um funk

maio 26, 2019


a vida é um desenrolar e enrolar de línguas

coisa sobre a qual não se fala

sobretudo se o matuto está ao sol

e toma um vinho

a vida é cada um dos ponteiros do relógio

e o que você faz dela

enquanto não está atento a estes

pode ser o pior erro do rato

virar e fitar o gato

a poucos bigodes de vida

se você presta atenção ao sol

então daí acabou-se o vinho

torna a atenção para a poesia

antes que se acabe

ou se transforme num funk

em são joão da boa vista

 

 

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aquele gatinho

abril 16, 2019

         

sabe, aquele gatinho é lindo.

ele será adotado,

vai dar e receber muito carinho,

e, tendo realizado a sua trajetória,

um dia voltará para o céu dos gatinhos.

mesmo assim a história dele é única.

porque todo o gatinho escolhe o seu dono

e se desdobra para realizar o seu melhor ronronar.

do ponto de vista da ideia,

um gato será sempre um gato.

mas para cada dono,

mesmo que ele tenha muitos gatos,

apenas um gatinho toca a sua alma,

e, porque tem o ronronar que mais lhe agrada,

realiza o seu ideal do gato.

tendo sete vidas,

também o gatinho terá muitos donos.

mas para ele, cada dono é único,

porque tem um olhar diferente do mundo.

e, dentre os sete donos,

seis serão apenas donos,

mas apenas um será o dono ideal do gato.

 

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[2/8 21:37] ‪Rudolph : Por que a imagem deste grupo é um gato?

[2/8 21:38] Jorge Xerxes : Alguém pôs o gato, oras!

[2/8 21:38] Rudolph : Bom, o gato tá no lucro

[2/8 21:39] Rudolph : Ele poderia ter sido defenestrado

[2/8 21:42] Jorge Xerxes : No limite tendendo ao infinito, não existe razão para as coisas acontecerem. Elas simplesmente acontecem, como as chances das possibilidades,

[2/8 21:48] Capitão : A questão é: colocaram o gato lá ou foi o gato que se colocou?

[2/8 21:51] ‪Rudolph  : Segundo o Mala, a culpa é do PT

[2/8 21:53] Jorge Xerxes : Acho que nem para isso existe uma resposta simples. Quem garante que o gato está lá quando você não olha para ele?

[2/8 21:58] ‪Gohr : Capitão incluiu a imagem do gato. Já há algum tempo.

[2/8 22:11] ‪Bomba : Jorge Xerxes, para onde vamos quando dormimos?

[2/8 22:27] Branco : Ou melhor, para onde vai o gato quando arremessado pela janela?

[3/8 05:55] Jorge Xerxes : Acabo de acordar, após uma investigação profunda da questão proposta pelo Bomba. A resposta é: não faço a menor ideia, talvez cada noite para um lugar diferente. Mas sempre retorno para a mesma cama onde eu estava antes de adormecer.

[3/8 06:11] Jorge Xerxes : Branco, os gatos sempre caem de pé. Eu sei disso porque já fiz alguns experimentos. Eles têm essa habilidade de se virarem próximo ao momento do impacto, à maneira de uma fatia de pão com manteiga. Agora para onde vão, é pergunta que não sei responder. Usando um gato eu medi a gravidade da terra em 9.807m/s2. Mas através de um modelo de simulação, assumindo a hipótese de que eu estivesse circundando um buraco negro numa nave espacial, ao ser defenestrado, o gato sairia voando!

[3/8 06:22] Jorge Xerxes: Eram os gatos astronautas?

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abril 11, 2016

como

sorriso

de

gato

que

não

se

resta

apenas

a

certeza

está

no

céu

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Uivar para a lua cheia

junho 23, 2015

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Quando Bolinha apareceu na chácara de Seu Tatá foi só alegria. O céu de um azul intenso, o verde das matas, o brilho do sol, era como a primavera trazendo de novo o alento. O velho e bagunceiro Escovão tinha morrido há pouco tempo, Seu Tatá sentia falta doutro cão vira-latas daquele. Ele tinha ficado apenas com Batatinha e Xanadu, que eram filhotes, por isso não podiam acompanhá-lo na lida do pomar, nas idas e vindas até a vila para tratar dos negócios da chácara ou mesmo para uivarem juntos, sem compromisso, se a lua era cheia.

É fato que Bolinha não estava sempre presente. Ele vinha de muito longe (ao menos para um cachorro), visto que morava noutro extremo da vila, onde ganhava o seu sustento como cão guia de um senhor cego. Bolinha era habilidoso na condução do seu dono através do calçamento e dos cruzamentos das vias. Mas o que ele gostava mesmo era da vida alegre na chácara e de acompanhar o Seu Tatá nos seus afazeres. Ao contrário do senhor cego, Seu Tatá não precisava dele, sabia se virar muito bem com a rotina da chácara, mas demonstrava carinho pelo divertido e desastrado Bolinha, meio sem tino para com as plantas.

Bolinha, como todo vira-lata, gostava de se exibir, trazia uma manga na boca se Seu Tatá a arremessasse para longe. Abanava o rabo pedindo para Seu Tatá jogá-la novamente. E de novo. E de novo. E de novo. Ficava se esfregando nas pernas do Seu Tatá. E por ser correspondido, achava mesmo que Seu Tatá precisava dele. Mas aquelas brincadeiras do Bolinha eram bobagens. Só mesmo os cães, que não raciocinam, não percebem o quanto são, por vezes, ridículos em suas atitudes. Pidões e carentes; demasiado inocentes. Sair correndo, trazer uma manga na bocarra ou uivar para a lua cheia: Bolinha não se apercebia de que nada disso agregava a chácara, ao Batatinha, a Xanadu ou ao Seu Tatá. É verdade que se divertiam, mas só.

A vida é grave. Existe um sentido maior para cada ato e toda a criatura deve se colocar no seu devido lugar. Então, quando Bolinha clamava por mais atenção, julgava-se merecedor de morar com Seu Tatá, assim como a Xanadu e o Batatinha, Seu Tatá foi ter com Bolinha:

– Olha Bolinha, você é muito bonitinho e divertido, mas é cão guia do senhor cego lá na vila. Essa é a sua função nessa Terra. Pense bem, se não fosse por você, o senhor cego não poderia trafegar com segurança pelo calçamento e através dos cruzamentos entre as vias, cumprindo tarefas ainda mais importantes que as tuas, na infinda escala dos desígnios das criaturas. Há um plano maior que alicerça e a tudo dá sentido. Veja como você é afortunado: mesmo sendo um cachorro vira-latas, você é também um guia, Bolinha. A Xanadu, o Batatinha e eu somos gatos. Nós somos independentes, não precisamos de você aqui na chácara. E depois, o Batatinha e a Xanadu vieram antes. Não podemos mudar uns pelos outros apenas. Precisamos estar orientados a um objetivo pré-estabelecido, anterior. Por isso, Bolinha, eu peço que você não me procure mais.

Apesar de Bolinha pouco ter entendido quanto às motivações mais profundas que norteiam a aguçada percepção felina, mesmo para a parca sapiência de um reles cão vira-latas a colocação de ordem prática de Seu Tatá tinha sido bastante contundente. E Bolinha se conformou; com o rabo entre as pernas, ele retornou para o outro extremo da vila, onde morava com o senhor cego.

Agora Bolinha tem consciência de como é afortunado, porque sabe que, por intermédio dele, o senhor cego pode realizar tarefas tão importantes que Bolinha é sequer capaz de concebê-las. Bolinha entendeu também que catar os objetos atirados e trazê-los de volta ao dono, assim como ficar roçando as pernas das criaturas em nada lhes acrescenta de valor, por isso desistiu desse seu feitio.

Bolinha gostaria de entender a razão dos gatos, mas isso a sua natureza canina não permite. Deve haver motivo muito forte para um mundo assim tão justo e sisudo. Cada qual trabalhando como engrenagem de uma grande moenda a esmagar a si mesma. E a noite, em meio a seus devaneios, Bolinha ainda se recorda do quanto ele apreciava uivar para a lua cheia.

 querubim_jorge_xerxes

Um plano secreto entorpece os intentos

se três gatos em diferentes pontos cochilam.

Esta é implacável aritmética felina.

E não me admira que de minha rede

eu sinta o sono deles escoar pela tarde.

É questão associada à preguiça do Sol.

Dela desenvolvo a equação: da rede não caio,

sustenta-me em sonho.

Não é brincadeira de cochichar

de copo >——–a——–< copo

unidos pela linha tensa com o irmão.

As ondas sonoras viajam pelo fio.

E eu não caio nessa do ar leve

que o rarefeito das ideias

não conduz.

Ligados a Terra.

Raízes, rastros, pegadas

espalham-se firmes, profundas,

mesmo sob condições adversas.

Mas a gravidade não abala,

não impõe restrição ao movimento.

Em última instância a esfera celeste

flutua ao vento.

Sem pressa, espera de nós

o milagre da vida, que bela,

bate à janela pela mão dum jasmim

a invadir o teu quarto

em cheiro

– se quer o bem.

O gato branco salta silencioso sobre a cadeira.

Observa profundamente os meus olhos

com aqueles OlhOs seus:

um verde e outro azul.

Depois ele deixa-se ir.

Lento,

sem medo,

como se nunca estivesse ali.

A cadeira ainda guarda o calor de seu corpo felídeo.

Sua arte do desvanecer.

A liberdade dele me diz muito:

da preguiça,

da coisa toda de não fazer,

do lamber-se cuidadoso e asseado.

Alvas felpas,

garras retráteis

e a cauda sinuosa.

Nada falam do que não foi.

Não se ocupam em espreitar o futuro

ou arrepender-se do que passou.

Fluem íntegras através do agora.

Vazam líquidas num caminhar sólido,

firme,

de um passo quieto e magro

de quem absorve a maciez do chão

e lhe devolve o salto em dobro.