São João da Boa Vida

junho 29, 2009

– uma tentativa de alcançar a poesia borbulhante

LLembro das noites bêbadas entre as moléculas de idéias deixadas

OOutras merendas e oferendas em festas de São João

AAs noites lentas que passam através dos arcos e outras crendices de serra

AAs estrelas e os vulcões são coisas de Águas da Prata

SSe duvidar entende Poços de Caldas

TToma toda uma Aguaí

OO beijOO

g OO s t o s OO

d EE boa noitEE

EE q u EE n t EE

d OO c EE

OO d EE l EE i t EE

suplicas de amor

OO g OO z OO

enfim

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Durante toda a noite ouviam-se os rugidos dos grandes felídeos – as panteras – que habitavam aquelas cercanias. Lá fora as brumas, o frio e a chuva incessante. Vez por outra alguns desses animais arranhavam com suas garras às portas do pequeno castelo. Como se requisitassem o direito sobre a posse da fortaleza, bem como do sangue fresco que fluía quente das jugulares de seus resistentes habitantes. Outrora, duas ou mais feras se digladiavam em portentosos embates. Aqueles rugidos, aquela potência animal constrangia Dom Luiz. Fazia-o encolher por debaixo das cobertas. Sentia o frio da alma que insistia em habitar as entranhas de seu corpo aquecido. Olhos semi-cerrados: impossível se entregar ao son(h)o.

 

Junto à claridade da manhã cessavam os movimentos das panteras. Homens e mulheres tinham de estar aos seus postos. Exercício (ou arte) de manutenção da vida. Os candelabros com velas alumiavam os corredores estreitos que separavam os cômodos da edificação. Lá fora, explosões das tristes gotas de chuva; beijavam a face de imensa terra. A tristeza dela era alegria das plantas. Não havia mais belas flores que aquelas úmidas da manhã nublada dessa época do ano. Jorgeana deixou o seu aposento para banhar-se nas pedras da sauna aquecida pelo fogo à lenha; exalava o aroma das folhas de eucalipto. Seu belo e viçoso torso nu era graça das mais supremas que o bom Deus havia permitido habitar esta esfera. A pele alva e suave contrastava ao rubro de seus lábios – doce o hálito do frescor da manhã.

 

Foi sacerdotisa Juliana quem preparou o café preto. Desígnio (ou indício) de que um de seus mais nobres discursos estaria por vir. Juliana trazia aos olhos grandes as esmeraldas de profundo conhecimento, talhado a ferro e fogo. Dias e noites de dedicação às escrituras. A observação atenta da cinemática dos corpos celestes; as correlações desta aos seus experimentos com os elementos dos reinos animal e vegetal. Também a interação deles com a morada do sutil e do singelo; reino que habita as profundezas de sua alma (asas da imaginação); mas isso ela não traduzia às palavras: trazia apenas nos movimentos de seu corpo miúdo e nas expressões do seu semblante – por vezes doce, noutras verdadeira a face da sanha.

 

Dom Luiz era espécie de DJ das xícaras, dos pratos, das louças em geral, garfos, facas e de todos outros talheres, que ele lavava ao alto e bom som do rock progressivo do início da década de setenta. Ou traduzido em miúdos: Pink Floyd. Seu instrumento era o espumante e perfumado dos talheres e das louças. Espalhava a música aos extremos da limpeza. Àquela hora se formava a fila dos pacientes para receberem os cuidados atentos e os bálsamos curativos de Jorgeana. Mas eles – Juliana, Dom Luiz e Jorgeana – permitiam breve instante para o desjejum e suas excelsas intenções.

 

Juliana fez às vezes de exímia oradora. Naquela manhã discursou sobre as técnicas de esquiva às artimanhas do satanás. “O tinhoso não habita apenas um corpo como muitos imaginam. Sendo ele fluido (análogo das idéias), na consecução do etéreo pode impregnar as almas daqueles que não se ocupam das tarefas elevadas.”

 

Já pela manhã sabíamos que este seria um dia interessantíssimo e rico de significados.

 

Porém, após o crepúsculo, outra noite viria…

 

O fator “L”

junho 5, 2009

L 

Palavras-chave: literatura, poesia, conto

1. Introdução

“Muita vez eu caminho feliz e despreocupado pelas veredas asfálticas que compõem o teatro das grandes cidades.”

O relógio cravava sete horas de um dia da semana. A única preocupação que habitava a mente de Francisco é a de que ele estava atrasado para o trabalho. Precisava tomar ainda mais um coletivo, coisa que não o incomodava, em absoluto. Exceto nesta situação específica, quando já dava por certo o comentário mordaz do chefe intransigente que o aguardava na repartição para o descarrego dissimulado de suas desilusões pessoais.

Observava com atenção e respeito às figuras postadas no mesmo ônibus. O meio de transporte super-lotado era rico em significados e simbolismos da natureza humana. Francisco considerava-se, a seu modo, espécie de catedrático no assunto – não tanto devido à formação intelectual, mas sobretudo pela experiência singular ao longo da trajetória de sua própria vida. Sempre haverá o velho com seu semblante murcho pela ação ininterrupta e degradante do tempo; cabeça levemente tombada para a direita; recostada na janela. O bebê que berra alto do colo da mãe a lhe sacolejar. Desde cedo já tem nítida a noção de que se encontra num veículo popular; que as roupas esfarrapadas e úmidas de líquidos dejetos não dão conta de impedir a perda de calor de seu frágil corpo; enfim, que sua triste sina já está tecida às tramas do destino: ele será pobre e desprovido de oportunidades como os seus pais. Outro cara que se agarra com todas as suas forças num senso de identidade às esferas maiores da sociedade – um time de futebol, uma religião, um partido político, a compaixão por esta ou aquela tragédia presente no cardápio dos noticiários do dia, ou mesmo o logotipo na manga da camisa que lhe serve de vestimenta. O ônibus faz uma curva brusca à esquerda. Francisco se segura como pode no corrimão. A cabeça do velho tomba e ele desperta de um estado letárgico. Alguns adolescentes vestidos de preto e com mochilas pichadas nas costas bradam ao motorista: filho da puta!

 

2. Estado da Arte

“Agradeço ao bom deus as suas dádivas e as chances de progressão na carreira.”

Logo ao adentrar o recinto do escritório, Francisco se apercebeu de uma atmosfera mais leve e diferenciada do ambiente, que (na cabeça dele) era indício de boas novas! O chefe não o submeteu ao interrogatório de costume e o poupou de qualquer outra variante do constrangimento. Há tempos sua conduta vinha sendo experimentada às mais diversas facetas do relacionamento humano; suas múltiplas atividades e habilidades o qualificavam perante o competente foro de recursos humanos como emergente potencial do desenvolvimento “L”. Francisco guardava para si, mas reconhecia (humildemente) sua fabulosa capacidade. Esperava ansioso o dia do merecido reconhecimento, e a bem-vinda promoção.

Era por volta das nove horas da manhã quando o superior o chamou para um bate papo amigável na sua saleta. Francisco observou a decoração sóbria, com tons quiçá soturnos, e ponderou sobre como a responsabilidade, em determinado grau, interfere na conduta e na postura humana. Pensou se, de fato, deveria ceder à tentação da ascensão hierárquica; avaliou os diferentes aspectos envolvidos (positivos e negativos): as implicações no relacionamento com os seus colegas de trabalho, com os amigos do futebol de sábado de manhã, e por fim (mas não em menor grau de importância) os impactos na família. Mas o chefe lhe apresentou uma longa lista de argumentos irrefutáveis, embasados por fatos e dados; estatísticas; desenhou um futuro brilhante em sua mente quando disse: Cara, você é “L”, tenho certeza disso! Fazer o quê? Com tanta novidade em sua vida, Francisco se viu envolto por um afluxo de esperanças como nunca antes houvera resplandecido de sua existência reles.

 

3. Materiais e Métodos

“As novas experiências e as novas amizades são revigorantes para a elevação do espírito; imperativo para que este não se revista às so(m)bras do quotidiano.”

À saída do escritório o superior o apresentou a dois homens de ar austero que estavam incumbidos de levá-lo ao seu novo posto de trabalho, noutra unidade da corporação. Eles seguiram os três numa condução bem mais adequada aos serviços e providências desta natureza. Era muito melhor que o transporte coletivo – ponderou Francisco. Os dois homens eram econômicos nas palavras, como exigiam os papéis que lhes foram atribuídos. Eram, a seu modo, cicerones a lhe apresentar as novas instalações, o seu novo escritório, as ferramentas de trabalho, o modus operandi e os seus colegas.

  

4. Desenvolvimento  
 
O seu relógio marcava exatas onze horas da manhã. Francisco havia sido exposto a uma avalanche de informações e sentimentos naquela mesma manhã. Um terceiro colega da nova repartição saudou-lhe com as boas-vindas de praxe. Este, bem menos sisudo que os outros dois, se permitia um sorriso discreto que seria capaz de dissolver as mais graves contendas. Trocaram as frases básicas das pessoas que se iniciam mutuamente em atividade simbiótica. Ele lhe ofereceu a dose de um aperitivo que Francisco sorveu sem fazer cerimônia. Apesar das notas doces, pôde se aperceber de uma reminiscência acre. Francisco, a despeito de sua humilde ascendência, tinha desenvolvido um paladar refinado. Seus sentidos se expandiram; este pediu então para ser deixado a sós em seu cubículo, por um breve instante. Era chegado o momento de repousar, organizar as idéias, tomar o feitio do tempo a seu favor.

Eram treze horas quando veio um funcionário lhe chamar: o almoço seria servido. Francisco ocupava-se então de complexas atividades subjetivas que exigiam de exímia capacidade da concentração. Seguiram ambos os homens para o refeitório, que se situava próximo ao centro de um conjunto de edificações. Para o traslado, de um prédio a outro, caminharam através de trilhas por um jardim muito bem cuidado, arborizado, com um pequeno chafariz ao centro. Francisco observou que o líquido fluía de um pequeno orifício localizado à extremidade superior de uma pedra elíptica, a qual tinha a sua altura ligeiramente maior que o diâmetro transversal; a água límpida escorria sobre toda a superfície lisa da pedra (ligeiramente esverdeada pelo acúmulo de líquen); depois vinha a se acumular numa espécie de grande tigela cerâmica; fazia alusão a certo tipo de estrutura denominada lingam, que no hinduísmo é símbolo de adoração da divindade shiva e os seus vários desdobramentos. Havia ainda muitos bancos, semelhantes a estes das praças públicas, onde alguns se refestelavam ao sol, noutros destes bancos as pessoas se envolviam em discussões interessantíssimas. Aparentemente aquele ambiente era propício às digressões intelectuais, aos exercícios da oratória, enfim, ao constante fluxo de elevadas idéias.

Após uma refeição frugal (é fato que, à primeira vista, Francisco julgou as porções da mistura um tanto quanto restritivas, tendo por base o padrão alimentar ao qual ele era experimentado; mas fica aqui o registro de que, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, ele se adaptou bem), Francisco retornou para o espaço de conferências a céu aberto – visto que à tarde de outono era favorável a estas e outras práticas.

 

5. Resultados

“Imagine sua vida como um filme que será repetido infinitamente pela eternidade afora (algo como aquilo dito por Jim Morrison numa de suas performances ao vivo à frente da banda estadunidense The Doors). É bom se assegurar de que bons eventos estejam nela contidos; para a validade da experiência.”

Assim se deram as coisas e Francisco terminou por consolidar laços de frutífera amizade com muitos de seus companheiros. O quotidiano é catalisador dessas relações interpessoais. Aparam-se as arestas. Faz do homem (ou da mulher, que seja) um ser humano melhor a cada dia. Contamos uns com os outros. E a vida segue adiante, devorando os vivos. As bactérias consomem a matéria orgânica, física, palpável. Mas restam as idéias, as realizações, estes laços são de fato mais duradouros – alguns dizem até eternos, mas não me ouso a tanto. Verdade é que o cadáver de hoje amanhã será húmus, posterior alimento aos vegetais, que se emaranham em complexa cadeia do ciclo alimentar entre as espécies. E quem garante que você não almoçou hoje Napoleão Bonaparte (ou Marylin Monroe)? Se for Adolf Hitler, cuspa!

Antonio era o amigo gago que fazia às vezes de um mudo. Tinha vergonha de sua triste condição re-re-re-repetitiva. Se alguém que não fazia parte do círculo dos iniciados em “L” lhe perguntava alguma coisa, certamente ele não ousaria responder. E neste caso, se por ventura a imaginação do interlocutor o levasse a pensar que Antonio era surdo, este se zangava profundamente. E era fim de discussão. Apesar de tudo, Antonio era boa pessoa, tinha um bom coração e era querido por todos. Expressava-se à sua maneira, através dos gestos ou magníficos pictogramas, posto que não fora letrado.

Dizem que Jacinto fora um dia escritor de exímio talento e reconhecido no meio literário, guardadas as devidas proporções. Um futuro promissor desenhara-se frente aos seus olhos. Mas reza a lenda que certa indisposição ocorrida há anos atrás com uma colega politicamente influente acabou por levar sua reputação à lona. Tratava-se do tal “incidente do laticínio putrefato”, o qual ninguém sabia exatamente as causas. Era como uma dessas estórias sobre as quais se conhece apenas um único lado da moeda (ou a face negra da lua). Jacinto recusava-se terminantemente a discutir o assunto – que Jorge achava relevante para o seu amadurecimento – entretanto entre aqueles círculos dos iniciados na “L” ele fazia às vezes de um bom orador, e era bem-quisto contador de causos. Apesar da atração irresistível pelo álcool e às drogas.

Natália estava sempre ao piano. Tinha certa predileção por este instrumento musical, embora fosse proficiente em vários outros deles, incluindo aqueles de sopro e de corda. Noutros tempos fora uma carreirista de orquestra mundialmente afamada. Era reconhecida pela técnica apurada, embora recebesse retornos negativos dos críticos com relação às limitações do sentimento que provinham de sua arte. Ao longo dos anos Natália foi aprimorando gradualmente suas habilidades como música experimentalista – elevada a um patamar do conceito inovador-progressista. Era capaz de performances de mais de cinco horas, tocando apenas com os dedos dos pés as obras mais complexas de Wolfgang Amadeus Mozart ou mesmo as de Sergei Vasilievich Rachmaninoff. Atualmente dava preferência ao seu círculo de amigos e apreciadores “L” aos quais ela presenteava com solos longuíssimos – verdadeira virtuose – como os discursos do saudoso Fidel Castro (que deus o tenha).

O trabalho deles era basicamente intelectual e imperava a máxima do livre arbítrio. Todos eram tratados com a merecida dignidade dos afortunados pela “L”. Considerados responsáveis por seus atos, escolhiam o número de horas diárias de dedicação aos desenvolvimentos e tinham plena liberdade de se aprofundarem neste ou naquele projeto – o que julgassem mais promissor e relevante, dentro de certo contexto.

O complexo de prédios abrigava pouco mais de duas centenas de colaboradores “L” e aproximadamente uma centena de outros, que era responsável pela manutenção das instalações, garantia das condições mínimas para os trabalhos, a alimentação e a gestão de tudo aquilo que fosse produzido ali. Francisco queixava-se apenas da jornada puxada, visto que todos eles eram mantidos internos, com as visitas apenas dois finais de semana ao longo do mês. Não era coisa pra qualquer um!

Jorge era uma espécie de mentor intelectual dos “L”. Aparecia umas três ou quatro vezes por mês, nunca no mesmo dia da semana, porque era sabidamente um homem ocupado. Passava boa parte do tempo em Brasília, resolvendo complexas questões da “L” no âmbito nacional. Mas sempre que estava por aparecer por lá, a notícia logo se espalhava. Os saguões eram limpos e aos companheiros era recomendado botarem as suas melhores roupas. A refeição seria, certamente, a mais farta da semana. Jorge apreciava passear livremente pelos jardins e acompanhar pessoalmente a evolução dos trabalhos. Vez por outra, chamava algum dos especialistas na “L” para um bate papo mais informal, no seu amplo escritório.

 

6. Conclusão

“Aqui eu me entendo com as pessoas. Noutro tempo eu era dado às bravatas e às intransigências. Enfim, não me adaptava aquela ordem de coisas.”

Via de regra, Francisco sentia-se feliz e realizado no sanatório. Para ele a “L”oucura não passava de outra forma de percepção da realidade. Ele se dava bem com os outros “L”oucos.

 

Referência:

[1] Xerxes, J., O Fator “L”, https://jorgexerxes.wordpress.com/ , (2009)

Exegese

junho 1, 2009

De Jorge Xerxes & Nina Araújo

É favor,

não empregar o instinto

em tarefa menor, ó poeta!

Toma a obra do Criador

por inspiração,

donde todo o mais decorre.

Assim são as nuvens,

pictogramas excelsos

dos céus.

Haverá, ó poeta,

gozo maior que a gênese?

 

Ah, Monalisa…

Que mal te sorriu?

Foi gemido disfarçado,

ou o braço assaz,

cansado,

dessa pose imóvel?

Há de vir o dia,

que te admirarão,

como de fato, és:

Enigmática vontade

das mãos calejadas

de simples pintor…

 

E tal o bálsamo

contra os terremotos da senda,

cada um de nós,

transmutado em felpa,

há de servir de veste

ao universo e às estrelas.

Há de fazer minguar

as tempestades de raios

que apartam almas gêmeas.

E há de contribuir

num único retalho;

mas todos juntos:

A infinita renda…