Promoção J.X.

outubro 27, 2013

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Lendo nos jornais, já na minguante desse mês de agosto de 2012, sobre o julgamento do mensalão – um esquema de corrupção do Executivo denunciado sete anos atrás – é difícil calar ante a minha indignação.

Se por um lado os envolvidos no esquema estão sendo condenados pelos seus crimes, se a imprensa de hoje tem “certa” liberdade para a expressão das ideias em maior sintonia com a gravidade dos fatos, a convalescença social brasileira parece-me ainda ter repercutido pouco frente a apatia dos cidadãos e o sorriso amarelo na cara da classe dominante.

Eu penso ser mesmo inconcebível que o alto nível dos Poderes Executivo e Judiciário – estes senhores que recebem contracheques ordens de grandeza superiores aqueles dos trabalhadores assalariados – esteja dispondo de tanto tempo e energia discutindo erros crassos, práticas internas tão evidentemente criminosas. O desvio de verba pública está anos-luz distante dos padrões mínimos de ética e de conduta profissional aceitáveis para os responsáveis pela administração do país.

Enquanto isso, o trabalhador assalariado – aquele que realmente paga o pão e o circo – sobrevive no limiar da dignidade humana. Convenhamos, a saúde pública, a educação pública, a infra-estrutura (o saneamento básico, a condição das vias e das praças) e a seguridade social mostram sinais inequívocos de sua falência iminente. Sim, estamos verdadeiramente flertando com uma falência múltipla de órgãos. E não adianta tapar o sol com a peneira da estatística, com essa lógica rasteira dos indicadores sociais: “se eu como muito e você come pouco então, na média, nos alimentamos bem.” Parece-me mesmo não termos evoluído muito desde o dia 13 de maio de 1888.

Morando no Rio de Janeiro há pouco mais de um mês, sinto-me ainda assombrado por essa cidade onde os contrastes mostram-se tão evidentes. Creio ainda não ter desenvolvido o sentido da visão seletiva. Por isso vejo o cartão postal mais bonito do Brasil maculado pela pior das chagas, pelo esgotamento do principal recurso de uma nação: o ser humano.

Precisamos urgentemente de coragem, de atitude, de um resgate da ética; de seres humanos realmente comprometidos uns com os outros – interessados em deixar um legado digno para os nossos filhos e para a nossa nação. Lugar de bandido é na cadeia, não no Planalto.

Música para surdos

agosto 21, 2011

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junho 17, 2011

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Ao alvorecer

maio 24, 2011

O sol reflete-se numa miríade de gotas d’água recém espalhadas pelo vidro translúcido do box. A manhã e o canto dos pássaros anunciam a chegada do novo dia. Renascidas as esperanças e as possibilidades de caminharmos pela avenida da virtude. Sim, a vida é tão simples!

Mas tantas vezes furtamo-nos desse olhar calmo, tranqüilo, acolhedor. Preferimos ceder ante a insegurança e ambição desmedidas, porque algum dia ou nalgum momento da história essa pureza foi corrompida e os valores, distorcidos.

Fomos nós mesmos, os seres humanos, quem criamos as regras, as leis e todo um complexo organismo social que ora está a nos tolher e subjugar-nos. E não estou aqui a defender a anarquia: é uma questão do uso que fazemos dos nossos dias, de nossas vidas, que são o bem mais precioso que possuímos.

Não é incomum dar-nos conta que corremos desenfreadamente para atendermos às demandas do quotidiano. Ontem mesmo ouvi a estatística de que o trabalhador com carteira assinada paga, em média, quarenta e um por cento de seu salário em impostos para o governo. (E não vou perder o meu tempo discorrendo sobre as causas às quais eu acredito que o retorno oferecido pelo Estado é insipiente e exíguo). Mas além, sobretudo, existe a exploração do homem pelo homem, até mesmo nas relações humanas.

Corremos tanto e tão desenfreadamente! Muita vez não nos apercebemos disso. Desde quando éramos pequeninos – crianças espontâneas, ingênuas, livres dos vícios – já víamos os nossos pais inseridos nessa maratona sem fim, sem vencedores. Como no mito da caverna, aprendemos a mimetizar o comportamento desumano. E continuamos a reproduzir este padrão sistematicamente, nos diversos níveis e em todas as facetas do relacionamento humano. Não nos apercebemos que somos os únicos responsáveis pelas futuras gerações de seres desumanos: direta ou indiretamente, somos nós mesmos os seus mais implacáveis professores.

Há quem diga que o ser humano é mau em essência. Que as crianças já trazem em seu íntimo o gérmen, a tendência inata para o mau. E disso – podem me chamar de louco – eu ouso discordar. Observo os pássaros, os gatos, os cães, os pequenos animais. Exceto pela capacidade diferenciada de cognição, somos como eles. Temos os mesmos instintos; as necessidades de alimentação, de cuidado, de amor; que são primárias e essenciais para a manutenção da vida.

Trazemos grafada em nossa existência o instinto de sobrevivência. Mas este jamais deveria ser confundido com a ambição desmedida, com os maus tratos ou o abuso de poder. Estes são, antes, desvios de comportamento observáveis nos seres humanos apenas. Degeneração da capacidade cognitiva, numa usura desmedida da característica biológica diferencial de nossa espécie. Porque até os leões matam para se alimentar; e só. Matar para tirar vantagem é coisa desumana.

Mas abandonemos o viés negativo, porque este não é o cerne dessa crônica. Acontece que existe a necessidade de nos desenvolvermos a partir de uma base, compreendermos onde é que estamos pisando, para só então seguirmos adiante. Vamos focar noutra perspectiva. Naquela mais condizente com a natureza humana, em sintonia com os nossos anseios e necessidades ulteriores.

De volta à estatística. Afinal, vêm dessa mesma e importante disciplina, os indicadores que nos trazem algum alento. Dentre tantos dados negativos, vale ressaltar alguns outros (por vezes nos passam desapercebidos, porque estes não dão ibope, outro índice estatístico, e não é por coincidência): nunca tivemos uma massa tão grande de cabeças (potencialmente) pensantes, tantos cidadãos alfabetizados e os avanços tecnológicos são inquestionáveis – da agricultura à medicina, passando pelas mídias sociais que possibilita(ria)m o acesso irrestrito à informação. A qualidade de vida também (em média) só faz melhorar. E estes são fatos inquestionáveis. O problema – ainda no jargão estatístico – são os desvios e as dispersões tamanhas.

Então, muita vez é mais fácil pensar: isso não me diz respeito, eu não tenho o poder de reverter esse quadro, o problema é estrutural, preciso cuidar de minha vida, não posso mudar o mundo sozinho.

Ledo engano: O sol ainda reflete-se numa miríade de gotas d’água recém espalhadas pelo vidro translúcido do box. A manhã e o canto dos pássaros anunciam a chegada do novo dia. Renascidas as esperanças e as possibilidades de caminharmos pela avenida da virtude. Sim, a vida é tão simples!

Experimente a mudança em seu íntimo. Enxergar no próximo o seu irmão. Colocar-se no lugar do outro antes de lhe dirigir a palavra – que é bálsamo e também adaga. A escolha é apenas sua, é minha apenas. E é mais fácil escrever que botar em prática.

Mas tente, com todas as suas forças. Todos os dias, ao alvorecer.

O mundo em que v1v3m05

maio 20, 2011

Manhã fria de outono em São Paulo, neblina. Ela segue pela marginal, cabeça ainda indolente, da noite curta de sono. O fluxo dos veículos cessa a sua frente. Já era de se esperar. Ela prende len-ta-men-te as suas madeixas ruivas, de sonho. Retira-o do bolso. Acopla o pen drive ao cérebro, pela entrada USB, numa perpendicular às têmporas. Para assimilar plena a consciência, nada fugir aos seus instintos. Faz deles o buraco negro das idéias. Se o 1n5t4n73 lhe parece tão m4g1c0. O tempo ao quadrado das h0r45, ao extático, do trânsito. Liga o som no volume máximo, bota esse rock’n’roll dos anos 5373n74. 01h4 para o f1rm4m3n70. Vê o inusitado: os dias de h0j3, agora é o melhor m0m3n70.

A derrota remete ao novo

abril 13, 2011

 

Esta paga

a parte que me cabe

nessa estranha mesa de bar

um copo quebrado

é o meu corpo que parte

miríade de cacos de vidro

nada resta do líquido

vazado através dos dedos

às palmas

ele parte

escorre fluido

as mãos não bastam

é conseqüência do ato

os rudes são reminiscências dos sonhos

rebaixamo-nos ante as leis dos homens

mais parecem sem sentido

é chegada a hora

renovarmo-nos o íntimo

tudo o que foi escrito

está vencido:

a rota remete ao novo

Face terrível de ver, mas mente benigna,

E com uma longa barba sobre o peito robusto!

Desprezou os seus entes queridos, para nos amar,

Considerando Ravena sua própria pátria.

– Epitáfio de Droctulft, guerreiro lombardo, citado na “história do guerreiro e da cativa”

 

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires, Argentina, ao vigésimo quarto dia do mês de Agosto de 1899. 

“Minhas provações começaram, como mencionei, num jardim de Tebas. A noite toda não dormi, pois algo estava lutando em meu coração. Levantei-me pouco antes do amanhecer; meus escravos dormiam, a lua tinha a mesma cor da infinita areia. Um cavaleiro exausto e ensangüentado vinha do oriente. A alguns passos de mim, rolou do cavalo. Com uma tênue voz insaciável perguntou em latim o nome do rio que banhava os muros da cidade. Respondi-lhe que era o Egito, alimentado pelas chuvas. ‘É outro o rio que procuro’, replicou tristemente, ‘o rio secreto que purifica os homens da morte’”. 

– Excerto do conto “O imortal”

 

Em 1914 sua família se mudou para Suíça, onde ele estudou e empreendeu viagens para a Espanha. Em seu retorno à Argentina em 1921, Jorge Francisco começou a publicar seus poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Também trabalhou como bibliotecário e professor público universitário.

“Não vou falar das fadigas do meu trabalho. Mais de uma vez gritei para a abóbada que era impossível decifrar aquele texto. Gradualmente, o enigma concreto que me ocupava me inquietou menos que o enigma genérico de uma sentença escrita por um deus. Que tipo de sentença (perguntei a mim mesmo) construirá uma mente absoluta? Considerei que nem nas linguagens humanas existe proposição que não implique o universo inteiro; dizer o tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e as tartarugas que devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi mãe do pasto, o céu que deu luz a terra. Refleti que na linguagem de um deus toda palavra enunciaria essa infinita concatenação dos fatos, e não de um modo implícito, mas explícito, e não de um modo progressivo, mas imediato”.

 – Trecho de “A escrita do deus”

 

Sua obra abrange o caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura. Seus livros mais famosos, “Ficciones” (1944) e “O Aleph” (1949), são coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus.

“Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave.” 

– Passagem do conto “Emma Zuns”

 

Em 1955 foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Em 1961, se destacou no cenário internacional quando recebeu o primeiro prêmio internacional de editores – o Prêmio Formentor.

“Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cão gregário; compreendeu que o outro era ele”.

– Excerto da “Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-74)”

 

Seus trabalhos contribuíram significativamente para o gênero da literatura fantástica. Estudiosos notaram que a progressiva cegueira de Jorge Francisco ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que os poetas, como os cegos, podem ver no escuro. Os poemas de seu último período dialogam com vultos culturais como Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.

“Agora as coisas mudaram; nesta noite que precede a minha execução, posso falar sem medo. Não pretendo ser perdoado, porque não sinto culpa, mas quero ser compreendido”. “Eu sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, serão muito em breve triviais. Amanhã morrerei, mas sou símbolo das gerações futuras”.

– Trechos do conto “Deutsches requiem”

 

Seu trabalho foi traduzido e publicado extensivamente nos Estados Unidos e na Europa. Jorge Francisco era fluente em várias línguas. Faleceu em Genebra, Suíça, ao décimo quarto dia do mês de Junho de 1986.

“Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que em nenhum instante se rebaixou ao sentimentalismo ou ao medo, notei que os porta-cartazes de ferro da praça Constituición tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me tocou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que aquela mudança era a primeira de uma série infinita. Poderá mudar o universo, mas não eu, pensei com melancólica vaidade…” “…para terminar o poema, a casa era indispensável, pois num canto do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos”. “Existe esse Aleph no fundo de uma pedra? Eu o vi quando vi todas as coisas e o esqueci? Nossa mente é porosa ao esquecimento; eu estou mesmo falseando e perdendo, sob trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz”.

– Passagens do conto “O Aleph”

 

Entretanto, para entender Jorge Francisco (escritor e ser humano), penetrar seu rico e singular universo, nada melhor que permitir-se à fantástica experiência da leitura de suas obras.

 

Referências:

[1] “O Aleph”, Jorge Luis Borges, (1949); tradução: Davi Arrigucci Jr., Companhia das Letras, São Paulo, (2008).

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Luis_Borges, acesso ao sítio em 05/04/2011.

 

 

O abandono

abril 2, 2011

Eu sou João. Mas se olho no espelho, a imagem que vejo é aquela do demônio. A besta fera de sete cabeças, as bocas cheias de grandes dentes pontiagudos. A dor é imensa. A baba escorre pegadiça de minhas bocas. A dor é intensa. Os globos vermelhos saltam de minhas órbitas. A dor é insana. Sou meu próprio labirinto aqui na ilha de Patmos. Para descer de onde estou – para dentro de mim – percorro uma miríade de escadas através de nuvens, repleta de bifurcações. Sigo passagens por entre estranhas formações de vapor. São as minhas próprias entranhas. Essa é a única mística na qual ainda acredito. No passado dessas paragens – que agora nada mais dizem – um estrangulamento do tempo colapsou o eterno porvir, naquele que é. Observo a noite. Observo as estrelas. São tão belas! Mas estão ausentes. Por que nos abandonaste? São inextricáveis possibilidades de seres. Desdobramentos da existência. E não adianta lutar: habita-me o devaneio. Um remoinho sobre minha cabeça. (Não eram sete?)

Compostura!

março 2, 2011

Ele – o poeta –

sobejo léxico,

nímio linotipista,

à penúria de teor

erigiu o silêncio.