Dá pra perceber?

junho 29, 2019


Estive refletindo quanto ao sentido da vida. Obviamente, nada consegui concluir, dada a minha limitada condição humana. Mas persiste a analogia já batida de um bebê que vive ricocheteando nas minhas ideias. Talvez o objetivo da vida seja mesmo aquele da preparação para a morte. E não vale de nada o sujeito ficar reclamando que os recursos são escassos, que aqui é apertado, quente e não há ar puro o suficiente. O que precisa ser feito é viver bem, levar uma vida rica em aprendizados e preparação para a morte. Afinal, sabemos que já passamos por essa mesma transformação quando deixamos o ventre da mamãe. Tudo era doce e foi sublime no começo, na concepção. O solo já foi fértil e os recursos, um dia nos pareceram inesgotáveis. Mas ao longo de nove meses, tudo foi mudando. O líquido amniótico diminuindo, a impossibilidade dos movimentos. Mesmo depois de tantos chutes na barriga a mamãe não aliviou para você. E, quando você achou que iria morrer, você nasceu! Por que você acha então, que a Terra, essa mãe aumentada, iria deixar por menos? Ainda assim, e contudo, se você está lendo isso é porque fez o seu melhor e a mamãe soube cuidar bem de você, ainda que você ache que não.

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No futuro nao havera mais arvores
apenas concreto e pavimentaÇao
muitos seres humanos apinhados
em bairros com nomes de arvores.
No futuro os bebes imaginarao
que arvores sao bairros superpopulosos;
onde as folhas sao casas;
o caule, o tronco e os ramos
serao os caminhos das ruas e das avenidas
e as raizes serao rasas
murchas plantas esquecidas
ainda assim a seiva fluira
havera a fotossintese
e tudo mais que se imagina
através das redes cibernéticas
num outro tipo de floresta

<< dos vagalumes a iluminaÇao urbana >>

um funk

maio 26, 2019


a vida é um desenrolar e enrolar de línguas

coisa sobre a qual não se fala

sobretudo se o matuto está ao sol

e toma um vinho

a vida é cada um dos ponteiros do relógio

e o que você faz dela

enquanto não está atento a estes

pode ser o pior erro do rato

virar e fitar o gato

a poucos bigodes de vida

se você presta atenção ao sol

então daí acabou-se o vinho

torna a atenção para a poesia

antes que se acabe

ou se transforme num funk

em são joão da boa vista

 

 

BILHETE

maio 5, 2019

a SALA vazia de outras loucuras

a realidade a agredir os OLHOS

o SOM que vem daquele aparelho no canto da sala

a LUZ que já não é nem clara, nem escura

agora, ECLIPSE

AURORA ou crepúsculo

o instante INFINITO

que me ABRAÇA

seus SEIOS em minha boca molhada

minha BOCA no seu sexo

QUENTE

espero antes que eu me DEITE

que VOCÊ se deite

(( COMIGO ))

 

aquele gatinho

abril 16, 2019

         

sabe, aquele gatinho é lindo.

ele será adotado,

vai dar e receber muito carinho,

e, tendo realizado a sua trajetória,

um dia voltará para o céu dos gatinhos.

mesmo assim a história dele é única.

porque todo o gatinho escolhe o seu dono

e se desdobra para realizar o seu melhor ronronar.

do ponto de vista da ideia,

um gato será sempre um gato.

mas para cada dono,

mesmo que ele tenha muitos gatos,

apenas um gatinho toca a sua alma,

e, porque tem o ronronar que mais lhe agrada,

realiza o seu ideal do gato.

tendo sete vidas,

também o gatinho terá muitos donos.

mas para ele, cada dono é único,

porque tem um olhar diferente do mundo.

e, dentre os sete donos,

seis serão apenas donos,

mas apenas um será o dono ideal do gato.

 

felicidade

março 16, 2019

          
uma fagulha,
atrito,
uma coceira nas hélices dos dnas.
não em uma célula,
mas em todo o tecido
– ao mesmo tempo.
convenhamos:
uma coincidência das grandes!
e isso te ilumina.
alguém pergunta
<< 1n35p3r4d4m3n73 >>
como vai sua vida?
você sorri para uma criança,
ela sorri de volta.
na estrada
nuvens de chuva adiante,
um arco-íris a tua direita,
o por do sol no retrovisor.
você não sabe ao certo para onde a vida vai te levar.
só sabe o nome disso e quer que continue.
então faz o teu melhor
e confia em si.

desperta

março 13, 2019

metamorfose

março 12, 2019


quando eu era um bebê não era assim.
eu imaginava que era parte do todo que era a minha mãe.
e isso, por si só, era mais do que eu imaginei por muito tempo.
(mas não mais do que eu imagino agora.)
depois eu cresci e passei a me identificar comigo mesmo;
e ao outro, e ao mundo, como diferente de mim.
os cinco sentidos são assim:
portais para as trocas com o mundo externo.
e não foi só comigo, isso foi acontecendo com cada um de nós,
quando nos demos conta, já estávamos pensando, refletindo,
cada qual criou identidade própria, única, pessoal
– ao mesmo tempo miraculosa e assustadora.
quando a razão se instalou em mim
eu passei a viver na superfície das coisas.
nesse campo de batalha que é a morada da matéria,
do manifesto, da diferenciação e da impermanência.
porque você há de concordar comigo que aqui
tudo é cíclico, insustentável, e, no limite,
nunca nos entenderemos.
a lei da entropia garante:
cada um de nós retornará, a seu tempo,
ao estado de mínima energia.
ou você é água, ou você é fogo,
ou você é ar, ou você é terra:
e a razão pede que eu tome partido.
(mas se é verdade que há um liame
ao lado de dentro das coisas)
na planície há um lago onde sopra a brisa ao sol
que sempre será.
e se com uma lupa eu ampliar o seu cérebro
não restará nem vestígio da ideia
de tão separados os neurônios como
as estrelas do céu.
(mas se é verdade que há um liame
ao lado de dentro das coisas)
há uma convergência das linhas do tempo
para esse lugar.
o big bang das ideias está espalhado
mas é possível juntar os cacos dentro.
a todo momento que você for capaz
de submergir.
(existe esse lugar de integridade)
nada do que aparenta ser obtuso
é de fato irreconciliável
(na simples mudança de dimensão:
espaço íntimo do ser).

cabra-cega

fevereiro 17, 2019

     
muita vez aparento a força que eu não tenho.
eu me escondo covardemente no medo,
na angústia e nalguma preguiça.
eu deixo o verniz do ego
aprisionar a alma.
é quando eu não me banho de luz
na leveza, na humildade,
na compaixão para comigo mesmo.
eu me entranho na matéria
e eu me identifico com o corpo apenas.
mas quando raro o sentimento transborda
– rompendo a casca –
eu sou todo o palheiro
equilibrado sobre a agulha.
e não é preciso raciocínio
para eu me encontrar,
porque eu sempre estive,
só não estava
consciente.
           
(óleo sobre tela de Orlando Teruz)