Para Bruno Borges

junho 6, 2017

 

         

O nascimento de um bebê é a morte da vida intra-uterina. A morte da barriga e daí, muita vez, a depressão pós-parto. E o que dizer da morte de um ente querido, ou da dor de uma mãe que se perde de seu filho? Não será esta ainda maior? Porque, enquanto humanos, não sabemos se existe vida após a morte. Mesmo a melhor das filosofias nos leva tão somente a ideia de que talvez não exista Deus. Mas, para nós, humanos, acumulam-se provas em contrário desde as relações entre as grandezas físicas cuja precisão, tão improvável, deveriam nos conduzir a evidente existência de um propósito. Acontece que o Sol ofusca nossas vistas, e a moderna ciência do século XXI se fragmentou a tal ponto que sua trajetória há muito descarrilou da direção do conhecimento. E nesse mundo louco – verdadeira Torre de Babel – não enxergamos além, senão aos nossos próprios umbigos. Toda a Atlântida sendo inundada pelo derretimento das calotas polares. Não é de se estranhar tantas leis absurdas que mais parecem subverter o senso comum. Será que precisaríamos mesmo destas leis se a filosofia fosse ensinada nas escolas? Quanto aos ETs, eles devem achar que não passamos de uma civilização muito primitiva. E se o ser humano fosse mesmo inteligente, deixaria outras culturas de mesma espécie desenvolver por si mesmas. Certamente não fariam os ETs o que fizemos aos nossos índios. Talvez eles nos estudem à distância. Nessa hipótese, devem estar pasmados, com tanto derramamento de sangue, com tantas civilizações destruídas por desvios dos fins por interesses espúrios, e ainda assim aclamados pelas massas inflamadas pela história escrita dos vencedores. Senão é assim, explica-me, filósofo, porque a moeda é um fim, e não um meio, para a paz?

          

Smartphone

setembro 30, 2016

                    

ainda que em forma rudimentar e recarregável,

o smartphone representa o anseio pela onipresença.

                        

                             

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julho 28, 2016

jorge xerxes magique se

f0f0c4-53:

                 

Deus é o somatório da consciência do universo

– incluindo a consciência dos

animais,

vegetais,

minerais.

E o estágio atual da ciência (humana) não nos permite

senão uma aproximação muito grosseira

das leis que regem a natureza.

A consciência humana é ridiculamente pequena

(para não se igualar ao desprezível)

em relação ao volume de todas as ideias envolvidas

– que a gente deve chamar de verdade.

A religião é uma criação da mente humana

ao entorno daquela ilha

que o ser humano denomina o conhecimento

– ainda assim,

somos parte do todo.

                

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a filosofia da gente

abril 24, 2015

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a filosofia da gente

é o seguinte:

 

saca só

a gente pensa

em determinadas verdades

que de tão verdadeiras

a gente deixa de pensar

em determinado ponto

cada um tem o seu próprio calo

em que não pensa

e daí pra frente

são pensadas as ideias da gente

 

 

Jorge xerxes, 23/04/2015

Ubermensch

fevereiro 10, 2014

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 Noite passada eu sonhei que era Você e decidi descrever a experiência.

A primeira imagem que me veio à mente foi a de um menino nu preso por um cadeado de bicicleta ao poste numa esquina qualquer do Rio. Calor, muito calor e humilhação. Depois, para refrescar, árvore à frente, a terceira vértebra quebrada numa descida rápida de esqui nos Jogos de Inverno em Sochi.

Se o sinal se fecha, é porque existe o cruzamento de vias a frente. Dualismo, observador e observado, sujeito e objeto. Quando o sinal ficou vermelho para mim? Quando o sinal ficou verde para Você? Será possível definirmos com precisão estes limites se nossos veículos têm velocidades diferentes? Isso vai dar merda; alguém bota a língua de fora. Relatividade. Saco o meu facão e corto o seu pescoço. Afinal, eu estou com a razão. Sua mulher chora; ouço-a entre soluços: “Discutir no trânsito não vale a pena”. Como é louco o universo onírico. Outra quebra.

Descontinuidade. Ciência, tecnologia, economia de escala. Muita informação e pouco conteúdo. Eu tenho de me desdobrar cada vez mais para sustentar o mercado. Cartão de crédito, i-pad, fast food, x-box, rodo anel, tv de plasma e banda larga: tudo isso para a minha comodidade. Por mais que eu trabalhe, me esforce, ninguém explica os porquês ou pra onde é que estamos indo. Por quê?

Mais um fragmento. Os três poderes vergonhosamente a se digladiarem no horário nobre; uma espécie de big brother às avessas. Eu assisto em tempo real a um desfile de mazelas elevadas às altas esferas da aristocracia. Espalham luxúria, ira, orgulho e inveja por todos os lados.

Pausa para a reflexão. Para o meu alívio ainda posso tomar umas cervejas depois do trabalho. Neste sonho existe ainda a realidade ampliada, os jogos eletrônicos e os ambientes virtuais. Eu posso ser outra pessoa – herói, vilão ou magnata. Três salves para Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg! Eles deram asas a minha absoluta incapacidade de imaginação. (Sonho dentro do sonho).

E foguete nas costas do cinegrafista é diversão. Preocupação com a minha segurança: o que será do Brasil se perder a copa? Por isso, créditos ilimitados à Fifa e amplos poderes ao Felipão.

Eu concordo com Você quanto ao desejo de potência de Nietzsche. Isso explica também a minha aspiração à Ubermensch. E este louco devaneio avaliza todo o espectro de possibilidades da conduta humana – para além do bem e do mal.

Mas eis que eu me deparo com o Fuhrer, que eu julgava morto. Ele aplaude qual Charles Chaplin, ovacionando as passadas velozes e saltos amplos de Jesse Owens. Quero crer que não estou sonhando, belisco o meu antebraço esquerdo com a mão direita. Sim, estou bem desperto!

Pergunto ao colega sentado do meu lado no estádio o que é que está se passando? Um Telê Santana sorridente me responde que é isso mesmo; a seleção de 82 é aquela dos sonhos, apesar da falta de um matador, pelo seu futebol arte desde que o sentido de sucesso fora expatriado ao âmbito transpessoal.

 – Você não assistiu àquela entrevista do Jô com o cara magrelo, de bigode, narigudo, vestido somente de tanga e estranhos óculos de armação circular? Fiquei pasmo de que, com tantos recursos, eu andasse por aí tão desinformado. Além do mais, esse cara devia ser feio para caralho.

 – Sim, foi ele quem difundiu esse sonho de persistência na verdade. Ele também denominava aquelas suas ideias de força do amor ou força da alma. O magrelo era convicto de que na busca pela verdade não era admitida a violência sobre o oponente, mas que este devia ser demovido do erro pela paciência e pela compaixão. Porque inicialmente aquilo que parece ser a verdade para um pode parecer o erro para outro. E a paciência é um exercício de auto-depuração. Então essa conduta veio re-significar o clamor pela verdade através, não da imposição de depuração ao outro, mas a si mesmo.

 – Você se lembra de quanto o Gordo gritava: “Bota ponta, Telê?” É mais ou menos isso.

Aquilo me soou familiar e esbocei um sorriso. À sensação de compreensão súbita sobreveio o desmoronamento do dualismo. Fusão do sujeito com o objeto, cessação da diferenciação entre acima e abaixo, uma confusão danada das ideias, por fim, o colapso da alma no corpo.

Despertei estupefato sem entender picas.

Noite passada eu sonhei que era Você, mas desisti de descrever a experiência.

Será que vamos nos entender um dia?

É sabido que valemo-nos dos nossos sentidos para a percepção da realidade. Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?

Os sentidos constituem capacidades fisiológicas dos organismos que suportam a percepção. Os sentidos, sua operação, classificação e teoria caracterizam tópicos que se sobrepõem e são estudados numa grande variedade de áreas da ciência; especialmente a neurociência, a psicologia cognitiva e a filosofia da percepção. O sistema nervoso tem um sistema sensorial ou órgão específico e dedicado para cada um dos sentidos.

Os seres humanos apresentam uma multiplicidade de sentidos, sendo os cinco sentidos primários, tradicionalmente reconhecidos: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Dentre os outros sentidos humanos podemos citar: a percepção térmica; a dor; as sensações de equilíbrio e de aceleração; e a próprio-percepção (ou percepção e controle dos nossos próprios membros e músculos, esta inclusive pode ser treinada para tornar-se semi-automática, ou mesmo automática, possibilitando que o nosso cérebro se ocupe prioritariamente de outras atividades simultaneamente à realização de tarefas já internalizadas, um exemplo: conversar e dirigir, apesar de politicamente incorreto).

O sistema visual é parte do sistema nervoso central que possibilita ao organismo o processamento detalhado da visão, assim como coordena várias outras funções de foto-resposta não imagética. Ele inclui os olhos, os conectores para o córtex visual e outras partes do cérebro. O sistema visual interpreta a informação recebida através da luz visível e é responsável pela construção da representação do mundo à nossa volta.

Os nossos olhos constituem um complexo mecanismo biológico. O funcionamento de uma câmera fotográfica é frequentemente comparado àquele dos olhos, pelo fato de ambos focalizarem a luz dos objetos externos que estão no campo de visão sobre um meio sensível à luz. No caso da câmera, este meio é o filme fotográfico ou um sensor eletrônico; no caso do olho trata-se de uma matriz de receptores visuais. Valendo-se ambos do mecanismo da similaridade geométrica embasado pelas leis da ótica. A luz que penetra através dos nossos olhos é refratada na passagem pela córnea. Ela atravessa então pela pupila (controlada pela íris) e é novamente refratada. A córnea e a pupila trabalham em sincronia, como um conjunto de lentes para projetar uma imagem invertida e passível de percepção sobre a retina.

A retina consiste numa miríade (ou uma matriz) de células fotorreceptoras. Essas células fotorreceptoras contêm moléculas de proteínas específicas denominadas opsinas. A rhodopsina é encontrada nas células radiais que são periféricas à retina e tem a função de captação da luz para a visão noturna. Existem três tipos de opsinas cônicas, as quais são encontradas, por sua vez, nas células do cone central da retina: cada um desses tipos é diferenciado conforme as faixas do comprimento de onda luminosa que é capaz de absorver, sendo as opsinas curtas aquelas que absorvem o espectro do azul, as opsinas médias aquelas que absorvem o espectro do verde e as opsinas longas aquelas que absorvem o espectro da luz vermelha. Essa matriz de opsinas que compõem a retina é a responsável pela absorção dos fótons e a transmissão do sinal nervoso para células conectoras que o encaminham ao córtex visual.

Um estudo da Universidade da Pensilvânia calculou que a estrutura da retina humana é capaz de absorver aproximadamente 8960 kilobits por segundo de informação visual, enquanto um porco de Guiné tem a capacidade da absorção através de sua retina de apenas 875 kilobits por segundo.

Entretanto, diferentes espécies são capazes de ver (são sensíveis a) diferentes faixas do espectro luminoso. Os gatos têm a habilidade de enxergar mesmo com grande escassez de luz graças aos músculos no entorno de sua íris, permitindo contrair e expandir muito as suas pupilas, bem como ao tapetum lucidum, uma membrana reflexiva que otimiza a visão felina.

Pitvipers, pythons e outras serpentes venenosas (especialmente aquelas que habitam as cavernas) apresentam órgãos sensíveis ao infravermelho, os quais permitem a percepção do calor do corpo de suas presas. O famoso morcego-vampiro apresenta também um sensor infravermelho no seu nariz. Foi descoberto que os pássaros e alguns outros animais são tetra-cromatos; i.e. eles apresentam a capacidade de percepção da luz ultravioleta até o comprimento mínimo de onda de 300 nanômetros. E as abelhas e as libélulas são também sensíveis ao ultravioleta.

A audição também é um dos cinco sentidos primários; caracteriza-se pela habilidade da percepção de ondas sonoras pela detecção de vibrações através de um órgão como o ouvido Nos humanos e noutros vertebrados ouvir é possível graças ao sistema auditivo: as vibrações são detectadas pelo ouvido e transmitidas através de impulsos nervosos para o cérebro, especialmente para o lobo temporal. Assim como o tato, a audição dá-se pela sensibilidade ao choque de moléculas do mundo exterior contra a superfície do organismo; e por isso ambos, a audição e o tato, são denominados sentidos mecânicos.

Simplificadamente, o mecanismo da audição consiste no seguinte: O canal do ouvido ajusta a pressão das ondas de ar recebidas para uma mesma faixa de comprimento de onda. No ouvido interno, essas vibrações sonoras são detectadas por células capilares localizadas na membrana basilar, e a decomposição em diferentes frequências de onda dá-se ao longo do comprimento dessa mesma membrana. A membrana basilar separa as frequências: as frequências altas produzem maior ressonância próxima ao final do ouvido médio, enquanto as frequências mais baixas produzem maior ressonância na extremidade oposta. Em suma, a membrana basilar realiza ininterruptamente análises do tipo de uma transformada de Fourier, transmitindo a informação da frequência e da intensidade sonora através do nervo auditivo diretamente para o fluxo cerebral.

Nos humanos, o limite inferior e a capacidade de localizar fontes sonoras são reduzidos significativamente debaixo d’água, meio no qual a velocidade do som é maior que aquela do ar. A audição subaquática é pela condução dos ossos e a localização do som parece depender de diferenças na amplitude detectadas pela condução através dos ossos.

Nem todos os sons são normalmente audíveis por todos os animais. Cada espécie apresenta as suas faixas específicas de audição tanto no que diz respeito à amplitude quanto à frequência sonora. Muitos animais usam o som como meio de comunicação e, portanto, a audição nessas espécies é de importância ímpar para a sobrevivência e a reprodução. Em espécies que usam o som como fonte primária de comunicação, a audição é mais apurada na faixa de frequência da fala. Frequências de áudio, ou sonoras, é como são comumente denominadas aquelas capazes de serem ouvidas pelos humanos, tipicamente na faixa de frequências entre os 20 Hz e os 20 mil Hz.

As frequências mais elevadas que aquelas de áudio são denominadas ultrassônicas, enquanto as inferiores são denominadas infrassônicas. Alguns morcegos usam a faixa de ultrassom para a ecolocalização em vôo. Os cães também são capazes de ouvir ultrassons, e este é o princípio de funcionamento dos apitos caninos silenciosos (ao menos para nós, humanos). As cobras têm sensibilidade aos infrassons pelas suas barrigas alongadas e esbeltas; enquanto as girafas, os elefantes, os golfinhos e as baleias usam a faixa de frequência dos infrassons para a comunicação.

Alguns animais incluindo os morcegos e os cetáceos tem a capacidade de determinar a sua orientação e velocidade com relação a outros corpos ou objetos pela interpretação da reflexão sonora e do efeito Doppler, como se tivessem um sonar. A este sentido específico denomina-se ecolocalização.

Insetos como as moscas e as borboletas têm sensibilidade ao paladar nos seus pés, permitindo que eles saboreiem qualquer superfície sobre a qual eles pousem (daí a preferência pelos doces e flores, respectivamente, no caso dos primeiros e dos segundos). O peixe-gato, por sua vez, possui o seu sistema palatável ao longo de toda a superfície externa do corpo, permitindo que ele identifique apuradamente a qualidade e acidez do meio aquático no qual ele se encontra (e por isso você nunca encontrará essa espécie nadando em águas poluídas).

A maioria dos mamíferos não-humanos apresenta o sentido de olfato muito mais apurado que aquele dos humanos, apesar de em ambos os casos os sistemas olfativos serem bastante similares. Os tubarões têm um senso de olfato tão apurado que estes são capazes de determinar com grande precisão inclusive a direção do estímulo, fazendo com que localizem mais eficientemente a sua presa, mesmo a grande distância. Já os insetos apresentam receptores olfativos em suas antenas.

A eletro-percepção é o sentido da percepção de campos elétricos. Várias espécies de peixes, tubarões e arraias têm a habilidade de alterar os campos elétricos dos seus entornos imediatos. Alguns peixes têm a percepção passiva de mudanças sutis nos campos elétricos; outros podem ainda se expressar através dos seus próprios campos elétricos e captar o padrão potencial elétrico ao longo de toda a superfície externa dos seus corpos para fins de comunicação social.

As ordens dos golfinhos e dos monotrématos (à qual pertencem os ornitorrincos) são as únicas que apresentam eletro-percepção dentre os mamíferos; sendo o ornithorhynchus anatinus aquele que apresenta este sentido mais desenvolvido.

Já a magneto-percepção refere-se ao sentido da direção com relação ao campo magnético da Terra. Esse senso direcional é particularmente desenvolvido nos pássaros, embora também seja observado em insetos, como as abelhas. Apesar de não restar dúvidas quanto à existência deste sentido em muitas aves, sendo de importância fundamental para a habilidade de navegação dos pássaros migratórios, o mecanismo através do qual se dá a magneto-percepção ainda não é bem compreendido pela ciência.

Outro sentido bastante peculiar é aquele da detecção de correntes no meio líquido. As linhas laterais ao longo do comprimento de peixes e outros seres aquáticos anfíbios são órgãos externos para a percepção de correntes aquáticas, na forma de vórtices. Essa linha lateral é também sensível às vibrações de baixa frequência. Estes receptores mecânicos consistem também em células capilares, da mesma natureza daquela das células auditivas, sendo de desenvolvidos principalmente nos peixes para a navegação em meio líquido e para a caça.

E os sensores de deslocamento relativo dos aracnídeos detectam a deformação mecânica de seus exoesqueletos, provendo informações sobre forças e vibrações às quais estes insetos estão sujeitos.

Com base na exposição dos múltiplos e diferenciados sentidos, apresentados acima, chegamos à conclusão de que cada espécie apresenta recursos próprios para a percepção da realidade – sendo esta sim, comum a todos nós.

Pode-se avançar ainda um pouco mais nessa ideia, chegando mesmo ao entendimento de que dois indivíduos de mesma espécie apresentam uma percepção diferenciada da realidade, uma vez observadas diferenças sutis nos órgãos (ou sistemas) responsáveis pelos seus sentidos, bem como na forma como essas informações ou percepções se complementam de forma particular na reconstrução mental do universo individual. Assim, para um individuo o clima (o conjunto das variáveis de temperatura, umidade, luminosidade, etc.) pode parecer agradável, enquanto para outro, não; apesar de se encontrarem numa mesma sala!

Apesar de a realidade ser única, os nossos sentidos são diferenciados e a percepção é individual. Pode-se concluir, portanto, que a percepção plena da realidade é impossível para o indivíduo, senão para o conjunto de todos os seres, observado que os nossos sentidos para a percepção são diferenciados e, além disso, limitados.

Nessa imensidão de sensações, de percepções, é como se a realidade só fosse acessível à mônada. Mônada é o termo cunhado para representar a Divindade, o ser primário essencial ou a totalidade de todos os seres. Logo, a mônada é a percepção total ou o Uno, representando o Um anterior à divisão, estando associado à cosmogênese.

É como se a realidade só tivesse habitado o individuo há muito tempo atrás, enquanto imerso na sopa primordial de aminoácidos, anterior à sua separação ou diferenciação em organismos distintos. Ao longo das eras formaram-se as macromoléculas (como aquelas das proteínas, dos polissacarídeos e dos ácidos nucleicos) donde, através de sucessivas combinações e arranjos, cada vez mais complexos, resultou a multiplicidade dos seres vivos – as atuais espécies e os seus indivíduos.

Vamos explorar uma abordagem matemática (e, portanto, exata) para elucidar essas ideias um tanto abstratas sobre as quais discorremos anteriormente. Imagine que a realidade consistisse dos números naturais apenas: zero, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze e assim por diante.

Usualmente representamos os números na base dez. Isso significa que, da direita para a esquerda, o primeiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a zero (que é igual à unidade), o segundo algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a potência um (que é igual à dezena), o terceiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a dois (que é igual à centena), e assim sucessivamente. Logo, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 179 na base decimal (que é igual a nove vezes um, mais sete vezes dez, mais uma vez a centena).

Da mesma forma, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 263 (= 2×64 + 6×8 + 3×1 = 179) na base octal (base oito). Entretanto, para a “realidade” do número cento e setenta e nove não há “percepção” na base duodecimal (base doze)! De fato, a “percepção” do número 129 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 177 (= 1×144 + 2×12 + 9×1), enquanto a “percepção” do número 130 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 180 (= 1×144 + 3×12 +0x1). Existe, portanto, a impossibilidade de “percepção” na base duodecimal par a “realidade” dos números inteiros 178 e 179.

Quanto mais complexo o organismo (ou quanto maior a base na qual se dá a “percepção”) maior é a perda observada com relação à realidade. Valendo-se dessa assertiva (?) e recordando do objeto inicial de investigação desse texto (Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?), nós poderíamos mesmo ser levados à conclusão de que não. E ainda mais: que, eventualmente, as espécies mais simples seriam aquelas naturalmente mais eficazes na percepção da realidade!

Ledo engano: Na elaboração desse nosso modelo simples esquecemo-nos de levar em conta as faculdades da intuição e do raciocínio, que são sentidos bastante aguçados na espécie humana! Estes nos permitem exercitarmos a imaginação, o sonho e a criatividade; são tênues vínculos que mantém os nossos laços atrelados à mônada. E cabe a cada criatura exercitar estes músculos mentais, para a expansão da consciência e a (re-)conexão supramental.

Um sonho e sua análise

janeiro 22, 2012

(I) Prólogo:

Ao longo de toda uma semana estive envolvido numa discussão com sujeitos de indiscutível capacidade intelectual e cultural, além de poderosa capacidade de persuasão – o que não implica, necessariamente, em elevação moral e de padrões éticos. Esses debates deram-se num sítio de literatura.

Confesso que a discussão revolveu o meu conteúdo emocional de tal forma que cheguei mesmo a ponto de determinadas atitudes que fugiram ao controle consciente, tendo por vezes reagido instintivamente, como um animal ao se sentir acuado.

A proposta desse artigo não é a de defender pontos de vista, nem o julgamento de valores; sendo o objetivo tão somente aquele da descrição de um sonho e posterior análise pelo sujeito que vos escreve.

Prossigamos ao sonho.

(II) Sonho:

Na noite do dia 20 para o dia 21 de Janeiro desse ano de 2012 tive o sonho cuja narrativa segue abaixo.

Eu e alguns poucos familiares havíamos sido convidados para uma festa por uma pessoa rica e eminente. Junto ao convite veio a observação explícita de que estávamos sendo convidados com o propósito de sermos figurantes, não devendo nos envolver com nenhuma das demais pessoas, identificadas como importantes políticos e autoridades, que estariam também presentes. Por se tratar de grande e refinada recepção, o que era uma oportunidade pouco comum, decidimos participar, apesar de a recomendação ter sido encarada como leve ofensa.

Chegando à festa, era fácil identificar os políticos e autoridades pelas suas roupas de gala, em distinção de uma parcela dos outros convidados que era a dos convidados figurantes. Os políticos e autoridades ocupavam mesas grandes em salas menores e separadas, também eram tratados de forma diferenciada, apesar de alguns deles circularem em meio ao grande salão ocupado pelos figurantes.

De repente percebi a presença de pequeno felino, um gato, que acompanhava a mim e aos meus familiares. Percebi, de súbito, que aquele era meu animal de estimação. O gato, por vezes, insistia em penetrar as salas menores destinadas às autoridades. Os garçons vinham então me repreender para que eu retirasse o animal daqueles ambientes restritos. Noutra ocasião eram os próprios anfitriões que vinham recomendar para que eu cuidasse de meu gato, mantendo-o distante dos políticos e pessoas eminentes. Aquela situação me causava grande constrangimento.

O sonho culminou quando o gato caiu em um bueiro, ficando a princípio preso às grades pelas suas patas dianteiras. Ele clamava por socorro. Tentei resgatá-lo, mas ele caiu dentro do bueiro. Com grande esforço, consegui alcançá-lo no fundo do bueiro e resgatá-lo. Lembro que isso me trouxe um grande alívio, e mesmo felicidade.

Despedimo-nos dos anfitriões e retornamos para casa. O sentimento era aquele de satisfação.

(III) Conexões:

Partiremos da definição das instâncias essenciais do sujeito. Os verbetes apresentados abaixo foram extraídos de: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, Editora Nova Fronteira, 1a Impressão (9a Edição).

Consciência. S. f. 1. Filos. Atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração.

Inconsciente. S. 2 g. 9. Psicol. O conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, nos sonhos, nos atos falhos, nos estados neuróticos ou psicóticos, i.e., quando a consciência não está vigilante. Inconsciente coletivo. Psicol. Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos.

Alma [Do lat. anima.] S. f. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento: as faculdades da alma.

Espírito [Do lat. spiritu.] S. m. 11. Filos. O pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas: a matéria ou a natureza.

Consideremos, a seguir, as conexões básicas estabelecidas entre estas instâncias a partir do meu entendimento ou interpretação pessoal. Observe que se trata de opinião subjetiva; logo, não é uma verdade, nem pretende ser; é tão somente a expressão de uma única alma.

Dito isso, entendo que a alma de um sujeito (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) compreende a sua consciência (o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo) mais o seu inconsciente (o conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, quando a consciência não está vigilante).

Faço a distinção entre alma (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) e espírito (o pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas); sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

Repetindo, para a clareza da ideia: Entendo que a alma de um sujeito compreende a sua consciência mais o seu inconsciente (alma = consciência + inconsciente). E faço a distinção entre alma e espírito; sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

(IV) Análise:

Posteriormente, já em estado de vigília, e tendo recordado de um sonho com tal riqueza de detalhes, decidi dedicar algum tempo a sua análise. Para tanto, levei em conta a contextualização, apresentada em (I); e as conexões entre as instâncias essenciais do sujeito, descritas em (III).

Essa foi a minha interpretação: Eu e minha família representávamos o meu espírito – o sujeito da representação. O gato era a minha alma, i.e. a minha consciência mais o meu inconsciente (uma parcela de meu próprio espírito), que estava se metendo em contradições e antagonismos por invadir o espaço dos outros (interagindo com outros espíritos). A partir do momento em que eu consegui resgatar o gato – entenda-se por retirar-me da discussão que estava me causando o desgaste emocional – o conflito se desfez. Voltei a minha habitual paz de espírito e ao saudável alinhamento da consciência com o inconsciente (ou, ao menos, a redução dos conflitos para um grau minimamente aceitável).

(V) Por que eu escrevo?

Por que eu leio? Por que eu escrevo? Bem, eu leio porque sinto sede de conhecimento e do aprendizado; pelo desejo de autoconhecimento; pela vontade de saber mais sobre a natureza e entender dos processos de interação entre as criaturas – tanto aqueles de natureza objetiva, quanto aos outros fenômenos, mais sutis. Escrever é uma forma de organizar minhas próprias ideias. Posso concluir, portanto, que escrevo para mim. É mesmo, antes de tudo, uma atividade egoísta.

Dessa experiência resultou a minha decisão de não mais me reportar ou dirigir àqueles sujeitos que estavam me desgastando. Pura e simplesmente desfazer todos os laços emocionais. No meu parco entendimento se tratam de espíritos com os quais eu não tenho afinidade (diga-se de passagem, sem qualquer julgamento de valor).

Pode ser que sejam muito avançados para a minha compreensão. E uma criança de poucos meses não costuma sair por aí andando sobre os dois pés antes de aprender a engatinhar; i.e. precisarei, nesse caso, de mais tempo e bagagem para uma interação saudável. Ou podem se tratar de espíritos de natureza distinta à minha. Nesse caso, sendo os valores éticos e morais diferenciados, faz-se também necessária manutenção de certo distanciamento, de forma a se evitar os atritos demasiados.

Importante é o respeito às diferenças; a compreensão de si mesmo; e o aprimoramento de cada criatura, que é distinto e inerente às suas próprias vivências pregressas.

3 53gu3 4 v1d4 0 53u f1ux0 1n3x0r4v31…

Divagações filosóficas

julho 20, 2011

– das ruminações com o Deputado O. S. Ozz 

O cérebro humano é a unidade propulsora da consciência social.

A sociedade, sob o ponto de vista evolutivo, nada mais é que um encadeamento de ideias com as capacidades de replicação e auto-depuramento.

Habitamos o intervalo entre o bom senso e o senso comum; daí a sensação de constante insatisfação.

Em toda a discussão ou contenda, apesar da dinâmica natural para a convergência das ideias, haverá sempre, ao menos, um aspecto da discórdia.

Em último caso, o bom senso é a melhor solução.

Resta-nos saber: O bom senso de quem?