Um sonho e sua análise

janeiro 22, 2012

(I) Prólogo:

Ao longo de toda uma semana estive envolvido numa discussão com sujeitos de indiscutível capacidade intelectual e cultural, além de poderosa capacidade de persuasão – o que não implica, necessariamente, em elevação moral e de padrões éticos. Esses debates deram-se num sítio de literatura.

Confesso que a discussão revolveu o meu conteúdo emocional de tal forma que cheguei mesmo a ponto de determinadas atitudes que fugiram ao controle consciente, tendo por vezes reagido instintivamente, como um animal ao se sentir acuado.

A proposta desse artigo não é a de defender pontos de vista, nem o julgamento de valores; sendo o objetivo tão somente aquele da descrição de um sonho e posterior análise pelo sujeito que vos escreve.

Prossigamos ao sonho.

(II) Sonho:

Na noite do dia 20 para o dia 21 de Janeiro desse ano de 2012 tive o sonho cuja narrativa segue abaixo.

Eu e alguns poucos familiares havíamos sido convidados para uma festa por uma pessoa rica e eminente. Junto ao convite veio a observação explícita de que estávamos sendo convidados com o propósito de sermos figurantes, não devendo nos envolver com nenhuma das demais pessoas, identificadas como importantes políticos e autoridades, que estariam também presentes. Por se tratar de grande e refinada recepção, o que era uma oportunidade pouco comum, decidimos participar, apesar de a recomendação ter sido encarada como leve ofensa.

Chegando à festa, era fácil identificar os políticos e autoridades pelas suas roupas de gala, em distinção de uma parcela dos outros convidados que era a dos convidados figurantes. Os políticos e autoridades ocupavam mesas grandes em salas menores e separadas, também eram tratados de forma diferenciada, apesar de alguns deles circularem em meio ao grande salão ocupado pelos figurantes.

De repente percebi a presença de pequeno felino, um gato, que acompanhava a mim e aos meus familiares. Percebi, de súbito, que aquele era meu animal de estimação. O gato, por vezes, insistia em penetrar as salas menores destinadas às autoridades. Os garçons vinham então me repreender para que eu retirasse o animal daqueles ambientes restritos. Noutra ocasião eram os próprios anfitriões que vinham recomendar para que eu cuidasse de meu gato, mantendo-o distante dos políticos e pessoas eminentes. Aquela situação me causava grande constrangimento.

O sonho culminou quando o gato caiu em um bueiro, ficando a princípio preso às grades pelas suas patas dianteiras. Ele clamava por socorro. Tentei resgatá-lo, mas ele caiu dentro do bueiro. Com grande esforço, consegui alcançá-lo no fundo do bueiro e resgatá-lo. Lembro que isso me trouxe um grande alívio, e mesmo felicidade.

Despedimo-nos dos anfitriões e retornamos para casa. O sentimento era aquele de satisfação.

(III) Conexões:

Partiremos da definição das instâncias essenciais do sujeito. Os verbetes apresentados abaixo foram extraídos de: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, Editora Nova Fronteira, 1a Impressão (9a Edição).

Consciência. S. f. 1. Filos. Atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração.

Inconsciente. S. 2 g. 9. Psicol. O conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, nos sonhos, nos atos falhos, nos estados neuróticos ou psicóticos, i.e., quando a consciência não está vigilante. Inconsciente coletivo. Psicol. Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos.

Alma [Do lat. anima.] S. f. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento: as faculdades da alma.

Espírito [Do lat. spiritu.] S. m. 11. Filos. O pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas: a matéria ou a natureza.

Consideremos, a seguir, as conexões básicas estabelecidas entre estas instâncias a partir do meu entendimento ou interpretação pessoal. Observe que se trata de opinião subjetiva; logo, não é uma verdade, nem pretende ser; é tão somente a expressão de uma única alma.

Dito isso, entendo que a alma de um sujeito (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) compreende a sua consciência (o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo) mais o seu inconsciente (o conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, quando a consciência não está vigilante).

Faço a distinção entre alma (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) e espírito (o pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas); sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

Repetindo, para a clareza da ideia: Entendo que a alma de um sujeito compreende a sua consciência mais o seu inconsciente (alma = consciência + inconsciente). E faço a distinção entre alma e espírito; sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

(IV) Análise:

Posteriormente, já em estado de vigília, e tendo recordado de um sonho com tal riqueza de detalhes, decidi dedicar algum tempo a sua análise. Para tanto, levei em conta a contextualização, apresentada em (I); e as conexões entre as instâncias essenciais do sujeito, descritas em (III).

Essa foi a minha interpretação: Eu e minha família representávamos o meu espírito – o sujeito da representação. O gato era a minha alma, i.e. a minha consciência mais o meu inconsciente (uma parcela de meu próprio espírito), que estava se metendo em contradições e antagonismos por invadir o espaço dos outros (interagindo com outros espíritos). A partir do momento em que eu consegui resgatar o gato – entenda-se por retirar-me da discussão que estava me causando o desgaste emocional – o conflito se desfez. Voltei a minha habitual paz de espírito e ao saudável alinhamento da consciência com o inconsciente (ou, ao menos, a redução dos conflitos para um grau minimamente aceitável).

(V) Por que eu escrevo?

Por que eu leio? Por que eu escrevo? Bem, eu leio porque sinto sede de conhecimento e do aprendizado; pelo desejo de autoconhecimento; pela vontade de saber mais sobre a natureza e entender dos processos de interação entre as criaturas – tanto aqueles de natureza objetiva, quanto aos outros fenômenos, mais sutis. Escrever é uma forma de organizar minhas próprias ideias. Posso concluir, portanto, que escrevo para mim. É mesmo, antes de tudo, uma atividade egoísta.

Dessa experiência resultou a minha decisão de não mais me reportar ou dirigir àqueles sujeitos que estavam me desgastando. Pura e simplesmente desfazer todos os laços emocionais. No meu parco entendimento se tratam de espíritos com os quais eu não tenho afinidade (diga-se de passagem, sem qualquer julgamento de valor).

Pode ser que sejam muito avançados para a minha compreensão. E uma criança de poucos meses não costuma sair por aí andando sobre os dois pés antes de aprender a engatinhar; i.e. precisarei, nesse caso, de mais tempo e bagagem para uma interação saudável. Ou podem se tratar de espíritos de natureza distinta à minha. Nesse caso, sendo os valores éticos e morais diferenciados, faz-se também necessária manutenção de certo distanciamento, de forma a se evitar os atritos demasiados.

Importante é o respeito às diferenças; a compreensão de si mesmo; e o aprimoramento de cada criatura, que é distinto e inerente às suas próprias vivências pregressas.

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Química, vida e alquimia

janeiro 13, 2012

“Et sic Philosophus non est Magister lapidis, sed potius minister.”

Hermes Trismegistus *

Deixe suas roupas

Esqueça o que você já sabe

Seu medo

Jogue-o para o alto

Seus pensamentos devem ser colocados no bolso da calça

A calça no cesto

Para lavar

Erradicar os maus pensamentos

Ponha um chapéu a sua frente

Sapato à esquerda

Você no meio

Agora tome em uma das mãos o coração

E o que restou

No meio ainda há você

E ao seu lado

Tudo pode ser você

Sapato à esquerda

Seu medo

Jogue-o para o alto

“De todos os campos da química, o estudo dos ácidos nucleicos é, talvez, o mais emocionante, uma vez que estes compostos são a substância da hereditariedade. Examinemos muito sumariamente a estrutura dos ácidos nucleicos para ver depois, na secção seguinte, que relação ela deve ter com o papel literalmente vital que desempenha na hereditariedade.”

“Embora, quimicamente, sejam bastante diferentes das proteínas, os ácidos nucleicos assemelham-se-lhes num ponto fundamental: existe uma longa cadeia – uma espinha dorsal – que é a mesma em todas as moléculas do ácido nucleico; ligados a esta espinha existem vários grupos, cuja natureza e ordem de seqüência caracterizam cada um dos ácidos nucleicos.”

“Enquanto a espinha dorsal da molécula da proteína é uma cadeia poliamídica (uma cadeia polipeptídica); a espinha dorsal da molécula do ácido nucleico é uma cadeia de poliéster (denominada cadeia polinucleotídica). O éster é derivado do ácido fosfórico (a parte ácida) e de um açúcar (a parte alcoólica).”

O éster é ao mesmo tempo maior e menor que tua mente,

se consideras, simultaneamente,

o tamanho dela

e do que ela

pensa.

E se pensares no éster desprezível,

tanto menor será o pensamento.

E aí te enganas.

O éster será tão pequeno

que terás pena

E visto do lugar dele,

tua mente nunca se acaba.

“Trabalhando com modelos moleculares, Watson e Crick montaram uma estrutura em que todas as unidades estruturais se encaixavam umas nas outras sem estorvo, e primordialmente importante, permitindo a maior estabilização possível por meio de ligações de hidrogênio, mas ligações de hidrogênio da espécie que Pauling tinha mostrado serem as mais fortes, aquelas que permitiam uma disposição linear de N—H—N ou de N—H—O. Em Abril de 1953, Watson e Crick publicaram a estrutura a que tinham chegado, a agora famosa hélice dupla, e em 1962, foi-lhes conferido um prêmio Nobel.”

“O DNA está constituído por duas cadeias polinucleotídicas enroladas à volta uma da outra, formando uma hélice dupla, de 2nm de diâmetro. Tanto uma hélice como a outra são dextrorsas e tem cada uma dez resíduos nucleotídicos por espira, sendo o passo correspondente de 3,4nm ao longo do eixo. As duas cadeias correm em sentidos opostos; quer dizer, as unidades de desoxiribose estão orientadas em sentidos opostos.”

Das curvas verdes e velhas,

penso sempre nas redes atadas a abismos.

Todo o resto é supérfluo.

Tenha uma mão

e a outra te dando adeus

e você terá qualquer outra coisa que quiser.

“Até o momento tratamos apenas da estrutura secundária dos ácidos nucleicos. No nível terciário e superiores considera-se o modo como eles se ligam a proteínas, e como estas nucleoproteínas se enovelam e dobram, constituindo o cromossoma – como, por exemplo, quatro metros de DNA se podem acomodar numa única célula com uma espessura de 0,2mm apenas.”

As curvas que existem numa reta serão sempre retas se não nos livrarmos dos antigos preconceitos. E se é monótono o que une o começo e o fim, não se justifica o meio. As cabeças olham torto o que vêem e por isso pensam torto. Eles já sabem o que dirão e o que verão no inverno. As cabeças olham retas curvas e vêem retas retas. Não existe prova maior.

“Todavia no centro de tudo isto está uma hélice dupla, não só obedecendo aos postulados estruturais enunciados por Watson e Crick, como fazendo-o ainda com uma simplicidade e beleza imprevisíveis, a qual é responsável pela capacidade do DNA para desempenhar o seu duplo papel: repositório da informação hereditária e diretor da síntese das proteínas.”

O dia ou a hora que for

seja hoje e já

neste momento.

E que a partir de agora

e intermitentemente

o futuro seja presente

e o presente passado

do que é agora.

Que o que ontem foi vá.

E amanhã,

o que hoje é,

seja ontem também.

“Como é que a estrutura da parte constituída por ácidos nucleicos desempenha, porém, a sua função de hereditariedade? Os ácidos nucleicos controlam a hereditariedade no nível molecular. A hélice dupla do DNA é o repositório da informação sobre a hereditariedade do organismo. A informação é armazenada na forma da seqüência das bases ao longo da cadeia polinucleotídica; é uma mensagem escrita numa linguagem que só tem quatro letras.”

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“Em primeiro lugar, o assunto da auto-duplicação. A ordem por que se dispõem as bases numa cadeia governa a ordem por que elas se dispõem na outra cadeia. Segundo as próprias palavras de Crick: as duas cadeias assentam uma na outra como a luva sobre a mão. Quando se separam, sobre a mão forma-se nova luva e, debaixo da luva, nova mão.”

O artigo primeiro garante a estabilidade do pensamento. E sendo ele leve, é possível que seja bom e útil aos outros. É interessante que este tipo de ideia tenha como premissa a iniciativa atuante no exato sentido da necessidade das pessoas e indo de encontro aos objetivos comuns do inconsciente coletivo. Só assim é possível ter-se certeza de tudo aquilo que está sendo proposto. Qualquer outra vertente ou deslize pode ser tarde demais. E o inferno está cheio de boas intenções.

Referências aos excertos (entre aspas):

Morrison, R. T., Boyd, R. N., “Organic Chemistry”, 4th edition, Allyn and Bacon, Inc., Boston, 1983.

* “And thus the philosopher is not the master of the Stone but rather its minister.”

Hermes Trismegistus

Oculto sob o chapéu

janeiro 4, 2012

uma parte do céu guia a cabeça do matuto

a cabeça do m47u70 dirige um pedaço do céu

 

tão simples quanto automático

pode até passar d354p3rc3b1d0

como a sublimação

 

a cr147ur4 deve atentar às minúcias:

 

os raios de Sol são cachoeiras

a revolverem minhocas duma mente caipira

e dessa mesma cabeça agreste

depreendem-se vapores à fervura das 1d3145

vão elevar aos céus os causos da Terra

 

antes de descaminhos são trocas inconscientes

remoinhos de ideias

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Regar as plantas

dezembro 26, 2011

The Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch

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Que morram as plantas, foi o que ele disse. Essa frase até poderia soar natural vindo da boca de outro; mas ele, aos noventa e sete anos de idade, ocupara-se da incumbência de cultivá-las desde o dia em que sua amada deixou de acompanhar-nos nessa viagem à crosta desta estranha pedra celeste, no ano de um mil novecentos e noventa e oito. Assim, as verdes folhagens que habitam a varanda da casa dele tornar-se-ão, aos poucos e gradualmente, tênues, amareladas, sem viço pela falta de água e dos demais cuidados despendidos a terra. Enfim, morrerão como todas as outras plantas que inexistem nas casas de outros velhos.

Antes dessa revelação desconcertante, conversávamos tranquilamente. Ele contava, por detrás de um sorriso enigmático, que passava alguns dias na casa de um de seus filhos, que quando esse primeiro se enfadava pela sua presença, botava-o num ônibus interurbano e mandava-o para outra cidade, onde outro de seus filhos ansiava por recebê-lo. Mas em breve, passados alguns dias, quebrava-se o encanto, num passe de mágica o seu segundo filho se sentia importunado, botava-o num transporte interurbano e mandava-o para uma terceira cidade. Essa sim, era sua morada, e as verdes folhagens aguardavam-no sedentas, saudosas, complacentes de sua companhia.  

De um sorriso imperceptível, que vazava mínimo de um dos cantos de sua boca, ele dizia que essa era sua rotina, a história de sua vida. E devido a esses e outros detalhes menores, não era possível inferir sobre a veracidade ou não daquilo que ele contava sendo, nessa última hipótese, reminiscência da mais fina ironia.

 

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Enquanto isso, noutra cidade, à varanda de uma casa singela, era puro o devaneio. Naquela tarde escaldante de verão, samambaias desciam, com os peitos de fora, a Marquês de Sapucaí. Cactos, com a barba por fazer, fumavam charutos, usavam óculos de Sol e fingiam ler o jornal para observarem, atentos, as curvas de uma bromélia a desfilar, em minúsculo biquíni, pela praia. Orquídeas faziam compras num shopping.

A papoula, o peiote e outras plantas psicotrópicas bebiam e fumavam demasiadamente.  Suspeitava-se que cola bebia café e cheirava coca à calada da noite, quando as vincas e as trombeteiras faziam serão na ala de oncologia de um hospital do SUS. Requisitaram o guaraná, com seus olhos esbugalhados, para averiguar, mas faltaram-lhe as provas. E por isso é que, todo o dia primeiro do ano, o maracujá deixa um ramalhete de flores para Iemanjá. 

As gramíneas querem o poder, não baixam os olhos dos indicadores da bolsa, passam a vida em busca de acumular riquezas, sem nunca terem mirado o próprio umbigo. Plantas carnívoras comem frango e arrotam peru, roncam enquanto dormem largadas nas redes. Malditas plantas egoístas. Mas nem em sonho superam a espada-de-são-jorge no tocante àquela sua loucura desmedida de fatiar a Lua, como se esta fosse queijo. Sorte grande é a das trepadeiras, gozam plenas das delícias desse mundo.

 

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Um silêncio paira no ar. As plantas são melhores que os seres humanos; deixo escapar alto, de minha boca, num pensamento. O segundo silêncio perpassa o ambiente. Sinto um calafrio percorrer a minha espinha. Arrependo-me do comentário até o último fio de cabelo. Não, não são; diz o velho, enfim. Mas é tarde e o processo, irreversível: o terceiro silêncio soa infinito.

Dias depois o velho toma novamente o ônibus interurbano. Ao chegar a casa, ele rega as plantas de sua varanda. Verdes folhagens. 

A vida habita inextricável o verde da matéria.

Trama e urdidura

novembro 28, 2011

uma homenagem ao segundo aniversário do Letras et cetera

Papoula

novembro 22, 2011

 – um retrato da degradação humana

 O menino Jorge nasceu em berço abençoado de classe média alta (que é como se autodenominam os ricos quando querem passar desapercebidos), seus pais faziam as suas vontades e ele sempre teve a oportunidade de estudar num dos melhores colégios da cidade em que moravam. Era extrovertido e cobiçado pelas adolescentes da escola.

Jorge gostava especialmente de participar das reuniões de formatura, dava muitas ideias, e como era relativamente inteligente, chamava a atenção pela sua desenvoltura e presença de espírito. Jorge lia muito, especialmente economia e política, era atento ao que acontecia em sua comunidade, em sua cidade, em seu país.

Helena era sua colega de turma, estudaram juntos desde tenra idade. Helena era um pouco mais reservada, chamava a atenção pela sua beleza natural, longos cabelos louros, seus olhos azuis vibrantes e pelos seus doces modos; muito carinhosa com todos.

Como era natural, Helena sentia-se atraída pelos meninos da turma acima, eles eram mais desenvolvidos, já tinham pêlos no peito e se davam melhor no futsal. Mas era uma admiração reservada, porque Helena era um tanto romântica e sua mãe lhe dizia para ter cuidado com os assuntos do coração, nem todos os meninos são tão bonzinhos de perto como parecem ao longe – e ela sabia ouvir.

Helena e Jorge tornaram-se bons amigos. Jorge contava à Helena sobre as suas paqueras, ela ajudava-o dando dicas de como flertar com as meninas, vez por outra até fazia o papel de cupido, ajeitando os encontros ou apresentando-o a alguma colega. Helena e Jorge comemoraram muito quando Fernando finalmente se apercebeu dos encantos da menina e os dois começaram a namorar.

Quando formaram um grupo de teatro na escola, foi Helena quem convidou Jorge para tomar parte. Fizeram apresentações hilárias, divertidas, às vezes sarcásticas; enfim, foram tempos de sincera amizade e companheirismo. No último ano da escola Helena decidiu-se por prestar vestibular para arquitetura enquanto Jorge encantou-se com a ideia de estudar ciências sociais. Discutiam animadamente a respeito.

Àquela época, Helena seguia o seu namoro com Fernando; e Jorge tinha vários rolinhos, era como a letra da canção: de tanto brincar de médico, se tornara professor. Foi Jorge quem fez o discurso na noite de formatura e Helena quem recebeu a distinção pelas melhores notas da classe.

Cada um seguiu o seu caminho, mudaram de cidade para cursar a faculdade; com o passar do tempo, se falavam cada vez menos. Certa noite, Helena ligou em prantos para Jorge, contou o que Fernando havia feito e aquele ombro amigo soube ouvi-la e confortá-la. Mas como tudo na vida acaba, os laços de longa amizade foram se esfacelando, até que perderam definitivamente o contato.

Foi num fim de semana prolongado pelo feriado, na mesma cidade dos tempos de adolescência, uns três ou quatro anos depois, que ambos se reencontraram na Elektro Dance. Helena sentiu-se atraída por aquele corpo másculo, pujante, que fervia ao ritmo frenético da música, whiskey e energético. Quando chegou perto, tomou um susto ao perceber que se tratava de Jorge. A atração foi instantânea, e recíproca: não descolaram mais a noite toda. Helena pensava em como era doce o toque daquele menino enquanto se beijavam. Como é que não havia se dado conta disso? Quanto tempo desperdiçado!

Decidiram terminar a deliciosa noite num motel. Jorge não foi nada atencioso às preliminares: tirou a calcinha de Helena, botou-a de quatro, cuspiu em suas mãos, esparramou a saliva pastosa de bebida em seu pau duro e latejante, cravou-o todo dentro do cu de Helena de uma estocada só. Ela urrava de dor. Helena pedia: ‘pare Jorge, pare!’ mas ele parecia ensandecido. Segurava-a com força. Helena estava aos prantos e tinha uma péssima sensação quando aqueles ovos peludos se chocavam fortes contra a sua boceta, em movimentos rudes, descompassados. Não havia se sentido tão humilhada assim em toda a sua vida. E quando terminou com aquilo, Jorge não disse uma palavra sequer. Cada um botou suas próprias roupas, pegou o seu carro e foi embora para casa – nunca mais se falaram.

Na faculdade de ciências sociais, Jorge envolveu-se em negócios escusos com tal de Jacinto, que lhe soprava ideias estranhas dentre outras fumaças a sua cabeça. Nada ou muito pouco restou dessa fase obscura da vida dele. É certo que o sujeito era chegado às garrafas, mas tudo veio do pó e ao pó retornou: as dunas, as estrelas, as nuvens; não é tudo constituído da mesma essência etérea das flores? Daquela mesma da papoula?

Ao final da faculdade Jorge mudou de time. Não, você não entendeu errado: ele virou viado; dessas bichas que falam fino, que exigem os seus direitos, dadas às afetações e jactâncias. Obcecado por forjar-se uma celebridade. Afinal, foi essa a leitura que Jorge fez dos valores que lia nos jornais: competição, ser melhor que o outro, aparecer mais, diferenciar-se a qualquer custo, pavão esvoaçante. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Distorção de valores, um ser politicamente correto, sua palavra de ordem é ‘bullying’, outras frases de efeito fora do contexto. Quando, em verdade, a pequena esfera celeste, já comportando sete bilhões de cabeças animais, daquelas da pior espécie, vem aceitando, de bom grado, muito mais do que deveria.

Mas não percamos o foco, voltemos nossa atenção aos desdobramentos desse novelo que representa a vida pictórica desta personagem, que bem poderia ser eu (ou, quiçá, poderia ser você). Por melindres do destino, a essa altura, Jorge já não era assim tão popular e, nem sempre, bem quisto; e não foi ele o orador da turma na formatura da faculdade de ciências sociais.

Jorge era tenaz e não desistiria assim tão facilmente – todos bem o sabemos. Encerrado em seu mundo interior e tramando se tornar um verdadeiro ‘big brother’, ele maquinou com seus botões a melhor forma de valer-se de suas habilidades de comunicação. Entrou num portal de literatura e começou a postar desenfreadamente os seus textos e vídeos que varriam olhares diferenciados sobre todo o espectro do conhecimento humano: desde as artes marciais, passando pela poesia, a música, o cinema, a política, a economia, o humor, a religião, ciências naturais e tendências culinárias.

O cara não era fraco não! Para maximizar o seu efeito midiático, passou a lançar mão de heterônimos virtuais, cada um deles com personalidade distinta, estilo diferenciado e outras especificidades de interação. Jorge passou a comentar e a ‘curtir’ as suas próprias postagens, valendo-se duma miríade de heterônimos virtuais. Estes assumiam os prenomes de homens ou mulheres, dependendo do caso, com os seus respectivos ‘avatares’ e perfis: Jorge (o próprio), Roberto, Vânia, Alex, Lílian, Hugo, Socorro, André, Alícia, Diogo, Jorge (o xará), Sandra, Milton e a lista segue por aí afora…

Estava feliz; Jorge passava os seus dias e noites muito ocupado; cuidando de ‘postar’, ‘curtir’ e comentar a sua própria e extensa produção; mas era, enfim, um ser humano realizado (a bem da verdade, vários deles). E, isso sim, era o sucesso!

Até que, certo dia, sofreu um surto psicótico. Jorge já não dava conta de alimentar a fornalha de seu Ego. Percebeu que, apesar de estar por trás de tudo o que rolava de ‘bacana’ nas redes sociais, só era conhecido de si mesmo. Aquela súbita percepção foi demais para ele; espécie de implosão ou ‘zip’ de sua personalidade multifacetada.

Jorge foi internado num manicômio e lá permaneceu por oito meses. Um dia vestia-se de Jorge (o próprio), outro dia de Alícia, a noite era Milton e a lista segue por aí afora… Uns dizem que morreu de desgosto (outros de tanto dar a bunda) e foi enterrado num grande jazigo, do tamanho enorme de seu Ego.

Há quem pense que a história termina aí, mas se engana: Oito meses se passaram quando do solo fértil de seus despojos (de seus dejetos) germinou uma pequena planta da família das Papaveraceae. Foi preciso, então, que outros oito meses transcorressem. Desabrochou, enfim, pequena e bela flor vermelha próxima ao epitáfio de Jorge. E apenas naquele dia tive a curiosidade de ler as palavras grafadas ao frio da pedra:

A Merda Abunda

E Não É de Hoje.

A (in)certeza do naufrágio

novembro 17, 2011

o Pequeno submarino

a exPlorar águas gélidas,

Profundas

     

Por quê?

     

o tênue brilho de seu sonar

não consegue alumiar a Proa

mira o fundo sem o saber

     

sos dePressão

x     x     x

                  

Noite passada despertei por volta das duas da madrugada com esse poema na cabeça. Anotei numa folha de papel e, pela manhã, foi só fazer alguns ajustes. Trata-se de um poema singelo; mas quem já passou pela experiência há de concordar comigo: ele a descreve sem meias palavras. Para aqueles que nunca passaram por isso, os meus votos de que nunca avancem essas perigosas fronteiras. Mais importante: para quem se identifica, é hora de buscar ajuda de um médico especialista.

Recado aos navegantes

novembro 1, 2011

mensagem deixada numa garrafa

se teus olhos buscam apreender o leito

mas não possuem garras de estancar

e segue o corpo ao sabor dos remoinhos

ocupa-te de sobrenadar o éter

viver prescinde de todo o resto

O dia amanheceu frio e chuvoso, apesar de plena a primavera. Tomei o meu carro, segui pela estrada sinuosa, através da paisagem bucólica, o verde vivo a eclipsar a cor cinza do céu, cercavam-me os montes aqui e acolá, com a estrada a desvencilhar-se deles, em vã tentativa.

Um caminhão lento a minha frente carregava folhas secas como se estas fossem barras de ouro, leves como penas, a circunscreverem fluidos remoinhos no ar, espalhavam a bondade dessa riqueza aos mais pobres – provavelmente ele chegaria vazio ao seu destino. Imaginava que não houvesse nada tão triste quanto à faixa dupla, contínua, amarela: não ultrapasse!

Foi quando me apercebi de uma árvore a captar, inerte, a lúgubre paisagem. Encerrada ao silêncio de seu tronco, acenando lenços vivos de folhas verdes, intensas, sabe-se lá por que, através dos seus múltiplos ramos, quantos são os braços de Vishnu. E aquilo me deu um aperto no peito, que é como deve se sentir o velho poeta, sem inspiração já há quase um mês.

Quando isso acontece, é comum achar que o mundo se parece mesmo com o branco e o preto dos jornais, numa sucessão das mesmas coisas, que as pessoas não vão mudar, que a poesia não tem sentido, que ninguém quer saber da luz dos vagalumes, ou do rastro de uma estrela cadente. Acredito: estão todos enganados. Posso provar isso enquanto sopro o dente-de-leão. Mas a minha certeza é efêmera, num segundo, ela desvanece.

Então me dei conta de que hoje é segunda-feira, que estou indo para o trabalho. Só pode ser isso, como naquela sequência de caricaturas de um carinha com os dias da semana anotados embaixo; porque entendi que ela vai melhorando, à medida que os dias passam. E eu não posso ficar parado.

Há tanta coisa por fazer, para te dizer, dessas coisas urgentes, como uma nuvem, samba num boteco em dia de chuva ou quanto aos poderes afrodisíacos dos bigodes de um gato. Hoje percebi que precisarei ficar até mais tarde, que precisarei fazer serão do fim de semana. Dou um cavalo de pau na pista, a poeira sobe, os motoristas se assustam, metem a mão na buzina. Acho que quase os despertei.

Agora me lembro da noite de ontem: enquanto eu e você estávamos acordados, todos os outros dormiam.

estrada sinuosa

o coração

aquele verde insuportável

a cor amarela

a cor vermelha

montes aqui e acolá

barras de ouro leves como penas

remoinhos no ar

diamantes comestíveis

a bondade

pernas longas de um grilo

a riqueza

as guelras de um peixe

a inspiração

cartas de baralho

o destino

lenços vivos

folhas imensas

bolinhas de sabão

um poema sem sentido

vagalumes indicando o caminho

tronco de uma árvore

o longo rastro da estrela cadente

nuvem

uma certeza efêmera

dente-de-leão

os bigodes de um gato

a eterna dúvida

samba num boteco em dia de chuva

esticar o fim de semana

cavalo de pau na pista

muita poeira

e mão na buzina

o mar

o sol

uma paisagem bucólica

rede de descansar

um barco distante

vaga lembrança

o movimento dos braços de Vishnu

A química dos sentidos

outubro 3, 2011

náufrago em páginas alheias

uma escrita que não respeita as margens

coaduna minha saliva aos teus grandes lábios

desses efêmeros instantes

somos cúmplices

para sempre grafada a tatuagem n’alma

verbetes impronunciáveis

versos que não se abandonam

porque apesar de simples

são únicos, sinceros

               

saiba:

de minha cartola não saltam coelhos

as verdades doem o ínfimo espaço entre unha e carne

      

          

ao se desprenderem

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