Antes do amor

outubro 26, 2012

vou-me embora

a porta aberta

nada resta a dor

comi aquele japonês

sem homofobia ou viadagem

por favor

até oferenda amanhecida

com o meu respeito a Iemanjá

noites mal dormidas

ou dias vívidos demais

também o oposto disso

jogos de baralho

truco sem manilhas nas mãos

a experiência que dilacera

surfar no tempo sempre a mesma taxa

sessenta minutos por hora

sete dias por semana

alguém já disse:

cem anos de solidão

outros amores incandescentes

tórridos, efêmeros, estrelas cadentes,

hipofagin, cialis e redoxon

cura para todos os males

mas não alívio aos meus

vou-me embora

a porta aberta

nada resta a dor

vejo luz através do batente

ali naquele corredor

é só um instante

dou com a mão no interruptor

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Atenção ao sublim(in)ar

outubro 23, 2012

Nestes nossos dias orientados para a morte, espero por alguém que dê amparo, carinho, e vem você me vilipendiar. Dá-me porrada na cara, diz que sou vagabundo, desatento ao de valor; diz-me das coisas de um mundo mensurado em garoupas, onças pintadas, micos-leões-dourados, araras, garças, tartarugas e beija-flores apenas – tamanha a tua insensatez. Logo eu, consciencioso do trajeto das formigas sobre a pia da cozinha, que reconheço a natureza prismática da luz refletida em sete cores nas gotículas do chuveiro. Vem você e me pede atenção ao subliminar. Pois saiba que te dou com os para-choques de minha inconsciência, que são feitos para bater e amortizar as dores da alma. Estou a fitar os sorrisos nos rostos das crianças, eu sinto o vento na minha cara, eu assisto ao remoinho no levitar despedaçado de um dente-de-leão. E não adianta esconderes em tua máscara último tipo, porque a chuva que depreende de minha nuvem ainda atravessa o teu para-brisa. É fria e inexorável a realidade final do teu jazigo, aquele que você paga em suaves prestações; e também sou desatento a isso, você bem o sabe. Mais atenção ao subliminar. Minha vala nada vale posto que fica muito além da tua: acredito na derrocada da carne ante aquela do espírito. Acredito no brilho das estrelas, em caudas de cometas, na sombra de uma palmeira. Rogo pregas ao teu toba, que você inche, exploda junto à merda do capitalismo. E atenção ao sublimar!

Viagem do corvo

outubro 15, 2012

Finalmente terei duas horas de sono. Chego ao apartamento às 4h da manhã. Fico pensando nisso: em peitos e bundas de silicone. Pensando bem, não é tão mau assim. A propósito, nunca soube a razão de serem tão pontiagudas, certamente no futuro entenderão muito mais de cirurgia plástica que nos dias de hoje, dessa nossa época recheada de peitos e bundas de silicone. Queria ser o capitão Spock, nem me importaria com aquelas orelhas bizarras. Que merda viver no Brasil nesse início de terceiro milênio.

“Se navegar pelos oceanos foi um desafio espetacular, voar pelo universo é aventura ainda mais hercúlea. A Terra está a anos-luz de distância de outros sistemas estelares e uma regra fundamental da física nos limita: nada é mais rápido que a luz. Mesmo se alcançássemos essa velocidade, a jornada para estrelas vizinhas levaria no mínimo quatro anos. Cientistas da Nasa apostam que a solução não está em tentar ser veloz, mas em dobrar o espaço-tempo para aproximar corpos celestes e impulsionar espaçonaves em direção a eles. Viagens de anos-luz demorariam meses. Essa possibilidade ainda é restrita à ficção científica, mas começa a tomar contornos reais em laboratórios. Disse a VEJA o engenheiro espacial Harold White, chefe do departamento da Nasa encarregado de testar possibilidades para levar o homem a partes longínquas do universo: ‘Distorcer o espaço é algo que a natureza faz desde o Big Bang. Resta saber se conseguimos reproduzir esse efeito’. Os cálculos de Harold White e sua equipe redefiniram a conta. Pela nova equação, produzir essa distorção é plausível, e ela pode ser simulada. O termo warp drive (dobra espacial) surgiu na ficção, em Jornada nas Estrelas, e nomeou a teoria do físico mexicano Miguel Alcubierre, em 1994. Pelo modelo, uma fonte energética produz uma bolha ao redor da espaçonave. A bolha expande o espaço na traseira, enquanto o contrai na frente, impulsionando a nave. Essa é a tal dobra. É como se a nave fosse um surfista em cima de uma onda (a dobra) que o leva pelo mar (o universo). Para a tripulação, a nave pareceria imóvel. Em relação à Terra, a velocidade superaria a da luz. Sistemas estelares seriam alcançados em poucos meses. Alcubierre apostava que para criar uma dobra seria necessária uma energia equivalente à da massa de Júpiter. Novamente, uma impossibilidade. Harold White, da Nasa, recalculou. Em sua equação, afinou a bolha no entorno de uma nave esférica de 10 metros de diâmetro. Por consequência, diminuiu a dimensão da fonte energética para 750 quilos.”

Fico matutando sobre aquilo que li na revista VEJA da semana passada. Acomodado na poltrona de número 30 tento, em vão, pegar no sono. 19h50, o ônibus para Niterói prestes a partir, corro para a plataforma de número 02. Permito-me esboçar um sorriso. “São Paulo / cidade batuta / toda esquina / um viado, uma janela, uma puta”. Obra feita, senti até um certo alívio, e pude apreciar uma dessas pérolas literárias que só habitam os banheiros públicos, faço questão de reproduzi-la aqui: Que merda, pensei, mas ela ainda estava por vir. Ledo engano, banheiro gratuito, os bêbados e descuidados podiam mijar de graça e a vontade nos assentos das privadas, e não deixavam por menos. Corri para o banheiro, torcia para que fosse como aquele do Rio, que é pago, pelo menos seria mais limpo (ou menos sujo). Tive uma vontade súbita e intensa de ir ao banheiro, era o que meus filhos costumam denominar de “o número dois”, em bom português: precisava cagar, e era urgente. Nenhum dos três falava, eram surdos-mudos, comunicavam-se freneticamente com sinais, mas percebi que aquiesciam à minha presença, então pude comer em paz (e silêncio) em meio à multidão. Posso me sentar nessa cadeira? Não, está ocupada. Posso me sentar nessa cadeira? Foi só quando peguei o meu Bob’s picanha com fritas e Coca-Cola 500ml que me dei conta que as mesas também. Àquela hora estava faminto e as filas do Bob’s, abarrotadas de gente. Então vai essa mesmo. Não. Você tem outra opção, respondi com ar irônico. Pode ser essa poltrona, ela me perguntou. A atendente me mostrou o mapa de poltronas ocupadas do ônibus das 20h para Niterói: todas as poltronas exceto aquela de número 30! Segui resignado até o guichê. Chegando à plataforma de número 04, o ônibus para Niterói das 18h40 acabara de partir. Corri com a mala nas costas, esbarrando nas pessoas, subi os lances de escada porque as rolantes estavam lotadas, atravessei a rodoviária arremessando outros corpos para o lado, abrindo o meu caminho, desci os lances de escada (porque as rolantes estavam lotadas). Desci do ônibus na rodoviária de São Paulo às 16h35 no saguão das plataformas de 51 até 100, mas precisava tomar ônibus na plataforma 04 do saguão diametralmente oposto, aquele das plataformas de 01 até 50. Você chegará em São Paulo próximo do horário de partida do ônibus para Niterói, mas tem boas chances de tudo dar certo, caso você o perca, poderá trocar a passagem no guichê, informara-me a vendedora das passagens em Campinas. Optei em seguir para São Paulo no ônibus das 16h55 e tomar outro ônibus, às 18h40 de São Paulo para Niterói. O próximo ônibus disponível de Campinas para o Rio de Janeiro sairia às 23h45. A passagem de circular me custou apenas três reais, mas levei quase uma hora do aeroporto até a rodoviária. A empresa reembolsou somente a passagem, sequer conseguiu transporte para a rodoviária de Campinas. Preciso estar no trabalho amanhã cedo! Mas como assim? A pista estava interditada, nenhum avião podia pousar ou decolar do aeroporto, o próximo vôo disponível para o Rio de Janeiro apenas na quarta-feira. Só então eu soube do incidente da noite anterior. Saltei no aeroporto de Viracopos às 14h55 e segui direto para o saguão de embarque do aeroporto. Abraçamos-nos, ela me beijou e seguiu para a casa da mãe. Chegarei às 16h30 e poderei aproveitar o fim de tarde para um passeio pela Cidade Maravilhosa, pensei com os meus botões. Eu esbocei um sorriso e meneei a cabeça confirmando. Você conseguiu um bom horário nesse fim de semana, ela me disse. Estrada ensolarada, o clima ameno de primavera, o verde da mata, ao som da Imprensa FM 101.5 MHz de Vargem Grande do Sul. Depois viajaríamos de carro de Porto Ferreira para Campinas, em uma hora e quarenta e cinco minutos estaríamos em Viracopos, e de lá ela seguiria para visitar os seus pais. Um almoço breve mas agradável, com direito ao expresso para a boa digestão. Eu e ela seguimos para o restaurante, ainda em Porto Ferreira. Fiz o meu “check in” por volta do meio-dia de domingo, pela internet, para o vôo das 15h30.

“O aeroporto internacional de Viracopos, em Campinas (95 km de São Paulo), amanheceu fechado para pousos e decolagens e sem previsão de reabertura, de acordo com a Infraero. O fechamento do aeroporto prejudica 15 mil passageiros. A única pista do aeroporto está interditada desde a noite de sábado (13), depois do incidente com o avião da Centurion Cargo. De acordo com o diretor-geral da Centurion, Vanderlei Morelli, o cargueiro MD11, que vinha de Miami, pousou às 19h55 em Viracopos, quando apresentou problemas no trem de pouso. ‘Ele (o trem de pouso) travou. O avião percorreu toda a pista e está parado no final dela. Estamos trabalhando para liberá-la ainda esta noite’, afirmou. Morelli disse que ninguém ficou ferido. O impacto do pouso forçado da aeronave provocou uma ranhura superficial ao longo da pista.”

A previsão do tempo me diz que vamos ter sol durante todo o fim de semana aqui em Miami, já está quase na hora de largarmos, vamos deixar essa bucha para os mecânicos brasileiros resolverem, responde o supervisor. Os sistemas estão acusando quinze por cento de probabilidade de falha na abertura do trem de pouso principal da asa esquerda, disse o mecânico de vôo.

Pra quem tem cabeça feita

outubro 4, 2012

O candomblé é religião anímica original dos povos nativos da África como são, por exemplo, as nações nagô, ketu, jeje, dentre outras. O iorubá é a língua africana tradicional de onde advém a maioria dos termos usados no candomblé. Existem características próprias e nuanças que distinguem o candomblé nagô, do candomblé ketu, do candomblé jeje, dos candomblés de outras nações.

Esses diferentes candomblés disputam axé, que é sinônimo de poder, de vitalidade e de fundamento; sendo diametralmente opostos á ideia do sincretismo. Isto é, quanto mais puro, original, de raiz é o fundamento da casa, ou ilê, e do pai de santo, maior o seu axé. Nessas disputas de poder entre as casas é comum xoxar ou a xoxação, que consiste em maldizer, enfraquecer o outro, torná-lo sem axé. É no chão do ilê, no chão da casa de santo, que se encontra armazenado o seu axé. Awo é o segredo – conhecimento e fundamento – que é transmitido nos cultos, no boca á boca, pelo pai de santo, ou dos ebomis para os abiãs.

Sendo o candomblé uma religião anímica, admite orun-aiye, a ligação do plano espiritual com o mundo físico, tudo o que existe no orun coexiste no aiye. Aiye é o mundo físico, sendo orun o plano espiritual. Os orixás das nações nagô e ketu – equivalentes aos voduns do candomblé jeje – são semideuses ou divindades, também chamados de santos, representações das potências da natureza, entidades sobrenaturais com traços psicológicos (arquétipos) distintos, criados pelo Deus supremo, por sua vez denominado Olorun. Estes orixás, que habitam orun, têm grande influência sobre os acontecimentos do plano físico, ou aiye.

Segundo consta, existem centenas de orixás. Dentre os mais conhecidos, pode-se citar: Oxalá, orixá do branco, da paz, da fé. Ogum, orixá da guerra, deus da sobrevivência. Oxóssi, orixá da caça e da fartura. Exu, orixá guardião dos templos e das casas, passagens e encruzilhadas, mensageiro divino dos oráculos. Oxumaré, orixá do arco-íris e da chuva, dono das cobras, o orixá das transformações. Xangô, orixá do fogo e do trovão, protetor da justiça. Ossaim, orixá das folhas sagradas, que junto com Oxóssi protege as matas e os animais. Obaluaiyê, orixá das doenças e das pragas, o orixá da cura. Oxum, orixá feminino dos rios, do ouro, deusa das riquezas materias e espirituais, dona do amor e da beleza, protege os recém-nascidos. Iemanjá, orixá feminino dos mares e limpeza, mãe de muitos orixás; dona da fertilidade feminina e do psicológico dos seres humanos. Oyá ou Iansã, orixá feminino dos ventos, dos relâmpagos e das tempestades; também é a orixá das paixões.

De acordo com o candomblé, como os santos têm influência no quotidiano dos humanos, é importante estabelecer a aliança do orixá com a pessoa, o iaô. No ritual de iniciação no candomblé, ou iaô, o aspirante – até então denominado abiã – é raspado; i.e., o abiã tem a cabeça raspada, a pessoa e seu orixá são feitos; diz-se também que fulano é feito no santo, fazer o santo, na feitura da cabeça.

A partir do iaô, a cerimônia de feitura da cabeça, o ori, que é o centro da cabeça, passa a ser habitado pelo orixá e a aliança é estabelecida. Mas para isso, é necessária a preparação anterior do abiã. Essa preparação dá-se pela sua participação nas casas de culto; pelas suas oferendas aos orixás, os ebós, que são rituais mágicos; ou ainda através do bori, que significa dar de comer ao ori, ou dar de comer á cabeça.

Esse longo processo, a feitura, a fabricação do santo e da pessoa, diz respeito ao desvelar do enredo individual. Assim, cada pessoa tem o seu próprio enredo, que vai sendo forjado com o progressivo estabelecimento de laços com os seus legítimos orixás. Para orientar e caracterizar a senda do indivíduo o pai de santo pode valer-se da comunicação direta com os orixás, através do transe, onde ele é possuído pelo orixá, ou por outros meios de comunicação com os santos.  

O jogo de búzios é o mais comum dentre esses oráculos, ou meios de comunicação com os orixás. Este consiste na leitura da conjunção de dezesseis odus. Odu é o elemento binário de comunicação; caracterizado pela concha, búzio, botão ou semente; que pode apresentar-se aberto ou fechado, quando jogado sobre a mesa. Da configuração desses dezesseis odus, entre abertos e fechados, resultam 65536 possibilidades de leitura do oráculo, que estão ligadas ao mesmo número de versos constantes no awo, que é o segredo, também conhecimento e fundamento do candomblé. Logo, o jogo de búzios não é encarado como mera adivinhação, mas um canal legítimo de comunicação com as potências ocultas da natureza, que são representadas pelos arquétipos dos orixás.

Retornando aos possíveis enredos da pessoa, estes são os mais variados, como são as potencialidades individuais. Alguns podem vir a serem ogãs (homens) ou equedes (mulheres), aqueles iniciados que nunca serão possuídos pelo orixá; diz-se que os ogãs e as equedes nasceram sete anos antes dos rodantes. Já o rodante é a pessoa que é possuída pelo orixá, aquele que vira no santo, que tem o orixá assentado. Olori é o orixá da pessoa, o senhor do ori, o senhor da cabeça. Porém, com o tempo, a pessoa pode ter outros orixás assentados, o que aumenta ainda mais o seu axé. Junto ou oju ori é o orixá ajudante; e carrego é o terceiro orixá. Finalmente, ebomi é a pessoa com pelo menos sete anos de raspado, da sua iniciação ou iaô, já pronta para ter os seus próprios filhos de santo.

Ref.: Carmem Opipari, O Candomblé: Imagens em Movimento – São Paulo – Brasil, Editora da Universidade de São Paulo, 2009.