O gato e o escrivão

fevereiro 14, 2012

As famílias de Demdike Southerns e Chattox Whittle eram poderosas, viviam de bruxaria e dominavam Pendle Hill na primeira década do século XVII. Potts, hábil e ardiloso escrivão da corte, interessado naquelas terras do condado de Lancaster, tramou de botar os Southerns contra os Whittle. À época Potts não fazia ideia do poderio das feiticeiras; da seqüência de eventos insólitos e maravilhosos que havia desencadeado. Chattox e Demdike pareciam mesmo em transe, envolvidas em misterioso combate de ocultismo. Inteligente, Potts tomava notas de tudo o que se passava ao seu redor. A confusão foi tamanha que as Whittle e as Southerns foram julgadas e condenadas por bruxaria, tendo ficado Potts com suas posses em troca da entrega de seu manuscrito “A Descoberta das Bruxas no Condado de Lancaster” à corte. Pouco antes de morrer, Chattox soube da trama de Potts, transformou sua filha Anne num gato e o colocou mumificado numa das paredes de sua casa; para que ela voltasse à vida 400 anos depois.

Ref:
[1] Pendle Witches

[2] BBC Brasil – Notícias – Gato Mumificado.pdf  

[3] Misty Mountain Hop – Led Zeppelin

Anúncios

Ajustando ao seu canal

junho 20, 2011

(|) – – – -|)

(|) – – -|)

(|) – – |)

(+)-|)

(|) – – |)

(|) – – -|)

(|) – – – -|)

(|) – – -|)

(|) – – |)

(+)-|)

moviam-se em direções opostas, mas eis que o destino os une, num desses emaranhados enigmas, mitos a serem desvendados, devorados, pouco a pouco, de uma boca pela outra, mastigarem-se noite adentro, só mesmo comendo, engolindo um ao outro, no mesmo instante, uma explosão de mil megatons, para sintonizar a freqüência, desvelar do outro em si, de si no outro

O mundo em que v1v3m05

maio 20, 2011

Manhã fria de outono em São Paulo, neblina. Ela segue pela marginal, cabeça ainda indolente, da noite curta de sono. O fluxo dos veículos cessa a sua frente. Já era de se esperar. Ela prende len-ta-men-te as suas madeixas ruivas, de sonho. Retira-o do bolso. Acopla o pen drive ao cérebro, pela entrada USB, numa perpendicular às têmporas. Para assimilar plena a consciência, nada fugir aos seus instintos. Faz deles o buraco negro das idéias. Se o 1n5t4n73 lhe parece tão m4g1c0. O tempo ao quadrado das h0r45, ao extático, do trânsito. Liga o som no volume máximo, bota esse rock’n’roll dos anos 5373n74. 01h4 para o f1rm4m3n70. Vê o inusitado: os dias de h0j3, agora é o melhor m0m3n70.

O abandono

abril 2, 2011

Eu sou João. Mas se olho no espelho, a imagem que vejo é aquela do demônio. A besta fera de sete cabeças, as bocas cheias de grandes dentes pontiagudos. A dor é imensa. A baba escorre pegadiça de minhas bocas. A dor é intensa. Os globos vermelhos saltam de minhas órbitas. A dor é insana. Sou meu próprio labirinto aqui na ilha de Patmos. Para descer de onde estou – para dentro de mim – percorro uma miríade de escadas através de nuvens, repleta de bifurcações. Sigo passagens por entre estranhas formações de vapor. São as minhas próprias entranhas. Essa é a única mística na qual ainda acredito. No passado dessas paragens – que agora nada mais dizem – um estrangulamento do tempo colapsou o eterno porvir, naquele que é. Observo a noite. Observo as estrelas. São tão belas! Mas estão ausentes. Por que nos abandonaste? São inextricáveis possibilidades de seres. Desdobramentos da existência. E não adianta lutar: habita-me o devaneio. Um remoinho sobre minha cabeça. (Não eram sete?)

O paradoxo do policial

agosto 19, 2010

Retornava do dia de trabalho quando observou, através da janela do coletivo, o policial tomando notas em seu talão.

A motocicleta abandonada, estacionada em posição irregular, acrescentava ao fluxo caótico da avenida.

De súbito, o passageiro cai em si: Era dele próprio o veículo. Logo, o policial não devia estar a penalizar-se.

É difícil dar-nos conta. São nossos os próprios erros. Os deles, o meu, o seu.

Lapso da consciência

junho 12, 2010

Reconheço o que escrevo demais. Sempre então, quando pego num pedaço de papel e caneta, saio. Se rascunho o quanto e na forma do que eu acho, encontro em minhas idéias o que realmente penso. Toda a vez que eu me confundo: sou humano.

Nessa estranha ordem de macumbeiros: ossos crucifixos de frango, goles de cachaça e velas pretas. Boto minhas mãos no fogo para que delas se queimem as palmas. Tiro das bolhas em agulhas espetadas de água. Sorvo dos corvos o vinho doce de seus corpos. Sinto as penas de suas mortes lentas. Mas não me deito em camas de espetos. Não sou magro e o diabo sabe bem o mal que faz aos outros. Anjos me ajudem a dormir cedo ante os meus olhos que quase se partem de tão rachados. Através dos mares distantes, em goles dessa salobra sabedoria náufraga. Arrasto-me pelas areias desérticas. Nem me lembro; nem sonho; nem sinto. De pé: ou deitado.. De pé: ou deitado.. De pé: ou deitado.. Salve as forças armadas! Salve o exército da salvação!

 

Oclusão

maio 18, 2010

À deriva. Diz-se das naus errantes, que vagam, sem destino, em alto mar. Mas é assim mesmo que Hamilton se sentia. Mais um pé na bunda: resultado da recente entrevista de emprego. Banho tomado, cabelo cortado e penteado para o lado. Vestido naquele terno em corte démodé. Um tanto acima do peso. Dicionário (?!?!) debaixo do braço para o suposto apelo intelectual. Toda trajetória de sua vida parecia culminar naquele exato momento. Síntese da obra: Hamilton de pé, à esquina da praça de uma pequena cidade do interior. Ouve o grito gutural. Abre de espanto o livro, submisso a mais pura ordem alfabética, busca pela palavra. S. f. 1. Ato de fechar; cerramento, fechamento. 2. Estado daquilo que se acha fechado. 3. Obliteração; apagamento, fechamento. 4. Astr. Desaparecimento momentâneo de um astro. Apenas mais uma peça inconsistente para o quebra-cabeça de seus miolos. Até que Hamilton ouve novamente o grito – Ô cuzão!

 

Mudança de comportamento

 

Haverá vida depois das seis? Há quem diga que, de fato, aconteceu. Era começo de noite quando aquele brilho estranho no céu, como um relâmpago muito intenso, teria invertido o sentido de rotação em todos os níveis das esferas. Algebricamente isto até seria viável num delta de Dirac. Mas daí até acreditar, só vendo. E assim, desde o ciclo lunar, passando pelo movimento dos planetas ao redor do sol, e mesmo as ínfimas rotas probabilísticas de elétrons em torno de massas atômicas concentradas em prótons e nêutrons – ainda que sujeitas as eventuais emissões de fótons – teriam sido afetadas. Confesso que nada percebi. Eu bebia e fumava demasiadamente. Não preciso dizer tal foi o meu espanto. A loucura e a chapação.

 

O que te espera depois de nascido

 

Prefiro fingir de mudo. Forjar que não estou ouvindo. Que não posso mais comer, que vomito tudo. E vomito ainda mais do que comi. Estou morrendo e não é de hoje. Só peço um pouco de paz para eu deixar de ser gente. Um copo com água. Charutos de boa qualidade e bocetas em fartura. Estou morrendo e ninguém vê isso, enquanto chupo os peitos saudáveis e meu pau duro entra e sai viril das vaginas. Estou morrendo e não é de hoje que eu vomito, que eu cago e que eu mijo. Não é de hoje que eu peido. Prefiro fingir que não sinto o cheiro. O que eu quero é ficar na minha. Prefiro fingir de cego. Não escrever a próxima linha.

 

Entre marido e mulher

 

Desculpe amor, sem dinheiro no bolso eu não posso partir. Comerei da tua comida, você vai lavar as minhas roupas e vai ter de dar para mim. Sei que você merece muito mais que isso. Mas não tenho dinheiro e isto é tudo. Você vai ter que aturar o meu mau humor constante, o cheiro de álcool e os palavrões. Meu amor, você tem o direito de chorar baixinho, de rezar para todos os teus santos. Enquanto eu o direito de te cobrir de porrada, de comer o seu cu e de beber cachaça.

 

Amanhã vou sair na noite

 

A dor que sinto vem do coração partido. Faz-se sentir através de ampla e complexa rede de neurônios. Estou em busca de alternativas. Mesmo que eu desviasse o fluxo da aorta em safena. Mesmo que drenasse todo o veneno incrustado nas plaquetas. Mesmo que fosse possível dissolver o colesterol a laser. Não implica que eu dormiria tranqüilo. O trauma e o vazio ainda estariam lá. A dor do amor. Quem sabe um eletro-choque, o cheiro do couro cabeludo sendo queimado? Camisa de força, um sanatório e o tratamento a base de injeções de drogas tarja preta? Quem sabe um abismo bem alto? Para um novo amor.

 

Slow dying

 

Se você continuar agindo assim, vai morrer. Não existe morte mais lenta que levar essa sua vida saudável.

 

Sonho do fumante insone

 

Estive pensando em ir embora. Já é tarde e a tendência é da madrugada avançar ainda mais adentro. Engolindo o mundo sem piedade. Todos os meus monstros já foram dormir de tão velhos que são. Insisto em mais um gole para provar que é possível. Insisto em mais um tapa no cigarro. E numa hora dessas toda uma vida se resume nisso. Muito pouco faz sentido. Procuro a saída improvável da realidade. Prender a fumaça para dar mais pressão. Soltar a fumaça em círculos.

 

Macadâmias

 

Estes grãos não soltam pêlos.