Nestes dias em que tenho frequentado muito o LinkedIn em busca de uma oportunidade de trabalho, observo a avalanche de charadas matemáticas imbecis. Infelizmente, temos de conviver com isso. Com estas pessoas simplistas que acreditam que porque você é capaz de resolver tais e quais charadas, você é genial; e, caso não cosiga resolvê-las, você não passa de mais um medíocre.

    

Vale lembrar que medíocre é aquela criatura de pensamento mediano, vale lembrar que se espera que a média das pessoas consiga um trabalho num intervalo de tempo razoável, médio, comum, medíocre; entretanto, nem sempre isso acontece. Logo, vale nos questionarmos se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. (Estamos mesmo caminhando rumo ao Sol?) E também quanto ao nosso preconceito. O cidadão comum não é, necessariamente, melhor nem pior do que eu, ou você. Ele está apenas na média.

    

Mas para tudo há limites e, para mim, o limite foi ultrapassado pela charada de Penny (ou a charada das 5 crianças). Isso porque não há pergunta, não há matemática e não há charada. Como na filosofia Zen, a verdade é autocontida. O tudo é igual ao nada. E, especificamente na charada de Penny, não há nada a se fazer, senão a perda de tempo.

   

Voltando àquilo que foi dito no primeiro parágrafo, eu acredito que a inteligência pouco tem a ver com a habilidade de se resolver problemas matemáticos e de lógica complexos apenas. Eu “acho” que a inteligência é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais; logo, interdisciplinares e que atendam ao bem comum. Isso é a inteligência para mim.

    

Quando eu vejo o Presidente da República dizendo na TV que o Ministério da Fazenda “estuda” aumentar os impostos sobre os assalariados para alcançar o equilíbrio entre as despesas e as receitas do Estado eu imagino o quanto o governo age de forma não inteligente (colocado assim, para evitar um palavrão), porque claramente se vê que, apesar de ser uma solução simples, esta não é uma solução natural; se trata ainda de uma solução tendenciosa (não interdisciplinar) e tampouco atende ao bem comum. Apenas um exemplo, dentre vários.

    

No mundo corporativo, a filosofia “Go Horse” é o que melhor traduz essa ideia absurda de que se juntarmos uma equipe de especialistas – usado como sinônimo de pessoas inteligentes ou capacitadas – chegaremos a uma solução inteligente. Pode ser, mas não sob a minha ótica. Talvez eu seja medíocre. Talvez eu seja mesmo um imbecil, por insistir tanto nisso.

    

A inteligência – em minha opinião – é o ponto de intersecção das diferentes disciplinas: a matemática, a física, a química, a biologia, as línguas, as ciências sociais e humanas, a filosofia, a história, a geografia, o direito, a economia, as artes e a medicina. A inteligência, colocada dessa forma, é a arte da síntese (ou alquimia). De novo: é a capacidade de transitar entre as disciplinas e identificar padrões, a capacidade de encontrar soluções simples e naturais. Estas soluções são necessariamente interdisciplinares e atendem ao bem comum.

    

Ante qualquer solução que atenda aos interesses de minorias deveríamos nos questionar se as nossas bússolas estão, de fato, aferidas. Porque ainda que você seja um “Horse” – um especialista – “Do Not Go”: pense, reflita, antes de sair em disparada!

    

Lembre-se, enfim, que ainda que a sua bússola esteja prontamente aferida, você não tem o direito de passar por cima de tudo e de todos, e que os fins “Do Not” justificam os meios. Lembre-se que, aqui no Brasil, o Oceano Atlântico fica na direção Leste; i.e., rumo ao Sol nascente. Lembre-se que as águas de um rio fluem através do seu leito, contornando as encostas escarpadas, indo sempre em direção ao mar. Esta é a sabedoria das rochas pontiagudas transmudadas em seixos – um conhecimento natural (muito distinto da mediocridade).

    

E, para terminar, uma boa charada matemática. Para quem tem habilidade e gosta de se divertir com a matemática, sem nunca confundir isso com a inteligência num sentido mais amplo:

    

Se 2 está para 2, assim como 3 está para 10, 5 está para 12, 7 está para 21 e 11 está para x. Qual é o valor de x?

    

Barba ensopada de Galera

dezembro 8, 2016

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Zero

   

Terminei ontem a leitura do romance “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, 1ª Edição, Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

    

Livraço, certamente o melhor que eu li neste ano de 2016 (vale lembrar que eu leio devagar, ao meu tempo, o universo dessa amostragem nem é tão grande assim).

       

Gostei especialmente do romance pelo enredo, pelo jeito de contar a estória (também porque já fiz travessias de 10 km no mar, triatlo, essas doideiras; e porque também já estive em busca de respostas).

     

Deixo minha seleção de sete passagens prediletas (espero que estes trechos motivem você a se aventurar pela leitura do livro também).

   

Um

   

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda a parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis cobertas por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um Buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia a sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do fusca dá uma risada.

Demora um pouco para pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é a de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta o seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha a posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tato de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

   

Dois

   

Antes do feriadão de primeiro de maio cai na mão dele um exemplar de um jornal editado em Tubarão que traz na capa a notícia de que o corpo de uma guria de dezesseis anos que morava na praia da Pinheira havia sido encontrada na vegetação às margens da rodovia BR-101, um pouco ao norte de Paulo Lopes, poucos quilômetros acima do trevo da entrada de Garopaba. Estava sem olhos e sem lábios e havia sinais claros de estrangulamento, que foi a provável causa da morte. O perito suspeitava ou queria acreditar que as mutilações no rosto foram feitas após o óbito da vítima e as partes extirpadas não foram encontradas. Ela estava sem blusa, mas não foi confirmado se houve violência sexual. Havia também marcas abundantes de arrastamento, levando a crer que tinha sido assassinada longe dali, provavelmente num mato com vegetação densa e pedras, e então transportada até o local por uma ou mais pessoas que não eram capazes ou não quiseram se dar ao trabalho de carregá-la e só puderam ou preferiram arrastá-la. A matéria tinha sido publicada dois dias após a descoberta do corpo e a fotografia mostrava a vítima coberta por um pequeno cobertor ou pano de cor clara deixando ver apenas as mãos com os dedos dobrados, os pulsos e parte dos braços erguidos ao lado da cabeça, lembrando um bebê no berço. Quando olha a foto ele imagina num clarão o rosto da guria por baixo do cobertor ou pano como num daqueles flashbacks chocantes dos filmes de terror e a imagem vislumbrada o perseguirá por alguns dias. Era descartada a possibilidade de que os olhos e lábios tivessem sido comidos por um animal ou algo assim porque os ferimentos eram de incisão precisa, quase clínica, com objeto cortante. Ela havia dito aos pais que ia acampar com amigos numa cachoeira da região e os amigos de fato foram acampar mas disseram que ela não apareceu no horário e local combinados para a saída e eles foram sem ela. A polícia trabalhava com a hipótese de crime de vingança mas salientava que ainda estava levantando dados e que tudo era possível. Essa era toda a informação trazida pela matéria. O jornal datado de uma semana antes foi encontrado em cima de um banco no vestiário da academia como se alguém o tivesse esquecido dentro da mochila e dias depois se livrado do papel velho sem ao menos se dar ao trabalho de colocá-lo no cesto de lixo e ele acha estranho que ninguém na academia, nos restaurantes, nos bares, no posto telefônico, na praia, na escolinha de Pablo, que nem dona Cecina nem Renato nem Dália nem o vendedor do mercadinho ou os pescadores tenham comentado uma notícia tão hedionda, algo que tinha acontecido tão perto da bela e feliz cidadezinha costeira em que moravam, cidadezinha que já parece ter sido abandonada de vez pelos turistas, pelo menos até a temporada do próximo verão, e mais parece agora um parque de lojas fechadas e casas vazias, quarteirões inteiros desertos a não ser pela visita muito ocasional de um caseiro podando uma árvore. O esvaziamento fulminante da cidade, a chegada do frio para valer, o assassinato brutal de uma adolescente não muito longe dali, nada disso que lhe chama tanto a atenção parece ser digno de nota. Fala-se por aí que a pesca da tainha esse ano será uma catástrofe ainda pior que a do ano passado e a população em geral se preocupa em fazer render o dinheiro ganho com o comércio e o turismo de um verão que ficou para trás em definitivo e já parece uma memória longínqua, um tempo em que os moradores locais haviam trabalhado tanto em meio a tanta gente vinda de fora que mal tinham conseguido ver uns aos outros e conversar com os seus próprios amigos e familiares, meses vividos menos como habitantes e mais como funcionários de um enorme pavilhão ocupado por um megaevento. Comentam pelas ruas também uma eleição municipal que só ocorrerá em setembro e de resto se tem a impressão de que todo mundo espera apenas descansar e viver sem sobressaltos os dias frios e ensolarados em que nada acontecerá. Dizem que haverá tédio e tristeza na calmaria e que o frio e a solidão ressuscitarão todos os fantasmas sazonais conhecidos e também despertarão alguns desconhecidos, mas falam disso como se ainda não fosse hora e houvesse tempo de sobra pra se preparar.

    

Três

   

Entre os competidores profissionais estão alguns conhecidos seus e o reencontro mais efusivo é com Pedrão, que tem patrocínio da Paquetá Esportes e é presença comum nos pódios e décimo primeiro no ranking nacional de triatlo. Noite passada, durante o congresso técnico no salão de jantar do Hotel Garopaba, a primeira coisa que Pedrão lhe perguntou foi se ele estava doente. Tinha achado o antigo companheiro de treinos um pouco magro demais e com uma cara um pouco abatida, sem falar na barba desleixada. Ele garantiu que estava bem de saúde e quanto à barba, bem, tinha enjoado da própria cara, estava fazendo uma experiência. Pedrão entendeu a piada e riu. Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo como marcas gritantes ou sutis, às vezes sutilíssimas ou mesmo invisíveis, e ainda assim de alguma forma perceptíveis de fora. O corpo é a sua própria cápsula do tempo e sua viagem é sempre um pouco pública, por mais que tentemos esconder ou maquiar.

    

Quatro

    

Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando na pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é toda de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado.

Uma vez Viviane lhe falou a respeito dos deuses gregos, tema de leituras que vinha fazendo para o mestrado em literatura que cursou na época em que moravam juntos. Imagina se a vida real fosse assim. Deuses dizendo de antemão que a gente vai vencer a batalha, sobreviver ao naufrágio, reencontrar a família, vingar a morte do pai. Ou o contrário, que vamos ser derrotados ou sofrer coisas horríveis durante muitos anos antes de conseguir o que queremos, que vamos nos perder, ou mesmo morrer. E eles entram em detalhes, dizem exatamente como, quando e onde e depois saem voando com o vento e deixam o mortal ali com a obrigação de cumprir ou executar o que já foi decidido pelos tiozinhos do Olimpo. Imagina que merda. E ele tinha dito que não achava ruim. Que gostava da ideia de que há deuses soprando em nosso ouvido uma boa parte do que ainda irá nos acontecer. Não crê nisso de fato, não há lugar para deuses em seu coração, mas tem a sensação de que alguma coisa equivalente está em curso no mundo profano, um processo natural, algum mecanismo no corpo ou na mente que antecipa coisas que mais tarde poderemos chamar de destino. Na opinião dele a vida era mesmo um pouco desse jeito. Já se sabe em grande medida como as coisas vão ser. Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar desapercebida. Viviane ficava louca com isso, em parte porque ele não tinha a mesma cultura e vocabulário que ela e não conseguia se expressar direito, em parte porque ela discordava da ideia com veemência. Ela falava então de livre-arbítrio, a liberdade do homem para escolher, para decidir como as coisas serão de acordo com a vontade, coisa que ela não aceitava que ele não aceitasse com a mesma naturalidade que ela. As discussões podiam começar com uma piadinha ou uma provocação carinhosa e evoluir para bate-bocas exasperados nos quais, na falta de argumentos e arsenal retórico, ele precisava defender sua posição com teimosia ou silêncio.

E numa dessas manhãs do começo de julho ele tira as meias e a camiseta, veste um bermudão de praia, pega a cachorra no colo e desce a escadinha de cimento até a pedra do Baú. O mar está encrespado mas as ondas estão fraquinhas. O sol forte ameniza um pouco o frio. Deixa Beta na beira da pedra e entra na água pisando com cuidado nos mariscos e algas ocultos sob a espuma. Ergue a cachorra de novo nos braços, entra um pouco mais fundo e a mergulha no mar gelado. Ela mantém o olhar fixo adiante, perplexa com o banho inesperado. Nunca teve o hábito de entrar na água e muito menos no mar. As ondas a assustam. Começa a pedalar instintivamente com as patas dianteiras e um pouco também com as patas traseiras. Ele a incentiva e se mantém submerso até o pescoço por solidariedade, para passar tanto frio quanto ela. Assim que a cadela encontra um ritmo ele a segura por baixo da barriga com uma das mãos e dá sustentação a seu corpo. Beta funga um pouco e espirra quando a água lhe atinge o focinho. São observados por um bando de abutres que em dado momento decolam agitando suas asas magníficas. São aves pavorosas no chão e lindas voando. Quando o frio fica difícil de agüentar ele acomoda a cachorra com firmeza debaixo do braço, saí da água, sobe a escadinha, entra em casa e a envolve com uma toalha. Depois lhe dá um banho no chuveiro quente e a seca com paciência e cuidado. Esquenta um pouco de sopa numa panela pequena tomando o cuidado de separar uns bons pedaços de carne e serve a vasilha de água para que ela coma. Passa a fazer isso todo dia, mesmo quando chove.

   

Cinco

    

Afaga o couro da cachorra, quente apesar de tudo. De súbito, sem que pudesse premeditar, enxerga com nitidez tremenda algo que desejava enxergar faz tempo e começa a chorar de felicidade. Gostaria que Jasmim estivesse ali agora, e Viviane, e seu pai e sua mãe, e mesmo Dante, mesmo as pessoas que tem vontade de odiar e não consegue, gostaria que todas estivessem ali agora. Seu pai tinha dito isso uma vez. Tu não consegue odiar nada, guri. Isso não pode fazer bem. Mas é assim, pai, ele responde agora olhando dentro do breu. É assim. Vai se sentindo cada vez mais leve à medida que pensa nessas coisas e adormece sentado de encosto à pedra.

    

Seis

    

O terror aparece quando ele imagina recifes e animais marinhos ou contempla a possibilidade de estar nadando na direção errada e se afastando da praia com braçadas firmes e regulares, adentrando uma vastidão esmagadora de onde não haverá volta.

No restante do tempo, porém, ele se concentra no nado, na respiração, em sinais que possam ajudá-lo a manter uma linha reta que dê em algum lugar. A certa altura já não crê estar metido em nenhuma enrascada muito maior que outras vezes que nadou longas distâncias em piscinas olímpicas e travessias marítimas com centenas de outros atletas. Isso tudo tem algo de familiar, é como aqueles três quilômetros finais da travessia de Tapes que nadou com câimbras na coxa, como a hipotermia no meio da prova de ciclismo que quase o tirou do Ironman de Florianópolis. Toda prova tem um ritmo certo, é preciso medir a força e estar atento ao estilo, ao desenho das braçadas à freqüência das pernadas e acima de tudo se concentrar e manter a concentração no nado até que a mente e o corpo sejam uma coisa só, o que inaugura condições para que ele e a água se tornem uma coisa só e não haja mais necessidade de se concentrar. Todos os momentos anteriores pareciam tê-lo preparado para isso. É a prova para a qual treinou a vida toda. A imaginação pode ser uma aliada nessas horas. Imagina competidores a seu lado e no seu encalço. Apenas os melhores nadadores do mundo. O líder que deseja ultrapassar está batendo pernas bem na sua frente. É só nadar na esteira dele. A mente é crédula e esse adversário inventado se torna real em pouco tempo, um homem de carne e osso que sente o mesmo frio e o mesmo cansaço, um companheiro. Pode quase tocar seus pés com a ponta dos dedos. E quando esse faz de conta em particular se dissipa ele imagina outras coisas. Que está sendo perseguido por tubarões descomunais e leviatãs de aparência ignorada. Que se fizer uma pausa ou se diminuir o ritmo será fulminado por um raio. Que está deixando a morte para trás. Que uma mulher silente e amorosa o aguarda nas areias da praia, uma mulher que não se parece com nenhuma que já teve mas sem nada de extraordinário. Ela o recebe sem susto, deixa que deite a cabeça sobre suas coxas empanadas de areia para descansar pelo tempo que for preciso e diz que eles precisam um do outro, que sempre terão vontade e serão capazes de prover tudo que o outro deseja, sem exceção. Dá para saber que ela está dizendo a verdade. Ela desliza a ponta dos dedos por suas têmporas e pergunta o que ele quer. Ele balbucia que não muito, apenas que as pernas dela sejam quentes ao toque no inverno e frias no verão, e que tenham uma guriazinha ranhenta para ralar os joelhos correndo em volta da casa, e que se possa ver uma laguna que fique dourada no fim da tarde, mesmo que de longe. Acima de tudo que ela continue quentinha quando ele estiver com frio. Nada mais. Depois é a vez dela. Me diz o que tu quer. Ela vai dizendo e ele aprova tudo e pergunta o que mais, o que mais. É uma lista interminável de coisas e garantir que providenciará cada uma delas traz um prazer infinito, não importa o que seja. Vai dando tudo, uma coisa para cada braçada, implorando que ela não pare, obtendo disso a força de que necessita.

   

Sete

    

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.

   

Colecionador de Fantasias

janeiro 21, 2016

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“A literatura é uma defesa contra as ofensas da vida.” Cesare Pavese

Este breve artigo trata do excelente romance As Fantasias Eletivas, de Carlos Henrique Schroeder, lançado pela Editora Record, Rio de Janeiro, 2014.

Carlos Henrique Schroeder é natural de Trombudo Central (SC), onde nasceu no ano de 1975. Ele estreou na literatura em 1998 com a novela O publicitário do diabo (Manjar de Letras), e de lá para cá lançou quase uma dezena de livros. O seu gênero literário é o pós-modernismo. Sua coletânea de contos As Certezas e as Palavras (Editora da Casa) recebeu o Prêmio Clarice Lispector de contos da Fundação Biblioteca Nacional.

Este texto não é propriamente um artigo, sendo mais precisamente uma seleção de minhas passagens prediletas colecionadas ao longo da leitura atenta de As Fantasias Eletivas.

Deus me perdoe por esta minha obsessão pela síntese e a carnificina operada sobre tão valiosa obra. (De antemão, o leitor deste texto se considere avisado quanto ao spoiler).

Se Você ler o romance: f0r7un4

Se Você ler este artigo e também o romance: 804 50r73

Se Você ler apenas este artigo: 50r73

Se Você não ler o romance e nem mesmo este artigo: 1nf0r7un10

Quando se entregou para o mar, nem as ondas o quiseram.

Mas ela me fala coisas maravilhosas, de quando dançava, e eu adoro mulheres que dançam, e ela me conta como foi uma estudante aplicada, e que é ciumenta.

Num daqueles domingos em que as pessoas são geralmente felizes, antes de começar o Fantástico.

“Como a lua está linda hoje, né?!”, disse ela.

“Pois então, a lua sempre parece mais bonita aqui na praia, não é?”

Mas isso já faz dois anos, e trabalhar no turno da noite mostrou-lhe um caminho diferente, nem melhor, nem pior, mas um caminho.

Os últimos contatos de Renê com o filho foram quando Léo tinha três anos.

Renê tinha esperança de que um dia Léo soubesse diferenciar passado, presente e futuro, e o perdoasse.

Você está viajando porque quer ser feliz por uns momentos ou quer fingir ser feliz por uns momentos ou quer mostrar para os outros que pode ser feliz por uns momentos.

E, por fim, a coragem de fazer o que achava que devia fazer.

Enquanto Copi, sofregamente, segurava o pincel, dois raciocínios a assustavam: o primeiro era de que havia muita palavra no mundo, muito mais do que gente. E o segundo de que o que nos liga ao passado, a memória (que rege essas inúmeras fantasias eletivas que chamamos de lembranças) empalidece ao sinal do primeiro desejo.

Renê estava naquele estágio entre a irrealidade e a incredulidade, como se aquilo não fosse com ele, mas sim com qualquer espectador passivo, como se estivesse assistindo a um filme ruim.

Era uma maneira de descobrir algo mais, ver seu rosto, mas com certeza ela estava vacinada contra estranhos, com a máxima ‘nunca fale com estranhos’. E, como gosto de imaginar o futuro das pessoas, enquanto continuava minha caminhada, tentei imaginar o futuro dessa menina sem rosto, sem voz.

Músicas incidentais:

Just (Radiohead)

Luck (Radiohead)

Karma Police (Radiohead)

No Surprises (Radiohead)

Paranoid Android (Radiohead)

Idioteque (Radiohead)

The Bends (Radiohead)

“Não Ratón, você é burro, mas tem bom coração, o que é melhor do que ser esperto e sacana…”

“Quietinho, Ratón, quietinho, só escute, apenas escute, está tão difícil as pessoas escutarem…”

“E isso torna a fotografia mais humana ainda, pois ela nasce de um desejo humano de se reproduzir enquanto imagem, de permanecer.”

“O que me move para a fotografia são as similaridades com a literatura. A fotografia quer congelar um instante, e a literatura, recriá-lo, e ambas têm essa capacidade de permitir uma outra visão das coisas.”

Dentre todas as solidões, a do nocaute é a mais dilacerante. A Bíblia é clara ao dizer que para cada homem haverá um nocaute.

E quando Goethe, cego, no leito de morte, gritou “Luz, luz”, na verdade imaginava um ginásio vazio.

…chegam ao Brasil (terra de fanfarrões, onde ninguém leva nada a sério, nem mesmo coisas importantes como a cerveja)…

Alguns minutos antes, ela existia em partes independentes, a seda de um lado, o fumo de outro,… estimuladas por mãos ágeis, nasce por fim o baseado, este suporte da imaginação.

“há uma estrada ao norte de Santo Antônio de Pádua que não se encontra em mapas rodoviários, tratados cartográficos ou certidões de domínio.”

“são trechos indefinidos, frases interrompidas, incompreensões, símbolos. a única certeza é que a estrada muda.”

Eu conheci Sérgio Tavares no último dia 27 de novembro, por ocasião do lançamento de seu segundo livro “Queda da própria altura”, no Teatro Municipal de Niterói.

Sérgio Tavares é natural de Niterói – RJ, onde nasceu em 1978. É jornalista e escritor, autor de Cavala (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura, ano de 2009, na categoria conto.

“Queda da própria altura” traz sete contos ao longo de suas duzentas e quarenta e quatro páginas. Estes sete contos encontram-se aninhados em três movimentos, denominados respectivamente: “Impulso”, “Voo” e “Queda”. Cada um desses movimentos, por sua vez, contém um preâmbulo, resultando em contos adicionais. Apresenta-se, portanto, um total de dez textos, além de um breve epílogo.

Passei a semana toda em companhia de “Queda…”. Aprecio a leitura lenta, reflexiva, cuidadosa, atenta aos detalhes. Gosto de sublinhar minhas passagens prediletas e ir fazendo anotações ás margens. Confesso que, ao final do processo, eram tantos desses trechos; se fosse reproduzi-los aqui, este texto estaria mais para um resumo da obra do que propriamente um artigo sobre a mesma.

Os contos de Sérgio Tavares, narrados em primeira pessoa, têm como principais características a forte carga emotiva e o lirismo. Ao longo das narrativas as personagens revelam grande humanidade e suas impressões ante os eventos marcantes de uma existência comum – estas servem como poderosas âncoras para a identificação do leitor. 

A minha seleção de contos, em ordem decrescente, é a seguinte: “Hera”, “Ofélia”, “Evolam-se os barcos” e “Sono”. Mas sei que isso é muito pessoal. Fica a minha recomendação de que você faça a sua própria lista. 

“há uma árvore (se realmente há uma árvore é uma acácia-negra) que viceja em contratempo. registros afirmam que sempre aparece à margem direita da estrada, vaidosa, com os galhos tortos devido ao obstinado desvelo de não perder uma folha sequer.”

“num dia terrível de dezembro, quando o sol circunda a copa e projeta uma longa sombra à margem esquerda, abre-se um buraco negro que traga o descuido de quem, em queda livre, desaparece na memória das pessoas que prezam.”

“todas elas.”

Sérgio Tavares, Queda da própria altura, 244p, Confraria do Vento, ISBN 978-85-60676-59-0, Rio de Janeiro, 2012.

Uma síntese da terra

setembro 28, 2011

Esse artigo apresenta alguns excertos especialmente selecionados e colhidos da “Terra dos homens” de Antoine de Saint-Exupéry. A obra, cujo título original em francês é “Terre des hommes”, foi lançado em dezembro do ano de 1939 e garantiu ao escritor o Grande Prêmio de Literatura da Academia Francesa. Os trechos abaixo, entretanto, foram extraídos da vigésima sexta edição do livro em língua portuguesa, cuja tradução foi realizada pelo também escritor Rubem Braga. Este exemplar, que tenho em minhas mãos, é do ano de 1986 e foi publicado pela Editora Nova Fronteira.

*   *   *

Éramos três tripulações da Aeropostale. Havíamos descido, ao cair do dia, na costa do Rio do Ouro. Meu companheiro Riguelle havia descido primeiro com uma biela partida; um outro companheiro, Bougart, aterrissou então para socorrê-lo, mas não pôde retomar vôo devido a uma avaria sem gravidade. Afinal, aterrissei, mas a noite já avançava. Resolvemos salvar o avião de Bougart, e, para fazer o conserto bem-feito, era preciso esperar a manhã.

Um ano antes nossos companheiros Gourp e Erable, descidos em pane naquele mesmo lugar, haviam sido massacrados pelos revoltosos. Sabíamos que naquele momento também um bando de mouros armados de trezentos fuzis estava acampado em algum lugar de Bojador. Nossas três aterrisagens, visíveis de longe, haviam com certeza alertado os revoltosos. Começamos uma vigília que podia ser a última.

Instalamo-nos para passar a noite. Tiramos dos aviões cinco ou seis caixas de mercadorias e as dispusemos em círculo, depois de esvaziá-las. No fundo de cada caixa, como dentro de uma guarita, acendemos uma pobre vela, mal protegida contra o vento. Assim, em pleno deserto, na crosta nua do planeta, num isolamento dos primeiros anos do mundo, construímos uma aldeia de homens.

Reunidos para passar a noite na praça grande da nossa aldeia, naquele círculo de areia onde as velas jogavam suas luzes trêmulas, ficamos à espera. À espera da madrugada, que nos salvaria – ou dos mouros. E não sei o que dava aquela noite um gosto de noite de Natal. Contamos velhas histórias, fizemos pilhérias e cantamos.

Saboreávamos o mesmo fervor leve do melhor de uma festa bem preparada. Entretanto, éramos infinitamente pobres. Vento, areia, estrelas. Um estilo duro para trapistas. Contudo, naquele círculo de areia mal iluminado, cinco ou seis homens que não possuíam mais coisa alguma no mundo a não ser suas lembranças trocavam invisíveis riquezas.

Nós nos havíamos, finalmente, encontrado. Anda-se lado a lado muito tempo, cada um fechado em seu silêncio, ou trocando palavras que não encerram nada. Mas eis a hora do perigo. Então vem a ajuda mútua. Descobre-se que se pertence à mesma comunidade. Cada um se enriquece com a descoberta de outras consciências. Então os homens se olham com um grande sorriso. E parecem prisioneiros libertados que se maravilham com a imensidão do mar.

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O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça…

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E pouco a pouco, sem dúvida, nossa casa se fará mais humana. A própria máquina quanto mais se aperfeiçoa mais se apaga e desaparece atrás de sua função. Parece que todo o esforço industrial do homem, todos os cálculos, todas as noites de vigília sobre as plantas, conduzem apenas à simplicidade, como se fosse necessária a experiência de várias gerações para libertar a curva de uma coluna, de uma quilha ou de uma fuselagem de avião até lhe dar a pureza elementar da curva de um seio ou de um ombro. Parece que o trabalho dos engenheiros, dos desenhistas e dos calculistas dos escritórios de estudos é apenas polir e apagar, realizar da maneira mais suave esta juntura de peças, equilibrar esta asa até que não se note mais nada, até que não haja mais uma asa ligada a uma fuselagem e sim uma forma perfeitamente desenvolvida, libertada de sua ganga, uma espécie de conjunto espontâneo, misteriosamente ligado, e da mesma qualidade de um poema.

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Entre um homem e outro homem o espírito reserva um estranho espaço. Um sonho de moça a distancia de mim. Como atingi-la? Que posso saber dessa moça que volta para casa a passos lentos, os olhos baixos, sorrindo para si mesma, cheia de descobertas e mentiras adoráveis? Com os pensamentos, a voz e os silêncios de seu amado ela construiu um Reino – e desde então, para ela, fora desse Reino todos são bárbaros. Mais do que se estivesse em outro planeta, ela está isolada de mim em seu segredo, em seus costumes, nos murmúrios encantados de sua memória. Nascida ontem dos vulcões, da relva, do sal dos mares, essa moça já é meio divina.

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Uma estrela já brilhava, e eu a contemplei. Imaginei que aquela superfície branca em que me achava havia estado ali, feito uma oferta, perante os astros somente, durante centenas de milhares de anos. Lençol imaculado estendido sob a pureza do céu. E senti alguma coisa no coração, assim como no limiar de uma grande descoberta, quando descobri sobre esse lençol, a quinze ou vinte metros de mim, um pedaço de pedra negra.

Eu estava sobre trezentos metros de espessura de conchas moídas. Toda a formação do terreno se opunha, como uma prova peremptória, à presença de uma pedra. Sílices poderiam dormir, talvez, nas profundezas subterrâneas, surgidos das lentas digestões do globo, mas que milagre teria feito subir um dentre eles até o alto, até aquela superfície por demais recente? O coração batendo com força, abaixei-me para apanhar o meu achado; um pedaço de pedra dura, negra, do tamanho de um punho, pesada como metal, em forma de lágrima.

Um lençol estendido sob uma macieira só pode receber maçãs; um lençol estendido sob as estrelas só pode receber poeira dos astros. Nunca antes um aerólito havia mostrado a sua origem com uma tal evidência.

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Não sei o que se passa em mim. Esta força de gravidade me liga ao chão quando tantas estrelas são imantadas. Uma outra força de gravidade me prende a mim mesmo. Sinto o meu peso que me une a tantas coisas! Meus sonhos são mais reais que essas dunas, esta lua, estas presenças. Oh, o que há de maravilhoso numa casa não é que ela nos abrigue e nos conforte, nem que tenha paredes. É que deponha em nós, lentamente, tantas provisões de doçura. Que forme, no fundo de nosso coração, essa nascente obscura de onde correm, como água da fonte, os sonhos…

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Mas eu conheço a solidão. Três anos no deserto me ensinaram bem o seu gosto. O que nos contrista não é a mocidade que se gasta numa paisagem mineral. É o pensamento de que, longe de nós, é o mundo que envelhece.

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Abordando o Mediterrâneo, encontro nuvens baixas. Desço até vinte metros. O aguaceiro bate no pára-brisa e o mar parece estar fumegando. Faço grandes esforços para enxergar alguma coisa e não esbarrar no mastro de um navio.

O meu mecânico, André Prévot, acende um cigarro para mim.

– Café…

Desaparece no fundo do avião e retorna com a garrafa térmica. Tomo um pouco de café. Puxo, de vez em quando, o acelerador para manter duas mil e cem rotações. Passo os olhos pelos mostradores: meus súditos são obedientes, cada agulha está em seu lugar justo. Lanço os olhos para o mar que, sob a chuva, desprende vapores como uma grande bacia de água quente. Se estivesse num hidravião não gostaria de vê-lo tão “esburacado”. Mas estou em avião. Esburacado ou não, de qualquer modo não posso descer. E isso me fornece, não sei por quê, um absurdo sentimento de segurança. O mar faz parte de um mundo que não é meu. A pane, aqui, não me concerne, nem mesmo me ameaça: não tenho negócios com o mar.

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Mais uma vez andei ao lado de uma verdade sem compreendê-la. Pensei que estava perdido, pensei que havia chegado ao fundo do desespero. E, uma vez aceita a renúncia, conheci a paz. Em horas assim parece que um homem descobre a si mesmo e se torna seu próprio amigo. Nada mais prevalece contra um sentimento de plenitude que satisfaz em nós não sei que necessidade essencial que nem sabíamos possuir. Imagino que Bonnafous, perseguidor de ventos, conheceu essa serenidade. E Guillaumet também, na neve. Eu, por mim, não sei como poderia esquecê-la: enterrado na areia até a nuca, lentamente estrangulado pela sede, senti esse calor no coração, sob minha pelerine de estrelas.

Como favorecer em nós essa espécie de libertação? Tudo é paradoxal no homem, já o sabemos. Asseguramos o pão a um homem para que ele possa criar alguma coisa – e ele se põe a dormir. O conquistador vitorioso amolece. E se enriquecemos o generoso ele se torna avarento. Que nos importam as doutrinas políticas que pretendem elevar o homem se, para começar, não sabemos que tipo de homem elas elevarão na terra? Quem vai nascer? Não somos um rebanho na engorda. E a aparição de um Pascal pobre pesa mais que o nascimento de alguns anônimos prósperos.

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Nada sabemos, a não ser que há certas condições que nos fertilizam. Onde reside a verdade do homem?

A verdade não é o que se demonstra. Se nesta terra, e não em outra, as laranjeiras lançam sólidas raízes e se carregam de frutos, esta terra é a verdade das laranjeiras. Se esta religião, esta cultura, esta escala de valores, esta forma de atividade, e não outras, favorecem no homem sua plenitude, libertam nele o grande senhor que se ignorava, esta escala de valores, esta cultura, esta forma de atividade são a verdade do homem. E a lógica? Ela que se arranje para tomar conhecimento da vida.

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A verdade para um homem é o que faz dele um homem. Quando um homem que conheceu essa dignidade de relações, essa lealdade no jogo, esse dom mútuo de uma estima em que se empenha a vida, compara essa elevação à facilidade medíocre do demagogo que exprime sua fraternidade aos mesmos árabes com grandes tapas nas costas adulando-os, mas ao mesmo tempo os humilhando, esse homem, se acaso não concordais com ele, sentirá de vós uma piedade um pouco desdenhosa. E terá razão.

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Queremos ser libertados. O que dá a enxadada no chão quer saber o sentido dessa enxadada. E a enxadada do forçado, que humilha o forçado, não é a mesma enxadada do lavrador, que exalta o lavrador. A prisão não está onde se trabalha com a enxada. Não há o horror material. A prisão está onde o trabalho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade dos homens.

E nós queremos fugir da prisão.

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Antoine de Saint-Exupéry, nascido aos 29 dias de Junho do ano de 1900 em Lyon, na França, foi escritor, poeta e pioneiro aviador. Seu livro mais conhecido é “Le Petit Prince” (O Pequeno Príncipe), originalmente publicado no ano de 1943.

Faleceu prematuramente, aos 44 anos de idade, no dia 31 de Julho de 1944 durante um vôo de reconhecimento sobre o Mediterrâneo, ao sul de Marseille, na França. Não se sabe ao certo se o seu avião foi abatido ou sofreu uma pane.

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Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.

Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de vôo, na Argentina – uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.

Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre tantas estrelas vivas, tantos homens adormecidos…

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.