Os dias em chamas

maio 24, 2017

as palavras em branco não me movem

quero as palavras vindas da boca

a boca indo em direção a outra boca

mas caminho a passos úmidos pelo calçamento

porque as bocas são para serem beijadas

acima o céu cinza é reflexo do chão

desejadas, queridas e abraçadas

nas línguas de sonhos

transmudadas

na realidade os dias

em chamas

Noite

setembro 12, 2013

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Fazia um dia de sol na praia. Eu era um adolescente de uns dezesseis anos e estava junto de três outros meninos, todos na faixa dos oito anos. Brincávamos descontraidamente, conversávamos, jogávamos água com os pés uns nos outros. Eu tinha a impressão de ter responsabilidade por aqueles três garotos, como se eu fosse um amigo ou irmão mais velho.

Eu disse a eles que ficassem na areia enquanto eu dava um mergulho para refrescar o corpo. Mergulhei na água salgada e fui nadando em direção ao mar aberto. Gosto de ficar flutuando um pouco depois da rebentação. De súbito, fui puxado por uma corrente que me levava mar adentro. Tentei lutar contra a corrente, mas ela era mais rápida que eu conseguia nadar em direção a areia. Isso me deixou preocupado; mas preferi desistir da batalha e permanecer tranquilo, na superfície. Não dava para lutar contra aquela corrente. Percebi então que estávamos às bordas de um remoinho, uma gigantesca circulação d’água no sentido anti-horário, cujo raio era de aproximadamente cem metros. Escrevi “estávamos” porque havia outros banhistas naquele movimento circulatório. Havia também peixes, polvos, arraias, golfinhos – todos girando em torno do centro, no sentido contrário aquele dos ponteiros do relógio. A água estava muito límpida e a visibilidade era excepcional. Um espetáculo fascinante, e era estimulante participar daquela circulação d’água e de vida.

Observei um tubarão a minha esquerda, ele também era tragado pelo remoinho, estava a um arco de circunferência no sentido horário, atrás de mim. Ele se aproveitava da circulação para devorar pequenos peixes que encontrava pela frente, e ele nadava em minha direção. Isso me causou grande apreensão. Pus-me a nadar em disparada no sentido anti-horário, contornando por fora e ultrapassando outros banhistas que também faziam parte da circulação. Eles não estavam nada tranqüilos, pareciam mesmo deseperados e isso piorava a situação deles; alguns lutavam para não se afogar, manter-se na superfície. Fiquei preocupado com eles, mas eu nada podia fazer: o tubarão estava vindo, eles serviam como obstáculos, escudo ou eventual banquete para a fera marinha.

De repente o nível d’água começou a baixar. Era diferente daquele efeito de um ralo: o remoinho estava se abrindo, a circulação líquida ficava à margem, deixando uma área central circular. Essa área lembrava o centro de uma viela do século dezenove. Tudo muito antigo, uma paisagem bastante verde e bucólica, característica do interior. Havia pessoas caminhando com trajes de época, usando chapéus. Havia algumas contruções singelas: algumas casas, uma igreja. Por motivo que desconheço aquela viela me parecia estranhamente familiar. Senti-me acolhido naquele local. Tive a sensação de uma viagem no tempo.

PS: Este texto é a simples descrição de um sonho muito vívido, que deixou uma forte impressão.

Cinábrio

janeiro 23, 2013

jorge_xerxes_cinabrioMiro viajava num ônibus. A maioria dos passageiros era composta por sexagenários, exceto Miro e os dois guias, um homem e uma mulher, na casa dos quarenta anos, assim como ele próprio. Havia pessoas de ambos os sexos. Formavam uma espécie de grupo em excursão ou expedição na busca por rochas; certo mineral de característica metálica.

Enquanto o ônibus seguia em direção à reserva (ou floresta), onde coletariam algumas dessas rochas, os guias versavam sobre o mineral. Era um metal de grande interesse, porém não se tratava de gema, preciosa. A forma na qual o encontrariam era distinta daquela usualmente conhecida: o metal já processado, livre de impurezas e da terra.

Nesse momento os guias procuravam descrever como era esse mineral, de forma a facilitar-lhes a identificação. Este consistia em rochas de uma tonalidade marrom avermelhada, espécie de mistura de terra com arenito, encontradas na natureza em torrões, aproximadamente do tamanho de um hemisfério cerebral, ligeiramente densas, passíveis de se esfarelarem e apresentando circunvoluções.

Miro trazia consigo cinco rochas, as quais ele acreditava serem do referido mineral. Três rochas foram distribuídas para os participantes da expedição, passadas de uns aos outros, para a familiarização. Outra rocha foi parar nas mãos de um dos guias e a quinta delas se encontrava com Miro. O guia, após observação minuciosa do exemplar que estava consigo, alertou-lhes que aquelas não eram rochas do mineral de interesse.

De súbito, as cinco rochas se transformaram em serpentes, como se desenrolassem vivas, de uma condição ulterior onde se encontravam aninhadas, animadas a partir da forma mineral. Assustados, eles largaram as cinco serpentes que então circulavam pelo corredor do ônibus, deflagrando grande apreensão.

Para o espanto de Miro, todas as serpentes rastejavam em sua direção, como se fosse ele a presa. Armavam botes e tentavam lhe atacar em voos imprecisos. Miro agarrou uma das serpentes no ar, a poucos centímetros de sua face. Ele a segurava próximo da sua  cabeça. Ela tentava, em vão, morder os seus pulsos, flexível e escorregadia, botando para fora da boca aquela sua língua afilada, bipartida.

A essa altura o ônibus estava parado, na margem da estrada, ao lado de uma clareira. Era fim de tarde, próximo a hora do crepúsculo. Miro desceu do veículo com as serpentes a lhe perseguirem. Ele tentava desvencilhar-se delas usando um ramo mais robusto que encontrou largado nos arredores. Com muito custo, conseguiu dispersá-las mata adentro. Voltou então para o ônibus e seguiram viagem.

Miro despertou da noite de sono extenuado, o corpo e a cabeça lhe pesavam muito: um sonho verdadeiramente marcante; embora ele não tenha conseguido compreender, de imediato, o significado.

Miro havia deixado para trás rochas e serpentes. Avançava em direção ao simbolismo do número cinco.

A era dos desejos

novembro 6, 2012

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ao tempo da planta

para sorver da sapiência verde

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o inverso da queima da gasolina

minha máquina medida na ampulheta dos ciclos

da terra, do sol, dos mares

organismos em potência de semente

aguardo o instante da sombra

para o descanso

adormecer em sonho

despertar ereto em tua direção

este não é tempo de motores

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essa é a era dos desejos

quero acariciar tua língua

sentir o gosto de saliva

no tempo escorregadio

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nadar em tua caverna

é ancestral esse meu devaneio

minha cara

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não tem graça

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e ternamente

O celibatário

maio 3, 2012

Ele caminhava junto a dois outros homens pela trilha por entre as pedras, arbustos de um verde vívido e árvores – permitiam apenas a passagem de privilegiados fachos de luz. Por detrás – e além do seu campo de visão – sabia do céu límpido, azul, do sol da manhã a aquecer os seus corpos, garantindo o hálito úmido daquelas paragens. Nada poderia desencaminhá-los de seus desígnios. O mais velho dissertava sobre a importância da alimentação, do sono e de atividades físicas regulares. Nada em demasia. O importante era a qualidade e a regularidade para a garantia da manutenção do corpo saudável, segundo ele, essencial também para a elevação do nível mental e da conexão supramental. “Caso contrário o seu corpo padecerá, irá derreter, a pele escoará sobre os seus ossos, restando apenas uma estrutura cadavérica, desprovida de energia e será o fim de sua jornada nessa terra”. Mas quem era aquele velho sábio, de olhar penetrante, enérgico; e também o outro companheiro, aproximadamente da mesma idade de Renato? Agora o som distante de quedas d’água a absorver-lhe totalmente a sua atenção. A trilha parecia levar às cachoeiras da alma, cujo trabalho das águas havia resultado, através de sucessivas eras, numa bacia côncava, ampla, plácida, acolhedora ao mergulho. Renato já não notava a presença de seus companheiros. Haviam-no deixado nalgum momento da caminhada. A mata limitava-se aos bordos do grande lago. A essa altura o céu de um azul intenso podia ser apreciado em todo o seu esplendor. O suor escorria sobre a sua face, o sol presenteava-lhe com o seu calor. Tirou as suas roupas, calmamente dobrando-as e deixando-as sobre uma pedra mais saliente. Entrou na água, ela regenerava o seu corpo cansado do longo percurso. Mergulhou, afundando todo o seu corpo, deixando-o alguns poucos segundos ao sabor da corrente. Quando emergiu, notou a presença de duas ninfas. Eram belos espécimes femininos, plenas, seguras de seus atributos; os semblantes plácidos daqueles seres sencientes de seus poderes – e também de suas limitações. Uma delas estava na outra margem, deitada sobre uma grande rocha, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, o corpo nu arqueado para trás, a cabeça fitava o céu, a sua pele clara absorvia todo o espectro luminoso da manhã. A segunda estava de pé, com a água pouco abaixo dos joelhos, também próxima àquela margem. Apercebeu-se da presença de Renato quando ele lhe dirigiu a atenção. Uma resposta intuitiva da percepção. Era alta, quase da altura de Renato. O corpo firme, bem torneado. Os seios fartos e umedecidos pela água pura da cachoeira, que a brisa insistia em evaporar, deixando os seus mamilos eriçados. A sua bunda tinha uma curvatura doce, perfeita em regularidade e conteúdo de ambos os glúteos. Os longos cabelos encaracolados caiam-lhe até a metade das costas – a imagem de uma deusa. Renato olhou nos olhos dela que fitavam os seus. Ela atravessou a bacia nadando, calmamente, sem que perdessem o contato visual. De perto, o seu hálito era doce e ele podia sentir a sua respiração acelerada. Ele sabia que o sentimento era recíproco. Aquela bela fêmea enxergava no fundo de seus olhos um homem seguro, consciente de si, de seu entorno. O seu pau estava duro como uma imbuia, latejante, e ela podia perceber a pulsação daquele nervo erétil. Os seus lábios se tocaram. As línguas se entrelaçavam num balé delicioso e táctil. Renato sentia com grande prazer o contato de seu peito àqueles seios macios e quentes. Ela fez sinal para que ele se deitasse, beijando o seu pescoço, descendo suavemente pelo seu peito com sua língua até cobrir docemente o volume de seu pinto com toda a sua gula. Ela deliciava-se com aquele aperitivo; Renato regozijava-se ao menear de seu pau em contato a sua língua e às superfícies internas de sua bochecha macia. Depois foi a vez de ele retribuir as carícias com um longo passeio de sua língua pelas circunferências que delimitavam os seus mamilos. Ela demonstrava o seu encantamento com gemidos breves, doces de prazer. Ele penetrou os dedos pela sua boceta para sentir aquela reentrância quente e doce de suas carnes. Depois levou a boca em direção aos grandes lábios e sua língua a acariciar-lhe o clitóris vibrante. Ela jogava o seu corpo para trás, esticava os seus braços, as mãos, os dedos, todas as suas extremidades num prazer descabido. Ambos sabiam que as partes funcionando em consonância resultavam numa energia muito maior que o todo. Então ele levantou os olhos. Fitaram-se longamente. Renato penetrou o nervo vivo em sua acolhedora, aveludada e deslizante caverna. O movimento de seus corpos era síncrono. E não tiravam os olhos um do outro, como que fitassem as próprias almas. Seus corpos vibravam numa dança doce, indescritível. Até que, como um raio, ambos fossem atingidos simultaneamente por aquele gozo intenso, paradisíaco. Era como a descarga de uma grande explosão, que vinha do âmago de ambos os seres.

Renato despertou. Ele tinha gozado na cama e precisaria lavar pessoalmente os lençóis para que ninguém se apercebesse daquilo. “Que merda”, pensou. Depois ponderou melhor, sorriu, e voltou a cair no sono. Às cinco e meia da manhã o badalar dos sinos o despertou. Renato cuidou de sua higiene pessoal, orou em jejum, das seis às oito, como de costume. Depois tomou o café da manhã com os outros seminaristas.

Entretanto, nada mais seria como antes. A vida fluía intensa pelas areias da ampulheta de seu relógio. Naquele mesmo dia abandonaria o seu anseio de ser padre. Pode ser que nunca tivesse uma alma gêmea com a qual compartilhasse o vislumbre daquele sonho tórrido. Mas tinha absoluta certeza que lutar por isso valeria muito mais que todos os fios de cabelo na sua cabeça.

Crédito da imagem: Van Halen, capa do álbum MCMLXXXIV.

Os quatro desdobramentos do p4554r0

A n47ur3z4 do 50nh0

A conjunção f0r7ui74

 

Os quatro desdobramentos do p4554r0

 

Não deve o p4554r0 abater-se ou vilipendiar

a sua condição atual de criatura falível às manobras.

Este sentimento não é próprio

da realidade do p4554r0 senão

ao desejo de exercício pleno

da liberdade.

O porta-voz de um p4554r0

anuncia o sentimento oblíquo

de vôo rasante à alma

– ele grasna.

Mesmo ao p4554r0 existem restrições físicas

imputadas pelas correntes de vento,

o fluxo imanente do universo

que o compreende.

 

A n47ur3z4 do 50nh0

 

Se o 50nh0 está à mão,

então a realização é certa,

em momento oportuno.

A n47ur3z4 da providência

é a matriz dos aspectos consonantes.

Ele deve reter a essência dos 50nh05

enquanto possibilidades de alçar vôos perfeitos

em concórdia às condições favoráveis

de seu entorno.

 

A conjunção f0r7ui74

 

O 4rc0-íri5, a 357r314, a nuv3m:

são exemplos de alteridade

na perfeição inefável dos ventos

quando eles sopram ao sabor.

O p4554r0, o 4r, a v457id40 d0 35p4c0

devem entender-se como personagens

de um mesmo e amplo espetáculo porvir.

Então será:

pur0 m0vim3n70.

 

Um sonho e sua análise

janeiro 22, 2012

(I) Prólogo:

Ao longo de toda uma semana estive envolvido numa discussão com sujeitos de indiscutível capacidade intelectual e cultural, além de poderosa capacidade de persuasão – o que não implica, necessariamente, em elevação moral e de padrões éticos. Esses debates deram-se num sítio de literatura.

Confesso que a discussão revolveu o meu conteúdo emocional de tal forma que cheguei mesmo a ponto de determinadas atitudes que fugiram ao controle consciente, tendo por vezes reagido instintivamente, como um animal ao se sentir acuado.

A proposta desse artigo não é a de defender pontos de vista, nem o julgamento de valores; sendo o objetivo tão somente aquele da descrição de um sonho e posterior análise pelo sujeito que vos escreve.

Prossigamos ao sonho.

(II) Sonho:

Na noite do dia 20 para o dia 21 de Janeiro desse ano de 2012 tive o sonho cuja narrativa segue abaixo.

Eu e alguns poucos familiares havíamos sido convidados para uma festa por uma pessoa rica e eminente. Junto ao convite veio a observação explícita de que estávamos sendo convidados com o propósito de sermos figurantes, não devendo nos envolver com nenhuma das demais pessoas, identificadas como importantes políticos e autoridades, que estariam também presentes. Por se tratar de grande e refinada recepção, o que era uma oportunidade pouco comum, decidimos participar, apesar de a recomendação ter sido encarada como leve ofensa.

Chegando à festa, era fácil identificar os políticos e autoridades pelas suas roupas de gala, em distinção de uma parcela dos outros convidados que era a dos convidados figurantes. Os políticos e autoridades ocupavam mesas grandes em salas menores e separadas, também eram tratados de forma diferenciada, apesar de alguns deles circularem em meio ao grande salão ocupado pelos figurantes.

De repente percebi a presença de pequeno felino, um gato, que acompanhava a mim e aos meus familiares. Percebi, de súbito, que aquele era meu animal de estimação. O gato, por vezes, insistia em penetrar as salas menores destinadas às autoridades. Os garçons vinham então me repreender para que eu retirasse o animal daqueles ambientes restritos. Noutra ocasião eram os próprios anfitriões que vinham recomendar para que eu cuidasse de meu gato, mantendo-o distante dos políticos e pessoas eminentes. Aquela situação me causava grande constrangimento.

O sonho culminou quando o gato caiu em um bueiro, ficando a princípio preso às grades pelas suas patas dianteiras. Ele clamava por socorro. Tentei resgatá-lo, mas ele caiu dentro do bueiro. Com grande esforço, consegui alcançá-lo no fundo do bueiro e resgatá-lo. Lembro que isso me trouxe um grande alívio, e mesmo felicidade.

Despedimo-nos dos anfitriões e retornamos para casa. O sentimento era aquele de satisfação.

(III) Conexões:

Partiremos da definição das instâncias essenciais do sujeito. Os verbetes apresentados abaixo foram extraídos de: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “Novo Dicionário da Língua Portuguesa”, Editora Nova Fronteira, 1a Impressão (9a Edição).

Consciência. S. f. 1. Filos. Atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração.

Inconsciente. S. 2 g. 9. Psicol. O conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, nos sonhos, nos atos falhos, nos estados neuróticos ou psicóticos, i.e., quando a consciência não está vigilante. Inconsciente coletivo. Psicol. Parte do inconsciente individual que procede da experiência ancestral e transparece em certos símbolos encontrados nas lendas e mitologias antigas, constituindo os arquétipos.

Alma [Do lat. anima.] S. f. 2. Filos. Entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida (do nível orgânico às manifestações mais diferenciadas da sensibilidade) e ao pensamento: as faculdades da alma.

Espírito [Do lat. spiritu.] S. m. 11. Filos. O pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas: a matéria ou a natureza.

Consideremos, a seguir, as conexões básicas estabelecidas entre estas instâncias a partir do meu entendimento ou interpretação pessoal. Observe que se trata de opinião subjetiva; logo, não é uma verdade, nem pretende ser; é tão somente a expressão de uma única alma.

Dito isso, entendo que a alma de um sujeito (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) compreende a sua consciência (o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo) mais o seu inconsciente (o conjunto dos processos e fatos psíquicos que atuam sobre a conduta do indivíduo, mas escapam ao âmbito da consciência e não podem a esta ser trazidos por nenhum esforço da vontade ou da memória, aflorando, entretanto, quando a consciência não está vigilante).

Faço a distinção entre alma (a entidade a que se atribuem, por necessidade de um princípio de unificação, as características essenciais à vida) e espírito (o pensamento em geral, o sujeito da representação, com suas atividades próprias, e que se opõe às coisas representadas); sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

Repetindo, para a clareza da ideia: Entendo que a alma de um sujeito compreende a sua consciência mais o seu inconsciente (alma = consciência + inconsciente). E faço a distinção entre alma e espírito; sendo o espírito um conjunto mais amplo, do qual a alma é tão somente uma parcela desse conjunto, que atua no mundo da representação, ou seja, da matéria.

(IV) Análise:

Posteriormente, já em estado de vigília, e tendo recordado de um sonho com tal riqueza de detalhes, decidi dedicar algum tempo a sua análise. Para tanto, levei em conta a contextualização, apresentada em (I); e as conexões entre as instâncias essenciais do sujeito, descritas em (III).

Essa foi a minha interpretação: Eu e minha família representávamos o meu espírito – o sujeito da representação. O gato era a minha alma, i.e. a minha consciência mais o meu inconsciente (uma parcela de meu próprio espírito), que estava se metendo em contradições e antagonismos por invadir o espaço dos outros (interagindo com outros espíritos). A partir do momento em que eu consegui resgatar o gato – entenda-se por retirar-me da discussão que estava me causando o desgaste emocional – o conflito se desfez. Voltei a minha habitual paz de espírito e ao saudável alinhamento da consciência com o inconsciente (ou, ao menos, a redução dos conflitos para um grau minimamente aceitável).

(V) Por que eu escrevo?

Por que eu leio? Por que eu escrevo? Bem, eu leio porque sinto sede de conhecimento e do aprendizado; pelo desejo de autoconhecimento; pela vontade de saber mais sobre a natureza e entender dos processos de interação entre as criaturas – tanto aqueles de natureza objetiva, quanto aos outros fenômenos, mais sutis. Escrever é uma forma de organizar minhas próprias ideias. Posso concluir, portanto, que escrevo para mim. É mesmo, antes de tudo, uma atividade egoísta.

Dessa experiência resultou a minha decisão de não mais me reportar ou dirigir àqueles sujeitos que estavam me desgastando. Pura e simplesmente desfazer todos os laços emocionais. No meu parco entendimento se tratam de espíritos com os quais eu não tenho afinidade (diga-se de passagem, sem qualquer julgamento de valor).

Pode ser que sejam muito avançados para a minha compreensão. E uma criança de poucos meses não costuma sair por aí andando sobre os dois pés antes de aprender a engatinhar; i.e. precisarei, nesse caso, de mais tempo e bagagem para uma interação saudável. Ou podem se tratar de espíritos de natureza distinta à minha. Nesse caso, sendo os valores éticos e morais diferenciados, faz-se também necessária manutenção de certo distanciamento, de forma a se evitar os atritos demasiados.

Importante é o respeito às diferenças; a compreensão de si mesmo; e o aprimoramento de cada criatura, que é distinto e inerente às suas próprias vivências pregressas.

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Regar as plantas

dezembro 26, 2011

The Garden of Earthly Delights by Hieronymus Bosch

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Que morram as plantas, foi o que ele disse. Essa frase até poderia soar natural vindo da boca de outro; mas ele, aos noventa e sete anos de idade, ocupara-se da incumbência de cultivá-las desde o dia em que sua amada deixou de acompanhar-nos nessa viagem à crosta desta estranha pedra celeste, no ano de um mil novecentos e noventa e oito. Assim, as verdes folhagens que habitam a varanda da casa dele tornar-se-ão, aos poucos e gradualmente, tênues, amareladas, sem viço pela falta de água e dos demais cuidados despendidos a terra. Enfim, morrerão como todas as outras plantas que inexistem nas casas de outros velhos.

Antes dessa revelação desconcertante, conversávamos tranquilamente. Ele contava, por detrás de um sorriso enigmático, que passava alguns dias na casa de um de seus filhos, que quando esse primeiro se enfadava pela sua presença, botava-o num ônibus interurbano e mandava-o para outra cidade, onde outro de seus filhos ansiava por recebê-lo. Mas em breve, passados alguns dias, quebrava-se o encanto, num passe de mágica o seu segundo filho se sentia importunado, botava-o num transporte interurbano e mandava-o para uma terceira cidade. Essa sim, era sua morada, e as verdes folhagens aguardavam-no sedentas, saudosas, complacentes de sua companhia.  

De um sorriso imperceptível, que vazava mínimo de um dos cantos de sua boca, ele dizia que essa era sua rotina, a história de sua vida. E devido a esses e outros detalhes menores, não era possível inferir sobre a veracidade ou não daquilo que ele contava sendo, nessa última hipótese, reminiscência da mais fina ironia.

 

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Enquanto isso, noutra cidade, à varanda de uma casa singela, era puro o devaneio. Naquela tarde escaldante de verão, samambaias desciam, com os peitos de fora, a Marquês de Sapucaí. Cactos, com a barba por fazer, fumavam charutos, usavam óculos de Sol e fingiam ler o jornal para observarem, atentos, as curvas de uma bromélia a desfilar, em minúsculo biquíni, pela praia. Orquídeas faziam compras num shopping.

A papoula, o peiote e outras plantas psicotrópicas bebiam e fumavam demasiadamente.  Suspeitava-se que cola bebia café e cheirava coca à calada da noite, quando as vincas e as trombeteiras faziam serão na ala de oncologia de um hospital do SUS. Requisitaram o guaraná, com seus olhos esbugalhados, para averiguar, mas faltaram-lhe as provas. E por isso é que, todo o dia primeiro do ano, o maracujá deixa um ramalhete de flores para Iemanjá. 

As gramíneas querem o poder, não baixam os olhos dos indicadores da bolsa, passam a vida em busca de acumular riquezas, sem nunca terem mirado o próprio umbigo. Plantas carnívoras comem frango e arrotam peru, roncam enquanto dormem largadas nas redes. Malditas plantas egoístas. Mas nem em sonho superam a espada-de-são-jorge no tocante àquela sua loucura desmedida de fatiar a Lua, como se esta fosse queijo. Sorte grande é a das trepadeiras, gozam plenas das delícias desse mundo.

 

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Um silêncio paira no ar. As plantas são melhores que os seres humanos; deixo escapar alto, de minha boca, num pensamento. O segundo silêncio perpassa o ambiente. Sinto um calafrio percorrer a minha espinha. Arrependo-me do comentário até o último fio de cabelo. Não, não são; diz o velho, enfim. Mas é tarde e o processo, irreversível: o terceiro silêncio soa infinito.

Dias depois o velho toma novamente o ônibus interurbano. Ao chegar a casa, ele rega as plantas de sua varanda. Verdes folhagens. 

A vida habita inextricável o verde da matéria.

O cOnstrutOr de sOnhOs

junho 2, 2011

lá vai O cOnstrutOr de sOnhOs

bravO guerreirO

abatidO em batalha

nãO abandOna a labuta

chapa de frente

ante as agruras

faz seu própriO caminhO

traçadO a fé e fOgO

chupa dOs peitOs gOstOsOs

generOsOs da mãe natureza

se seu pau cresce tOrtO

é para cOmê-la de ladO

semear nOvOs

Os grãOs dO sOnhO

É sabido que a noite de Lua nova é escura como o breu. Mesmo naquelas cercanias habitadas pelo verde pungente dos desvarios hostis; nessas noites que se fundem a serra em estrelas gordas a espalharem-se ao acaso pelo céu.

Jorge ascendeu ao cume pela via tradicional trazendo consigo o fumo de rolo – diversão certa dos matutos habitantes das fazendas e sítios.

Antonio subiu o monte na hora acordada, trazendo uma resma de folhas de palha para a elaboração do cigarro caipira.

Diogo estava lá sentado; em pose essencialmente tosca; aguardava. Nada levou, além de seu corpo simplório e a determinação nauseante do por vir.

Jacinto, o último a apresentar-se dentre os quatro homens, trouxe num dos bolsos de suas vestes uma caixa com palitos daqueles de fósforo: auto-incandescentes pelo atrito de suas pontas.

Quando a bagana queimou firme, a bruma ergueu-se densa. Sobrepôs-se de forma inquebrantável ante o verde sufocante. Surgiu – como que miragem onírica – as formas fluídicas da sacerdotisa que dançava em suas vestes frouxas, alvas e deliciosamente translúcidas. Juliana em seus cabelos longos. Seios fartos e saudáveis de mulher madura. Pernas roliças, esculpidas em força e lisura inebriantes. Bunda que assuntava os céus. As estrelas num frêmito: tensão que dominava rígido o tesão dos homens simples e puros de suma ignorância quanto à natureza daquelas delícias.

Sacerdotisa Juliana iniciou a preleção afirmando que a compreensão de natureza sutil, da qual versava a disciplina, requeria a capacidade de distanciamento da aritmética tradicional, por se tratar de conhecimento antigo e intuitivo. Disse também que a totalidade destes ensinamentos, bem como a sua mais profunda significação, estava além da capacidade humana de cognição. Disso decorria a necessidade da atenção redobrada por parte dos gentios na aprendizagem da geometria dos símbolos. “No grau em que Vocês se encontram parte do que será dito deve ser compreendido logicamente, enquanto o complementar da lição, apenas em sentido figurado. Entretanto, dependendo do tópico, a razão será mais ou menos requerida, enquanto exigir-se-á menos ou mais da subjetividade. Porém, e apesar da variabilidade sensorial, o nível de conteúdo dos tópicos é aproximadamente o mesmo – e assim deve ser entendido – visto tratar-se das sete formas de desdobramento do universo, que em sua essência, é sempre o mesmo.”

(a) A primeira figura é o círculo completo. Este é o símbolo do ponto indivisível, que representa o espaço infinito, onde habita o movimento incessante. O espaço pode ser diminuído, estricto – o que se dá pela redução do diâmetro da circunferência –, mas nunca dividido. Ao mesmo tempo, o círculo é infinito, o espaço que tudo contém, com seu diâmetro livre para crescer indefinidamente. A primeira forma é a desse movimento incessante, de expansão e de constrição, do ponto uno. Imanente a pulsar – o que é representado metaforicamente pelos círculos de menor e de maior diâmetro, desenhados em complemento ao símbolo original, característica dessa geometria.

(b) O segundo símbolo é aquele derivado do anterior: o círculo com um ponto central. Essa geometria representa o espaço infinito, com seu movimento incessante e a semente. A semente é o ovo primordial, que existe apenas em potência. Isto é, o ovo reside no universo das possibilidades, encontrando-se além do alcance, da compreensão do homem. Sobre a figura, o que pode ser dito é que toda semente assim é nalguma instância – e de alguma forma – para depois deixar de ser isto.

(c) Decorre então o círculo com um traço longitudinal partindo-o ao meio, que é a forma geométrica de terceira espécie. Seu simbolismo é aquele dos opostos: o claro e o escuro, o yin e o yang, a Lua e o Sol, dentre tantas outras dicotomias. Pode-se dizer que toda a experiência sensorial humana decorre de uma imensa colcha de retalhos dessa miríade de zeros e uns; destas partições binárias ponderadas num contexto específico da mente; isso caracteriza Maya ou aquilo que (erroneamente) chamamos de realidade – o que é e o que não é: a ilusão. Apesar da capacidade de abstração dessa idéia, ou conceito, até os símbolos de terceira instância não dá-se a vida, ao menos na forma como lha compreendemos no estágio atual. O importante no tocante a essa geometria em particular é termos em mente que da luz decorre a escuridão, que das trevas resulta a luz: é eterna a dinâmica do universo, por vezes simbolizada pela serpente (réptil peçonhento) ou dragão (criatura mitológica) a devorar seu próprio rabo, i.e. ourobouros.

(d) O círculo com uma divisão longitudinal ao longo do diâmetro, acrescido de uma partição vertical de sua extremidade inferior até o centro da figura. Ou, simplesmente, o Tal. Esse símbolo da geometria de quarta espécie traz intrínseca a representação da trindade – eu, tu, ele. Caracterizam as formas mais simples de vida na Terra, os organismos unicelulares, e outros, cuja reprodução dá-se de forma assexuada, pelo mecanismo de bi-partição. Está também associada ao simbolismo de quarta espécie a noção dos fenômenos físicos; do vínculo estabelecido entre observador, objeto e o espaço-tempo. De fato, a geometria de quarta espécie é o pano de fundo de Maya. 

(e) A cruz que divide o círculo em quatro partes iguais ao longo do seu diâmetro em direções ortogonais. Este é um símbolo fálico. Decorre daí a associação com as criaturas mais evoluídas de nosso planeta, cuja reprodução é sexuada. É fundamental o entendimento de que as formas simbólicas de quinta instância trazem em seu centro o germe da transfiguração (quinta-essência). De fato, toda a geometria apresenta – em verdade – o movimento, potência ou tendência natural evolutiva. O que se pretende enfatizar aqui, no que diz respeito especificamente às formas quíntuplas, reside no ponto central, à conexão da cruz: as relações estabelecidas entre o pai, a mãe e o filho levam, por indução, a todos os conceitos associados à transcendência: a interdependência, a continuidade da criatura, a ligação subjetiva do ser com o outro, o inconsciente coletivo, enfim – e no limite – todos somos um só.

(f) A geometria do símbolo hexagonal, apesar de sua grafia plana – o círculo com três partições ao longo do diâmetro – deve ser entendido como uma esfera bipartida em dois planos ortogonais. É observado que resulta da transcendência da quinta para a sexta instâncias a nova (terceira) dimensão do espaço simbólico. Esse nível de compreensão do universo transcende a percepção do humano. O nível quarto – também chamado de grau médio – é aquele onde a complexidade em Maya atinge o seu ápice, para a posterior depuração em estruturas organizacionais menos densas, em níveis subseqüentes que  levam a sublimação. Toda a idéia já está sintetizada na geometria de primeira instância: o movimento incessante, de expansão e de constrição, imanente a pulsar.

(g) Como já foi dito, o universo desdobra-se em sete instâncias. O símbolo da geometria de sétima espécie deriva da anterior (como todas as demais): a esfera bi-partida em dois planos ortogonais, com um hexágono demarcado num plano (representando as seis diferenciações anteriores) mais o salto para fora (ou o ponto de fuga na extremidade superior do plano ortogonal). Resulta daí a forma elementar de sete lados. Observa-se que os lados internos do hexágono apresentam todos os seus ângulos internos de sessenta graus, enquanto os ângulos internos entre as faces opostas triangulares descrevem, todos, noventa graus. Os lados hexagonais têm comprimento igual à metade do diâmetro da esfera; enquanto os outros lados, cujo ponto de fuga é uma de suas extremidades, apresentam sempre o mesmo comprimento de raiz de dois sobre duas vezes o diâmetro. A geometria de sétima instância é de difícil abstração, mesmo para as criaturas que já abandonaram sua natureza predominantemente tosca. Mas é fácil provar que com oito figuras dessas monta-se uma nova esfera de diâmetro aumentado de raiz de duas vezes àquele original. Ou seja, a oitava forma geométrica é novamente o círculo perfeito, que é geometria elementar de primeira instância (e além): movimento incessante, de expansão e de constrição, o imanente a pulsar, infinitamente.

Jacinto risca um palito na caixa de fósforos e aproxima a chama dos contornos fluídicos de Juliana. O vestido da sacerdotisa se inflama e ela derrete-se; como o plástico quando vai ao fogo, condensa-se num múltiplo emaranhado, até o seu completo desvanecer. As brumas dissipam-se. Os quatro homens se encontram então novamente a sós, ao topo do silente e soturno monte.

 – Caralho! Por que você fez isso? Brada Diogo, em voz inconsolável.

 – Caralho é a porra: eu não estava entendendo picas do que ela dizia. Defende-se Jacinto, o bárbaro.

 – Mas você é burro, hein?! Deixasse-a falar; uma puta gostosa dessas não é toda noite que aparece. Opina Antonio, todo matuto de si.

 – Muito ainda terá de ser dito novamente. Nessa e noutras infinitas formas, tão saborosas quanto. E não restará pedra sobre pedra. É a fala do último dos gentios.