Por amor

outubro 31, 2009

icarus

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 – sei que posso flutuar

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Mudança de comportamento

 

Haverá vida depois das seis? Há quem diga que, de fato, aconteceu. Era começo de noite quando aquele brilho estranho no céu, como um relâmpago muito intenso, teria invertido o sentido de rotação em todos os níveis das esferas. Algebricamente isto até seria viável num delta de Dirac. Mas daí até acreditar, só vendo. E assim, desde o ciclo lunar, passando pelo movimento dos planetas ao redor do sol, e mesmo as ínfimas rotas probabilísticas de elétrons em torno de massas atômicas concentradas em prótons e nêutrons – ainda que sujeitas as eventuais emissões de fótons – teriam sido afetadas. Confesso que nada percebi. Eu bebia e fumava demasiadamente. Não preciso dizer tal foi o meu espanto. A loucura e a chapação.

 

O que te espera depois de nascido

 

Prefiro fingir de mudo. Forjar que não estou ouvindo. Que não posso mais comer, que vomito tudo. E vomito ainda mais do que comi. Estou morrendo e não é de hoje. Só peço um pouco de paz para eu deixar de ser gente. Um copo com água. Charutos de boa qualidade e bocetas em fartura. Estou morrendo e ninguém vê isso, enquanto chupo os peitos saudáveis e meu pau duro entra e sai viril das vaginas. Estou morrendo e não é de hoje que eu vomito, que eu cago e que eu mijo. Não é de hoje que eu peido. Prefiro fingir que não sinto o cheiro. O que eu quero é ficar na minha. Prefiro fingir de cego. Não escrever a próxima linha.

 

Entre marido e mulher

 

Desculpe amor, sem dinheiro no bolso eu não posso partir. Comerei da tua comida, você vai lavar as minhas roupas e vai ter de dar para mim. Sei que você merece muito mais que isso. Mas não tenho dinheiro e isto é tudo. Você vai ter que aturar o meu mau humor constante, o cheiro de álcool e os palavrões. Meu amor, você tem o direito de chorar baixinho, de rezar para todos os teus santos. Enquanto eu o direito de te cobrir de porrada, de comer o seu cu e de beber cachaça.

 

Amanhã vou sair na noite

 

A dor que sinto vem do coração partido. Faz-se sentir através de ampla e complexa rede de neurônios. Estou em busca de alternativas. Mesmo que eu desviasse o fluxo da aorta em safena. Mesmo que drenasse todo o veneno incrustado nas plaquetas. Mesmo que fosse possível dissolver o colesterol a laser. Não implica que eu dormiria tranqüilo. O trauma e o vazio ainda estariam lá. A dor do amor. Quem sabe um eletro-choque, o cheiro do couro cabeludo sendo queimado? Camisa de força, um sanatório e o tratamento a base de injeções de drogas tarja preta? Quem sabe um abismo bem alto? Para um novo amor.

 

Slow dying

 

Se você continuar agindo assim, vai morrer. Não existe morte mais lenta que levar essa sua vida saudável.

 

Sonho do fumante insone

 

Estive pensando em ir embora. Já é tarde e a tendência é da madrugada avançar ainda mais adentro. Engolindo o mundo sem piedade. Todos os meus monstros já foram dormir de tão velhos que são. Insisto em mais um gole para provar que é possível. Insisto em mais um tapa no cigarro. E numa hora dessas toda uma vida se resume nisso. Muito pouco faz sentido. Procuro a saída improvável da realidade. Prender a fumaça para dar mais pressão. Soltar a fumaça em círculos.

 

Macadâmias

 

Estes grãos não soltam pêlos.

  – Quero extrair o cheiro das flores.

Hei de retê-lo num frasco hermético.

Guardarei a essência para depois.

 – Não merece crédito a ação que ergue barreiras;

que separa.

Antes de prosseguir em seu intento

hão de devorar os vermes tua carne.

Exalará dela o putrefato que habita tua alma.

Nem este será possível apreender.

– Mas se a alma é minha,

penso dela o que quiser.

– De fato,

nada é sem que os outros a percebam.  

É da diferença que resulta a existência;

toda ela.

– Onde reside então a liberdade?

– Muitos dirão que ela não existe.

Insisto que sim.

– Se não posso conceber o todo,

devo mesmo ser limitada.

– É porque pensa sempre em si mesma

enquanto autônoma criatura.

Quando é parte de consciência superior.

Tão importante como todas as outras.

Que elas sequer existem

sem você. 

– O mapa que trago em minha pele?

– O dragão não vai devorá-lo.

Nem ele irá vencer o dragão.

Resulta da tensão dos opostos

a força que ele carrega.