. This is vividly illustrated in a story related by Vasari. When Piero da Vinci was asked by a peasant to have a “buckler” (a small wooden shield) decorated with a painting in Florence, he did not give the shield to a Florentine artist but instead asked his son to paint something on it. Leonardo decided to paint a terrifying monster. “To do what he wanted,” writes Vasari, “Leonardo carried into a room of his own, which no one else entered except himself, a number of lizards, crickets, serpents, butterflies, locusts, bats, and various strange creatures of this nature. From all these he took and assembled different parts to create a fearsome and horrible monster… He depicted the creature emerging from a dark cleft of a rock, belching forth venom from its open throat, fire from its yes, and smoke from its nostrils in so macabre a fashion that the effect was altogether monstrous and horrible. Leonardo took so long over the work that the stench of dead animals in his room became unbearable, although he himself failed to notice because of his great love of painting.” When Ser Piero came to see the finished painting, Leonardo went back into the room, put the buckler on an easel in the light, and shaded the window. Then he asked Piero to come and see it. When his eyes fell on it, Piero was completely taken by surprise and gave a sudden start, not realizing that he was looking at the buckler and that the form he saw was, in fact, painted on it. As he backed away, Leonardo stopped him and said: ‘This work certainly serves its purpose. It has produced the right reaction, so now you can take it away.’”

          

22) Other inventions he created from that time involved fire and a hot air. In addition to the self-regulating spit mentioned earlier, Leonardo invented a method of creating a vacuum to raise water by means of a fire burning in a closed bucket, based on the observation that a burning flame consumes air. During these early years he also developed his first versions of a diving apparatus. During a visit to Vinci he designed an olive press with more efficient leverage than the presses used at the time. While he was engaged in these multiple projects of invention, design, and engineering, Leonardo also painted his Annunciation, two Madonnas, and the portrait of Ginevra de’ Benci.

          

23) He drew [a] long series of diagrams showing the effect of light falling on spheres and cylinders, crossing, reflecting, intersecting with endlessly variety… The calculations are so complex and abstruse that we feel in them, almost for the first time, Leonardo’s tendency to pursue research for its own sake, rather than as an aid to his art.

          

24) He was asked by Ludovico to paint a portrait of the Moor’s mistress, the young and lovely Cecilia Gallerani. Leonardo painted her holding an ermine, a symbol of purity and moderation which, because of its Greek name, gale, was also a veiled allusion to her name, Gallerani. Lady with an Ermine, as it is called today, was a highly original portrait in which Leonardo invented a new pose, with the model looking over her shoulder with an air of surprise and subdued delight, caused, perhaps, by the unexpected arrival of her lover. Her gesture is graceful and elegant, and is echoed in the animal’s twisting movement.

          

25) For Leonardo himself, the 1940s were a period of intense creative activity. With two major projects – the equestrian statue and The Last Supper – his artistic career was at its peak, he was consulted repeatedly as an expert on architectural design, and he embarked on extensive and systematic research in mathematics, optics, mechanics and the theory of human fly.

          

26) Leonardo’s research in statics and dynamics was concerned not only with the workings of machines but also, and even more important, with understanding the human body and its movements. For example, he investigated the body’s ability to generate various amount of forces in several positions. One of the key aims was to find out how a human pilot might generate enough force to lift a flying machine off the ground by flapping its mechanical wings. In his studies of machines during that period, Leonardo began to separate individual mechanisms – levers, gears, bearings, couplings, etc. – from the machines in which they were embedded. This conceptual separation did not arise again in engineering until the eighteenth century. In fact, Leonardo planned (and may even have written) a treatise on Elements of Machines, perhaps influenced by his discussions with Fazio Cardano of Euclid’s celebrated Elements of Geometry in Pavia.

          

27) Leonardo’s Last Supper, generally considered the first painting of the High Renaissance (the period of art between, approximately 1495 and 1520), is dramatically different from earlier representations of the subject. Indeed, it became famous throughout Europe immediately after his completion and was copied innumerable times. The firstly highly imaginative feature one notices is the way Leonardo integrated the fresco into the architecture of the refectory. Demonstrating his mastery of geometry, Leonardo contrived a series of visual paradoxes to create an elaborate illusion – a complex perspective that made the room of the Last Supper look like a refectory itself, in which the monks ate their meals. One consequence of this complex perspective is that from every viewing position in the room, the spectator is drawn into the drama of the picture’s narrative with equal force. And dramatic it is. Whereas traditionally the Last Supper was pictured at the moment of communion, a moment of calm, individual meditation for each apostle, Leonardo chose the ominous moment when Jesus says, “One of you will betray me.” The words of Christ have stirred up the solemn company, creating powerful waves of emotion. However, the effect is far from chaotic. The apostles are clearly organized into four groups of three figures, with Judas forming one of the groups together with Peter and John. This is another striking compositional innovation. Traditionally, Judas was pictured sitting on the other side of the table, facing the apostles, with his back to the spectator. Leonardo had no need to identify the traitor by isolating him in this way. By given the apostles carefully expressive gestures, which together cover a wide range of emotions, the artist made sure that we immediately recognize Judas, as he shrinks back into the dark of John’s shadow, nervously clutching his bag of silver. The depiction of the apostles as embodiments of individual emotional states and the integration of Judas into the dramatic narrative were so revolutionary that after Leonardo, no self-respecting artist could go back to the previous static configuration.

          

28) Soon after they began their study sessions, Leonardo and Fra Luca decided to collaborate on a book, titled De divina proportione, to be written by Pacioli and illustrated by Leonardo. The book, presented to Ludovico as a lavish manuscript and eventually published in Venice, contains an extensive review of the role of proportion in architecture and anatomy – and in particular of the golden section, or “divine proportion” – as well as detailed discussions of the five regular polyhedra known as the Platonic solids. It features over sixty illustrations by Leonardo, including superb drawings of the Platonic solids in both solid and skeletal forms, testimony to his exceptional ability to visualize abstract geometric forms. What further distinguishes this work is that it is the only collection of drawings by Leonardo published during his lifetime.

          

29) In the Madonna and Child with Saint Anne, as the paint is called today, Leonardo had again broken new ground with both his composition and the theological interpretation of a traditional religious theme. Rather than presenting Mary and her mother, Saint Anne, in static configuration – seated next to each other with Jesus in Mary’s arms between them, or with Saint Anne seated higher in a majestic, hierarchical composition – Leonardo upset tradition by adding a lamb as a fourth figure. Jesus, having slipped to the ground, reaches for the lamb as Mary tries to restrain him, and Saint Anne seems to hold her back. The theological message embodied in Leonardo’s highly original composition can be seen as a continuation of his long meditation on the destiny of Christ, which he had begun with the Virgin of the Rocks. Mary, in an anxious gesture, attempts to pull her soon away from the lamb, the symbol of Passion, while Saint Anne, representing Mother Church, knows that Mary’s gesture is futile – the Passion is Christ’s destiny and cannot be avoid.

          

30) When he had built flight machines in Milan and tested them in his workshop in Corte Vecchia, Leonardo’s main concern had been to find out how human pilot could flap mechanical wings with enough force and velocity to compress the air underneath and be lifted up. For these tests he had designed various types of wings modeled after those of birds, bats, and flying fish. Now, ten years later, he embarked on careful and methodical observations of the flight of birds. He spent hours in the hills surrounding Florence, near Fiesole, observing the behavior of birds in flight, and filled several Notebooks with drawings and comments that analyzed the birds’ turning maneuvers, their ability to maintain their equilibrium in the wind, and the detailed mechanisms of active flight. His aim was to design a flying machine that would be able, like a bird, to maneuver with agility, keep its balance in the wind, and move its wings with enough force to allow it to fly.

          

31) In his Anatomical Studies, Leonardo gives a vivid description of the dreadful conditions under which he had to work. As there were no chemicals to preserve the cadavers, they would begin to decompose before he had time to examine and draw them properly. To avoid accusations of heresy, he worked at night, lighting his dissection room by candles, which must have made the experience even more macabre. “You will perhaps be impeded by the fear of living through the night hours in the company of these corpses, quartered and flayed and frightening to behold.”

          

32) One will see darkly gloomy air beaten by the rush of different and convoluting winds, which are mingled with the weight of continuous rain, and which are carrying helter-skelter an infinite number of branches torn from the trees, entangled with countless autumn leaves. The ancient trees will be seen uprooted and thorn to pieces by the fury of the winds… Oh how many will you see closing their ears with their hands to shut out the tremendous noises made in the darkened air by the raging of the winds… Others, with gestures of hopelessness, took their own lives, despairing of being able to endure such suffering; and of these, some flung themselves from high rocks, others strangled themselves from high rocks, others strangled themselves with their own hands.

          

33) The drawings that illustrate his apocalyptic narrative are dark, violent, menacing, and disturbing. Nonetheless, they are astonishingly accurate in their renderings of water and air turbulence. Throughout his life, Leonardo had carefully studied the forms of waves, eddies, waterfalls, vortices, and air currents. Here, in old age, he summed up his knowledge of turbulence. Beyond their expressive emotional power, the deluged drawings can be seen as sophisticated mathematical diagrams, presenting a visual catalog of turbulent flows that would not look out of place in a modern textbook on fluid dynamics.

          

34) In Leonardo’s mind, his science of living forms was certainly an integrated whole. At the end of his life, his problems were no longer conceptual; they were simply the limitations of time and energy. As he wrote several years before his death, “I have been impeded neither by avarice nor by negligence, but only by time.” And yet, Leonardo never gave up. In June 1518 he wrote what may have been the last entry in his Notebooks: “I shall go on.”

          

35) Nor was he perturbed by contemplating his approaching death. “Just well-spent day brings a happy sleep,” he had written thirty years earlier, “so a well-employed life brings a happy death.”

          

36) A few days after completing his will, on May 2, 1519, Leonardo da Vinci died in the manor of Cloux – according to legend, in the arms of the king of France.

          

37) To appreciate Leonardo’s science, it is important to understand the cultural and intellectual context in which he created it. Scientific ideas do not occur in a vacuum. They are always shaped by the technologies available at the time. The entire constellation of concepts, values, perceptions, and practices – the “scientific paradigm” in the terminology of science historian Thomas Kuhn – provides the context that is necessary for scientists to pose the great questions, organize their subjects, and define legitimate problems and solutions. All science is built upon such an intellectual and cultural foundation. Hence, when we recognize ancient or medieval ideas reflected in Leonardo’s scientific writings, this do not mean that he was less of a scientist, Leonardo consulted the traditional texts and used their conceptual framework as his starting point. He then tested the traditional ideas against his own scientific observations. And, in accordance with scientific method, he did not hesitate to modify the old theories when his experiments contradicted them.

          

38) The leading figure in the movement to weave the philosophy of Aristotle into Christian teachings was Saint Thomas Aquinas, one of the towering intellects of the Middle Ages. Aquinas taught that there could be no conflict between faith and reason, but the two books on which they were based – the Bible and the “book of nature” – were both authored by God. Aquinas produced a vast body of precise, detailed, and systematic philosophical writings in which he integrated Aristotle’s encyclopedic works and medieval Christian theology into a magnificent whole. The dark side of this seamless fusion of science and theology was that any contradiction by future scientists would necessarily have to be seen as heresy. In this way, Thomas Aquinas enshrined in his writings the potential for conflicts between science and religion – which indeed arose three centuries later in Leonardo’s anatomical research, reached a dramatic climax with the trial of Galileo, and have continued to the present day.

          

39) A few years later, at the height of his anatomical work in Milan, Leonardo added a technical note about the reproduction of his drawings to his famous assertion of the superiority of drawing over writing. He insisted that his anatomical drawings should be printed from copper plates, which would be more expensive than woodcuts but much more effective in rendering the fine details of his work. “I beg you who come after me”, he wrote on the sheet that contains his magnificent drawings of the vertebral column, “not let avarice constrain you to make the prints in [wood].”

          

40) The conception of the Renaissance worldview was the conceptions of the universe that had been developed in classical Greek science: that the world was a kosmos, an ordered and harmonious structure. From its beginnings in the sixth century B.C., Greek philosophy and the science understood the order of the cosmos to be that of a living organism rather than a mechanical system. This meant that all its parts had an innate purpose to contribute to the harmonious functioning of the whole, and that objects moved naturally toward their proper places in the universe. Such an explanation of natural phenomena in terms of their goals, or purposes, is known as teleology, from the Greek telos (purpose). It permeated virtually all of Greek philosophy and science. The view of the cosmos as an organism also implied for the Greeks that its general properties are reflected in each of its parts. This analogy between macrocosm and microcosm, in particular between the Earth and the human body, was articulated most eloquently by Plato in his Timaeus in the fourth century B.C., but it can also be found in the teachings of the Pythagoreans in other earlier schools. Over time, this idea acquired the authority of common knowledge, which continued throughout the Middle Ages and into Renaissance. In early Greek philosophy, the ultimate moving force and source of all life was indentified with the soul, and its metaphor was that of the breath of life. Indeed, the root meaning of both the Greek psyche and the Latin anima is “breath”. Closely associated with that moving force – the breath of life that leaves the body at death – was the idea of knowing. For the early Greek philosophers, the soul was both the source of movement and life, and that which perceives and knows. Because of the fundamental analogy between micro- and macrocosm, the individual soul was thought to be part of the force that moves the entire universe, and accordingly the knowing of an individual was seen as part of a universal process of knowing. Plato called it the anima mundi, the “world soul”.

          

41) The culmination of the early phase of Greek mathematics was reached around 300 B.C. with Euclid, who presented all of the geometry and other mathematics known in his days in a systematic, orderly sequence in his celebrated Elements. The thirteen volumes of this classical textbook were not only widely read during the Renaissance, but remained the foundation for the teaching of geometry until the end of the nineteenth century.

          

42) Health, according to the Hippocratic writings, requires a state of balance among environmental influences, the way in which we live, and the various components of human nature. One of the most important volumes in the Hippocratic Corpus, the book on Airs, Waters and Places, represents what we might now call a treatise on human ecology. It shows in greater detail how the well-being of individuals is influenced by environmental factors – the quality of air, water, and food, the topography of the land, and general living habits. During the last two decades of the fifteenth century, this and several other volumes from the Hippocratic Corpus were available to scholars in Latin, most of them derived from Arabic translations.

          

43) Leonardo da Vinci shared with his fellow humanists their great confidence in the capabilities of the human individual, their passion for voyages and exploration, and their excitement about the rediscovery of the classical texts of antiquity. But he differed dramatically from most of them by refusing to blindly accept the teachings of the classical authorities. He studied them carefully, but then he tested them by subjecting them to rigorous comparisons with his own experiments and his direct observations of nature. In doing so, I would argue, Leonardo single-handedly developed a new approach to knowledge, known today as scientific method.

          

44) All scientific models and theories are limited and approximate. This realization has become crucial to the contemporary understanding of science. Twentieth-century science has shown repeatedly that all natural phenomena are ultimately interconnected, and that their essential properties, in fact, derive from their relationships to other things. Hence, in order to explain any one of them completely, we have to understand all the others, which is obviously impossible. This insight has forced us to abandon the Cartesian belief in the certainty of scientific knowledge and to realize that science, to put into bluntly, we never deal with truth, in the sense of a precise correspondence between our descriptions and the described phenomena. We always deal with limited and approximate knowledge. This may sound frustrating, but for many scientists the fact that we can formulate approximate models and theories to describe an endless web of interconnected phenomena, and that we are able to systematically improve our models and approximations over time, is a source of confidence and strength. As the great biochemist Louis Pasteur put it, “Science advances through tentative answers to a series of more and more subtle questions which reach deeper and deeper into the essence of all natural phenomena.”

          

45) “All our knowledge has its origins in the senses,” he noted in his first Notebook, the Codex Trivulzianos. “Wisdom is the daughter of experience,” we read in the Codex Forster, and in his Treatise on Painting, Leonardo asserted: “To me it seems that those sciences are vain and full of errors that are not born of experience, mother of all certainty… that is to say, which do not at their beginning middle, or end pass through any of the five senses.” Such an approach to the study of nature was unheard-of in Leonardo’s day, and would fully emerge again only in the seventeenth century, the era of the Scientific Revolution.

          

46) He recognized that learning from skilled masters was important in the arts, but he also observed that such masters were rare. “The surer way,” he suggested, “is to go to the objects of nature, rather than those that are imitated with great deterioration, and so acquire sad habits; for he who can go to the well does not go to the water jar.”

          

47) He was deeply aware of the fundamental interconnectedness of all phenomena and of the interdependence and mutual generation of all parts of an organic whole, which Immanuel Kant in the eighteenth century would define as “self-organization.” In the Codex Atlanticus, Leonardo eloquently summarized his profound understanding of life’s basic processes by paraphrasing a statement by the Ionian philosopher Anaxagoras: “Everything comes from everything, and everything is made of everything, and everything turns into everything, because that which exists in the elements is made up of the elements.”

          

48) Only in the twentieth century did the limits of Newtonian science become fully apparent, and the mechanistic Cartesian worldview begin to give way to a holistic and ecological view not unlike that developed by Leonardo da Vinci. With the rise of systemic thinking and its emphasis on networks, complexity, and patterns of organization, we can know more fully appreciate the power of Leonardo’s science and its relevance for our modern era. Leonardo’s science is a science of qualities, of shapes and proportions, rather than absolute quantities. He preferred to depict the forms of nature in his drawings rather than describe their shapes, and he analyzed them in terms of their proportions rather than measured quantities. Proportion was seen by Renaissance artists as the essence of harmony and beauty. Leonardo filled many pages of his Notebooks with elaborate diagrams of proportions between the various parts of the human figure, and he drew corresponding diagrams to analyze the body of the horse.

          

49) Leonardo was always impressed by the great diversity and variety of living forms. “Nature is so delightful and abundant in its variations,” he wrote in a passage about how to paint trees, “that among trees of the same kind there would not be found one plant that resembles another nearby, and this is not only of the plant as a whole, but among the branches, the leaves, and the fruit, not one will be found that looks precisely like another.”

          

50) Leonardo was fascinated by water in all its manifestations. He recognized its fundamental role as life’s medium and vital fluid, as the matrix of all organic forms. “It is the expansion and the humor of all living bodies,” he wrote. Without it nothing retains its original form.” Throughout his life, he strove to understand the mysterious processes underlying the creation of nature’s forms by studying the movements of water through earth and air.

          

51) At the center of Leonardo’s investigations of turbulence lies the water vortex, or whirlpool. Throughout the Notebooks, there are countless drawings of eddies and whirlpools of all sizes and types – in the currents of rivers and lakes, behind piers and jetties, in the basin of waterfalls, and behind objects of various shapes immersed in flowing water. These often very beautiful drawings are testimony to Leonardo’s endless fascination with the ever-changing and yet stable nature of this fundamental type of turbulence. I believe that this fascination came from a deep intuition that the dynamics of vortices, combining scalability and change, embody an essential characteristic of the living forms.

          

52) To investigate the mechanics of muscles, tendons, and bones, Leonardo immersed himself in a long study of the “science of weights,” known today as statics, which is concerned with the analysis of loads and forces on physical systems in static equilibrium, such as balances, levers, and pulleys. In the Renaissance this knowledge was very important for architects and engineers, as it is today, and the medieval science of weights comprised a large collection of works compiled in the late thirteenth and fourteenth centuries.

          

53) Leonardo applied his knowledge of mechanics not only to his investigations of the movements of the human body, but also to his studies of machines. Indeed, the uniqueness of his genius lay in his synthesis of art, science, and design. In his lifetime, he was famous as an artist, and also as a brilliant mechanical engineer who invented and designed countless machines and mechanical devices, often involving innovations that were centuries ahead of his time.

          

54) Based on these designs, British engineers recently built a glider and tested it successfully in a flight from the chalk cliffs in southeast England know as the Sussex Downs. This maiden flight of “Leonardo’s glider,” reportedly, exceeded the first attempts by the Wright brothers in 1900. Although the machines with movable mechanical wings were not destined to fly, the models built from Leonardo’s designs are extraordinary testimonies to his genius as a scientist and engineer. In the words of art historian Martin Kemp: “Using mechanical systems, the wings flap with much of the sinuous and menacing grace of a gigantic bird prey… [Leonardo’s] designs retain their conceptual power as archetypal expressions of man’s desire to emulate the birds, and remain capable of inspiring a sense of wonder even in a modern audience, for whom the sight of tons of metal flying through the air has become a matter of routine.”

          

55) Leonardo’s careful and patient studies of the movements of the heart and the flow of blood, undertaken in old age, are the culmination of his anatomical work. He not only understood and pictured the heart like no one before him, but also observed subtleties in its actions and in the flow of blood that would elude medical researchers for centuries.

          

56) Leonardo’s success in cardiac anatomy [is] so great that there are aspects of the work which are not yet equaled by modern anatomical illustration… His consistent practice of illustration of the heart and its valves, both in systole and in diastole, with a comparison of the position of the parts, has rarely if ever been performed in any anatomical textbook.

          

57) Leonardo’s embryological drawings are graceful and touching revelations of the mysteries surrounding the origins of human life. In the words of physician Sherwin Nuland, “[His] depiction of a five-month fetus in the womb is a thing of beauty… It stands as a masterwork of art, and, considering the very little that was at the time understood of embryology, a masterwork of science perception as well.” Leonardo knew very well that, ultimately, the nature and origin of life would remain a mystery, no matter how brilliant his scientific mind was. “Nature is full of infinite causes that have never occurred in experience,” he declared in his late forties, and as he got older his sense of mystery deepened. Nearly all the figures in his last paintings have that smile that expresses the ineffable, often combined with a pointing finger. “Mystery to Leonardo”, wrote Kenneth Clark, “was a shadow, a smile and a finger pointing into darkness.”

          

58) Leonardo’s approach to mathematics was that of a scientist, not a mathematician. He wanted to use mathematical language to provide consistency and rigor to the descriptions of his scientific observations. However, in his time there was no mathematical language appropriate to express the kind of science he was pursuing – explorations of the forms of nature in their movements and transformations. And so Leonardo used his powers of visualization and his great intuition to experiment with new techniques that foreshadowed branches of mathematics that would not be developed until centuries later. These include the theory of functions and fields of integral calculus and topology.

          

59) The really important mathematics for him was geometry, which is evident from his praise of the eye as “the prince of mathematics.”

          

60) Like most mathematicians of his time, Leonardo frequently used geometrical figures to represent algebraic relationships. A simple but very ingenious example is his pervasive use of triangles and pyramids to illustrate arithmetic progressions and, more generally, what we now call linear functions. He was familiar with the use of pyramids to represent linear proportions from his studies of perspective, where he observed that “All the things transmit to the eye their image by means of a pyramid of lines. By ‘pyramid of lines’ I mean those lines which, starting from the edges of the surface of each object, converge from a distance and meet in a single point… placed in the eye.”

          

61) Leonardo realized very early on that the mathematics of his time was inappropriate for recording the most important results of his scientific research – the description of nature’s living forms in their ceaseless movements and transmutations. Instead of mathematics, he frequently used his exceptional drawing facility to graphically document his observations in pictures that are often strikingly beautiful while, at the same time, they take the place of mathematical diagrams. His celebrated drawing of “Water falling upon water”, for example, is not a realistic snapshot of a jet of water falling into a pond, but an elaborate diagram of Leonardo’s analysis of several types of turbulence caused by the impact of the jet.

          

62) Arasse makes an interesting point: Whenever Leonardo rendered objects in their sharp outlines, these pictures represented conceptual models rather than realistic images. And whenever he produced realistic images of objects, he blurred the outlines with his famous sfumato technique, in order to represent them as they actually appear to the human eye.

           

63) What Leonardo found especially attractive in geometry was its ability to deal with continuous variables. “The mathematical sciences… are only two,” he wrote in the Codex Madrid, “of which the first is arithmetic, the second is geometry. One encompasses the discontinuous quantities [i.e., variables] the other the continuous.” It was evident to Leonardo that a mathematic of continuous quantities would be needed to describe the incessant movements and transformations in nature. In the seventeenth century, mathematicians developed the theory of functions and the differential calculus for that very purpose. Instead of these sophisticated mathematical tools, Leonardo had only geometry at his disposal, but he expanded it and experimented with new interpretations and new forms of geometry that foreshadowed subsequent developments.

          

64) In the course of his explorations of circles and squares, Leonardo tried his hand at the problem of squaring the circle, which had fascinated mathematicians since antiquity. In its classical form, the challenge is to construct a square with an area equal of that of a given circle, and to do so by using only ruler and compass. We know today that this is not possible, but countless professional and amateur mathematicians have tried. Leonardo worked on the problem repeatedly over a period of more than a dozen years. In one particular attempt, he worked by candlelight through the night, and by dawn he believed that he had finally found the solution. “On the night of St. Andrew,” he excitedly recorded in his Notebook, “I found the end of squaring the circle; and at the end of the light of the candle, of the night, and of the paper on which I was writing, it was completed; at the end of the hour.” However, as the day progressed, he came to the realization that this attempt, too, was futile.

          

65) When we look at Leonardo’s geometry from the point of view of present-day mathematics, and in particular from the perspective of complexity theory, we can see that he developed the beginnings of the branch of mathematics now known as topology. Like Leonardo’s geometry, topology is a geometry of continuous transformations, or mappings, in which certain properties of geometric figures are preserved. For example, a sphere can be transformed into a cube or a cylinder, all of which have similar continuous surfaces. A doughnut (torus), by contrast, is topologically different because of the hole in its center. The torus can be transformed, for example, into a coffee cup where the hole now appears in the handle. In the words of historian of mathematics Morris Kline: Topology is concerned with those properties of geometric figures that remain invariant when the figures are bent, stretched, shrunk, or deformed in any way that does not create new points or fuse existing points. The transformations presupposes, in other words, that there is a one-to-one correspondence between the points of the original figure and the points of the transformed figure, and that transformation carries nearby points into nearby points. This latter property is called continuity.

          

66) During the last twelve years of his life, Leonardo spent a great deal of time mapping and exploring the transformations of his “geometry done with motion.” Several times he wrote of his intention to present the results of these studies in one or more treatises. During the years he spent in Rome, and while he was summing up his knowledge of complex turbulent flows in his famous deluge drawings, Leonardo produced a magnificent compendium of topological transformations, titled De ludo geometrico (On the Game of Geometry), on large double folio in the Codex Atlanticus. He drew 176 diagrams displaying a bewildering variety of geometric forms, built from intersecting circles, triangles and squares – row after row of crescents, rosettes and other floral patterns, paired leaves, pinwheels, and curvilinear stars. Previous this endless interplay of geometric motifs was often interpreted as the playful doodling of an aging artist – “a mere intellectual pastime,” in the words of Kenneth Clark. Such assessments were made because art historians were generally not aware of the mathematical significance of Leonardo’s geometry of transformations. Close examination of the double folio shows that its geometric forms, regardless of how complex and fanciful, are all based upon strict topological principles.

          

67) Since Leonardo’s science was a science of qualities, of organic forms and their movements and transformations, the mathematical “necessity” he saw in nature was not one expressed in quantities and numerical relationships, but one of geometric shapes continually transforming themselves according to rigorous laws and principles. “Mathematical” for Leonardo referred above all to the logic, rigor, and coherence according to which nature has shaped, and is continually reshaping, her organic forms. This meaning of “mathematical” is quite different from the one understood by scientists during the Scientific Revolution and the subsequent three hundred years. However, it is not unlike the understanding of some of the leading mathematicians today. The recent development of complexity theory has generated a new mathematical language in which the dynamics of complex systems – including the turbulent flows and growth patterns of plants studied by Leonardo – are no longer represented by algebraic relationships, but instead by geometric shapes, like the computer-generated strange attractors or fractals, which are analyzed in terms of topological concepts. This new mathematics, naturally, is far more abstract and sophisticated than anything Leonardo could have imagined in the fifteenth and sixteenth centuries. But is used in the same spirit in which he developed his “geometry done with motion” – to show with mathematical rigor how complex natural phenomena are shaped and transformed by the “necessity” of physical forces. The mathematics of complexity has led to a new appreciation of geometry and to the broad realization that mathematics is much more than formulas and equations. Like Leonardo da Vinci five hundred years ago, modern mathematicians today are showing us that understanding of patterns, relationships, and transformations is crucial to understand the living world around us, and that all questions of pattern, order, and coherence are ultimately mathematical.

          

68) From perspective, he proceeded in two opposite directions – outward and inward, as it were. He explored the geometry of light rays, the interplay of light and shadow, and the very nature of light, and he also studied the anatomy of the eye, the physiology of vision, and the pathways of sensory impressions along the nerves to the “seat of the soul”. To a modern intellectual, used to exasperating fragmentation of academic disciplines, it is amazing to see how Leonardo moved swiftly from perspective and the effects of light and shade to the nature of light, the pathways of the optic nerves, and the actions of the soul. Unencumbered by the mind-body split that Descartes would introduce 150 years later, Leonardo did not separate epistemology (the theory of knowledge) from ontology (the theory of what exists in the world), nor indeed philosophy from science and art. His wide-ranging examinations of the entire process of perception led him to formulate highly original ideas about the relationship between physical reality and cognitive processes – the “actions of the soul”, in his language – which have reemerged only very recently with the development of a post-Cartesian science of cognition.

          

69) As architectural historian James Ackerman points out, the geometry of perspective developed by the Florentine artists was the first scientific conception of three-dimensional space: As a method of constructing an abstract space in which any body can be related mathematically to any other body, the perspective of the artists was a preamble to modern physics and astronomy. Perhaps, the influence was indirect and unconsciously transmitted, but the fact remains that artists were the first to conceive a generalized mathematical model of space and that it constituted an essential step in the evolution from medieval symbolism to the modern image of the universe.

          

70) Leonardo demonstrated his throughout understanding of linear perspective not only in his art, but also in his scientific drawings. While he was conducting his experiments on the geometry of perspective, he also investigated the anatomical connections between the eye and the brain. He documented his findings in a series of magnificent pictures of the human skull, in which the foreshortening of visual perspective is employed with great effect. Leonardo combined this technique with delicate renderings of light and shade to create a vivid sense of space within the skull, in which he exhibited anatomical structures that had never been seen before and located them with complete accuracy in three dimensions.

          

71) From the earliest years in Verrocchio’s workshop, Leonardo was familiar with the grinding of lenses and the use of concave mirrors to focus sunlight for welding. Throughout his life he tried to improve the design of these burning mirrors, and when he became seriously interested in the theory of optics, he undertook careful studies of their geometries. He was fascinated by the intricate intersections of the reflected rays, which he explored in a series of precise and beautiful diagrams, tracing their pathways from parallel beams of light through their reflections to the focal point (or points). He showed that in spherical mirrors, the rays are focused in an area along the central axis, whereas parabolic mirrors are true “mirrors of fire”, focusing all the rays in a single point. He also made several attempts to solve Alhazen’s problem, and late in his life, while experimenting with parabolic mirrors in Rome, found an ingenious solution by employing an instrument with hinged rods.

           

72) According to Leonardo, shadow is the central element in the science of painting. It allows the painter to effectively represent solid bodies in relief, emerging from the backgrounds of the painted surface. His poetic definition of shadow in Codex Atlanticus is clearly written from the artist’s point of view: Every opaque body is surrounded, and its whole surface is enveloped, in shadow and light…. Besides this, shadows have in themselves various degrees of darkness, because they are caused by the absence of a variable amount of the luminous rays…. They clothe the bodies to which they are applied.

          

73) As Kenneth Clark has remarked, “The calculations are so complex and abstruse that we feel in them, almost for the first time, Leonardo’s tendency to pursue research for its own sake, rather than as an aid to his art.”

          

74) He marveled at the swift velocity of light: “Look at the light of the candle and consider its beauty,” he wrote. “Blink your eye and look at it again. What you see of it was not there before, and what was there before is not anymore.” But he also realized that, however fast light moves, its velocity is not infinite. He asserted that the speed of sound is greater than that of elastic waves in earth, and that light moves faster than sound, but that the mind moves even faster than light. “The mind jumps in an instant from East to the West,” he noted, “and all the other immaterial things have velocities that are by a long way inferior.”

          

75) The structure of the eye and the process of vision were natural wonders for Leonardo that never ceased to amaze him. “What language can express this marvel?” he writes about the eyeball, before continue with rare expression of religious awe: “Certainly none. This is where human discourse turns directly to the contemplation of the divine.” In the Treatise on Painting, Leonardo waxes enthusiastic about the human eye: Don’t you see that the eye embraces the beauty of the whole world? It is the master of astronomy, it practices cosmography, it counsels and corrects all human arts; its transports man to different parts of the world. [The eye] is the prince of mathematics; its sciences are most certain. It has measured the heights and sizes of the stars; it has discovered the elements and their locations…. It has created architecture, perspective, and divine painting…. [The eye] is the window of the human body, through which [the soul] contemplates and enjoys the beauty of the world.

          

76) “The pupil of the eye,” he concluded, “changes to as many different sizes as there are differences in the degrees of brightness and darkness of the objects which present themselves before it…. Nature has equipped the visual faculty, when irritated by excessive light, with the contraction of the pupil… and here nature works like someone who, having too much light in his house, closes half of a window, and more or less according to necessity.” And then he added: “You can observe that in nocturnal animals such as cats, screech owls, tawny owls and others, which have the pupil small at midday and very large at night.”

          

77) During the last two decades of the twentieth century, however, a novel conception of the nature of mind and consciousness emerged in the life sciences, which finally overcame the Cartesian division between mind and body. The decisive advance has been to reject the view of mind as a thing; to realize that mind and consciousness are not entities but processes. In the past twenty-five years the study of mind from this new perspective has blossomed into a rich interdisciplinary field known as cognitive science, which transcends the traditional frameworks of biology, psychology, and epistemology. One of the central insights of cognitive science is the identification of cognition, the process of knowing, with the process of life. Accordingly, the interactions of a living organism – plant, animal, or human – with its environment are understood as cognitive interactions. Thus life and cognition become inseparably connected. Mind, – or, more accurately, mental activity – is immanent in matter at all levels of life. This new conception represents a radical expansion of the concept of cognition and, implicitly, the concept of mind. In the new view, cognition involves the entire process of life – including perception, emotion, and behavior – and does not even necessarily require a brain and a nervous system.

          

78) At the end of life, the reverse process takes place: “While I thought I was learning how to live, I had been learning how to die,” Leonardo wrote movingly late in his life.

          

79) Nature, as a whole was alive and animated for Leonardo, a world in continual flux and development, in the macrocosm of the Earth as in the microcosm of the human body.

          

80) Leonardo himself never boasted about his unique talents and skills, and in his thousands of pages of manuscripts he never vaunted the originality of so many of his ideas and discoveries. But he was well aware of his exceptional stature. In the Codex Madrid, in the midst of extensive discussions of the laws of mechanics, we find two lines that can stand as his own definitive epitaph: Read me, O reader, if in my words you find delight, for rarely in the world will one such as I be born again.

          

Synthesis Ratio :: 274 total of pages read / 23 typewritten pages :: 11.9

           

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Barba ensopada de Galera

dezembro 8, 2016

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Zero

   

Terminei ontem a leitura do romance “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, 1ª Edição, Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

    

Livraço, certamente o melhor que eu li neste ano de 2016 (vale lembrar que eu leio devagar, ao meu tempo, o universo dessa amostragem nem é tão grande assim).

       

Gostei especialmente do romance pelo enredo, pelo jeito de contar a estória (também porque já fiz travessias de 10 km no mar, triatlo, essas doideiras; e porque também já estive em busca de respostas).

     

Deixo minha seleção de sete passagens prediletas (espero que estes trechos motivem você a se aventurar pela leitura do livro também).

   

Um

   

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda a parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis cobertas por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um Buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia a sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do fusca dá uma risada.

Demora um pouco para pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é a de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta o seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha a posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tato de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

   

Dois

   

Antes do feriadão de primeiro de maio cai na mão dele um exemplar de um jornal editado em Tubarão que traz na capa a notícia de que o corpo de uma guria de dezesseis anos que morava na praia da Pinheira havia sido encontrada na vegetação às margens da rodovia BR-101, um pouco ao norte de Paulo Lopes, poucos quilômetros acima do trevo da entrada de Garopaba. Estava sem olhos e sem lábios e havia sinais claros de estrangulamento, que foi a provável causa da morte. O perito suspeitava ou queria acreditar que as mutilações no rosto foram feitas após o óbito da vítima e as partes extirpadas não foram encontradas. Ela estava sem blusa, mas não foi confirmado se houve violência sexual. Havia também marcas abundantes de arrastamento, levando a crer que tinha sido assassinada longe dali, provavelmente num mato com vegetação densa e pedras, e então transportada até o local por uma ou mais pessoas que não eram capazes ou não quiseram se dar ao trabalho de carregá-la e só puderam ou preferiram arrastá-la. A matéria tinha sido publicada dois dias após a descoberta do corpo e a fotografia mostrava a vítima coberta por um pequeno cobertor ou pano de cor clara deixando ver apenas as mãos com os dedos dobrados, os pulsos e parte dos braços erguidos ao lado da cabeça, lembrando um bebê no berço. Quando olha a foto ele imagina num clarão o rosto da guria por baixo do cobertor ou pano como num daqueles flashbacks chocantes dos filmes de terror e a imagem vislumbrada o perseguirá por alguns dias. Era descartada a possibilidade de que os olhos e lábios tivessem sido comidos por um animal ou algo assim porque os ferimentos eram de incisão precisa, quase clínica, com objeto cortante. Ela havia dito aos pais que ia acampar com amigos numa cachoeira da região e os amigos de fato foram acampar mas disseram que ela não apareceu no horário e local combinados para a saída e eles foram sem ela. A polícia trabalhava com a hipótese de crime de vingança mas salientava que ainda estava levantando dados e que tudo era possível. Essa era toda a informação trazida pela matéria. O jornal datado de uma semana antes foi encontrado em cima de um banco no vestiário da academia como se alguém o tivesse esquecido dentro da mochila e dias depois se livrado do papel velho sem ao menos se dar ao trabalho de colocá-lo no cesto de lixo e ele acha estranho que ninguém na academia, nos restaurantes, nos bares, no posto telefônico, na praia, na escolinha de Pablo, que nem dona Cecina nem Renato nem Dália nem o vendedor do mercadinho ou os pescadores tenham comentado uma notícia tão hedionda, algo que tinha acontecido tão perto da bela e feliz cidadezinha costeira em que moravam, cidadezinha que já parece ter sido abandonada de vez pelos turistas, pelo menos até a temporada do próximo verão, e mais parece agora um parque de lojas fechadas e casas vazias, quarteirões inteiros desertos a não ser pela visita muito ocasional de um caseiro podando uma árvore. O esvaziamento fulminante da cidade, a chegada do frio para valer, o assassinato brutal de uma adolescente não muito longe dali, nada disso que lhe chama tanto a atenção parece ser digno de nota. Fala-se por aí que a pesca da tainha esse ano será uma catástrofe ainda pior que a do ano passado e a população em geral se preocupa em fazer render o dinheiro ganho com o comércio e o turismo de um verão que ficou para trás em definitivo e já parece uma memória longínqua, um tempo em que os moradores locais haviam trabalhado tanto em meio a tanta gente vinda de fora que mal tinham conseguido ver uns aos outros e conversar com os seus próprios amigos e familiares, meses vividos menos como habitantes e mais como funcionários de um enorme pavilhão ocupado por um megaevento. Comentam pelas ruas também uma eleição municipal que só ocorrerá em setembro e de resto se tem a impressão de que todo mundo espera apenas descansar e viver sem sobressaltos os dias frios e ensolarados em que nada acontecerá. Dizem que haverá tédio e tristeza na calmaria e que o frio e a solidão ressuscitarão todos os fantasmas sazonais conhecidos e também despertarão alguns desconhecidos, mas falam disso como se ainda não fosse hora e houvesse tempo de sobra pra se preparar.

    

Três

   

Entre os competidores profissionais estão alguns conhecidos seus e o reencontro mais efusivo é com Pedrão, que tem patrocínio da Paquetá Esportes e é presença comum nos pódios e décimo primeiro no ranking nacional de triatlo. Noite passada, durante o congresso técnico no salão de jantar do Hotel Garopaba, a primeira coisa que Pedrão lhe perguntou foi se ele estava doente. Tinha achado o antigo companheiro de treinos um pouco magro demais e com uma cara um pouco abatida, sem falar na barba desleixada. Ele garantiu que estava bem de saúde e quanto à barba, bem, tinha enjoado da própria cara, estava fazendo uma experiência. Pedrão entendeu a piada e riu. Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo como marcas gritantes ou sutis, às vezes sutilíssimas ou mesmo invisíveis, e ainda assim de alguma forma perceptíveis de fora. O corpo é a sua própria cápsula do tempo e sua viagem é sempre um pouco pública, por mais que tentemos esconder ou maquiar.

    

Quatro

    

Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando na pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é toda de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado.

Uma vez Viviane lhe falou a respeito dos deuses gregos, tema de leituras que vinha fazendo para o mestrado em literatura que cursou na época em que moravam juntos. Imagina se a vida real fosse assim. Deuses dizendo de antemão que a gente vai vencer a batalha, sobreviver ao naufrágio, reencontrar a família, vingar a morte do pai. Ou o contrário, que vamos ser derrotados ou sofrer coisas horríveis durante muitos anos antes de conseguir o que queremos, que vamos nos perder, ou mesmo morrer. E eles entram em detalhes, dizem exatamente como, quando e onde e depois saem voando com o vento e deixam o mortal ali com a obrigação de cumprir ou executar o que já foi decidido pelos tiozinhos do Olimpo. Imagina que merda. E ele tinha dito que não achava ruim. Que gostava da ideia de que há deuses soprando em nosso ouvido uma boa parte do que ainda irá nos acontecer. Não crê nisso de fato, não há lugar para deuses em seu coração, mas tem a sensação de que alguma coisa equivalente está em curso no mundo profano, um processo natural, algum mecanismo no corpo ou na mente que antecipa coisas que mais tarde poderemos chamar de destino. Na opinião dele a vida era mesmo um pouco desse jeito. Já se sabe em grande medida como as coisas vão ser. Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar desapercebida. Viviane ficava louca com isso, em parte porque ele não tinha a mesma cultura e vocabulário que ela e não conseguia se expressar direito, em parte porque ela discordava da ideia com veemência. Ela falava então de livre-arbítrio, a liberdade do homem para escolher, para decidir como as coisas serão de acordo com a vontade, coisa que ela não aceitava que ele não aceitasse com a mesma naturalidade que ela. As discussões podiam começar com uma piadinha ou uma provocação carinhosa e evoluir para bate-bocas exasperados nos quais, na falta de argumentos e arsenal retórico, ele precisava defender sua posição com teimosia ou silêncio.

E numa dessas manhãs do começo de julho ele tira as meias e a camiseta, veste um bermudão de praia, pega a cachorra no colo e desce a escadinha de cimento até a pedra do Baú. O mar está encrespado mas as ondas estão fraquinhas. O sol forte ameniza um pouco o frio. Deixa Beta na beira da pedra e entra na água pisando com cuidado nos mariscos e algas ocultos sob a espuma. Ergue a cachorra de novo nos braços, entra um pouco mais fundo e a mergulha no mar gelado. Ela mantém o olhar fixo adiante, perplexa com o banho inesperado. Nunca teve o hábito de entrar na água e muito menos no mar. As ondas a assustam. Começa a pedalar instintivamente com as patas dianteiras e um pouco também com as patas traseiras. Ele a incentiva e se mantém submerso até o pescoço por solidariedade, para passar tanto frio quanto ela. Assim que a cadela encontra um ritmo ele a segura por baixo da barriga com uma das mãos e dá sustentação a seu corpo. Beta funga um pouco e espirra quando a água lhe atinge o focinho. São observados por um bando de abutres que em dado momento decolam agitando suas asas magníficas. São aves pavorosas no chão e lindas voando. Quando o frio fica difícil de agüentar ele acomoda a cachorra com firmeza debaixo do braço, saí da água, sobe a escadinha, entra em casa e a envolve com uma toalha. Depois lhe dá um banho no chuveiro quente e a seca com paciência e cuidado. Esquenta um pouco de sopa numa panela pequena tomando o cuidado de separar uns bons pedaços de carne e serve a vasilha de água para que ela coma. Passa a fazer isso todo dia, mesmo quando chove.

   

Cinco

    

Afaga o couro da cachorra, quente apesar de tudo. De súbito, sem que pudesse premeditar, enxerga com nitidez tremenda algo que desejava enxergar faz tempo e começa a chorar de felicidade. Gostaria que Jasmim estivesse ali agora, e Viviane, e seu pai e sua mãe, e mesmo Dante, mesmo as pessoas que tem vontade de odiar e não consegue, gostaria que todas estivessem ali agora. Seu pai tinha dito isso uma vez. Tu não consegue odiar nada, guri. Isso não pode fazer bem. Mas é assim, pai, ele responde agora olhando dentro do breu. É assim. Vai se sentindo cada vez mais leve à medida que pensa nessas coisas e adormece sentado de encosto à pedra.

    

Seis

    

O terror aparece quando ele imagina recifes e animais marinhos ou contempla a possibilidade de estar nadando na direção errada e se afastando da praia com braçadas firmes e regulares, adentrando uma vastidão esmagadora de onde não haverá volta.

No restante do tempo, porém, ele se concentra no nado, na respiração, em sinais que possam ajudá-lo a manter uma linha reta que dê em algum lugar. A certa altura já não crê estar metido em nenhuma enrascada muito maior que outras vezes que nadou longas distâncias em piscinas olímpicas e travessias marítimas com centenas de outros atletas. Isso tudo tem algo de familiar, é como aqueles três quilômetros finais da travessia de Tapes que nadou com câimbras na coxa, como a hipotermia no meio da prova de ciclismo que quase o tirou do Ironman de Florianópolis. Toda prova tem um ritmo certo, é preciso medir a força e estar atento ao estilo, ao desenho das braçadas à freqüência das pernadas e acima de tudo se concentrar e manter a concentração no nado até que a mente e o corpo sejam uma coisa só, o que inaugura condições para que ele e a água se tornem uma coisa só e não haja mais necessidade de se concentrar. Todos os momentos anteriores pareciam tê-lo preparado para isso. É a prova para a qual treinou a vida toda. A imaginação pode ser uma aliada nessas horas. Imagina competidores a seu lado e no seu encalço. Apenas os melhores nadadores do mundo. O líder que deseja ultrapassar está batendo pernas bem na sua frente. É só nadar na esteira dele. A mente é crédula e esse adversário inventado se torna real em pouco tempo, um homem de carne e osso que sente o mesmo frio e o mesmo cansaço, um companheiro. Pode quase tocar seus pés com a ponta dos dedos. E quando esse faz de conta em particular se dissipa ele imagina outras coisas. Que está sendo perseguido por tubarões descomunais e leviatãs de aparência ignorada. Que se fizer uma pausa ou se diminuir o ritmo será fulminado por um raio. Que está deixando a morte para trás. Que uma mulher silente e amorosa o aguarda nas areias da praia, uma mulher que não se parece com nenhuma que já teve mas sem nada de extraordinário. Ela o recebe sem susto, deixa que deite a cabeça sobre suas coxas empanadas de areia para descansar pelo tempo que for preciso e diz que eles precisam um do outro, que sempre terão vontade e serão capazes de prover tudo que o outro deseja, sem exceção. Dá para saber que ela está dizendo a verdade. Ela desliza a ponta dos dedos por suas têmporas e pergunta o que ele quer. Ele balbucia que não muito, apenas que as pernas dela sejam quentes ao toque no inverno e frias no verão, e que tenham uma guriazinha ranhenta para ralar os joelhos correndo em volta da casa, e que se possa ver uma laguna que fique dourada no fim da tarde, mesmo que de longe. Acima de tudo que ela continue quentinha quando ele estiver com frio. Nada mais. Depois é a vez dela. Me diz o que tu quer. Ela vai dizendo e ele aprova tudo e pergunta o que mais, o que mais. É uma lista interminável de coisas e garantir que providenciará cada uma delas traz um prazer infinito, não importa o que seja. Vai dando tudo, uma coisa para cada braçada, implorando que ela não pare, obtendo disso a força de que necessita.

   

Sete

    

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.

   

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SINOPSE >> Por que Jornada Rumo ao Sol?

Segundo a mitologia grega Ícaro caiu no Mar Egeu quando a cera de suas asas se derreteu. Ícaro havia se descuidado em seu voo indo para próximo do Sol. Ele ignorara o aviso de seu pai, Dédalo, para que o evitasse. Quanto ao paradeiro de Ícaro há, entretanto, controvérsia. O rastro de cera deixado, indo até a fronteira da Terra, é um forte indício de que ele teria deixado o planeta.

Se Ícaro tivesse de fato voado rumo ao Sol – suposto ter vencido com suas asas a gravidade da Terra – como teria sido o seu fim?

O nosso Sol provavelmente deve tê-lo consumido sem dó nem piedade. Aquela antiga chama em combustão extrema teria transformado a massa de outrora – seja o corpo ou as suas asas – num produto mais sutil. A inspiração; para a elevação de ideias. O que realmente nutre a alma do homem.

Fragmentos: imagens, lembranças, sonhos e outras sensações estéticas. Aquilo que denominamos poesia por pura impossibilidade de capturá-lo por inteiro.

Isso, estes nossos fragmentos, os blocos elementares que compõem o sujeito, são os veículos propostos neste livro.

Para que você empreenda, montado no sutil, no etéreo, a sua própria Jornada Rumo ao Sol.

ENTREVISTA >> do autor concedida à Scortecci Editora:

1) Do que trata o seu Livro? Como surgiu a ideia de escrevê-lo e qual o público que se destina sua obra?

Jornada Rumo ao Sol é um apanhado de contos (principalmente) e poemas escritos ao longo de três anos. Trata-se de uma reflexão existencial que foi amarrada em torno do mito de Ícaro. É um livro para adultos, para leitores experimentados, de mente aberta e na busca pelo autoconhecimento. Esta é a proposta do livro.

2) Fale de você e de seus projetos no mundo das letras. É o primeiro livro de muitos ou apenas o sonho realizado de plantar uma árvore, ter um filho e escrever um Livro?

Eu sou uma pessoa interessada pelos relacionamentos humanos e aqueles do ser humano para com a natureza. Leio muito mais que escrevo. Jornada Rumo ao Sol é o resultado de minha própria jornada pessoal, acredito que possa ser uma leitura prazerosa e útil àqueles que decidirem se debruçar sobre esta obra. Escrevo por pura necessidade, para exorcizar os meus demônios e organizar as minhas próprias idéias. Este é o meu quarto livro, sendo o segundo publicado pela Scortecci. Pretendo continuar escrevendo sempre que julgar estar acrescentando alguma inovação às múltiplas formas de percepção daquilo que nos cerca, daquilo que nos toca; ou seja, da vida.

3) O que você acha da vida de escritor em um Brasil com poucos leitores e onde a leitura é pouco valorizada?

É uma pena que o Brasil tenha poucos leitores. Mas isso é o resultado de anos de descaso para com a educação em nosso país. Quanto ao escritor, resta escrever por amor e por um chamado interior. As obras que realmente tem conteúdo não estão sujeitas ao sabor de modismos e dos interesses passageiros. Basta ler Machado de Assis, por exemplo, para ver como os seus textos são relevantes e geniais. Obras assim não perecem jamais. Não sei se este é o caso dos meus contos e poemas. Cada um de nós tem apenas uma visão parcial da realidade; como todo ser humano, somos limitados às nossas próprias percepções e ao curto espaço de tempo dispendido nesta nossa Terra. O que eu posso garantir é que me empenhei bastante, os meus textos foram escritos com a caneta numa mão e o coração na outra.

4) Como você ficou sabendo e chegou até a Scortecci Editora?

Eu escolhi a Scortecci porque eu acredito na competência e no trabalho honesto da editora. São muitos anos de experiência na publicação e comercialização de livros. Isso pesou muito na escolha.

5) O seu livro merece ser lido? Por quê? Alguma mensagem especial para seus leitores?

Pessoalmente, acredito que vale muito a pena a leitura de Jornada Rumo ao Sol. Desejo àqueles que se propuserem a fazer esta viagem uma boa diversão. E deixo aqui a frase que preparei para os autógrafos no dia do lançamento: que este Yantra Ilumine o Seu Caminho!!

AUTOR >> Sobre:

Jorge Xerxes – heterônimo de Alessandro Teixeira Neto – é pisciano; nascido no ano de 1971. Mantém o blog “Palavras Órfãs de Poesia: O que Restou” desde 2008. https://jorgexerxes.wordpress.com/

Natural de São João da Boa Vista, SP; “cresci ao pé da serra da Mantiqueira; por entre trilhas e cachoeiras; sempre em rota de colisão àquele verde inconcebível”.

Estudou por pouco mais de dez anos na Unicamp; “tinha o meu próprio ritmo de assimilar as coisas” diz com um sorriso enigmático no canto da boca.

Interessa-se por tudo aquilo que nos passa desapercebido; “gosto de escrever sobre as coisas pequenas”.

Publicou:

[1] “As Cinquenta Primeiras Criaturas”, Livro de Contos e Poesias, 150 pp, Editora Multifoco, ISBN: 978-85-7961-109-4, (2010).

[2] “Para Pescar a Lua”, Livro de Contos e Poesias, 138 pp, Ryoki Inoue Produções, ISBN: 978-85-63427-09-0, (2011).

[3] “Trama e Urdidura”; Livro de Contos, Crônicas e Poesias; 156pp; Scortecci Editora; ISBN: 978-85-366-2764-9; (2012).

[4] “Jornada Rumo ao Sol”; Livro de Contos e Poesias; 132pp; Scortecci Editora; ISBN: 978-85-366-4181-2; (2015).

AQUISIÇÃO >> Como adquirir os livros?

Os livros podem ser adquiridos diretamente com o autor através do email jorgexerxes@gmail.com

Os preços, com frete incluso para todo o Brasil, são apresentados abaixo. Os preços valem para todos os livros, independente dos títulos escolhidos.

1 Livro: 31 reais (preço unitário, 31 reais)

2 Livros: 56 reais (preço unitário, 28 reais)

3 Livros: 75 reais (preço unitário, 25 reais)

4 Livros: 88 reais (preço unitário, 22 reais)

O autor solicitará o depósito em conta corrente referente ao valor da compra. Os livros serão enviados pelos Correios (carta registrada).

https://www.youtube.com/watch?v=iE1udvEQdOg

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Da simplicidade

maio 18, 2015

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levava consigo

numa sacolinha plástica

dessas de supermercado:

um recoRte de jornal,

a caixinha de incensos

já pela metAde,

uma latinha vazia

dessas de reFrigerAnte,

o livro fino

de um autor pouco conhEcido.

    

mas trazia no rosto

um sorriso lindo

e o sembLAnte resplandecente.

    

Define-se a constante matemática PI como a razão do perímetro pelo diâmetro da circunferência.

O dia anual de celebração da constante matemática PI é 14 de Março. Este dia foi o escolhido porque no padrão inglês adota-se mês/dia para a data, sendo que 3/14 representa também os três primeiros dígitos do pi em formato decimal.

Neste ano, em especial, 3/14/15 às 9:26:53.58979… o número irracional PI será representado exatamente com todos os seus infinitos dígitos!!

Isso pode parecer totalmente irrelevante para a humanidade, mas há quem se importe com isso.

E em homenagem a estes poetas visionários dos números estou disponibilizando nesta data tão significativa o meu segundo livro, intitulado ‘Para Pescar a Lua’, na íntegra, em versão pdf, para o download gratuito.

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f0r73 48r4c0, j0r93 x3rx35

 

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Larry Shaw, the founder of PI Day, at the Exploratorium in San Francisco

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Luzes de Luisa Geisler

outubro 9, 2014

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Um breve comentário e trechos de Luzes de emergência se acenderão automaticamente, de Luisa Geisler, Alfaguara, 2014.

Eu gostei muito do Luzes de emergência; não sei dizer se é melhor ou pior que Quiçá. Acho que são livros com pegadas diferentes, igualmente interessantes; o que é ótimo e difícil de fazer (posto que a maioria dos escritores está sempre re-escrevendo o mesmo livro, aprimorando uma mesma ideia). Apesar de terem lá a sua similaridade na temática existencial e nalguma coisa de luminoso – tipo Green Light ou Luzes de emergência.

Eu achei muito interessante a estrutura do livro. A organização meio errática em cartinhas simples que vão se juntando, sendo colecionadas. Que a gente não sabe bem aonde é que vai dar. E, de repente, (perceba um arco sendo tensionado por uma flecha) zzzzzzzzip, acerta em cheio o coração! Um coração flechado de humanidade.

Minhas passagens prediletas:

Verdade seja dita, Administração é um curso longo demais. Acho que é alguma coisa ligada a comprar mais tempo para saber o que eu quero. Mas fazer o que se quer é uma ideia que me incomoda bastante. Daí eu fico escrevendo.

Aqui é o momento em que eu paro e penso em qual resposta te dar. Penso em dizer “se tu não quer ler, não precisa” ou “porque eu não tinha ninguém com quem falar.” Mas isso tudo ia soar depressivo e exagerado.

Eu cada vez mais me pergunto onde eu deveria estar e se eu ainda consigo pensar coisas novas. Conhece aquela história de que dez mil horas de prática te faz um especialista em qualquer coisa? Tipo essas crianças prodígio idiotas, sei lá. É isso. Se eu fosse bom em alguma coisa, eu já devia ser. Se alguma coisa fosse diferente pra mim, eu já saberia. Eu sei que eu sou igual a todo mundo, penso igual, ajo igual, tenho os mesmos problemas. E se alguém me perguntasse por que eu tenho que viver ao invés de outra pessoa, eu não saberia o que dizer.

Tu não devia deixar coisas idiotas como estágio ou faculdade te deixarem puto só porque eles têm essa coisa de ser relevante pra sociedade e influenciar a economia tipo fazer o mundo girar. Teus talentos refletiam teus interesses, e o que importava para ti era importante.

Acho que minha meta de vida é não acordar um dia aos cinquenta anos num emprego que eu odeio porque me forçaram a estabelecer metas de vida quando eu era novo demais.

Tenho a sensação de que eu vou ficar o resto da minha vida procurando o que é que eu quero fazer e tal e nunca vou saber exatamente. Esse sentimento adolescente meio que permanece. Eu aos dezoito vou achar que aos vinte e dois vou saber, e daí aos vinte e dois vou achar que vou saber aos vinte e cinco, aos vinte e sete, aos trinta, aos trinta e cinco. Quando tu vê, tu não tem mais chances de fazer o que tu quer porque tu passou todo esse tempo procurando o que era isso.

Queria voltar lá. Não mudar as coisas, mas mudar as coisas. Faz sentido isso? Acho que não queria mudar as coisas (talvez avisar pra mim mesmo alguns resultados esperados e evitáveis).

(Não sei se falei (ou só pensei) isso). Amor é andar de mãos dadas, meu velho. Mãos dadas é a coisa mais ridícula que um casal pode fazer. Cachorro e dono. Não é prático, alguém puxa prum lado, tem um ritmo estranho de caminhar. Isso é amor. Amor é pouco prático, desconfortável (mas tu não quer soltar). Porra.

De uma certa forma, um relacionamento são duas pessoas que se recusam a desistir uma da outra. Duas pessoas igualmente ferradas, claro.

Até porque cada livro tem uma última página. Toda novela tem um último capítulo. E aceitar que nenhuma dessas pessoas vai estar perto de ti de novo racha tua cara que nem uma pedra que atravessa o vidro da janela. Um buraco, daí os cacos em torno do buraco, as rachaduras, o eco da ausência. Em algum momento a fita VHS para. Sempre chega naquele troço colorido que faz piii, e depois o chiado que acabou. Som chiado, cores chiadas.