Regar as plantas

dezembro 26, 2011

The Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch

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Que morram as plantas, foi o que ele disse. Essa frase até poderia soar natural vindo da boca de outro; mas ele, aos noventa e sete anos de idade, ocupara-se da incumbência de cultivá-las desde o dia em que sua amada deixou de acompanhar-nos nessa viagem à crosta desta estranha pedra celeste, no ano de um mil novecentos e noventa e oito. Assim, as verdes folhagens que habitam a varanda da casa dele tornar-se-ão, aos poucos e gradualmente, tênues, amareladas, sem viço pela falta de água e dos demais cuidados despendidos a terra. Enfim, morrerão como todas as outras plantas que inexistem nas casas de outros velhos.

Antes dessa revelação desconcertante, conversávamos tranquilamente. Ele contava, por detrás de um sorriso enigmático, que passava alguns dias na casa de um de seus filhos, que quando esse primeiro se enfadava pela sua presença, botava-o num ônibus interurbano e mandava-o para outra cidade, onde outro de seus filhos ansiava por recebê-lo. Mas em breve, passados alguns dias, quebrava-se o encanto, num passe de mágica o seu segundo filho se sentia importunado, botava-o num transporte interurbano e mandava-o para uma terceira cidade. Essa sim, era sua morada, e as verdes folhagens aguardavam-no sedentas, saudosas, complacentes de sua companhia.  

De um sorriso imperceptível, que vazava mínimo de um dos cantos de sua boca, ele dizia que essa era sua rotina, a história de sua vida. E devido a esses e outros detalhes menores, não era possível inferir sobre a veracidade ou não daquilo que ele contava sendo, nessa última hipótese, reminiscência da mais fina ironia.

 

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Enquanto isso, noutra cidade, à varanda de uma casa singela, era puro o devaneio. Naquela tarde escaldante de verão, samambaias desciam, com os peitos de fora, a Marquês de Sapucaí. Cactos, com a barba por fazer, fumavam charutos, usavam óculos de Sol e fingiam ler o jornal para observarem, atentos, as curvas de uma bromélia a desfilar, em minúsculo biquíni, pela praia. Orquídeas faziam compras num shopping.

A papoula, o peiote e outras plantas psicotrópicas bebiam e fumavam demasiadamente.  Suspeitava-se que cola bebia café e cheirava coca à calada da noite, quando as vincas e as trombeteiras faziam serão na ala de oncologia de um hospital do SUS. Requisitaram o guaraná, com seus olhos esbugalhados, para averiguar, mas faltaram-lhe as provas. E por isso é que, todo o dia primeiro do ano, o maracujá deixa um ramalhete de flores para Iemanjá. 

As gramíneas querem o poder, não baixam os olhos dos indicadores da bolsa, passam a vida em busca de acumular riquezas, sem nunca terem mirado o próprio umbigo. Plantas carnívoras comem frango e arrotam peru, roncam enquanto dormem largadas nas redes. Malditas plantas egoístas. Mas nem em sonho superam a espada-de-são-jorge no tocante àquela sua loucura desmedida de fatiar a Lua, como se esta fosse queijo. Sorte grande é a das trepadeiras, gozam plenas das delícias desse mundo.

 

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Um silêncio paira no ar. As plantas são melhores que os seres humanos; deixo escapar alto, de minha boca, num pensamento. O segundo silêncio perpassa o ambiente. Sinto um calafrio percorrer a minha espinha. Arrependo-me do comentário até o último fio de cabelo. Não, não são; diz o velho, enfim. Mas é tarde e o processo, irreversível: o terceiro silêncio soa infinito.

Dias depois o velho toma novamente o ônibus interurbano. Ao chegar a casa, ele rega as plantas de sua varanda. Verdes folhagens. 

A vida habita inextricável o verde da matéria.

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