no dia do juízo final
de nada servirão os múltiplos pézinhos
do tatu-bola:
ele sairá girando!
todas as vaquinhas de presépio
cairão por terra.
só restarão os verdadeiros gatos,
de longos bigodes.
eu lhe disse, charles,
nem tudo é herança gen ética.
essas ideias im plantadas ajudam,
mas não salvam vidas.
não passam de mitos lógicos,
o tempo irá di ssolve-los.
o que há de melhor,
de mais nobre e de valor
se conquista com esforço.
se um cometa queima
na gravidade
é porque já perdeu sua sus
tentação no e s p a ç o,
sua razão de existir.
e de nada adianta
chorar o leite derramado.
melhor entender antes
do que lamentar depois
– só uma dica.
e para os malabaristas de plantão
saibam que do chão não caem
as bolinhas.
sim,
as girafas triunfarão ao final
porque esticaram o pescoço.
na árvore da sabedoria
pastarão tranquilas e imunes
ao choro dos bebezões:
seres hu, manos,
que só querem tirar vantagem
de tudo.
no dia do juízo final,
mas só lá, marck,
entenderemos, afinal,
que os poetas não são tolos.
no é?

 

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Notas Adicionais:

       

– no texto original está escrito que a progressão geométrica da pirâmide oculta é phi, mas na verdade ela é sqrt(phi)

           

– o meu Amigo Fabio Gerhardt calculou analiticamente os valores de: x = sqrt(phi)/2/phi*(phi-1) e R = sqrt(phi)/2/phi*(phi+1)

         

– a razão entre a altura da pirâmide superior pela altura da pirâmide oculta é phi (a razão áurea)

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No último domingo, dia 12/08/2012, estive na Bienal do Livro de São Paulo para o lançamento de meu terceiro livro de contos, crônicas e poesias – “Trama e Urdidura”. Foi uma experiência e tanto. Vale ressaltar que nunca havia participado de um evento literário dessa proporção; tanto como leitor quanto como autor. E a trilha sonora do dia certamente foi o álbum “Bob Dylan’s Greatest Hits”, que eu havia adquirido no dia anterior, em versão cd. Lembro desse vinil girando ininterruptamente na vitrola da república em Barão Geraldo, nos idos de um mil novecentos e noventa e tanto: saudosos anos de Unicamp!

Foi muito gratificante participar da Bienal e poder contar com a presença de poucos, mas grandes amigos – pessoas realmente importantes em minha vida. Agradeço-os de coração!

Em meio àquele universo de livros, de pessoas ávidas pela leitura, se eu tenho uma crítica a fazer, essa diz respeito ao fato de que ainda lemos muito do mesmo. As obras clássicas – o que é bastante positivo – pois são textos que conseguiram tocar o inconsciente coletivo, atravessando gerações, acrescentando novos elementos e percepções à experiência humana nessa nossa pedra celeste. Mas também muitos livros sobre outros livros: explicando, imitando, parodiando ou mesmo distorcendo as obras supracitadas ou textos com alto grau de ineditismo – estes sim, em minha opinião, aqueles que são realmente relevantes. E, para terminar, uma avalanche de livros bastante superficiais: aqueles de autoajuda e uma miríade de romances insossos.

Independente disso, procurando bem, é possível encontrar textos literários de qualidade. Sim, pois vivemos um momento histórico de grande dinamismo, o que favorece a efervescência das ideias, aguça-nos a criatividade e os sentidos. Resultando daí obras contemporâneas com alto grau de ineditismo e relevância; embora sejamos ainda um tanto incompetentes em filtrar tamanho volume de informação, e muitas vezes sucumbimos às artimanhas de um mercado editorial fundamentado no lucro imediato em detrimento de um trabalho consistente e sério de depuração.

“Trama e Urdidura” é o último livro da trilogia dos “Livros Negros” de Jorge Xerxes; trilogia esta composta pelas obras “As Cinquenta Primeiras Criaturas” (2010), “Para Pescar a Lua” (2011) e “Trama e Urdidura” (2012). Quem lê atentamente “Trama e Urdidura” desvendará a origem do heterônimo Jorge Xerxes, sob o qual decidi assinar a minha produção literária. Também entenderá porque designei acima essas três obras como a trilogia dos “Livros Negros”.

Quem me acompanha de perto sabe que escrevo pouco. A experiência da escrita para mim resulta sempre num evento catártico. É como se eu fosse uma “pilha” absorvendo a “energia” do relacionamento humano, dos ambientes nos quais circulo, das experiências boas e ruins nas quais me vejo envolvido. Tudo isso vai sendo captado pelos meus sentidos, aumentando a tensão, crescendo dentro de mim em intensidade. E, de repente, num ímpeto de saturação, toda essa “energia” – estas impressões inconscientes – é transmitida, pelo processo de sublimação, para a composição de um conto ou de uma poesia. A conexão entre os textos é tênue, como são os laços que unem as gotas de um lago, ou as moléculas do ar. Tudo se mistura (e ao mesmo tempo não), tudo se agita, é uma escrita viva. Assim eu vejo a minha escrita.

Enfim, como escritor, não tenho a pretensão de ser melhor ou pior que ninguém. Acho que por isso minha obra pode soar, à primeira vista, fragmentada, sem pé nem cabeça, paradoxal. Pois faço absoluta questão de que aquilo que escrevo seja uma expressão sincera de minha alma – com suas angústias, inseguranças, alegrias, tristezas, amores e êxtases. Trocando em miúdos: quando você lê os meus textos eu gostaria que você usasse os meus óculos, que você enxergasse o mundo como eu o vejo. Isso pode te parecer por vezes assustador, maravilhoso, aterrorizante ou sublime. Mas faço votos de que, através de sua experiência pessoal da leitura usando esses meus óculos, você possa enxergar o mundo sob uma perspectiva diferenciada e ampla (assim como eu creio que aconteceria comigo, se eu pudesse usar os seus óculos). Quando eu te empresto meus óculos, dôo-te um pedaço do meu ser. 

Os quatro desdobramentos do p4554r0

A n47ur3z4 do 50nh0

A conjunção f0r7ui74

 

Os quatro desdobramentos do p4554r0

 

Não deve o p4554r0 abater-se ou vilipendiar

a sua condição atual de criatura falível às manobras.

Este sentimento não é próprio

da realidade do p4554r0 senão

ao desejo de exercício pleno

da liberdade.

O porta-voz de um p4554r0

anuncia o sentimento oblíquo

de vôo rasante à alma

– ele grasna.

Mesmo ao p4554r0 existem restrições físicas

imputadas pelas correntes de vento,

o fluxo imanente do universo

que o compreende.

 

A n47ur3z4 do 50nh0

 

Se o 50nh0 está à mão,

então a realização é certa,

em momento oportuno.

A n47ur3z4 da providência

é a matriz dos aspectos consonantes.

Ele deve reter a essência dos 50nh05

enquanto possibilidades de alçar vôos perfeitos

em concórdia às condições favoráveis

de seu entorno.

 

A conjunção f0r7ui74

 

O 4rc0-íri5, a 357r314, a nuv3m:

são exemplos de alteridade

na perfeição inefável dos ventos

quando eles sopram ao sabor.

O p4554r0, o 4r, a v457id40 d0 35p4c0

devem entender-se como personagens

de um mesmo e amplo espetáculo porvir.

Então será:

pur0 m0vim3n70.

 

Antonio avança pela antiga e íngreme rota das pedras; rumo ao cume do monte a passos lentos, sucessivos, inseguros. Espera que o tempo lhe restitua aquela sua velha dignidade da qual este mesmo se encarregou, de súbito, a tomar-lhe. A vida! A vida tem sido dura com ele. O sol do fim de tarde queima a pele enrugada de sua testa; escorre e arde o suor daqueles dias intermináveis de luta. Mas tão perversa e belicosa, que é mesmo de meter medo; uma prova para o seu ânimo de fogo; dessas de deixar os seus ideais inquebrantáveis em frangalhos, prestes a sucumbir ante as vicissitudes; enfim, deixar-se levar pelo fluxo fácil das ilusões, dos destemperos do campo.

A mata é verde e sopra-lhe o seu hálito úmido; um bafo que turva as suas retinas; são vapores doutras eras assomarem-se ao extremo da agonia, da dor; e uma gralha grasna clamando a sua rendição. Antonio segue adiante, reduz o ritmo, conduz seu corpo judiado, simples, de humano falível, pelas curvas com as últimas reservas de suas energias; mas com perseverança, a garra de uma centena mais uma daquelas gralhas, às quais ele amaldiçoa até a sétima de suas gerações.

A altura é nauseante, por vezes Antonio precisa se apoiar às pedras para não deixar-se desabar. Os galhos secos dos arbustos avançam obstruindo lhe o caminho, são como braços a agarrá-lo bradando: “Daqui você não passa, verme!” E ferem-lhe os ombros, tinge-os de sangue em alongados arranhões.

Mas eis que o caminho aplana, a vegetação abre-lhe passagem ao cimo e a gralha toma também o seu rumo, deixando-o em paz. O sol baixa à linha do horizonte, presenteia-lhe o crepúsculo, que por sua vez cede o seu espaço a lua cheia. A vida tem dessas coisas: o orvalho da noite acaricia a sua face surrada, o brilho intenso das super-novas renova-lhe o sonho e uma estrela cadente é verdadeiro bálsamo para todas as suas aflições. Então ela se achega; beija-lhe à fronte. E a isso denomina-se vida: ação do amor através dos elementos na natureza.