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É isso aí, Mano

setembro 3, 2017

   

Nestes dias em que tenho frequentado muito o LinkedIn em busca de uma oportunidade de trabalho, observo a avalanche de charadas matemáticas imbecis. Infelizmente, temos de conviver com isso. Com estas pessoas simplistas que acreditam que porque você é capaz de resolver tais e quais charadas, você é genial; e, caso não cosiga resolvê-las, você não passa de mais um medíocre.

    

Vale lembrar que medíocre é aquela criatura de pensamento mediano, vale lembrar que se espera que a média das pessoas consiga um trabalho num intervalo de tempo razoável, médio, comum, medíocre; entretanto, nem sempre isso acontece. Logo, vale nos questionarmos se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. (Estamos mesmo caminhando rumo ao Sol?) E também quanto ao nosso preconceito. O cidadão comum não é, necessariamente, melhor nem pior do que eu, ou você. Ele está apenas na média.

    

Mas para tudo há limites e, para mim, o limite foi ultrapassado pela charada de Penny (ou a charada das 5 crianças). Isso porque não há pergunta, não há matemática e não há charada. Como na filosofia Zen, a verdade é autocontida. O tudo é igual ao nada. E, especificamente na charada de Penny, não há nada a se fazer, senão a perda de tempo.

   

Voltando àquilo que foi dito no primeiro parágrafo, eu acredito que a inteligência pouco tem a ver com a habilidade de se resolver problemas matemáticos e de lógica complexos apenas. Eu “acho” que a inteligência é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais; logo, interdisciplinares e que atendam ao bem comum. Isso é a inteligência para mim.

    

Quando eu vejo o Presidente da República dizendo na TV que o Ministério da Fazenda “estuda” aumentar os impostos sobre os assalariados para alcançar o equilíbrio entre as despesas e as receitas do Estado eu imagino o quanto o governo age de forma não inteligente (colocado assim, para evitar um palavrão), porque claramente se vê que, apesar de ser uma solução simples, esta não é uma solução natural; se trata ainda de uma solução tendenciosa (não interdisciplinar) e tampouco atende ao bem comum. Apenas um exemplo, dentre vários.

    

No mundo corporativo, a filosofia “Go Horse” é o que melhor traduz essa ideia absurda de que se juntarmos uma equipe de especialistas – usado como sinônimo de pessoas inteligentes ou capacitadas – chegaremos a uma solução inteligente. Pode ser, mas não sob a minha ótica. Talvez eu seja medíocre. Talvez eu seja mesmo um imbecil, por insistir tanto nisso.

    

A inteligência – em minha opinião – é o ponto de intersecção das diferentes disciplinas: a matemática, a física, a química, a biologia, as línguas, as ciências sociais e humanas, a filosofia, a história, a geografia, o direito, a economia, as artes e a medicina. A inteligência, colocada dessa forma, é a arte da síntese (ou alquimia). De novo: é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais. Estas soluções são necessariamente interdisciplinares e atendem ao bem comum.

    

Ante qualquer solução que atenda aos interesses de minorias deveríamos nos questionar se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. Porque ainda que você seja um “Horse” – um especialista – “Do Not Go”: pense, reflita, antes de sair em disparada!

    

Lembre-se, enfim, que ainda que a sua bússola esteja prontamente aferida, você não tem o direito de passar por cima de tudo e de todos, e que os fins “Do Not” justificam os meios. Lembre-se que, aqui no Brasil, o Oceano Atlântico fica na direção Leste; i.e., rumo ao Sol nascente. Lembre-se que as águas de um rio fluem através do seu leito, contornando as encostas escarpadas, indo sempre em direção ao mar. Esta é a sabedoria das rochas pontiagudas transmudadas em seixos – um conhecimento natural (muito distinto da mediocridade).

    

E, para terminar, uma boa charada matemática. Para quem tem habilidade e gosta de se divertir com a matemática, sem nunca confundir isso com a inteligência num sentido mais amplo:

    

Se 2 está para 2, assim como 3 está para 10, 5 está para 12, 7 está para 21 e 11 está para x. Qual é o valor de x?

    

Deu para entender?

novembro 5, 2016

   

Qual é a relação entre os números 3, 4, 4.35, 7 e 12?

3) A duração em meses de cada estação do ano.

4) Cada uma das estações do ano.

4.35) O número médio de semanas no mês.

7) São os dias da semana.

12) O número de meses no ano.

365) Deu para entender?

   

   

Monstro matemático

julho 24, 2014

monstro_matematico

Anthony Burgess – o autor do livro “Laranja Mecânica”, eternizado pelo impactante filme de Stanley Kubrick que leva o mesmo nome – procura explicar as razões de seu livro no ensaio “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, escrito no ano de 1973. E ele começa muito bem:

“BURGESS: Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpinteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismo com palavras, como se estas fossem bolas coloridas.”

A seguir o autor nos relata que, eventualmente, o romancista é chamado para dar a sua opinião sobre “coisas sérias” ao seu público. A partir daí Burgess descarrega um grande volume de referências oriundas das mais diversas disciplinas – passando pela religião, filosofia, psicologia, sociologia e a política – na tentativa de coser uma veste lógica para o seu brilhante “Clockwork Orange”. Dentre essa miríade de argumentos o autor faz menção a dois de meus romances prediletos: “1984”, de George Orwell e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Parece-me mesmo que o seu anseio era aquele de compor a partir destes fragmentos um mosaico ainda mais grandioso, que elevasse o seu livro à altura de espécie de Cabala; e o título do ensaio reforça essa ideia: “A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal”, wow!

Anthony Burgess não foi o primeiro e nem será o último caçador do Graal Sagrado ou da Equação de Tudo pela via da racionalidade. E quantos são os exemplos nessa segunda década do terceiro milênio! Serão os neurocientistas, os físicos e os geneticistas astronautas?

Outro caso de estudo, este bastante recente: O psicologista e PhD Bruce Hood, especialista em neurociência, acaba de lançar seu livro “The Self Illusion: How the Social Brain Creates Identity”. Vejamos o que nos diz a sinopse da obra:

“Most of us believe that we are an independent, coherent self – an individual inside our head who thinks, watches, wonders, dreams, and makes plans for the future. This sense of our self may seem incredibly real but a wealth of recent scientific evidence reveals that it is not what it seems – it is all an illusion.”

E numa de suas entrevistas, este autor relata-nos o seguinte:

“HOOD: I think Nietzsche’s nihilism and Woolf’s depression could have been reflections of their intuitive understanding that the richness of experience must be made up of a multitude of hidden processes and that the core self must be an illusion – and maybe that upset them. But I don’t think appreciating that the self is an illusion is a bad thing. In fact, I think it is inescapable. My critics often dismiss my position as too reductionist or too materialist. Well, if the human condition it is not materialist, then an alternative good explanation must be non-materialist. Show me good evidence for souls and spirits and then I will be forced to change my view. But so far there has been no reliable evidence for souls, ghosts or supernatural entities that inhabit bodies. They are conspicuous by their absence. In contrast, we know that if you alter the physical state of the brain through a head injury, dementia or drugs, each of these changes our self. Whether it is through damage, disease or debauchery, we know that the self must be the output of the material brain.”

“LEHRER: If the self is an illusion, then why does it exist? Why do we bother telling a story about ourselves?”

“HOOD: For the same reason that our brains create a highly abstracted version of the world around us. It is bad enough that our brain is metabolically hogging most of our energy requirements, but it does this to reduce the workload to act. That’s the original reason why the brain evolved in the first place – to plan and control movements and keep track of the environment. It’s why living creatures that do not act or navigate around their environments do not have brains. So the brain generates maps and models on which to base current and future behaviors. Now the value of a map or a model is the extent to which it provides the most relevant useful information without overburdening you with too much detail.”

“The same can be said for the self. Whether it is the ‘I’ of consciousness or the ‘me’ of personal identity, both are summaries of the complex information that feeds into our consciousness. The self is an efficient way of having experience and interacting with the world. For example, imagine you ask me whether I would prefer vanilla or chocolate ice cream? I know I would like chocolate ice cream. Don’t ask me why, I just know. When I answer with chocolate, I have the seemingly obvious experience that my self made the decision. However, when you think about it, my decision covers a vast multitude of hidden processes, past experiences and cultural influences that would take too long to consider individually. Each one of them fed into that decision.”

Bacana. Concordo quando ele diz que o valor de um modelo está na sua capacidade de prover boas respostas a partir de um número reduzido de variáveis de entrada. Isto é o mesmo que afirmar que a melhor solução para um problema é aquela tão sintética quanto possível e, por consequência, a mais simples. Agora, doutor Hood, isso leva por terra toda a sua argumentação posterior quanto à complexidade de sua preferência pelo sorvete de chocolate. E será realmente preciso, apenas por causa disso, aniquilar toda a singularidade do indivíduo, enquadrando-o num verdadeiro modus operandi comportamental? Não seria mais natural (e humano) entender simplesmente que os indivíduos têm necessidades, anseios, medos e interesses distintos? Enfim, será que ainda posso tomar o meu sorvete de baunilha?

Eu me chamo Jorge e sou um escritor pouco conhecido – muito diferente de Burgess, de Huxley ou de Orwell; os quais admiro imensamente – mas estou satisfeito com as minhas limitações, possibilidades de escolha e seus naturais desdobramentos. Mas não sou, definitivamente, um ponto na curva de um gráfico.

Apesar de enorme esforço científico e do inegável avanço tecnológico, parece-me que a razão começa a mostrar suas limitações para o tratamento de questões realmente profundas e essenciais à nossa natureza. Afinal, permanecem os antigos problemas sem uma solução determinística: De onde viemos? Para onde vamos? Quem somos nós? Qual o propósito da vida?

E para tudo isso, nada melhor que uma metáfora: Somos como aquela criatura indefesa que caminha na prancha, presa de um lado no convés do navio e com a outra extremidade livre em direção à imensidão azul. Há o pirata de um lado a impulsionar-nos para fora, com sua espada em punho. Ele é bom ou ele é mau? Podemos tecer analogias relacionando o pirata com o demônio e a imensidão azul com o paraíso. Mas será que isso está correto? Por que será que a grande maioria de nós não se decide por saltar da prancha logo de uma vez e continua suportando as agruras da vida?

A Teoria das Cordas surgiu da lida dos físicos contemporâneos com uma dessas questões difíceis de responder, obviamente no tocante aos fenômenos naturais básicos envolvendo matéria e energia. O arcabouço da teoria vem demonstrando sua validade científica, o que significa que atende o pressuposto determinístico. Entretanto afirmam muitos se tratar de um modelo bastante complexo para a realidade das partículas elementares, colocando-se a maneira de um conhecimento hermético.

“Os escritos herméticos são uma coleção de 18 obras Gregas, cujas principais são o Corpus Hermeticum e a Tábua de Esmeralda, as quais são tradicionalmente atribuídas a Hermes Trismegisto. Estes escritos contêm os aspectos teóricos e filosóficos do Hermetismo em seu aspecto teosófico. O período bizantino é marcado por outra coleção de obras herméticas, que também são relacionadas a Hermes Trismegisto, e contêm uma tradição hermética popular a qual é composta essencialmente por escritos relacionados à astrologia, magia e alquimia.”

Curiosamente parece que o ritmo de avanço das ciências puras esteja dando sinais claros de seu esgotamento na mesma medida em que as teorias contemporâneas vêm de encontro aos conhecimentos místicos ancestrais. A química, por exemplo, que há muito se diferenciou da alquimia, segue o seu caminho de retorno em direção a esta – graças a supramencionada Teoria das Cordas. Fato é que o conhecimento simbólico carrega grande poder de síntese, estando diretamente relacionado aos processos, ao fluxo dos fenômenos naturais, ao invés de propriamente às funções específicas. Esse tipo de simbolismo está na base de inúmeros avanços recentes da computação científica, por exemplo. E volta a ter mais valor a capacidade de abstração e de estabelecer conexões entre conceitos que o grande acúmulo de informações específicas – afinal, isso você já pode carregar num pen-drive!

Estes limites no avanço das ciências básicas são como assíntotas. Uma assíntota é um ponto de entrada de uma função contínua para o qual a saída tende ao infinito (ou a menos infinito). Relacionando muito simplificadamente este conceito matemático aos fenômenos físicos, podemos dizer que ultrapassar um ponto assintótico requer um dispêndio imenso de energia. E sabemos que os organismos complexos na natureza tendem ao comportamento de mínimo consumo energético – sendo caracterizados pela sua capacidade de manutenção em pontos de equilíbrio estáveis.

Eu não sou, definitivamente, um ponto na curva de um gráfico. Mas se eu fosse, estaria navegando numa cela – num ponto de mínimo – entre duas cristas de uma onda. Interessante esta denominação ao ponto de mínimo: a cela, que também é sinônimo de prisão, caracteriza o ponto de equilíbrio estável de uma função periódica; isto é, de uma onda.

O poeta é um artesão das metáforas. Prossigamos…

Já foi muito explorada nas artes a condição humana atrelada a esta nossa esfera celeste (ponto de mínima energia?), sobre a força da gravidade que nos prende a Terra; também sobre o corpo enquanto prisão da alma (e esta, por sua vez, seria a morada do espírito livre). É ancestral o anseio do homem de alçar vôo!

Talvez os nossos corpos estejam atrelados ao espaço-tempo numa configuração estável, à cela de uma dada freqüência de onda. Fato é que não atendemos a uma função específica (sequer conhecemos o sentido da vida!), mas nos desdobramos em múltiplas atividades (ou funções). Assemelhamo-nos muito mais aos processos, aos esquemas de fluxo da natureza: a massa e a energia traspassam-nos; são incessantes através dos nossos corpos os ciclos de alimentação e de excreção, de inspiração e de expiração, de sono e de vigília, de menstruação nas mulheres, de nascimento e de morte das nossas células – apenas para citar alguns desses fenômenos cíclicos, de natureza pulsante, vibratória. E, por fim, estamos nós mesmos inextricavelmente subjugados à falência de nossos próprios órgãos; sendo a exaustão do corpo físico inevitável num período da ordem de grandeza de um século.

Somos como aquela criatura indefesa que caminha na prancha, presa de um lado no convés do navio e com a outra extremidade livre em direção à imensidão azul. Há o pirata de um lado a impulsionar-nos para fora, com sua espada em punho. Ele é bom ou é mau? E afinal, por que será que a grande maioria de nós não se decide por saltar da prancha logo de uma vez e continua suportando as agruras da vida?

Talvez seja de pouca importância saber de onde viemos (tomar o navio, conquistar o mundo) ou para onde vamos (mergulhar na imensidão azul, morrer). Talvez este seja o indício de que o barato está exatamente em nos equilibrarmos sobre a prancha. Nessa viagem (nessa nossa freqüência) o bem e o mal servem de pano de fundo, representando polaridades opostas. Refletindo sobre o ser humano a luz de um processo, essa diferença de potencial gerada pelas polaridades opostas é de importância fundamental para a dinâmica, para os fluxos de massa e de energia, viabilizando o movimento.

Ei, alguém aí falou em movimento, em atividade, em estímulo, em “preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência”?

“Arte (do latim ars, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada as manifestações de ordem estética ou comunicativa, realizada a partir da percepção, das emoções e das ideias, com o objetivo de estimular as diferentes instâncias da consciência; dando um significado único e diferente para cada obra. A arte se vale para isso de uma grande variedade de meios e materiais, como a arquitetura, a escultura, a pintura, a escrita, a música, a dança, a fotografia, o teatro e o cinema.”

“Considera-se que no início da civilização a arte teria principalmente funções mágicas e rituais, mas ao longo dos séculos e das diferentes culturas tanto conceito como função mudaram de maneira importante, adquirindo componentes estéticos, sociológicos, lúdicos, religiosos, morais, experimentais, pedagógicos, mercantis, psicológicos, políticos e ornamentais, entre outros. O conceito de arte continua hoje em dia objeto de grandes debates, e permanece, a rigor, indefinido. A palavra também é usada para designar simplesmente uma habilidade ou talento especial, como a ‘arte médica’, a ‘arte da pesca’, et cetera, mas na bibliografia especializada designa geralmente atividades que têm características criativas e estéticas.”

Creio que decorre daí a minha predileção pela arte com relação às demais atividades de caráter objetivo. Isto não significa que eu menospreze a importância de todas as demais atividades humanas, principalmente àquelas que são essenciais à manutenção da vida. Simplesmente eu prefiro o sorvete de baunilha àquele de chocolate; e não venha você me dizer que não passo de mais um ponto na curva do seu gráfico!

“…” – os excertos entre aspas foram extraídos do inconsciente coletivo internético.

Garrafa KS

agosto 31, 2011

Quem toma tranquilamente a sua Coca-Cola super-gelada numa garrafa KS para se refrescar, ou simplesmente espairecer quanto às demandas do quotidiano, não sabe da avalanche de significados intrínsecos nesse tipo, ora usual, de embalagem.

Mitsugi Ohno nasceu em 28 de Junho do ano de 1926 em Bato-machi, Tochigi-ken, no Japão. Seus pais cuidavam, à época, de uma fazenda de arroz em Bato-machi e o pequeno Mitsugi foi o terceiro de um total de sete filhos do casal. Ele graduou-se em seu curso elementar em 1939 e, devido a sua natureza rebelde, seus pais enviaram Mitsugi para Tokyo, onde seria aprendiz de seu tio, que havia então adquirido a Companhia Takagi de instrumentos científicos em vidro.

Durante a guerra Mitsugi trabalhou também como soprador de vidro no departamento de pesquisa da Divisão de Suprimentos de Medicinal Naval, reportando ao Tenente-Comandante Yanagida. Seu aprendizado encerrou tragicamente no dia 10 de Março do ano de 1945: a fábrica de vidro foi queimada e seu tio morto, num grande bombardeio sofrido pela cidade de Tokyo na Segunda Grande Guerra. Mitsugi, então com 19 anos de idade, retornou para a fazenda de seus pais, onde permaneceu por dois longos anos.

No ano de 1947 ele retornou para Tokyo para trabalhar como soprador de vidro no Departamento de Química na Universidade de Tokyo, a convite do então Professor Yanagida. Mitsugi fez amizade com os estudantes da graduação que, na época, eram aproximadamente de sua idade. Certo dia, numa reunião com esse grupo de amigos, disseram para ele que seu temperamento seria muito mais adequado para a vida na América. E daí surgiu a ideia de Mitsugi emigrar para os Estados Unidos, juntamente com sua esposa Kimiyo e seus filhos; o que ele acabou por realizar no dia 05 de Fevereiro de 1961, aos 35 anos.

Ele foi acolhido na Universidade Estadual de Kansas pelo Professor Alvin B. Carwell que lhe ofereceu a posição de soprador de vidro, onde Mitsugi teve a oportunidade de desenvolver grande parte das vidrarias usadas por eminentes físicos e químicos que passaram por aquela renomada universidade.

Mas Mitsugi tinha lá suas idiossincrasias. Nas horas vagas ele se ocupava de produzir esculturas de vidro de prédios históricos e navios famosos em escala reduzida. Suas esculturas de vidro eram realmente notáveis, extremamente ricas em detalhes. E Mitsugi tornou-se conhecido na Universidade de Kansas por alardear: “Tudo aquilo que pode ser produzido com o vidro, eu sou capaz de fazer.”

Certo dia, o Professor Cardwell lançou-lhe um desafio: construir uma garrafa de Klein legítima em vidro. A garrafa de Klein foi inicialmente descrita no ano de 1822 pelo matemático alemão Felix Klein. Entretanto, sua denominação original era superfície de Klein – do alemão Kleinsche Fläche – que acabou sendo traduzida erroneamente por garrafa de Klein – do alemão Kleinsche Flasche –; sendo que essa última denominação acabou sendo largamente adotada e prevalente, mesmo na língua Alemã.

Na matemática, a garrafa de Klein é uma superfície não-orientável ou, informalmente, uma superfície na qual as noções de esquerda e direita, ou acima e abaixo, não podem ser consistentemente definidas. Outros objetos não-orientáveis incluem a tira de Möbius e o plano real projetivo. Enquanto a tira de Möbius consiste numa superfície com fronteiras, a garrafa de Klein, por sua vez, é caracterizada como uma superfície sem fronteiras.

A garrafa de Klein pode ser construída (no sentido matemático, porque esta não pode ser concebida fisicamente sem permitirmos que a superfície apresente uma intersecção com ela mesma) pela junção de ambos os lados de duas tiras de Möbius, como descrito pelo seguinte texto poético, cujo autor é desconhecido:

“Um matemático de nome Klein

acreditava que a tira de Möbius era divina.

Ele disse: ‘Se você colar

os lados de duas delas,

obterá estranho vaso como o meu’”

Após vários dias tentando, sem sucesso, conceber a garrafa de Klein com uma única abertura, Mitsugi declarou que o objeto seria impossível de fabricar em vidro. Mas eis que, algum tempo depois, a solução do problema foi revelada a ele num sonho; e Mitsugi correu para o laboratório para soprar o vidro e, finalmente, fabricá-la. Essa foi a mais complexa obra de Mitsugi ao longo de sua longeva carreira como soprador de vidro; e a superação do desafio foi motivo de grande orgulho para ele e para todos aqueles que tiveram o prazer de conviver com tão excêntrica figura.

Sua primeira versão bem sucedida da garrafa de Klein em vidro encontra-se em exposição permanente na Galeria Mitsugi Ohno da Universidade Estadual de Kansas (KS). Mitsugi faleceu pacificamente no dia 22 de Outubro do ano de 1999, enquanto dormia. E então, quando você for tomar tranquilamente a sua Coca-Cola super-gelada numa garrafa KS, lembre-se disso!

Armadilhas para panteras

janeiro 4, 2009

Bem, inicialmente é preciso mencionar que Panthera diz respeito a um gênero da família dos Felidae. Este é o gênero de aproximadamente metade das espécies da sub-família dos Pantherinae; e caracteriza aqueles animais cuja modificação no osso hióide lhes confere a capacidade de rugir. A palavra pantera é usada, portanto, para designar os grandes felinos.

 

Devido à pujança da pantera, há tempos a caça deste gênero animal exerce um fascínio singular ao ser humano. Resulta daí o clássico problema caça-predador, objeto de estudo de inúmeros pesquisadores.

 

Minha primeira armadilha para a caça da pantera era baseada numa abordagem indireta para a solução do problema. Foi quando desenvolvi as funções matemáticas de forma ortogonais, linearmente independentes, cujas variáveis representavam o espaço e o tempo para que pudessem ser mapeados os movimentos da pantera. Pensava, naquela época, que a utilização das equações da cinemática e da dinâmica multi-corpos aplicadas aos mecanismos de locomoção animal permitiriam o rastreamento da pantera, valendo-se da crescente capacidade de processamento dos computadores.

 

Tenho de admitir a grande dificuldade enfrentada na definição clara das condições de contorno adequadas ao problema, dada à fluidez dos movimentos da pantera, e também às mudanças bruscas (não-linearidades intrínsecas) do seu comportamento. Cheguei até a implementar um modelo que tratava a caça da pantera como um problema acoplado fluido-estrutura; incluindo os efeitos de interação do fluxo de ar da floresta nos movimentos da pantera através das equações de Navier-Stokes. Mas seria significante a influência dos equinócios? E como considerar este dentre outros efeitos gravitacionais dos corpos celestes no modelo original para o rastreamento da pantera?

 

Com todas estas questões abertas decidi pela mudança de abordagem – excessivamente teórica – para uma experiência objetiva de caça à pantera. Foi resultado deste segundo intento o projeto e a construção de uma zarabatana; a qual disparava o projétil sonífero e dosado para o repouso da fera. Capturada a pantera, acolhi-a em uma jaula confortável, com abundância de água e alimento.

 

Para minha surpresa, observei o comportamento insone da presa após o recobrar dos sentidos (que não eram os seus). O corpo físico da pantera estava lá. Também o seu corpo vital. Mas no que pensava a fera? Quais os efeitos sobre o seu corpo mental? Com o passar do tempo, seu corpo supra-mental – aquele que promove a integração dos contextos emaranhados – sentia os limites obtusos impostos pela restrição da liberdade e a pantera apresentou significativa redução do seu chi. Soltei a pantera. E ficou provado que, neste caso, a observação afetara a medida.

 

Depois de muito tempo intui que a caça de “toda a pantera” deve garantir a integridade dos seus corpos físico, vital, mental, supra-mental e sutil. Por isso eu trabalhei com os materiais simples: estas pedras rolantes dos leitos de cachoeiras; algumas folhas dos arbustos rasteiros, sobre as quais repousavam o orvalho da manhã; gravetos de outras árvores frondosas e centenárias. Tudo isto temperado pelo banho da lua cheia; ao longo de sete noites consecutivas. Na manhã do dia seguinte à magia, fui até uma clareira da floresta; dispus os elementos em círculo, num arranjo intercalado; e me posicionei ao centro dele.

 

Com o sol a pino surgiu a pantera faminta. Desde então fixei os meus olhos nos olhos dela. Devagar ela veio entreolhando-me até que tocássemos as nossas frontes. Como resultado dos nossos aparelhos ópticos dispostos a uma distância cada vez menor; fitava os olhos da fera a se colapsarem num único olho ciclope. Dentro dele eu pude enxergar a mim mesmo: o caçador da pantera. Tal experiência remetia ao simbolismo do Yin-Yang.

 

Compreendi, naquele momento, que nossa natureza é Singular. Eu sou o caçador da pantera. E a pantera é o predador do homem. Ela só existe através da consciência do homem; ao passo que o homem resulta da experiência com a pantera; enquanto a realidade nada mais é senão o precipitar das nuvens de possibilidades infinitas desse encontro. Aquele que permite ao fluido realizar o ciclo da vida.

 

Enfim, como sou caçador (e não poeta), deixo para os artistas a demonstração de que armadilhas para panteras são marcos ao longo do caminho que leva ao encantamento.