Saúde

setembro 4, 2016

[4/9 10:18] Jorge: Como beber cerveja se eu não tenho geladeira em casa?

saude_jorge_xerxes1

[4/9 10:18] Jorge: Esta receita é dedicada a todos vocês que estão sedentos por uma boa cerveja gelada.

saude_jorgexerxes2

[4/9 10:40] Jorge: O primeiro passo consiste em ir até o supermercado mais próximo para comprar gelo. 5kg de gelo em cubos é mais do que o suficiente.

saude_jorge_xerxes3

[4/9 10:56] Jorge: Muitas pessoas, que se consideram bom bebedores, iriam direto para casa. Mas esta é uma opção sabidamente equivocada. O correto é: você se exercitou nos últimos três dias? Sim, então retorne direto para casa.

[4/9 10:58] Jorge: Mas se sua resposta for: não, eu não me exercitei. Então, porque não, tapear o gelo e deixar ele suar por Você enquanto toma um bom café da manhã?

saude_jorge_xerxes4

[4/9 11:36] Jorge: Dá tempo até de você passar na casa daquele seu amigo vesgo e pegar a blusa verde que esqueceu no último churrasco. Só toma cuidado para não postar isso se ele estiver no mesmo grupo do whats.

saude_jorge_xerxes5

[4/9 12:04] Jorge: Etapa da máxima importância consiste em preparar um berço suave de gelo onde os bebês irão descansar.

saude_jorge_xerxes_6

[4/9 12:16] Jorge: Sobre o sal: após cobrir as ampolas com o gelo para o seu merecido resfriamento, uma pergunta freqüente é quanto ao uso do sal. Diz-se que o sal reduz a temperatura de fusão do gelo, colaborando para o resfriamento mais rápido da cerveja.

[4/9 12:17] Jorge: Isto é verdadeiro, mas este não é o uso adequado do sal. Lembre-se, Você não tem pressa e o médico recomendou cortar o sal. Se não pretende preparar um churrasco, melhor guardá-lo para um banho de descarrego!

[4/9 13:10] Jorge: Bebedores com décadas de experiência nos botecos desta vida dirão que você falhou por não ter adquirido tira-gostos, dentre os mais recomendados: uns 100g de tremoços, salsichas em conserva ou até um ovo cozido e empanado. Estão redondamente enganados estes Senhores, pois qual é senão o melhor acompanhamento para uma cerveja do que outra cerveja?

saude_jorge-xerxes7

[4/9 13:20] Jorge: Para, enfim, degustar a cerveja, sempre é bom convidar um bom entendedor de cervejas, por questões relacionadas à socialização e também para tecer opiniões e uma intrincada discussão quanto ao paladar de tão precioso e nutritivo líquido. Neste quesito, seja esperto: escolha alguém que beba pouco.

saude_jorge_xerxes8

[4/9 13:29] Jorge: Mas se Você é do tipo que odeia perder tempo com bobagem e acha um pé no saco essa trupe de fanfarrões travestida em degustadores gourmets, seja ainda mais esperto neste quesito. Afinal, ao menos nos momentos agradáveis, a sua opinião deve prevalecer.

saude_jorge_xerxes9

[4/9 13:38] Jorge: Enfim: Saúde!!

saude_jorge_xerxes10

 

Anúncios

Raios que o partam

julho 10, 2015

raios_que_o_partam_jorge_xerxes

A população atual do planeta Terra gira em torno de 7.3 bilhões de seres humanos – dados de Julho de 2015. E aumentando.

O demógrafo russo Sergey Kapitsa propôs uma equação para o crescimento populacional de 67 mil a.c. até o ano de 1965 d.c. Esta equação, desenvolvida a partir de uma função arco-cotangente, permite o cálculo do número de habitantes no planeta, dado o ano de interesse. Entretanto, a aproximação só é válida até o ano de 1965.

Uma estimativa da população total que já habitou este nosso planeta totaliza 107 bilhões de seres humanos segundo Carl Haub do Bureau de Referência Populacional.

O crescimento hiperbólico da população, correlacionado a um retorno não-linear positivo de segunda ordem entre o crescimento demográfico e o desenvolvimento tecnológico, que fatalmente nos levaria a um ponto de singularidade no ano de 2025 (a população do planeta Terra seria infinita), cedeu antes do início da década de 1970. É fato.

Hoje, problemas como a super-população do planeta e o esgotamento dos recursos naturais não passam de mitos propalados aos quatro ventos por aqueles interessados em alimentar os conflitos e a acumulação desmesurada de recursos, que são reminiscências do instinto animal de sobrevivência – aquela estorinha da cigarra e da formiga que ensinaram para você na escola.

A grande questão dos nossos dias é: Como garantirmos que os recursos naturais cheguem a todos os habitantes do nosso planeta – sejam estes materiais ou intelectuais (e ainda aqueles transcendentes)?

É sabido que os raios ocorrem numa frequência média de 44 vezes por segundo na superfície da Terra. Isso representa um total de quase 1.4 bilhões de relâmpagos por ano!

Os ferimentos por raios causam danos sérios no ser humano. Oitenta por cento das pessoas que sobrevivem à queda de um raio apresentam ferimento de longo prazo, muita vez irreversível. Entretanto, a taxa de mortalidade dos seres humanos atingidos por raios é de apenas 10%.

Uma boa estimativa é a de que 240 mil pessoas são atingidas por raios em todo o planeta a cada ano, sendo que destas, 24 mil pessoas chegam ao óbito.

Roy Sullivan tem uma anotação do Livro Guinness dos Recordes pela sua sobrevivência mesmo após ter sido atingido por, nada mais, nada menos, que sete raios ao longo de 35 anos. Depois que sua fama se espalhou, Roy Sullivan era evitado pelas pessoas com medo de que, na companhia dele, um raio as atingisse. Ele morreu no ano de 1983, aos 71 anos de idade, por problemas psicológicos causados por um amor não correspondido.

A verdade é que a chance de um habitante desse nosso planeta vir a ser atingido por um raio ao longo de 35 anos de vida e sobreviver a este é de apenas uma em 965.6 – (240000-24000)x35/7.3 bilhões.

Entretanto, a probabilidade de ocorrer o que aconteceu a Roy Sullivan é de apenas um em 783,000,000,000,000,000,000 dos casos (965.6 elevado a sétima potência). E este número é 7.3 bilhões de vezes maior do que os 107 bilhões de seres humanos que habitaram o planeta Terra ao longo de toda a sua existência. (Observe que 7.3 bilhões é também o número de habitantes atuais da Terra). E, coincidências a parte, Roy Sullivan era realmente um afortunado em raios!

O que eu quero dizer com isso é que cada um de nós tem o dever de fazer brilhar a sua luz interior, lutar pelas suas ideias, pelos seus sonhos porque é evidente que cada ser humano é único, singular.

         

E isso deve ser feito agora. Antes que um raio te parta ao meio!

“E me perdoe se eu insisto nesse tema

Mas não sei fazer poema ou canção

Que fale de outra coisa que não seja o amor”

         

“Se o quadradismo dos meus versos

Vai de encontro aos intelectos

Que não usam o coração como expressão”

– Antonio Carlos & Jocafi

simanca

Existia a vontade econômica e política por parte dos Estados Unidos de controlar os países de economia menos desenvolvida, impedindo-os de se ligarem ao bloco comunista, para assim vencerem a disputa mundial de poder com a URSS e o bloco comunista, negando a estes quaisquer novos parceiros comerciais e diplomáticos.

O governo dos Estados Unidos não aprovava as nacionalizações de empresas americanas realizadas pelo cunhado do Presidente João Goulart e governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola; nem os rumos que a política externa brasileira tomava, de suspensão de pagamento da dívida externa, de não alinhamento, e mantenedora de contatos com ambos os polos de poder (capitalista e comunista).

No governo Jânio Quadros, João Goulart, então vice-presidente, havia visitado, a mando do presidente, a China comunista. Jânio Quadros, mesmo que sem nenhuma ligação com setores de esquerda, condecorara o revolucionário e então funcionário do governo cubano, Ernesto Che Guevara. Isso tudo motivou os americanos a fornecerem aos militares brasileiros o apoio ao golpe. De lá veio ainda o aparato ideológico do anticomunismo, que já era pregado pela Escola Superior de Guerra das Forças Armadas do Brasil, através da doutrina de “Segurança Nacional”.

João Goulart procurava impulsionar o nacionalismo trabalhista através das reformas de base. Os setores mais conservadores, contudo, se opunham a elas. Entre as figuras históricas civis afinadas com o movimento militar, estão os governadores Magalhães Pinto (Minas Gerais), Adhemar de Barros (São Paulo) e Carlos Lacerda (Guanabara, atual Estado do Rio de Janeiro). Políticos influentes, como Carlos Lacerda e até mesmo Juscelino Kubitschek de Oliveira, magnatas da mídia (Roberto Marinho, Octávio Frias de Oliveira, Júlio de Mesquita Filho), a Igreja Católica, os latifundiários, empresários e parte da classe média pediam uma “contra-revolução” por parte das Forças Armadas para remover o governo.

Os Estados Unidos, que já vinham patrocinando organizações e movimentos contrários ao presidente e à esquerda no Brasil durante o governo de João Goulart, participaram da tomada de poder, principalmente através de seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e do adido militar,Vernon Walters, e haviam decidido dar apoio armado e logístico aos militares golpistas.

Desta forma, os militares mais radicais se aglutinaram ao general Artur Costa e Silva, e os mais estratégicos ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Tropas militares, na madrugada do dia 31 de março de 1964, sob o comando do general Olympio Mourão Filho, marcharam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro com o objetivo de depor o governo constitucional de João Goulart.

A partir do dia Primeiro de Abril de 1964, na prática uma junta militar governava o Brasil, porém formalmente foi declarado vago o cargo de presidente da república, pelo senador Auro de Moura Andrade, presidente do Senado Federal, que empossou o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli na presidência.

No dia 11, o Congresso Nacional ratificou a indicação do comando militar e elegeu o marechal Humberto de Alencar Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército. Como vice-presidente foi eleito o deputado pelo PSD José Maria Alkmin, secretário de finanças do governo de Minas Gerais, do governador Magalhães Pinto, que ajudou a articular o golpe. A posse de Castello Branco ocorreu em 15 de abril de 1964 e ele governou o Brasil até março de 1967.

Grande parte da imprensa, os chamados “Diários Associados”, que eram compostos por revistas, rádios, jornais e emissoras de TV, como O Globo, Rede Globo, Folha de São Paulo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo festejaram a deposição do governo de Goulart.

A repressão se instalou imediatamente após o golpe de Estado antes do começo da luta armada. As associações civis contrárias ao regime eram consideradas inimigas do Estado, portanto passíveis de serem enquadradas. Muitas instituições foram reprimidas e fechadas, seus dirigentes presos e enquadrados, suas famílias vigiadas.

Em seus primeiros quatro anos, o governo militar foi consolidando o regime. O período compreendido entre 1968 e 1975 foi determinante para a nomenclatura histórica conhecida como “anos de chumbo”. Sob a vigência do Ato Institucional Número 5 (AI-5) e da Lei de Segurança Nacional de 1969, os “anos de chumbo” foram caracterizados por um estado de exceção total e permanente, controle sobre a mídia e a educação e sistemática censura, prisão, tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores do regime. A prisão arbitrária por tempo indeterminado (suspensão do habeas corpus) e a censura prévia foram especialmente importantes para a prática e o acobertamento da tortura.

A população era moldada pela propaganda institucional e pelos meios de comunicação com os programas de televisão de Amaral Neto, do Repórter Flávio Cavalcanti, dentre outros, com audiência de até dez milhões de telespectadores em horário nobre, número muito expressivo para a época. Havia muitos programas locais com publicidade de cunho institucional, as “maravilhas” e a grandeza do país eram enaltecidas, slogans eram distribuídos fartamente em todos os meios de comunicação.

As universidades brasileiras viviam sob uma verdadeira ocupação militar: professores foram aposentados compulsoriamente, alunos expulsos, livros censurados.

Dentre os maiores adversários políticos que os militares da ditadura percebiam como sendo perigosos, de esquerda e/ou comunistas estavam os sindicatos. Castelo Branco usou a lei trabalhista para eliminar a oposição sindical, interveio em sindicatos e afastou seus líderes. O governo passou a definir a política salarial, reorganizando o Conselho Nacional de Política Salarial de João Goulart. Em pouco mais de um ano, a ditadura impôs intervenção federal em cerca de quinhentos sindicatos: as diretorias foram destituídas e interventores nomeados pelo governo. Os dirigentes sindicais deveriam ter seus nomes aprovados pelo Ministério do Trabalho.

A política de arrocho salarial, além de diminuir o salário real dos trabalhadores, acabou promovendo uma concentração de rendimentos, considerada uma das mais escandalosas em todo o mundo. Em todos os anos da ditadura a renda real (descontada a inflação) média dos trabalhadores caiu.

A política salarial do governo prejudicou a alimentação da população. Estudos mostram que, entre 1963 e 1975, a desnutrição passou de 1/3 para 2/3 da população brasileira, e a desnutrição absoluta chegou a atingir 13 milhões, aproximadamente 1/7 da população. Em resposta a esse problema, o governo baniu a palavra “fome” da mídia.

A política econômica e social do regime militar é criticada pelo crescimento da desigualdade sócio-econômica e da extrema pobreza entre os 21 anos de sua duração, extendendo-se do ano de 1964 até aquele de 1985.

Em 2013, as Organizações Globo reconheceram e desculparam-se publicamente, através de um editorial publicado no jornal O Globo, por terem apoiado a ditadura militar instaurada no país depois do golpe militar de 1964. No texto do editorial, o jornal afirma: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio (ao golpe de 1964) foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

* * *

Nesse dia Primeiro de Abril de 2014 completam 50 anos do ínicio da Ditadura Militar no Brasil. Considerando a impossibilidade de simplesmente fazer vistas grossas as cicatrizes indeléveis calcadas na pele de toda a órfã nação: Que lições nós podemos levar desse triste período de nossa história recente? Conseguimos minorar os graves danos causados no âmbito econômico e social? Como estamos hoje frente ao cenário mundial?

Observam-se os danos causados pelo Regime Militar em duas grandes esferas: aquela da grave e inconcebível violação aos diretos humanos dos cidadãos e outra de natureza econômico e social.

O Produto Interno Bruto (PIB) nominal per capita é o valor final de bens e serviços produzidos num país num dado ano, dividido pela sua população nesse mesmo ano. O PIB em dólares é baseado nas taxas de câmbio correntes do mercado de moedas. Segundo o Banco Mundial (2008), o Brasil ocupava a 54ª posição no ranking do PIB nominal per capta (com o valor de 8400 dólares americanos) dentre 170 países, estando abaixo da média mundial, que é de 8983 dólares americanos.

A concentração de renda brasileira continua sendo das mais vergonhosas do mundo. O coeficiente de Gini do Brasil em 2001 era de 0.594, melhor apenas que a Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. A concentração de renda permaneceu praticamente inalterada durante as últimas quatro décadas, com seus índices oscilando dentre as 10 últimas posições do mundo.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstrou que a desigualdade entre os rendimentos dos trabalhadores brasileiros caiu quase 7% entre o quarto trimestre de 2002 e o primeiro de 2008. Nesse período, o coeficiente de Gini na renda do trabalho, ou o intervalo entre a média dos 10% mais pobres da população e a média dos 10% mais ricos, caiu de 0.543 para 0.505. Entretanto, “para um país não ser primitivo, esse índice precisa estar abaixo de 0.45”, afirmou o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, em entrevista à BBC Brasil.

No Brasil, a alta concentração de renda no topo da pirâmide dificulta a sua medição através dos índices mais comuns como o P90/P10. Isso por causa da anormalidade da distribuição: a metade pobre da população brasileira ganha em soma quase o mesmo valor (12,5% da renda nacional) que os 1% mais ricos (13.3%).

Em 26 de outubro de 2006, a Unesco publicou o relatório anual “Educação para Todos” colocando o Brasil na 72º posição, em um ranking de 125 países.

Estudos sobre a qualidade da educação secundária avaliam os alunos com quinze anos de diversos países. Num estudo da OCDE de 2007, o Brasil ficou em 52º entre 57 países. Em 2010, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) realizado em 2009 mostrou o Brasil na 53º posição dentre 65 países. A avaliação feita com questões de literatura, matemática e ciências mostrou que quase metade dos estudantes brasileiros não atinge nível básico de leitura.

Após a ditadura militar pudemos experimentar os governos de um ex-sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva, e também de uma ex-revolucionária comunista, a atual presidente Dilma Vana Rousseff.

O Programa Bolsa Família é um programa do governo Lula (2003) de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, criado para integrar e unificar o Fome Zero a outros programas de cunho social implantados no governo Fernando Henrique Cardoso. A então primeira-dama, Ruth Cardoso, impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país.

“Vou fazer um governo comprometido com a erradicação da miséria e dar oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras. Mas, humildemente, faço um chamado à nação, aos empresários, trabalhadores, imprensa, pessoas de bem do país para que me ajudem.” – disse Dilma Vana Rousseff em seu primeiro pronunciamento como presidente eleita do Brasil.

Já o Brasil sem Miséria é o programa social do governo federal brasileiro, criado na gestão da presidente Dilma Vana Rousseff. Lançado em junho de 2011, o programa tem como objetivo retirar da situação de pobreza extrema 16.2 milhões de pessoas que vivem com menos de setenta reais por mês. O Brasil sem Miséria consiste na ampliação do programa anterior de combate à pobreza de Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsa Família.

Depois que o governo da ditadura militar brasileira baniu a palavra “fome” da mídia pela censura, parece terem sido bastante acertadas e bem sucedidas as iniciativas dos governos do ex-sindicalista e da ex-revolucionária no combate da fome e da miséria.

Entretanto, o salário real dos trabalhadores é baixo comparativamente aquele de outros mercados, fazendo do Brasil prioritariamente um fornecedor de matérias-primas, celeiro de mão-de-obra pouco qualificada, ainda assim mantendo certa massa consumidora de produtos manufaturados: condições favoráveis às economias mais fortes e aos cartéis dominantes para a pilhagem capitalista – abençoada e legitimada pela ONU – no ínicio desse terceiro milênio.

 

Da pressão dos dias

outubro 30, 2013

 

 

Enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu: da indescritível contrição de minha alma, suprema angústia, que verte através de meu punho esquerdo nessa grafia imprecisa, ziguezagueante e tonta; à umidade do papel que, agora seco, outrora sorveu parte das lágrimas deste inverossímil remetente. Pouco importa como estes parcos arranjos de letras, sílabas, palavras, sentenças chegarão aos teus sentidos; saiba que valem cada árvore derrubada para a preparação de redação simples em folha; ainda que você a despreze, de novo e de novo, como é teu o costume de negligenciar a essência em detrimento de outros tantos retalhos insignificantes, duma existência reles.

 

Que fique desde já grafada a ferro e fogo, como se marca o gado, a minha desaprovação a esse teu comportamento mesquinho, ao teu egoísmo; o que credito a mais absoluta falta de sensibilidade.

 

Entretanto, e apesar disso, prossigo. Faço votos que em momento oportuno você retorne a estas mal traçadas linhas, este raciocínio torto de poeta, de quem tenta enxergar por frestas, ou através da bruma.

 

Vale lembrar que o tubo de pitot foi inventado pelo engenheiro francês Henri Pitot no inicio do século XVIII e aprimorado na metade do século seguinte pelo cientista Henry Darcy ao seu formato atual. Este simples aparato é largamente utilizado em aeronaves para a medição da velocidade.

 

O medidor de pitot consiste em fino tubo alinhado na direção do fluxo atmosférico, ou seja, alinhado à direção de voo. Outra abertura é alinhada ortogonalmente ao fluxo de ar, em geral num plano paralelo à superfície da fuselagem. Essas tomadas de ar apresentam duas diferentes pressões: a primeira delas diz respeito à pressão de estagnação, enquanto a outra se refere à pressão estática. Ambas as pressões são confrontadas, conduzidas aos lados opostos de um vaso com diafragma central, de modo que a deformação desta membrana está associada à pressão dinâmica de fluxo. A pressão dinâmica é também igual à metade da densidade do ar vezes a velocidade da aeronave ao quadrado, sendo então possível a avaliação dessa grandeza.

 

Mas esta velocidade é medida em relação a qual referencial? A aeronave está viajando no espaço e para a sustentação interessa apenas a sua velocidade com relação ao fluxo de ar. Em última análise, pouco interessa a velocidade da aeronave com relação ao solo. A sustentação pode ser garantida mesmo com esta parada, desde que seja provido necessário fluxo ar, como é o caso dos ensaios em túnel de vento.

 

Habitando essa nossa pedra celeste, somos bombardeados por flutuações da pressão de estagnação advindas do meio. Estas ondas sonoras que viajam pelo ar chegam aos nossos tímpanos – as membranas internas dos nossos ouvidos. Doutro lado do tímpano há a pressão interna do aparelho auditivo, e a modulação da pressão dinâmica resultante é o que possibilita o sentido de audição.

 

Os padrões se repetem. Por analogia, podemos pensar nas demandas do mundo externo a se chocarem com as nossas expectativas mais íntimas – abordando a questão pelo viés da psicologia. As pressões conscientes se contrapõem àquelas inconscientes resultando daí o estado de espírito mais ou menos depressivo, mais ou menos maníaco. Enfim, a tênue fronteira entre o equilíbrio mental e a loucura.

 

Todos estes problemas estão associados à acomodação dos opostos em cada um desses pontos de medida, à nossa experiência. O frio e o calor, o leve e o pesado, a luz e a treva: são facetas da realidade última que é.

 

A percepção da realidade é atributo intrínseco à vida em todas as suas formas, das mais simples aos mais complexos organismos. E viver não passa de uma viagem no fluxo de eventos do espaço-tempo.

 

Por isso tudo, imagine dentro de cada uma de nossas cabeças um buraco negro, uma dobra do espaço-tempo, um ponto onde o observador se funde ao universo de eventos, com potencial de realimentação das expectativas, da geração de respostas criativas e reorganização dos padrões da realidade.

 

Se for isso mesmo, dobra no espaço-tempo, cada criatura pode ser representada por uma onda se propagando no oceano que é o universo. Uma dobra, uma onda, um vinco que surge pequenino da surpresa de aperceber-se vivo até a sua completa reintegração ao fluxo cósmico.

 

E fique desde já grafado a ferro e fogo, como se marca o gado: enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu. Noutro canto, entretanto, brotos nascem das sementes de sonhos.

 

Pra quem tem cabeça feita

outubro 4, 2012

O candomblé é religião anímica original dos povos nativos da África como são, por exemplo, as nações nagô, ketu, jeje, dentre outras. O iorubá é a língua africana tradicional de onde advém a maioria dos termos usados no candomblé. Existem características próprias e nuanças que distinguem o candomblé nagô, do candomblé ketu, do candomblé jeje, dos candomblés de outras nações.

Esses diferentes candomblés disputam axé, que é sinônimo de poder, de vitalidade e de fundamento; sendo diametralmente opostos á ideia do sincretismo. Isto é, quanto mais puro, original, de raiz é o fundamento da casa, ou ilê, e do pai de santo, maior o seu axé. Nessas disputas de poder entre as casas é comum xoxar ou a xoxação, que consiste em maldizer, enfraquecer o outro, torná-lo sem axé. É no chão do ilê, no chão da casa de santo, que se encontra armazenado o seu axé. Awo é o segredo – conhecimento e fundamento – que é transmitido nos cultos, no boca á boca, pelo pai de santo, ou dos ebomis para os abiãs.

Sendo o candomblé uma religião anímica, admite orun-aiye, a ligação do plano espiritual com o mundo físico, tudo o que existe no orun coexiste no aiye. Aiye é o mundo físico, sendo orun o plano espiritual. Os orixás das nações nagô e ketu – equivalentes aos voduns do candomblé jeje – são semideuses ou divindades, também chamados de santos, representações das potências da natureza, entidades sobrenaturais com traços psicológicos (arquétipos) distintos, criados pelo Deus supremo, por sua vez denominado Olorun. Estes orixás, que habitam orun, têm grande influência sobre os acontecimentos do plano físico, ou aiye.

Segundo consta, existem centenas de orixás. Dentre os mais conhecidos, pode-se citar: Oxalá, orixá do branco, da paz, da fé. Ogum, orixá da guerra, deus da sobrevivência. Oxóssi, orixá da caça e da fartura. Exu, orixá guardião dos templos e das casas, passagens e encruzilhadas, mensageiro divino dos oráculos. Oxumaré, orixá do arco-íris e da chuva, dono das cobras, o orixá das transformações. Xangô, orixá do fogo e do trovão, protetor da justiça. Ossaim, orixá das folhas sagradas, que junto com Oxóssi protege as matas e os animais. Obaluaiyê, orixá das doenças e das pragas, o orixá da cura. Oxum, orixá feminino dos rios, do ouro, deusa das riquezas materias e espirituais, dona do amor e da beleza, protege os recém-nascidos. Iemanjá, orixá feminino dos mares e limpeza, mãe de muitos orixás; dona da fertilidade feminina e do psicológico dos seres humanos. Oyá ou Iansã, orixá feminino dos ventos, dos relâmpagos e das tempestades; também é a orixá das paixões.

De acordo com o candomblé, como os santos têm influência no quotidiano dos humanos, é importante estabelecer a aliança do orixá com a pessoa, o iaô. No ritual de iniciação no candomblé, ou iaô, o aspirante – até então denominado abiã – é raspado; i.e., o abiã tem a cabeça raspada, a pessoa e seu orixá são feitos; diz-se também que fulano é feito no santo, fazer o santo, na feitura da cabeça.

A partir do iaô, a cerimônia de feitura da cabeça, o ori, que é o centro da cabeça, passa a ser habitado pelo orixá e a aliança é estabelecida. Mas para isso, é necessária a preparação anterior do abiã. Essa preparação dá-se pela sua participação nas casas de culto; pelas suas oferendas aos orixás, os ebós, que são rituais mágicos; ou ainda através do bori, que significa dar de comer ao ori, ou dar de comer á cabeça.

Esse longo processo, a feitura, a fabricação do santo e da pessoa, diz respeito ao desvelar do enredo individual. Assim, cada pessoa tem o seu próprio enredo, que vai sendo forjado com o progressivo estabelecimento de laços com os seus legítimos orixás. Para orientar e caracterizar a senda do indivíduo o pai de santo pode valer-se da comunicação direta com os orixás, através do transe, onde ele é possuído pelo orixá, ou por outros meios de comunicação com os santos.  

O jogo de búzios é o mais comum dentre esses oráculos, ou meios de comunicação com os orixás. Este consiste na leitura da conjunção de dezesseis odus. Odu é o elemento binário de comunicação; caracterizado pela concha, búzio, botão ou semente; que pode apresentar-se aberto ou fechado, quando jogado sobre a mesa. Da configuração desses dezesseis odus, entre abertos e fechados, resultam 65536 possibilidades de leitura do oráculo, que estão ligadas ao mesmo número de versos constantes no awo, que é o segredo, também conhecimento e fundamento do candomblé. Logo, o jogo de búzios não é encarado como mera adivinhação, mas um canal legítimo de comunicação com as potências ocultas da natureza, que são representadas pelos arquétipos dos orixás.

Retornando aos possíveis enredos da pessoa, estes são os mais variados, como são as potencialidades individuais. Alguns podem vir a serem ogãs (homens) ou equedes (mulheres), aqueles iniciados que nunca serão possuídos pelo orixá; diz-se que os ogãs e as equedes nasceram sete anos antes dos rodantes. Já o rodante é a pessoa que é possuída pelo orixá, aquele que vira no santo, que tem o orixá assentado. Olori é o orixá da pessoa, o senhor do ori, o senhor da cabeça. Porém, com o tempo, a pessoa pode ter outros orixás assentados, o que aumenta ainda mais o seu axé. Junto ou oju ori é o orixá ajudante; e carrego é o terceiro orixá. Finalmente, ebomi é a pessoa com pelo menos sete anos de raspado, da sua iniciação ou iaô, já pronta para ter os seus próprios filhos de santo.

Ref.: Carmem Opipari, O Candomblé: Imagens em Movimento – São Paulo – Brasil, Editora da Universidade de São Paulo, 2009.

Lendo nos jornais, já na minguante desse mês de agosto de 2012, sobre o julgamento do mensalão – um esquema de corrupção do Executivo denunciado sete anos atrás – é difícil calar ante a minha indignação.

Se por um lado os envolvidos no esquema estão sendo condenados pelos seus crimes, se a imprensa de hoje tem “certa” liberdade para a expressão das ideias em maior sintonia com a gravidade dos fatos, a convalescença social brasileira parece-me ainda ter repercutido pouco frente a apatia dos cidadãos e o sorriso amarelo na cara da classe dominante.

Eu penso ser mesmo inconcebível que o alto nível dos Poderes Executivo e Judiciário – estes senhores que recebem contracheques ordens de grandeza superiores aqueles dos trabalhadores assalariados – esteja dispondo de tanto tempo e energia discutindo erros crassos, práticas internas tão evidentemente criminosas. O desvio de verba pública está anos-luz distante dos padrões mínimos de ética e de conduta profissional aceitáveis para os responsáveis pela administração do país.

Enquanto isso, o trabalhador assalariado – aquele que realmente paga o pão e o circo – sobrevive no limiar da dignidade humana. Convenhamos, a saúde pública, a educação pública, a infra-estrutura (o saneamento básico, a condição das vias e das praças) e a seguridade social mostram sinais inequívocos de sua falência iminente. Sim, estamos verdadeiramente flertando com uma falência múltipla de órgãos. E não adianta tapar o sol com a peneira da estatística, com essa lógica rasteira dos indicadores sociais: “se eu como muito e você come pouco então, na média, nos alimentamos bem.” Parece-me mesmo não termos evoluído muito desde o dia 13 de maio de 1888.

Morando no Rio de Janeiro há pouco mais de um mês, sinto-me ainda assombrado por essa cidade onde os contrastes mostram-se tão evidentes. Creio ainda não ter desenvolvido o sentido da visão seletiva. Por isso vejo o cartão postal mais bonito do Brasil maculado pela pior das chagas, pelo esgotamento do principal recurso de uma nação: o ser humano.

Precisamos urgentemente de coragem, de atitude, de um resgate da ética; de seres humanos realmente comprometidos uns com os outros – interessados em deixar um legado digno para os nossos filhos e para a nossa nação. Lugar de bandido é na cadeia, não no Planalto.

No último domingo, dia 12/08/2012, estive na Bienal do Livro de São Paulo para o lançamento de meu terceiro livro de contos, crônicas e poesias – “Trama e Urdidura”. Foi uma experiência e tanto. Vale ressaltar que nunca havia participado de um evento literário dessa proporção; tanto como leitor quanto como autor. E a trilha sonora do dia certamente foi o álbum “Bob Dylan’s Greatest Hits”, que eu havia adquirido no dia anterior, em versão cd. Lembro desse vinil girando ininterruptamente na vitrola da república em Barão Geraldo, nos idos de um mil novecentos e noventa e tanto: saudosos anos de Unicamp!

Foi muito gratificante participar da Bienal e poder contar com a presença de poucos, mas grandes amigos – pessoas realmente importantes em minha vida. Agradeço-os de coração!

Em meio àquele universo de livros, de pessoas ávidas pela leitura, se eu tenho uma crítica a fazer, essa diz respeito ao fato de que ainda lemos muito do mesmo. As obras clássicas – o que é bastante positivo – pois são textos que conseguiram tocar o inconsciente coletivo, atravessando gerações, acrescentando novos elementos e percepções à experiência humana nessa nossa pedra celeste. Mas também muitos livros sobre outros livros: explicando, imitando, parodiando ou mesmo distorcendo as obras supracitadas ou textos com alto grau de ineditismo – estes sim, em minha opinião, aqueles que são realmente relevantes. E, para terminar, uma avalanche de livros bastante superficiais: aqueles de autoajuda e uma miríade de romances insossos.

Independente disso, procurando bem, é possível encontrar textos literários de qualidade. Sim, pois vivemos um momento histórico de grande dinamismo, o que favorece a efervescência das ideias, aguça-nos a criatividade e os sentidos. Resultando daí obras contemporâneas com alto grau de ineditismo e relevância; embora sejamos ainda um tanto incompetentes em filtrar tamanho volume de informação, e muitas vezes sucumbimos às artimanhas de um mercado editorial fundamentado no lucro imediato em detrimento de um trabalho consistente e sério de depuração.

“Trama e Urdidura” é o último livro da trilogia dos “Livros Negros” de Jorge Xerxes; trilogia esta composta pelas obras “As Cinquenta Primeiras Criaturas” (2010), “Para Pescar a Lua” (2011) e “Trama e Urdidura” (2012). Quem lê atentamente “Trama e Urdidura” desvendará a origem do heterônimo Jorge Xerxes, sob o qual decidi assinar a minha produção literária. Também entenderá porque designei acima essas três obras como a trilogia dos “Livros Negros”.

Quem me acompanha de perto sabe que escrevo pouco. A experiência da escrita para mim resulta sempre num evento catártico. É como se eu fosse uma “pilha” absorvendo a “energia” do relacionamento humano, dos ambientes nos quais circulo, das experiências boas e ruins nas quais me vejo envolvido. Tudo isso vai sendo captado pelos meus sentidos, aumentando a tensão, crescendo dentro de mim em intensidade. E, de repente, num ímpeto de saturação, toda essa “energia” – estas impressões inconscientes – é transmitida, pelo processo de sublimação, para a composição de um conto ou de uma poesia. A conexão entre os textos é tênue, como são os laços que unem as gotas de um lago, ou as moléculas do ar. Tudo se mistura (e ao mesmo tempo não), tudo se agita, é uma escrita viva. Assim eu vejo a minha escrita.

Enfim, como escritor, não tenho a pretensão de ser melhor ou pior que ninguém. Acho que por isso minha obra pode soar, à primeira vista, fragmentada, sem pé nem cabeça, paradoxal. Pois faço absoluta questão de que aquilo que escrevo seja uma expressão sincera de minha alma – com suas angústias, inseguranças, alegrias, tristezas, amores e êxtases. Trocando em miúdos: quando você lê os meus textos eu gostaria que você usasse os meus óculos, que você enxergasse o mundo como eu o vejo. Isso pode te parecer por vezes assustador, maravilhoso, aterrorizante ou sublime. Mas faço votos de que, através de sua experiência pessoal da leitura usando esses meus óculos, você possa enxergar o mundo sob uma perspectiva diferenciada e ampla (assim como eu creio que aconteceria comigo, se eu pudesse usar os seus óculos). Quando eu te empresto meus óculos, dôo-te um pedaço do meu ser. 

As impressões são espólios do domínio da realidade a impingirem marcas às faces. Mesmo estas hão de se curvarem ante o escoar do tempo. Por isso, ama enquanto a vida te habita. O tempo – vento de grãos – a polir laboriosa e ininterruptamente a realidade da rocha. Assim: as faces transformar-se-ão em cadáveres, e a carne vincada (macerada) servirá de nutriente aos vermes; pois operam através de percepções concomitantes ao fluxo, as impressões. Não há maquilagem, silicone ou antioxidante que dê jeito. Da realidade última nada, ninguém escapa. Sã e salva é a criatura dedicada a uma estranha transcendência daquilo que é árvore. Da essência dela, extraído o tronco, trabalhado em abrigo ao corpo. Pensa no féretro como veículo para o corpo de além-vida. Tão somente isso. Pensa, a realidade é o que fica: daqui nada se leva. O amor distribuído em vida será a realidade dum sorriso; o ressentimento e o recato, gargalhada bizarra na boca do infinito.

Photography by Joanne Wells: ‘Bonaventure Cemetery with Moss Draped Oak, Dogwoods and Azaleas’, Savannah, Georgia, USA.

Instantâneos

abril 4, 2012

Dezoito excertos de, e duas palavrinhas sobre, “O fotógrafo”, de Cristovão Tezza.

“…o Brasil é uma concentração estúpida de gente em subespaços esmagados e inabitáveis rodeados de um vazio continental.”

“Para o renascimento, ela determinou-se, é preciso controlar também essas pontas ressentidas: muitas coisas que podia ter ou ser e que se esvaíam, com os dias, pelos longos dedos da mão.”

“Não há grandeza nenhuma em estar sozinho, ao contrário do que parece – a solidão é só a forma discreta do ressentimento: quem disse isso? Era como se a conversa do homem e a memória de Lídia se misturassem. O pior que pode acontecer aceitando esse trabalho é você ganhar dinheiro, ele mesmo se disse, no elevador, os 200 dólares no bolso.”

“Você quer saber por que tudo é ressentimento? Porque morremos no fim. Ressentir contra Deus é inútil. Assim, ressentimos contra os outros, que nos atravancam; ou contra ninguém, sozinhos, na nossa toca escura. É isso que você quer? Essa cidade, como todas as outras, quer exatamente isso de você. Não aceite, recuse, saia para fotografar o mundo.”

“Jesus te ama, o homem repetiu sorridente, abrindo a gaveta de onde tirou as duas notas novas, estalantes, cheirosas. Vá em frente.”

“A menina acomodou-se a mesa, surpreendentemente tranquila: a mãe nervosa como que eletrificava a casa inteira, reduzindo-a a um silêncio expectante e temeroso. Eu não preciso de muita coisa para viver, ele calculou; sou um ser mínimo, leve, transparente. Praticamente não ocupo espaço, mesmo com um peso um pouco acima da média, e ele sorriu, pensando em dizer isso em voz alta, alguém que faz uma piada e pede paz. Deu mais um gole de cerveja.”

“Danton olhou para ela e viu, deve ter visto, ela imaginou, que Íris estava prestes a chorar, é a tal pornografia, coisa que nos transforma sem passar pela alma, só pela mecânica dos nervos. A prostituição, disse dona Mara – por isso, só por isso, não foi hoje à sessão. Terá de pagar pela falta. As pessoas pensam que sabem o que está na nossa cabeça e na nossa pele, ela pensou, lembrando o dia em que fez a tatuagem no tornozelo, aquelas asinhas doídas, ponto a ponto. Ao gemer, ela lembrou – a imagem familiar do vulto voltando segundo a segundo – ele disse algo como ‘espere’ ou ‘aguarde’, ou ‘você vai ver’, ou ‘eu vou pegar você’. Talvez não tenha dito nada, ela fechou os olhos tentando se transportar para aquele segundo, mas era isso que ele diria se a dor do chute no saco que ele levou o deixasse falar; mas ele gemeu alto falando. E eu estou com medo.”

“Debruçou-se com a lupa em outro fotograma: agora ela estava em pé, nítida no quadro da porta daquela cozinha sem foco, e o sol, num instante, derramou-se sobre ela pelas beiradas como um bico de pena ao avesso fazendo o contorno de luz de todas as coisas. Íris era uma sombra, mas o rosto, no instante da foto, voltou-se para ele e a luz como que se propagava nela. Deteve-se no rosto: é por isso que eu amo os retratos, ele pensou. Agora havia surpresa, e a lupa lhe dizia, era uma mulher surpreendida que ele via, suspensa no gesto do tempo, olhando firme para ele, quase inquisitiva; mais um segundo e a surpresa teria dado lugar à pergunta.”

“A minha composição é sempre conservadora – uma vez lhe disseram; se ela chega a ser clássica, ótimo; se fica no meio do caminho, o fotógrafo está morto. Mas este enquadramento está perfeito, ele teimou, como uma vingança infantil contra o exército digital: essa foto não precisa ser recortada – o olhar do fotógrafo e o olhar de Íris se bastavam.”

“Em pouco tempo, se ele fosse um bom feiticeiro, veria a sua Íris surgindo, do nada, sombra a sombra, na folha em branco: era o momento de seu trabalho, cada vez mais raro, que parecia não perder o sopro do encantamento, como se ainda ouvisse o sussurro do tio aprovando sua perícia e seu talento.”

“Acordou suado, no clímax de um sonho que não lembrou nada no segundo seguinte: alguma coisa escura, tentou pensar, e levou um lapso de tempo até voltar a terra, aqui e agora, como uma fita que se rebobina, imaginou. Interrompeu o gesto de acender a luz da cabeceira lembrando-se da mulher que, nua, o abraçava ressonante sobre o lençol – uma noite quente. Com delicadeza, desvencilhou-se do braço que o enlaçava, e a mulher, um bebê que se ajeita na oitava nuvem do sono, virou-se para o lado, agora em silêncio absoluto.”

“Ela acordou de um sonho devastador e, ao abrir os olhos para a escuridão do quarto, tateou a cama e descobriu-se só. Procurou o interruptor da luz de cabeceira e a luz como que lhe devolveu um senso brutal de realidade, naquele instante não muito melhor que o sonho, do qual, aliás, se esqueceu imediata e completamente. Fez um esforço inútil para lembrar-se dele, mas isso funcionou apenas como um álibi para não acordar – e a memória recusava a servi-la. Sonhei nada, ela se disse, pensando vagamente que horas seriam e onde andaria seu fotógrafo, e sentou-se na cama, totalmente acordada agora, mais um dia irrevogável. O mau humor das manhãs, ela relembrou o que ouviu a vida inteira de sua mãe – custava a sintonizar o mundo para enfim se mover.”

“É preciso recuperar os sinais por onde andei para saber onde estou exatamente.”

“E encheu outro cálice, o último, brindando à porta fechada por onde entrevia o vulto imaginário de seu antigo fotógrafo chegando para ouvir dela, enfim, claramente, nitidamente, palavra por palavra, uma coisa de cada vez, que as pessoas se transformam, e isso é muito bom.”

“Ele sentiu alguma coisa pesada e o coração começou a bater mais forte. Deu outro gole no vinho, vigiado pelo olhar devastador de Íris. Podia sentir a sua aura diante dele, e com ela um toque de medo. Ela é mais alta do que eu, ele calculou, vendo as sombras das cabeças na parede, e os dedos brancos e longos de Íris batendo o cigarro no cinzeiro; ele ouvia a respiração dela, e lutou para não se amedrontar – isso não é nada, ele se disse, olhando o cálice; é um encontro fortuito que se transforma em confissão, e, através dela, em purificação…”

“…era só um escapismo, eu sei. As coisas não dão certo de um jeito e daí você imediatamente inventa uma moda para justificar, uma espécie de álibi. Não é assim? Você diz que está num lugar mas nunca esteve nele. – Ela riu, pensando no que tinha acabado de dizer. – Alguém me disse que eu podia ser modelo e… bem, muitas vezes me disseram isso. – E como se ela quisesse confirmar a consistência do que diziam, abriu de novo o envelope e de novo se concentrou em ver-se, mas agora com uma dureza no olhar, sem admiração nem autopiedade, ele avaliou, agora ela estava vendo também o olhar dele, fotógrafo, e no fundo tentava descobrir o que aquele olhar tinha de verdade, no que aquela imagem equilibrada em preto e branco, no que aquela delicadeza em chiaroscuro teria parentesco com ela mesma. Agora – ele continuou avaliando, dando mais um gole de vinho e tentando ganhar tempo – parece que o sonho acabou, é isso que está no rosto dela, alguma descoberta; é como se ela visse um longo filme naquela imagem que do papel olhava para ela, e ali fosse se decifrando – a fotografia como espécie de chave, ele pensou, tentando adivinhar o que era a umidade dos olhos de Íris, se fumaça, se lágrima, se pornografia, ela pensou, tentando se controlar, aquilo sobre o que não temos controle, e mordeu o lábio devagarinho para não se entregar enquanto se via assim, tão bonita no papel e tão desesperadamente inútil na vida real…”

“– Porque o dinheiro não é tudo na vida – e, primeiro ele, depois ela, caíram na gargalhada, como quem enfim descarrega a eletricidade de um dia inteiro.”

“– Fotografar, é claro. – E ela abriu mais uma vez o envelope. – São as duas melhores fotografias da minha vida. Só quem ama o que faz poderia me ver assim – ela acrescentou, como um enigma.”

Lançada originalmente no ano de 2004 – e apreciada em sua segunda edição, revista, do ano de 2011, pela Editora Record – a obra descreve o drama psicológico de umas poucas personagens que se desenvolve ao longo de um único dia na cidade de Curitiba.

Um livro sobre a dicotomia dos anseios e das inseguranças no universo interior frente à crueza do quotidiano; também sobre a interação dessas polaridades na determinação de certo grau de aleatoriedade na dinâmica das relações estabelecidas entre as criaturas.

É sabido que valemo-nos dos nossos sentidos para a percepção da realidade. Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?

Os sentidos constituem capacidades fisiológicas dos organismos que suportam a percepção. Os sentidos, sua operação, classificação e teoria caracterizam tópicos que se sobrepõem e são estudados numa grande variedade de áreas da ciência; especialmente a neurociência, a psicologia cognitiva e a filosofia da percepção. O sistema nervoso tem um sistema sensorial ou órgão específico e dedicado para cada um dos sentidos.

Os seres humanos apresentam uma multiplicidade de sentidos, sendo os cinco sentidos primários, tradicionalmente reconhecidos: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Dentre os outros sentidos humanos podemos citar: a percepção térmica; a dor; as sensações de equilíbrio e de aceleração; e a próprio-percepção (ou percepção e controle dos nossos próprios membros e músculos, esta inclusive pode ser treinada para tornar-se semi-automática, ou mesmo automática, possibilitando que o nosso cérebro se ocupe prioritariamente de outras atividades simultaneamente à realização de tarefas já internalizadas, um exemplo: conversar e dirigir, apesar de politicamente incorreto).

O sistema visual é parte do sistema nervoso central que possibilita ao organismo o processamento detalhado da visão, assim como coordena várias outras funções de foto-resposta não imagética. Ele inclui os olhos, os conectores para o córtex visual e outras partes do cérebro. O sistema visual interpreta a informação recebida através da luz visível e é responsável pela construção da representação do mundo à nossa volta.

Os nossos olhos constituem um complexo mecanismo biológico. O funcionamento de uma câmera fotográfica é frequentemente comparado àquele dos olhos, pelo fato de ambos focalizarem a luz dos objetos externos que estão no campo de visão sobre um meio sensível à luz. No caso da câmera, este meio é o filme fotográfico ou um sensor eletrônico; no caso do olho trata-se de uma matriz de receptores visuais. Valendo-se ambos do mecanismo da similaridade geométrica embasado pelas leis da ótica. A luz que penetra através dos nossos olhos é refratada na passagem pela córnea. Ela atravessa então pela pupila (controlada pela íris) e é novamente refratada. A córnea e a pupila trabalham em sincronia, como um conjunto de lentes para projetar uma imagem invertida e passível de percepção sobre a retina.

A retina consiste numa miríade (ou uma matriz) de células fotorreceptoras. Essas células fotorreceptoras contêm moléculas de proteínas específicas denominadas opsinas. A rhodopsina é encontrada nas células radiais que são periféricas à retina e tem a função de captação da luz para a visão noturna. Existem três tipos de opsinas cônicas, as quais são encontradas, por sua vez, nas células do cone central da retina: cada um desses tipos é diferenciado conforme as faixas do comprimento de onda luminosa que é capaz de absorver, sendo as opsinas curtas aquelas que absorvem o espectro do azul, as opsinas médias aquelas que absorvem o espectro do verde e as opsinas longas aquelas que absorvem o espectro da luz vermelha. Essa matriz de opsinas que compõem a retina é a responsável pela absorção dos fótons e a transmissão do sinal nervoso para células conectoras que o encaminham ao córtex visual.

Um estudo da Universidade da Pensilvânia calculou que a estrutura da retina humana é capaz de absorver aproximadamente 8960 kilobits por segundo de informação visual, enquanto um porco de Guiné tem a capacidade da absorção através de sua retina de apenas 875 kilobits por segundo.

Entretanto, diferentes espécies são capazes de ver (são sensíveis a) diferentes faixas do espectro luminoso. Os gatos têm a habilidade de enxergar mesmo com grande escassez de luz graças aos músculos no entorno de sua íris, permitindo contrair e expandir muito as suas pupilas, bem como ao tapetum lucidum, uma membrana reflexiva que otimiza a visão felina.

Pitvipers, pythons e outras serpentes venenosas (especialmente aquelas que habitam as cavernas) apresentam órgãos sensíveis ao infravermelho, os quais permitem a percepção do calor do corpo de suas presas. O famoso morcego-vampiro apresenta também um sensor infravermelho no seu nariz. Foi descoberto que os pássaros e alguns outros animais são tetra-cromatos; i.e. eles apresentam a capacidade de percepção da luz ultravioleta até o comprimento mínimo de onda de 300 nanômetros. E as abelhas e as libélulas são também sensíveis ao ultravioleta.

A audição também é um dos cinco sentidos primários; caracteriza-se pela habilidade da percepção de ondas sonoras pela detecção de vibrações através de um órgão como o ouvido Nos humanos e noutros vertebrados ouvir é possível graças ao sistema auditivo: as vibrações são detectadas pelo ouvido e transmitidas através de impulsos nervosos para o cérebro, especialmente para o lobo temporal. Assim como o tato, a audição dá-se pela sensibilidade ao choque de moléculas do mundo exterior contra a superfície do organismo; e por isso ambos, a audição e o tato, são denominados sentidos mecânicos.

Simplificadamente, o mecanismo da audição consiste no seguinte: O canal do ouvido ajusta a pressão das ondas de ar recebidas para uma mesma faixa de comprimento de onda. No ouvido interno, essas vibrações sonoras são detectadas por células capilares localizadas na membrana basilar, e a decomposição em diferentes frequências de onda dá-se ao longo do comprimento dessa mesma membrana. A membrana basilar separa as frequências: as frequências altas produzem maior ressonância próxima ao final do ouvido médio, enquanto as frequências mais baixas produzem maior ressonância na extremidade oposta. Em suma, a membrana basilar realiza ininterruptamente análises do tipo de uma transformada de Fourier, transmitindo a informação da frequência e da intensidade sonora através do nervo auditivo diretamente para o fluxo cerebral.

Nos humanos, o limite inferior e a capacidade de localizar fontes sonoras são reduzidos significativamente debaixo d’água, meio no qual a velocidade do som é maior que aquela do ar. A audição subaquática é pela condução dos ossos e a localização do som parece depender de diferenças na amplitude detectadas pela condução através dos ossos.

Nem todos os sons são normalmente audíveis por todos os animais. Cada espécie apresenta as suas faixas específicas de audição tanto no que diz respeito à amplitude quanto à frequência sonora. Muitos animais usam o som como meio de comunicação e, portanto, a audição nessas espécies é de importância ímpar para a sobrevivência e a reprodução. Em espécies que usam o som como fonte primária de comunicação, a audição é mais apurada na faixa de frequência da fala. Frequências de áudio, ou sonoras, é como são comumente denominadas aquelas capazes de serem ouvidas pelos humanos, tipicamente na faixa de frequências entre os 20 Hz e os 20 mil Hz.

As frequências mais elevadas que aquelas de áudio são denominadas ultrassônicas, enquanto as inferiores são denominadas infrassônicas. Alguns morcegos usam a faixa de ultrassom para a ecolocalização em vôo. Os cães também são capazes de ouvir ultrassons, e este é o princípio de funcionamento dos apitos caninos silenciosos (ao menos para nós, humanos). As cobras têm sensibilidade aos infrassons pelas suas barrigas alongadas e esbeltas; enquanto as girafas, os elefantes, os golfinhos e as baleias usam a faixa de frequência dos infrassons para a comunicação.

Alguns animais incluindo os morcegos e os cetáceos tem a capacidade de determinar a sua orientação e velocidade com relação a outros corpos ou objetos pela interpretação da reflexão sonora e do efeito Doppler, como se tivessem um sonar. A este sentido específico denomina-se ecolocalização.

Insetos como as moscas e as borboletas têm sensibilidade ao paladar nos seus pés, permitindo que eles saboreiem qualquer superfície sobre a qual eles pousem (daí a preferência pelos doces e flores, respectivamente, no caso dos primeiros e dos segundos). O peixe-gato, por sua vez, possui o seu sistema palatável ao longo de toda a superfície externa do corpo, permitindo que ele identifique apuradamente a qualidade e acidez do meio aquático no qual ele se encontra (e por isso você nunca encontrará essa espécie nadando em águas poluídas).

A maioria dos mamíferos não-humanos apresenta o sentido de olfato muito mais apurado que aquele dos humanos, apesar de em ambos os casos os sistemas olfativos serem bastante similares. Os tubarões têm um senso de olfato tão apurado que estes são capazes de determinar com grande precisão inclusive a direção do estímulo, fazendo com que localizem mais eficientemente a sua presa, mesmo a grande distância. Já os insetos apresentam receptores olfativos em suas antenas.

A eletro-percepção é o sentido da percepção de campos elétricos. Várias espécies de peixes, tubarões e arraias têm a habilidade de alterar os campos elétricos dos seus entornos imediatos. Alguns peixes têm a percepção passiva de mudanças sutis nos campos elétricos; outros podem ainda se expressar através dos seus próprios campos elétricos e captar o padrão potencial elétrico ao longo de toda a superfície externa dos seus corpos para fins de comunicação social.

As ordens dos golfinhos e dos monotrématos (à qual pertencem os ornitorrincos) são as únicas que apresentam eletro-percepção dentre os mamíferos; sendo o ornithorhynchus anatinus aquele que apresenta este sentido mais desenvolvido.

Já a magneto-percepção refere-se ao sentido da direção com relação ao campo magnético da Terra. Esse senso direcional é particularmente desenvolvido nos pássaros, embora também seja observado em insetos, como as abelhas. Apesar de não restar dúvidas quanto à existência deste sentido em muitas aves, sendo de importância fundamental para a habilidade de navegação dos pássaros migratórios, o mecanismo através do qual se dá a magneto-percepção ainda não é bem compreendido pela ciência.

Outro sentido bastante peculiar é aquele da detecção de correntes no meio líquido. As linhas laterais ao longo do comprimento de peixes e outros seres aquáticos anfíbios são órgãos externos para a percepção de correntes aquáticas, na forma de vórtices. Essa linha lateral é também sensível às vibrações de baixa frequência. Estes receptores mecânicos consistem também em células capilares, da mesma natureza daquela das células auditivas, sendo de desenvolvidos principalmente nos peixes para a navegação em meio líquido e para a caça.

E os sensores de deslocamento relativo dos aracnídeos detectam a deformação mecânica de seus exoesqueletos, provendo informações sobre forças e vibrações às quais estes insetos estão sujeitos.

Com base na exposição dos múltiplos e diferenciados sentidos, apresentados acima, chegamos à conclusão de que cada espécie apresenta recursos próprios para a percepção da realidade – sendo esta sim, comum a todos nós.

Pode-se avançar ainda um pouco mais nessa ideia, chegando mesmo ao entendimento de que dois indivíduos de mesma espécie apresentam uma percepção diferenciada da realidade, uma vez observadas diferenças sutis nos órgãos (ou sistemas) responsáveis pelos seus sentidos, bem como na forma como essas informações ou percepções se complementam de forma particular na reconstrução mental do universo individual. Assim, para um individuo o clima (o conjunto das variáveis de temperatura, umidade, luminosidade, etc.) pode parecer agradável, enquanto para outro, não; apesar de se encontrarem numa mesma sala!

Apesar de a realidade ser única, os nossos sentidos são diferenciados e a percepção é individual. Pode-se concluir, portanto, que a percepção plena da realidade é impossível para o indivíduo, senão para o conjunto de todos os seres, observado que os nossos sentidos para a percepção são diferenciados e, além disso, limitados.

Nessa imensidão de sensações, de percepções, é como se a realidade só fosse acessível à mônada. Mônada é o termo cunhado para representar a Divindade, o ser primário essencial ou a totalidade de todos os seres. Logo, a mônada é a percepção total ou o Uno, representando o Um anterior à divisão, estando associado à cosmogênese.

É como se a realidade só tivesse habitado o individuo há muito tempo atrás, enquanto imerso na sopa primordial de aminoácidos, anterior à sua separação ou diferenciação em organismos distintos. Ao longo das eras formaram-se as macromoléculas (como aquelas das proteínas, dos polissacarídeos e dos ácidos nucleicos) donde, através de sucessivas combinações e arranjos, cada vez mais complexos, resultou a multiplicidade dos seres vivos – as atuais espécies e os seus indivíduos.

Vamos explorar uma abordagem matemática (e, portanto, exata) para elucidar essas ideias um tanto abstratas sobre as quais discorremos anteriormente. Imagine que a realidade consistisse dos números naturais apenas: zero, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze e assim por diante.

Usualmente representamos os números na base dez. Isso significa que, da direita para a esquerda, o primeiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a zero (que é igual à unidade), o segundo algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a potência um (que é igual à dezena), o terceiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a dois (que é igual à centena), e assim sucessivamente. Logo, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 179 na base decimal (que é igual a nove vezes um, mais sete vezes dez, mais uma vez a centena).

Da mesma forma, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 263 (= 2×64 + 6×8 + 3×1 = 179) na base octal (base oito). Entretanto, para a “realidade” do número cento e setenta e nove não há “percepção” na base duodecimal (base doze)! De fato, a “percepção” do número 129 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 177 (= 1×144 + 2×12 + 9×1), enquanto a “percepção” do número 130 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 180 (= 1×144 + 3×12 +0x1). Existe, portanto, a impossibilidade de “percepção” na base duodecimal par a “realidade” dos números inteiros 178 e 179.

Quanto mais complexo o organismo (ou quanto maior a base na qual se dá a “percepção”) maior é a perda observada com relação à realidade. Valendo-se dessa assertiva (?) e recordando do objeto inicial de investigação desse texto (Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?), nós poderíamos mesmo ser levados à conclusão de que não. E ainda mais: que, eventualmente, as espécies mais simples seriam aquelas naturalmente mais eficazes na percepção da realidade!

Ledo engano: Na elaboração desse nosso modelo simples esquecemo-nos de levar em conta as faculdades da intuição e do raciocínio, que são sentidos bastante aguçados na espécie humana! Estes nos permitem exercitarmos a imaginação, o sonho e a criatividade; são tênues vínculos que mantém os nossos laços atrelados à mônada. E cabe a cada criatura exercitar estes músculos mentais, para a expansão da consciência e a (re-)conexão supramental.