O elixir da vida

março 25, 2017

         

círculos, círculos

círculos, círculos

ele não é o macho alfa

círculos, círculos

ponto

ele é o espermatozoide alfa

aquele que acertou na mosca

naquela da qual você

pôde vir a ser

um em todos nós

          

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Eu desço nesta estação

setembro 23, 2016

estacao_jorge_xerxes

              

dizem dos tempos de agora
remotos, imprevisíveis dias
o que antes era rotina:
estação
das trilhas entre possíveis caminhos
quando prima Vera chegar
trazendo alento, vida
amor no coração

Não há vagas

maio 16, 2014

nao_ha_vagas_jorge_xerxes

Há uma noção equivocada de que o tempo passa. Quando, em verdade, ele não passa de elemento rítmico a compassar os eventos. Daí os batimentos cardíacos, a inspiração e a expiração. Acrescente-se a estes os ciclos lunares, a rotação da Terra – os dias e as noites – e a translação desta nossa pedra celeste ao redor do Sol. Estes são eventos que fluem. Não é o tempo que escorre, é a vida que passa através dele. Nestes nossos dias não há vagas. O tempo é justo, exato e não há de sobra. Cada criatura é responsável por sua própria história.

Ad aeternum

março 11, 2014

The_Persistence_of_Memory_1931_Salvador_Dali_7873

Este senhor reduzir-nos-á

cada um de nós ao seu

tempo.

Ele também decairá às voltas

dos ponteiros dum relógio.

Apesar disso sobrexiste:

sua essência mutante,

elemento transcendente

do agora.

G-T-T-C-A-C-A-G

Tic-tac-tic-…

Somos genealogia

a observar de velho

o passado.

“The Persistence of Memory” is a 1931 painting by artist Salvador Dalí, and is one of his most recognizable works.

Da pressão dos dias

outubro 30, 2013

 

 

Enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu: da indescritível contrição de minha alma, suprema angústia, que verte através de meu punho esquerdo nessa grafia imprecisa, ziguezagueante e tonta; à umidade do papel que, agora seco, outrora sorveu parte das lágrimas deste inverossímil remetente. Pouco importa como estes parcos arranjos de letras, sílabas, palavras, sentenças chegarão aos teus sentidos; saiba que valem cada árvore derrubada para a preparação de redação simples em folha; ainda que você a despreze, de novo e de novo, como é teu o costume de negligenciar a essência em detrimento de outros tantos retalhos insignificantes, duma existência reles.

 

Que fique desde já grafada a ferro e fogo, como se marca o gado, a minha desaprovação a esse teu comportamento mesquinho, ao teu egoísmo; o que credito a mais absoluta falta de sensibilidade.

 

Entretanto, e apesar disso, prossigo. Faço votos que em momento oportuno você retorne a estas mal traçadas linhas, este raciocínio torto de poeta, de quem tenta enxergar por frestas, ou através da bruma.

 

Vale lembrar que o tubo de pitot foi inventado pelo engenheiro francês Henri Pitot no inicio do século XVIII e aprimorado na metade do século seguinte pelo cientista Henry Darcy ao seu formato atual. Este simples aparato é largamente utilizado em aeronaves para a medição da velocidade.

 

O medidor de pitot consiste em fino tubo alinhado na direção do fluxo atmosférico, ou seja, alinhado à direção de voo. Outra abertura é alinhada ortogonalmente ao fluxo de ar, em geral num plano paralelo à superfície da fuselagem. Essas tomadas de ar apresentam duas diferentes pressões: a primeira delas diz respeito à pressão de estagnação, enquanto a outra se refere à pressão estática. Ambas as pressões são confrontadas, conduzidas aos lados opostos de um vaso com diafragma central, de modo que a deformação desta membrana está associada à pressão dinâmica de fluxo. A pressão dinâmica é também igual à metade da densidade do ar vezes a velocidade da aeronave ao quadrado, sendo então possível a avaliação dessa grandeza.

 

Mas esta velocidade é medida em relação a qual referencial? A aeronave está viajando no espaço e para a sustentação interessa apenas a sua velocidade com relação ao fluxo de ar. Em última análise, pouco interessa a velocidade da aeronave com relação ao solo. A sustentação pode ser garantida mesmo com esta parada, desde que seja provido necessário fluxo ar, como é o caso dos ensaios em túnel de vento.

 

Habitando essa nossa pedra celeste, somos bombardeados por flutuações da pressão de estagnação advindas do meio. Estas ondas sonoras que viajam pelo ar chegam aos nossos tímpanos – as membranas internas dos nossos ouvidos. Doutro lado do tímpano há a pressão interna do aparelho auditivo, e a modulação da pressão dinâmica resultante é o que possibilita o sentido de audição.

 

Os padrões se repetem. Por analogia, podemos pensar nas demandas do mundo externo a se chocarem com as nossas expectativas mais íntimas – abordando a questão pelo viés da psicologia. As pressões conscientes se contrapõem àquelas inconscientes resultando daí o estado de espírito mais ou menos depressivo, mais ou menos maníaco. Enfim, a tênue fronteira entre o equilíbrio mental e a loucura.

 

Todos estes problemas estão associados à acomodação dos opostos em cada um desses pontos de medida, à nossa experiência. O frio e o calor, o leve e o pesado, a luz e a treva: são facetas da realidade última que é.

 

A percepção da realidade é atributo intrínseco à vida em todas as suas formas, das mais simples aos mais complexos organismos. E viver não passa de uma viagem no fluxo de eventos do espaço-tempo.

 

Por isso tudo, imagine dentro de cada uma de nossas cabeças um buraco negro, uma dobra do espaço-tempo, um ponto onde o observador se funde ao universo de eventos, com potencial de realimentação das expectativas, da geração de respostas criativas e reorganização dos padrões da realidade.

 

Se for isso mesmo, dobra no espaço-tempo, cada criatura pode ser representada por uma onda se propagando no oceano que é o universo. Uma dobra, uma onda, um vinco que surge pequenino da surpresa de aperceber-se vivo até a sua completa reintegração ao fluxo cósmico.

 

E fique desde já grafado a ferro e fogo, como se marca o gado: enquanto você lê esta carta, muita coisa se perdeu. Noutro canto, entretanto, brotos nascem das sementes de sonhos.

 

Ser humano

agosto 17, 2013

ser_humano

– efêmera criatura

Ex-istir

janeiro 6, 2013

jorge_xerxes_ex_istir

obei johei dédalo azul

formaes fé rica tamanha

ossete maresa aha-bi

tarlhe asu perficei

ter rasal picada desang, eu

arege nerar seterna

eiso mi lagre

desdalo venim possível

fa zerpar tedela

são sanos mis

 

o beijo hei de dá-lo azul

forma esférica tamanha

os sete mares a habitar-lhe a superfície

terra salpicada de vida

vida verde, vida de sangue

a regenerar-se terna

eis o milagre

desvendá-lo impossível

fazer parte dela

nossa missão

Sob o mesmo céu

agosto 10, 2012

Ele dizia que a cidade grande não passava de um amontoado de braços, de pernas, de passos apressados em incessante movimento por entre as vias de piche. Dentro das enormes caixas de concreto, acondicionados às mesas das repartições, repousavam os corpos, com os dedos indicadores de suas mãos direitas a clicarem frenéticos os mouses, os olhos fixos no monitor. E resultaria daí a suspensão temporária da vida.

Dentro das barcas – ao sabor das ondas – ou ainda no sacolejar de velhos ônibus enferrujados, a rotina do transporte para a manutenção da metrópole, como que o fluxo sanguíneo a oxigenar um gigante organismo, nesse nosso eterno ir e vir.

Ele me disse que a vida – a verdadeira vida – habita os interstícios desse complexo de concreto e piche. Ela reside nas fendas. No burburinho às portas estreitas do botequim; a gargalhada sincera no bate-papo dos camaradas cujos destinos se cruzam no coletivo; na algazarra das crianças, brincando inocentes na areia da praia em pleno horário de expediente.

Expurgou as suas dores, contou dos seus amores, alguns temores e outros sonhos. Tudo isso ele despejou em meus ouvidos num breve instante; desses raros, nos quais a vida mostra-se plena. E não recordo ao certo onde foi que nos falamos; se o sol estava a pino, ou se fazia noite escura como o breu. Importa que aquela ideia fez com que eu refletisse. Estou vivo.

Da simbiose imperfeita

junho 27, 2012

imagem capturada pelo Deputado O. S. Ozz em Savannah, GA, USA, 27/06/2012

Nada ao que digo. Parece não lhe fazer sentido. Por isso boia, inconstante: o desejo de aproximação e de repulsa simultâneos. Assim mantemos a distância segura dos indecisos, subjugando-nos aos caminhos escusos das presas em potencial, ou ao olhar aguçado da ave de rapina – a perscrutar do cimo – quando, em verdade, tudo o que subsiste é o amor e a entrega. A vida não volta. Ela passa rente às retinas, numa sucessão rápida de imagens difíceis de apreender. É porque não mergulhamos o suficiente além da superfície para compreendermos da essência. Ela pulsa submersa, latente nas ideias, que ficam a especular sobre aquilo que não foi, sobre o que poderia ter sido ou mesmo sobre o devir. Mas somente quando tivermos firmeza e segurança de sermos nós mesmos, sintonizados à frequência do sentimento mais profundo, da verdade interior de cada criatura, seremos verdadeiros heróis na aventura do viver.

     

pois caga

e come desses dejetos servidos aos brasileiros

mastiga bem

para a boa digestão

para não ferir a camada de ozônio

para um processo com certificado verde

para a estética saudável ao maximizar toda uma vida de bosta

e engole sem fazer a cara feia

sorrindo para a câmera da tv

a história sempre foi (sempre será)

escrita pelos demônios que se vestem de branco

na expansão inconsequente do vazio

– espaços ermos

      

ou então:

vá para o campo de batalha

se para isso lhe forem caros

os dentes

As impressões são espólios do domínio da realidade a impingirem marcas às faces. Mesmo estas hão de se curvarem ante o escoar do tempo. Por isso, ama enquanto a vida te habita. O tempo – vento de grãos – a polir laboriosa e ininterruptamente a realidade da rocha. Assim: as faces transformar-se-ão em cadáveres, e a carne vincada (macerada) servirá de nutriente aos vermes; pois operam através de percepções concomitantes ao fluxo, as impressões. Não há maquilagem, silicone ou antioxidante que dê jeito. Da realidade última nada, ninguém escapa. Sã e salva é a criatura dedicada a uma estranha transcendência daquilo que é árvore. Da essência dela, extraído o tronco, trabalhado em abrigo ao corpo. Pensa no féretro como veículo para o corpo de além-vida. Tão somente isso. Pensa, a realidade é o que fica: daqui nada se leva. O amor distribuído em vida será a realidade dum sorriso; o ressentimento e o recato, gargalhada bizarra na boca do infinito.

Photography by Joanne Wells: ‘Bonaventure Cemetery with Moss Draped Oak, Dogwoods and Azaleas’, Savannah, Georgia, USA.