Dislexia

março 28, 2012

Acima: SUN, a suavidade, vento, madeira

Abaixo: KÊN, a quietude, a montanha

Hexagrama 53 do I-Ching

Oráculo: CHIEN – Desenvolvimento (O Progresso Gradual)

Imagem: Uma árvore sobre a montanha exerce uma influência, através de seu lento crescimento, sobre a paisagem. Assim também, a influência do sábio sobre os homens não se dá de forma rápida, mas é construída gradualmente, através do desenvolvimento de sua força interior, para que tenha efeito duradouro.

“Xnxoxmxex, dez anos de idade. Vindo de pequena cidade do interior devido à mudança da família / transferência do pai para a capital por motivos profissionais. Extrovertido, divertido e extremamente inteligente.” – é o que ela lê na pasta que retirara pela manhã na secretaria. Aquilo parece não fazer o menor sentido. Levanta os seus olhos da mesa, disposta bem defronte aos alunos, procura na quarta coluna da direita, penúltima carteira, e lá está ele: um garoto magro, esquálido, cabelo curto, quase raspado, cutucando com o indicador direito uma de suas narinas, cabeça baixa, escrevendo textos naquela sua linguagem incompreensível.

6 p17f244716 24t6 82nd7 6 m3nh6 f35h6. 286 n67 p2152b2 qu2 tud7 n67 p6446 d2 um t26t17, um j7g7 42m v2n52d7124, p21d2m74 t7d74. 24464 6u864, 6 m6n3pu86567 d2 t2n164 m2nt24 3nf6nt34, 4u6 p42ud7-p124un567 d2 2n43n61 7 7bv37 2 7 j6 57nh253d7, p286 v36 3n46n6 d6 12p2t3567. 4216 qu2 n67 p6446 p286 56b256 d286 qu2 n67 47m74 6ut7m6t74? 7nd2 24t67 74 2×21535374 p616 7 d242nv78v3m2nt7 d6 57mp122n467, d6 12f82x67 2 d7 qu24t37n6m2nt7, 24t64 43m, h6b383d6d24 2442n53634 p616 64 t7m6d64 d2 d2534724, 64 mud6n564 d2 6t3tud2, 2nf3m, 7 p17g12447? (Pepino, o Breve / Carlos Magno)

A professora risca da folha os adjetivos extrovertido, divertido, extremamente inteligente; sobrescreve; substitui a anotação por desatento, introvertido, quase um demente. Então ela se levanta e inicia a aula, na forma de ditado, enquanto avança, lentamente, através das fileiras, com o livro de história em mãos: “Pepino III, também conhecido como Pepino, o Breve ou Pepino, o Moço, nasceu no ano de 714 e faleceu aos 24 de Setembro de 768. Foi o rei dos francos do ano de 751 até o ano de 768; é mais conhecido por ter sido pai de Carlos Magno e o filho de Carlos Martel.”

Quando a professora passa ao lado da carteira do menino bate o olho naquele trecho sem o menor nexo, cujas únicas analogias que ela percebe com o ditado de história são os nomes de Pepino, o Breve e Carlos Magno, anotados entre parênteses.

– Mas que é isso, menino? Ele não responde, a cor de sua pele torna-se, de súbito, rubra, o garoto baixa a cabeça na carteira e desanda a derramar lágrimas, num choro baixo e tímido. A professora pede ao menino que deixe com ela aquelas suas anotações e anexa à pasta escolar do garoto.

Troca de correspondências: A escola envia um comunicado para a mãe do menino recomendando que ela encaminhe-o a um psicologista. Entre os adjetivos que lhe são atribuídos figuram desatento, introvertido e dislexo (este último substituindo quase um demente, anotado na ficha escolar do garoto). A mãe, nervosa e preocupada com a dificuldade de adaptação do menino, mostra o recado na mesma noite para o pai. Este, por sua vez, perplexo, observa menção ao ditado incompreensível recolhido pela professora de história.

– Mas como isso é possível? Pergunta a mãe.

– Peça que, por favor, apresentem-nos esse texto, responde o pai.

Dias depois o pai tem uma cópia xerox daquela sequência insidiosa de letras e números assinada pela dupla de reis Pepino, o Breve e Carlos Magno. Ele, um geólogo respeitado e amante da paleolinguistica, respondeu à escola em carta de próprio punho.

“O menino vai bem. Parece que ainda não totalmente adaptado à nova escola, mas da dislexia ele não sofre, a professora que me desculpe por discordar. Trata-se de um trecho criptografado, numa variante bastante simplista do código usado por Zimmermann no seu famoso telegrama. Este foi um telegrama codificado e despachado pelo ministro do exterior do Império Alemão, Arthur Zimmermann, em 16 de Janeiro de 1917, para o então embaixador alemão no México, Heinrich von Eckardt. O telegrama foi interceptado,  decodificado pelos britânicos e o seu conteúdo levou ao envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Grande Guerra. A chave para a mensagem do menino está obviamente nos nomes anotados entre parênteses; as letras diferentes são substituídas pelos numerais crescentes, de um até oito, à medida que aparecem. Assim a mensagem deve ter sido codificada pelo garoto para evitar maior constrangimento, e a decodificação é possível pelo caminho inverso.” A carta do pai terminava dessa forma brusca, sem qualquer menção ao conteúdo da mensagem do menino (ou aquele do telegrama de Zimmermann), e sem nota final de cumprimento.

A professora recebeu a mensagem enviada pelo pai das mãos da diretora e ficou intrigada com aquela história. Alguns dias depois ela redigiu a terceira carta, um tanto enigmática e indelicada, endereçada ao pai, e encaminhada pela própria mãe do menino.

“P E P I N O _ O _ B R E V E

1 2 _ 3 4 5 _ _ _ 6 7 _ 8 _

b pprfennrpb entb vendr b minhb fiohb. evb nbr pepoebe que tudr nbr pbnnb de um tebtpr, um jrgr nem venoedrpen, pepdemrn trdrn. ennbn buvbn, b mbnipuvbobr de tenpbn menten infbntin, nub pneudr-ppenunobr de enninbp r rbvir e r jb ornheoidr, pevb vib innbnb db pepetiobr. nepb que nbr pbnnb pevb obbeob devb que nbr nrmrn butrmbtrn? rnde entbr rn exepoioirn pbpb r denenvrvvimentr db ormppeennbr, db pefvexbr e dr quentirnbmentr, entbn nim, hbbividbden ennenoibin pbpb bn trmbdbn de deoinren, bn mudbnobn de btitude, enfim, r pprgpennr?

C A R L O S _ M A G N O

1 2 3 4 5 6 _ 7 _ 8 _ _

s pcmfallmcs alts gandm s mrnhs frohs. ags nsm pacoaba qua tudm nsm pslls da um tastcm, um jmgm lam vanoadmcal, pacdamml tmdml. allsl sugsl, s msnrpugsosm da tancsl mantal rnfsntrl, lus plaudm-pcalunosm da anlrnsc m mbvrm a m js omnhaordm, pags vrs rnlsns ds capatrosm. lacs qua nsm pslls pags osbaos dags qua nsm lmmml sutmmstml? mnda altsm ml axacororml pscs m dalanvmgvrmantm ds ommpcaanlsm, ds cafgaxsm a dm qualtrmnsmantm, altsl lrm, hsbrgrdsdal allanorsrl pscs sl tmmsdsl da daorlmal, sl mudsnosl da strtuda, anfrm, m pcmgcallm?

Com todo o respeito, recomendo que o senhor procure um psicologista junto com o garoto, pois, observado que o senhor o compreende, é bem possível que deva sofrer de enfermidade léxica da mesma natureza.”

Naquela noite o pai quase mijou de tanto rir. Ele pediu ao menino para entregar um pequeno envelope lacrado a sua professora de história. O garoto, que não estava ciente da troca de mensagens, cumpriu sua simples incumbência de mensageiro. O conteúdo do envelope trazia breve anotação em apenas duas linhas.

“R E I S _ C A R O L I N G E O S

1 2 3 4 _ 5 6 _ 7 8”

(É redundante, mas) não custa dizer que, com o tempo, o menino se socializou com os colegas da escola; dizem até que o nível do curso de história melhorou (um pouco).

A professora está lendo a minha ficha. Ela não percebe que tudo não passa de um teatro, um jogo sem vencedores, perdemos todos. Essas aulas, a manipulação de tenras mentes infantis, sua pseudo-presunção de ensinar o óbvio e o já conhecido, pela via insana da repetição. Será que não passa pela cabeça dela que não somos autômatos? Onde estão os exercícios para o desenvolvimento da compreensão, da reflexão e do questionamento, estas sim, habilidades essenciais para as tomadas de decisões, as mudanças de atitude, enfim, o progresso?

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