Louco anti-poema

julho 16, 2013

louco_anti_poema  

osrevni ameop o revercse arap

   osirros-itna o ranigami ós é

   etnem ahnim an azeleb aus

   oienaved ohnos ocuol

   sojieb-itna acob aus an

   augníl ed

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jorge_xerxes_macaquitos /\ não siga-me /\ a senda é longa /\ e o banco do carona leva ao devaneio /\ dos meus remoinhos /\ eu bem sei /\ a sanidade não é digna de respeito /\ valei-me Pai /\ daquela ladainha /\ se sou filho do pecado /\ então toma esse fardo teu /\ em frangalhos e a tua semelhança /\ homem, mulher, criança /\ escolhe do universo inteiro /\ girafa, macaco, rinoceronte /\ não há pescoço que aguente /\ tão dura e pesada cabeça /\ é descabida a ignorância /\ ocupar a mente nos animais /\ desacredito da ciência /\ do governo e da televisão /\ explica o que eu tenho de fazer /\ mas não ouve se eu não disse que vi /\ para concluir depois eu mesmo que não /\ nem busca resposta imediata /\ na ponta da língua /\ decorada /\ sem a necessária reflexão /\ não valeria a pena /\ do alto exercício da profissão /\ de um Deus /\ deixá-los imperfeitos /\ sem pistas sob um céu de estrelas /\ qual migalhas espalhadas de miolo do pão /\ não as abandona amanhecidas /\ pois /\ traiçoeiras as pegadas /\ do demônio de plantão /\ segue só a trilha /\ os pulmões preenchidos de sereno /\ no momento certo /\ coragem /\ faz bater forte /\ um coração /\

 

O.cul.osa

julho 1, 2013

jorge_xerxes_o_cul_osa

Quando os estranhos fenômenos começaram a se reproduzir, ou melhor, quando se renovaram nestes últimos tempos, suscitaram antes de mais nada a dúvida. Sobre a sua realidade e mais ainda sobre a sua causa. – Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, Capítulo IV, Sistemas.

Encho o copo que foi de requeijão com água da rua. Jogo dentro o comprimido de laranja. Ele afunda e as bolhas de gás carbônico começam a subir. Boto o copo no parapeito da janela. O comprimido de vitamina C. A que ponto cheguei, este é o meu último alimento.

Dos cinco sentidos foi a visão que fez sua a arte. Comecei a ver mais cores onde elas haviam, mais cores nas cores, menos vida onde há pouca a vida, com mais intensidade onde há a intensidade. Àquela mudança súbita, sobrevieram os borrões ou as manchas, incialmente na forma dos discos, depois de elipses, que passavam lentas em minha vista. O olho direito era o sensitivo, o olho esquerdo, o racional – como se fosse o previsto.

Mas nunca, nunca mesmo, imaginei desenvolver este sentido sobreposto ao visual, quando começaram a tomar conta as formas das criaturas da noite, a ditarem-me estranhos manuscritos, a semelhança deste. Isso, por si só, esvaziava-lhes o propósito. Ainda assim, eu a dá-los ouvido, e fazia isso a olhos vistos.

Passaram a inferir sobre os meus pensamentos com suas ações, bem ao modo do início do cinema, quando eram apenas sopradas as sombras às paredes, mudas. Com seus movimentos lentos das ideias, da redução pela lambedura da pelagem, a silhueta de um gato, na imagem de fundo, o carimbo dos infernos.

Caí de febre, deixei o trabalho, deixei a visão de fundo tomar conta das decisões. Como um velho aparelho televisor, o meu corpo. Sexto sentido. Nunca me achei louco, agora já não trago comigo certezas. Não é devaneio, sou eu mais a visão de fundo, lenta das ideias, cinco sentidos, mais um. Salto e não alcanço o alto da geladeira. Não sou um felino.

Tomo rápido o conteúdo do copo – anestésico; mortal – enquanto ainda tem bolhas. Eu acredito nas bolhas associadas de alguma forma à vitamina C. Este é o meu último alimento, antes da minha morte. Deito na cama, fecho os olhos, este é o meu suicídio.

Noutro dia, seguido da noite: embaralho a vista, o.cul.osa, tente de novo, oclusão, me diz o oftalmologista. Você vai ficar bom.