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Caixa 14 x 8

janeiro 21, 2010

 

Nada preocupava tanto Adalberto Vaz quanto aquela sua crença doentia de que caso não passasse adiante as apresentações que recebia por email um desastre de fato ocorreria consigo. Como o volume de mensagens de auto-ajuda só fazia aumentar em sua caixa postal, a questão havia tomado dimensão de primeira grandeza na ordem do dia.

 

Já havia passado por alguns especialistas que diagnosticaram essa sua mania como uma variante do transtorno obsessivo compulsivo. Mas o medicamento não surtiu efeito, mesmo no limite superior da posologia prescrita. Tampouco valeu a terapêutica auxiliar, que consistia em sessões bi-semanais com uma psicoterapeuta bem tesuda. Nada levantava o moral de um Adalberto Vaz aquiescido à triste sina de criatura destituída do poder de persuasão da lógica elementar.

 

Não adiantava mudar de endereço eletrônico. Este era o paliativo do qual se valia em momentos de crise mais aguda. Com o tempo Vaz voltava a ser bombardeado pelas malditas mensagens e correntes; e a sua esperança naufragava mesmo se prosseguisse conforme mandava o figurino.

 

Alguém recomendou que lançasse mão do feitiço contra o próprio feiticeiro: – Se as mensagens te facultam um pedido, peça que elas cessem, ou para que alivie esse seu desassossego. Todo esforço e empenho foram vãos. Adalberto Vaz chafurdava-se cada vez mais fundo pelos labirintos de seu universo interior. Vaz só absorvia o contraproducente do contexto; como se jogasse cara ou coroa com uma moeda e desse cara sempre que tivesse apostado na coroa, ou coroa caso tivesse botado fé na cara.

 

* * *

 

O céu de um azul esplêndido. Adalberto Vaz sentia-se impelido a prosseguir sua jornada íngreme rumo ao topo. Através da trilha estreita e rodeada daquele verde vivo, singular. A mata fechada por árvores e arbustos protegia o cume do monte cuja vista poderia lhe proporcionar o mais belo crepúsculo das cercanias. Exercício ou arte da superação. Porém, quando Vaz chegou ao topo, o sol já tinha baixado e surgiam as primeiras estrelas no céu. Seria esta uma noite escura de lua nova. Como vou descer daqui agora? A primeira idéia que passou por sua cabeça.

 

Vaz ouviu então as gargalhadas efusivas de homens simples do interior. Olhou uns trinta metros adiante, pode observar por detrás de alguns arbustos a roda de amigos que se formava em torno de uma pequena chama a consumir gravetos. Eram Antonio, Diogo, Jorge e Jacinto. Encerravam uma bagana que era compartilhada entre eles.

 

Foi Antonio quem primeiro percebeu a aproximação de Adalberto Vaz. Lançou-lhe aquele seu olhar esbugalhado. Os globos praticamente saltando das órbitas; as escleróticas rachadas pelos vasos sanguíneos salientes da chapação. – Se achegue aí, amigo! E Diogo prosseguiu: – O que o traz aqui, vindo de tão longe? Os olhos de Vaz encheram-se de lágrimas, já não podia conter o pranto que lhe corria a face em pura catarse. Adalberto Vaz falou do seu desassossego.

 

Jorge – o mais calado dos homens – foi quem tomou um pedaço do papel usado na elaboração do cigarro do matuto. Tirou um toco de lápis do bolso de sua camisa surrada. Escreveu. Estava sentado de cócoras. Com a mão esquerda grafava as palavras simples no papel apoiado sobre seu joelho direito. Jacinto disse que aquela mensagem devia ser enviada para o remetente de cada um dos emails de auto-ajuda que Vaz recebesse.

 

Adalberto Vaz despertou do sonho estupefato e encharcado de suor. Ainda se lembrava do conteúdo de estranha mensagem.

 

* * *

 

Naquela manhã, quando recebeu o primeiro email de auto-ajuda do dia, Vaz digitou ferozmente no teclado a mensagem de resposta exatamente como ditada pelo interlocutor no sonho. Mas hesitou em enviá-la de imediato. Ao invés disso, Adalberto Vaz encaminhou o arquivo multimídia para vinte conhecidos seus, exatamente como procedia há vários anos, desde que adquiriu seu primeiro pc. Sentiu um aperto grande no peito. Então disparou o email que estava arquivado em draft. Iluminou seu coração; era como se o sol alvorecesse dentro dele.

 

No começo Vaz se sentia um pouco desconfortável sempre que acontecia algum acidente ou fenômeno natural devastador. Adalberto Vaz pensava que, eventualmente, talvez fosse ele o responsável por este ou aquele acidente automobilístico, deslizamento de terra, terremoto ou tsunami. Mas isso era loucura. Aos poucos essa estranha sensação amainou.

 

Iniciou-se então o processo reverso que era um movimento de assombrosa expansão. Toda vez que Vaz recebia mensagem de auto-ajuda, ele enviava aquele email macabro para o destinatário apenas. (É fato que Adalberto Vaz continuava a encaminhar as apresentações para vinte de seus conhecidos). Mas agora Vaz valia-se do poder da mensagem travessa em prol da realização do seu desejo. Foi assim que Adalberto Vaz varreu os emails de auto-ajuda da face de toda a Terra.

 

* * *

 

Vaz virou celebridade, escreveu um livro e era visto com freqüência dando entrevistas nos programas de tv. Adalberto Vaz era outro: expansivo, falava com naturalidade sobre os seus problemas com o TOC, como este limita as atividades cognitivas dos enfermos, como “ele” teve a idéia de banir as mensagens de auto-ajuda do planeta, traçava paralelos desse tipo de conteúdo com o vampirismo e dizia que o poder da mente pode superar todos os obstáculos (porém, jamais mencionou a experiência transcendental do sonho).

 

A ambição de Vaz parecia não ter limites. Criou a Adalberto Vaz Consulting e dava treinamento para altos executivos de empresas. Cobrava, então, rios de dinheiro pelas suas afamadas palestras. Vaz insistia ser capaz  de superar todo e qualquer tipo de obstáculo usando única e exclusivamente o poder da mente. Adalberto Vaz gostava de ostentar. Promovia festas para as quais convidava atrizes e modelos emergentes; todas aquelas que eram capas das revistas da vez.

 

Depois de uma dessas baladas extravagantes, Vaz pediu para deitar só, pois teria uma reunião importante na manhã do dia seguinte. Aquela noite Adalberto Vaz caiu num sono profundo.

 

* * *

 

Vaz foi ter com Antonio, Diogo, Jorge e Jacinto. Subiu enérgico pela trilha estreita que levava ao cume da montanha na hora do crepúsculo. Os homens estavam sentados ao redor da fogueira jogando conversa fora, como era de costume. Chegou junto deles causando estardalhaço: – E aí, meus camaradas? Antonio lançou-lhe aquele seu olhar esbugalhado. Diogo disse calmamente para Adalberto Vaz: – Por favor, sente-se aqui conosco. A conversa prosseguiu animada. Jacinto levantou-se e andou em torno do círculo no qual se postavam os homens. Ele botou a mão direita uns vinte centímetros acima da cabeça de Adalberto Vaz. Cerrou o punho como se apanhasse algo no ar; fez um movimento brusco de rotação da sua mão no sentido anti-horário. – Esses humanos não aprendem mesmo. É só a gente dar uma mão; querem logo o braço.

 

* * *

 

Manhã seguinte Vaz não se levantou.

 

* * *

 

Se Você recebeu essa mensagem tem o direito de fazer um pedido.

 

Por favor, não passe esse email adiante. Um bancário encaminhou essa mensagem para sua esposa. Ela foi atingida por uma bala perdida e ficou paraplégica. Um montador desobedeceu esta recomendação enviando o email para três de seus amigos. Naquele mesmo dia o carro em que estavam os quatro foi esmagado num engavetamento entre duas carretas. Nenhum deles sobreviveu. Uma secretária passou inadvertidamente a mensagem adiante para dezessete funcionários de sua seção horas antes de sair de férias e embarcar num cruzeiro. O navio em que ela estava naufragou. Cento e trinta e duas pessoas morreram.

 

 

para estar contigo…

 

desde que eu me levanto

carrego o coração comigo

para cima e para baixo

sigo assim: levo-o ao longo do dia

reflete o brilho do sol

naquilo que eu faço

deixo que dele escorra

e sempre que eu erro

eu que erro sempre

ele regenera a ferida

faz dela surgir o nOvo

qual cachoeira que brota

das serras verdes da alma

 

Nasceu dia desses sob a morada simples de um vernáculo zodíaco. A bicicleta que ela guia a transporta através de caminhos estreitos por entre os montes. Graduou-se nas faculdades ocultas da mente. Caminha de braços dados aos sete ventos. Dorme debaixo das árvores. Encanta-se à face atrevida do sol – a mais formosa sonhadora. Deleite é vê-la correndo faceira. Mil borboletas flanam volúveis enquanto ela dorme.

 

 

para exercer seu feitio

entoar a macumba em forma de espanto

a calada da noite

nas encruzilhadas da mente