Escaravelho expiando carmas

fevereiro 22, 2014

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Já não bastassem as inúmeras dificuldades imputadas aos idosos – das naturais restrições físicas e cognitivas, até o mais puro descaso da sociedade – notícia recém-divulgada pela NASA (a Agência Americana de Aeronáutica e Espaço) têm tudo para deixar estes senhores e senhoras de queixo caído. A história, das mais mirabolantes, envolvendo personalidades mundiais, reminiscências da guerra fria e até pacatos iogues tibetanos promete abalar os alicerces da civilização com a comprovação científica dos ciclos de reencarnação. Prestes a ser divulgada pela conceituada revista NATURE, o que para muitos irá soar como alento, para eles, os idosos, poderá parecer tão impactante quanto o bombardeio de Hiroshima. Portanto, vovô, segure a sua dentadura para ela não cair e vamos aos fatos.

“As pessoas deviam dar ouvidos às evidências propaladas pela sabedoria popular. Situações fictícias retratadas em filmes, em livros, muitas vezes já demonstraram trazer intrínseco o germe da realidade. Esse é cerne daquilo que Carl Gustav Jung denominou de o inconsciente coletivo.” Tive o privilégio de entrevistar um oficial de alta patente da NASA envolvido no programa secreto ME (de Mind Engineering ou engenharia da mente) e foi quem me passou em primeira mão o relato sobre a recente descoberta. Por razões óbvias, preferiu manter sua identidade em sigilo.

Segundo o oficial, foi em verdade um grupo de pesquisadores da extinta URSS logo após o final da segunda grande guerra o precursor de conceitos seminais ao que hoje se intitula ME – a engenharia da mente. Dentre essas cabeças brilhantes destaca-se o ilustre cientista Sergei Korolev [1] (pronuncia-se: ser-gay caralhov), engenheiro-chefe do programa espacial soviético.

“Falar em história da engenharia da mente é um bocado complicado, tendo em vista a sutileza da nova ciência, do emaranhado de ideias justapostas e inter-relacionadas. Mas posso afirmar que antigos iogues tibetanos já realizavam práticas avançadas em ME, sem sequer conhecer o intrincado arcabouço teórico que as sustem.” A seguir o oficial arrolou uma lista de homens-santos e suas notáveis proezas: Jesus Cristo, São João Evangelista, São Francisco, Buddha, Helena Blavatsky [2], Sathya Sai Baba e até o brasileiro Chico Xavier.

“Àquilo tudo que chamamos de milagres em verdade não o são, posto que existam leis naturais a explicar-lhes a natureza dos fenômenos. O entendimento destas leis subjacentes aos fenômenos naturais sutis é objeto de estudo da ME.” Daí até a comprovação científica dos ciclos de reencarnação foi um pulo. “Mas ainda estamos tateando a superfície de um imenso iceberg.”

Segundo o oficial da NASA, tais estudos se propõem a entender da dinâmica e vínculos entre os três vasos nos quais se encontra encapsulada a alma humana, a saber: o corpo físico, o corpo astral e o corpo causal – sendo este último especificamente aquele o qual acreditam ser o capaz de impactar significativamente o fluxo dos fenômenos naturais. “A alma humana está ancorada ao corpo físico numa percepção mais imediata da realidade, sempre que estamos despertos. E muita vez o cidadão comum traz consigo reminiscências do plano astral assim que desperta após uma boa noite de sono: a recordação dos sonhos é nada mais nada menos que a experiência desse segundo lastro, como aquele de um balão. Já o corpo causal encontra-se diluído à matriz da realidade última, e por ser extremamente fluido, é capaz colapsar ideias em eventos futuros ou pretéritos. São movimentos nesse universo dos fenômenos onde atuam os homens-santos, quando realizam o que popularmente chamamos de milagres.”

“Existe uma técnica para fluir conscientemente na fonte imanente da realidade última. Aquilo que os antigos iogues buscam em profunda meditação, o estado de samadhi [3].” Extremo relaxamento, um semblante de paz, suspensão das necessidades fisiológicas – respiração, alimentação e dos batimentos cardíacos – aparecem como epifenômenos do iogue em samadhi, cuja experienciação é sempre descrita como experiência sublime, além do poder descritivo da palavra. Coisa bem diferente é tentar descrever os mecanismos naturais subjacentes a esta prática, objeto de estudo da engenharia da mente.

“Soubemos que Sergei Korolev e sua equipe monitoravam de perto Yoko Ono e John Lennon com uma complexa parafernália radiofônica, porque já houvera sido comprovado que nesses movimentos do corpo causal, trocas mais eficientes entre pessoas, são significativamente potencializadas quando existe o forte vínculo do amor. E John e Yoko eram muito ‘ligados’, mas descartamos veementemente a hipótese infundada de que Mark Chapman [4] tivesse agido a mando da KGB. Fato é que, quando do assassinato, os cientistas soviéticos em ME perderam o contato com John. Sergei Korolev acreditava que, mapeando as ondas cerebrais de Yoko, pudesse rastrear o espírito de John no plano astral, através de um intrincado algoritmo matemático valendo-se da transformada de Fourier [5]. Ele pretendia com isso demonstrar a sobrevivência do espírito, a existência de vida após a morte. Mas infelizmente ele falhou por uma escolha inadequada do corpo de prova: John Lennon jamais reencarnou!”

Aparentemente de difícil compreensão, estes movimentos do corpo causal são bastante simples de se entender através da simples analogia com a propagação de uma onda. Imagine que você arremessa uma pedra contra a superfície tranquila de um lago. Ondas concêntricas se expandirão a partir do centro em cristas e vales. Se imaginarmos que o lago é a matriz última da realidade, então todos nós estamos imersos nesse mesmo fluido cósmico. Um iogue em samadhi é capaz de irradiar ondas concêntricas a partir de seu lobo frontal alterando a superfície do lago, o que seria equivalente ao colapso de eventos no espaço-tempo (morada do corpo físico). Um homem-santo seria capaz de emular a frequência da expansão de suas ondas causando a interferência no campo de um enfermo e realizar a cura instantaneamente. As pessoas que se amam verdadeiramente (estão ‘ligadas’) realizam trocas mesmo à distância, porque suas ondas se propagam na mesma frequência e compõem juntas. Mas para isso tudo, é preciso elevação. O homem submerso na matriz última da realidade, no fundo do lago, fortemente ancorado ao seu corpo físico, tem pouca ou nenhuma chance de colapsar ideias em eventos. “Por isso eleva-te, caminha sobre as águas.”

“Desde 2007 estamos monitorando as ondas cerebrais emitidas por Ram Bahadur Bomjon, ou Palden Dorje [6], nome budista do jovem mundialmente afamado por passar dias e noites em profundo estado de transe, meditando pela salvação humana, pela salvação de todos os seres vivos e a paz neste nosso planeta. Palden Dorje possui imensa capacidade de abstração, facilmente se desligando dos vínculos com o seu corpo físico, ele permanece a maior parte do tempo em estado de samadhi, cessando sua respiração e os batimentos cardíacos. Entretanto, é neste estado limite que observamos a emissão de potente energia em alta frequência originária de seu lobo frontal. Ondas concêntricas a se expandirem. É por isso que Palden Dorje foi selecionado pela NASA como corpo de prova para o seu projeto em ME.”

O oficial disse que Palden Dorje tem a capacidade de desmaterializar-se e subitamente reaparecer em outro ponto do planeta. “Entretanto, com nosso moderno aparato de rastreamento, é possível mapearmos com grande precisão a localização de Palden Dorje através de sua assinatura pessoal de emissão no espectro de frequências.”

O oficial da NASA disse que o jovem “conversa” com as árvores, os animais, entes dos reinos vegetal, mineral ou animal. “Não é propriamente uma conversa, é a fusão no plano astral que permite fabulosa troca de informação ou, como denominam os místicos, integração cósmica. Tudo isso é captado pelas nossas antenas, os sinais são armazenados para posterior análise dos especialistas.”

“Sabíamos que estávamos a poucos passos de uma descoberta de vulto em engenharia da mente.” No dia 17 de outubro do ano de 2013 Palden Dorje materializou-se sobre o Palácio da Alvorada. Ele estava em meditação profunda quando observou um besouro robusto, um escaravelho [7]. Segue transcrição da “conversa” travada entre jovem e besouro, já decodificada pela NASA:

– O que está fazendo aqui meu jovem?

– Estou meditando pela paz nesse belo país que é o Brasil. E você, caro besouro, o que faz em cima dessa montanha de concreto?

– Fui mandado para cá como forma de expiar carmas de minha vida passada. Disseram: “Vá lá ver a merda que estão fazendo no Palácio da Alvorada.”

– Qual o seu nome, caro besouro?

– Oscar Niemeyer [8], noutra vida eu vivi como ser humano ao longo de 104 anos!

– Muito prazer meu caro Oscar Niemeyer. Soube mesmo que pela lei natural todo o idoso reencarna como um ex cara velho. Meu nome é Palden Dorje.

– Muito prazer, caro jovem Palden Dorje. Cazuza, Cássia Eller, Jimi Hendrix, Elis Regina, John Lennon… os bons morrem antes!

– Sim meu caro, por isso dizem: Criança quando deixa essa nossa Terra vira anjo. Elas rompem o ciclo de sucessivas encarnações.

Ao final de nossa entrevista perguntei ao oficial da NASA se ele tinha algo mais a acrescentar, alguma frase ou pensamento para a reflexão, ao que ele me respondeu em alto e bom som: “Agora durma com essa, vovô!”

 

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Sergei_Korolev

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Blavatsky

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Samadhi

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Mark_Chapman

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Transformada_de_Fourier

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Palden_Dorje

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Escaravelho

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer

 

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A dança antes da chuva

fevereiro 15, 2014

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Dizem pouco e sabem tanto

os colapsos da Terra

dos seus progressos,

intercalados, tem fé,

desses instantes todos

somados: 4 7314 d4 v1d4.

   

Existe uma confusão de papéis,

uma queda para retornar mais forte,

e o auge disso é o calor.

Chega aos poucos com secura,

para depois ferver água quente,

qual milho verde ou cenoura

– ainda assim, v4l3 4 p3n4.

   

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no teatro da vida.

A pena de vocês é grande

como ramalhete arrancado da terra.

A vida é travessia pelas sendas

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e o teatro é dos artistas.

Ubermensch

fevereiro 10, 2014

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 Noite passada eu sonhei que era Você e decidi descrever a experiência.

A primeira imagem que me veio à mente foi a de um menino nu preso por um cadeado de bicicleta ao poste numa esquina qualquer do Rio. Calor, muito calor e humilhação. Depois, para refrescar, árvore à frente, a terceira vértebra quebrada numa descida rápida de esqui nos Jogos de Inverno em Sochi.

Se o sinal se fecha, é porque existe o cruzamento de vias a frente. Dualismo, observador e observado, sujeito e objeto. Quando o sinal ficou vermelho para mim? Quando o sinal ficou verde para Você? Será possível definirmos com precisão estes limites se nossos veículos têm velocidades diferentes? Isso vai dar merda; alguém bota a língua de fora. Relatividade. Saco o meu facão e corto o seu pescoço. Afinal, eu estou com a razão. Sua mulher chora; ouço-a entre soluços: “Discutir no trânsito não vale a pena”. Como é louco o universo onírico. Outra quebra.

Descontinuidade. Ciência, tecnologia, economia de escala. Muita informação e pouco conteúdo. Eu tenho de me desdobrar cada vez mais para sustentar o mercado. Cartão de crédito, i-pad, fast food, x-box, rodo anel, tv de plasma e banda larga: tudo isso para a minha comodidade. Por mais que eu trabalhe, me esforce, ninguém explica os porquês ou pra onde é que estamos indo. Por quê?

Mais um fragmento. Os três poderes vergonhosamente a se digladiarem no horário nobre; uma espécie de big brother às avessas. Eu assisto em tempo real a um desfile de mazelas elevadas às altas esferas da aristocracia. Espalham luxúria, ira, orgulho e inveja por todos os lados.

Pausa para a reflexão. Para o meu alívio ainda posso tomar umas cervejas depois do trabalho. Neste sonho existe ainda a realidade ampliada, os jogos eletrônicos e os ambientes virtuais. Eu posso ser outra pessoa – herói, vilão ou magnata. Três salves para Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg! Eles deram asas a minha absoluta incapacidade de imaginação. (Sonho dentro do sonho).

E foguete nas costas do cinegrafista é diversão. Preocupação com a minha segurança: o que será do Brasil se perder a copa? Por isso, créditos ilimitados à Fifa e amplos poderes ao Felipão.

Eu concordo com Você quanto ao desejo de potência de Nietzsche. Isso explica também a minha aspiração à Ubermensch. E este louco devaneio avaliza todo o espectro de possibilidades da conduta humana – para além do bem e do mal.

Mas eis que eu me deparo com o Fuhrer, que eu julgava morto. Ele aplaude qual Charles Chaplin, ovacionando as passadas velozes e saltos amplos de Jesse Owens. Quero crer que não estou sonhando, belisco o meu antebraço esquerdo com a mão direita. Sim, estou bem desperto!

Pergunto ao colega sentado do meu lado no estádio o que é que está se passando? Um Telê Santana sorridente me responde que é isso mesmo; a seleção de 82 é aquela dos sonhos, apesar da falta de um matador, pelo seu futebol arte desde que o sentido de sucesso fora expatriado ao âmbito transpessoal.

 – Você não assistiu àquela entrevista do Jô com o cara magrelo, de bigode, narigudo, vestido somente de tanga e estranhos óculos de armação circular? Fiquei pasmo de que, com tantos recursos, eu andasse por aí tão desinformado. Além do mais, esse cara devia ser feio para caralho.

 – Sim, foi ele quem difundiu esse sonho de persistência na verdade. Ele também denominava aquelas suas ideias de força do amor ou força da alma. O magrelo era convicto de que na busca pela verdade não era admitida a violência sobre o oponente, mas que este devia ser demovido do erro pela paciência e pela compaixão. Porque inicialmente aquilo que parece ser a verdade para um pode parecer o erro para outro. E a paciência é um exercício de auto-depuração. Então essa conduta veio re-significar o clamor pela verdade através, não da imposição de depuração ao outro, mas a si mesmo.

 – Você se lembra de quanto o Gordo gritava: “Bota ponta, Telê?” É mais ou menos isso.

Aquilo me soou familiar e esbocei um sorriso. À sensação de compreensão súbita sobreveio o desmoronamento do dualismo. Fusão do sujeito com o objeto, cessação da diferenciação entre acima e abaixo, uma confusão danada das ideias, por fim, o colapso da alma no corpo.

Despertei estupefato sem entender picas.

Noite passada eu sonhei que era Você, mas desisti de descrever a experiência.

Será que vamos nos entender um dia?