A precessão dos equinócios
janeiro 30, 2010
Caixa 14 x 8
janeiro 21, 2010
O “segredo” de Adalberto Vaz
janeiro 20, 2010
Nada preocupava tanto Adalberto Vaz quanto aquela sua crença doentia de que caso não passasse adiante as apresentações que recebia por email um desastre de fato ocorreria consigo. Como o volume de mensagens de auto-ajuda só fazia aumentar em sua caixa postal, a questão havia tomado dimensão de primeira grandeza na ordem do dia.
Já havia passado por alguns especialistas que diagnosticaram essa sua mania como uma variante do transtorno obsessivo compulsivo. Mas o medicamento não surtiu efeito, mesmo no limite superior da posologia prescrita. Tampouco valeu a terapêutica auxiliar, que consistia em sessões bi-semanais com uma psicoterapeuta bem tesuda. Nada levantava o moral de um Adalberto Vaz aquiescido à triste sina de criatura destituída do poder de persuasão da lógica elementar.
Não adiantava mudar de endereço eletrônico. Este era o paliativo do qual se valia em momentos de crise mais aguda. Com o tempo Vaz voltava a ser bombardeado pelas malditas mensagens e correntes; e a sua esperança naufragava mesmo se prosseguisse conforme mandava o figurino.
Alguém recomendou que lançasse mão do feitiço contra o próprio feiticeiro: – Se as mensagens te facultam um pedido, peça que elas cessem, ou para que alivie esse seu desassossego. Todo esforço e empenho foram vãos. Adalberto Vaz chafurdava-se cada vez mais fundo pelos labirintos de seu universo interior. Vaz só absorvia o contraproducente do contexto; como se jogasse cara ou coroa com uma moeda e desse cara sempre que tivesse apostado na coroa, ou coroa caso tivesse botado fé na cara.
* * *
O céu de um azul esplêndido. Adalberto Vaz sentia-se impelido a prosseguir sua jornada íngreme rumo ao topo. Através da trilha estreita e rodeada daquele verde vivo, singular. A mata fechada por árvores e arbustos protegia o cume do monte cuja vista poderia lhe proporcionar o mais belo crepúsculo das cercanias. Exercício ou arte da superação. Porém, quando Vaz chegou ao topo, o sol já tinha baixado e surgiam as primeiras estrelas no céu. Seria esta uma noite escura de lua nova. Como vou descer daqui agora? A primeira idéia que passou por sua cabeça.
Vaz ouviu então as gargalhadas efusivas de homens simples do interior. Olhou uns trinta metros adiante, pode observar por detrás de alguns arbustos a roda de amigos que se formava em torno de uma pequena chama a consumir gravetos. Eram Antonio, Diogo, Jorge e Jacinto. Encerravam uma bagana que era compartilhada entre eles.
Foi Antonio quem primeiro percebeu a aproximação de Adalberto Vaz. Lançou-lhe aquele seu olhar esbugalhado. Os globos praticamente saltando das órbitas; as escleróticas rachadas pelos vasos sanguíneos salientes da chapação. – Se achegue aí, amigo! E Diogo prosseguiu: – O que o traz aqui, vindo de tão longe? Os olhos de Vaz encheram-se de lágrimas, já não podia conter o pranto que lhe corria a face em pura catarse. Adalberto Vaz falou do seu desassossego.
Jorge – o mais calado dos homens – foi quem tomou um pedaço do papel usado na elaboração do cigarro do matuto. Tirou um toco de lápis do bolso de sua camisa surrada. Escreveu. Estava sentado de cócoras. Com a mão esquerda grafava as palavras simples no papel apoiado sobre seu joelho direito. Jacinto disse que aquela mensagem devia ser enviada para o remetente de cada um dos emails de auto-ajuda que Vaz recebesse.
Adalberto Vaz despertou do sonho estupefato e encharcado de suor. Ainda se lembrava do conteúdo de estranha mensagem.
* * *
Naquela manhã, quando recebeu o primeiro email de auto-ajuda do dia, Vaz digitou ferozmente no teclado a mensagem de resposta exatamente como ditada pelo interlocutor no sonho. Mas hesitou em enviá-la de imediato. Ao invés disso, Adalberto Vaz encaminhou o arquivo multimídia para vinte conhecidos seus, exatamente como procedia há vários anos, desde que adquiriu seu primeiro pc. Sentiu um aperto grande no peito. Então disparou o email que estava arquivado em draft. Iluminou seu coração; era como se o sol alvorecesse dentro dele.
No começo Vaz se sentia um pouco desconfortável sempre que acontecia algum acidente ou fenômeno natural devastador. Adalberto Vaz pensava que, eventualmente, talvez fosse ele o responsável por este ou aquele acidente automobilístico, deslizamento de terra, terremoto ou tsunami. Mas isso era loucura. Aos poucos essa estranha sensação amainou.
Iniciou-se então o processo reverso que era um movimento de assombrosa expansão. Toda vez que Vaz recebia mensagem de auto-ajuda, ele enviava aquele email macabro para o destinatário apenas. (É fato que Adalberto Vaz continuava a encaminhar as apresentações para vinte de seus conhecidos). Mas agora Vaz valia-se do poder da mensagem travessa em prol da realização do seu desejo. Foi assim que Adalberto Vaz varreu os emails de auto-ajuda da face de toda a Terra.
* * *
Vaz virou celebridade, escreveu um livro e era visto com freqüência dando entrevistas nos programas de tv. Adalberto Vaz era outro: expansivo, falava com naturalidade sobre os seus problemas com o TOC, como este limita as atividades cognitivas dos enfermos, como “ele” teve a idéia de banir as mensagens de auto-ajuda do planeta, traçava paralelos desse tipo de conteúdo com o vampirismo e dizia que o poder da mente pode superar todos os obstáculos (porém, jamais mencionou a experiência transcendental do sonho).
A ambição de Vaz parecia não ter limites. Criou a Adalberto Vaz Consulting e dava treinamento para altos executivos de empresas. Cobrava, então, rios de dinheiro pelas suas afamadas palestras. Vaz insistia ser capaz de superar todo e qualquer tipo de obstáculo usando única e exclusivamente o poder da mente. Adalberto Vaz gostava de ostentar. Promovia festas para as quais convidava atrizes e modelos emergentes; todas aquelas que eram capas das revistas da vez.
Depois de uma dessas baladas extravagantes, Vaz pediu para deitar só, pois teria uma reunião importante na manhã do dia seguinte. Aquela noite Adalberto Vaz caiu num sono profundo.
* * *
Vaz foi ter com Antonio, Diogo, Jorge e Jacinto. Subiu enérgico pela trilha estreita que levava ao cume da montanha na hora do crepúsculo. Os homens estavam sentados ao redor da fogueira jogando conversa fora, como era de costume. Chegou junto deles causando estardalhaço: – E aí, meus camaradas? Antonio lançou-lhe aquele seu olhar esbugalhado. Diogo disse calmamente para Adalberto Vaz: – Por favor, sente-se aqui conosco. A conversa prosseguiu animada. Jacinto levantou-se e andou em torno do círculo no qual se postavam os homens. Ele botou a mão direita uns vinte centímetros acima da cabeça de Adalberto Vaz. Cerrou o punho como se apanhasse algo no ar; fez um movimento brusco de rotação da sua mão no sentido anti-horário. – Esses humanos não aprendem mesmo. É só a gente dar uma mão; querem logo o braço.
* * *
Manhã seguinte Vaz não se levantou.
* * *
Se Você recebeu essa mensagem tem o direito de fazer um pedido.
Por favor, não passe esse email adiante. Um bancário encaminhou essa mensagem para sua esposa. Ela foi atingida por uma bala perdida e ficou paraplégica. Um montador desobedeceu esta recomendação enviando o email para três de seus amigos. Naquele mesmo dia o carro em que estavam os quatro foi esmagado num engavetamento entre duas carretas. Nenhum deles sobreviveu. Uma secretária passou inadvertidamente a mensagem adiante para dezessete funcionários de sua seção horas antes de sair de férias e embarcar num cruzeiro. O navio em que ela estava naufragou. Cento e trinta e duas pessoas morreram.
Enquanto ela dorme: para estar contigo
janeiro 12, 2010
para estar contigo…
desde que eu me levanto
carrego o coração comigo
para cima e para baixo
sigo assim: levo-o ao longo do dia
reflete o brilho do sol
naquilo que eu faço
deixo que dele escorra
e sempre que eu erro
eu que erro sempre
ele regenera a ferida
faz dela surgir o nOvo
qual cachoeira que brota
das serras verdes da alma
Nasceu dia desses sob a morada simples de um vernáculo zodíaco. A bicicleta que ela guia a transporta através de caminhos estreitos por entre os montes. Graduou-se nas faculdades ocultas da mente. Caminha de braços dados aos sete ventos. Dorme debaixo das árvores. Encanta-se à face atrevida do sol – a mais formosa sonhadora. Deleite é vê-la correndo faceira. Mil borboletas flanam volúveis enquanto ela dorme.
para exercer seu feitio
entoar a macumba em forma de espanto
a calada da noite
nas encruzilhadas da mente
Toda a potencialidade da mente 2
dezembro 31, 2009
( A vida é o início )
Toda a potencialidade da mente
Toda a potencialidade da mente
dezembro 30, 2009
O individuo se separa
do conteúdo cósmico,
sua contrapartida em energia.
O instante singular se dá
exatamente na concepção,
ativação alquímica catalisadora.
O ato sexual homem-mulher;
o coito entre um par de outra espécie;
até a polinização do gineceu
de uma flor
são exemplos de antigo poder
atribuído a pedra.
Ressaltam-se a composição harmônica,
as porções exatas de energia,
os opostos nos sinais.
À parte original cabem o direito e a liberdade
do seu desenvolvimento,
numa criatura autônoma.
O montante das atividades cognitivas
– físicas ou mentais –
desses seres na fase de separação das criaturas
é o complementar do universo
em fase de integração inconsciente.
Cobre-se então
toda a potencialidade da mente.
( A morte é o retorno )
O jogo dos nove
dezembro 11, 2009
Jacinto adentra a birosca e pede uma dose de aguardente. Jorge está com o taco na mão pronto para mais uma daquelas suas bolas redondas. Ele bate forte e ela arrebenta no fundo da caçapa. Ele pensa numa tarde quente, na sala de estar, apalpando os seios dela. Acariciando-os e apertando de leve os melões enrubescidos de tesão. O nome dela é aquele das curvas empinadas na bunda. O vão doce entre as ancas. Ele bate uma dose forte da aguardente de um gole só, o Jacinto.
Diogo entra calado no recinto. Antonio olha para o alto, depois para baixo. Agora são onze horas e vinte e três minutos da noite; eles jogam o nove na bodega tomando umas biritas. A macaxeira frita é o tira gosto perfeito que ele morde com os dentes grandes da sua fome. Amanhã será um dia frio e chuvoso.
Pensa naqueles movimentos sensuais com ela por cima, encaixada no taco. Se as mordidas na nuca e nos ombros delicados deixaram as marcas depois, imagine a explosão de energia naquele exato momento. Antonio olha para o alto, depois para baixo. A cabeça de Jacinto parece explodir ao vê-la de quatro. O busto abaixo através do vazio entre as pernas.
O nove é um jogo difícil. Requer as cinco sensações no mais elevado patamar da consciência. Primeiro o tato. Precisa saber onde vai pôr. A visão dentro do par de globos oculares para captar o espectro das impressões no rosto dela. O olfato doce de seu sexo. O gosto da sua vulva em chamas. Ouvir as notas sutis dos seus gemidos. Antonio olha para o alto, depois para baixo.
Diogo: ele não deixa de pensar nisso. As outras quatro no jogo dos nove são as cartas de um baralho. Primeiro o sete de ouros; outra carta é o às de espadas; depois vem o sete de copas; enfim, o quatro de paus. Na ordem crescente. Quem fizer os nove completa a rodada. Os tacos e as bolas intatas. Porque ninguém quer botar a perder.
Um som do caralho
dezembro 4, 2009
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às vezes ouço isso: um som do caralho tão alto que atravessa a mente qual flecha num raio as ondas lanço de um sol agora a noite que fica do outro lado do mundo a guitarra distorcida aponta contra o mesmo o teto e as paredes acima do assoalho em baixo cada acorde de um golpe só amanhã falo para ela das coisas de hoje além da última estrela o que tem depois eu não sei
* * *
Some Excerpts of ‘Jimi Hendrix – Electric Gypsy’ (A book by H. Shapiro and C. Glebbeek) |
“On arrival in Nashville around October 1962, Jimmy and Billy went to see the manager of the Del Morocco, who fixed them up with some accommodation upstairs in a place called Joyce’s House of Glamour. When the money was even tighter than usual and they couldn’t pay the rent Jimmy slept under the stars, ‘in a big housing estate they were building around there. No roofs and sometimes they hadn’t put floors in yet. That was wild!’… Billy Cox would knock on his door in the mornings to wake him up; ‘there he was laying on his bed with the same clothes that he had on the night before, his guitar laying on his stomach or alongside him. He was practicing all night long.’” p63
“He was shy… he was extremely shy… After that first night… he just moved with me. It wasn’t hard because he was carrying all his possessions in his guitar case… The average day consisted of us waking up at noon… but not actually getting up for at least a couple of hours. Jimmy loved fooling around about with his guitar in bed, and he always slept with it. I used to think of my competition not as a woman, but as a guitar. Many times he fell back asleep with it on his chest. Any time I tried to remove it, he woke up and said, ‘no, no, no, leave my guitar alone!’” Fay, Jimmy’s girlfriend, talking about him, p75
“Fay would sometimes wind up by suggesting in ‘mid-stream’ that he wasn’t the greatest thing since sliced bread. Jimmy would take his revenge. One time Fay woke up to find Jimmy sitting at the foot of the bed ‘wearing nothing but an attitude’, in the process of tying her to the bed. The look on his face scared the life out of her. He tied her mouth up, made love to her and then left her still bound and gagged while he went off to some rehearsal. When he came back, he undid her and began talking about the session he’d just come from as if nothing had happened.” p75
“This was one of the strangest contradictions in Jimmy’s character. Boy and man, he was universally regarded by everyone who knew him as the kindest, most retiring and polite person you could wish to meet – by rock and roll standards he was a saint… However, there is enough evidence later on to suggest that Jimmy was prone to sudden uncontrollable bursts of anger and that much of this was directed against women whom him otherwise cared for very much. As he said himself, ‘no matter how sweet and lovely you are, there are black and ugly things deep down somewhere.’” p76
“I still have my guitar and amp and as long as I have that, no fool can keep me from living. There are few record companies I visited that I probably can record for. I think I’ll start working toward that line because actually when you’re playing behind other people you’re still not making a big name for yourself as you would if you were working for yourself… I just want to let you know I’m still here, trying to make it. Although I don’t eat every day, everything’s going all right for me. It could be worse than this, but I’m going to keep hustling and scuffling until I get things to happening like their supposed to for me… Tell everyone I said hello… It’s pretty lonely here by myself. Best luck and happiness in the future. Love, your son. Jimmy.” A letter Hendrix sent home dated 8 August 1965, p90
“The word was out to all the hot-shot guitar players in the Village to check out this black guy who played a Strat upside down. The name guitarist on the block was Mike Bloomfield, who played with Paul Butterfield as his regular gig, but had been called up by Dylan for Highway 61Revisited. ‘I thought I was it’. Mike saw Jimmy for the first time when he was still at the Café Wha?. ‘Hendrix knew who I was, and that day, in front of my eyes, he burned me to death. I didn’t even get my guitar out. H bombs were going off, guided missiles were flying – I can’t tell you the sounds he was getting out of his instrument. He was getting every sound I was ever to hear him get right there in that room… I didn’t even want to pick up a guitar for the next year’.” p103
“The Loft on Hudson Street was a general hangout place for musicians to drop by and jam or just get stoned. Guitarist Roy Buchanan came by – he and Jimmy blasted each other into the night racing ahead the music on speed. Smoking dope to keep mellow and snorting methedrine to keep going was as natural as breathing for the tight community of musicians. Jimmy kept his speed crystals in a baby’s bottle, always a source of great amusement. It was no big deal. The only time Jimmy ever met Dylan, at the Kettle of Fish on MacDougal Street, they were both completely stoned. Asked about what should have been an auspicious event, Hendrix could only recall, ‘We just hung about laughing. Yeah, we just laughed’.” p104
“At 9 a.m. on Saturday 24 September 1966, Jimmy stepped off his first-class Pan-Am flight on to the tarmac at London’s Heathrow airport. In his guitar case was everything he possessed, one Fender Stratocaster, a change of clothes and a jar of Valderma cream for washing his face.” p108
“Last night at the Plaza, Newbury, the Jimmy Hendrix Experience roared and romped their way through an hour and a quarter’s worth of music that shattered the senses both aurally and visually. Resplendent in red corduroy trousers and antique waistcoat, Jimmy proceeded to show just how many positions it was able to play the guitar in, at the same time showing his very own professional skill which must rate him as one of the most outstanding newcomers on the scene since Jeff Beck or Eric Clapton. Outstanding for the Experience on drums was Mitch Mitchell… Throughout the evening, Jimmy showed flashes of on-stage humour for which he must be given full credit. ‘Hey Joe’… was introduced as been written by Mickey Mouse” A journalist review about the band gig in England, 20 February 1967, p142.
“Jimmy had great difficult conveying his feelings to those few around him (usually women) prepared to listen to him. As Jimmy said himself, ‘Ever since I can remember, I have been moody. I can’t help isolating myself from the world. Sometimes I just want to be left alone. People think I’m funny. I’m sorry, I can’t help it.’ Thus Jimmy lyrics speak his thoughts and he tended to unpack his heart in his songs. They were confessionals of his beliefs and opinions, ecstasies and loneliness, a map of his emotions with music styles chosen to match the sentiments expressed in the lyric. Music is performed here as knowledge – from the songs you can learn something of their creator.” p169
“Jimmy used water imagery both literally and metaphorically – here he makes an allusion to one’s inner calm which can so effectively negate external chaos, putting problems into perspective:
Waterfall, nothing can harm me at all
My worries seem so very small
With my waterfall
Jimmy expects ridicule, but keeps faith with his beliefs:
Some people say ‘day dreaming is for all the lazy minded fools
with nothing else to do’
So let them laugh, laugh at me
So, just as long as I have you
To see me through, I have nothing to lose
Long as I have you
Poetically and musically, ‘May This Be Love’ is Jimmy at his most spiritual.” p176
“Speeded up to 66&2/3, the slowed down vocals on ‘Third Stone from the Sun’ are revealed as an interstellar communication:
‘Star fleet to scout ship, please give your position. Over.’
‘I am in orbit around the third planet from the star called the Sun. Over.’
‘You mean it’s the Earth? Over.’
‘Positive. It is known to have some form of intelligent species. Over.’
‘I think we should take a look.’
The images of science fiction – battles on distant planets, visitations from UFOs and near future Armageddon on Earth – were regularly employed by Jimmy to highlight what he saw as the essential hopelessness of the human condition bereft of any spiritual values.” p177
“So on 4 June 1967, with their debut album galloping up the charts, the Experience played a ‘farewell’ concert at the Saville Theatre – the last gig before flying out to Monterey. Jimmy delighted the audience (including Paul McCartney) by launching into ‘Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band’, from the album which had gone straight in at number one in the charts. He ended the gig by smashing a guitar handed to him for the finale of ‘Are you Experienced?’ and hurling it into the audience. Inscribed on the back of the white Fender was a poem written by Jimmy:
May this be
Love or just
Confusion Born out of
Frustration wracked
Feelings – of not
Being able to
Make true physical
Love to the
Universal gypsy Queen
True, free expressed music
Darling guitar please
Rest. Amen
In Britain and Europe, Jimmy had proved himself.” p183
“That evening they all visited Jimmy’s old stamping ground in the Village. They ate at the Tin Angel and moved on to the Café Au Go Go. Keith Altham was traveling with the band to file a report for NME… Jimmy didn’t play that night; instead they went to see the Doors at the Scene club before returning to the Buckingham Hotel where they were staying. Jimmy strolled through the Village in a multi-coloured floral jacket, white trousers, emerald-green scarf and gold medallion inscribed with the words ‘Champion Bird Watcher’. Which was fine until they tried to get a taxi, as Keith explains: ‘You had three chances of not getting one in the Village. One if you were a weird-looking hippie. Two, if you had long hair. Three, if you were black. And he made it on all three counts. Not only would they not stop for him, they would also try and run him over, so we would have to hide him in doorways, go and stop a cab and even then the cabby would tell him to get out. We had to get out of a couple of cabs and I’d get a bit humpty about it. But Jimmy would say, ‘Just get out and don’t say a word.’ But of course, a year or two later, when he was a superstar, they couldn’t do enough for him’.” p185
“But those who were there and have since written of that weekend all talk of the totally benevolent atmosphere, how you got a contact high just from being there surrounded by stoned, happy, laughing faces. People spoke of tribal connections and collective unconscious experience… Certainly as the Festival wore on, increasing numbers of policemen meandered about wearing sloppy smiles, not unconnected with the marijuana smoke that hung like LA smog over the site and, of course, Owsley’s special gift to the people. In some respects the significance of Monterey was the audience, not the music… It was Disney time for rock’n’roll.” p187, about Monterey International Pop Festival, June 1967.
“It was the calm before the storm. The announcement begins: ‘And now the next act, one of the hottest bands from England. It’s led by an American – Jimmy Hendrix. And here to introduce him – he’s all the way over from London – Brian Jones of the Rolling Stones. Ladies and gentlemen, Brian Jones!’ Then Jones said, ‘I’d like to introduce a very good friend, a fellow countryman of yours… he’s the most exciting performer I’ve ever heard – the Jimi Hendrix Experience.’ Jimmy hit the stage – looking eerily like Little Richard, wearing the same kind of ruffled shirt he had not been allowed to wear only two years before, with red pants, feather boa and hair pushed up almost in a pompadour. This was the sideman’s revenge. Jimmy was on the verge of outstripping all those who had given him the sack or who’d scorned his music… But now Jimmy was taking them with him, his confidence was growing and his talk became less gabbled: ‘Like I said before, it’s really groovy. I’d like to bore you for six or seven minutes and do a little thing… ‘Scuse me a minute and let me play my guitar… Right now we’d like to do a little thing by Bob Dylan and that’s his grandmother over there [points to Noel], a little thing called “Like a Rolling Stone”.’ That does it, he’s mentioned a homage to their hero – audience and artists are now humming on the same wavelength. p191, about Experience gig in Monterey Festival, 18 June 1967.
“But directly as a result of Monterey, Jimmy was the instant toast of the LA rock elite in much the same way he had been acclaimed in London. Peter Tork invited him up to his estate in Laurel Canyon… Jimmy also went to Steve Stills’ house in Malibu for a jam session involving Buddy Miles and the Buffalo Springfield bass player, Bruce Palmer, among others. Steve Stills setup his amps, ‘we took some acid and just went. We played quite literally for twenty hours straight. We must have made up about fifty songs, but there was no tape running. We just played for the ocean.’ The music brought the cops, but this time not to cause trouble. ‘Would it be okay if we parked across the street and listened? We don’t care what you’re doing, we just want to listen. And if one of our sergeants shows up, someone will sound a siren which means just cool it for a few minutes.’ ‘So me and Hendrix jammed with the sheriff’s protection! And that night I really stared to learn how to play lead guitar’.” p195
“The new album Axis: Bold As Love was recorded at the Olympic Studios in Barnes with Chas producing. The engineer was Eddie Kramer, who had impressed everybody with his sensitive mixing of Jimmy’s earlier recordings. At the time there were very few engineers around who hand any feel for rock music at all.” p214
“In the early recording days of the Experience, Jimmy had been quite taciturn in the studio and generally went along with what Chas suggested. But with every visit to a studio, Jimmy’s confidence grew, as Eddie Kramer explains: ‘There were no meetings in advance and Jimmy created things in a very loose sort of fashion. He knew in his own head what he wanted to do and how he wanted to create – he had pages and pages of lyrics to choose from – but he knew exactly what he was doing. Every overdub, every backward guitar solo, every double-tracked thing was very carefully worked out… in his own head… in a very private sense. I was not to know what he was going to do until he walked into the studio. I think anybody else did. Take any of the backwards guitar solos – and there are quite a number of them. When the tape was put on backwards, with the music rushing by you – Jimmy knew where he was on every inch of that tape. It didn’t matter where you started it. And he knew exactly in his own mind as he was doing the solo what it should sound like afterwards. The point is the man had a firm grasp of what he was doing and what its end result would be’.” p217
“His ballads represent the most endearing part of the Hendrix legacy, none more evocative than ‘Little Wing’, covered by musicians as diverse as Eric Clapton, Gil Evans and Sting.
Well she’s walking through the clouds
With a circus mind that’s running round
Butterflies and zebras
And moonbeams and fairy tales
That’s all she ever thinks about
Riding with the wind
When I’m sad, she comes to me
With a thousand smiles, she gives to me free
It’s alright she says it’s alright
Take anything you want from me, anything
Anything
Fly on little wing
Yeah, yeah, yeah, little wing
Talking to a Swedish journalist in January 1968, Jimmy said of ‘Little Wing’: ‘It’s based on a very, very simple Indian style… I got the idea like when we were in Monterey and I just lookin’ at everything around. So I figured that I take everything I’d see around and put it maybe in the form of a girl, or somethin’ like that, you know, and call it ‘Little Wing’, and then it will just fly away. Everybody’s really flyin’ and they’re really in a nice mood, like the police, and everything was really, really great out there. And so I took all these things and put them in one very, very small matchbox, you know, into a girl and then do it. It’s very simple, but I like it though…’.” p224
“He holds the song in tension at the end with some vicious note bends and let go of the reins for the crashing finale. Like to go ahead and do a song that goes something like this here:
I wish I was a catfish
Swimming all in the deep blue sea
I’ll have all you pretty women
Fishing after me
Jimmy lends his own considerable weight to the density and passion of Muddy Waters’ classic declaration of sexual bravura, emulating the shimmering metallic vibrations of Waters’ Telecaster rasp.” p242
“Most people believe that, to be a good blues musician, one has to suffer. I don’t believe this. I just like the sound of the blues. When I hear certain notes, I feel real happy.” Jimmy interview to Cheltenham Chronicle, 11 February 1967, p243.
“The Mississipi Delta stretches 200 miles from Memphis, Tennessee to Vicksburg, Mississipi. This flat land of cotton and soybeans was home to the greatest blues singers, Son House, Charlie Patton, Robert Johnson, Muddy Waters, Howlin’ Wolf and B.B. King, master craftsmen of the purest and most deeply rooted of all blues strains – Delta blues. On first appearance, a simple enough musical form, but as Robert Palmer observed in Deep Blues: ‘The fact of the matter is, Delta blues is a refined, extremely subtle and ingeniously systematic musical language. Playing and especially singing it right involve some exceptionally fine points that only a few white guitarists, virtually no white singers and not too many black musicians who learned to play and sing anywhere other than the Delta have been able to grasp. These fine points have to do with timing, with subtle variations in vocal timbre and with being able to hear and execute, vocally and instrumentally, very precise gradations in pitch that are neither haphazard wavering nor mere effect. We’re talking here about techniques that are learned and methodically applied, are meaningful in both an expressive and purely musical sense, and are absolutely central to the art’.” p243
Rafael e a telecinese: uma história real
novembro 27, 2009
Rafael pediu um copo com água. Era preciso botar um ponto final naquilo.
* * *
Sua lembrança mais remota remonta tenra idade, quando seu lobo frontal iniciou certa atividade num dado padrão vibratório de alta freqüência. Rafael tinha a sensação que essa parte de seu cérebro transcendia os limites da fronte. Com o passar do tempo, o pulsar do lobo entrou em regime e era para ele um análogo daquilo que são os bigodes para os gatos – apesar de não ter a vivência dos felinos, assim é que ele mais gostava de se referir àquela experiência ulterior. Espécie de esfera energética que irradiava de sua mente. Aguçava-lhe os sentidos. Dependendo do momento, a intensidade podia ser amplificada ou diminuída. Rafael associava o aumento da intensidade aos estados conscientes de grande concentração para a realização de atividades intelectuais, e mesmo outros estados alterados da mente, como aqueles relacionados à religiosidade ou aos estágios intermediários entre a vigília e o sono. Nesses instantes era como se seu corpo aumentasse de tamanho – sua cabeça gorda por vezes parecia ocupar o volume de todo o quarto. Se estivesse na penumbra, podia presenciar até a emissão de raios de baixa intensidade ou fagulhas eletrostáticas; eventualmente capazes de alumiar os filamentos incandescentes internos ao bulbo de uma lâmpada. Isso era o máximo que ele conseguia em termos de atividade psicocinética; e mesmo assim, dificilmente conseguia o efeito enquanto estivesse acompanhado de testemunha. Por isso é que Rafael preferia guardar essas sensações e experiências em seu íntimo, evitando assim se fazer passar por ridículo ou falastrão. Apenas comentava as experiências, em linhas mais gerais, para um ou outro amigo mais chegado, sem entrar muito nos detalhes, e também para uns poucos entes da família. E assim, de forma superficial apenas, é que sou capaz de narrá-las ao prezado leitor.
* * *
Conheci Rafael por volta dos doze ou treze anos de idade, pelo fato de iniciarmos o ano letivo na mesma classe do ensino fundamental. Logo nos tornamos amigos. Descobrimos que morávamos no mesmo bairro e, desde então, jogávamos bola juntos, pedalávamos pelas trilhas aos arredores da pequena cidade do interior, e foi juntos que fizemos as nossas primeiras incursões pela noite – doces as descobertas do sexo oposto.
Havia uma menina que, aos dezesseis anos de idade, trazia consigo a luz que eclipsava todas as demais: era de uma beleza natural, doçura em sua voz e suave harmonia dos movimentos que fazia dela uma garota ímpar no contexto da comunidade que habitávamos. Seu nome era Silvia e morava no bairro mais abastado da cidade. Tanto eu quanto Rafael sabíamos que Silvia não era garota para gente mais humilde, como nós. Nos contentávamos, ao longe, com o doce emanar de sua graça juvenil, enquanto outros moleques, filhos de pais ricos, é que se atreviam às incursões mais próximas ao círculo das meninas que ela polarizava. Numa dessas noites Rafael disse: – Jorge, vai lá que a Silvia é tua. Confesso que na hora minhas pernas bambearam, como seria possível eu realizar aquela investida, com tantos competidores potencialmente mais fortes? E então, ouvi novamente dele, não um comentário ou sugestão, mas uma verdadeira ordem de comando: – Jorge, vai lá que a Silvia é tua. E esse foi o ponto de partida da minha história com Silvia. Até hoje acho incrível e admirável a sintonia entre nós: fato é que nos casamos, tivemos três filhos (duas meninas e um menino) e um complementa o outro como o ideal de todo casal.
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Mas essa história é sobre meu amigo Rafael. Parece que trazemos dentro do peito essa estranha tendência de querer enxergar o mundo sob nossa ótica própria apenas; valorizar mais a nós mesmos e àquilo que nos atormenta; o que se passa com o outro muita vez nos passa desapercebido. Mudemos o foco.
Estudei com Rafael até o final do colegial e esses anos da adolescência foram aqueles em que fomos mais próximos. Não que a amizade tenha deteriorado, mas é que com o passar do tempo naturalmente assumimos maiores responsabilidades frente à vida e também a distância impôs certa barreira a nossa convivência freqüente: Rafael foi cursar direito na capital. Lá ele conheceu Ana. Eles também sempre se deram muito bem. Depois de alguns anos se casaram. Eu estava presente àquela celebração efusiva quando a taça de cristal que repousava sobre o altar se desfez numa miríade de pequenos cacos logo que os noivos se beijaram. Lembro que aquilo foi muito comentado à época. Mas se deu num dia quente de verão, quando da chegada de uma frente fria: o fenômeno acabou sendo explicado pela física da contração súbita do material frágil do cálice (apenas).
Rafael e Ana não tiveram filhos. Por incapacidade de um ou do outro de conduzir aos seus próprios meios à concepção. Durante os anos que peregrinaram na busca de especialistas em reprodução humana, lembro que os ânimos entre o casal se acirraram. Mas a situação parece ter voltado à normalidade depois que eles optaram pela adoção de uma pequena menina – tão doce que parecia ter sido gerada pelo próprio casal.
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Rafael também ascendeu na carreira. Começou como auxiliar num escritório de direito das causas cíveis, mas logo ganhou posição de destaque entre os colegas. Ele próprio me confidenciou que sua sensibilidade aguçada à atividade do lobo frontal, de uma maneira um tanto quanto subjetiva, possibilitava com que ele fizesse distinção dos seus clientes entre os que diziam a verdade e aqueles que estavam mentindo: – Numa conversa direta, quando há sintonia das idéias, é como se os campos ulteriores das cabeças desenvolvessem espécie de interferência construtiva. Assim, esses fluxos energéticos se sobrepõem, o que favorece em muito o andamento dos trabalhos e os desenvolvimentos conjuntos. O sucesso nesses casos cíveis dá-se então, de forma fácil, quase natural. – Por outro lado, quando percebo numa conversa preliminar a constrição do lobo, parece haver a interferência destrutiva; e as ondas energéticas se anulam. – Jorge, eu tenho então grande certeza de que o cliente está mentindo e que o caso está fadado ao fracasso. Invento uma desculpa, peço que o cliente procure por outro advogado, e assim vou filtrando, separando o joio do trigo.
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Conseqüência direta de sua inteligência aguçada, esforço pessoal e intuição é que Rafael, depois de acumulada experiência como militante na advocacia, decidiu abrir o seu próprio escritório. E esse foi o período mais próspero na vida de Rafael, Ana e Carolina – a filha adotiva do casal que, à época, entrava na adolescência. Rafael tinha acumulado exímia reputação como advogado das causas cíveis e optado por trabalhar sozinho, pegando poucos casos que lhe rendessem o sustento da família bem como a necessária paz de espírito (posto que não era sujeito ambicioso, embora tivesse apreço pelo conforto).
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Foi naquela manhã com o céu limpo de outono que Rafael recebeu a visita de um cliente potencial. O latifundiário de nome Jacinto lhe pareceu boa pessoa, era simples e direto; tinha a fala mansa que transmitia grande segurança. Naquela primeira entrevista Jacinto queixou-se das acusações infundadas que lhe foram impingidas: a anexação indevida de terras às margens de sua propriedade, roubo de gado, exploração da mão-de-obra em regime de semi-escravidão e ameaças de morte aos sertanejos das cercanias – que agora o denunciavam sob amparo do Estado. O semblante de Jacinto se desfez e ele chorou copiosamente; trazia aos olhos a inocência de uma criança. Rafael sensibilizou-se com a causa e prometeu ajuda ao seu mais novo cliente. Com o passar do tempo e o avanço do processo nas diferentes instâncias – sempre com o parecer favorável ao latifundiário, e graças às investidas brilhantes de seu defensor – Rafael começou a sofrer de profunda angústia sempre que tratava de assuntos relativos à causa. Ele comentou comigo certa vez que nos encontramos: – Jorge, anteontem tive um encontro de trabalho com Jacinto no meu escritório. Logo que ele adentrou o recinto, foi como se trouxesse consigo todo um enxame de abelhas. Eu simplesmente não conseguia raciocinar. Sentia minhas faculdades mentais diminuídas sobremaneira. Um ruído agudo de fundo ressoava interno à minha mente, algo que eu nunca tinha experimentado, que eu não tinha como controlar. Quando ele se foi eu disse para a secretária cancelar todos os demais compromissos do dia. Cheguei em casa por volta das cinco da tarde, sentia como se tivesse sido atropelado por um rolo compressor, deitei na cama e só fui acordar no dia seguinte. Arrependo-me até hoje por não ter dito nada em resposta àquele seu desabafo (porque eu não gostava quando Rafael começava com aquele falatório subjetivo). Foi a última vez que conversamos; e daqui para frente só me resta colecionar os cacos daquilo que eu pude juntar: do que soube através da imprensa, de minhas conversas com Ana e do que li nos grossos relatórios da perícia técnica.
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Rafael trabalhou algumas noites na construção de um nunchaku; um bastão bi-seccionado usado em diversos estilos de lutas chinesas e japonesas. Parecia muito consciencioso sobre os seus planos futuros. As extremidades ele fez a partir de um cabo de vassoura cilíndrico, de madeira. O elemento flexível intermediário era constituído de um fio de nylon resistente, de bitola 0.06 polegadas, específico para a pesca em alto mar. As extremidades rígidas do nunchaku encontravam-se separadas pelo comprimento de exatos 400mm do fio de nylon.
Na tarde da quarta seguinte, dia dois de dezembro, Rafael e Jacinto se reuniram no escritório do advogado. Rafael havia comunicado à secretária que ela estaria liberada tão logo recebesse e encaminhasse ao seu escritório Jacinto – o último cliente do dia. E assim ela fez; deixou o escritório mais cedo naquele dia. Lua cheia às 16h14: Rafael enrolou o nunchaku ao pescoço de Jacinto e tracionou o fio de nylon valendo-se das empunhaduras de madeira. Olhava profundamente através dos olhos de Jacinto. Das narinas do latifundiário começaram a vazar fios de sangue. As órbitas de seus olhos pareciam saltar; suas escleróticas apresentavam evidentes as delicadas ramificações dos veios de sangue – olhos vermelhos. Tombou desfalecido o cadáver. Rafael ligou para a polícia e confessou o crime.
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O episódio ganhou projeção nacional. Muito se especulou a respeito. Foi provado que Jacinto era mesmo culpado pelos crimes que estava sendo acusado. Durante os três anos de julgamento, Rafael permaneceu em liberdade condicional por ser réu primário. Foram tempos difíceis para meu amigo. Ele não podia botar os pés para fora de casa; o assédio da imprensa era implacável; sua existência transformou-se em verdadeiro martírio. Nesse meio tempo eu não tive oportunidade de me encontrar ou conversar com ele (como já havia adiantado na narrativa). Rafael foi condenado a sete anos de prisão.
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Era sua primeira noite na solitária. Rafael pediu um copo com água. Era preciso botar um ponto final naquilo.
No dia seguinte, pela manhã, os carcereiros ficaram pasmos com o que encontraram: Sobre o leito havia apenas uma fina camada com resquícios de cinzas, uma rosa vermelha e um canudo de papel amarrado com barbante.
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o emaranhado das criaturas transcende o limite dos corpos
para a união no espaço ulterior
o sutil habita-nos assim como nossa existência se dá através dele
num momento ou noutro essas portas sensoriais hão de desvelar
uma ordem de coisas genuína e libertária
que a mente humana jamais ousou conceber
para que encerrarmo-nos então dentro de nós mesmos?
fingirmos a felicidade efêmera provida pelo consumismo desenfreado?
não sou melhor nem pior que meu irmão Jacinto (ou Jorge)
mas optei pela transfiguração numa simples flor
espero com isso provar
através desse meu perfume
que penetro às vossas ventas
que sou capaz de acalentar o sonho mais puro de tua alma
porque não pendurei a garrucha à parede fria
que abriga os desiludidos desse mundo
O novo conto da tarde verde de ontem
novembro 16, 2009
O céu soprou o cheiro do sol.
E à noite orvalho também.
Deito ao seu colo macio.
Descanso a cabeça.
Um verde arrebatador é o seu regalo.
Doce a tarde quente de ontem.
Mais que a de hoje –
Depois de amanhã;
anteontem de agora.
Doce quente lambuza a tarde.
Seu regalo é de um verde arrebatador.
Minha cabeça descansa.
Ao seu colo macio eu me deito.
Orvalho também quando a noite chega.
O cheiro do céu soprando ontem ao sol.


