Por amor

Outubro 31, 2009

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 – sei que posso flutuar

 

Mudança de comportamento

 

Haverá vida depois das seis? Há quem diga que, de fato, aconteceu. Era começo de noite quando aquele brilho estranho no céu, como um relâmpago muito intenso, teria invertido o sentido de rotação em todos os níveis das esferas. Algebricamente isto até seria viável num delta de Dirac. Mas daí até acreditar, só vendo. E assim, desde o ciclo lunar, passando pelo movimento dos planetas ao redor do sol, e mesmo as ínfimas rotas probabilísticas de elétrons em torno de massas atômicas concentradas em prótons e nêutrons – ainda que sujeitas as eventuais emissões de fótons – teriam sido afetadas. Confesso que nada percebi. Eu bebia e fumava demasiadamente. Não preciso dizer tal foi o meu espanto. A loucura e a chapação.

 

O que te espera depois de nascido

 

Prefiro fingir de mudo. Forjar que não estou ouvindo. Que não posso mais comer, que vomito tudo. E vomito ainda mais do que comi. Estou morrendo e não é de hoje. Só peço um pouco de paz para eu deixar de ser gente. Um copo com água. Charutos de boa qualidade e bocetas em fartura. Estou morrendo e ninguém vê isso, enquanto chupo os peitos saudáveis e meu pau duro entra e sai viril das vaginas. Estou morrendo e não é de hoje que eu vomito, que eu cago e que eu mijo. Não é de hoje que eu peido. Prefiro fingir que não sinto o cheiro. O que eu quero é ficar na minha. Prefiro fingir de cego. Não escrever a próxima linha.

 

Entre marido e mulher

 

Desculpe amor, sem dinheiro no bolso eu não posso partir. Comerei da tua comida, você vai lavar as minhas roupas e vai ter de dar para mim. Sei que você merece muito mais que isso. Mas não tenho dinheiro e isto é tudo. Você vai ter que aturar o meu mau humor constante, o cheiro de álcool e os palavrões. Meu amor, você tem o direito de chorar baixinho, de rezar para todos os teus santos. Enquanto eu o direito de te cobrir de porrada, de comer o seu cu e de beber cachaça.

 

Amanhã vou sair na noite

 

A dor que sinto vem do coração partido. Faz-se sentir através de ampla e complexa rede de neurônios. Estou em busca de alternativas. Mesmo que eu desviasse o fluxo da aorta em safena. Mesmo que drenasse todo o veneno incrustado nas plaquetas. Mesmo que fosse possível dissolver o colesterol a laser. Não implica que eu dormiria tranqüilo. O trauma e o vazio ainda estariam lá. A dor do amor. Quem sabe um eletro-choque, o cheiro do couro cabeludo sendo queimado? Camisa de força, um sanatório e o tratamento a base de injeções de drogas tarja preta? Quem sabe um abismo bem alto? Para um novo amor.

 

Slow dying

 

Se você continuar agindo assim, vai morrer. Não existe morte mais lenta que levar essa sua vida saudável.

 

Sonho do fumante insone

 

Estive pensando em ir embora. Já é tarde e a tendência é da madrugada avançar ainda mais adentro. Engolindo o mundo sem piedade. Todos os meus monstros já foram dormir de tão velhos que são. Insisto em mais um gole para provar que é possível. Insisto em mais um tapa no cigarro. E numa hora dessas toda uma vida se resume nisso. Muito pouco faz sentido. Procuro a saída improvável da realidade. Prender a fumaça para dar mais pressão. Soltar a fumaça em círculos.

 

Macadâmias

 

Estes grãos não soltam pêlos.

  – Quero extrair o cheiro das flores.

Hei de retê-lo num frasco hermético.

Guardarei a essência para depois.

 – Não merece crédito a ação que ergue barreiras;

que separa.

Antes de prosseguir em seu intento

hão de devorar os vermes tua carne.

Exalará dela o putrefato que habita tua alma.

Nem este será possível apreender.

– Mas se a alma é minha,

penso dela o que quiser.

– De fato,

nada é sem que os outros a percebam.  

É da diferença que resulta a existência;

toda ela.

– Onde reside então a liberdade?

– Muitos dirão que ela não existe.

Insisto que sim.

– Se não posso conceber o todo,

devo mesmo ser limitada.

– É porque pensa sempre em si mesma

enquanto autônoma criatura.

Quando é parte de consciência superior.

Tão importante como todas as outras.

Que elas sequer existem

sem você. 

– O mapa que trago em minha pele?

– O dragão não vai devorá-lo.

Nem ele irá vencer o dragão.

Resulta da tensão dos opostos

a força que ele carrega.

Da obsessão

Setembro 15, 2009

da_obsessao

 

O Portal Literal publicou em 14/9/2009 na seção Idiossincrasia o artigo de Ismar Tirelli Neto intitulado “Nove Perguntas e Um Desafio: Simone Campos”. Este breve poema foi inspirado pela leitura do referido artigo – em resposta ao suposto desafio. Acredito que não existe uma resposta fechada para o enigma. E muito de nós jamais passará desse estágio embrionário. Convido o leitor a uma reflexão a respeito: “qual conselho você daria a um jovem aspirante a escritor?”

Matar um cara

Agosto 19, 2009

 a)      Toda noite era a mesma coisa

“The philosophers tell the inquirer that birds and fishes bring us the lapis, every man has it, it is in every place, in you, in me, in everything, in time and space.”

– Extracted from Jung C. G., “Psychology and Alchemy”, pp.323, Princeton University Press, (1993)

As coisas eram por vezes confusas, outrora desconexas, na cabeça de Celso. Mas é certo que a sua percepção da realidade tomou outro rumo desde quando conheceu – meio que por acaso (mas nem tanto) – Bianca. Havia novas obrigações a serem cumpridas, uma rotina estafante e experiências inimagináveis levando-se em conta a vida pacata que Celso levara até então. Mesmo para ela parecia haver essa mesma aura de descoberta – natural daquilo que se apresenta original, único e transcendente do quotidiano dos dias.

Bianca trazia longas madeixas de cor castanha. Tinha o corpo jovem e a exuberância característica dos seus vinte e poucos anos. Seu rosto era delicado, trazia o verde-marinho de um olhar profundo, somava-se a isso o semblante doce, terno, parte angelical, parte inquieto – como se brotasse à face sua própria essência determinada e questionadora. Sua bunda era de encher o traseiro da calça jeans justa ao corpo; dessas de capturar a atenção de qualquer marmanjo num raio de quarenta e tantos metros. Seus seios naturais, de tamanho médio, eram durinhos, agradáveis ao tato como fruta madura, e as extremidades rosáceas característica da safra que a melhor das videiras jamais haverá de produzir.

Toda noite era a mesma coisa. Depois da longa jornada de trabalho, a convivência em família, ou o passeio com os amigos, um programa diferente, o cinema talvez, quando todos já haviam adormecido, Celso saia pelas portas dos fundos – sem ser percebido – caminhava por quinze ou vinte minutos até a encosta da serra que circundava a cidade. Tomava, então, a trilha pedregosa que levava acima de determinada montanha saliente ao relevo das cercanias. Quando chegava ao topo ele contabilizava entre quarenta e cinqüenta minutos desde deixado o lar. As luzes da cidade muitas vezes eram encobertas por brumas baixas e as estrelas imprimiam o brilho diretamente às suas retinas, privilégio que só a atmosfera diáfana do interior era capaz de produzir. A noite negra contrastava ao dia verde vibrante.

Bianca, via de regra, estava o esperando. Ela vestia sempre o penhoar de seda branca quase tocando ao chão (este parecia ter vida própria quando o vento lhe era providente), os pés deliciosamente descalços. Toda noite era a mesma coisa. E sempre passava pela cabeça de Celso se insinuar para ela, quando surgia por detrás de alguma rocha (ou arbusto) a figura austera de Jorge. Ele iniciava logo o falatório com aquela voz enérgica e grave. O que saia de sua boca não se escreve nos livros, porque era desses de mandar e desmandar, como se estivesse acima dos outros. Suas lições eram sobre um poder inimaginável;  e as tarefas as quais ele os impingia pareciam contrariar todo e qualquer limite concebível da ética, da lógica humana.

 

b)      Mais de meia centena delas

“When emptied of people, the interior is steel gray. When crowded, it’s green, a comfortable acid green.”

– Extracted from Thomas Pynchon, “Gravity’s Rainbow”, pp.448, Penguin Books, (1973)

Naquela noite Jorge tratou de dadas atividades escusas e manias supostamente atribuídas ao Doutor Régis. Era inacreditável! Doutor Régis era conhecido e abastado médico, de reputação internacional, especialista na técnica da fertilização in-vitro, suas pacientes cruzavam o país e lotavam as salas de espera de sua opulenta clínica na ânsia da concepção de uma prole saudável. Quase sempre o tratamento era bem sucedido. E isso não era novidade para ninguém, caracterizava a mais pura e cristalina verdade. Mas Jorge falava sobre prostitutas requintadas, modelos de revistas masculinas que viajavam da capital para o interior com as despesas correndo à custa de Doutor Régis, para encontros íntimos que se davam na calada da noite. Doutor Régis às submetia a situações constrangedoras, abusava do poder e da autoridade que lhe eram atribuídas. Jorge tratava do intangível. Falava sobre pacientes que sofriam de abuso quando se encontravam em estados alterados da consciência, sob o efeito de drogas anestésicas. Mais de meia centena delas.

Celso ouviu atentamente as explanações de Jorge sobre a arte da supressão do fluxo sanguíneo através da constrição do arco aórtico pela saturação da energia mental com desdobramentos num impulso mecânico sensível ao organismo humano; sobre sua ação instantânea; fatal; livre de rastros. Bianca tinha os olhos semi-cerrados enquanto Jorge enunciava em detalhes e pau-sa-da-men-te a tarefa que era da incumbência deles. Antes de desaparecer por detrás dos arbustos (ou alguma rocha) Jorge versou sobre justificativas pungentes e voltou a salientar: – Mais de meia centena delas!

O fato é que eles podiam lutar contra aquilo. Mas o tempo, então, cessava. Celso e Bianca se viam restritos àquele mesmo átimo do encontro com Jorge, ao topo da mesma montanha. A lição de Jorge reverberando infinitamente dentro da cabeça deles, até que fosse firme a determinação de cumprir à risca aquilo que lhes fora designado.

Naquela noite Bianca seduziu Doutor Régis que estava a se empanturrar de álcool e tabaco – supostamente protegido pelo conforto e a ostentação da mansão sob pesada vigilância. Assistia na tv a cabo um desses concursos de misses. Bianca enfronhou em sua mente. Fez com que ele pegasse o carro possante e partisse em velocidade rumo ao prostíbulo simplório e fétido que estava na divisa com Santo Antonio da Edícula (cidade vizinha). Doutor Régis jamais havia botado os pés naquela espelunca. Os homens promíscuos se mostravam estupefatos com a ilustre presença. Bianca encarnou a mais gorda, sebosa e asquerosa das meretrizes. Então fez com Doutor Régis o jogo travesso da sedução. Seguiram para o quarto dos fundos, onde iniciaram com a fornicação. Celso adentrou de súbito o ambiente. Com um movimento rápido de rotação de seu pulso esquerdo aplicou em Doutor Régis a constrição do arco aórtico. Ato consumado: A puta banguela havia sido indubitavelmente sua última e suculenta refeição.

 

c)      Todo dia era a mesma coisa

“That this wound did not blossom yet, did not shine yet, at this hour, made him sad. Instead of the desired goal, which had drawn him here following the runaway son, there was now emptiness.”

– Extracted from Hermann Hesse, “Siddhartha”, pp.100, Norilana Books, (2007)

Celso era bancário e tinha passado a pouco dos cinqüenta. Acordava cedo pela manhã, preparava o café, acordava os filhos e a esposa, tomava um banho. Eles tinham o hábito de tomar juntos o café da manhã. Andreza tinha dezesseis anos e vestia minissaia. Ela cursava o penúltimo ano do segundo grau. Celso era rigoroso com a filha querida. Questionava-a pela manhã com relação às lições do dia, queria saber das datas de suas provas, sobre as notas da menina. Celso Júnior era dois anos mais novo que a irmã e estava no último ano do fundamental. Celso enxergava nas realizações do filho um bálsamo para as suas próprias frustrações e limitações adolescentes. De fato o filho tinha um sex appeal bem maior que ele tivera nos tempos de moleque. Era extrovertido e comunicativo, fazia amizades como quem descasca uma banana. (Ao passo que o círculo de amizades de Celso, o pai, era tão minguado quanto são os dedos de um soldado desarmador de minas, fracassado na carreira). Letícia era católica, correta, mãe dedicada, exemplar. Além de cuidar da casa, cosia para fora como forma de ajudar com a renda da família. Dava-se por satisfeita com o papai-mamãe trimestral que praticava com o marido.

Naquela manhã Celso ficou atônito ao ler nas manchetes do jornal, ainda à mesa do café, que Doutor Régis havia sofrido um infarto fulminante e falecido sob condição lamentável no recinto de certa bodega de quinta categoria. Todo dia era a mesma coisa. De repente aquela estranha realidade caia como que um elefante sobre sua consciência. De súbito ele se dava conta de que exercia um papel determinante nos óbitos da comunidade. E pensava em Bianca. No seu rosto delicado; no verde-marinho dos seus olhos; naquele semblante doce e terno.

Celso pensava em procurar por ela. Tirar a limpo as dúvidas todas que o afligia. Falar daquele seu desejo absurdo que não se consumava nunca. Sobre os encontros furtivos ao topo da montanha. Ele sabia onde Bianca trabalhava, onde a encontrar. Mas ele era fraco. E desde que determinadas sensações e pensamentos estranhos passaram a habitar sua mente ele jamais tinha visto a garota pelas ruas da cidade. Era como se estivessem se escondendo um do outro. Todo dia era a mesma coisa. E ele não podia deixar se levar por esse tipo de impulso menor. Às vezes pensava que estava mesmo ficando louco. Pensava em procurar por ajuda, um psiquiatra. Mas resistia bravamente (toscamente?) aos seus impulsos. Calava aquela sua voz interior.

 

d)     Mais de meia centena deles

“o mais simples

remete ao mais profundo dos signos

desejo que traz consigo a saudade

das tardes quentes de suor

tua cor é minha preferida

vê aquela estrela no céu?

a gente vai se mudar para lá

onde posso sentir eterno o teu perfume intenso

beijar a tua boca vermelha

agora repousa tranqüila com os Anjos

eu aqui a fumar-te

 inteira em minha mente

– Extracted from http://jorgexerxes.wordpress.com/

Levou tempo para que os ensinamentos de Jorge cristalizassem à mente de Celso. Ele fazia o tipo cabeça-dura (mas essa sua característica também era parte dos desígnios, ainda que ele sequer suspeitasse disso). O tempo transcorre fluido e contínuo na pedra celeste a qual denominamos de Terra (noutros cantos não é assim). Celso presenciou muitas mortes e os seus defuntos. Mais de meia centena deles.

Com o passar dos dias (e das noites) tanto Celso quanto Bianca compreenderam as sutis conexões que separam o mundo dos mortos daquele dos vivos – apesar de pouco se falarem. Eles eram capazes de enxergar numa alma prestes a abandonar o corpo aquele transbordar do recipiente, aquela espécie de saturação, imunizante de qualquer outra experiência subseqüente em dado padrão organizacional da criatura. Celso viu isso nos leitos dos hospitais. Bianca também observou isso ao fundo dos globos oculares de motoristas sonolentos. Celso podia até inferir qual seria o próximo defunto. E muita vez acertava o palpite. Afinal, tinha presenciado mais de meia centena deles.

Como de costume, Celso deixou sua casa pela porta dos fundos, na calada da noite, e caminhou por cinqüenta minutos através da trilha pedregosa que levava ao topo da velha montanha. Naquela noite, as luzes da cidade eram encobertas por fortes brumas e as estrelas imprimiam seu brilho diretamente nas retinas dele, privilégio que só a atmosfera diáfana do interior era capaz de produzir. Bianca estava o esperando lá em cima. O seu penhoar de seda branca parecia ter vida própria e flanava ao vento. Os seus pés estavam deliciosamente descalços. Eles se entreolharam por alguns instantes. Jorge não apareceu. Finalmente, puderam se abraçar – longamente. Seus lábios se tocaram, ardentes de desejo. Só então emergiu a mais profunda das recordações: ambos haviam morrido instantaneamente na colisão frontal de seus veículos.

 

como a lua afaga a alvorada do novo dia

como o sol beija o crepúsculo da noite

que há por vir

minha pobre alma abençoa o cavalo branco alado

percorre a distância imensa que nos separa

em pensamento

no plano imaginário do místico, do simbólico, do alquímico

não existe esta restrição humana mesquinha

e na intenção de um coração puro

não habita a distância, nem o tempo

mesmo velho eu sou menino

é você menina quem beija minha fronte

os nossos corpos se fundem contentes

de uma só alegria, tão calma, que sequer existimos depois

resta o orvalho da manhã que é lágrima calada

resta o arco-íris da tarde que é sorriso de todo o céu

dentre todas as cores

você é a mais linda

Tom Balladino

Julho 28, 2009

Entra pela porta do quarto com seu andar – e aquele olhar – apressado logo pela manhã. Salta sobre meu corpo que jaz sobre a cama, ainda meio dormente e com as vestes de dormir. Tom Balladino abraça forte, me enche de beijos, espanta meu mau humor antes mesmo que ele se manifeste. De repente estamos lá: brincando como se fossemos duas crianças. Ele gosta das carícias, das cócegas no seu corpo torneado e forte. Ri como ser pleno de certa felicidade, dessas bem meladas – dele transborda, escorre… Contagia.

Depois, apesar da mesa exageradamente farta para o desjejum, Tom Balladino alimenta-se de maneira frugal. Logo mostra o seu semblante disperso, a matutar os afazeres todos e as ocupações do dia recém chegado. Fico a fitá-lo assim, distante em pensamento. Sinto-me só com ele. Rapidamente ele me deixa à mesa para se juntar aos amigos em suas atividades extenuantes. Assim preenche as necessidades de desenvolvimento e as múltiplas habilidades do relacionamento humano. Trabalho que só alguém como ele desenvolve.

Sei que sou apenas coadjuvante desta sua vida desvairada. Tom Balladino tem seu andar peculiar, leve, quase que corre andando (anda correndo, sempre que possível); e ele sabe que eu não agüento tanto. Organizamos um passeio em sua carruagem de cor roxa. (Ele diz que assim deve ser para espantar os maus espíritos. Eu acredito). O grupo de seis pessoas se acomoda. Deixamo-nos levar pelos causos do condutor Ligeirinho; pela potência do puro sangue de nome Maracujá. Divertíamo-nos muito com aquele mais chegado de Balladino, que insistia em chamar o cavalo de Mandioca. Ele deixava Ligeirinho – que estava à boléia – meio sem jeito.

Paramos no Jóquei Clube onde permanecemos alimentando as aves suntuosas – os colibris, os patos e os cisnes. Habitavam o lago de um verde único (verdadeiro) que fora cultivado e mantido ao longo de sucessivas gerações. Os sagüis também se nutriam das bananas que o próprio Tom descascava; ele as cortava e as deixava a mão de símios divertidos. Os seus malabarismos eram milagres do arborismo sobre o qual Balladino tinha vasta experiência e conhecimento. Orgulhava-se de discorrer longamente sobre o assunto, apontando e dando nome às manobras, para o deleite dos presentes.

O temperamento dele nem sempre me agradava, isso é fato. Muita vez Tom Balladino parecia atirado em demasia às suas convicções e ambições – como se o presente fosse a única condição do tempo existente (porém outrora o tempo se arrasta; sabe-se que às vezes ele voa; há ainda o passado; e muito ainda há por vir). Seu imediatismo causava o desconforto que minimizava, em certo grau (embora não afetasse gravemente), aquela sua capacidade transcendente de entreter, de envolver, de seduzir. Era coisa dele ser ele mesmo, ou semelhante daquele cara. Quando se encontrava em condição de constrito lançava logo um sorriso chinês. Os olhos levemente alongados e um sorriso enigmático. E se a situação era realmente embaraçosa (ameaçava reduzir os seus desejos a pó) havia ainda a força de dizer um: – Por favor, com gentileza… qualquer pedido que se seguisse faria das mais obtusas restrições estilhaços improváveis de resistência.

Certa vez Balladino propôs um passeio (ou visita) ao topo da montanha mais alta das cercanias. E para isso lançaríamos mão de um mecanismo de transporte duvidoso, tipo ônibus, ou caixa de fibra de vidro, presa aos cabos e polias – teleférico para elevação das idéias (dos medos?). Forma de ver de cima as mesmas coisas. Um meio de decidir melhor. Muita discussão entre os amigos. (Eu a lhos observar; mero coadjuvante). Não é que Tom debateu longamente sobre a segurança, de modo a todos convencer? Pouco depois lá estávamos nós, aos pés do Cristo, dando vivas pela graça; pela vista privilegiada!

Numa dessas noitadas desvairadas fomos visitar amigo meu de longo cabelo branco. Sua casa aconchegante. Ele se valia de um forno a lenha para o preparo dos alimentos: da carne de vaca, passando pelo arroz, até o feijão com trambiques. Ofereceu-nos a aguardente. Cervejas da preta e da clara. Labirinto para os sentidos. Mas enquanto bebíamos e nos deliciávamos dos causos, Tom Balladino permanecia abstêmio. Dava-se por satisfeito com a caçulinha de guaraná. Outrora coca-cola. Guardava sempre as tampinhas. Ele comeu um queijo achando que era boneco de neve. Primeiro a cabeça, depois o pescoço, lascas da barriga. Depois se rendeu: caiu num sono profundo. Nessa noite o levamos embora, carregado.

Ao dia de nossa despedida, Tom seguiu quieto, no banco de trás. O avião de brinquedo pela janela. Girava a hélice do monomotor tosco, de madeira. Ao vento do carro em velocidade. No posto desceram ele e o irmão. Fiquei a fitá-los; a observa-lhes a reação. Estavam felizes de rever a mãe. Entraram no carro dela. Deram-me beijos e abraços. Com os cintos já apertados. Do banco detrás Balladino me disse: – Tchau pai.

Acho que é por essa sua naturalidade, espontaneidade, inocência que admiro tanto Tom Balladino – meu filho de quatro anos – e ao seu irmão que leva o nome de um anjo.

Resta a certeza de que as férias foram inesquecíveis. Que apesar de eu não ter mais o pique deles, me sinto renovado. E, principalmente, eternamente agradecido.

Trabalho com a serra

Julho 5, 2009

Observou ainda debaixo a magnificência do acidente de relevo que se manifestava onipotente frente aos seus olhos. Logo estarei lá em cima – pensou Antonio. O monte é de um verde asfixiante. Algumas rochas que transparecem aos arbustos quebram esta constância, como o gelo no copo da bebida. Subiu calado e taciturno.

A repetição é de natureza triste e enfadonha. Já a liberdade, mesmo quando boceja aos gracejos de boa idéia, será sempre bem-vinda. Assim como a criatividade é irmã dos relâmpagos.

Antonio sentou-se sobre uma das três grandes rochas do cume. O fim de tarde era a quintessência do dia, o instante em que seria possível ao Sol beijar a Lua – pelo menos em sua cabeça simples de homem da terra. As mãos grossas que são também hábeis no manuseio do canivete. Ele picava o naco de fumo de rolo com a grande habilidade dos anos.

Geraldo subia triste a trilha que levava acima. A montanha era símbolo da árvore, que por sua vez era símbolo da resistência. Ela reinava soberba naquele topo. Mas naquele dia Geraldo trazia consigo a razão do impreciso. A duvida habitava o âmago daquele coração bruto de pedra, que não pertencia ao reino da natureza. Era aquilo que existia fora dele.

Antonio acochava a palha imprimindo-lhe certa maciez que não era sua. Pedia ao bom vento o sopro de sorte doce do crepúsculo. E preencheu a leda com todo o fumo enquanto Geraldo se achegava.

A vez de Jacinto era maquinada da energia dos omissos. Subia sem o devido respeito à aclividade como quem invade uma virgem ignorante da sua pureza. Arredio e bêbado das suas contas. Pastava noutros campos onde os loucos, os culpados e os indecentes se escondem da razão. Trazia consigo a ferramenta.

Antonio passava a lábia com a língua espessa dos sucos digestivos que moravam em sua boca. Era a ambição dos sentidos que fazia dele a cola dos pântanos. Sua arte lhe permitia ainda os amarrilhos nas duas extremidades  com cintas de palha que dariam ao cigarro o formato final de um confeito – bala ou cande esfumegante.

Jorge subiu por fim. O sol quase na linha do horizonte. Eles botaram fogo na bagana e tocaram fumaça no mundo. Ela expandia abraçando todo o universo.

Jorge, Antonio, Geraldo e Jacinto eram amigos. Eles riram, mas sentiram o pesar daquele momento. O crepúsculo que nunca seria o mesmo.

Botaram a ferramenta numa perpendicular com o tronco e começaram num vai-e-vem frenético. A árvore resistiu o quanto pode.

Naquela noite a fogueira ao centro dos casebres foi mais vívida que todas as Estrelas.

O vazio do coração é a morte da árvore – dói a dor dos dias e das noites eternas.

São João da Boa Vida

Junho 29, 2009

- uma tentativa de alcançar a poesia borbulhante

LLembro das noites bêbadas entre as moléculas de idéias deixadas

OOutras merendas e oferendas em festas de São João

AAs noites lentas que passam através dos arcos e outras crendices de serra

AAs estrelas e os vulcões são coisas de Águas da Prata

SSe duvidar entende Poços de Caldas

TToma toda uma Aguaí

OO beijOO

g OO s t o s OO

d EE boa noitEE

EE q u EE n t EE

d OO c EE

OO d EE l EE i t EE

suplicas de amor

OO g OO z OO

enfim

Durante toda a noite ouviam-se os rugidos dos grandes felídeos – as panteras – que habitavam aquelas cercanias. Lá fora as brumas, o frio e a chuva incessante. Vez por outra alguns desses animais arranhavam com suas garras às portas do pequeno castelo. Como se requisitassem o direito sobre a posse da fortaleza, bem como do sangue fresco que fluía quente das jugulares de seus resistentes habitantes. Outrora, duas ou mais feras se digladiavam em portentosos embates. Aqueles rugidos, aquela potência animal constrangia Dom Luiz. Fazia-o encolher por debaixo das cobertas. Sentia o frio da alma que insistia em habitar as entranhas de seu corpo aquecido. Olhos semi-cerrados: impossível se entregar ao son(h)o.

 

Junto à claridade da manhã cessavam os movimentos das panteras. Homens e mulheres tinham de estar aos seus postos. Exercício (ou arte) de manutenção da vida. Os candelabros com velas alumiavam os corredores estreitos que separavam os cômodos da edificação. Lá fora, explosões das tristes gotas de chuva; beijavam a face de imensa terra. A tristeza dela era alegria das plantas. Não havia mais belas flores que aquelas úmidas da manhã nublada dessa época do ano. Jorgeana deixou o seu aposento para banhar-se nas pedras da sauna aquecida pelo fogo à lenha; exalava o aroma das folhas de eucalipto. Seu belo e viçoso torso nu era graça das mais supremas que o bom Deus havia permitido habitar esta esfera. A pele alva e suave contrastava ao rubro de seus lábios – doce o hálito do frescor da manhã.

 

Foi sacerdotisa Juliana quem preparou o café preto. Desígnio (ou indício) de que um de seus mais nobres discursos estaria por vir. Juliana trazia aos olhos grandes as esmeraldas de profundo conhecimento, talhado a ferro e fogo. Dias e noites de dedicação às escrituras. A observação atenta da cinemática dos corpos celestes; as correlações desta aos seus experimentos com os elementos dos reinos animal e vegetal. Também a interação deles com a morada do sutil e do singelo; reino que habita as profundezas de sua alma (asas da imaginação); mas isso ela não traduzia às palavras: trazia apenas nos movimentos de seu corpo miúdo e nas expressões do seu semblante – por vezes doce, noutras verdadeira a face da sanha.

 

Dom Luiz era espécie de DJ das xícaras, dos pratos, das louças em geral, garfos, facas e de todos outros talheres, que ele lavava ao alto e bom som do rock progressivo do início da década de setenta. Ou traduzido em miúdos: Pink Floyd. Seu instrumento era o espumante e perfumado dos talheres e das louças. Espalhava a música aos extremos da limpeza. Àquela hora se formava a fila dos pacientes para receberem os cuidados atentos e os bálsamos curativos de Jorgeana. Mas eles – Juliana, Dom Luiz e Jorgeana – permitiam breve instante para o desjejum e suas excelsas intenções.

 

Juliana fez às vezes de exímia oradora. Naquela manhã discursou sobre as técnicas de esquiva às artimanhas do satanás. “O tinhoso não habita apenas um corpo como muitos imaginam. Sendo ele fluido (análogo das idéias), na consecução do etéreo pode impregnar as almas daqueles que não se ocupam das tarefas elevadas.”

 

Já pela manhã sabíamos que este seria um dia interessantíssimo e rico de significados.

 

Porém, após o crepúsculo, outra noite viria…