Matar um cara

agosto 19, 2009

 a)      Toda noite era a mesma coisa

“The philosophers tell the inquirer that birds and fishes bring us the lapis, every man has it, it is in every place, in you, in me, in everything, in time and space.”

– Extracted from Jung C. G., “Psychology and Alchemy”, pp.323, Princeton University Press, (1993)

As coisas eram por vezes confusas, outrora desconexas, na cabeça de Celso. Mas é certo que a sua percepção da realidade tomou outro rumo desde quando conheceu – meio que por acaso (mas nem tanto) – Bianca. Havia novas obrigações a serem cumpridas, uma rotina estafante e experiências inimagináveis levando-se em conta a vida pacata que Celso levara até então. Mesmo para ela parecia haver essa mesma aura de descoberta – natural daquilo que se apresenta original, único e transcendente do quotidiano dos dias.

Bianca trazia longas madeixas de cor castanha. Tinha o corpo jovem e a exuberância característica dos seus vinte e poucos anos. Seu rosto era delicado, trazia o verde-marinho de um olhar profundo, somava-se a isso o semblante doce, terno, parte angelical, parte inquieto – como se brotasse à face sua própria essência determinada e questionadora. Sua bunda era de encher o traseiro da calça jeans justa ao corpo; dessas de capturar a atenção de qualquer marmanjo num raio de quarenta e tantos metros. Seus seios naturais, de tamanho médio, eram durinhos, agradáveis ao tato como fruta madura, e as extremidades rosáceas característica da safra que a melhor das videiras jamais haverá de produzir.

Toda noite era a mesma coisa. Depois da longa jornada de trabalho, a convivência em família, ou o passeio com os amigos, um programa diferente, o cinema talvez, quando todos já haviam adormecido, Celso saia pelas portas dos fundos – sem ser percebido – caminhava por quinze ou vinte minutos até a encosta da serra que circundava a cidade. Tomava, então, a trilha pedregosa que levava acima de determinada montanha saliente ao relevo das cercanias. Quando chegava ao topo ele contabilizava entre quarenta e cinqüenta minutos desde deixado o lar. As luzes da cidade muitas vezes eram encobertas por brumas baixas e as estrelas imprimiam o brilho diretamente às suas retinas, privilégio que só a atmosfera diáfana do interior era capaz de produzir. A noite negra contrastava ao dia verde vibrante.

Bianca, via de regra, estava o esperando. Ela vestia sempre o penhoar de seda branca quase tocando ao chão (este parecia ter vida própria quando o vento lhe era providente), os pés deliciosamente descalços. Toda noite era a mesma coisa. E sempre passava pela cabeça de Celso se insinuar para ela, quando surgia por detrás de alguma rocha (ou arbusto) a figura austera de Jorge. Ele iniciava logo o falatório com aquela voz enérgica e grave. O que saia de sua boca não se escreve nos livros, porque era desses de mandar e desmandar, como se estivesse acima dos outros. Suas lições eram sobre um poder inimaginável;  e as tarefas as quais ele os impingia pareciam contrariar todo e qualquer limite concebível da ética, da lógica humana.

 

b)      Mais de meia centena delas

“When emptied of people, the interior is steel gray. When crowded, it’s green, a comfortable acid green.”

– Extracted from Thomas Pynchon, “Gravity’s Rainbow”, pp.448, Penguin Books, (1973)

Naquela noite Jorge tratou de dadas atividades escusas e manias supostamente atribuídas ao Doutor Régis. Era inacreditável! Doutor Régis era conhecido e abastado médico, de reputação internacional, especialista na técnica da fertilização in-vitro, suas pacientes cruzavam o país e lotavam as salas de espera de sua opulenta clínica na ânsia da concepção de uma prole saudável. Quase sempre o tratamento era bem sucedido. E isso não era novidade para ninguém, caracterizava a mais pura e cristalina verdade. Mas Jorge falava sobre prostitutas requintadas, modelos de revistas masculinas que viajavam da capital para o interior com as despesas correndo à custa de Doutor Régis, para encontros íntimos que se davam na calada da noite. Doutor Régis às submetia a situações constrangedoras, abusava do poder e da autoridade que lhe eram atribuídas. Jorge tratava do intangível. Falava sobre pacientes que sofriam de abuso quando se encontravam em estados alterados da consciência, sob o efeito de drogas anestésicas. Mais de meia centena delas.

Celso ouviu atentamente as explanações de Jorge sobre a arte da supressão do fluxo sanguíneo através da constrição do arco aórtico pela saturação da energia mental com desdobramentos num impulso mecânico sensível ao organismo humano; sobre sua ação instantânea; fatal; livre de rastros. Bianca tinha os olhos semi-cerrados enquanto Jorge enunciava em detalhes e pau-sa-da-men-te a tarefa que era da incumbência deles. Antes de desaparecer por detrás dos arbustos (ou alguma rocha) Jorge versou sobre justificativas pungentes e voltou a salientar: – Mais de meia centena delas!

O fato é que eles podiam lutar contra aquilo. Mas o tempo, então, cessava. Celso e Bianca se viam restritos àquele mesmo átimo do encontro com Jorge, ao topo da mesma montanha. A lição de Jorge reverberando infinitamente dentro da cabeça deles, até que fosse firme a determinação de cumprir à risca aquilo que lhes fora designado.

Naquela noite Bianca seduziu Doutor Régis que estava a se empanturrar de álcool e tabaco – supostamente protegido pelo conforto e a ostentação da mansão sob pesada vigilância. Assistia na tv a cabo um desses concursos de misses. Bianca enfronhou em sua mente. Fez com que ele pegasse o carro possante e partisse em velocidade rumo ao prostíbulo simplório e fétido que estava na divisa com Santo Antonio da Edícula (cidade vizinha). Doutor Régis jamais havia botado os pés naquela espelunca. Os homens promíscuos se mostravam estupefatos com a ilustre presença. Bianca encarnou a mais gorda, sebosa e asquerosa das meretrizes. Então fez com Doutor Régis o jogo travesso da sedução. Seguiram para o quarto dos fundos, onde iniciaram com a fornicação. Celso adentrou de súbito o ambiente. Com um movimento rápido de rotação de seu pulso esquerdo aplicou em Doutor Régis a constrição do arco aórtico. Ato consumado: A puta banguela havia sido indubitavelmente sua última e suculenta refeição.

 

c)      Todo dia era a mesma coisa

“That this wound did not blossom yet, did not shine yet, at this hour, made him sad. Instead of the desired goal, which had drawn him here following the runaway son, there was now emptiness.”

– Extracted from Hermann Hesse, “Siddhartha”, pp.100, Norilana Books, (2007)

Celso era bancário e tinha passado a pouco dos cinqüenta. Acordava cedo pela manhã, preparava o café, acordava os filhos e a esposa, tomava um banho. Eles tinham o hábito de tomar juntos o café da manhã. Andreza tinha dezesseis anos e vestia minissaia. Ela cursava o penúltimo ano do segundo grau. Celso era rigoroso com a filha querida. Questionava-a pela manhã com relação às lições do dia, queria saber das datas de suas provas, sobre as notas da menina. Celso Júnior era dois anos mais novo que a irmã e estava no último ano do fundamental. Celso enxergava nas realizações do filho um bálsamo para as suas próprias frustrações e limitações adolescentes. De fato o filho tinha um sex appeal bem maior que ele tivera nos tempos de moleque. Era extrovertido e comunicativo, fazia amizades como quem descasca uma banana. (Ao passo que o círculo de amizades de Celso, o pai, era tão minguado quanto são os dedos de um soldado desarmador de minas, fracassado na carreira). Letícia era católica, correta, mãe dedicada, exemplar. Além de cuidar da casa, cosia para fora como forma de ajudar com a renda da família. Dava-se por satisfeita com o papai-mamãe trimestral que praticava com o marido.

Naquela manhã Celso ficou atônito ao ler nas manchetes do jornal, ainda à mesa do café, que Doutor Régis havia sofrido um infarto fulminante e falecido sob condição lamentável no recinto de certa bodega de quinta categoria. Todo dia era a mesma coisa. De repente aquela estranha realidade caia como que um elefante sobre sua consciência. De súbito ele se dava conta de que exercia um papel determinante nos óbitos da comunidade. E pensava em Bianca. No seu rosto delicado; no verde-marinho dos seus olhos; naquele semblante doce e terno.

Celso pensava em procurar por ela. Tirar a limpo as dúvidas todas que o afligia. Falar daquele seu desejo absurdo que não se consumava nunca. Sobre os encontros furtivos ao topo da montanha. Ele sabia onde Bianca trabalhava, onde a encontrar. Mas ele era fraco. E desde que determinadas sensações e pensamentos estranhos passaram a habitar sua mente ele jamais tinha visto a garota pelas ruas da cidade. Era como se estivessem se escondendo um do outro. Todo dia era a mesma coisa. E ele não podia deixar se levar por esse tipo de impulso menor. Às vezes pensava que estava mesmo ficando louco. Pensava em procurar por ajuda, um psiquiatra. Mas resistia bravamente (toscamente?) aos seus impulsos. Calava aquela sua voz interior.

 

d)     Mais de meia centena deles

“o mais simples

remete ao mais profundo dos signos

desejo que traz consigo a saudade

das tardes quentes de suor

tua cor é minha preferida

vê aquela estrela no céu?

a gente vai se mudar para lá

onde posso sentir eterno o teu perfume intenso

beijar a tua boca vermelha

agora repousa tranqüila com os Anjos

eu aqui a fumar-te

 inteira em minha mente

– Extracted from https://jorgexerxes.wordpress.com/

Levou tempo para que os ensinamentos de Jorge cristalizassem à mente de Celso. Ele fazia o tipo cabeça-dura (mas essa sua característica também era parte dos desígnios, ainda que ele sequer suspeitasse disso). O tempo transcorre fluido e contínuo na pedra celeste a qual denominamos de Terra (noutros cantos não é assim). Celso presenciou muitas mortes e os seus defuntos. Mais de meia centena deles.

Com o passar dos dias (e das noites) tanto Celso quanto Bianca compreenderam as sutis conexões que separam o mundo dos mortos daquele dos vivos – apesar de pouco se falarem. Eles eram capazes de enxergar numa alma prestes a abandonar o corpo aquele transbordar do recipiente, aquela espécie de saturação, imunizante de qualquer outra experiência subseqüente em dado padrão organizacional da criatura. Celso viu isso nos leitos dos hospitais. Bianca também observou isso ao fundo dos globos oculares de motoristas sonolentos. Celso podia até inferir qual seria o próximo defunto. E muita vez acertava o palpite. Afinal, tinha presenciado mais de meia centena deles.

Como de costume, Celso deixou sua casa pela porta dos fundos, na calada da noite, e caminhou por cinqüenta minutos através da trilha pedregosa que levava ao topo da velha montanha. Naquela noite, as luzes da cidade eram encobertas por fortes brumas e as estrelas imprimiam seu brilho diretamente nas retinas dele, privilégio que só a atmosfera diáfana do interior era capaz de produzir. Bianca estava o esperando lá em cima. O seu penhoar de seda branca parecia ter vida própria e flanava ao vento. Os seus pés estavam deliciosamente descalços. Eles se entreolharam por alguns instantes. Jorge não apareceu. Finalmente, puderam se abraçar – longamente. Seus lábios se tocaram, ardentes de desejo. Só então emergiu a mais profunda das recordações: ambos haviam morrido instantaneamente na colisão frontal de seus veículos.

 

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como a lua afaga a alvorada do novo dia

como o sol beija o crepúsculo da noite

que há por vir

minha pobre alma abençoa o cavalo branco alado

percorre a distância imensa que nos separa

em pensamento

no plano imaginário do místico, do simbólico, do alquímico

não existe esta restrição humana mesquinha

e na intenção de um coração puro

não habita a distância, nem o tempo

mesmo velho eu sou menino

é você menina quem beija minha fronte

os nossos corpos se fundem contentes

de uma só alegria, tão calma, que sequer existimos depois

resta o orvalho da manhã que é lágrima calada

resta o arco-íris da tarde que é sorriso de todo o céu

dentre todas as cores

você é a mais linda