Os sábios alquimistas eram conhecidos por desenvolver investigações a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo. Como estes experimentos foram realizados tão deslocados no tempo pretérito, boa parte da documentação quanto à manipulação destes processos se perdeu. Em parte por conta de traduções ou descrições imperfeitas dos documentos originais, em parte por causa das perseguições sofridas pelos alquimistas durante a idade média, que fez com que este conhecimento fosse tratado como profano, e transmitido secretamente entre pessoas de extrema confiança, apenas verbalmente ou criptografado; ou seja, descrito em linguagem de código.

 

De fato, neste começo do terceiro milênio, é tão pequena a reminiscência da alquimia em nossa cultura, que muito se especula inclusive sobre o real propósito desses laboriosos processos. A tecnologia se desenvolveu, os elementos básicos saltaram daqueles quatro originais para toda uma tabela periódica. Chegamos aos átomos; depois aos prótons, aos nêutrons e aos elétrons; mais tarde a outras partículas elementares, ainda menores, de decaimento rápido. Uma infinidade de processos químicos e físicos foi documentada com grande riqueza de detalhes, viabilizando estes processos a serem reproduzidos com precisão, eficiência e em escala industrial.

 

Tudo isso levou a um enorme progresso intelectual, a geração de riquezas e a melhoria da qualidade de vida do ser humano. Esta constatação é percebida tão diretamente pelos nossos cinco sentidos físicos – a visão, o olfato, o tato, a audição e o paladar – que falar em fogo, água, terra e ar como elementos básicos parece soar exageradamente simplista, ou remeter a imagem de um homem no tempo das cavernas.

 

Por outro lado, devemos nos lembrar de que a idealização do tempo linear é uma premissa do ser humano apenas. Uma forma de nos organizarmos para a manutenção da rotina, e que não presta para nada mais além disso. A história remete-nos a ideia de um tempo cíclico, na medida em que observamos a ascensão e a queda dos grandes impérios, o surgimento e a extinção de espécies, períodos de guerra intercalados por aqueles de paz, ou as altas e as baixas nas bolsas de valores.

 

Na verdade, até as teorias mais recentes da física (as melhores que temos em mãos, o que não significa que representam exatamente como funciona a natureza) já se dobraram ante ao mistério do tempo. A teoria da relatividade de Einstein propôs (e já foi demonstrada experimentalmente) a curvatura do espaço-tempo, que é a soma das três dimensões do espaço mais aquela da evolução no tempo, o meio no qual suavemente navegamos. Segundo Einstein, a maior velocidade possível é aquela da luz, c = 300,000km/s.

 

Por outro lado, a mecânica quântica é a física que descreve o comportamento das partículas elementares; ou seja, aquelas de dimensões microscópicas. O objeto na mecânica quântica tem a característica de se comportar ora como partícula (matéria), ora como onda eletromagnética (energia); e este comportamento também já foi demonstrado através de inúmeros experimentos. O experimento quântico é uma indeterminação no tempo (dualidade) que pode ser representada por uma densidade de probabilidade; por exemplo, podemos apenas saber qual é a chance de um elétron estar em determinada posição num instante de tempo específico. A observação de um evento quântico provoca o colapso dessa indeterminação (dualidade) numa realidade (resultado único), que pode ser aquela de uma partícula ou de uma onda. Também: a observação de um evento quântico (a consciência) afeta o resultado (a realidade). E ainda: tanto a teoria quanto o experimento quânticos apresentam a característica de não-localidade; isto é, a manifestação de resultados coerentes (mesma realidade) simultaneamente (exatamente ao mesmo tempo, ou instantaneamente) em posições distintas do espaço.

 

É fácil perceber que alguma coisa não vai bem com o tempo: A teoria da relatividade de Einstein, válida para os corpos do macrocosmo, descreve um comportamento suave que tem por características principais a curvatura do espaço-tempo e um limite superior para a velocidade. Enquanto a mecânica quântica, a teoria válida para os corpos no microcosmo, é caracterizada por um comportamento dual (partícula ou onda; binário; zero ou um) que se manifesta instantaneamente num resultado único (a realidade) através da observação (da consciência), mesmo havendo distâncias envolvidas. Essa disparidade entre os comportamentos dos corpos no macrocosmo e no microcosmo é coisa de fazer cair os cabelos de muita gente que pensa sobre isso.

 

Ainda que você, caro leitor, seja uma pessoa relax, dessas que acha que não precisa se preocupar com esse tipo de aporrinhação, coisa de quem fica procurando pelo em ovo, por se tratarem de aspectos muito sutis, que não afetam diretamente as nossas vidas, pode ser que você esteja redondamente enganado. E, na dúvida, eu recomendo que a gente fique, por ora, não com o tempo linear que alimenta a nossa rotina, mas com o tempo natural, cíclico, que é aquele sobre o qual nos dizem as revoluções da Terra, a sua translação ao redor do Sol, as fases da Lua e também o movimento das marés. Porque em tempos de smartphone, quem olha para o céu é rei.

 

A verdade é que – a despeito de todo o progresso intelectual, da geração de riquezas e da melhoria da qualidade de vida do ser humano que alcançamos graças ao desenvolvimento tecnológico – a luta pela sobrevivência parece só se agravar. Vivemos, agora, uma das mais graves crises de valores morais. As pessoas acusam-se umas às outras; cada um precisa provar todos os dias a sua inocência; proteger a sua casa para que não entrem bandidos; enquanto trabalha para pagar os impostos, que sabidamente serão desviados; ou compra produtos básicos, que vão ampliar a concentração de renda em favor dos cartéis econômicos. Na luta pela sobrevivência, tempo é o que falta e a natureza nos dá sinais de claros de esgotamento.

 

O pior, a meu ver, é o fato de que – apesar de admitirmos isso – prosseguimos adiante por esta senda nefasta, sem refletirmos sobre as razões de fazermos assim, sem refletirmos sobre o que deixaremos para as futuras gerações, sem refletirmos sobre eventuais desvios de rota que poderiam resolver a grave crise de valores morais. Seguimos como uma manada desenfreada de animais irracionais, guiada pelos seus instintos de sobrevivência, usando sobre os olhos a venda da tecnologia e avalizados pela suposta aura de sermos inteligentes.

 

Independente disso, pouco se sabe sobre os propósitos da alquimia. Há quem diga que o seu objetivo final era aquele da transmutação de metais comuns em ouro; outro possível objetivo seria a síntese de certo elixir para a eterna juventude, ou talvez até um elixir da vida eterna; havendo ainda, como terceira possibilidade, a busca pela tal pedra filosofal (espécie de amuleto obscuro para a profunda sabedoria).

 

Certeza nós temos apenas de que os sábios alquimistas eram conhecidos por desenvolver investigações a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo. E, qualquer que fosse o propósito final da alquimia, ele dizia respeito aos intrincados processos de transformação da matéria-prima no produto final, denominado por quintessência.

 

O processo se iniciava a partir do esquema de uma cruz de lados iguais. Na extremidade inferior da cruz era disposta a terra. Na extremidade superior ficava o ar (ou o céu). À direita da cruz era colocada a água (ou o mar) e a sua esquerda, o fogo. Havia então dois pares de pólos opostos (ou dualidades): ao longo do eixo vertical da cruz, os elementos opostos terra e ar; enquanto que ao longo do eixo horizontal da cruz, os elementos opostos água e fogo.

 

Fazendo um paralelo com o homem, e começando da extremidade inferior da cruz, nós encontramos a terra. A terra representa o que temos de mais rígido e denso em nosso corpo: os ossos e os músculos. Percorrendo a cruz no sentido anti-horário, vamos encontrar a água a seguir. A água representa o sangue que corre em nossas artérias e veias, também o plasma e os demais fluidos do corpo humano. São mais sutis e acomodam-se ao vaso do corpo. Depois vem o ar, que inspiramos e expiramos em ciclos, um elemento ainda mais sutil. E enfim, o mais sutil dentre os quatro elementos: o fogo, que também está presente no corpo humano, especialmente no sistema nervoso, na forma de ampla rede de transmissão dos impulsos eletromagnéticos.

 

Se unirmos as quatro extremidades da cruz, teremos um quadrado ou quaternidade, a partir dos quatro elementos da matéria-prima. Este quadrado está girado de quarenta e cinco graus, formando um losango eqüilátero, a mais simples das mandalas.

 

Segundo os estudos de Carl Gustav Jung, o desenvolvimento psicológico do ser humano se dá pela circumambulation, que é a circulação ou dança em torno dos objetos sagrados. Essa circulação é a experiência incessante de movimento da consciência evitando a estagnação nos extremos de uma das polaridades apenas destes elementos duais, o que seria muito danoso sob o ponto de vista psíquico. Ainda segundo Jung, o processo do amadurecimento psíquico se dá através do conunctio, que é a conjunção, ou equilíbrio dos elementos opostos, numa união, integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente. O símbolo da unicidade é o círculo. E se girarmos o quadrado em torno do seu centro, é exatamente essa a figura que vamos obter.

 

Se me permite uma interpretação pessoal, eu diria que estamos sempre realizando essa circulação em torno dos objetos sagrados, tomando decisões conscientes (quânticas) e buscando essa conjunção, ou equilíbrio integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente. Essa geometria simultânea seria representada por aquela de uma espiral de diâmetro decrescente, girando no sentido anti-horário em direção ao centro, com saltos representando algumas escolhas conscientes mais significativas. Nesta imagem simbólica da trajetória pessoal do individuo, a redução do diâmetro diz respeito ao processo de tomada de consciência gradual de processos antes relegados totalmente ao inconsciente, e que através da experiência vão se desvelando.

 

Neste artigo apresentei oito dessas figuras. Cada uma das figuras é a representação artística da trajetória pessoal de quatro indivíduos. Cada um dos quatro indivíduos, representados em uma figura, tem como ponto de partida uma das extremidades da cruz. Eles iniciam, então, os seus processos contínuos de circulações anti-horárias, escolhas conscientes (saltos quânticos) e graduais tomadas de consciência. Observa-se que a trajetória de cada indivíduo é única, mas todas elas têm uma orientação preferencial, que é a busca pela conjunção, ou equilíbrio integrando de forma saudável o consciente e o inconsciente, pela absorção gradual de conteúdos antes relegados totalmente ao inconsciente, e que através da experiência vão se desvelando.

 

Essa dualidade entre consciente e inconsciente é uma das coisas mais fascinantes do ser humano. O consciente tem um papel ativo, representando o nosso ego, lidando diretamente com as nossas vontades e escolhas (livre arbítrio), os processos racionais e a interação com o mundo exterior. O inconsciente, por outro lado, tem o papel passivo; representa o nosso self, o si-mesmo ou o eu-superior; responde às nossas escolhas (livre arbítrio) através dos sentimentos; trabalha com os conteúdos emocionais, é o responsável pelas nossas intuições; e a interação com o mundo interior. Nesse sentido, o inconsciente responde por todas aquelas atividades sobre as quais não colocamos o foco momentâneo da consciência; como por exemplo, é ele quem gerencia a maioria dos processos fisiológicos do corpo humano, como a respiração, a pulsação, etc.

 

Por isso tudo, explicado no parágrafo acima, é muito mais difícil estarmos atentos ao inconsciente do que ao consciente. O inconsciente age mais como um mentor, ou anjo da guarda, que está sempre junto ao consciente, mas deixa que este último tome as decisões. No nosso quotidiano estamos fazendo escolhas a todo o momento. Se eu vou até a copa, pode acontecer de eu ficar em dúvida se eu tomo uma xícara de café ou um copo d’água. E são em momentos como este que parece haver duas entidades pensantes dentro de minha cabeça – uma forma sutil de se aperceber as trocas entre consciente e inconsciente. Toda a escolha parte de um evento quântico, de uma dualidade, que provoca o colapso da nuvem de possibilidades num resultado específico.

 

Mas uma escolha tão irrelevante – entre uma xícara de café ou um copo d’água – será mesmo um evento quântico? Ou seja, será que esta simples escolha, pode desencadear implicações quânticas (imaginando aqui um evento quântico com a mesma gravidade como aquela em que foi tratada no parágrafo referente ao microcosmo; isto é, implicações tão radicais quanto a dualidade partícula-onda)? Afinal, além de terra, água, ar e fogo, do que é feito ser humano?

 

O ser humano é composto por células. São inúmeros os tipos de células com ciclos de vida distintos. Apenas para ter uma ideia, começando pelo sangue: o corpo humano apresenta por volta de 2,4 milhões de glóbulos vermelhos; eles duram entre 100 e 120 dias. Os glóbulos brancos têm ciclos de vida entre 8 horas e 3 dias; e para combater uma infecção, o corpo humano é capaz de produzir entre 40 e 50 bilhões de glóbulos brancos. Já as plaquetas sanguíneas vivem de 5 até 9 dias. As células dos pulmões duram entre 2 e 3 semanas. As células do fígado, por sua vez, vivem em média 5 meses. As papilas gustativas da língua são substituídas a cada 10 dias. As células da pele tem o ciclo de vida de 2 até 4 semanas. Já as células ósseas do esqueleto humano são totalmente substituídas ao longo de 10 anos.

 

O cérebro humano apresenta em média 100 bilhões de células nervosas. Mas estas células nervosas, também aquelas dos olhos e as células do músculo do coração estão entre as quais permanecem as mesmas ao longo de toda a vida da pessoa. Além disso, o ser humano troca toda a água do seu corpo (que representa 70% de sua massa total) em intervalos de aproximadamente 25 dias. Agora, o mais impressionante é que, do montante total de células do corpo humano, habita nele uma quantidade dez vezes maior de células de bactérias. Estas bactérias se reproduzem por divisão celular e, uma vez que o número total delas permanece constante, podemos estimar que o ciclo médio de vida bacteriano é de 12 horas. Mas este é apenas um valor médio, pois a variedade de bactérias é muito diversificada, existindo algumas delas que podem viver por até milhões de anos.

 

Desses dois parágrafos anteriores, observa-se que o ser humano é a morada de um gigantesco e complexo microbioma. Além disso, fica claro que o homem está muito mais para um processo, um movimento, uma dança, um constante fluir, do que propriamente uma intrincada organização material (que é como geralmente nos imaginamos). E vendo o ser humano sob essa ótica; de uma gigantesca e complexa morada de bactérias, de fungos, de vírus e de células humanas propriamente ditas; fica claro como uma escolha aparentemente tão simples – entre uma xícara de café ou um copo d’água – desencadeará uma avalanche de desdobramentos distintos (quânticos) nesse nível de escala (microbiológico).

 

Assim como o Sol está para Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte… enfim, para todo o sistema solar – ele é o provedor de energia que nutre e estabiliza todo o sistema –, assim também o ser humano está para o seu microbioma. E assim também o planeta Terra está para todos os seus habitantes – sejam eles dos reinos animal, vegetal ou mineral.

 

Nesse ponto, parece ficar claro qual o objetivo da alquimia. Estas investigações de intrincados processos a partir dos quatro elementos básicos – a terra, o ar, a água e o fogo tinham como propósito final chegar à essência do ser humano, bem como àquela do macrocosmo e do microcosmo que, por similaridade, são exatamente as mesmas. O almejado resultado do processo alquímico, a quinta essência, é a vida.

 

A vida, este milagre que é a contrapartida do que reza o estágio atual do conhecimento científico. Sim, contrapartida; porque enquanto a terceira lei da termodinâmica demonstra racionalmente que os processos químicos geram entropia, que o estado natural de um sistema, aquele de menor energia, é o caos; está aí a vida, entranhada em todos os níveis das criaturas – do macrocosmo ao microcosmo – demonstrando silenciosamente, como um soberano observador inconsciente: a força da vida é aquela capaz de sustentar o universo.

 

Ao contrário do caos (ou o desmantelamento do sistema para o seu estado de menor energia), a natureza mostra-nos que existe um sentido de orientação da vida que vai das criaturas mais simples para aquelas de complexidade e grau de consciência crescentes. A natureza demonstra também que o mecanismo predominante de relacionamento entre as criaturas é a simbiose; isto é, a mútua colaboração.

 

Se isso não resolve de pronto os problemas de nossa civilização, ao menos aponta um caminho, indica um sentido natural a ser seguido. A luta pela sobrevivência e a falta de tempo não passam de efeitos colaterais de um processo destrambelhado do desenvolvimento humano, um simples resultado (ou reação) para a forma como nos comportamos até aqui. Mas o futuro se faz agora. Basta lembrarmo-nos de que fazemos escolhas conscientes a todo o instante.

 

Eu vejo nuvens de possibilidades adiante. Toda a vez que escolhemos a mútua colaboração em detrimento da luta pela sobrevivência (do egoísmo apenas), certamente teremos dado passos seguros em direção a uma realidade melhor.

 

Abaixo o PDF para Download…

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3d Yin-Yang

abril 5, 2018

Uma explicação metafórica do intercâmbio entre os mundos da criação e da manifestação

 

Este texto traz uma visão simples, conceitual e esquemática para a abordagem de um assunto relativamente complexo, que é o estudo do intercâmbio entre inconsciente e consciente, matéria de interesse especialmente da psicologia. Por tratar-se de uma explicação metafórica, não tem ancoragem na bibliografia acadêmica, devendo ser apreciada mais como imagem poética, exercício da criação de uma pessoa simples interessada nas relações entre as criaturas – tanto nos seus aspectos objetivos quanto subjetivos. Também não espere encontrar aqui nada novo, coisa que nunca foi dita ou que vá se chocar contra àquilo que cada um de nós traz (intuitivamente) dentro do peito. Apenas a roupagem é diferente. A proposta deste texto é um exercício de simplicidade e poesia, reitero.

O ponto de partida para essa nossa viagem é o símbolo tradicional do Yin-Yang, conforme apresentado na Figura 1, uma imagem bidimensional (2d). É sabido que este símbolo é a representação do eterno movimento, ou de permutas entre pólos opostos de natureza dual; aqui representados pelo Yin (sombra, feminino, Lua, reativo) e o Yang (luz, masculino, Sol, ativo). É interessante observar que o pequeno círculo de sombra interior ao Yang remete a ideia de que o Yang nasce do Yin e, vice-versa, o pequeno círculo de luz interior ao Yin remete a ideia de que o Yin nasce do Yang. O símbolo como um todo, por sua vez, transmite a ideia de movimento no sentido horário, sendo que a interface Yin-Yang é representada por uma onda em progressão, também associada ao território da manifestação, ao mundo dos sentidos, morada da dualidade, onde se dão as trocas conscientes entre as criaturas.

Nossa viagem prossegue pelo exercício da imaginação de um símbolo Yin-Yang 3d, conforme apresentado na Figura 2. Esta transmutação do símbolo resulta numa esfera. O Yang é como um vórtice ou redemoinho que gira no sentido anti-horário, vindo do equador, e cujo epicentro está no pólo norte. No topo da esfera, ou pólo norte, nós temos o ponto onde o Yang nasce do Yin.

Por sua vez, no pólo sul, ou vale da esfera, temos o ponto onde o Yin nasce do Yang. O Yin gira no sentido horário, num redemoinho ou vórtice, descendo do equador em direção ao pólo sul (vale). E, nessa analogia geográfica com o nosso pequeno planeta – a Terra –, vamos encontrar na zona tropical a região de interface entre Yin e Yang. Uma região turbulenta, onde outros redemoinhos se formam (eles são representados por quatro vórtices na Figura 2), como forma de acomodar nesta área a interface entre Yin e Yang, onde naturalmente dá-se a experiência entre estes pólos opostos.

Esta representação idealizada da Figura 2 é a morada dos sentidos, o mundo exterior, do qual estamos conscientes. Um mundo de múltiplas manifestações e criaturas (identificadas pelos redemoinhos da Figura 2), onde impera a dualidade e aprendemos (lentamente) uns com os outros através do atrito entre nossos egos, que são as nossas interações no plano da matéria. Mas, assim como existe um mundo exterior, há também um mundo interior, subjetivo, do qual muita vez não nos damos conta.

Nossa jornada prossegue através dessa nova abstração, que nada mais é que o lado de dentro dessa mesma esfera. A Figura 3(a) revela o mundo interior, simbolizado pelo interior da esfera, morada do inconsciente, de onde parte a intuição. Por dentro, podemos observar dois redemoinhos (ou vórtices): Um redemoinho Yang que parte do topo da esfera (pólo norte), gira no sentido anti-horário e desce em direção ao centro – conforme representado na Figura 3(b). E o outro, um vórtice Yin que parte do pólo sul (vale), roda no sentido horário e sobe em direção ao centro – vide Figura 3(c).

Bem no centro desse mundo interior, vamos encontrar um ponto onde estes dois redemoinhos convergem: um ponto de quietude, imanente, não-dual. Este é aquele ponto atribuído ao inconsciente coletivo, o que está a conectar todas as criaturas do universo. Este ponto é a morada da criação, de onde resultam todos os seres e as manifestações do mundo exterior.

Dessa viagem pela geometria do Yin-Yang 3d podemos extrair algumas ideias e interpretações poéticas. Ainda que elas não sejam de natureza científica, podem nos ajudar através de nossa jornada nesse nosso pequeno planeta. Afinal, o que é a vida terrena senão uma experiência transitória no mundo da manifestação, cujo objetivo é o próprio aprendizado e a evolução? Então, aí vão algumas ideias, e você tem todo o direito de concordar ou não com elas, afinal eu sou apenas uma esfera, dentro da esfera da Terra, junta a bilhões de outras esferas humanas.

Existem esferas dentro de esferas. O número delas cresce infinitamente tanto externamente quanto internamente a nós mesmos. Por exemplo: aquela esfera da Figura 2 pode ser imaginada como a esfera de uma família de quatro pessoas, onde cada uma das pessoas é um daqueles quatro vórtices próximos a linha do equador.

Apesar de vivermos (predominantemente) no mundo exterior – aquele da manifestação – e realizarmos a troca de nossas experiências com todos os outros seres através dos nossos cinco sentidos (o tato, o olfato, a visão, a audição e o paladar), devemos estar atentos em fazê-lo de acordo, em consonância, com o nosso eu-interior – que pode ser também chamado de inconsciente ou de super-ego. Sempre que nos manifestamos em desacordo com a nossa intuição, isto resultará em divergências que, por mais que tentemos dominar, em algum momento elas se exteriorizarão. E quanto maior a tensão consciente / inconsciente, mais explosiva se dará a manifestação. Não há como fugirmos de nós mesmos.

É da moderação através dos pólos norte e sul, topo e vale, Yang e Yin – ambos ilustrados nas Figuras 2 e 3 –, ou seja, das trocas constantes entre o mundo interior e o mundo exterior, de uma espécie de afinação ou de sintonia entre eles, é que conseguimos caminhar de forma equilibrada através do mundo da manifestação. A criatura pode estar em meio a uma verdadeira batalha, e ainda assim sentir-se em paz e feliz. Noutro extremo, a criatura pode estar na quietude de um santuário, na melhor das companhias, com o coração aos solavancos, em meio a um turbilhão de sentimentos conflitantes (a pronunciada separação entre consciente e inconsciente). Em última instância, a vida é uma experiência do ser consigo mesmo.

No interior de cada criatura, bem no seu centro, está o espaço de quietude, o seu lugar imanente, não-dual, onde todas as aparentes ambigüidades se acomodam. Outros chamam este lugar de inconsciente coletivo. Este é o mundo da criação, origem de todas as criaturas e as suas manifestações. Muita vez a criação dá-se de forma inconsciente, noutras vezes sendo percebida como intuição. Mas existe um sentido pré-estabelecido, e é sempre este: do mundo interno, aquele das ideias, para o mundo externo, o da manifestação. Este é o trabalho, a tarefa da existência aqui na Terra: perseguir essa senda, trazer do inconsciente para o consciente, elevar a sua luz. Apenas os seres iluminados, aqueles que trabalham do espaço imanente, em sintonia com o inconsciente coletivo, são aqueles capazes de criar conscientemente a realidade.

 

   

[Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Em troca daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino vegetal, é que ele garantia sustento](1). A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.

   

(1) Esta primeira frase se refere ao consciente de Diogo.

   

Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.

   

Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-lhes desapercebido.  E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

   

Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito, num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’ ‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.

    

[As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados](2). Foi durante esse período que Diogo acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta assomava em volume e brilho a cada anoitecer.

    

(2) Esta segunda frase se refere à ilusão dos não despertos.

    

Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este esforço também, lhe era vão. [Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra](3).

    

(3) Esta terceira frase se refere ao despertar da consciência.

    

Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.

    

Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo, beber daquela sua gradual e crescente sapiência.

    

Certa noite Diogo lhe falou da [alquimia](4), que era para ele a supremacia do espírito sobre a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do [grande regenerador](5), sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.

    

(4) https://pt.wikipedia.org/wiki/Alquimia

(5) https://pt.wikipedia.org/wiki/Calunga_(esp%C3%ADrito)

    

Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de nome [Percival Lowell](6) e o projeto de busca do nono planeta, denominado [‘Planeta X’](7), ao alvorecer do século XX.

    

(6) https://pt.wikipedia.org/wiki/Percival_Lowell

(7) https://pt.wikipedia.org/wiki/Planeta_X

    

Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste, que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo. Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.

    

Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.

    

Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu falar de [Plutão](8)? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e [Caronte](9)(10), o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro (ou centro de massa) das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.

    

(8) https://pt.wikipedia.org/wiki/Plut%C3%A3o

(9) https://pt.wikipedia.org/wiki/Caronte_(sat%C3%A9lite)

(10) https://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Com%C3%A9dia

    

Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com a Terra a configuração de um novo [sistema planetário binário no sistema solar](11)(12).

    

(11) https://pt.wikipedia.org/wiki/Planeta_duplo

(12) https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrela_bin%C3%A1ria

    

Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. [Como a semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento](13).

    

(13) Esta quarta frase se refere ao inconsciente de Diogo.

    

Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.

    

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Nota de Esclarecimento: A segunda versão deste conto, original do dia 19/09/2011, nasce hoje, no dia 16/08/2017, apenas com notas de esclarecimento referentes a alguns conceitos e ideias de suma importância que podem passar (desa)percebidas ao leitor (des)atento. Agradeço ao Amigo e Poeta Milton Filho que, após uma profícua conversa através de videoconferência, recomendou que eu prestasse maiores esclarecimentos. Espero Que Fique Claro.

    

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importância; plutão; caronte; astronomia; psicologia; sonho; inconsciente; consciente; despertar; alquimia; grande-regenerador; percival-lowell; planeta-x; divina-comédia; individuação; dante-alighieri; planeta-binário.

    

    

circumambulation_jorge_xerxes

Cinábrio

janeiro 23, 2013

jorge_xerxes_cinabrioMiro viajava num ônibus. A maioria dos passageiros era composta por sexagenários, exceto Miro e os dois guias, um homem e uma mulher, na casa dos quarenta anos, assim como ele próprio. Havia pessoas de ambos os sexos. Formavam uma espécie de grupo em excursão ou expedição na busca por rochas; certo mineral de característica metálica.

Enquanto o ônibus seguia em direção à reserva (ou floresta), onde coletariam algumas dessas rochas, os guias versavam sobre o mineral. Era um metal de grande interesse, porém não se tratava de gema, preciosa. A forma na qual o encontrariam era distinta daquela usualmente conhecida: o metal já processado, livre de impurezas e da terra.

Nesse momento os guias procuravam descrever como era esse mineral, de forma a facilitar-lhes a identificação. Este consistia em rochas de uma tonalidade marrom avermelhada, espécie de mistura de terra com arenito, encontradas na natureza em torrões, aproximadamente do tamanho de um hemisfério cerebral, ligeiramente densas, passíveis de se esfarelarem e apresentando circunvoluções.

Miro trazia consigo cinco rochas, as quais ele acreditava serem do referido mineral. Três rochas foram distribuídas para os participantes da expedição, passadas de uns aos outros, para a familiarização. Outra rocha foi parar nas mãos de um dos guias e a quinta delas se encontrava com Miro. O guia, após observação minuciosa do exemplar que estava consigo, alertou-lhes que aquelas não eram rochas do mineral de interesse.

De súbito, as cinco rochas se transformaram em serpentes, como se desenrolassem vivas, de uma condição ulterior onde se encontravam aninhadas, animadas a partir da forma mineral. Assustados, eles largaram as cinco serpentes que então circulavam pelo corredor do ônibus, deflagrando grande apreensão.

Para o espanto de Miro, todas as serpentes rastejavam em sua direção, como se fosse ele a presa. Armavam botes e tentavam lhe atacar em voos imprecisos. Miro agarrou uma das serpentes no ar, a poucos centímetros de sua face. Ele a segurava próximo da sua  cabeça. Ela tentava, em vão, morder os seus pulsos, flexível e escorregadia, botando para fora da boca aquela sua língua afilada, bipartida.

A essa altura o ônibus estava parado, na margem da estrada, ao lado de uma clareira. Era fim de tarde, próximo a hora do crepúsculo. Miro desceu do veículo com as serpentes a lhe perseguirem. Ele tentava desvencilhar-se delas usando um ramo mais robusto que encontrou largado nos arredores. Com muito custo, conseguiu dispersá-las mata adentro. Voltou então para o ônibus e seguiram viagem.

Miro despertou da noite de sono extenuado, o corpo e a cabeça lhe pesavam muito: um sonho verdadeiramente marcante; embora ele não tenha conseguido compreender, de imediato, o significado.

Miro havia deixado para trás rochas e serpentes. Avançava em direção ao simbolismo do número cinco.

É sabido que valemo-nos dos nossos sentidos para a percepção da realidade. Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?

Os sentidos constituem capacidades fisiológicas dos organismos que suportam a percepção. Os sentidos, sua operação, classificação e teoria caracterizam tópicos que se sobrepõem e são estudados numa grande variedade de áreas da ciência; especialmente a neurociência, a psicologia cognitiva e a filosofia da percepção. O sistema nervoso tem um sistema sensorial ou órgão específico e dedicado para cada um dos sentidos.

Os seres humanos apresentam uma multiplicidade de sentidos, sendo os cinco sentidos primários, tradicionalmente reconhecidos: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Dentre os outros sentidos humanos podemos citar: a percepção térmica; a dor; as sensações de equilíbrio e de aceleração; e a próprio-percepção (ou percepção e controle dos nossos próprios membros e músculos, esta inclusive pode ser treinada para tornar-se semi-automática, ou mesmo automática, possibilitando que o nosso cérebro se ocupe prioritariamente de outras atividades simultaneamente à realização de tarefas já internalizadas, um exemplo: conversar e dirigir, apesar de politicamente incorreto).

O sistema visual é parte do sistema nervoso central que possibilita ao organismo o processamento detalhado da visão, assim como coordena várias outras funções de foto-resposta não imagética. Ele inclui os olhos, os conectores para o córtex visual e outras partes do cérebro. O sistema visual interpreta a informação recebida através da luz visível e é responsável pela construção da representação do mundo à nossa volta.

Os nossos olhos constituem um complexo mecanismo biológico. O funcionamento de uma câmera fotográfica é frequentemente comparado àquele dos olhos, pelo fato de ambos focalizarem a luz dos objetos externos que estão no campo de visão sobre um meio sensível à luz. No caso da câmera, este meio é o filme fotográfico ou um sensor eletrônico; no caso do olho trata-se de uma matriz de receptores visuais. Valendo-se ambos do mecanismo da similaridade geométrica embasado pelas leis da ótica. A luz que penetra através dos nossos olhos é refratada na passagem pela córnea. Ela atravessa então pela pupila (controlada pela íris) e é novamente refratada. A córnea e a pupila trabalham em sincronia, como um conjunto de lentes para projetar uma imagem invertida e passível de percepção sobre a retina.

A retina consiste numa miríade (ou uma matriz) de células fotorreceptoras. Essas células fotorreceptoras contêm moléculas de proteínas específicas denominadas opsinas. A rhodopsina é encontrada nas células radiais que são periféricas à retina e tem a função de captação da luz para a visão noturna. Existem três tipos de opsinas cônicas, as quais são encontradas, por sua vez, nas células do cone central da retina: cada um desses tipos é diferenciado conforme as faixas do comprimento de onda luminosa que é capaz de absorver, sendo as opsinas curtas aquelas que absorvem o espectro do azul, as opsinas médias aquelas que absorvem o espectro do verde e as opsinas longas aquelas que absorvem o espectro da luz vermelha. Essa matriz de opsinas que compõem a retina é a responsável pela absorção dos fótons e a transmissão do sinal nervoso para células conectoras que o encaminham ao córtex visual.

Um estudo da Universidade da Pensilvânia calculou que a estrutura da retina humana é capaz de absorver aproximadamente 8960 kilobits por segundo de informação visual, enquanto um porco de Guiné tem a capacidade da absorção através de sua retina de apenas 875 kilobits por segundo.

Entretanto, diferentes espécies são capazes de ver (são sensíveis a) diferentes faixas do espectro luminoso. Os gatos têm a habilidade de enxergar mesmo com grande escassez de luz graças aos músculos no entorno de sua íris, permitindo contrair e expandir muito as suas pupilas, bem como ao tapetum lucidum, uma membrana reflexiva que otimiza a visão felina.

Pitvipers, pythons e outras serpentes venenosas (especialmente aquelas que habitam as cavernas) apresentam órgãos sensíveis ao infravermelho, os quais permitem a percepção do calor do corpo de suas presas. O famoso morcego-vampiro apresenta também um sensor infravermelho no seu nariz. Foi descoberto que os pássaros e alguns outros animais são tetra-cromatos; i.e. eles apresentam a capacidade de percepção da luz ultravioleta até o comprimento mínimo de onda de 300 nanômetros. E as abelhas e as libélulas são também sensíveis ao ultravioleta.

A audição também é um dos cinco sentidos primários; caracteriza-se pela habilidade da percepção de ondas sonoras pela detecção de vibrações através de um órgão como o ouvido Nos humanos e noutros vertebrados ouvir é possível graças ao sistema auditivo: as vibrações são detectadas pelo ouvido e transmitidas através de impulsos nervosos para o cérebro, especialmente para o lobo temporal. Assim como o tato, a audição dá-se pela sensibilidade ao choque de moléculas do mundo exterior contra a superfície do organismo; e por isso ambos, a audição e o tato, são denominados sentidos mecânicos.

Simplificadamente, o mecanismo da audição consiste no seguinte: O canal do ouvido ajusta a pressão das ondas de ar recebidas para uma mesma faixa de comprimento de onda. No ouvido interno, essas vibrações sonoras são detectadas por células capilares localizadas na membrana basilar, e a decomposição em diferentes frequências de onda dá-se ao longo do comprimento dessa mesma membrana. A membrana basilar separa as frequências: as frequências altas produzem maior ressonância próxima ao final do ouvido médio, enquanto as frequências mais baixas produzem maior ressonância na extremidade oposta. Em suma, a membrana basilar realiza ininterruptamente análises do tipo de uma transformada de Fourier, transmitindo a informação da frequência e da intensidade sonora através do nervo auditivo diretamente para o fluxo cerebral.

Nos humanos, o limite inferior e a capacidade de localizar fontes sonoras são reduzidos significativamente debaixo d’água, meio no qual a velocidade do som é maior que aquela do ar. A audição subaquática é pela condução dos ossos e a localização do som parece depender de diferenças na amplitude detectadas pela condução através dos ossos.

Nem todos os sons são normalmente audíveis por todos os animais. Cada espécie apresenta as suas faixas específicas de audição tanto no que diz respeito à amplitude quanto à frequência sonora. Muitos animais usam o som como meio de comunicação e, portanto, a audição nessas espécies é de importância ímpar para a sobrevivência e a reprodução. Em espécies que usam o som como fonte primária de comunicação, a audição é mais apurada na faixa de frequência da fala. Frequências de áudio, ou sonoras, é como são comumente denominadas aquelas capazes de serem ouvidas pelos humanos, tipicamente na faixa de frequências entre os 20 Hz e os 20 mil Hz.

As frequências mais elevadas que aquelas de áudio são denominadas ultrassônicas, enquanto as inferiores são denominadas infrassônicas. Alguns morcegos usam a faixa de ultrassom para a ecolocalização em vôo. Os cães também são capazes de ouvir ultrassons, e este é o princípio de funcionamento dos apitos caninos silenciosos (ao menos para nós, humanos). As cobras têm sensibilidade aos infrassons pelas suas barrigas alongadas e esbeltas; enquanto as girafas, os elefantes, os golfinhos e as baleias usam a faixa de frequência dos infrassons para a comunicação.

Alguns animais incluindo os morcegos e os cetáceos tem a capacidade de determinar a sua orientação e velocidade com relação a outros corpos ou objetos pela interpretação da reflexão sonora e do efeito Doppler, como se tivessem um sonar. A este sentido específico denomina-se ecolocalização.

Insetos como as moscas e as borboletas têm sensibilidade ao paladar nos seus pés, permitindo que eles saboreiem qualquer superfície sobre a qual eles pousem (daí a preferência pelos doces e flores, respectivamente, no caso dos primeiros e dos segundos). O peixe-gato, por sua vez, possui o seu sistema palatável ao longo de toda a superfície externa do corpo, permitindo que ele identifique apuradamente a qualidade e acidez do meio aquático no qual ele se encontra (e por isso você nunca encontrará essa espécie nadando em águas poluídas).

A maioria dos mamíferos não-humanos apresenta o sentido de olfato muito mais apurado que aquele dos humanos, apesar de em ambos os casos os sistemas olfativos serem bastante similares. Os tubarões têm um senso de olfato tão apurado que estes são capazes de determinar com grande precisão inclusive a direção do estímulo, fazendo com que localizem mais eficientemente a sua presa, mesmo a grande distância. Já os insetos apresentam receptores olfativos em suas antenas.

A eletro-percepção é o sentido da percepção de campos elétricos. Várias espécies de peixes, tubarões e arraias têm a habilidade de alterar os campos elétricos dos seus entornos imediatos. Alguns peixes têm a percepção passiva de mudanças sutis nos campos elétricos; outros podem ainda se expressar através dos seus próprios campos elétricos e captar o padrão potencial elétrico ao longo de toda a superfície externa dos seus corpos para fins de comunicação social.

As ordens dos golfinhos e dos monotrématos (à qual pertencem os ornitorrincos) são as únicas que apresentam eletro-percepção dentre os mamíferos; sendo o ornithorhynchus anatinus aquele que apresenta este sentido mais desenvolvido.

Já a magneto-percepção refere-se ao sentido da direção com relação ao campo magnético da Terra. Esse senso direcional é particularmente desenvolvido nos pássaros, embora também seja observado em insetos, como as abelhas. Apesar de não restar dúvidas quanto à existência deste sentido em muitas aves, sendo de importância fundamental para a habilidade de navegação dos pássaros migratórios, o mecanismo através do qual se dá a magneto-percepção ainda não é bem compreendido pela ciência.

Outro sentido bastante peculiar é aquele da detecção de correntes no meio líquido. As linhas laterais ao longo do comprimento de peixes e outros seres aquáticos anfíbios são órgãos externos para a percepção de correntes aquáticas, na forma de vórtices. Essa linha lateral é também sensível às vibrações de baixa frequência. Estes receptores mecânicos consistem também em células capilares, da mesma natureza daquela das células auditivas, sendo de desenvolvidos principalmente nos peixes para a navegação em meio líquido e para a caça.

E os sensores de deslocamento relativo dos aracnídeos detectam a deformação mecânica de seus exoesqueletos, provendo informações sobre forças e vibrações às quais estes insetos estão sujeitos.

Com base na exposição dos múltiplos e diferenciados sentidos, apresentados acima, chegamos à conclusão de que cada espécie apresenta recursos próprios para a percepção da realidade – sendo esta sim, comum a todos nós.

Pode-se avançar ainda um pouco mais nessa ideia, chegando mesmo ao entendimento de que dois indivíduos de mesma espécie apresentam uma percepção diferenciada da realidade, uma vez observadas diferenças sutis nos órgãos (ou sistemas) responsáveis pelos seus sentidos, bem como na forma como essas informações ou percepções se complementam de forma particular na reconstrução mental do universo individual. Assim, para um individuo o clima (o conjunto das variáveis de temperatura, umidade, luminosidade, etc.) pode parecer agradável, enquanto para outro, não; apesar de se encontrarem numa mesma sala!

Apesar de a realidade ser única, os nossos sentidos são diferenciados e a percepção é individual. Pode-se concluir, portanto, que a percepção plena da realidade é impossível para o indivíduo, senão para o conjunto de todos os seres, observado que os nossos sentidos para a percepção são diferenciados e, além disso, limitados.

Nessa imensidão de sensações, de percepções, é como se a realidade só fosse acessível à mônada. Mônada é o termo cunhado para representar a Divindade, o ser primário essencial ou a totalidade de todos os seres. Logo, a mônada é a percepção total ou o Uno, representando o Um anterior à divisão, estando associado à cosmogênese.

É como se a realidade só tivesse habitado o individuo há muito tempo atrás, enquanto imerso na sopa primordial de aminoácidos, anterior à sua separação ou diferenciação em organismos distintos. Ao longo das eras formaram-se as macromoléculas (como aquelas das proteínas, dos polissacarídeos e dos ácidos nucleicos) donde, através de sucessivas combinações e arranjos, cada vez mais complexos, resultou a multiplicidade dos seres vivos – as atuais espécies e os seus indivíduos.

Vamos explorar uma abordagem matemática (e, portanto, exata) para elucidar essas ideias um tanto abstratas sobre as quais discorremos anteriormente. Imagine que a realidade consistisse dos números naturais apenas: zero, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze e assim por diante.

Usualmente representamos os números na base dez. Isso significa que, da direita para a esquerda, o primeiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a zero (que é igual à unidade), o segundo algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a potência um (que é igual à dezena), o terceiro algarismo diz respeito ao multiplicador de dez elevado a dois (que é igual à centena), e assim sucessivamente. Logo, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 179 na base decimal (que é igual a nove vezes um, mais sete vezes dez, mais uma vez a centena).

Da mesma forma, para a “realidade” do número cento e setenta e nove existe a “percepção” do número 263 (= 2×64 + 6×8 + 3×1 = 179) na base octal (base oito). Entretanto, para a “realidade” do número cento e setenta e nove não há “percepção” na base duodecimal (base doze)! De fato, a “percepção” do número 129 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 177 (= 1×144 + 2×12 + 9×1), enquanto a “percepção” do número 130 na base duodecimal equivale à “realidade” do número 180 (= 1×144 + 3×12 +0x1). Existe, portanto, a impossibilidade de “percepção” na base duodecimal par a “realidade” dos números inteiros 178 e 179.

Quanto mais complexo o organismo (ou quanto maior a base na qual se dá a “percepção”) maior é a perda observada com relação à realidade. Valendo-se dessa assertiva (?) e recordando do objeto inicial de investigação desse texto (Nós, seres humanos, nos gabamos da primazia sobre as demais espécies. Mas será que percebemos – e compreendemos – mais eficientemente o mundo ao nosso redor?), nós poderíamos mesmo ser levados à conclusão de que não. E ainda mais: que, eventualmente, as espécies mais simples seriam aquelas naturalmente mais eficazes na percepção da realidade!

Ledo engano: Na elaboração desse nosso modelo simples esquecemo-nos de levar em conta as faculdades da intuição e do raciocínio, que são sentidos bastante aguçados na espécie humana! Estes nos permitem exercitarmos a imaginação, o sonho e a criatividade; são tênues vínculos que mantém os nossos laços atrelados à mônada. E cabe a cada criatura exercitar estes músculos mentais, para a expansão da consciência e a (re-)conexão supramental.

Um sonho e sua análise

janeiro 22, 2012

(I) Prólogo:

Ao longo de toda uma semana estive envolvido numa discussão com sujeitos de indiscutível capacidade intelectual e cultural, além de poderosa capacidade de persuasão – o que não implica, necessariamente, em elevação moral e de padrões éticos. Esses debates deram-se num sítio de literatura.

Confesso que a discussão revolveu o meu conteúdo emocional de tal forma que cheguei mesmo a ponto de determinadas atitudes que fugiram ao controle consciente, tendo por vezes reagido instintivamente, como um animal ao se sentir acuado.

A proposta desse artigo não é a de defender pontos de vista, nem o julgamento de valores; sendo o objetivo tão somente aquele da descrição de um sonho e posterior análise pelo sujeito que vos escreve.

Prossigamos ao sonho.

(II) Sonho:

Na noite do dia 20 para o dia 21 de Janeiro desse ano de 2012 tive o sonho cuja narrativa segue abaixo.

Eu e alguns poucos familiares havíamos sido convidados para uma festa por uma pessoa rica e eminente. Junto ao convite veio a observação explícita de que estávamos sendo convidados com o propósito de sermos figurantes, não devendo nos envolver com nenhuma das demais pessoas, identificadas como importantes políticos e autoridades, que estariam também presentes. Por se tratar de grande e refinada recepção, o que era uma oportunidade pouco comum, decidimos participar, apesar de a recomendação ter sido encarada como leve ofensa.

Chegando à festa, era fácil identificar os políticos e autoridades pelas suas roupas de gala, em distinção de uma parcela dos outros convidados que era a dos convidados figurantes. Os políticos e autoridades ocupavam mesas grandes em salas menores e separadas, também eram tratados de forma diferenciada, apesar de alguns deles circularem em meio ao grande salão ocupado pelos figurantes.

De repente percebi a presença de pequeno felino, um gato, que acompanhava a mim e aos meus familiares. Percebi, de súbito, que aquele era meu animal de estimação. O gato, por vezes, insistia em penetrar as salas menores destinadas às autoridades. Os garçons vinham então me repreender para que eu retirasse o animal daqueles ambientes restritos. Noutra ocasião eram os próprios anfitriões que vinham recomendar para que eu cuidasse de meu gato, mantendo-o distante dos políticos e pessoas eminentes. Aquela situação me causava grande constrangimento.

O sonho culminou quando o gato caiu em um bueiro, ficando a princípio preso às grades pelas suas patas dianteiras. Ele clamava por socorro. Tentei resgatá-lo, mas ele caiu dentro do bueiro. Com grande esforço, consegui alcançá-lo no fundo do bueiro e resgatá-lo. Lembro que isso me trouxe um grande alívio, e mesmo felicidade.

Despedimo-nos dos anfitriões e retornamos para casa. O sentimento era aquele de satisfação.

(III) Conexões:

Partiremos da definição das instâncias essenciais do sujeito. Os verbetes apresentados abaixo foram extraídos de: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, Editora Nova Fronteira, 1a Impressão (9a Edição).

Consciência. S. f. 1. Filos. Atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração.

Inconsciente. S. 2 g. 9. Psicol. O conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, nos sonhos, nos atos falhos, nos estados neuróticos ou psicóticos, i.e., quando a consciência não está vigilante. Inconsciente coletivo. Psicol. Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos.

Alma [Do lat. anima.] S. f. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento: as faculdades da alma.

Espírito [Do lat. spiritu.] S. m. 11. Filos. O pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas: a matéria ou a natureza.

Consideremos, a seguir, as conexões básicas estabelecidas entre estas instâncias a partir do meu entendimento ou interpretação pessoal. Observe que se trata de opinião subjetiva; logo, não é uma verdade, nem pretende ser; é tão somente a expressão de uma única alma.

Dito isso, entendo que a alma de um sujeito (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) compreende a sua consciência (o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo) mais o seu inconsciente (o conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, quando a consciência não está vigilante).

Faço a distinção entre alma (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) e espírito (o pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas); sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

Repetindo, para a clareza da ideia: Entendo que a alma de um sujeito compreende a sua consciência mais o seu inconsciente (alma = consciência + inconsciente). E faço a distinção entre alma e espírito; sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

(IV) Análise:

Posteriormente, já em estado de vigília, e tendo recordado de um sonho com tal riqueza de detalhes, decidi dedicar algum tempo a sua análise. Para tanto, levei em conta a contextualização, apresentada em (I); e as conexões entre as instâncias essenciais do sujeito, descritas em (III).

Essa foi a minha interpretação: Eu e minha família representávamos o meu espírito – o sujeito da representação. O gato era a minha alma, i.e. a minha consciência mais o meu inconsciente (uma parcela de meu próprio espírito), que estava se metendo em contradições e antagonismos por invadir o espaço dos outros (interagindo com outros espíritos). A partir do momento em que eu consegui resgatar o gato – entenda-se por retirar-me da discussão que estava me causando o desgaste emocional – o conflito se desfez. Voltei a minha habitual paz de espírito e ao saudável alinhamento da consciência com o inconsciente (ou, ao menos, a redução dos conflitos para um grau minimamente aceitável).

(V) Por que eu escrevo?

Por que eu leio? Por que eu escrevo? Bem, eu leio porque sinto sede de conhecimento e do aprendizado; pelo desejo de autoconhecimento; pela vontade de saber mais sobre a natureza e entender dos processos de interação entre as criaturas – tanto aqueles de natureza objetiva, quanto aos outros fenômenos, mais sutis. Escrever é uma forma de organizar minhas próprias ideias. Posso concluir, portanto, que escrevo para mim. É mesmo, antes de tudo, uma atividade egoísta.

Dessa experiência resultou a minha decisão de não mais me reportar ou dirigir àqueles sujeitos que estavam me desgastando. Pura e simplesmente desfazer todos os laços emocionais. No meu parco entendimento se tratam de espíritos com os quais eu não tenho afinidade (diga-se de passagem, sem qualquer julgamento de valor).

Pode ser que sejam muito avançados para a minha compreensão. E uma criança de poucos meses não costuma sair por aí andando sobre os dois pés antes de aprender a engatinhar; i.e. precisarei, nesse caso, de mais tempo e bagagem para uma interação saudável. Ou podem se tratar de espíritos de natureza distinta à minha. Nesse caso, sendo os valores éticos e morais diferenciados, faz-se também necessária manutenção de certo distanciamento, de forma a se evitar os atritos demasiados.

Importante é o respeito às diferenças; a compreensão de si mesmo; e o aprimoramento de cada criatura, que é distinto e inerente às suas próprias vivências pregressas.

3 53gu3 4 v1d4 0 53u f1ux0 1n3x0r4v31…

Circumambulation*

julho 19, 2011

gárgula de ímpetos imanentes

o mais astuto dos segréis calar-se-ia

ante um torvelino de queixas tão obtusas

mas acolhe: afaga-lhes as faces rombudas

abre-lhes as palmas feridas de pedras

para que delas abandonem sorridentes flores

os embates não nutrem pérolas em ostras

é a síntese a erigir-lhes sentido

* “In Jung’s view, the alchemical attempt to transmute base metals into gold (the philosopher’s stone) was actually a psychological process which had been unconsciously projected onto the various material substances used in the process. The alchemists were usually not aware of the projection, according to Jung. They really believed they could turn base metals into gold. The symbols used by the alchemists were really representative of what he termed the process of individuation. Jung stressed that individuation must not be understood as a linear development, but as a “circumambulation of the self” (Jung, Memories 196), that is, the movement is toward the center, which Jung says is the Self. One of the symbols in alchemy which represents this process is the Ouroboros, the serpent which devours its own tail. This means that the process is circular and self-contained, according to Jung.” – Extracted from “Jung and Alchemy” by Mark L. Dotson, Spring 1996.

Quanto à matéria dos sonhos

dezembro 26, 2008

Perco o sono.

Barulho da gata a se lamber.

Procuro outras formas de fugir da consciência alheia.

Mas escrevo.

Deixo a pista que não devia,

para tarde da noite Você me seguir.

(Das orelhas me esqueço sempre que não as ouço).

Aos dentes lanço a maldição

para que durem o tempo suficiente das mordidas.

Deixo aos outros,

de minha descendência,

a herança da eterna dúvida quanto à matéria dos sonhos.

Desde que não pude entender das curvas,

da escrita e das Tuas palavras;

tanto mais me empenhei nos afagos;

mergulhei os abismos além da Tua pele.

Queria extrair a quinta-essência da flor

que nenhuma primavera pariu. 

Em resposta a certeza,

que navegar o Teu mar é perigo.

Feixe do brilho que mora em Você.