Agora são doze horas e doze minutos, o que eu avalio pela fumaça do meu malboro, ziguezagueante, através dos raios de Sol, frente a minha vista. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Caminho rápido ao longo de quatro quadras sobre um Sol escaldante. O ponto de táxi fica a trinta metros da padaria, onde quero comprar uma coca e um pacote de baconzitos. As duas malas pretas, dessas de couro, antigas, paralelepídecas, com uma alça para a mão, estão pesadas pra caralho. Digo pro taxista olhar minhas malas, enquanto vou até a padaria, que depois pegarei o táxi para a rodoviária. Ele me diz que nem fodendo, eu que cuide de minhas coisas, só tem ele no ponto, vai que chega outro passageiro antes e ele perde a corrida. Eu carrego as malas com muito sofrimento, trinta metros para ir, mais trinta para voltar com minha coca super-gelada e um pacote gigante de baconzitos, minha barba espessa e grisalha toda ensebada, tinha passado a noite toda sem dormir. Os sovacos suados, fétidos. Volto lá e é o mesmo motorista. Digo pra ele, toca para a rodoviária agora então. Ele tenta puxar assunto, eu fico fitando o infinito do céu através do vidro fumê. Lá dentro do veículo tem ar condicionado, mas lá fora está um calor do caralho, sigo pensando. Quando chegamos ao destino, o taxímetro marca vinte e seis reais. Ele me diz que faz por vinte e cinco. Eu saco a carteira, dela uma nota de vinte, outra de cinco e uma moeda de um real. Ele diz que a moeda de um real não precisa. Eu jogo a moeda com força na pança dele e digo, enfia a moeda no teu cu. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Música incidental vindo do smartphone da garota loura de cabelos encaracolados, vindo da mesma fileira do ônibus, três poltronas à esquerda, um amor em cada porto, ah seu eu fosse marinheiro, não pensaria em dinheiro, um amor em cada porto, ah seu eu fosse marinheiro, Adriana Calcanhoto (se não me engano). Solto um peido longo e constante, sem qualquer ruído, pior que o gás mostarda, a senhora da poltrona ao lado me fita com uma expressão de assombro, em poucos segundos, ao menos umas três fileiras de assentos do ônibus sofrem com a implicação de meus atos pregressos: duas coxinhas amanhecidas, um copo de groselha, uma coca e um pacote de baconzitos, que eu comi até o farelo. Eles sofrem calados e resignados, como Jesus Cristo em sua via-crúcis. Rezo pela alma deles, sei que sempre é mais suportável a própria cruz, os próprios gases que aquele do outro, é a lei do carma. Causa e efeito. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Chegando em Porto Alegre, o primeiro lugar em que eu vou é um karaokê chamado Babilônia Club. A temperatura em Porto Alegre está bem mais amena, mas como não tomei banho e viajei horas de ônibus, as mangas de minha camisa estão colando nos meus sovacos, donde se desprende um odor azedo, fétido, de baixa freqüência, que parece distorcer o espaço-tempo ao meu redor, faz de meu corpo uma massa pastosa e amorfa, sustentada apenas por uma frágil estrutura de músculos e ossos gravéticos, por sua vez a carregar duas malas pretas de couro paralelepípedecas. Deixo-as no canto, próximo do balcão e peço um rabo de galo, dois rabos de galo, três rabos de galo, e só então estou pronto para cantar. Escolho a canção Samba da Benção, de Vinícius de Moraes. Atravesso a melodia, erro a letra, e então o DJ acelera o ritmo da música, a casa está cheia, tem uma lista enorme de canções para ele botar e eu estou pagando o maior mico, ainda mais agora, com o Samba da Benção em ritmo de rap. Quando percebo a traquinagem, mando ele ir tomar bem no meio do olho do seu cu, do microfone mesmo, em alto e bom som. Uns perceberam que a música foi drasticamente acelerada e tomam meu partido, outros me vaiam e mandam eu me foder, vai se foder bêbado, grita um bêbado gaúcho alto e magro, usando gola role. Eu grito vai se foder você seu gaúcho viado. O Babilônia Club ferve, vira uma confusão generalizada, copos voam, sopapo pra tudo quanto é lado, eu pego uma garrafa das grandes de Heineken que está pela metade na mesa ao lado e, segurando-a pelo gargalo, dou um golpe só, com toda a minha força, de baixo para cima, estraçalhando-a bem no queixo do DJ, a papada dele abre de fora a fora, descola a pele, agora é sangue jorrando para todo o lado. Nessa hora um merdinha tenta me defender de vários caras que partem pra cima de mim, ele abre os braços entre eu e os caras, é nessa hora que eu escapo, fujo correndo pelos fundos, mas deixo minhas malas para trás. Saio correndo pela rua estreita, gritando filhos da puta, filhos da puta, pela noite escura como o breu. Sem as malas fica mais fácil a minha locomoção e dou graças pelo incidente. As malas que se fodam. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Com muito custo e no limite de minhas forças alcanço o Hotel Scala, faço o check in roçando minha barba e fazendo cara de poucos amigos para o gerentezinho simpático, engomadinho, apenas mais um bosta, subserviente a estrutura de castas sociais, evidente na capital gaúcha. Moleque babaca, eu penso, e respondo ao mínimo possível das perguntas do seu formulário. Para algumas de suas perguntas, eu apenas rosnava, para outras, permanecia em silêncio fitando-o profundamente, com cara de ódio. Por fim, depois de uns dez minutos, ele se deu por vencido. O seu quarto é o 304, Senhor. Grrrr, eu assenti. Não é que eu seja maleducado, estava apenas cagando e andando para ele, além de realmente cansado. De tudo. Liguei o chuveiro bem quente, tirei minhas roupas. Nesse momento você pode me imaginar, homem de meia idade, um pouco grisalho, barba estilo lenhador, mal desenhada no rosto, um metro e setenta centímetros de altura, uns cento e trinta quilos, obeso, mas um bocado parrudo e peludo pra cacete, enfim, traçando uma analogia, coisa feia de se ver, um cão chupando manga. Permito-me relaxar de pé no box do banheiro, sob a ducha forte e quente, revigorante. O sabonete do Hotel Scala é verde e minúsculo, mal dá para ensaboar as partes. O shampoo, fedido igual a desodorizante de automóvel. Permaneço assim, imóvel, sob essa cachoeira, fitando os azulejos azuis a minha frente, revestindo a parede. O rejunte é praticamente invisível, revestido por uma asquerosa camada verde de musgo. Noutros lugares, onde não há musgo, ou ele se desprendeu, o rejunte é preto de camadas pré-históricas de fuligem, camadas e mais camadas sobrepostas, ignoradas, desprezadas, omitidas pela rotina diária da limpeza, que era parca, apenas uma atividade pró-forma, a qual o administrador do hotel fazia vistas grossas, e os hóspedes desconversavam como se fosse espécie de acordo silencioso revertido em diárias super econômicas. Depois do banho, caí pelado e de costas sobre a cama de casal de molas, as pernas e os braços abertos. Não ouvi, mas devo ter roncado como um porco. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Só quando despertei no outro dia eu me dei conta do quanto estava enrascado, além de ter perdido todos os meus pertences, deixados em duas velhas malas pretas de couro paralelepípedecas, dei falta dos meus documentos, do cartão de crédito e de um montante de dinheiro em espécie que trazia comigo, eu tinha perdido a minha carteira. Eu podia jurar que trazia a carteira comigo, no bolso direito da calça preta de pano, como de costume. Mas não dessa vez. A lei de Murphy é implacável, ela te abraça nos momentos mais singulares, para fazê-lo lembrar de sua força, não a minha, a força dela, para mostrar o quanto é forte a lei. Desço para o café da manhã, mas ele já havia encerrado. O relógio marcava dez horas e quarenta minutos e a entrada para o café da manhã no salão do Hotel Scala se encerrava pontualmente às dez mais trinta, me explicou a recepcionista. Mas isso com algum jeito, boas maneiras, um bom dia, o por favor usado no momento adequado, porta de acesso, passaporte, para as necessidades vitamínicas, de carboidratos, de proteínas, pães diversos e uma boa xícara de café preto. Do salão do hotel eu parti direto para a rua, já que não tinha um puto no bolso, sai batido do hotel. Caminhei por algumas ruas de Porto Alegre a esmo e com vagar, observando a correria das pessoas, com tantos afazeres, ideias na cabeça, até que dei de frente com uma grande rede de magazines, as Lojas Centauro. Ponderei que se fosse para prejudicar alguém, que fosse um estabelecimento como aquele, uma loja grande, onde o desfalque dividido pelo total das vendas, resultasse num valor tão próximo quanto possível de zero. Disse bom dia para o atendente, pedi para experimentar uma camisa branca social de manga longa, calças pretas também sociais, cuecas samba canção amarelas, meias pretas sociais, cinto e sapatos pretos confortáveis e de couro. O atendente pegou alguns modelos, variações sobre o mesmo tipo de roupa que uso desde os meus vinte e poucos anos, disse para eu usar o provador. As meias e as cuecas eu as tomei furtivamente e as botei nos bolsos de uma das calças, antes de seguir para o provador. Fui até o provador onde deixei dependuradas as minhas próprias roupas, vesti-me com calma, olhei-me no espelho, bem alinhado, agora sim, estava tudo bem. Olhei pelo vão da cortininha e, quando um cliente interpelou o atendente com uma pergunta, deixei rápido o provador e sai andando naturalmente da loja, como se nada tivesse acontecido. Imiscui-me em meio ao vai e vem das criaturas no centro de Porto Alegre, ali eu era apenas mais um, uma simples alma em meio ao cardume de tantas outras, caminhei por quase uma hora, deixando o centro, paralelo às vias que levavam para fora da cidade. Acenei para um caminhão que transportava fardos de lenha. O veículo parou alguns metros a minha frente, no acostamento à direita. Eu perguntei ao motorista para onde é que ele ia, vou levar essa carga para Passos de Torres. Eu pedi uma carona e montei na boleia do Mercedes Benz. Era impressionante, o pen drive do cara só tocava Raul Seixas. Infinitamente. Várias versões de uma mesma música, algumas muito mal gravadas, por sinal, depois outra e mais outra, algumas delas eu nunca tinha escutado, mas era sempre Raul, e o motorista parecia não se importar com isso. Meio sem saco para conversas, perguntei ao motorista se ele gostava de Raul Seixas. Ele não respondeu a minha pergunta. Ele, ao contrário, parecia animado por ter alguém com quem conversar. Contou que vinha de Pelotas, donde tinha saído muito cedo, antes do Sol nascer. Então iriam para Torres, a cidade litorânea mais ao norte do Rio Grande do Sul. O dia era limpo e ensolarado. Veja como o dia está bom para um mergulho no mar, ficar de bobeira na areia, pena que eu tenho de retornar ainda hoje para Pelotas. O motorista contou que bastavam cruzar a ponte sobre o rio, em Torres, e eles estariam em Passos de Torres, já no Estado de Santa Catarina. Lá ele iria descarregar os fardos de lenha, almoçar e tomar a estrada de volta. A volta é sempre mais rápida, sem a carga, mesmo sendo morro acima. Mas ele disse que se fosse sexta, ou dia de sábado, esticaria até Mira Torres, que fica logo adiante de Passos de Torres, que por sua vez é a cidade seguinte de Torres, e teceu explicações sobre a lógica intrínseca destes nomes de cidades gaúcha e catarinenses, na ordem das progressões de suas distâncias. Explicações óbvias, desnecessárias, dessas usadas por quem está simplesmente querendo manter o diálogo, aplacando a solidão do quotidiano dos motoristas de caminhão. Contou que em Mira Torres ele tinha um amigo, Roberto, sua esposa Beatriz e a filha Fernanda. O motorista e Roberto tinham estudado desde o terceiro ano do fundamental juntos, nenhum deles terminou o ensino médio, mas quanto a isso ele não mencionou a razão. Ele morava numa casa de praia, simples, mas muito bem cuidada. Roberto era pedreiro e ele, o motorista, costumava pernoitar por lá, se era fim de semana e, principalmente, se estivesse fazendo Sol, com o céu limpo, dia quente de verão, para um banho de mar em Mira Torres e um bate papo descontraído com o amigo de longa data. Em nenhum momento o motorista disse o seu nome ou perguntou o meu. Em nenhum momento perguntou o que eu ia fazer por aquelas bandas. Pensei em como os gaúchos são discretos, ou talvez o tipo de pessoa que toma caronas seja um tipo desinteressante, mais um bom ouvido que boa boca, com uma vida vazia e erma, tão contada e recontada que já não lhe dava atenção, ou, por ventura, um misto de ambas as coisas. Eu ajudei o motorista a descarregar os fardos de lenha. Para isso, antes eu tirei a camisa branca social e a dobrei com zelo, deixando-a sobre o assento, na boléia do caminhão. E, depois, feito também o trabalho com calma e cuidado para não suar muito, não sujar a calça preta de pano, também social. Minha única vestimenta. O motorista pagou o almoço num restaurante barato e ainda me deu trinta reais pela ajuda com o trabalho. Você adiantou o meu dia em uma hora e meia, ou duas horas, obrigado e até mais. Então, antes dele partir, perguntei o seu nome. Meu nome é Anderson, ele respondeu, sem perguntar como eu me chamava. Melhor assim, pensei cá com os meus botões. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Com nove reais mais vinte e cinco eu compro uma vodka balalaika bem gelada, e ainda me sobram vinte reais mais setenta e cinco, em cash. Eu estava me sentindo muito bem, com roupas novas, descansado, bem alimentado, o parrudo com a sua barba de lenhador mal desenhada. Sigo tomando a balalaika aos poucos, enquanto caminho de Passos de Torres para Mira Torres. Boas três horas e meia de caminhada, aos goles da vodka barata, que aos poucos ia aquecendo. Mas beber e caminhar era técnica que eu havia desenvolvido desde a adolescência, quiçá, de vidas pregressas, outras encarnações. Quando se bebe ao caminhar, o álcool é absorvido e queimado mais rápido, funcionando como um amortecedor das ideias com ação analgésica concomitante para a jornada. Chegando na praia de Mira Torres, apesar de um leve bafo de álcool, eu ainda me sentia otimista e bem apessoado, cabelo e barba grisalhos, roupa social. Fui perguntando para um camarada aqui, outro acolá, elicitando, até que, enfim, já quase ao final da tarde, o cara da mercearia me disse, tu segues duas quadras, dobra à esquerda, tu desces uma quadra, vira à esquerda de novo, é no meio dessa quadra, do lado esquerdo, é lá que ele mora. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Dou três socos na porta, não muito fortes, não muito fracos, pancadas assertivas, seguras de si. Roberto. Roberto. Uma linda loura gaúcha, de pele muito branca, olhos muito azuis, bunda e seios firmes, generosos, portando uma cabeleira encaracolada que lhe caia até cinco dedos abaixo da linha dos ombros. Deve ser Beatriz, pensei com os meus botões. Roberto está? O Roberto foi dar um mergulho no mar, ele sempre faz isso no fim da tarde. Já volta. Você deve ser Beatriz, não é? Sim, sou eu mesma, ela faz uma cara de preocupada, talvez pelo inusitado da situação: um cara de estatura mediana, cento e trinta kilos, aquela barba de lenhador mal desenhada, a roupa social, os sapatos pretos, brilhantes, de couro. Eu a acalmei com a minha fala. Eu sou bruxo (amigo, em bom gauches) do Anderson, o motorista, faço frete de carga também, o meu caminhão quebrou, precisou de um conserto, perdi dois pneus e amassei a roda num buraco, numa cratera, deixei no borracheiro em Passos de Torres, ele me disse que é bom com o martelo para desentortar a roda, não tinha onde dormir, passei um rádio para o Anderson, ele disse que não sabia, mas talvez eu pudesse pernoitar na casa de vocês. Ah… pode sim, uma mão lava a outra, o Roberto já chega, são amigos desde antes de eu conhecer o Roberto, o Anderson. Por sorte a Fernanda não está em casa, foi dormir na casa de uma amiga, diz que é trabalho de escola, mas nessa idade, não sei não. Mas a gente também tem o direito de se divertir, não dá pra ficar o tempo todo na cola da menina, né?! Entra, quer um café? O Roberto já vem, senta aí. Passa um café fresco, com calma, com a água aquecida no fogão a lenha, ao invés de filtro de papel, coador de pano, adiciona quatro sementes de cardamomo, eu fico sentado à mesa, a fitá-la. Ela chega com três jogos de xícaras e pires, depois traz o bule de café fresco, fumegante, a saborosa fumaça incensando o ambiente. A porta da sala dá para a praia. Ao longe vejo um homem alto, moreno, tipo atlético, ainda assim magro, que vem caminhando lentamente da praia em direção à casa. Ela acena com a cabeça na direção dele, Roberto. Roberto entra e Beatriz começa a falar. Primeiro me apresenta, esse aí é um amigo do Anderson, diz que teve um problema com o bruto, quer pernoitar aqui em casa. Eu não preciso falar nada, só estendo a mão e digo, prazer Roberto, ele diz prazer amigo do Anderson. Nesse ponto fico imaginando se já não é um absurdo esse desinteresse pelo outro ser humano, coisa de gente dali, muito na deles. Beatriz e Roberto engatam uma conversa sobre o dia a dia, o que você fez hoje, amor? E aí, deu certo de pegar a nova obra? E a outra, quando termina? Você também tem de descansar, Roberto. Hoje eu estou aqui contigo, não estou, Bia? Eles se beijam, era como se eu fosse completamente invisível, não pertencesse às mesmas dimensões do espaço-tempo do universo deles. E, é bem provável que, de fato, não. Ou talvez tivessem pressentido algo de podre na minha aura, algo cinza, ou denso, ou pesado, ou enuvarado. Roberto me diz, dorme lá no quarto da Fernanda, aqui a gente deita cedo. Ele toma um banho demorado, se arruma devagar, depois vai para o seu quarto. Beatriz já está lá. E assim eu faço também, tomo um banho e me fecho no quarto de Fernanda, quem sou eu para recusar o pernoite. São oito horas e eu me deito, não consigo pregar os olhos, é muito cedo, o sono não vem. Em geral eu durmo tarde, acordo cedo, sofro de insônia. Leio uma antiga revista Manchete, que é o único texto que me agrada no quarto da menina. Nada de Harry Potter, romances adolescentes, livros de ficção, alguma coisa de misticismo, psicologia, religião, não, apenas a revista Manchete, com muitas fotos de celebridades, textos curtos, letras grandes, legendas com os nomes das atrizes, tudo numerado, organizado, então essa gostosa aqui se chama X, e aquela gostosa lá se chama Y. Nunca me lembro dos seus nomes. O rádio no quarto do casal toca Kid Abelha Acústico MTV, num som que, lá dentro, deve estar num volume bem alto. Não demora muito para que os gemidos, gritos truncados de penetração, coisas que eu não sei, mas posso imaginar, que devem estar acontecendo entre Beatriz e Roberto, alguns gritos dele também, mais espaçados, ah…, mete, mete, assim, mete, mete, mete mais, na voz de Beatriz. E isso vai se estendendo, das quinze para as nove até quase uma hora da manhã. A coisa toda acontece em ciclos. São três ciclos de quinze minutos de ação com intervalos de cinco minutos entre eles, completando cada hora de sexo selvagem, pura entrega. O ápice, os orgasmos de Beatriz, parece se estender por quase oito minutos, quando ela uiva baixo, geme, grita abafado mete, mete. O de Roberto é mais pontual e intenso, acontecendo sempre entre o décimo segundo e o décimo terceiro minutos. Mas cada jogo, vamos chamar assim, parece uma nova música, uma nova sinfonia, de diferentes ritmos, outro tipo de encanto. Eu sei disso porque não consigo adormecer até que tudo termine, com o Kid Abelha ao fundo, em modo repeat ao reiniciar o DVD. Resultado: uma taxa de três punhetas por hora para mim, acordo noutro dia com o pau ardendo de esfolado. Ao despertar fico imaginando como eles conseguem foder tanto, fico imaginando quanto amor tem um pelo outro, porque isso é evidente, a marca registrada de cada uma das treze sinfonias de sexo, uma reciprocidade, cumplicidade, um querer amar de deixar qualquer observador cabisbaixo, se sentindo um merda, só de imaginar ser possível existir amor daquele tamanho. Ele com tão pouco, o pau esfolado, a cabeça baixa no café da manhã. Beatriz nem liga, está iluminada, fala, conta da sua vida com alegria à mesa do café, parece cantar, mas fala, um sabiá transmudado na forma de mulher. Roberto, um pouco mais contido, mas milhões de anos luz adiante da insignificância e uma boa dose de vergonha que me afligiam. Muito. Disse, obrigado, até mais, e sai caminhando pela praia de Mira Torres. Os sapatos e as meias sacados, estes e a camisa branca dobrada eu carregava em minhas mãos, a calça social preta dobrada até pouco abaixo do joelho, seguia sobre a fronteira móvel das ondas na areia, procurando manter a água do mar ao nível de meus tornozelos. Ah… a liberdade. Ah… a liberdade. E, no fim, não é nada disso. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Em Passos de Torres, ainda na orla, cruzo com uma vendedora de brincos, miçangas, biquínis, que, por razões óbvias, me fita ao longe, mas vira o rosto quando estamos nos aproximando. Ela não é feia, apenas um pouco seca demais, com a pele judiada pelo Sol e de caminhar pela praia o dia todo, parece também meio riponga, ou algo mais pesado, deve ter se introduzido recentemente no mundo do crack, ou talvez o limiar entre uma coisa e outra, vai saber. Então eu me dirigi a ela e perguntei, quanto custa este brinco, apontando para um jogo de peças no formato de gotas curvadas, deviam ser de prata, por certo, formas fluidas, como as ondas, como o yin apenas, como o yang apenas, separados um do outro, ideia da mente de algum artesão muito maconheiro e com um bom equipamento para a fusão. Estes custam oitenta reais, meu senhor. E para irmos atrás daquela construção e darmos uma rapidinha, quanto é que fica? Tem camisinha? Tenho. Então são cem reais, ela se empinou, exibindo o corpo. Eu não podia perder aquela chance de liberar o tesão recolhido da noite anterior. Então caminhamos em direção a construção, para trás de um muro de lajes planas pré-fabricadas, bem rente a praia. Além da construção, pela metade, tinha um bocado de areia e um bocado de mato verde, como se a obra tivesse sido abandonada a própria sorte. Ela encostou a bolsa e o quadro com as pratas e as miçangas no muro, tirou a roupa, me pediu a grana e a camisinha. Eu enfiei a mão no bolso, saquei tudo que havia lá e lhe dei. Vinte reais mais setenta e cinco, nada de camisinha. Ela me disse, mas o que é isso? Isso é tudo que eu tenho, pronunciei com um ar desolado e honesto. Olha, você não quer levar umas pulseiras de couro, ela tentou desconversar. Não, eu preciso de você, eu disse. Olha, por isso aí, só se for um boquete, pode ser? Eu assenti com a cabeça, abri o botão da calça de pano, baixei o zíper e a parte da frente da cueca samba canção amarela (para dar sorte). E o meu pau saltou rijo pra frente. Ela me olhou com aquele ar de onde é que eu fui me meter? O meu pau era pequeno e fino, quase sem carne, sem músculo, parecia o osso da coxa de um frango. Com a glande à semelhança das cartilagens da extremidade maior do osso da coxa, o pinto com uma seção fina e a cabeça cheia de pelanca, fimose. Mas ela chupou bem, enfiou o osso de coxa de frango todo dentro da boca, pressionava a glande em direção a garganta, massageou a cabeça sebenta com a língua, depois roçou de leve a seção do osso com os dentes, então ela o tirou rápido da boca, astuta, enquanto aquele ossinho pulsava e expelia um generoso volume de sêmen. Olha, engolir, eu não engulo. Botou o biquíni, uma canga, pegou a mochila e o quadro de artesanato, e partiu. Deixou-me ali, suando e com o pinto murcho, a cueca samba canção agora arriada até a altura dos meus joelhos. E voltou para o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Eu boto minhas roupas, deixo a orla e atravesso a ponte pênsil que me transporta de Passos de Torres (SC) para Torres (RS). Entro num restaurante simples, peço um copo d’água da torneira, explico que tive os meus pertences, carteira e celular furtados, o garçom se prontifica a ligar para a polícia, diz que num caso desses é recomendável ao menos que se faça um B.O., mas ele não sabe da minha história, então eu desconverso, digo que é desnecessário, depois eu cuido disso. Conforme os clientes vão deixando suas mesas, peço ao garçom para comer os restos de seus pratos e, logo, já estou almoçado. Agradeço ao garçom pela gentileza, peço desculpas pela situação constrangedora e me despeço. Sigo para fora da cidade, novamente margeando uma rodovia. Tento chamar a atenção dos carros com o dedo polegar da mão direita em movimentos pendulares centrados no cotovelo, indicando o sentido da via, ou, para quem não entendeu, pedindo carona, carona para qualquer lugar. Então pára uma camioneta branca com um grande refrigerador sobre o chassis, dois grandes marfins azuis formando um xis e compondo o logo lateral, placa de Gramado. Na Chevrolet branca estão o motorista e o ajudante que perguntam para onde é que eu vou. Digo que é para Gramado, mal entro no veículo e os dois começam a me contar sobre o trabalho diário do transporte de peixes, pegam o peixe fresco de Passos de Torres e os levam para a distribuição, a comercialização, o abastecimento das cozinhas dos hotéis e restaurantes de Gramado. Falam sobre os diversos tipos de peixes e outros frutos do mar, falam das suas quantidades em kilos, que transportam. Sobre as flutuações do mercado de acordo com as estações do ano, porque um determinado tipo de peixe é mais comum em tal e qual época, menos acessível nas outras, e assim é a dança da vida, de certa forma, a alimentação é apenas mais uma de nossas necessidades guiada pelos ciclos, a interagir com os ciclos de vigília e sono no ser humano, as fases da Lua, os ritmos dos ventos, das correntes oceânicas, estando assim, guardadas as devidas proporções, tudo interconectado, nós todos conectados através de anzóis, linhas de pesca, redes e outras estruturas de conexão, mesmo as nossas ondas cerebrais, a emitirem pulsos de alta freqüência, que são modulados pela freqüência dos batimentos do coração. Não estou aqui a discorrer sobre sístoles e diástoles apenas, estou, antes, me referindo ao metafísico associado a este órgão de natureza pulsante, vibrante e sensível ao meio, estou a discorrer das nossas escolhas, dos nossos sonhos, ao nível conceitual e potencial de construção da própria realidade, aquilo que verdadeiramente nos anima, nos faz seguir adiante, apesar das adversidades. Estou a tratar da fé, no seu sentido mais amplo. No amor, na caridade, no desejo de ver o outro feliz, em última instância, no anseio pela completude, na realização pessoal, a justificar toda a existência, se é que você me entende. Acho que não. Isso não foram eles que disseram, fui eu que pensei. Sou apenas um passageiro a ouvir, a ouvir, a ouvir, e registrar. Deixar fluir para dentro da mente, imiscuir aos sentidos, tirar as minhas próprias conclusões e sonhos, estes irão se materializar em breve. Sou gestante de ideias. Salto na cidade de Canela. Entro na Catedral de Pedra, escondo-me antes da nave ser fechada. Aqui passarei a noite só e em oração. Imerso aos cheiros de velas sendo queimadas, centenas de milhares de pedidos erguidos aos céus e agradecimentos por graças alcançadas reverberam simultaneamente na cavidade que é o interior daquela nave, edificada exatamente como um neurônio retransmissor do ser humano à divindade, para o equilíbrio de todo o cosmo. Deito-me sobre um banco da Catedral de Pedra e adormeço. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Na manhã seguinte o pároco se assusta ao ver-me deitado sobre um dos bancos da nave roncando como um porco. Mas poucos segundos depois, isso ele me disse depois, estava refeito do susto, porque sabia não se tratar de uma nova aparição de Jesus Cristo ou mesmo um desdobramento do Satanás com muitas cabeças, como fora descrito no apocalipse de São João Evangelista. Apenas um cara grisalho, centro e trinta quilos, parrudo, com a barba de lenhador mal desenhada no rosto, apenas um ser humano comum, sem grandes propensões para o bem ou para o mal, ele avaliou. Nada relacionado à ocorrência dos milagres, nada de possessões ou grandes distúrbios psíquicos, aqueles de natureza psico-cinética, exceção feita ao peido com forte odor de enxofre, ao bafo de centenas de serpentes, aos pêlos que remontam ao Tony Ramos, nada que estivesse de alguma forma relacionada aos mitos do herói ou àquele do asceta. Um bosta, apenas um bosta, com o perdão da palavra, ele me confidenciou. Sem saber como reagir àquela investida, eu disse que havia dormido na Catedral de Pedra porque precisava de confissão. Obviamente julguei que ele não tivesse qualificação para fazê-lo, e eu sairia ileso daquela sinuca de bico. Pois então vamos tomar um bom café preto, eu preparo, trouxe pão fresco e manteiga com sal, o pão é contado, mas deve sobrar um ou dois filões para você, sempre aparecem visitas inesperadas na hora do café, hoje foi você, depois eu faço a tua confissão. Trato é trato, retruquei. Então eu narrei para ele a história absurda de um cara que, sem norte, decide viajar sem destino rumo ao sul. Mas a história era outra, completamente diferente dessa narrativa sem pé nem cabeça, porque o que eu contei é como a minha vida devia ter sido, e também como é que ela foi, nada de sair por aí mandando os outros tomarem bem no meio dos seus respectivos cus, que se fodessem, cada qual a sua maneira e gosto, mas sim um processo conduzido por tênue encadeamento, de elos, uma fina corrente, filigrana, estes elementos de conexão flexíveis a unir as contas de vidro. Aquilo que eu narrei para o pároco, aquela jóia, era o que eu gostaria que você soubesse, tudo aquilo que eu não soube descrever aqui. Não por vergonha, mas porque de repente a vida se tornou um televisor cuspindo informações aleatórias, nunca uma história com continuidade, com altos e baixos, sim, a modularem a experiência, mas uma história com encadeamento, passível de renovação, de renascimento, como o Sol, como o dia, como a noite, como as fases da Lua. Então eu decidi mentir, omitir, distorcer, não na confissão para o pároco, mas na história paralela, nessa minha narrativa. Porque eu gostava de brincar de Deus, foder com os personagens, na mesma medida que Deus nos outorgou o livre arbítrio, enquanto eu escrevia. E isso tudo era apenas balela, de quem está fugindo, tentando esconder da vida a intensidade, enchendo-a de adornos, furtando-lhe a essência, do significado, e este não sou eu, em definitivo. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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Caminho a pé da cidade de Canela para Gramado. Deixo para trás os meus pecados, deixo para trás a minha narrativa sobre um dos bancos da Catedral de Pedra. Daqui para frente, tudo o que está descrito nesse caderno foi anotado a priori, antes de se manifestar como realidade. Eu escrevo sobre um futuro que eu imagino, esse que é o da narrativa ficcional. Não a ideação mental da semente para a realidade da árvore, essa é outra história. Mas há ainda uma terceira possibilidade. Parto sem destino rumo ao sul.

        

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No meio do caminho vejo a sinalização de acesso para uma cachoeira. Caminho por vinte e dois minutos, os vinte e dois minutos mais longos da minha vida. Chego numa clareira que se descortina frente à trilha na mata. Eu vejo rochas, arbustos de hortênsias, borboletas brancas, ao fundo, a banheira cavada na pedra por uma imensa queda d’água. Tiro toda a minha roupa, dobro-a, organizo com zelo sobre uma grande pedra ao Sol, distante da água. Entro na água super-gelada aos poucos, molhar as bolas do saco é quase premonitório, dá um aperto profundo na garganta. Então eu mergulho, dou braçadas parrudas, toscas, porém vigorosas em direção ao centro da cachoeira. Entro debaixo dela, sinto a pressão da água sobre os meus ombros, sobre a minha cabeça. Então subitamente relaxo o corpo, deixo o fluxo me levar para a borda. Faço isso por três vezes. Na quarta investida sinto câimbras fortes em ambas as panturrilhas. Simultaneamente. Depois outra fisgando o abdômen, fazendo eu me curvar, sem reação, apenas tentando respirar, permanecer na superfície. É quando dou com a cabeça forte numa pedra. Aquilo que cada um acredita ser a realidade, a narrativa dum certo homenzinho parrudo ou o exercício da imaginação para a construção da realidade. Esta é a terceira via, como se fossem três as caixas do gato de Schrödinger [*]. Enquanto nas duas primeiras caixas, nunca sabemos em qual delas ele está, só a intuição é bússola precisa, ela vai de encontro ao gato, assim como o gato procura por ela. Enfim.

        

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Escrito de 27-fev à 02-mar-2017

[*] https://pt.wikipedia.org/wiki/Gato_de_Schr%C3%B6dinger

Revisto e publicado em 07-mar-2017

Dissolver ao vento

maio 29, 2016

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– É aqui?

– É aqui, Zigfiii, se achegue Zigfiii, entre aqui no quartinho dos fundos.

Atravessa um corredor estreito, cheio de lodo, entre a parede da casa e o muro. Caminha úmido, um cheiro de natureza a invadir os seus sentidos. No fundo da casa simples, observa a mangueira, a jabuticabeira, um pouco de mato, um pouco de grama, umas pedras paralelepipedicas  fazendo as vezes de calçamento, um gato preto e só. Uma edícula simples, mas muito limpa, as paredes brancas que só. Uns tapetes vermelhos levam até uma escrivaninha velha daquelas de ferro, severas, resistente aos anos, às gerações de gentes perdidas dos seus caminhos, que ela tenta consertar, sustentar um santo qualquer de gesso, umas três velas acesas. Nas cores branca, amarela e vermelha. Ah, descaminhos, isso sim!

 – Zigfiii pode se acomodar aí no banquinho. Enquanto isso vou fumar do palheiro, que é de modo a chamar o Pai.

 – Mas não quer que eu te diga nada, quem eu sou, o meu problema, o que me traz aqui?

 – Zigfiii veio aqui, não fui eu aí no seu terreiro, Zigfiii se acalme, que é de modo a chamar o Pai, viste?

 Percebe então um pequeno globo de luz, do tamanho de um limão, uma superfície anuvarada, fechada em si, de bola, e tênue de luz, que parece ser reflexo de um centro de luz, um brilho muito branco e claro do globo névoa flutuante, atravessa o pequeno quarto, lentamente, calmamente, enquanto o palheiro se esvaindo em combustão com o ar, num fenômeno estranho à natureza, razão de existir daquela luz, um movimento suave, quase um olho de luz, uma presença, que não era nada disso senão fumaça.

– Zigfiii, Zigfiii, mas por que isso, Zigfiii?

Olha os olhos arregaçados e deformados do Pai, que não eram dali, já não deviam nada a este mundo.

O observador dentro do globo névoa flutuante de onde compartilha daquela sensação. O amor que os une, um momento de profunda intimidade do casal, o tato, a penetração, a saliva trocada pelos lábios em chamas, o calor vasto da vida. Funde num centro de luz e brilha de uma fumaça em volta, numa superfície anuvarada, fechada em si, de uma bola. Para flutuar, flanar pelo ar incensado, sair pela janela, dissolver ao vento e ao sol.

– Zigfiii não precisa de nada.

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Uivar para a lua cheia

junho 23, 2015

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Quando Bolinha apareceu na chácara de Seu Tatá foi só alegria. O céu de um azul intenso, o verde das matas, o brilho do sol, era como a primavera trazendo de novo o alento. O velho e bagunceiro Escovão tinha morrido há pouco tempo, Seu Tatá sentia falta doutro cão vira-latas daquele. Ele tinha ficado apenas com Batatinha e Xanadu, que eram filhotes, por isso não podiam acompanhá-lo na lida do pomar, nas idas e vindas até a vila para tratar dos negócios da chácara ou mesmo para uivarem juntos, sem compromisso, se a lua era cheia.

É fato que Bolinha não estava sempre presente. Ele vinha de muito longe (ao menos para um cachorro), visto que morava noutro extremo da vila, onde ganhava o seu sustento como cão guia de um senhor cego. Bolinha era habilidoso na condução do seu dono através do calçamento e dos cruzamentos das vias. Mas o que ele gostava mesmo era da vida alegre na chácara e de acompanhar o Seu Tatá nos seus afazeres. Ao contrário do senhor cego, Seu Tatá não precisava dele, sabia se virar muito bem com a rotina da chácara, mas demonstrava carinho pelo divertido e desastrado Bolinha, meio sem tino para com as plantas.

Bolinha, como todo vira-lata, gostava de se exibir, trazia uma manga na boca se Seu Tatá a arremessasse para longe. Abanava o rabo pedindo para Seu Tatá jogá-la novamente. E de novo. E de novo. E de novo. Ficava se esfregando nas pernas do Seu Tatá. E por ser correspondido, achava mesmo que Seu Tatá precisava dele. Mas aquelas brincadeiras do Bolinha eram bobagens. Só mesmo os cães, que não raciocinam, não percebem o quanto são, por vezes, ridículos em suas atitudes. Pidões e carentes; demasiado inocentes. Sair correndo, trazer uma manga na bocarra ou uivar para a lua cheia: Bolinha não se apercebia de que nada disso agregava a chácara, ao Batatinha, a Xanadu ou ao Seu Tatá. É verdade que se divertiam, mas só.

A vida é grave. Existe um sentido maior para cada ato e toda a criatura deve se colocar no seu devido lugar. Então, quando Bolinha clamava por mais atenção, julgava-se merecedor de morar com Seu Tatá, assim como a Xanadu e o Batatinha, Seu Tatá foi ter com Bolinha:

– Olha Bolinha, você é muito bonitinho e divertido, mas é cão guia do senhor cego lá na vila. Essa é a sua função nessa Terra. Pense bem, se não fosse por você, o senhor cego não poderia trafegar com segurança pelo calçamento e através dos cruzamentos entre as vias, cumprindo tarefas ainda mais importantes que as tuas, na infinda escala dos desígnios das criaturas. Há um plano maior que alicerça e a tudo dá sentido. Veja como você é afortunado: mesmo sendo um cachorro vira-latas, você é também um guia, Bolinha. A Xanadu, o Batatinha e eu somos gatos. Nós somos independentes, não precisamos de você aqui na chácara. E depois, o Batatinha e a Xanadu vieram antes. Não podemos mudar uns pelos outros apenas. Precisamos estar orientados a um objetivo pré-estabelecido, anterior. Por isso, Bolinha, eu peço que você não me procure mais.

Apesar de Bolinha pouco ter entendido quanto às motivações mais profundas que norteiam a aguçada percepção felina, mesmo para a parca sapiência de um reles cão vira-latas a colocação de ordem prática de Seu Tatá tinha sido bastante contundente. E Bolinha se conformou; com o rabo entre as pernas, ele retornou para o outro extremo da vila, onde morava com o senhor cego.

Agora Bolinha tem consciência de como é afortunado, porque sabe que, por intermédio dele, o senhor cego pode realizar tarefas tão importantes que Bolinha é sequer capaz de concebê-las. Bolinha entendeu também que catar os objetos atirados e trazê-los de volta ao dono, assim como ficar roçando as pernas das criaturas em nada lhes acrescenta de valor, por isso desistiu desse seu feitio.

Bolinha gostaria de entender a razão dos gatos, mas isso a sua natureza canina não permite. Deve haver motivo muito forte para um mundo assim tão justo e sisudo. Cada qual trabalhando como engrenagem de uma grande moenda a esmagar a si mesma. E a noite, em meio a seus devaneios, Bolinha ainda se recorda do quanto ele apreciava uivar para a lua cheia.

Define-se a constante matemática PI como a razão do perímetro pelo diâmetro da circunferência.

O dia anual de celebração da constante matemática PI é 14 de Março. Este dia foi o escolhido porque no padrão inglês adota-se mês/dia para a data, sendo que 3/14 representa também os três primeiros dígitos do pi em formato decimal.

Neste ano, em especial, 3/14/15 às 9:26:53.58979… o número irracional PI será representado exatamente com todos os seus infinitos dígitos!!

Isso pode parecer totalmente irrelevante para a humanidade, mas há quem se importe com isso.

E em homenagem a estes poetas visionários dos números estou disponibilizando nesta data tão significativa o meu segundo livro, intitulado ‘Para Pescar a Lua’, na íntegra, em versão pdf, para o download gratuito.

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Larry Shaw, the founder of PI Day, at the Exploratorium in San Francisco

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In chaos theory, the butterfly effect is the sensitive dependence on initial conditions in which a small change in one state of a deterministic nonlinear system can result in large differences in a later state. The name of the effect, coined by Edward Lorenz, is derived from the metaphorical example of the details of a hurricane (exact time of formation, exact path taken) being influenced by minor perturbations such as the flapping of the wings of a distant butterfly several weeks earlier.

 

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The butterfly effect in the Lorenz attractor

 

O meu nome é Reinaldo. Eu sempre prezei pelo bom gosto e a sofisticação, mas isso sem exageros, tudo dentro de minhas possibilidades, sem que isso resvalasse nalguma obsessão, fetiche ou ostentação. Trabalhar de segunda a sexta numa fábrica é rotina pesada; quem faz, sabe. E dentre as pequenas recompensas às quais eu me permito, está o prazer de degustar um bom café.

Eu não sou nenhum expert no assunto, não sou barista, mas basta ter um pouco de tutano dentro dos miolos, alguma massa cinzenta na cachola, e ler algumas poucas revistas especializadas para saber que o melhor café do mundo é o Kopi Luwak.

Esse nome, Kopi Luwak, na língua indonésia, designa o Café Civeta. As civetas, essas criaturas admiráveis, são pequenos mamíferos, leves, arborícolas e da mesma família do gato-almiscarado.

Especialmente na Indonésia e nas Filipinas esse animal gracioso – a civeta – tem também por hábito se alimentar dos pequenos frutos que ele mesmo extrai, diretamente, dos pés de café. Os frutos são processados no estômago do animal. A fabulosa enzima da civeta não é capaz de digerir o grão do café; ela tem, porém, a propriedade de lhe prover uma espécie de tratamento superficial – que é o responsável pelo sabor menos ácido e amargo do Kopi Luwak com relação ao café comum, imprimindo-lhe o toque característico de alquímica composição do chocolate com o suco de uva.

É evidente que o produto final desse processamento dos grãos pela civeta resulta numa espécie de chokito molengado (não podia ser diferente). Mas a natureza é sábia, existem homens de gênio e imaginação, verdadeiros visionários: um desses indonésios de estirpe descobriu que bastava passar com os chokitos na peneira através de um jato d’água para que restassem tão somente os grãos do café, prontos para serem torrados, moídos e vendidos pela bagatela de 2500 reais (ou vinte e cinco de nossas preciosas garoupas).

Eu me orgulho de já ter provado o legítimo Kopi Luwak numa viagem que fiz a Londres. Custou-me quatro de minhas garoupas a xícara. Mas, modéstia a parte, eu sou um cara bastante sagaz, de modo que o meu maior orgulho é outro. Afinal, viver como assalariado da indústria brasileira, ter bom gosto e sofisticação é para poucos e bons. E haja jogo de cintura!

Eu não sou nenhum expert no assunto, mas tenho a criatividade e o raciocínio a meu favor. Quem me ouve falando assim pode, a princípio, imaginar “esse Reinaldo é um arrogante, ele se acha”! Quando, em verdade, não é nada disso. Modéstia a parte, sou apenas ciente daquilo que sou capaz. E provo. Eu não preciso matutar ou estudar muito para saber que o melhor vinho brasileiro é aquele que vem do sul. E isso – a despeito de toda a sapiência, o formalismo e a elucubração dos enólogos – tem uma explicação muito, mas muito simples: as vinícolas do sul são basicamente familiares; com famílias de origem alemã, italiana, polonesa, ucraniana; que geram belas filhas louras, de lindos olhos azuis; os filhos homens ajudam os pais na lavoura, nas suas videiras; as matriarcas são propriamente as responsáveis por cuidar da fermentação do suco; mas são as jovens louras, em tenra idade, no esplendor de seus onze aos treze anos, aquelas a amassarem com os seus pezinhos as bagas de uva; e elas são virgens. Voilà! E isso eu chamo de raciocínio lógico indutivo.

Mas parece que eu já ia perdendo o foco… Eu estava abordando o meu maior orgulho, a minha invenção, sobre a qual eu não posso entrar em profundos detalhes por ser objeto de um pedido de patente: o Café Reinaldo. Posso dizer apenas que foi desenvolvido por similaridade ao Kopi Luwak, alcançando a mesma excelência em termos de aroma e sabor; com a grande vantagem de que o Café Reinaldo é muito mais barato. Como eu consigo isso? Segredo! Aguarde e a história do barismo dirá de si mesma. Cada coisa ao seu tempo.

Além disso, posso narrar apenas de um pequeno contratempo que tive durante o aperfeiçoamento do Café Reinaldo. Trata-se de um sutil acento de uréia que insistia em se imiscuir às notas achocolatadas e frutadas do Kopi Luwak. Depois de alguns meses de reflexão a este respeito eu me apercebi que, devido às pressões da demanda de trabalho, quando eu ia até o banheiro da fábrica para uma rápida mijada, e a pia estava ocupada, eu saia batido. E foi daí que eu aprendi da real importância de lavar as minhas mãos.

É como eu sempre digo: criatividade, raciocínio, paciência. Sobretudo, muita paciência. Cada coisa ao seu tempo.

O velho inventariador

junho 19, 2014

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É a melodia triste a se apossar dum remoinho para transmudar na ideia. O velho, cansado, procura nos bolsos de suas calças surradas as chaves da humilde residência. Abre a porta pesada, com vagar. Dá com as costas da mão canhota no interruptor. Então ele já pode ver.

O bom e velho som Philips, 3 em 1, companheiro noturno das últimas quatro décadas. O aparelho receptor de t.v. Telefunken, com tubo catódico. Uma mesa: dois cavaletes com duas longas pranchas de construção dispostas horizontalmente acima. Quatro cadeiras, consistindo estas de duas caixas de pêssegos e mais duas caixas de peras argentinas, doutro tempo, daquele das caixas de frutas de madeira, das peras e dos pêssegos argentinos, todas elas apoiadas no chão sobre as respectivas faces de menor área. Lembranças férteis. Lembranças do esterco, não dos agrotóxicos, não dos transgênicos. Lembranças da Terra molhada.

Na janela da sala é possível, pela observação cuidadosa, aperceber-se da sinuosidade do vidro, que é a tergiversação de sua própria função. Não, não são apenas os operários que se exaurem da jornada longa de trabalho e, vez por outra, desviam o foco do eterno produzir, que é como pensa o patrão. Até o vidro se derrete. Outra vez ele trinca. Então não há culpa.

Noutro cômodo, o quarto de dormir. Um colchão acomodado sobre caixas abertas, daquelas de supermercado, lâminas de papelão sobre o piso frio. Um travesseiro com fronha, um lençol e um cobertor comprados no Mappin, sobre o colchão. A procedência do colchão lhe foge a memória. Um criado-mudo de mogno. “De mogno”, ele repete, em voz alta (apesar de estar só). A definição da madeira lhe atribui uma identidade, como se sacasse esse móvel em específico do conjunto quase inumerável de todos os criados-mudos do universo. Tal e qual o verdadeiro conhecedor da aguardente entende antes do madeiramento para avaliar-lhe, depois, o sabor. O velho sabe.

Uma miríade de azulejos delimita as superfícies fronteiriças do banheiro. O espelho retangular em formato 20,3 x 25,4 cm disposto acima da pia, onde o velho se espelha qual fotografia desbotada. Uma ruga, duas rugas, outra ruga. Cada vinco de sua face leva um nome e tem história. Ele pode nominá-los como aos trópicos, como aos polos ou a outros importantes meridianos. Como as crateras da Lua, aquelas da sua face. “As above, so below.” O rosto envelhecido, sua geografia mais íntima.

No canto, o pequeno box do chuveiro, com queda para o ralo. Estupefato, o velho fita lá, bem no canto, naquela quina do nada, o verde louva-a-deus. E ele ora. Noooossa!

Nem toda a vida dedicada aos inventários de terceiros. Nada disso. Disso ele herdou tão somente o direito ao dia seguinte. Nada disso. Numa curva suave do hemisfério direito de seu cérebro. É lá onde se encontra o maior dos tesouros, todos os seus sonhos, a memória, registros remotos de sua ancestralidade. O velho sorri.

Nesta noite ele desiste do banho. Deita-se sobre o colchão. Fecha o corpo sob o cobertor como se bate a porta. Daí a ideia a transmudar-se através dum remoinho para a melodia doce duma vida. Escorrer por toda a 373rn1d4d3.

Júpiter

abril 14, 2014

Gemini's Laser Vision Reveals Striking New Details in Orion Nebula

Estamos de mudança para uma pequena cidade do interior, eu, meu pai, minha mãe e meus dois filhos, de onze e nove anos. Depois de vários anos morando sozinho, distante de meus entes queridos, com os quais me encontro apenas nos finais de semana – desde quando decidi tomar em definitivo as rédeas de minha vida –, me sinto empolgado e feliz com a perspectiva de voltar a viver em família.

A cidade para onde estamos nos mudando deve ter por volta de quinze mil habitantes e vamos morar num casarão em estilo colonial que ocupa todo um quarteirão. O casarão é do final do século XIX, com o pé direito alto, cômodos amplos e assim também são as aberturas das janelas e das portas. As vigas e os pilares da estrutura, os batentes das portas e janelas e os móveis são de madeira maciça, em cores escuras, sóbrias, mas tudo muito limpo, organizado e conservado. Lá é possível respirar um ar úmido e puro, pois o casarão ocupa o centro do terreno sendo rodeado de muito verde: árvores centenárias, jardins e um pomar.

A pequena cidade representa uma novidade para todos nós e estamos ansiosos por conhecê-la e aos seus moradores. Entretanto, precisamos tomar providências quanto a um conflito inicial: trouxemos conosco nossos animais de estimação, dois cães e um gato, que sempre viveram em harmonia; mas no casarão já havia um cão de guarda. Este é bastante hostil e não aceita a convivência com os nossos bichos. Tentamos várias configurações, deixando inclusive os dois cães maiores segregados do cachorro menor e do gato. Mas o cão de guarda, apesar de inicialmente aceitar esse último arranjo, acabou atacando ferozmente o nosso cachorro maior; por sorte separamos a briga, sem maiores implicações. Decidimos doar o cão de guarda, o que não foi muito difícil. E assim foi restabelecida a harmonia.

Saímos para um passeio. Caminhamos pela praça principal e observamos a formação do que seria uma procissão. Próximo à praça havia um pequeno museu e, como estávamos interessados em conhecer mais da história e dos moradores daquela cidade, decidimo-nos por uma visita.

Estávamos apenas eu, meu pai e minha mãe. As crianças não nos acompanharam ao museu, era desinteressante para eles. Enquanto eu observava um aparador com fotos em branco e preto de famílias tradicionais daquela cidade e respectivas anotações, senti um súbito mal estar, com ligeira queda da pressão e meus pés se umedeceram.

Retirei os meus sapatos, minhas meias estavam empapadas de sangue. Saquei as meias e, para a minha surpresa, no entorno das plantas de meus pés havia profundas fissuras na pele que iam até os ossos, por onde vazavam sangue e linfa. Era como se as carnes tivessem perdido elasticidade e resistência, descolando dos ossos pela simples pressão exercida do corpo sobre os meus pés.

Quando fui me levantar, empurrando o corpo para cima com o meu braço direito, sulcos se formaram pela contração do músculo, donde agora fluíam também grande quantidade de plasma e sangue, e uma das extremidades de meu tríceps se rompeu como uma corda apodrecida. A sensação era aquela de um corpo composto por ossos revestidos de argila: bastava um movimento mais brusco para que imensas fissuras se abrissem, deixando vazar as entranhas.

Permaneci deitado no chão do museu, de forma a distribuir mais uniformemente o peso de meu corpo, para que nenhuma nova ferida se abrisse. Eu perdia muito sangue e linfa, minha mãe ficou comigo enquanto meu pai foi buscar socorro. Entretanto, uma longa procissão passava pela rua de acesso ao museu e por isso a ambulância custava a chegar. Eu podia ver a procissão passando lentamente através de ampla janela de vidro.

Quando a procissão terminou sua passagem, a ambulância chegou. Já havia um ferido no interior do veículo, aparentemente um rapaz com a perna fraturada. Os enfermeiros que me puseram na ambulância pareciam perturbados pelo odor putrefato que exalava de meu corpo. Pelo semblante deles fiz a leitura de que a situação era grave.

No hospital local os médicos não sabiam como tratar de minha enfermidade. Fui então de ambulância para um hospital de outra cidade, maior e mais bem equipado. Os médicos, melhor capacitados, diagnosticaram uma grave deficiência associada à eliminação de toxinas e impurezas pelo organismo, estas teriam se acumulado em excesso nos músculos e nas diversas camadas da pele, causando o seu colapso ou quase falência.

Fui colocado numa espécie de banheira hospitalar, onde eu permanecia praticamente imerso numa emulsão de ph neutro, deitado, apenas com a cabeça para fora. O objetivo era a cicatrização das fissuras, que ainda vazavam plasma e sangue, e a redução do risco da abertura de novos ferimentos pelo impacto ou esforço físico.

Eu havia perdido muito sangue e estava fraco. Implorei para o meu pai e minha mãe que não me deixassem sozinho no hospital. Os médicos recomendaram que eu bebesse muita água e que ingerisse tanto quanto possível os medicamentos que haviam deixado. Para o meu estranhamento, estes consistiam de minerais, de cristais translúcidos e lapidados, alguns nas cores vermelha ou amarela, a maioria transparente; semelhantes às pedras preciosas. Outros desses medicamentos ou alimentos eram segmentos metálicos, como aqueles de estanho ou prata, num formato similar ao chocolate granulado. Eu botava pequenos punhados desses cristais na boca e os ingeria com amplos goles d’água. Fazia o mesmo com os segmentos metálicos.

Apesar disso, fui enfraquecendo gradualmente. Meu corpo estava frágil e delgado. O meu pai, sempre ao lado da banheira-leito durante essa minha convalescença. Eu já não conseguia falar, alternava estados de vigília, sono e torpor. Não diferenciava os dias das noites e estava incapacitado de percepção acurada da passagem do tempo. Certo dia, enquanto estava desperto, o meu pai me disse:

– Desculpe-me filho, mas terei de deixá-lo. A vida segue, não posso permanecer para sempre ao teu lado.

Por essa época eu não sentia mais dor e, estranhamente, percebia o gradual aumento de minhas faculdades cognitivas e de percepção inversamente à degradação de meu estado físico. Era possível compreender as conversas dos médicos ao meu redor, que davam como certo o meu fim iminente.

Certo dia, eu recebi a visita de meu primo militar. Apesar de meu estado catatônico, ele falou normalmente comigo, não ficou apenas me fitando com aquele semblante de pena, como faziam os demais. Ele me disse que todos estavam bem, apesar de que fazendo concessões; estavam economizando e trabalhando duro para custear o meu tratamento, que eu ficasse tranquilo, que todos torciam para que eu me recuperasse e mandavam lembranças.

Nunca me senti tão mal como naquele dia. De súbito percebi como eu havia sido estúpido e egoísta em haver pedido que meu pai e minha mãe não me abandonassem. Agora todos de minha família estavam passando por necessidades para me manterem no hospital. E eu não conseguia sequer me mover, me comunicar, pedir que me deixassem em paz, que eu não sentia mais dor; enfim, que eu estava preparado para partir.

Os médicos se reuniam de vez em quando ao meu redor para a discussão de meu quadro clínico que, pelo que eu podia ouvir, era estável. Apesar disso, esse estado, na opinião deles, era irreversível.

– Como pode a família desse sujeito mantê-lo nesse quadro, alimentarem ainda a esperança de que ele pode se recuperar?

– Enquanto isso ele ocupa mais um leito desse hospital, com tantos pacientes promissores precisando de quartos para o seu pronto restabelecimento.

– É verdade, tremenda insensatez!

Certa noite eu ouvi o médico plantonista conversando com um policial que havia entrado no quarto. Combinaram alguma coisa em voz baixa, o médico permaneceu no quarto e o policial foi para fora. Nessa noite, em particular, o hospital estava abarrotado de gente, faltavam leitos para os atendimentos de urgência. Pacientes agonizavam no corredor e eu podia ouvi-los.

Então, o plantonista agarrou o meu corpo frágil que, naquele momento, apesar de um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, pesava menos de cinquenta quilos. Minha pele fina se rasgou em vários pontos, donde esguichava muita linfa e sangue. Eu não passava de um saco preenchido de material orgânico podre e ossos. O médico simulou um enfrentamento, como se eu o tivesse atacado e jogou meu corpo para fora do quarto, no meio do corredor, próximo a escadaria. Daí o policial sacou sua arma, mirou bem e disparou.

O primeiro tiro atravessou o meu antebraço direito facilmente, como se perfurasse um saco plástico preenchido por água. Eu não sentia dor. Os pacientes e outros médicos gritavam de terror. O segundo tiro, o policial acertou bem no meio de minha têmpora esquerda. Boa pontaria, pensei comigo mesmo. Meu corpo tombou desfalecido no chão. O sangue escorria em direção aos degraus.

Ao contrário do que imaginava, eu não perdi a consciência após ter sido alvejado, meus sentidos se expandiam ainda mais. Tentei identificar donde vinha aquele fluxo consciente que era eu mesmo. Para o meu espanto, meus sentidos estavam imiscuídos ao sangue que escorria andar abaixo pelos degraus. Eu era aquele líquido vermelho putrefato que se espalhava, podia sentir a perda de calor para os degraus gelados de granito. A que ponto lamentável eu cheguei, que condição absurda, pensei com os meus botões. Apesar disso, a sensação era genuína e extremamente sui generis. Procurei desfrutar ao máximo daquela percepção ou consciência sanguínea. Até que, súbito, cessou a experiência e caí num sono profundo.

* * *

Quando despertei estava deitado na sala de estar de uma casa na periferia doutra cidade. A temperatura era agradável. Olhando pela janela, podia ver a exuberância do céu de cor púrpura. Ao fundo faiscavam relâmpagos em intervalos breves, porém assíncronos. Não havia, porém, o barulho de trovões.

– Ah, você finalmente despertou!

Disse uma garota de vinte e poucos anos. Logo se juntaram a ela outra garota e um rapaz aparentando mesma idade.

– Então é você o cara que escorreu pelas escadas.

A frase do rapaz não era carregada de ironia ou sarcasmo, mas de grande amabilidade. Senti-me envergonhado e constrangido. O meu corpo encontrava-se frágil e debilitado como naqueles últimos dias no hospital, apesar disso, consegui responder.

– Sim, sou eu.

– Fique tranquilo, disse a outra garota, todos nós aqui passamos mais ou menos pela mesma coisa. A gente vai cuidar de você até que se sinta melhor.

Eles estavam sempre por ali, na ampla sala de estar. Percebi que havia outras duas pessoas se recuperando ali, a exemplo de quem vos narra essa história. Cada uma dessas pessoas era especialmente assistida por um deles. O rapaz é quem era o responsável pelos meus cuidados.

Com o passar dos dias melhorava o meu quadro clínico, apesar de não recordar de qualquer medicação. Eu ganhava peso e ânimo na mesma medida em que se expandia a minha consciência. Percebi como aquela cidade era evoluída e afortunada, provavelmente com alto índice de desenvolvimento humano. A casa onde eu estava ficava na periferia, como já mencionei; apesar disso, não se comparava às condições precárias às quais estamos acostumados de experimentar. Por sua vez, o centro da cidade não era caótico, barulhento ou agitado. Ao contrário, parecia emanar daquela fonte grande energia vital e harmonia, que eu podia captar através de meus sentidos. Parecia ser este o alimento que propiciava o meu restabelecimento.

Não devo me furtar em narrar que me sentia como criatura assombrada com tantas novidades num curto período de tempo. Certa noite, eu vi um corredor através do qual as garotas e o rapaz se recolheram. Eu já podia me movimentar com dificuldades, meio que rastejando, e rumei para lá. Chegando próximo ao batente, percebi que não havia porta, mas sim uma parede menos espessa. Apenas uma pequena abertura próxima ao solo em forma de arco. Eu podia enxergar através daquela abertura, mas não havia como eu passar.

Vi, então, o rapaz se aproximando pelo corredor. Ele vinha em minha direção. Para o meu espanto ele atravessou através da parede interior ao batente.

– Você ainda não está pronto para estar conosco. Logo estará mais forte, vai ficar bom.

Eu me sentia só. Um dia percebi que havia três pessoas vindas do centro da cidade para a periferia com o intuito de se encontrarem comigo. Pude captar também a apreensão no rosto das duas garotas e do rapaz que zelavam por mim. Quando estavam bastante próximos eles pararam e começaram a discutir entre si. Debatiam se era a atitude acertada. Pude então identificá-los. Era minha ex-mulher e os seus pais. Depois de uma conversa entre si, eles se afastaram e foram embora.

Senti-me entristecido.

– Não se preocupe; mais breve do que imagina estará junto de sua verdadeira família.

Disse-me uma das garotas com grande convicção.

E foi essa sua fala que me trouxe extrema paz de espírito.

 

Caronas da Sedução

março 19, 2014

felix 

– a gênese de um mito

“Eu não sei fazer poesia

Mas que se foda

Eu odeio gente chique

Eu não uso sapato

Mas que se foda”, Charlie Brown Jr.

Sabe-se que um dos prazeres da vida é desfrutar da companhia de uma bela mulher, porém mentes a margem do que a sociedade classifica como normal praticam atos incomuns ou até mesmo bizarros por assim dizer. O que leva o ser humano a burlar regras gerais de convivência em uma sociedade civilizada? Angústia? Ânsia pelo poder e o controle das coisas? Puro fetiche?

É difícil entender a mente de qualquer ser humano, ainda mais quando estes fogem do padrão!

Novembro de 2008, numa tarde chuvosa, muito trabalho para os funcionários do Hospital das Clinicas, Roberto de Sá, um jovem calmo e quieto, dá entrada no PS para tratar de um corte em seu antebraço esquerdo, questionado da origem do tal ferimento Roberto responde apenas que escorregou com a chuva e feriu seu antebraço em um caco de vidro a beira do calçamento.

Daniele Annie Abbott, enfermeira 25 anos de idade solteira, uma bela jovem de cabelos longos e ruivos é a responsável pelo curativo e medicamentos de Roberto, encantado com a moça o jovem de poucas palavras, pergunta:

– Oi você sabia que eu respondo as NF’s no meu trabalho?

A bela jovem sem entender do que se trata gentilmente lhe responde:

– Toma seu remédio e não me perturbe com esta conversa fiada.

Roberto sente naquela moça uma mulher de personalidade forte, uma dominadora, mas outra coisa ainda lhe chama mais a atenção, o uniforme de enfermeira.

A partir deste dia Roberto não se deu por vencido, semanalmente fingia supostamente estar doente simplesmente para dar entrada no PS em busca de Daniele. Meses se passaram e a jovem não se sabe se por pena ou atração começou a tratar Roberto com mais delicadeza.

Durante semanas Roberto descompromissadamente oferecia caronas para Daniele, alegava que não tinha problema, pois o Hospital era no caminho entre sua casa e o trabalho, porém, a grande verdade é que Roberto morava na cidade vizinha e sequer tinha trabalho.

Por intermédio dessas “viagens”, Roberto começou a criar um sentimento; uma anomalia amorosa que resultava num simples pingar de suas mãos.

Tão rápido quanto o surgimento do amor do mocinho, Daniele foi se afastando, pois não conseguia mais disfarçar seu constrangimento em ver aquele pobre rapaz de mãos suadas e sorriso torto olhando para o seu rosto sem uma simples palavra a ser dita.

Com medo de machucar ele ainda mais com falsas esperanças, pediu transferência dali, para onde ele jamais conseguiria achá-la…

Desesperado Roberto vaga pela região noites e dias a procura de Daniele, sem pistas, cansado, sujo, adormece sob a marquise de uma lanchonete; já é dia e o sol de verão frita seus miolos, eis que surge Hooly Hooper, uma mulata de cabelos cacheados, enfermeira voluntária que cuida de moradores de rua. Hooly convence Roberto a ir com ela até o abrigo São Judas para que tome um banho e coma algo.

Banho tomado, vestido da surrada e grossa camisa preta, Roberto se senta à mesa e toma oito pratos de sopa, não satisfeito pede para comer mais dois!

Enfraquecido e confuso se persiste em sua busca por Daniele ou investe em sua ligeira atração por Hooly Hooper, Roberto pensa.

– Ainda não terminei com Daniele, preciso encontrá-la, e algo surpreendente acontece.

Ao mostrar uma foto de Daniele para Hooly Hooper ela confirma que a conhece vagamente, pois ela trabalha no turno da noite, porém está em missão de amparo aos jovens carentes em uma cidade vizinha e voltará apenas na próxima semana.

Fim de expediente, Holly pergunta ao jovem se ele tem pra onde ir, o mesmo lhe diz que seu carro está estacionado na Praça 11 e Hooly prontamente lhe oferece uma carona para o resgate do veículo.

Ao chegar à praça a noite cai, o clima romântico brota e ambos se entregam numa noite de amor em plena praça chegando ao ponto de pararem na delegacia por atentado violento ao pudor.

Confusão resolvida, ambos liberados, uma despedida calorosa, eis que um investigador pergunta a Roberto se não se conhecem de algum lugar, meio assustado desconversa e rapidamente deixa o local.

Três dias se passaram e Daniele em sua labuta na cidade vizinha, justamente a cidade de Roberto, dentro de uma drogaria ela se depara com um retrato falado cujas características lembram seu ex-amigo, indignada ela pergunta ao balconista:

– Quem é este jovem?

– Este é o Beto Balada, um jovem com fixação por enfermeiras, em uma de suas últimas tentativas a vítima conseguiu escapar após entrar em via de fato e desferir-lhe um golpe de canivete em seu braço esquerdo. A polícia está à procura do rapaz, mas ninguém sabe nada na cidade.

– Mas porque Balada?

– Era um jovem extrovertido sempre esbanjando dinheiro nas noitadas e ao que tudo parece, pelos relatos desta enfermeira, Balada pode ser o serial killer que vem atacando as enfermeiras da região.

Chocada com tudo o que ouvira, Daniele entra em pânico, mas ainda não entende o comportamento tão diferente entre aquele descrito pelo balconista e o rapaz que conheceu. Mesmo intrigada, Daniele tenta se convencer que tudo não passou de uma simples coincidência, pois ambos apresentavam um comportamento muito distinto.

Mais alguns dias se passaram, são oito horas da noite e é hora do sopão no abrigo São Judas. A fila se forma, Daniele serve os famintos, eis que uma voz suave sussurra em seu ouvido.

– Oi Dani, lembra de mim? Estou há meses te procurando, você sumiu.

Em um átimo toda a história desde o dia em que se conheceram no hospital (Roberto com o antebraço cortado: “… eu respondo as NF’s…”) passa pela sua cabeça e, antes que pudesse ter uma reação intempestiva, um espasmo involuntário percorre o seu ventre, os bicos rosáceos dos seus seios ficam entumecidos, projetados para frente, os grandes lábios se tornam escorregadios, separando-lhe as partes. E Daniele diz para ele, quase num sussurro:

– Eu largo às 23h, me espera lá fora, hoje você vai comer muito mais do que canja de galinha.

Roberto pega o prato fundo de sopa que a jovem lhe oferece, faz um breve aceno com a cabeça em consentimento e senta-se numa das longas mesas de madeira junto aos moradores de rua. Por dentro ele está radiante de emoção, certo de que vai se fartar com a carne nova e suculenta da enfermeira. Ele a fita do seu canto. Daniele está linda em sua calça e blusa completamente brancas: os seios firmes e bem torneados, a bunda firme, arrebitada, enchendo todo o traseiro da calça, os longos cabelos ruivos e suas bochechas levemente rubras – talvez devido ao inusitado do encontro – faz com que seu semblante pareça iluminado de luz, repleto de vida.

“O que será que deu em mim? Esse Roberto pode ser mesmo perigoso. Mas isso não condiz com as suas atitudes, ele é muito tímido, já percebi suas mãos suando quando ele esboça o simples desejo de se expressar. O que será que ele queria tanto me dizer ao longo de todas aquelas semanas? Será que iria confessar algum crime? Não deve ser nada disso, aquilo me parecia amor platônico! E quem ama não é capaz de fazer mal ao objeto de seu amor. Ah, Roberto… saudades tuas, menino!”

Enquanto as horas correm noite adentro, vários outros moradores de rua passam pelo sopão do São Judas. Eles entram e saem do barracão, alguns sozinhos, outros em pequenos grupos. Apenas Roberto permanece. Ele já havia tomado cinco pratos de sopa pelas contas de Daniele. Ela tinha sentimentos antagônicos, era como se houvessem duas Danis dentro dela mesma: uma queria fugir pela porta dos fundos às 23h em ponto, ou ainda melhor, chamar a polícia. A outra Dani queria devorar Roberto, se entregar para ele como nunca, lamber os seus dedos suados, perscrutar os segredos mais íntimos de sua timidez. Era o mecanismo voraz, instintivo, de ataque e fuga, típico dos animais, que oscilava nela, fazendo com que as horas se passassem sem que nehuma definição fosse tomada.

Aquela noite passou voando no abrigo do São Judas. Quando Daniele se apercebeu, havia apenas três moradores de rua tomando canja numa mesa e Roberto estava noutra, assistindo televisão. Ela olhou para aquele corpo magro, camisa social preta colada ao seu corpo, um braço mais anabolizado que o outro. “Ele não me parece um morador de rua. Será que ele responde mesmo NF’s ou é jogador de tênis? O que será que ele faz aqui?” Em meio aos seus pensamentos Dani observa Roberto se levantar da mesa, ele deixa a bandeja sobre a pia, olha discretamente para ela e faz um sinal tímido com a cabeça. Ela sabe que ele estará a esperando lá fora.

Dani olha para o relógio, 22h45min, seu coração dispara, sentimentos como o medo, a angústia e a excitação tomam a sua cabeça. Enquanto isso, Roberto se esconde por detrás de uma moita e observa Dani atentamente pela fresta de uma janela enquanto se masturba ferozmente com a sua mão esquerda e suada – aquela do braço anabolizado.

Chegou à hora, o sinal toca, é a troca de turno, dez minutos se passam. Roberto está apreensivo com a demora de Dani, pensa em adentrar o recinto novamente quando Dani aparece exuberante na porta, num vestido azul com um belo decote, pernas lisas a mostra.

Eis que um sentimento de fúria toma conta de Roberto atormentado com a presença de Daniele. Ele sente o seu perfume, o rapaz só pensa em levá-la para longe o mais rápido possível, toda aquela ternura é convertida nos sentimentos mais perversos que se pode imaginar. Embora Daniele estivesse linda, para Roberto o encanto da enfeimeira que conheceu foi embora, pois em sua mente perturbada o branco é a representação do estado de pureza e Dani, ao deixar suas vestes de trabalho, passara a ser vista como uma mulher maculada pelo pecado.

Já dentro do carro Daniele pergunta a Roberto para onde pretende levá-la, apreensivo ele lhe diz que será uma experiência inesquecível, porém precisa passar em um lugar no caminho para acertar alguns pequenos detalhes.

Roberto pára o carro, segue a pé por alguns metros e adentra o “mão amiga” dez minutos após, já aliviado, coloca a mão no bolso e saca uma cartela de comprimidos. Roberto toma de uma só vez oito comprimidos de Viagra.

Ao retornar ao carro cobre Daniele de carícias, beijos e abraços. Neste momento uma jovem que atravessava a rua reconhece o rapaz. Ela é Carla Perez, a enfermeira que escapara de Roberto no seu último ataque, a mesma que o feriu com um canivete no antebraço esquerdo.

Carla Perez fica trêmula, mas mesmo cheia de medo, quase em pânico, decide seguí-los. Carla sobe em sua Yamaha Jog 50cc e acompanha o casal.

Roberto percebe que está sendo seguido, um sentimento misto de medo e fúria toma conta de si, as mãos trêmulas ao volante começam a gotejar, sua camisa apertada agora está empapada com seu suor fétido e adocicado. E mesmo após dezoito punhetas, incrivelmente seu enorme pênis de 5cm ameaça rasgar as calças de tergal apertadas.

O semáforo muda para o vermelho, Roberto olha para o lado esquerdo e se vê lado a lado com Carla Perez. Ela desvia o seu olhar para os seios fartos de Daniele e começa a conversar com a garota. Roberto suspira aliviado, percebe que as duas já se conhecem de outros carnavais e pressente um leve clima de romance no ar. Daniele segura aquele enorme martelo de cabeça vermelha, mostra para Carla que fica surpresa e esboça um leve sorriso de satisfação.

O sinal abre, Roberto olha para Carla em sua motoneta e diz:

 – Paradise Motel?

Arranca com o carro e Roberto olha pelo retrovisor. Ela estava os seguindo, para o supremo gozo do jovem de Sá. No caminho, Daniele aproveita e cai de boca naquele martelo suado: o nervo malhado pelas mãos calejadas do mono-bíceps.

Chegando ao Paradise, Roberto pára na portaria e pede logo o “corredor da morte” com direito a pizza de calabreza e tubaína 2 litros.

O trio entra na suíte, luz baixa, ambiente cheirando a sexo e o colchão ainda com manchas úmidas da última transa.  E é neste momento que Carla diz para Roberto:

– Relaxa Roberto, eu e Daniele vamos tomar um banho!

Roberto ao mesmo tempo se mostra excitado e intrigado. “Será que ela não me reconheceu”, ele pensa. Pela fresta da porta ele espia o banho onde as belas se acariciam, uma ensaboando a outra, elas se abraçam e se beijam ardentemente debaixo do chuveiro. É uma cena e tanto. Roberto só imagina o momento seguinte em que poderá desfrutar das duas sobremesas com a sua tora sarada do comprimento de uma colher de chá.

Roberto bota seu bíceps para trabalhar novamente e, empolgado pela situação, não se dá conta que durante o banho Carla Perez conta sua terrível experiência com o rapaz e tenta convencer Daniele a arquitetar um plano de vingança.

– Carla, vamos deixar esse gaiato largado de tanto dar a boceta, depois a gente amarra ele na cama e chama a polícia.

Carla Perez concorda. Ambas estão muito excitadas e querem tirar proveito da situação. É sabido que no jogo da sedução reside pleno exercício de poder (do latim phoder), onde os atores lutam por subverter a separação do universo em opostos, buscam a fusão de seus corpos no gozo supremo. Elas se sentem como viúvas-negras, espécime conhecido por devorar o macho após a cópula.

Roberto bota Dani deitada de costas na cama e manda Carla Perez aguardar sua vez. Dani se assusta, agora ele não parece em nada com o garoto tímido que tinha por amigo. Carla Perez diz que ela quer ir primeiro, mas Roberto faz o papel do big boss e responde truculento:

– Cala a boca e olha pra aprender como é que se mete!

Roberto vai subindo carinhosamente com sua língua pela parte interna das pernas alvas de Dani. Dando beijinhos aqui e ali, ele percebe a garota toda arrepiada e gemendo de tesão. Aquilo faz o seu martelo latejante vibrar como um diapasão. Finalmente ele chega ao ventre da garota, que está praticamente uivando delirante de paixão.

Roberto levanta os olhos, ele vê alguns poucos pêlos pubianos, delicadamente aparados, ruivos, doces, encaracolados, como delicadas filigranas de ouro. Ele mete a língua naquela caverna, suga o suco do seu cálice, chupa o grelo e Dani se debate na cama, exultante num mesmo gozo que já dura quase quatro minutos.

– Vai Roberto, agora me enfia a sua tora!

Ele não tem dúvidas e enche a caverna adornada de ouro de Dani com sua pica-martelo-sarada de uma só vez. Roberto imaginava que a garota fosse chorar com todo aquele volume a preenchendo numa tacada só. Mas que nada, para sua surpresa, Dani grita, ainda em meio ao gozo:

– Agora, põe toda a sua vara!

 – Eu já enfiei tudo, Dani.

Carla Perez cai numa gargalhada só. Aquilo parece demais para de Sá. Ele se sente oprimido pela voracidade e gula das garotas. Isso desencadeia estranhas reações e sinapses nervosas em seu corpo já saturado por: cinco pratos de canja, oito comprimidos de Viagra, três pedaços de pizza calabreza e dois copos de turbaína. Carla Perez liga o rádio do motel justamente quando está tocando:

– Don’t wanna short dick man, dick-dick, don’t wanna short dick man!

A careca de Roberto fica vermelha e ele completamente ensandecido, não gosta de ver a sua autoridade de chefe das NF’s usurpada por duas ninfetas cuidadoras de enfermos. Ele diz para a jovem Daniele:

– Tá pouco pra você? Quer sentir o poder do meu fist mono-bíceps na sua gruta dourada?

– Manda ver!

Responde Dani, toda ensopada de prazer em espamos frenéticos assíncronos com o ritmo bate-estaca do martelo e da música.

Roberto enfia o seu punho esquerdo na caverna úmida de Dani e a intensidade do seu gozo aumenta ainda mais. Ele avança lentamente e vai botando até a metade do antebraço. A garota grita num misto de prazer e dor. Ela já está num mesmo gozo há quase oito minutos!

Então de Sá submete-a aos píncaros do prazer, quando comprime sua mão esquerda e a rotaciona 90 graus para fora, fazendo inchar o seu mono-bíceps, praticamente empalando Dani. Finalmente, ela sucumbe de sua voracidade de fêmea no cio e desaba desacordada.

“Dani morreu porque tinha os olhos maiores que a boca. Quis comer picanha demais de uma só vez.”  Carla Perez finalmente compreende que Roberto é boa pessoa e não o lobo mau que imaginava. “ Afinal, tudo que ele quer é nos dar prazer.”

Mas a essa altura Carla Perez já havia passado a chapa do Gol para a polícia e as coordenadas do Paradise Inferninho, em poucos minutos certamente eles estariam chegando e dando voz de prisão ao garanhão do martelo colher-de-chá. Ela lhe disse:

– Roberto, sobe na garupa da minha cinquentinha, rápido!

Roberto, que havia entendido mal o pedido da garota, cravou sua vara de pescar girino bem no meio do traseiro suculento de Carla Perez. Ela gemia de prazer. Carla Perez remexia a colher de chá bem lá dentro do seu cofrinho, arrepiava da cabeça aos pés toda a vez que o valente de Sá dava com as costas da mão no seu lombo apetitoso. Ficaram engatados assim por uns três minutos, na mesma cama ao lado da finada Daniele.

Então Carla Perez caiu em si e disse para Roberto:

– Eu vou te ajudar a fugir, vem comigo!

Eles abandonaram o gol no motel com a bateria arriada e o corpo da Dani largado sobre a cama, regado por litros de esperma. Quando a polícia chegou teve certeza que Beto Balada tinha feito mais uma de suas vítimas em um ritual macabro.

Carla Perez deixou de Sá no acostamento da Dutra, próximo a uma saída para Jacareí. Ela disse para o Balada:

– Tá vendo essa avenida? Tem um monte de empresa. Entra numa delas e finge que está trabalhando. Mas finge direito, senão a polícia te pega. Eu apareço de motinho pra te dar um chá de chavasca na saída.

Reza a lenda que desde então Roberto de Sá transmutou-se em funcionário exemplar. Há quem diga que na capa do seu caderno está escrito Anotações de NF’s, mas se colocado de cabeça para baixo contra o espelho do banheiro é possível ler em letras monotype corsiva: Caronas da Sedução.

by Jorge Xerxes et alii

Escaravelho expiando carmas

fevereiro 22, 2014

 escaravelho_jorge_xerxes

Já não bastassem as inúmeras dificuldades imputadas aos idosos – das naturais restrições físicas e cognitivas, até o mais puro descaso da sociedade – notícia recém-divulgada pela NASA (a Agência Americana de Aeronáutica e Espaço) têm tudo para deixar estes senhores e senhoras de queixo caído. A história, das mais mirabolantes, envolvendo personalidades mundiais, reminiscências da guerra fria e até pacatos iogues tibetanos promete abalar os alicerces da civilização com a comprovação científica dos ciclos de reencarnação. Prestes a ser divulgada pela conceituada revista NATURE, o que para muitos irá soar como alento, para eles, os idosos, poderá parecer tão impactante quanto o bombardeio de Hiroshima. Portanto, vovô, segure a sua dentadura para ela não cair e vamos aos fatos.

“As pessoas deviam dar ouvidos às evidências propaladas pela sabedoria popular. Situações fictícias retratadas em filmes, em livros, muitas vezes já demonstraram trazer intrínseco o germe da realidade. Esse é cerne daquilo que Carl Gustav Jung denominou de o inconsciente coletivo.” Tive o privilégio de entrevistar um oficial de alta patente da NASA envolvido no programa secreto ME (de Mind Engineering ou engenharia da mente) e foi quem me passou em primeira mão o relato sobre a recente descoberta. Por razões óbvias, preferiu manter sua identidade em sigilo.

Segundo o oficial, foi em verdade um grupo de pesquisadores da extinta URSS logo após o final da segunda grande guerra o precursor de conceitos seminais ao que hoje se intitula ME – a engenharia da mente. Dentre essas cabeças brilhantes destaca-se o ilustre cientista Sergei Korolev [1] (pronuncia-se: ser-gay caralhov), engenheiro-chefe do programa espacial soviético.

“Falar em história da engenharia da mente é um bocado complicado, tendo em vista a sutileza da nova ciência, do emaranhado de ideias justapostas e inter-relacionadas. Mas posso afirmar que antigos iogues tibetanos já realizavam práticas avançadas em ME, sem sequer conhecer o intrincado arcabouço teórico que as sustem.” A seguir o oficial arrolou uma lista de homens-santos e suas notáveis proezas: Jesus Cristo, São João Evangelista, São Francisco, Buddha, Helena Blavatsky [2], Sathya Sai Baba e até o brasileiro Chico Xavier.

“Àquilo tudo que chamamos de milagres em verdade não o são, posto que existam leis naturais a explicar-lhes a natureza dos fenômenos. O entendimento destas leis subjacentes aos fenômenos naturais sutis é objeto de estudo da ME.” Daí até a comprovação científica dos ciclos de reencarnação foi um pulo. “Mas ainda estamos tateando a superfície de um imenso iceberg.”

Segundo o oficial da NASA, tais estudos se propõem a entender da dinâmica e vínculos entre os três vasos nos quais se encontra encapsulada a alma humana, a saber: o corpo físico, o corpo astral e o corpo causal – sendo este último especificamente aquele o qual acreditam ser o capaz de impactar significativamente o fluxo dos fenômenos naturais. “A alma humana está ancorada ao corpo físico numa percepção mais imediata da realidade, sempre que estamos despertos. E muita vez o cidadão comum traz consigo reminiscências do plano astral assim que desperta após uma boa noite de sono: a recordação dos sonhos é nada mais nada menos que a experiência desse segundo lastro, como aquele de um balão. Já o corpo causal encontra-se diluído à matriz da realidade última, e por ser extremamente fluido, é capaz colapsar ideias em eventos futuros ou pretéritos. São movimentos nesse universo dos fenômenos onde atuam os homens-santos, quando realizam o que popularmente chamamos de milagres.”

“Existe uma técnica para fluir conscientemente na fonte imanente da realidade última. Aquilo que os antigos iogues buscam em profunda meditação, o estado de samadhi [3].” Extremo relaxamento, um semblante de paz, suspensão das necessidades fisiológicas – respiração, alimentação e dos batimentos cardíacos – aparecem como epifenômenos do iogue em samadhi, cuja experienciação é sempre descrita como experiência sublime, além do poder descritivo da palavra. Coisa bem diferente é tentar descrever os mecanismos naturais subjacentes a esta prática, objeto de estudo da engenharia da mente.

“Soubemos que Sergei Korolev e sua equipe monitoravam de perto Yoko Ono e John Lennon com uma complexa parafernália radiofônica, porque já houvera sido comprovado que nesses movimentos do corpo causal, trocas mais eficientes entre pessoas, são significativamente potencializadas quando existe o forte vínculo do amor. E John e Yoko eram muito ‘ligados’, mas descartamos veementemente a hipótese infundada de que Mark Chapman [4] tivesse agido a mando da KGB. Fato é que, quando do assassinato, os cientistas soviéticos em ME perderam o contato com John. Sergei Korolev acreditava que, mapeando as ondas cerebrais de Yoko, pudesse rastrear o espírito de John no plano astral, através de um intrincado algoritmo matemático valendo-se da transformada de Fourier [5]. Ele pretendia com isso demonstrar a sobrevivência do espírito, a existência de vida após a morte. Mas infelizmente ele falhou por uma escolha inadequada do corpo de prova: John Lennon jamais reencarnou!”

Aparentemente de difícil compreensão, estes movimentos do corpo causal são bastante simples de se entender através da simples analogia com a propagação de uma onda. Imagine que você arremessa uma pedra contra a superfície tranquila de um lago. Ondas concêntricas se expandirão a partir do centro em cristas e vales. Se imaginarmos que o lago é a matriz última da realidade, então todos nós estamos imersos nesse mesmo fluido cósmico. Um iogue em samadhi é capaz de irradiar ondas concêntricas a partir de seu lobo frontal alterando a superfície do lago, o que seria equivalente ao colapso de eventos no espaço-tempo (morada do corpo físico). Um homem-santo seria capaz de emular a frequência da expansão de suas ondas causando a interferência no campo de um enfermo e realizar a cura instantaneamente. As pessoas que se amam verdadeiramente (estão ‘ligadas’) realizam trocas mesmo à distância, porque suas ondas se propagam na mesma frequência e compõem juntas. Mas para isso tudo, é preciso elevação. O homem submerso na matriz última da realidade, no fundo do lago, fortemente ancorado ao seu corpo físico, tem pouca ou nenhuma chance de colapsar ideias em eventos. “Por isso eleva-te, caminha sobre as águas.”

“Desde 2007 estamos monitorando as ondas cerebrais emitidas por Ram Bahadur Bomjon, ou Palden Dorje [6], nome budista do jovem mundialmente afamado por passar dias e noites em profundo estado de transe, meditando pela salvação humana, pela salvação de todos os seres vivos e a paz neste nosso planeta. Palden Dorje possui imensa capacidade de abstração, facilmente se desligando dos vínculos com o seu corpo físico, ele permanece a maior parte do tempo em estado de samadhi, cessando sua respiração e os batimentos cardíacos. Entretanto, é neste estado limite que observamos a emissão de potente energia em alta frequência originária de seu lobo frontal. Ondas concêntricas a se expandirem. É por isso que Palden Dorje foi selecionado pela NASA como corpo de prova para o seu projeto em ME.”

O oficial disse que Palden Dorje tem a capacidade de desmaterializar-se e subitamente reaparecer em outro ponto do planeta. “Entretanto, com nosso moderno aparato de rastreamento, é possível mapearmos com grande precisão a localização de Palden Dorje através de sua assinatura pessoal de emissão no espectro de frequências.”

O oficial da NASA disse que o jovem “conversa” com as árvores, os animais, entes dos reinos vegetal, mineral ou animal. “Não é propriamente uma conversa, é a fusão no plano astral que permite fabulosa troca de informação ou, como denominam os místicos, integração cósmica. Tudo isso é captado pelas nossas antenas, os sinais são armazenados para posterior análise dos especialistas.”

“Sabíamos que estávamos a poucos passos de uma descoberta de vulto em engenharia da mente.” No dia 17 de outubro do ano de 2013 Palden Dorje materializou-se sobre o Palácio da Alvorada. Ele estava em meditação profunda quando observou um besouro robusto, um escaravelho [7]. Segue transcrição da “conversa” travada entre jovem e besouro, já decodificada pela NASA:

– O que está fazendo aqui meu jovem?

– Estou meditando pela paz nesse belo país que é o Brasil. E você, caro besouro, o que faz em cima dessa montanha de concreto?

– Fui mandado para cá como forma de expiar carmas de minha vida passada. Disseram: “Vá lá ver a merda que estão fazendo no Palácio da Alvorada.”

– Qual o seu nome, caro besouro?

– Oscar Niemeyer [8], noutra vida eu vivi como ser humano ao longo de 104 anos!

– Muito prazer meu caro Oscar Niemeyer. Soube mesmo que pela lei natural todo o idoso reencarna como um ex cara velho. Meu nome é Palden Dorje.

– Muito prazer, caro jovem Palden Dorje. Cazuza, Cássia Eller, Jimi Hendrix, Elis Regina, John Lennon… os bons morrem antes!

– Sim meu caro, por isso dizem: Criança quando deixa essa nossa Terra vira anjo. Elas rompem o ciclo de sucessivas encarnações.

Ao final de nossa entrevista perguntei ao oficial da NASA se ele tinha algo mais a acrescentar, alguma frase ou pensamento para a reflexão, ao que ele me respondeu em alto e bom som: “Agora durma com essa, vovô!”

 

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Sergei_Korolev

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Helena_Blavatsky

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Samadhi

[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Mark_Chapman

[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Transformada_de_Fourier

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Palden_Dorje

[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/Escaravelho

[8] http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer

 

Ubermensch

fevereiro 10, 2014

 ubermensch_jorge_xerxes

 Noite passada eu sonhei que era Você e decidi descrever a experiência.

A primeira imagem que me veio à mente foi a de um menino nu preso por um cadeado de bicicleta ao poste numa esquina qualquer do Rio. Calor, muito calor e humilhação. Depois, para refrescar, árvore à frente, a terceira vértebra quebrada numa descida rápida de esqui nos Jogos de Inverno em Sochi.

Se o sinal se fecha, é porque existe o cruzamento de vias a frente. Dualismo, observador e observado, sujeito e objeto. Quando o sinal ficou vermelho para mim? Quando o sinal ficou verde para Você? Será possível definirmos com precisão estes limites se nossos veículos têm velocidades diferentes? Isso vai dar merda; alguém bota a língua de fora. Relatividade. Saco o meu facão e corto o seu pescoço. Afinal, eu estou com a razão. Sua mulher chora; ouço-a entre soluços: “Discutir no trânsito não vale a pena”. Como é louco o universo onírico. Outra quebra.

Descontinuidade. Ciência, tecnologia, economia de escala. Muita informação e pouco conteúdo. Eu tenho de me desdobrar cada vez mais para sustentar o mercado. Cartão de crédito, i-pad, fast food, x-box, rodo anel, tv de plasma e banda larga: tudo isso para a minha comodidade. Por mais que eu trabalhe, me esforce, ninguém explica os porquês ou pra onde é que estamos indo. Por quê?

Mais um fragmento. Os três poderes vergonhosamente a se digladiarem no horário nobre; uma espécie de big brother às avessas. Eu assisto em tempo real a um desfile de mazelas elevadas às altas esferas da aristocracia. Espalham luxúria, ira, orgulho e inveja por todos os lados.

Pausa para a reflexão. Para o meu alívio ainda posso tomar umas cervejas depois do trabalho. Neste sonho existe ainda a realidade ampliada, os jogos eletrônicos e os ambientes virtuais. Eu posso ser outra pessoa – herói, vilão ou magnata. Três salves para Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg! Eles deram asas a minha absoluta incapacidade de imaginação. (Sonho dentro do sonho).

E foguete nas costas do cinegrafista é diversão. Preocupação com a minha segurança: o que será do Brasil se perder a copa? Por isso, créditos ilimitados à Fifa e amplos poderes ao Felipão.

Eu concordo com Você quanto ao desejo de potência de Nietzsche. Isso explica também a minha aspiração à Ubermensch. E este louco devaneio avaliza todo o espectro de possibilidades da conduta humana – para além do bem e do mal.

Mas eis que eu me deparo com o Fuhrer, que eu julgava morto. Ele aplaude qual Charles Chaplin, ovacionando as passadas velozes e saltos amplos de Jesse Owens. Quero crer que não estou sonhando, belisco o meu antebraço esquerdo com a mão direita. Sim, estou bem desperto!

Pergunto ao colega sentado do meu lado no estádio o que é que está se passando? Um Telê Santana sorridente me responde que é isso mesmo; a seleção de 82 é aquela dos sonhos, apesar da falta de um matador, pelo seu futebol arte desde que o sentido de sucesso fora expatriado ao âmbito transpessoal.

 – Você não assistiu àquela entrevista do Jô com o cara magrelo, de bigode, narigudo, vestido somente de tanga e estranhos óculos de armação circular? Fiquei pasmo de que, com tantos recursos, eu andasse por aí tão desinformado. Além do mais, esse cara devia ser feio para caralho.

 – Sim, foi ele quem difundiu esse sonho de persistência na verdade. Ele também denominava aquelas suas ideias de força do amor ou força da alma. O magrelo era convicto de que na busca pela verdade não era admitida a violência sobre o oponente, mas que este devia ser demovido do erro pela paciência e pela compaixão. Porque inicialmente aquilo que parece ser a verdade para um pode parecer o erro para outro. E a paciência é um exercício de auto-depuração. Então essa conduta veio re-significar o clamor pela verdade através, não da imposição de depuração ao outro, mas a si mesmo.

 – Você se lembra de quanto o Gordo gritava: “Bota ponta, Telê?” É mais ou menos isso.

Aquilo me soou familiar e esbocei um sorriso. À sensação de compreensão súbita sobreveio o desmoronamento do dualismo. Fusão do sujeito com o objeto, cessação da diferenciação entre acima e abaixo, uma confusão danada das ideias, por fim, o colapso da alma no corpo.

Despertei estupefato sem entender picas.

Noite passada eu sonhei que era Você, mas desisti de descrever a experiência.

Será que vamos nos entender um dia?