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dezembro 17, 2015

auto_retrato_jorge_xerxes-1

 

cada cabeça uma sentença

tem neguinho que imagina

a pessoa como se fosse

não sei quantos gigabytes

na memória de um computador

modelo universo

cada um contribuindo com software

(punhado de ideias na cabeça)

e hardware

(corpo, matéria, espaço)

o suficiente para rodar o programa

v1d4

 

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Os extraterrestres

maio 27, 2014

cabecas

Cabeças dando as cartas do destino.

Pensam que estão com tudo

quando se entendem.

Em meio ao remoinho de ideias,

miríade de traquinagens,

nem se apercebem.

Entrementes a estas cabeças

(dur45)

estranhas criaturas

observam.

Para um dia desfazerem o novelo de forma humana,

no sentido exato do compadecer-se,

que o uso tão frequente do prefixo

des

fez questão de obscurecer

de nossos lábios.

Tornamo-nos sombras,

formas puídas de nós mesmos.

Mas isso não prevalecerá.

Perceba…

 

Ele estava refestelado ao sol da manhã, para fugir da dor implacável, mas sua alma permanecia fria como uma lápide; um espírito contrito. Fechou o livro. E dirigiu a mim aquelas palavras.

O ser humano, dito racional, é a causa dessa minha dor. Esse anseio besta pelo infinito. É só quando fito o céu noturno, e posso observar as estrelas em sua permanência de bilhões de anos, que posso apreender isso a que denominam eternidade. Todo resto é parte dessa farsa do efêmero, a grande farsa de nossa civilização. Uma ampla gama de disciplinas lógicas desenvolvidas a partir de um erro em sua essência. Não é preciso grande aprofundamento nos fundamentos da economia para aperceber-se que a crença na acumulação de riquezas encontra a sua restrição nos recursos dessa nossa esfera celeste. Ainda assim insistimos em revesti-la de fina camada de concreto e lixo. Assim como não preciso ser um especialista em biologia para identificar a espécie que é a verdadeira praga desse planeta. Estamos a desestabilizá-lo há milênios e as medidas de contenção são claramente desastrosas: criar o gado para o consumo, as grandes plantações de cereais substituindo áreas imensas de vegetação nativa. Substituindo e transformando uma grande diversidade de espécies por sete bilhões de criaturas orientadas para o consumo desenfreado, valores distorcidos e a autodestruição.

Levantou da cadeira, deixou o livro sobre ela, fitou o infinito do céu azul. Se por um lado o sol aquecia o seu corpo, soprava concomitante a brisa gelada daquela manhã de outono. Então ele fitou fundo os meus olhos e prosseguiu.

É coisa que não vem de hoje: a ideia do racional que é transmitida através das gerações. Ainda assim, a história descreve em detalhes os ciclos sucessivos de dominação e da exploração do humano pelo semelhante. Uma luta desenfreada pelo poder, a usura desmedida, a arrogância, a presunção e o enxergar não muito além do próprio umbigo. O ser humano a espalhar um amplo espectro da dor e do sofrimento permeado por ideais de esperança numa paz que nunca chega. Não, o ser humano não é – nem nunca foi –, em última instância, racional; e o pior é essa sua pretensa elevação, atribuída à quimera da racionalidade.

Dito isso, ele tomou a enxada que estava encostada num dos pilares da edícula e pôs-se a cavar. Tchop, tchop, tchop…

O ser humano verdadeiramente humano e consciente de si deveria cavar um buraco, enterrar-se e aguardar pela morte enquanto reza para que os seus nutrientes sejam distribuídos em condições equânimes aos vermes que habitam as circunvizinhanças de seu jardim. Ele sabe que toda a criança chora ao nascer o primeiro dia de sua morte, toda uma vida de dores e desencantos pela frente. Então, porque aguardar pelo corpo senil, cadavérico, pela pele enrugada, um punhado de ossos carcomidos e desprovidos de musculatura sadia para doar-se a terra? Doar-se-ia já!

Há, há, há! Ouvindo-me falar assim você deve imaginar que sou algum tipo insano de altruísta, de idealista. Qual o que, meu pai ensinou-me muito bem: eu sou hu-ma-no! Essa praga da pior espécie. Sou arrogante, egoísta ao extremo. Eu sei, para que EU possa prosperar, você deve perecer.

Ele tomou-me em suas mãos com zelo e disse: Adeus Brás Cubas! Jogou-me ao fundo da cova rasa. Ainda pude ouvir o murmurinho do trabalho com a enxada a cobrir o meu corpo. Tentei gritar, blasfemei todas as gerações pregressas de insanos como ele; sem efeito. Fui enterrado vivo.

Ao longe, abafado pela terra ainda pude ouvir: Que lindo cemitério de livros eu tenho em meu jardim!

Mas sou eu que habito o chão desse cemitério a céu aberto de humanos – ainda tive tempo de refletir.