Convalescença

dezembro 19, 2012

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Despertei com o estranhamento súbito de enxergar as auras. Algum efeito causado pela alteração visual do meu olho direito. Eventual flash de uma luz púrpura que envolvia os objetos e, principalmente, as pessoas.

Quando minha mãe morreu, deixou como herança a tristeza infinita de sua ausência. A nossa casa não era a mesma sem ela; meu pai, meu irmão e eu pusemo-nos num patamar distinto de comunicação, pautado em silêncios. A inexistência do som parecia-nos então natural ou, ao menos, a única condição viável. O ruído mínimo, ocasional, do choque metálico de um simples talher com o prato de porcelana desencadeava uma súbita desordem das ideias, que se desdobrava em insustentável troca de olhares de repreensão. Os olhares, sempre eles, a expressarem alguma coisa que, de tão grave, não cabia nas palavras.

Depois que ela partiu, o corpo de uma menina apareceu na parede da sala, dependurado no prego onde havia, até então, o quadro de um palhaço. A garota, aparentando pouco menos de dez anos de idade, vestia-se de roupas antiquadas, como aquelas da segunda metade do século passado. Ela tinha longo cabelo liso e negro, a pele pálida, e acompanhava o nosso vagar com aqueles seus olhos avermelhados e úmidos. Parecia chorar em silêncio. Passou dias ali, pregada naquela parede. Não pronunciava uma palavra sequer. Era esse o fato inusitado que agravava significativamente a estranheza daqueles dias.

Fato é que meu pai e meu irmão faziam vistas grossas à menina. Eu a via, mas por causa da alteração em meu olho direito, nada mencionei a respeito. Percebi que meu pai e meu irmão evitavam sequer fitar aquela parede. É bem possível que eles também a vissem. Pode ser que também sofressem de algum dano visual decorrente do trauma e, pelo mesmo motivo meu, evitassem tocar no assunto. Nunca saberei nada além do que descrevo nesse breve relato, porque a condição de luto estabelecida preconizava o mais absoluto silêncio.

Àqueles dias, saí poucas vezes de casa. O sol ofuscava a minha visão, chegava a ficar sem energias; é verdade que eu não vinha me alimentando bem. Algumas pessoas eu via rodeadas por imensa aura púrpura, com os raios de luz emanando do coração em linhas concêntricas que se tornavam difusas proporcionalmente a distância desse órgão, sabidamente pulsante e vital. Outras criaturas já não tinham essa característica: a extremidade de seus corpos era simplesmente delimitada pela superfície das suas carnes, sem qualquer alteração na luminosidade. Curiosamente os “luminescentes” caminhavam espaçados mesmo em meio à multidão, permitindo o trânsito livre de suas luzes. Os demais se permitiam uma maior aproximação. Isso me deixava ainda mais intrigado. Mas não cheguei a desenvolver especulação ou experimentos nesse sentido. Como adiantei, minha própria fragilidade impunha limites ao raciocínio, e me limito a descrever aqui essas percepções e imagens com a clareza e a isenção possíveis.

Eu estava só no quarto com minha mãe quando, em seus estertores, ela pronunciou a sua frase derradeira: Eu voltarei para vê-los. Essa fala, inesperada, causou a sensação de súbita compressão dos meus pulmões,  concomitante a uma corrente atravessando minha espinha ao desvanecer de sua vida. Tenho de confessar que, desde aquele instante, o ar me tem sido escasso. Apesar disso, não abandonei o meu hábito de fumar.

Não me considero sensível ou supersticioso, visto que não chorei em seu velório ou durante o enterro; assim como aconteceu com o meu pai e o meu irmão. Apenas – e aos poucos – aquele mutismo foi-se instalando em nossas vidas. Especialmente após retornarmos para casa.

Contavam quatro dias quando, pela manhã, encontramos minha mãe sentada ao sofá da sala, vestida de branco, onde costumava ficar com o gato em seu colo. Na parede, às suas costas, a menina pregada; os olhos ainda mais vermelhos e úmidos que de costume.

Ela nos disse que não estava gostando nada daquilo, daquela sua nova função e levou-nos para um passeio noutra residência onde, à semelhança da garota, era ela quem estava pregada à parede da casa, a velar pelos sombrios moradores. E então estava claro para nós três, do mundo dos vivos, que compartilhávamos daquilo tudo quanto não ousávamos conversar a respeito: a menina pregada, as visões e as sensações funestas.

Mas quanto ao que minha mãe alentava, em nada podíamos minorar o seu fardo, senão aquiescermos à presença da garota em nossas vidas – para todo o sempre.

Despertei encharcado em suor. O súbito estranhamento de enxergar as auras. Minha cabeça latejava de dor. Algum efeito causado pela alteração visual do meu olho direito. Senti-me, porém, infinitamente aliviado. O meu pai me acompanhou ao oftalmologista. Foi este quem diagnosticou o descolamento da retina. Não poderei escrever por uns tempos. Mas, enquanto eu dito, minha mãe digita ao computador.

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Prece ao Vento

dezembro 13, 2012

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A infalibilidade além dos meus domínios

Alguma coisa sobre a decrepitude

O erro e a fraqueza humanos

Fosso onde hei de habitar

Por detrás do manto de sisudo esquecimento

Sem espaço para a dúvida irresoluta

As tentativas vãs

Ou o acaso fortuito

Desaparecerei sem restar sombra

Quando o sol se for

Na penumbra dos dias

Entre devaneios e sonhos bestas

Carregarei o vazio imenso

Este sim o meu legado

Livre e leve ao vagar

Rastejarei, caminharei, correrei

Andarei e arrastar-me-ei novamente

Por tão pouco

Sina de criatura amorfa

Semeadora de morte

Às valas de pretenso cultivo

Os órgãos despedaçados por ilusões tolas

Vento da manhã

Peço apenas que lance ao mar minhas cinzas

Esse devorador de intenções salobras

Sejam elas boas ou más

Que eu possa ao menos

Descansar em paz

“há uma estrada ao norte de Santo Antônio de Pádua que não se encontra em mapas rodoviários, tratados cartográficos ou certidões de domínio.”

“são trechos indefinidos, frases interrompidas, incompreensões, símbolos. a única certeza é que a estrada muda.”

Eu conheci Sérgio Tavares no último dia 27 de novembro, por ocasião do lançamento de seu segundo livro “Queda da própria altura”, no Teatro Municipal de Niterói.

Sérgio Tavares é natural de Niterói – RJ, onde nasceu em 1978. É jornalista e escritor, autor de Cavala (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura, ano de 2009, na categoria conto.

“Queda da própria altura” traz sete contos ao longo de suas duzentas e quarenta e quatro páginas. Estes sete contos encontram-se aninhados em três movimentos, denominados respectivamente: “Impulso”, “Voo” e “Queda”. Cada um desses movimentos, por sua vez, contém um preâmbulo, resultando em contos adicionais. Apresenta-se, portanto, um total de dez textos, além de um breve epílogo.

Passei a semana toda em companhia de “Queda…”. Aprecio a leitura lenta, reflexiva, cuidadosa, atenta aos detalhes. Gosto de sublinhar minhas passagens prediletas e ir fazendo anotações ás margens. Confesso que, ao final do processo, eram tantos desses trechos; se fosse reproduzi-los aqui, este texto estaria mais para um resumo da obra do que propriamente um artigo sobre a mesma.

Os contos de Sérgio Tavares, narrados em primeira pessoa, têm como principais características a forte carga emotiva e o lirismo. Ao longo das narrativas as personagens revelam grande humanidade e suas impressões ante os eventos marcantes de uma existência comum – estas servem como poderosas âncoras para a identificação do leitor. 

A minha seleção de contos, em ordem decrescente, é a seguinte: “Hera”, “Ofélia”, “Evolam-se os barcos” e “Sono”. Mas sei que isso é muito pessoal. Fica a minha recomendação de que você faça a sua própria lista. 

“há uma árvore (se realmente há uma árvore é uma acácia-negra) que viceja em contratempo. registros afirmam que sempre aparece à margem direita da estrada, vaidosa, com os galhos tortos devido ao obstinado desvelo de não perder uma folha sequer.”

“num dia terrível de dezembro, quando o sol circunda a copa e projeta uma longa sombra à margem esquerda, abre-se um buraco negro que traga o descuido de quem, em queda livre, desaparece na memória das pessoas que prezam.”

“todas elas.”

Sérgio Tavares, Queda da própria altura, 244p, Confraria do Vento, ISBN 978-85-60676-59-0, Rio de Janeiro, 2012.

Exor sismo

dezembro 3, 2012

semelhança das estrelas. di

spostas no céu. gra

ndes distâncias separam as criaturas. duma

mesma essência. sua n

atureza intrínseca. asse

melhamo-nos muito mais ás vielas. de

caminhos labirínticos e mal iluminados. qu

e aquela noção pré-concebida. d

a auto-estrada. p

osto que as vias fáceis levam. se

não. ao

lugar comum. exer

cício bem diferente daquele de velar. por d

elicada planta. á pa

lma. cad

a um de nós traz linhas únicas. e

assim deve ser. n

ão que seja difícil. tr

iste. ou

austero como a caatinga. simp

lesmente. o ser

leva consigo. búss

ola e combustível. par

a a viagem. no

coração seu destino. o

s vidros escancarados. si

go conduzindo o meu veículo. e

m alta velocidade. á

       

Em homenagem aos três anos do Letras et Cetera