Mandinga de amor

maio 25, 2009

u m a s e q ü ê n c i a d e l e t r a s e s p a ç a d a s

p e r n a s d e g r i l o s

u n h a s d e l a g a r t i x a s

outodasaspalavrasescritasjuntas

línguasdemorcegos

folhasdaárvorequedámelancias

si-bas-la-em-ra-ba-das-lha

nis-de-pê-for-gas-mi

los-qui-de-sas-de-a-bé-lu-li-las

palavras seguidas

entre linhas trocadas

pra não haver dúvida do fogo brando

levar ao ponto de preparo

num tacho de sal grosso

areado com bronze

fim-en

in-den-pen-te-de-da-fi-di-da-de-de-cul-ten-der-en

p r a s e a m a r i n f i n i t a m e n t e

nãoháreceitamelhor

que-ma-u-a-bo-do-se-de

c o m p r e e n s ã o e c a r i n h o

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garrafa de Smirnoff e Gudang Garam mentolado

entra em casa cheio de si

prepara um cuba libre de improviso:

meia parte de coca zero, meia parte de vodca

parcos cubos de gelo

até a boca do copo de requeijão

acende o cigarro

procura pelo cd do Accept nas caixas da dispensa

onde reminiscências encontram-se acondicionadas

(para sua saúde mental)

não entende a lógica da transportadora para as embalagens

de seis meses atrás

amaldiçoa uma meia dúzia de criaturas

(brinca de deus)

dá de cara

meio que sem querer

com o volume da Análise dos Sonhos

que já dava por perdido

mas esta hora isso não faz o menor sentido

traga longamente o Gudang Garam

desfaz-se em cinzas

(como sua própria vida)

nenhum som que o agrade

o equipamento de vinil não está preparado para tocar

descarta do baralho suas melhores opções

como única escolha viável

o black álbum do Metallica salta aos olhos

mais um aperitivo nos mesmos moldes

mais um Gudang Garam

uma e meia do dia de amanhã

sete e trinta em ponto

têm de atender certa autoridade de nome Machado

(ou xará de outro escritor da língua portuguesa)

??? (de Queiroz)

com o qual já teve desavenças no trabalho

cai em si

a miséria humana é incomensurável

fim das expectativas de um super-herói

talhado a base da variedade das drogas lícitas:

o álcool e o fumo

a realidade é um pesado fardo que temos de suportar todos os dias

só então se dá contas de que Oz

não passa de um mágico de uma série de aventuras

apenas

“sleep with one eye open

gripping your pillow tight”

oz

Frango com quiabo

maio 11, 2009

Geraldo. Ele sabe como deixar uma mulher fora de si. E sua arte reside na improvisação de um repertório infinito; fractal; que ele constrói e desconstrói aos movimentos de língua. Às vezes quer me encontrar às mordidas. Meu pescoço mascado tal cana-de-açúcar. Outrora seus pêlos do rosto; barba sempre por fazer; passam rente às minhas costas; desde minhas nádegas até o céu da minha nuca; sem sequer as tocar por um único instante; num sobrevôo rasante; mínimo; que faz do meu corpo todo arrepio. Os meus seios ele aperta com as mãos cheias de dor. Depois os consola; acaricia com o bálsamo suave que guarda a sua saliva. Abre as minhas coxas e beija profundo o gineceu; a garganta do meu ventre. Chupa meu grelo como um alienígena (ou um tamanduá). E assim é que ele me deixa toda escorregadia. Geraldo morde, mastiga e rumina todo o meu corpo sem a piedade de um boi. Depois brinca com a sua espada dentro de mim. Ora ritmado; uma dança. Depois rápido; bruto; profundo. Ou-tra vez de-va-gar; en-tran-do e sa-in-do da fres-ta. Ele me parte ao meio. Por fim, me descarrega um raio; um relâmpago; toda uma tempestade dos sentidos que vem sei-lá-eu-de-onde. Diz Marta para Mãe Regina.

Mãe Regina. Cresceu da terra desde muito cedo; desde criança. Na vida ela ganhou; e perdeu muito também. Aprendeu com a experiência, com as quelóides, com as rugas e com as sardas que o tempo segue adiante; que os cabelos caem; que a dentadura deve dormir num copo com água, do lado da cama, para não ser pega de surpresa. Aprendeu a ler nas estrelas, nas fases da lua, numas pedrinhas pequenas, nalguns ramos de arruda, num baralho velho e sebento, numa meia dúzia de prendedores de cabelo que podem cair virados pra cá ou pra lá – que isso tudo já é mais do que o suficiente. Mas então, Minha Filha, qual é o problema?

Marta. O problema é que o pau dele tem a forma de um ponto de interrogação. Destes bem grandes. Ele fica preso dentro de mim. Não é assim no sentido literal. É no sentido das idéias. Eu só penso nele; no Geraldo. Mas não sei se ele pensa em mim. A Senhora me entende, Mãe Regina? Tenho medo de descobrir que ele brinca com as outras meninas.

Mãe Regina passa os olhos de baixo à cima em Marta. Mulher de vinte e dois anos. Pés bonitos. Pernas lisas; fortes; coxas grossas. Um traseiro empinado. Os peitos no tamanho certo. Destes que ficam eriçados à toa; por uma simples brisa; capaz de deixar os homens todos enfeitiçados num raio de cento e tantos metros. Os lábios vermelhos e suculentos; bochechas rosadas; olhar vívido e penetrante. Longo cabelo castanho e encaracolado. Mãe Regina faz uma conta rápida para avaliar qual a quantidade absurda de feromônios habitaria o corpo daquela jovem; analogia que ela aprendeu com um amante apicultor; acostumado a comparar mulheres às abelhas.

Joga uns badulaques em cima da mesa. Bate os olhos nas coisinhas espalhadas. Faz cara de concentrada; só pra passar impressão de pensativa. O homem é seu, Minha Filha, não tem de se preocupar.

Mas, Mãe Regina, e o peito espremido das inseguranças? As dúvidas todas por dentro?

Entendi. Minha Filha quer um trabalho que dê mais segurança. A coisa certa; arrumada pelo demo. Mas isso é mais caro, Minha Filha. O dobro do preço da consulta. Minha Filha precisa saber que homem desse não tinha no meu tempo. Tinha muito homem que parecia outro tipo de sinal de pontuação. Já vi muito ponto de exclamação. Desses que pega a gente de surpresa; vai direto à coisa. Mas depois logo acaba e ponto. Daí pra ponto e vírgula é um pulinho. E tem o mais velho que fica só no lambe-lambe; confunde as bolas: acha que dedo é de meter e pau é pra fazer carinho. Se eu fosse Minha Filha, deixava as coisas como vão; a dúvida bem lá dentro. Mas Minha Filha é quem sabe.

Eu tenho o dinheiro, Mãe Regina.

Minha Filha é quem sabe. Tem de esperar a lua cheia. Minha Filha tem de botar o homem doido; na secura. Fica só de calcinha; mas não deixa ele avançar no brinquedo. Faz ele esfregar toda a dúvida na calcinha; até espumar. Daí tira a calcinha; põe ela pra cozinhar junto com um frango e quiabo. Minha Filha sabe cozinhar? Tem de fazer o melhor prato que Minha Filha conseguir; bem temperado, por que é assim que o travesso gosta; mas lembra de não por pimenta. Daí Minha Filha deixa à noite no cruzamento; sobre uma toalha nova; deixa três pratos arrumados; decora com vela. Deixa também vinho e as taças pro tinhoso, que ele gosta.

Antonio, Jacinto e Jorge. Seguem calados pela estrada de terra batida; perto das dez da noite; indo pro bar.

O que é aquela luz ali no canto?

Vamos lá ver.

É comida boa e bebida.

Hoje eu me farto!

Geraldo. É noite de lua cheia. Geraldo parece agitado. Chegou mais cedo no bar e tomou uns tragos. Aguarda Antonio, Jorge e Jacinto pra sinuca de sábado. Eles estão demorando. Geraldo pede mais uma branquinha. Não deixa nada pro santo.

O jogo é de duplas: Antonio e Jacinto contra Jorge e Geraldo. Jorge e Geraldo ganham a primeira partida. Geraldo fica provocando os outros dois.

Jacinto. Eu aposto o pinto que Vocês vão perder no final!

Jorge. Eu não brinco com essas coisas.

Geraldo. Eu é que não vou perder pra nenhum desses bostas. Está apostado!

Antonio. (Segurando o pinto de Geraldo) Que pau grande!

Jacinto. Passa o facão rente ao corpo: arranca o pinto com o saco e os bagos. Bêbado; segura a cobra pela cabeça; gira ela no ar com a mão direita; dá uma gargalhada insana; que não pertence a esse mundo; arremessa longe; bem no meio do rio.

Geraldo sangrou sete dias, depois cessou – pareciam as regras de uma mulher. Aquilo o deixou pálido; emagreceu. Quando recuperou as forças, arrumou suas trouxas e deixou a cidade.

Marta. Eu fiz como a Senhora mandou. Mas acho que alguma coisa saiu errada, Mãe Regina. Já faz duas semanas que o Geraldo não aparece.

Mãe Regina. Minha Filha cozinha com pimenta?

Marta. Cozinho, Mãe Regina.

Mãe Regina. Meu São Jorge!