Garrafa KS

agosto 31, 2011

Quem toma tranquilamente a sua Coca-Cola super-gelada numa garrafa KS para se refrescar, ou simplesmente espairecer quanto às demandas do quotidiano, não sabe da avalanche de significados intrínsecos nesse tipo, ora usual, de embalagem.

Mitsugi Ohno nasceu em 28 de Junho do ano de 1926 em Bato-machi, Tochigi-ken, no Japão. Seus pais cuidavam, à época, de uma fazenda de arroz em Bato-machi e o pequeno Mitsugi foi o terceiro de um total de sete filhos do casal. Ele graduou-se em seu curso elementar em 1939 e, devido a sua natureza rebelde, seus pais enviaram Mitsugi para Tokyo, onde seria aprendiz de seu tio, que havia então adquirido a Companhia Takagi de instrumentos científicos em vidro.

Durante a guerra Mitsugi trabalhou também como soprador de vidro no departamento de pesquisa da Divisão de Suprimentos de Medicinal Naval, reportando ao Tenente-Comandante Yanagida. Seu aprendizado encerrou tragicamente no dia 10 de Março do ano de 1945: a fábrica de vidro foi queimada e seu tio morto, num grande bombardeio sofrido pela cidade de Tokyo na Segunda Grande Guerra. Mitsugi, então com 19 anos de idade, retornou para a fazenda de seus pais, onde permaneceu por dois longos anos.

No ano de 1947 ele retornou para Tokyo para trabalhar como soprador de vidro no Departamento de Química na Universidade de Tokyo, a convite do então Professor Yanagida. Mitsugi fez amizade com os estudantes da graduação que, na época, eram aproximadamente de sua idade. Certo dia, numa reunião com esse grupo de amigos, disseram para ele que seu temperamento seria muito mais adequado para a vida na América. E daí surgiu a ideia de Mitsugi emigrar para os Estados Unidos, juntamente com sua esposa Kimiyo e seus filhos; o que ele acabou por realizar no dia 05 de Fevereiro de 1961, aos 35 anos.

Ele foi acolhido na Universidade Estadual de Kansas pelo Professor Alvin B. Carwell que lhe ofereceu a posição de soprador de vidro, onde Mitsugi teve a oportunidade de desenvolver grande parte das vidrarias usadas por eminentes físicos e químicos que passaram por aquela renomada universidade.

Mas Mitsugi tinha lá suas idiossincrasias. Nas horas vagas ele se ocupava de produzir esculturas de vidro de prédios históricos e navios famosos em escala reduzida. Suas esculturas de vidro eram realmente notáveis, extremamente ricas em detalhes. E Mitsugi tornou-se conhecido na Universidade de Kansas por alardear: “Tudo aquilo que pode ser produzido com o vidro, eu sou capaz de fazer.”

Certo dia, o Professor Cardwell lançou-lhe um desafio: construir uma garrafa de Klein legítima em vidro. A garrafa de Klein foi inicialmente descrita no ano de 1822 pelo matemático alemão Felix Klein. Entretanto, sua denominação original era superfície de Klein – do alemão Kleinsche Fläche – que acabou sendo traduzida erroneamente por garrafa de Klein – do alemão Kleinsche Flasche –; sendo que essa última denominação acabou sendo largamente adotada e prevalente, mesmo na língua Alemã.

Na matemática, a garrafa de Klein é uma superfície não-orientável ou, informalmente, uma superfície na qual as noções de esquerda e direita, ou acima e abaixo, não podem ser consistentemente definidas. Outros objetos não-orientáveis incluem a tira de Möbius e o plano real projetivo. Enquanto a tira de Möbius consiste numa superfície com fronteiras, a garrafa de Klein, por sua vez, é caracterizada como uma superfície sem fronteiras.

A garrafa de Klein pode ser construída (no sentido matemático, porque esta não pode ser concebida fisicamente sem permitirmos que a superfície apresente uma intersecção com ela mesma) pela junção de ambos os lados de duas tiras de Möbius, como descrito pelo seguinte texto poético, cujo autor é desconhecido:

“Um matemático de nome Klein

acreditava que a tira de Möbius era divina.

Ele disse: ‘Se você colar

os lados de duas delas,

obterá estranho vaso como o meu’”

Após vários dias tentando, sem sucesso, conceber a garrafa de Klein com uma única abertura, Mitsugi declarou que o objeto seria impossível de fabricar em vidro. Mas eis que, algum tempo depois, a solução do problema foi revelada a ele num sonho; e Mitsugi correu para o laboratório para soprar o vidro e, finalmente, fabricá-la. Essa foi a mais complexa obra de Mitsugi ao longo de sua longeva carreira como soprador de vidro; e a superação do desafio foi motivo de grande orgulho para ele e para todos aqueles que tiveram o prazer de conviver com tão excêntrica figura.

Sua primeira versão bem sucedida da garrafa de Klein em vidro encontra-se em exposição permanente na Galeria Mitsugi Ohno da Universidade Estadual de Kansas (KS). Mitsugi faleceu pacificamente no dia 22 de Outubro do ano de 1999, enquanto dormia. E então, quando você for tomar tranquilamente a sua Coca-Cola super-gelada numa garrafa KS, lembre-se disso!

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A poção mágica

agosto 31, 2011

Foi no dia 11 de Agosto do ano corrente, 2011, às vésperas do Dia dos Pais, que eu passeava meus olhos através das prateleiras de única livraria no modesto e agradável shopping center da cidade na qual estabeleci residência há pouco mais de um mês.

De súbito, senti-me capturado pela estranha imagem de um busto pálido e franzino à capa de um livro negro. Mais tarde vim saber que aquela etérea figura fora extraída da composição fotográfica de Arthur Batut, intitulada Members of the Family of Arthur Batut (1886); composição esta que, por sua vez, encontra-se exposta no Museu Arthur Batut em Labruguière.

Bem, acredito que não preciso me delongar nessa introdução desastrada: acabei por adquirir o pequeno volume negro, com propósitos de estudá-lo e desenvolver uma composição a partir de seu conteúdo seminal.

Entretanto, após cuidadoso estudo, desisti da empreitada. Impressionou-me o teor da narrativa e sua natureza fortemente psicológica.

Talvez a obra tenha me impressionado sobremaneira pelo momento particular em minha vida dupla – de escritor e de cientista. Prefiro me abster de maiores comentários a esse respeito. E, para aqueles que se atrevem, deixo apenas vestígios ao longo do caminho.

This phrase captures something that is glimpsed repeatedly in the narrative: that the ‘ordinary’ condition of his society is for individuals to sin in secret, but also to hold, hide or attempt to discover or reveal secrets.

This lack of trust also affects our belief in the testimony of others, and undermines our faith in the veracity of what we read. From the very first page we are introduced to a world governed by public opinion, and by a fear of revelation and blackmail. In fact, it could be argued that the real ‘monster’ in Jekyll and Hide is opinion.

At the core of the text are silences, evasions, suppressions. Stevenson’s tale is effective as horror fiction because it create more questions than it answers. As a result it lives and grows in the imaginations of those who read and reread it over a hundred years after Dr Jekyll first concocted his potion.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (1886) was an enormous success for Stevenson. It sold 40,000 copies in six months in Britain alone, and appears to have been read by everyone including the prime minister and Queen Victoria herself. It struck a chord with the late-Victorian public, and very soon entered the collective imagination.

– Some excerpts from the Introduction by Robert Mighall, Ph.D. on Gothic fiction and Victorian medico-legal science at the University of Wales, 2002.

‘I am ashamed of my long tongue. Let us make a bargain never to refer this again.’

‘I can’t pretend that I shall ever like him,’ said the lawyer.

‘I don’t ask that,’ pleaded Jekyll, laying his hand up the other’s arm; ‘I only ask for justice; I only ask you to help him for my sake, when I am no longer here.’

Utterson heaved an irrepressible sigh. ‘Well,’ said he. ‘I promise.’

‘And now one word more: it was Hyde who dictated the terms in your will about that disappearance?’

The doctor seemed seized with a qualm of faintness; he shut his mouth tight and nodded.

‘I knew it,’ said Utterson. ‘He meant to murder you. You have had a fine scape.’

‘I have had what is far more to the purpose,’ returned the doctor solemnly: ‘I have had a lesson – O God, Utterson, what a lesson I have had!’ And he covered his face for a moment with his hands.

My dear Utterson, – When this shall fall into your hands, I shall have disappeared, under what circumstances I have not the penetration to foresee, but my instinct and all the circumstances of my nameless situation tell me that the end is sure and must be early.

Here I proceeded to examine its contents. The powders were neatly enough made up, but not with the nicety of the dispensing chemist; so that it was plain they were of Jekyll’s private manufacture; and when I opened one of the wrappers, I found what seemed to me a simple, crystalline salt of a white colour.

He thanked me with a smiling nod, measured out a few minims of the red tincture and added one of the powders. The mixture, which was at first of a reddish hue, began, in proportion as the crystals melted, to brighten in colour, to effervesce audibly, and to throw off small fumes of vapour. Suddenly and at the same moment, the ebullition ceased and the compound changed to a dark purple, which faded again more slowly to a watery green.

If each, I told myself, could but be housed in separate identities, life would be relieved of all that was unbearable; the unjust might go this way, delivered from the aspirations and remorse of his more upright twin; and the just could walk steadfastly and securely on this upward path, doing the good things in which he found his pleasure, and no longer exposed to disgrace and penitence by the hands of this extraneous evil. It was the curse of the mankind that these incongruous faggots were thus bound together – that in the agonized womb of consciousness, these polar twins should be continuously struggling. How, then were they dissociated?

I am now persuaded that my first supply was impure, and that it was that unknown impurity which lent efficacy to the draught.

– Some excerpts from The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde by Robert Louis Stevenson, 1886.

References:

Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde and Other Tales of Terror, Edited by Robert Mighall, Penguin Books, 2002

seeing & being seen, A quick return to the aerial, http://meggangould.net/blog/?p=48 , 2007

Música para surdos

agosto 21, 2011

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À flor da pele

agosto 18, 2011

Se todas as Estrelas estivessem tão próximas de Nós como o Sol:

Estaríamos fritos!