Medicina for all

novembro 13, 2017

   

Ricola de Paula, meu irmão na poesia, está de livro novo. “Sobre Tudo: tarjas bulas caixas e outros poemas sobre mim”, seu sétimo livro de poesia, foi lançado neste ano de 2017 pela Tachion Editora, de São José dos Campos, ISBN 978-85-65111-78-2, com 140 páginas.

   

Ricola é desses raros poetas de verdade, seus versos saem da cartola (que ele não usa) nas mais variadas espécies, todas elas animais. Outrora derrete as palavras em cria divindade pura.

   

Para começo de conversa, o simples título dessa sua nova obra já dá ideia do tamanho da encrenca: Sobre Tudo, ou sobretudo? Tarjas, bulas e caixas, serão remédios? Poemas sobre mim. Mas para a cura de quem: do autor, do leitor? Responda se puder.

   

O sumário (ou sumério?) traz os poemas organizados em cinco capítulos: Outros Poemas. Sobre Mim. Caixas. Tarjas. Bulas. E gostei do que Oswaldo Almeida Jr, escreveu no prefácio: “É assim Ricola. O homem da cultura urbana fincado como uma estaca no ambiente rural. Como se vivesse, ele próprio, ‘o fim da linha imaginária que separa os sonhos’”.

   

Enfim, um livraço para despertar, sair do torpor quotidiano. Abaixo uma prescrição minha, em doses homeopáticas, para os não-iniciados. Uma seleção de trechos dos meus poemas prediletos. Over top. Se for ler, não dirija.

    

— Polar —

Extirpo

o que é podre

Do abismo fujo

enquanto posso

Não hesito

trans

flor

mar

pasto

em jardim

    

— Poeminha —

Hoje sei que sou pequeno

Viajei no tempo

Ferraduras

Não me acostumei

matadouros

homens bombas

seguro de vida

respostas prontas

site de compras

Mas lhe asseguro

Difícil é descer a ladeira

com pedregulhos

Desligo tudo

Destituído do cargo

de coisa nenhuma

Durmo

depois assalto

a geladeira

Calado

Eu penso em escadas

Nas penas

que se desprenderam

das suas asas

    

— Olhei para dentro —

Olhei para dentro e achei soluções

que desabrocham com um simples ato.

Com o desenrolar da língua

ao falar a frase, sim eu te amo.

Olhei para fora com outra lente

vi o fim e o meio de voltar

ao início da palavra amor.

Não me incomodo

Se meu sangue, células, poemas

multiplicam-se pelos cômodos

tronco, cabeça, membros

desta residência frágil e humana

onde minha alma insiste em habitar.

    

— Residência humana —

Sobre tudo

amor é alquimia

Transmuta

Aumenta nossa vibração.

    

— En ciclope dia —

Ontem era unicórnio

Se bobear

Hoje mula sem cabeça

Conhece a ti mesmo e não se engane

O resto é dialética ou imagens distorcidas

    

— Quando você transbordar —

Transbordaremos juntos

como o Rio Buquira

que vaza e se esparrama

por pastagens e várzeas.

As ingazeiras arqueadas

tantas garças boiadeiras

outros pássaros em fuga.

Mourões submersos

Vacas nos atoleiros.

    

— Cartilha da psicodelia —

O outro vulgo marvel

Atalaia centauro

Mestre do imprevisível

O que azara as trutas

Dorme pelado na gruta

Tem ciência dos seus pe(s)cados

    

— Metalquemia —

Leva consigo espectros da morte

(foice) o medo, o lince dos apegos

O choque com o morcego

Aceitar, redimir, retroceder, perdoar

Palavras chaves, transformadoras

chicoteiam amiúde o ego

    

— Relax ou esculacho —

Tá na veia que explode a capela.

Amarra seu destroyer na fivela.

Olha bem o seu presente paramilitante.

Bem alto “paranoid” é Black Sabbath.

Se seu amor for canino, fácil você cotrair raiva.

Todos de pedalinho na riviera dos enganos.

Praias de oil, sanguinolentas

na orla do stablishment.

Suco de etanol, pomada de tracajá.

Garatéias na espera

dos gordos agronegócios.

    

— Esculax ou relax —

Quem muito mentex

qualquer dia vira fritex

Tá durex se rende a marmitex

E assim vamos na mesma vibe

de Indra e Agne

As palavras vibram no tambor

vibrax e fica relax quando

rachar o concretex

    

— O que eu sei —

Presto-me a fazer versos

muita gente boquiaberta

por que não?

Fiz o inverso

na margem ou fora da linha

circulei por retas e planos

estorvo ciclone torvelinho

extasiado

normal rebelde ou maldito

filosoficamente estúpido

não é no final do mês passagem de ano

mudança de século

aniversário bodas lobotomia

que você deixa de ser poeta

    

— Sobre mim —

Nossa azul continência

a simetria dos cristais de água.

Os assédios da metafísica

as pesquisas espaciais.

As mensagens emanando cura

terra, astros, e fases da lua.

O banhado

envolto em brumas

se oculta

na espinha dorsal

da igreja matriz.

    

— Sobre mim —

Decretar um fim pacífico

a tantas guerras

que você trava consigo mesmo.

Canalizar energia mater.

Reconhecer vórtices

formadores de holocaustos

salas self tortura

repletas de baixa estima.

    

— Sobre mim —

A terra gira.

Vórtice magnético.

Tropeço no amanhã

deixo que o sol

ressurja

mesmo que de soslaio.

A vida e sua parte elétrica

ligo o dispositivo.

Disposto vou vivendo.

Não desisto

demoro

na filosofia.

    

— Tarjas mutantes —

Quando as luzes desaparecerem do céu…

Você pode desligar os impulsos

andar sobre os cacos das explosões,

conferir os danos nos estilhaços.

Corte a sílaba “bá” da palavra bomba

se ficar bom, olhe o mapa do céu.

Seu quadrado na parede,

moldura o tempo circular

Tempo perdido na curva

onde eclipsa os enganos.

    

— Tarjas sulphurosas —

Quilômetros de sedimentos são depositados

nos tubos de ensaio das redes sociais.

Sei que emburreço neste carnaval de ofertas.

Esgotado saio antes do recuo da bateria.

Sicário não deixo rastro na cripta

do seu desleixo.

São tiras de papel de embrulho

papiro intrigo. Suavemente acredito

que torpes pombas sacio.

Um bom exorcismo abrirá

novos caminhos, água benta sanitária

dissolvendo ladainhas.

Segura na mão uma granada

Sentinelaaaaaaaaaaaaaaaa

A explosão dos significados

O refil da bagaça neném

A cuca já vem pegar.

    

— Bulas sem lactose —

As tetas daquela jumenta

já não dão leite

Um dia foram úberes

Poesia fervente láctea

O arco e a rabeca

o sol ainda castiga

A mesma nota dó

ronda a caatinga

Repetida no pífaro

inicia a cantiga

No final do arco-íris

um saco de confeitos

cactos amanteigados

    

— Bulas com inspeções no controle de qualidade —

Rezo pela bondade

que emana dos seus atos

por palavras sinceras

que sempre hão de brotar

como relâmpago no silêncio

da sua boca

Rezo por quem jogou

seu manto azul-estrelado

sobre nós

Equilíbrio

e perdão sincero

permitam

que a consciência

iluminada

possa reinar

    

— Bulas para ninar monstros —

O melhor de cada um

(mesmo que você não veja)

repousa

no ventre da bondade

onde começa

o fraterno ser

Acho que o conteúdo seria

– Impróprio às 18 horas –

às 19 horas chove

e poderemos

felizmente gritar

palavras de amor na chuva

Incitar o amoroso

premia a todos

salva a todos

lava a alma

    

— Bulas encabuladas —

Ao entregar minha inteira pessoa

pude assim conseguir bons feitos.

Benefícios, religare, bons escritos.

Apesar dos calos e digitais gastas

me parece que nessa vida as coisas

sempre carecem de um bom polimento.

Os riscos e o embaço desaparecem.

Com um toque hábil

delicado

surgem novos cristais.

Novo brilho, novas facetas

o processo aplicado

beneficia

a todos

os seres vivos.

Vamos lentamente

morrendo aos poucos.

    

— Bulas de coisa nenhuma —

espreguiçar

o gozo o êxtase

o santo gostinho

cruz invertida nas argolas

os escolhidos

que cessem a dança das cabeças

que cessem o acesso a falsa salvação

os peixes não estavam na arca

   

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Barba ensopada de Galera

dezembro 8, 2016

       barba_galera_jorge_xerxes

Zero

   

Terminei ontem a leitura do romance “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, 1ª Edição, Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

    

Livraço, certamente o melhor que eu li neste ano de 2016 (vale lembrar que eu leio devagar, ao meu tempo, o universo dessa amostragem nem é tão grande assim).

       

Gostei especialmente do romance pelo enredo, pelo jeito de contar a estória (também porque já fiz travessias de 10 km no mar, triatlo, essas doideiras; e porque também já estive em busca de respostas).

     

Deixo minha seleção de sete passagens prediletas (espero que estes trechos motivem você a se aventurar pela leitura do livro também).

   

Um

   

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda a parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis cobertas por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um Buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia a sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do fusca dá uma risada.

Demora um pouco para pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é a de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta o seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha a posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tato de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

   

Dois

   

Antes do feriadão de primeiro de maio cai na mão dele um exemplar de um jornal editado em Tubarão que traz na capa a notícia de que o corpo de uma guria de dezesseis anos que morava na praia da Pinheira havia sido encontrada na vegetação às margens da rodovia BR-101, um pouco ao norte de Paulo Lopes, poucos quilômetros acima do trevo da entrada de Garopaba. Estava sem olhos e sem lábios e havia sinais claros de estrangulamento, que foi a provável causa da morte. O perito suspeitava ou queria acreditar que as mutilações no rosto foram feitas após o óbito da vítima e as partes extirpadas não foram encontradas. Ela estava sem blusa, mas não foi confirmado se houve violência sexual. Havia também marcas abundantes de arrastamento, levando a crer que tinha sido assassinada longe dali, provavelmente num mato com vegetação densa e pedras, e então transportada até o local por uma ou mais pessoas que não eram capazes ou não quiseram se dar ao trabalho de carregá-la e só puderam ou preferiram arrastá-la. A matéria tinha sido publicada dois dias após a descoberta do corpo e a fotografia mostrava a vítima coberta por um pequeno cobertor ou pano de cor clara deixando ver apenas as mãos com os dedos dobrados, os pulsos e parte dos braços erguidos ao lado da cabeça, lembrando um bebê no berço. Quando olha a foto ele imagina num clarão o rosto da guria por baixo do cobertor ou pano como num daqueles flashbacks chocantes dos filmes de terror e a imagem vislumbrada o perseguirá por alguns dias. Era descartada a possibilidade de que os olhos e lábios tivessem sido comidos por um animal ou algo assim porque os ferimentos eram de incisão precisa, quase clínica, com objeto cortante. Ela havia dito aos pais que ia acampar com amigos numa cachoeira da região e os amigos de fato foram acampar mas disseram que ela não apareceu no horário e local combinados para a saída e eles foram sem ela. A polícia trabalhava com a hipótese de crime de vingança mas salientava que ainda estava levantando dados e que tudo era possível. Essa era toda a informação trazida pela matéria. O jornal datado de uma semana antes foi encontrado em cima de um banco no vestiário da academia como se alguém o tivesse esquecido dentro da mochila e dias depois se livrado do papel velho sem ao menos se dar ao trabalho de colocá-lo no cesto de lixo e ele acha estranho que ninguém na academia, nos restaurantes, nos bares, no posto telefônico, na praia, na escolinha de Pablo, que nem dona Cecina nem Renato nem Dália nem o vendedor do mercadinho ou os pescadores tenham comentado uma notícia tão hedionda, algo que tinha acontecido tão perto da bela e feliz cidadezinha costeira em que moravam, cidadezinha que já parece ter sido abandonada de vez pelos turistas, pelo menos até a temporada do próximo verão, e mais parece agora um parque de lojas fechadas e casas vazias, quarteirões inteiros desertos a não ser pela visita muito ocasional de um caseiro podando uma árvore. O esvaziamento fulminante da cidade, a chegada do frio para valer, o assassinato brutal de uma adolescente não muito longe dali, nada disso que lhe chama tanto a atenção parece ser digno de nota. Fala-se por aí que a pesca da tainha esse ano será uma catástrofe ainda pior que a do ano passado e a população em geral se preocupa em fazer render o dinheiro ganho com o comércio e o turismo de um verão que ficou para trás em definitivo e já parece uma memória longínqua, um tempo em que os moradores locais haviam trabalhado tanto em meio a tanta gente vinda de fora que mal tinham conseguido ver uns aos outros e conversar com os seus próprios amigos e familiares, meses vividos menos como habitantes e mais como funcionários de um enorme pavilhão ocupado por um megaevento. Comentam pelas ruas também uma eleição municipal que só ocorrerá em setembro e de resto se tem a impressão de que todo mundo espera apenas descansar e viver sem sobressaltos os dias frios e ensolarados em que nada acontecerá. Dizem que haverá tédio e tristeza na calmaria e que o frio e a solidão ressuscitarão todos os fantasmas sazonais conhecidos e também despertarão alguns desconhecidos, mas falam disso como se ainda não fosse hora e houvesse tempo de sobra pra se preparar.

    

Três

   

Entre os competidores profissionais estão alguns conhecidos seus e o reencontro mais efusivo é com Pedrão, que tem patrocínio da Paquetá Esportes e é presença comum nos pódios e décimo primeiro no ranking nacional de triatlo. Noite passada, durante o congresso técnico no salão de jantar do Hotel Garopaba, a primeira coisa que Pedrão lhe perguntou foi se ele estava doente. Tinha achado o antigo companheiro de treinos um pouco magro demais e com uma cara um pouco abatida, sem falar na barba desleixada. Ele garantiu que estava bem de saúde e quanto à barba, bem, tinha enjoado da própria cara, estava fazendo uma experiência. Pedrão entendeu a piada e riu. Trocaram um abraço forte. Pedrão tinha se aproximado e dito Oi, é o Pedrão. Eram dois homens que se respeitavam. Tinham passado centenas de horas juntos correndo, pedalando e nadando longas distâncias, se incentivando, se distraindo, puxando o ritmo do outro, compartilhando o estado mental semimeditativo do exercício prolongado. Pedrão tem a mesma idade que ele, trinta e quatro anos, mas ele sabe que os dois parecem um pouco mais velhos que isso. Esforço demais, sol demais, radicais livres demais no sangue se somando aos percalços físicos e emocionais que afligem todo mundo e que carregamos no corpo como marcas gritantes ou sutis, às vezes sutilíssimas ou mesmo invisíveis, e ainda assim de alguma forma perceptíveis de fora. O corpo é a sua própria cápsula do tempo e sua viagem é sempre um pouco pública, por mais que tentemos esconder ou maquiar.

    

Quatro

    

Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando na pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é toda de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado.

Uma vez Viviane lhe falou a respeito dos deuses gregos, tema de leituras que vinha fazendo para o mestrado em literatura que cursou na época em que moravam juntos. Imagina se a vida real fosse assim. Deuses dizendo de antemão que a gente vai vencer a batalha, sobreviver ao naufrágio, reencontrar a família, vingar a morte do pai. Ou o contrário, que vamos ser derrotados ou sofrer coisas horríveis durante muitos anos antes de conseguir o que queremos, que vamos nos perder, ou mesmo morrer. E eles entram em detalhes, dizem exatamente como, quando e onde e depois saem voando com o vento e deixam o mortal ali com a obrigação de cumprir ou executar o que já foi decidido pelos tiozinhos do Olimpo. Imagina que merda. E ele tinha dito que não achava ruim. Que gostava da ideia de que há deuses soprando em nosso ouvido uma boa parte do que ainda irá nos acontecer. Não crê nisso de fato, não há lugar para deuses em seu coração, mas tem a sensação de que alguma coisa equivalente está em curso no mundo profano, um processo natural, algum mecanismo no corpo ou na mente que antecipa coisas que mais tarde poderemos chamar de destino. Na opinião dele a vida era mesmo um pouco desse jeito. Já se sabe em grande medida como as coisas vão ser. Para cada surpresa há dezenas ou centenas de confirmações do que já era mais ou menos esperado ou intuído e toda essa previsibilidade tende a passar desapercebida. Viviane ficava louca com isso, em parte porque ele não tinha a mesma cultura e vocabulário que ela e não conseguia se expressar direito, em parte porque ela discordava da ideia com veemência. Ela falava então de livre-arbítrio, a liberdade do homem para escolher, para decidir como as coisas serão de acordo com a vontade, coisa que ela não aceitava que ele não aceitasse com a mesma naturalidade que ela. As discussões podiam começar com uma piadinha ou uma provocação carinhosa e evoluir para bate-bocas exasperados nos quais, na falta de argumentos e arsenal retórico, ele precisava defender sua posição com teimosia ou silêncio.

E numa dessas manhãs do começo de julho ele tira as meias e a camiseta, veste um bermudão de praia, pega a cachorra no colo e desce a escadinha de cimento até a pedra do Baú. O mar está encrespado mas as ondas estão fraquinhas. O sol forte ameniza um pouco o frio. Deixa Beta na beira da pedra e entra na água pisando com cuidado nos mariscos e algas ocultos sob a espuma. Ergue a cachorra de novo nos braços, entra um pouco mais fundo e a mergulha no mar gelado. Ela mantém o olhar fixo adiante, perplexa com o banho inesperado. Nunca teve o hábito de entrar na água e muito menos no mar. As ondas a assustam. Começa a pedalar instintivamente com as patas dianteiras e um pouco também com as patas traseiras. Ele a incentiva e se mantém submerso até o pescoço por solidariedade, para passar tanto frio quanto ela. Assim que a cadela encontra um ritmo ele a segura por baixo da barriga com uma das mãos e dá sustentação a seu corpo. Beta funga um pouco e espirra quando a água lhe atinge o focinho. São observados por um bando de abutres que em dado momento decolam agitando suas asas magníficas. São aves pavorosas no chão e lindas voando. Quando o frio fica difícil de agüentar ele acomoda a cachorra com firmeza debaixo do braço, saí da água, sobe a escadinha, entra em casa e a envolve com uma toalha. Depois lhe dá um banho no chuveiro quente e a seca com paciência e cuidado. Esquenta um pouco de sopa numa panela pequena tomando o cuidado de separar uns bons pedaços de carne e serve a vasilha de água para que ela coma. Passa a fazer isso todo dia, mesmo quando chove.

   

Cinco

    

Afaga o couro da cachorra, quente apesar de tudo. De súbito, sem que pudesse premeditar, enxerga com nitidez tremenda algo que desejava enxergar faz tempo e começa a chorar de felicidade. Gostaria que Jasmim estivesse ali agora, e Viviane, e seu pai e sua mãe, e mesmo Dante, mesmo as pessoas que tem vontade de odiar e não consegue, gostaria que todas estivessem ali agora. Seu pai tinha dito isso uma vez. Tu não consegue odiar nada, guri. Isso não pode fazer bem. Mas é assim, pai, ele responde agora olhando dentro do breu. É assim. Vai se sentindo cada vez mais leve à medida que pensa nessas coisas e adormece sentado de encosto à pedra.

    

Seis

    

O terror aparece quando ele imagina recifes e animais marinhos ou contempla a possibilidade de estar nadando na direção errada e se afastando da praia com braçadas firmes e regulares, adentrando uma vastidão esmagadora de onde não haverá volta.

No restante do tempo, porém, ele se concentra no nado, na respiração, em sinais que possam ajudá-lo a manter uma linha reta que dê em algum lugar. A certa altura já não crê estar metido em nenhuma enrascada muito maior que outras vezes que nadou longas distâncias em piscinas olímpicas e travessias marítimas com centenas de outros atletas. Isso tudo tem algo de familiar, é como aqueles três quilômetros finais da travessia de Tapes que nadou com câimbras na coxa, como a hipotermia no meio da prova de ciclismo que quase o tirou do Ironman de Florianópolis. Toda prova tem um ritmo certo, é preciso medir a força e estar atento ao estilo, ao desenho das braçadas à freqüência das pernadas e acima de tudo se concentrar e manter a concentração no nado até que a mente e o corpo sejam uma coisa só, o que inaugura condições para que ele e a água se tornem uma coisa só e não haja mais necessidade de se concentrar. Todos os momentos anteriores pareciam tê-lo preparado para isso. É a prova para a qual treinou a vida toda. A imaginação pode ser uma aliada nessas horas. Imagina competidores a seu lado e no seu encalço. Apenas os melhores nadadores do mundo. O líder que deseja ultrapassar está batendo pernas bem na sua frente. É só nadar na esteira dele. A mente é crédula e esse adversário inventado se torna real em pouco tempo, um homem de carne e osso que sente o mesmo frio e o mesmo cansaço, um companheiro. Pode quase tocar seus pés com a ponta dos dedos. E quando esse faz de conta em particular se dissipa ele imagina outras coisas. Que está sendo perseguido por tubarões descomunais e leviatãs de aparência ignorada. Que se fizer uma pausa ou se diminuir o ritmo será fulminado por um raio. Que está deixando a morte para trás. Que uma mulher silente e amorosa o aguarda nas areias da praia, uma mulher que não se parece com nenhuma que já teve mas sem nada de extraordinário. Ela o recebe sem susto, deixa que deite a cabeça sobre suas coxas empanadas de areia para descansar pelo tempo que for preciso e diz que eles precisam um do outro, que sempre terão vontade e serão capazes de prover tudo que o outro deseja, sem exceção. Dá para saber que ela está dizendo a verdade. Ela desliza a ponta dos dedos por suas têmporas e pergunta o que ele quer. Ele balbucia que não muito, apenas que as pernas dela sejam quentes ao toque no inverno e frias no verão, e que tenham uma guriazinha ranhenta para ralar os joelhos correndo em volta da casa, e que se possa ver uma laguna que fique dourada no fim da tarde, mesmo que de longe. Acima de tudo que ela continue quentinha quando ele estiver com frio. Nada mais. Depois é a vez dela. Me diz o que tu quer. Ela vai dizendo e ele aprova tudo e pergunta o que mais, o que mais. É uma lista interminável de coisas e garantir que providenciará cada uma delas traz um prazer infinito, não importa o que seja. Vai dando tudo, uma coisa para cada braçada, implorando que ela não pare, obtendo disso a força de que necessita.

   

Sete

    

Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.

   

Light Green!

fevereiro 1, 2013

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS.

“Fugir e ficar. Ela tinha histórias para contar, sabiam? Todos têm. Todos têm histórias que nunca contam.”

O seu segundo livro – Quiçá, Record, 2012 – é um romance cujo ponto de partida é a mudança de Arthur, 18 anos, da pequena cidade de Distante para a casa de familiares na metrópole de São Patrício.

Arthur vai morar por um ano na casa de Augusto, Lorena, Clarissa (11 anos), e Zazzles (o gato) – para cursar o terceiro colegial.

“Semanas depois, depois da tatuagem de Arthur, choveria a pior tempestade do ano. Mas isso era no futuro. Naquele momento, só chovia e só fazia frio.”

A narrativa contagiante, em linguagem contemporânea e estruturada em três escalas de tempo – 24 horas, 365 dias e toda uma vida – já seria o suficiente para um grande livro.

Mas emocionou-me, sobretudo a sensibilidade e a humanidade com que a escritora desenvolve sua trama.

E é exatamente por esse motivo que recomendo a obra: para uma reflexão sobre os relacionamentos humanos, a família, a amizade e os nossos valores (?).  

Tudo isso embalado ao som da banda de rock progressivo Light Green, shots de vodca e baforadas num cigarro.

“E, como tudo que oferece muito, como tudo que se impõe, São Patrício afastava e atraía os moradores de Distante.”

(Quiçá não tenha sido obra do acaso o Prêmio SESC 2011 na categoria romance).

27 contos e 1 romance

junho 10, 2012

Luciana Saddi, psicanalista e colunista da Folha, apresenta vinte e sete contos em seu segundo livro, lançado pela Editora Jaboticaba – SP, no ano de 2010.

Conto é uma narrativa concisa, falada ou escrita. Ao longo dos vinte e sete textos – os quais compõem este livro – algumas personagens idealizadas pela escritora são apresentadas em narrativas que, em linguagem simples e contagiante, discorrem sobre ampla gama de sentimentos, de relacionamentos, de reflexões e do sexo característicos do humano contemporâneo.

Impossível não se identificar com estas narrativas e suas personagens, visto se tratarem de temas intrínsecos aos nossos próprios anseios e demandas. Os contos, entretanto, apesar da linguagem direta, estão longe de tangenciarem as questões do humano pela via do comum ou pela seara da auto-ajuda. São, antes, narrativas impregnadas de forte carga emocional: aquelas que falam diretamente aos sentidos e levam à reflexão.

E é tarefa das mais difíceis descrever numa resenha as particularidades deste conjunto de textos revestidos de simplicidade e simultaneamente capazes de impingir intensa impressão. Optei, então, pela citação de alguns excertos selecionados a partir de leitura atenta: creio que os trechos seguintes são representativos da obra e falam por si.

Dores: Fernanda. “Ser mulher é piada de mau gosto, os peitos crescem não se sabem vindo de onde, talvez do mesmo planeta daquela gente estranha. Detalhe: depois caem. A menstruação, nem se fala, quem inventou tal absurdo? Sangue era uma coisa para ficar dentro das veias. E o tal exame ginecológico, te enfiam um negócio metálico, gelado, vagina adentro, e raspam. O pior é a sonhada maternidade, o parto normal tão em voga ultimamente. As dores, as contrações, a cólica, se um alien te arrebentasse a barriga por dentro, você daria risada? Os médicos, uns encantos de homens, certos de que sua querida boceta se transformou em transporte coletivo, não perdem a oportunidade de lhe enfiar as mãos, sem a menor delicadeza, afinal é preciso dilatar. O corpo da mulher é a casa da mãe Joana. Por último, amamentar… Para quem se horroriza facilmente, ver sair leite de dentro de seus peitos estufados e doloridos, drenados e ordenhados, te remetendo a uma vaca: martírio.”

Dúvidas: Carlos e Mariana. “O gosto de tudo em sua vida de adulto vinha com uma pitada de plástico. Ele mesmo não sabia se por fazer leve e universal o sabor de fortes ingredientes, se por conta do processo industrial de conservação e transporte dos alimentos, se por amansar os sentimentos.” “– A senhorita tem toda a razão. Eu mesmo explico.” “É claro que um homem só dá razão a uma mulher por motivos vis ou muito respeito, coisa rara. Claro é, também, que as mulheres se excitam quando um belo homem lhes dá razão, e nesse jogo besta, onde um se finge de morto e outro se acredita importante, toda a espécie feminina se ferra. Carlos sabia disso, Carlos era um expert, Carlos queria comer aquela mulher e disso não tinha dúvidas.”

Sonhos: Fernanda e Mike. “Ele bebia tranquilamente uma cerveja, assistia tranqüilo ao espetáculo e parecia estar gostando daquilo. Fernanda olhava com o canto dos olhos, meio ressabiada, desconfiada do destino, curiosa. O sorriso era doce, exalava bondade, os olhos muito azul-claros pareciam sinceros e sofridos, afinal homem sem sofrimento não tem graça. Ele, cada vez que aplaudia uma música, brincava. Não de caso pensado. Uma brincadeira que saia pelos poros, mas não se expandia loucamente para fora. Não contagiava, apenas dava alegria a que estivesse por perto.” “Esse ingrediente faltava ‘a vida de Fernanda, que resolveu ficar ali apreciando o bem-estar súbito e raro, a bela paisagem. Passado algum tempo tinha certeza de que algo inédito havia acontecido em sua vida, um lance de sorte, fortuna, acaso, nunca havia chegado tão perto de um homem lindo de verdade. Claro que já tinha visto espécimes sublimes, mas no cinema, nas revistas, jamais ao vivo, em cores, sentado ao seu lado. E quando ele abria a boca num movimento sutil com os lábios, o palco se iluminava. Aquele modo de sorrir encarnava, com certeza a bondade. A bondade abstrata e universal, que somente o grande mestre flamengo, Rembrandt, fora capaz de retratar. Engraçado encontrar nos dias de hoje um sorriso de tantos séculos atrás.”

Explosões: Cecília e Erasmo. “Na mesa mãos se pegavam no ar, quase alcançando os ombros, davam vazão à excitação sexual, muito mais ansiosas que as bocas, que mastigavam tranqüilas. Na saída do restaurante um braço na cintura, ralando o peito esquerdo de Cecília, que se sentia levemente molhada.” “No carro, olho no olho, de perder a respiração e pensar: e agora, José? E foi ali mesmo que começou uma vontade infinita de pegar com a boca, com os lábios, com a língua. Engoliram-se. E foi de arrasar.” “Na cama dedos firmes, um pau resoluto e uma vontade de entrega sem medo. Ela uivava, subia com as costas pela cabeceira da cama, era tanto, dava até medo, um foguete no ventre e dizia: – para, e pedia não para, pelo amor de Deus! Ele nem escutava, mas seu corpo adorava aquela dança, podia contar nos dedos as vezes em que havia gozado balindo feito carneiro.”

Conquistas: Carlos e Mariana. “Sentia segurança naquele conquistador barato, o tipo de homem por quem mulher nenhuma poderia se apaixonar, apenas se divertir, essa era uma ideia extremamente tranqüilizadora, deliciosa. Depois de duas vezes viúva, havia jurado: amor, nunca mais. Afinal, tanto ela quanto Carlos sabiam que a paixão era um tipo agressivo de câncer.”

Alfinetadas: Fernanda. “Fernanda estava em mais um péssimo dia e com tanta raiva de tudo: do André, da Austrália, da australiana, dos homens, especialmente daqueles que queriam mulheres diferentes a cada semana, daquelas de precisavam de homens e dela mesma, incapaz de resolver os seus problemas amorosos. Não teve dúvidas: compraria um pinto e poria um ponto final em seus problemas sentimentais. Um belo e autônomo consolo. Ninguém acoplado ao instrumento. Era só disso que a mulher precisava.” “Foi à sex shop mais próxima, leu na placa, Kisses, loja de conveniência erótica, conveniência? Isso quer dizer que se você, cara amiga ou amigo, estiver sentindo tesão, mesmo que leve, tem onde saciar sua sede, a qualquer hora do dia ou da noite, é só entrar na Kisses e comprar um pau, um caralho, um nabo, uma cobra, uma jeba, uma vara, uma rola. Bateu uma fominha e a cama está vazia? Visitas inesperadas? As amigas estão na mão e arrumam um bofe, nem pagando? No problem, nas lojas Kisses, conveniências eróticas, você encontra pintos dos mais variados formatos, cores e sabores. Vai chegar tarde do trabalho? Peça a sua mãe: – mãe, por favor, passa na Kisses aí de baixo e me compra um passarinho, uma balsa, uma cenoura, um vibrador, uma trolha. Suas preocupações acabaram, porque logo ali, ma esquina, tudo à mão, mala, pirulito, picolé, sorvetão, e ainda ferramenta, ganso, aríete, tromba, mastro e pingolim. Viver deixara de ser muito perigoso.”

Amantes: Carlos e Mariana. “Mariana não resistiu a um outro encontro, podia quase gozar só de pensar em Carlos entrando nela. Rezava para que ele desistisse e logo em seguida rezava o contrário. Seu medo era verdade, as palavras – paixão nunca mais – derretiam-se, e ela se derramava. Achava estranho que se vissem apenas em seu apartamento, não queria perguntar se ele era casado, sabia a resposta de cor.”

Sustos: Fernanda e Mike. “Sentia-se totalmente deslocada em ambientes desconhecidos, tinha certeza da falta de um pino na cabeça de qualquer estranho que se aproximassem. O que veriam nela?” “Perguntava ao seu analista, a Deus, a todo mundo, por quê? Qual é o problema? Quem foi que inventou isso? Quando passa? Aquele sentimento besta e doído de ser sem raízes, sem chão, sem propósito, continuava.” “Tomava um café no vidro envidraçado do museu, intervalo entre as aulas, do lado de fora via um passarinho agonizante, último suspiro, pôs-se a chorar. O amor feminino era líquido, vivia molhada de lágrimas.”

Socorros: Fernanda e Mike. “Fernanda, fascinada, pensava na sua relação com André. Poderia comprar a peça, colocá-la no terraço do apartamento e todo o santo dia rezar para que Deus a proteja daquele tipo de maldição, a maldição de gozar pela dor, de gozar pela estúpida capacidade de agüentar um homem a qualquer preço. Seu filho saberia desde sempre que nunca se deve tratar uma mulher assim e os vizinhos teriam certeza de sua loucura, pena que o bronze fosse tão caro.” “Mike achou a peça de mau gosto, absurda, doentia, os homens não eram assim, isso era coisa de gay, de depravado, de louco, os homens amam as mulheres, as tratam bem… Mas não conseguia desviar o olhar daquela mulher que mesmo em metal gozava e daquele homem que mesmo sendo cruel lhe dava infinito prazer.” “E ela não sabia se era destino, se era bom, se era ruim, se era. Sentia uma nova paixão e fracasso. Precisava de ajuda. Escutou algo no rádio sobre um grupo de auto-ajuda anônimo – mulheres que vivem molhadas demais… Era com ela.” Conto de importância fundamental ao contexto da obra.

Pesadelos: Décio, Sônia e Lígia. “Estava enjoado e cansado. Voltou para a cama, queria paz. Chorou muito. Sempre se lamentando da vida que lhe dera tanto, que lhe tirara tudo. Queria morrer e não tinha coragem. Quem sabe, Deus piedoso lhe mandasse um ladrão armado, um acidente de carro, alguma solução.” “Elas estavam consternadas pelo sofrimento dele. Olhavam-se com a cumplicidade que somente um casal antigo é capaz de ter e pensavam a mesma coisa: ele nunca teve jeito com a mulheres, nunca as entendeu, sempre achando que sexo era coisa de puta. Mas quem é que poderia lhe dizer que mulher não é boneca?” “Os olhos de Décio se encheram de lágrimas.” “– Eu pensei que Deus estava do meu lado, só essa vez.” “Como explicar que Deus não tinha nada a ver com isso?” “Tinham muito a dizer sobre o amor e a paixão. Tiveram um caso tão forte e tão bonito, que ainda queriam estar juntas, sempre. Por isso aceitaram pacificamente a diminuição do tesão. Nunca mais encontraram o mesmo amor, a mesma loucura divinamente obscena que viveram. Mas não se importavam. Tinham algo extremamente raro, um amor feito de restos ardentes do passado e um companheirismo sem igual.” O conto mais melancólico – especialmente para Décio – e apresenta ainda uma bela descrição do sucesso no relacionamento à dois.

Luxúrias: Cecília e Erasmo. “O medo de não saber quem estava do lado de fora, de ser pega daquele jeito, a excitava. Ela se derretia, se agitava. Silêncio novamente, silêncio misturado à expectativa de escutar passos, pessoas, Erasmo. Seu sexo doía. A respiração em espasmos aumentava o tesão que tomava conta de todo o seu ser. Cecília fora reduzida a um corpo molhadoem chamas.” Oconto mais vibrante, vívido!

Sobreviventes: Mike. “João e Maria, seus filhos, que saudade! As crianças foram morar com os avós no interior, ele não tinha emprego, não tinha renda, nem mais vergonha na cara. Pediu a um amigo para morar de favor naquele lixo e aos sogros que cuidassem dos filhos. E tinha que agradecer! Podia ter sido pior, ainda não havia pedido dinheiro aos seus pais aposentados.” “Na UTI ela pediu: – tenha pena de mim! Ele chorou até se acabar. Ela querendo morrer. E ele? Tentando se salvar.” “Mike queria voltar a ganhar dinheiro e o convívio das crianças. Queria perdão.”

Comidas: Fernanda e Mike. “O tempo escorre, os filhos chegam, o amor acaba. E sem endereço fixo procura ou é procurado por alguém e se instala no vão dos dias, escondido entre estranhos hábitos e boas maneiras, torna-se um vício.” “Docemente confessava que tinha medo de ficar só com as crianças, órfãos sofrendo, o futuro e a culpa da saúde plena contra si. Meteu os pés pelas mãos da solidariedade. Depois que passa é difícil explicar, as razões eram desculpas. Fechou os olhos por mais tempo que um piscar exige. Encheu os copos de vinho.” “Se eu tivesse algum dinheiro, perspectivas, não sou futuro para alguém com passado e renda.” “…de tanto querer poupar os outros da dor acabou muito machucado, não sabia ferir nem sabia se queria viver…”

Renascimentos: Fernanda. “Molhada no súbito encontro de seu desejo com suas faltas.” “Porque o amor é um ser despudorado e alegre.”

Lá pelo conto sexto, percebe-se que não é casual o fato das personagens de mesmo nome se alternarem, repetirem e interagirem ao longo dos textos: trata-se, de fato, de um livro com as características de contos independentes e também aquelas de um romance – a descrição longa das ações e sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para o plano artístico.

Uma observação adicional é a de que os sentimentos e os relacionamentos descritos nos textos apresentam forte conotação sexual – segundo a tradição da psicanálise freudiana. E, num primeiro momento, senti falta de outros elementos – dos símbolos, dos mitos e da alquimia (da psicanálise junguiana) – que acredito desempenharem também um papel importante no comportamento e na compreensão do humano.

Entretanto, numa reflexão mais cuidadosa, compreende-se que o elemento transcendente é exatamente aquele responsável pela amarração dos contos na unidade de um romance, ficando isso patente no próprio título escolhido pela escritora para a sua obra: “Perpétuo Socorro”.

A poção mágica

agosto 31, 2011

Foi no dia 11 de Agosto do ano corrente, 2011, às vésperas do Dia dos Pais, que eu passeava meus olhos através das prateleiras de única livraria no modesto e agradável shopping center da cidade na qual estabeleci residência há pouco mais de um mês.

De súbito, senti-me capturado pela estranha imagem de um busto pálido e franzino à capa de um livro negro. Mais tarde vim saber que aquela etérea figura fora extraída da composição fotográfica de Arthur Batut, intitulada Members of the Family of Arthur Batut (1886); composição esta que, por sua vez, encontra-se exposta no Museu Arthur Batut em Labruguière.

Bem, acredito que não preciso me delongar nessa introdução desastrada: acabei por adquirir o pequeno volume negro, com propósitos de estudá-lo e desenvolver uma composição a partir de seu conteúdo seminal.

Entretanto, após cuidadoso estudo, desisti da empreitada. Impressionou-me o teor da narrativa e sua natureza fortemente psicológica.

Talvez a obra tenha me impressionado sobremaneira pelo momento particular em minha vida dupla – de escritor e de cientista. Prefiro me abster de maiores comentários a esse respeito. E, para aqueles que se atrevem, deixo apenas vestígios ao longo do caminho.

This phrase captures something that is glimpsed repeatedly in the narrative: that the ‘ordinary’ condition of his society is for individuals to sin in secret, but also to hold, hide or attempt to discover or reveal secrets.

This lack of trust also affects our belief in the testimony of others, and undermines our faith in the veracity of what we read. From the very first page we are introduced to a world governed by public opinion, and by a fear of revelation and blackmail. In fact, it could be argued that the real ‘monster’ in Jekyll and Hide is opinion.

At the core of the text are silences, evasions, suppressions. Stevenson’s tale is effective as horror fiction because it create more questions than it answers. As a result it lives and grows in the imaginations of those who read and reread it over a hundred years after Dr Jekyll first concocted his potion.

Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (1886) was an enormous success for Stevenson. It sold 40,000 copies in six months in Britain alone, and appears to have been read by everyone including the prime minister and Queen Victoria herself. It struck a chord with the late-Victorian public, and very soon entered the collective imagination.

– Some excerpts from the Introduction by Robert Mighall, Ph.D. on Gothic fiction and Victorian medico-legal science at the University of Wales, 2002.

‘I am ashamed of my long tongue. Let us make a bargain never to refer this again.’

‘I can’t pretend that I shall ever like him,’ said the lawyer.

‘I don’t ask that,’ pleaded Jekyll, laying his hand up the other’s arm; ‘I only ask for justice; I only ask you to help him for my sake, when I am no longer here.’

Utterson heaved an irrepressible sigh. ‘Well,’ said he. ‘I promise.’

‘And now one word more: it was Hyde who dictated the terms in your will about that disappearance?’

The doctor seemed seized with a qualm of faintness; he shut his mouth tight and nodded.

‘I knew it,’ said Utterson. ‘He meant to murder you. You have had a fine scape.’

‘I have had what is far more to the purpose,’ returned the doctor solemnly: ‘I have had a lesson – O God, Utterson, what a lesson I have had!’ And he covered his face for a moment with his hands.

My dear Utterson, – When this shall fall into your hands, I shall have disappeared, under what circumstances I have not the penetration to foresee, but my instinct and all the circumstances of my nameless situation tell me that the end is sure and must be early.

Here I proceeded to examine its contents. The powders were neatly enough made up, but not with the nicety of the dispensing chemist; so that it was plain they were of Jekyll’s private manufacture; and when I opened one of the wrappers, I found what seemed to me a simple, crystalline salt of a white colour.

He thanked me with a smiling nod, measured out a few minims of the red tincture and added one of the powders. The mixture, which was at first of a reddish hue, began, in proportion as the crystals melted, to brighten in colour, to effervesce audibly, and to throw off small fumes of vapour. Suddenly and at the same moment, the ebullition ceased and the compound changed to a dark purple, which faded again more slowly to a watery green.

If each, I told myself, could but be housed in separate identities, life would be relieved of all that was unbearable; the unjust might go this way, delivered from the aspirations and remorse of his more upright twin; and the just could walk steadfastly and securely on this upward path, doing the good things in which he found his pleasure, and no longer exposed to disgrace and penitence by the hands of this extraneous evil. It was the curse of the mankind that these incongruous faggots were thus bound together – that in the agonized womb of consciousness, these polar twins should be continuously struggling. How, then were they dissociated?

I am now persuaded that my first supply was impure, and that it was that unknown impurity which lent efficacy to the draught.

– Some excerpts from The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde by Robert Louis Stevenson, 1886.

References:

Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde and Other Tales of Terror, Edited by Robert Mighall, Penguin Books, 2002

seeing & being seen, A quick return to the aerial, http://meggangould.net/blog/?p=48 , 2007

Face terrível de ver, mas mente benigna,

E com uma longa barba sobre o peito robusto!

Desprezou os seus entes queridos, para nos amar,

Considerando Ravena sua própria pátria.

– Epitáfio de Droctulft, guerreiro lombardo, citado na “história do guerreiro e da cativa”

 

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires, Argentina, ao vigésimo quarto dia do mês de Agosto de 1899. 

“Minhas provações começaram, como mencionei, num jardim de Tebas. A noite toda não dormi, pois algo estava lutando em meu coração. Levantei-me pouco antes do amanhecer; meus escravos dormiam, a lua tinha a mesma cor da infinita areia. Um cavaleiro exausto e ensangüentado vinha do oriente. A alguns passos de mim, rolou do cavalo. Com uma tênue voz insaciável perguntou em latim o nome do rio que banhava os muros da cidade. Respondi-lhe que era o Egito, alimentado pelas chuvas. ‘É outro o rio que procuro’, replicou tristemente, ‘o rio secreto que purifica os homens da morte’”. 

– Excerto do conto “O imortal”

 

Em 1914 sua família se mudou para Suíça, onde ele estudou e empreendeu viagens para a Espanha. Em seu retorno à Argentina em 1921, Jorge Francisco começou a publicar seus poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Também trabalhou como bibliotecário e professor público universitário.

“Não vou falar das fadigas do meu trabalho. Mais de uma vez gritei para a abóbada que era impossível decifrar aquele texto. Gradualmente, o enigma concreto que me ocupava me inquietou menos que o enigma genérico de uma sentença escrita por um deus. Que tipo de sentença (perguntei a mim mesmo) construirá uma mente absoluta? Considerei que nem nas linguagens humanas existe proposição que não implique o universo inteiro; dizer o tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e as tartarugas que devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi mãe do pasto, o céu que deu luz a terra. Refleti que na linguagem de um deus toda palavra enunciaria essa infinita concatenação dos fatos, e não de um modo implícito, mas explícito, e não de um modo progressivo, mas imediato”.

 – Trecho de “A escrita do deus”

 

Sua obra abrange o caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura. Seus livros mais famosos, “Ficciones” (1944) e “O Aleph” (1949), são coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus.

“Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave.” 

– Passagem do conto “Emma Zuns”

 

Em 1955 foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Em 1961, se destacou no cenário internacional quando recebeu o primeiro prêmio internacional de editores – o Prêmio Formentor.

“Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cão gregário; compreendeu que o outro era ele”.

– Excerto da “Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-74)”

 

Seus trabalhos contribuíram significativamente para o gênero da literatura fantástica. Estudiosos notaram que a progressiva cegueira de Jorge Francisco ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que os poetas, como os cegos, podem ver no escuro. Os poemas de seu último período dialogam com vultos culturais como Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.

“Agora as coisas mudaram; nesta noite que precede a minha execução, posso falar sem medo. Não pretendo ser perdoado, porque não sinto culpa, mas quero ser compreendido”. “Eu sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, serão muito em breve triviais. Amanhã morrerei, mas sou símbolo das gerações futuras”.

– Trechos do conto “Deutsches requiem”

 

Seu trabalho foi traduzido e publicado extensivamente nos Estados Unidos e na Europa. Jorge Francisco era fluente em várias línguas. Faleceu em Genebra, Suíça, ao décimo quarto dia do mês de Junho de 1986.

“Na candente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que em nenhum instante se rebaixou ao sentimentalismo ou ao medo, notei que os porta-cartazes de ferro da praça Constituición tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me tocou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que aquela mudança era a primeira de uma série infinita. Poderá mudar o universo, mas não eu, pensei com melancólica vaidade…” “…para terminar o poema, a casa era indispensável, pois num canto do porão havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contém todos os outros pontos”. “Existe esse Aleph no fundo de uma pedra? Eu o vi quando vi todas as coisas e o esqueci? Nossa mente é porosa ao esquecimento; eu estou mesmo falseando e perdendo, sob trágica erosão dos anos, os traços de Beatriz”.

– Passagens do conto “O Aleph”

 

Entretanto, para entender Jorge Francisco (escritor e ser humano), penetrar seu rico e singular universo, nada melhor que permitir-se à fantástica experiência da leitura de suas obras.

 

Referências:

[1] “O Aleph”, Jorge Luis Borges, (1949); tradução: Davi Arrigucci Jr., Companhia das Letras, São Paulo, (2008).

[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Luis_Borges, acesso ao sítio em 05/04/2011.

 

 

Este artigo apresenta dezesseis fragmentos coletados a partir da leitura cuidadosa de “La Scuola degli Dei” (título original em italiano), de Stefano Elio D’Anna. O livro pode ser encontrado sob o título: “A Escola dos Deuses”, Stefano Elio D’Anna, ProLíbera Editora, 396 páginas, ISBN 978-85-61080-00-6, (2007). Espero que apreciem os excertos colhidos; e que este breve artigo ajude a conquistar novos leitores para essa obra de beleza singular.

i) “Ler este livro foi uma das grandes viagens que já empreendi. O autor nos leva a trilhar o caminho para nosso interior. Em ritmo ágil, vai levando o leitor a fazer um novo pacto com a vida”. “O sal da vida está em ousar a ser quem se é por dentro. Pessoas que estão firmemente ancoradas em seu interior têm o condão de ver barreiras imensas como pequenas dificuldades circunstanciais. Têm coragem e clareza para mudar a realidade para si e para os outros”. Hebert Steinberg na Apresentação ao leitor brasileiro, pp. 7.

ii) “Este livro é um mapa, um plano de fuga. Seu objetivo é mostrar a trajetória que um homem comum seguiu para escapar da hipnótica narração do mundo, da lamentosa e acusatória descrição da existência, para escapar da trilha de um destino já traçado. Este livro jamais teria existido, nem eu poderia ter escrito uma linha sequer, não houvesse encontrado o Dreamer e Seus ensainamentos. A Ele, o Dreamer, dedico minha infinita gratidão por ter me conduzido pela mão do mundo do sonho, no mundo da coragem e da impecabilidade, onde o tempo e a morte não existem, e a riqueza não conhece ladrões nem ferrugem”. Stefano Elio D’Anna no Prefácio à obra, pp. 9.

iii) “Reais guerreiros não lutam pela supremacia ou pela hegemonia sobre os outros; não lutam pela glória, nem pelas posses ou recompensas, mas para ganhar a única coisa que realmente importa: a própria liberdade interior”. “Tratei de entrar na questão da diferença entre a impassibilidade – apatheia – pregada pelos estóicos, e a indiferença da alma em relação às paixões e aos pensamentos externos da mística lupeliana. Para Lupelius, a impassibilidade é conferida pela recuperação da integridade, aquela unidade do ser que é uma condição natural e da qual o ser humano se esqueceu. Do vazio que a alma cria, ao se liberar dos pesos das coisas exteriores e carnais – sem mais a ilusão de que existe algo fora de nós –, nasce um estado de ser que é um contínuo, um natural movimento em direção à eternidade, à imortalidade, ao ilimitado”. “Tudo aquilo que sinteticamente chamamos de mundo, os eventos e as circunstâncias da nossa vida, são projeções nossas. Se somos sabedores disso, podemos projetar somente a vida, a prosperidade, a beleza, a vitória. Se somos vigilantes, atentos, podemos projetar liberdade, um mundo sem obstáculos, sem limites, sem velhice, sem doença nem morte”. pp. 59.

iv) “Sua fé mais irremovível… sua convicção mais nociva é acreditar que existe um mundo externo a você, alguém ou alguma coisa de quem depender, alguém ou alguma coisa que possa lhe dar algo… ou tirar-lhe algo, escolhê-lo ou condená-lo. Se um guerreiro acreditasse, só por um minuto, em uma ajuda externa, perderia no mesmo instante a sua invulnerabilidade”. pp. 97.

v) “Mude o sonho! É impossível deixar os trilhos da repetitividade, da recorrência, se não se muda o sonho. Você deve abandonar o seu destrutivo modo de sonhar. Sonhe um sonho novo, aprenda um jeito novo de sonhar, um sonho em que o poder da vontade comanda, o poder do amor cria e o poder da certeza vence. Seja mais sincero, mais honesto com você mesmo, e perceberá que atrás da sua falsa convicção de querer mudar sua vida, existe um secreto projeto de perpetuá-la assim como é. O mundo é assim porque você é assim”. pp. 125.

vi) “Desde quando o Dreamer me havia aberto os olhos sobre a condição empregatícia, revelando-a como uma moderna transposição da escravidão, aquele exército de homens e mulheres que se encaminhava ao trabalho parecia um enxame de insetos movido por uma necessidade cega. Todas as manhãs via-os invadirem andares inteiros de grandes edifícios, ocuparem milhões de celas, pequenas como alvéolos, e dominá-las com o seu zumbido. Nas suas glândulas transportavam uma espécie de vida em estado limoso: uma carga de pensamentos escuros e o xarope denso das suas emoções. Enquanto eu mesmo dirigia-me à minha cela, pensava na infinita população planetária destinada, como eu, a despender nas organizações a maior parte da própria vida em troca de uma retribuição. Perguntava-me qual era o significado evolutivo de todo aquele esforço e para onde era dirigido o afã de tantos homens engaiolados no espaço hipnótico dos seus papéis e funções. Dentro e fora das organizações, via-os atormentados pelo medo; reconhecia neles as minhas angústias, a minha infelicidade. Sob a sutil película de racionalidade, eu via escondida a lógica conflituosa, o pensamento destrutivo, aquele impulso de morte que nos estimula incessantemente a prejudicar primeiramente a nós mesmos e, depois, aos outros. Sob camadas emocionais sedimentadas há séculos, reconhecia a degradação do ser, resultado de ansiedade, dúvidas, inseguranças e de um enorme medo, seja de viver, seja de morrer”. pp. 175.

vii) “O medo é a morte dentro. O herói é o homem em ausência de medo, em ausência de morte interna. Herói… Eros… amor, a-mors significa imortal. Herói é um grau na escala humana que não se obtém no clamor da batalha, mas em solidão, vencendo a sim mesmo. A batalha serve somente para tornar visível o que o herói já conquistou no invisível. Sua invencibilidade ou invulnerabilidade é simplesmente a prova dos nove de alguma coisa que já aconteceu no ser, o teste de tornassol da sua vitória sobre a morte”. pp. 209.

viii) “O mundo é o desenvolvimento no tempo daquilo que sonhamos… Um compromisso é sempre consigo mesmo… Ou melhor, com uma parte de você, mesmo que você não a conheça. Pessoas e eventos surgem e se dissolvem seguindo um roteiro já escrito no ser”. “Quando você planifica e acredita nisso, está se distanciando do mundo real… Mais você se convence de que os compromissos e encontros acontecem como programados, mais você reforça o seu senso de morte… E assim você se vê com pessoas abúlicas, que planificam e programam como você, e iludem-se de estar escolhendo ou decidindo sem jamais reconhecer a própria impotência”. “Um dia sua agenda será a de um ser humano livre, a agenda de um ser humano que realmente faz porque sabe que tem a solução sempre consigo… que é ele a solução. Você interpretará os encontros e os papéis e deixará o mundo livre para acontecer… do melhor modo possível. O mundo tornar-se-á sua obra-prima, nem esforço ou pressão. Somente então a sua agenda será a agenda de um verdadeiro líder… terá só páginas em branco”. pp. 234.

ix) “Enquanto você não redescobrir sua vontade sepulta, enquanto você não alcançar sua verdadeira liberdade, sua integridade, o passado estará sempre à espreita para reconduzi-lo àquilo que é velho e deteriorado. A ignorância está sempre a um palmo de distância… Se você deixar de vigiar e se esquecer do sonho, será pilhado num instante e, com você, cada conquista, cada entendimento, ainda que perseguidos a duras penas, degradarão. Não importa quanto trabalho você tenha dedicado. Enquanto você não atingir a totalidade do ser, estará sempre em equilíbrio instável sobre o abismo da sua ignorância… A totalidade do ser significa domínio de si; é o resultado de um longo trabalho de Escola… Antes disso, um homem não é mais que um sonâmbulo suspenso entre o nada e a eternidade”. pp. 259.

x) “O horror é ter transferido Deus para fora de nós”! “Era uma vez um ser sem religiões. Elas surgem quando, por um abalo de sua religiosidade, o ser se degrada e transfere a divindade para fora de si”. pp.278.

xi) “Quando alguma coisa é bem-feita, é feita para sempre! Todo o universo é informado disso, e você não terá mais necessidade de repeti-la. Depois de uma breve pausa, completou: Somente a imperfeição se repete. A perfeição não se repete nunca, porque continuamente transcende a si mesma. Uma perfeita crisálida deve cessar de ser uma crisálida perfeita e morrer para ter acesso a uma condição superior de ser”. “…com impecabilidade daquele gesto teria consertado para sempre seu universo pessoal… sairia de uma faixa acidental da existência, onde tudo já está programado, do nascimento à morte, e modificaria seu destino… O mundo é o reflexo, uma ressonância do ser…” pp. 291.

xii) “Quem ama aquilo que faz não depende. Quem ama não tem tempo para vender… Somente quem não ama pode ser recrutado, retribuído. Um ser humano que ama é impagável”. “Entre as grandes ilusões de quem trabalha, existe aquela de receber uma retribuição. Na verdade, aquilo que é considerado uma compensação, um salário, é somente um modesto, um parcial ressarcimento pelos danos produzidos pela condição de dependência”. “A economia não está baseada no trabalho, mas na felicidade. A felicidade é economia”. “Aos sete anos, os espartanos deixavam de depender. Eram colocados em uma escola de coragem, em que se forjavam heróis, guerreiros luminosos, invencíveis. Atualmente, com a mesma idade, as crianças são incluídas no triste exército dos adultos. É observável a transformação que sofrem. O gosto pelo jogo, o frescor pelas impressões, o entusiasmo, a adaptabilidade, a coragem são substituídos pelas emoções aparentemente humanas (inveja, ciúmes, rancor, ansiedade, temor), pela aquisição de hábitos insanos (lamentar-se, o falar excessivo, o esconder-se e o mentir) e pela imitação daquelas deformações, que são as máscaras da degradação que sofreram. Engaiolar a liberdade da criança – cortar as asas do sonho – é uma imoralidade que a humanidade, assim como é, nem consegue ver. Sua paga são os inúmeros males sociais que a afligem e uma economia baseada no fracasso”. “Como o barulho do trem friccionando fortemente os trilhos, que depois de um tempo já não percebemos mais, assim se torna a dor da dependência para nós: uma coisa só com a existência, uma constante natural e, absurdamente, uma presença reconfortante na vida. Abandoná-la será, quando chegar à idade adulta, uma tarefa… quase impossível”. pp. 308.

xiii) “No paraíso não pode entrar nem mesmo um grão de inferno, sintetizou poderosamente. Para um indivíduo vertical, a perda de um só átomo da sua integridade significa perder tudo. Ele não fica em paz enquanto não restabelece a própria completude. Adicionou que santo, em seu significado mais profundo, além dos dogmas eclesiásticos cristãos, significa são, curado. Santo é, portanto, um ser integro, inteiro, que elegeu a completude, a unidade do ser como objetivo de sua vida; é um ser vigilante em relação aos seus estados e às suas emoções, porque sabe que o menor desvio da totalidade de si mesmo o precipita aos infernos da pequenez e da mediocridade”. “Na verdade, santos eram os homens e as mulheres que tinham simplesmente ousado acreditar em si mesmos; pessoas comuns que, sabedoras da própria incompletude, fizeram a viagem de retorno à integridade perdida”. pp. 318.

xiv) “Para poder atrair algo miraculoso, para poder dar concretude ao impossível, um homem deve elevar-se no ser, aproximar-se daquela condição de unidade, de integridade, que é seu direito de nascimento… É a parte mais verdadeira, mais concreta de cada um de nós: o sonho”. pp. 321.

xv) “A diferença entre nós é que meus átomos dançam bêbados do eterno néctar da imortalidade e você é atraído e governado por tudo aquilo que é mortal… Eu venci a morte e você investiu tudo na inevitabilidade dela”. “Eu fui você e você será Eu. Separam-nos éons de tempo e um abismo na consciência. Acelere”. “Tome uma decisão de uma vez por todas”! “Sonhe um novo sonho. Sonhe um novo mundo!… O mundo é como você o sonha. O mundo é como você o quer!… Você o quis violento, falso, mortal. O mundo será diferente quando seu sonho mudar. Seu contínuo lamentar-se do passado o conduz sempre ao velho…, retomou depois de uma longa pausa. Abandone-o! É tempo de dedicar-se em tempo integral…” pp. 327.

xvi) “Um ser humano que acredita em si mesmo dá um passo aparentemente no vazio, e somente então inevitavelmente verá o terreno materializar-se sob seus pés para dar razão à sua loucura luminosa… Crer para ver, e jamais o contrário”! pp. 331.

 Crédito da imagem: Hieronymus Bosch, The Garden Triptych, Left Wing, The Betrothal of Jacob and Sibylle by Christ (enlarged), 1469-70.

Foi com grande surpresa e admiração que recebi inusitada encomenda. Aquele  exemplar de “Correspondências” trazia inscrita a dedicatória de próprio punho do autor, Péricles Prade, datada do dia em que meu pai comemorava seu natalício. 

O livro “Correspondências: narrativas mínimas” contém 22 contos de realismo fantástico mais o posfácio de Álvaro Cardoso Gomes – intitulado “A lógica do delírio” – ao longo de exatas 96 páginas. A insólita e sugestiva ilustração da capa, concebida por João Colagem, é também digna de menção, [1].

Cada um desses contos encerra em si a semente do transporte para os planos subjetivos do poético, do simbólico, do onírico; chave para profundo (auto-)conhecimento. A experiência de leitura de verdadeira obra-prima é aquela da descoberta. Senti-me como antigo homem das cavernas, a colher faíscas ígneas em gravetos, a partir de energia vasta e efêmera, desprendida dum relâmpago súbito. É assim: através dessa imagem pictográfica a melhor síntese quanto ao conteúdo do livro.

O objetivo desse texto – misto de resenha e composição livre, a partir de excertos de “Correspondências”, [1], e de uma entrevista concedida pelo autor no ano 2005, [2] – consiste em estimular o leitor a repetir essa aventura: verdadeiro mergulho no universo de literatura concisa, inteligente, imaginativa, moderna e, sobretudo, brasileira.

* * *

Péricles Prade é escritor – poeta, contista, historiador, crítico literário e de artes plásticas –, advogado e professor universitário. Nascido em 7 de maio de 1942 na cidade de Rio dos Cedros, quando esta ainda pertencia ao município de Timbó, SC.

“Lembro-me, apenas, que sentia (como ainda sinto) uma irreprimível necessidade de escrever, na realidade reveladora de vocação literária”. “Conquanto não tenha iniciado por direta influência literária, esta existiu e existe no curso de minhas produções. Harold Bloom que o diga. Daí que, na poesia, registro Blake, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé e Eliot. Quanto à ficção, Nerval, Hawthorn, Kafka e Jarry. E envolvendo esses gêneros, como pano de fundo, o ocultismo e a mitologia”.

“Percebe-se que o papel da poesia, no fundo, continua o mesmo, quer o mundo, ou não, viva grandes conflitos de expressão universal, coisificando o homem: ou seja, o da revelação da essência do cosmos individual e coletivo pela fé nessa arte”. “A poesia é entranhado reflexo da vida”. “E a natureza, já dizia Heráclito, ama ocultar-se”.

“A obscuridade e o hermetismo somente prestam obséquio àqueles que não se esforçam para descobrir a lava incandescente sob esses vulcões representativos de uma poética de exceção em busca constante de epifanias”. “Exigem preparo intelectual, sim, por serem fruto de poesia para iniciados, conquanto desnecessária seja a erudição especializada, correspondendo a um projeto poético-existencial”. “Não há dúvida: o poder do símbolo ainda nos acompanha. Ocorre que o símbolo é apenas um dos elementos da mitologia e dos mitos, sendo os arquétipos, a teor do perfil junguiano, as idéias em comum com estes”.

“A ficção por mim criada é vinculada à denominada narrativa fantástica. Para os que não sabem, o fantástico, segundo Todorov, é a hesitação experimentada por um ser que, conhecendo tão-somente as leis naturais, encontra-se diante de um acontecimento tido como aparentemente sobrenatural. Daí durar o tempo de uma hesitação”. “De outra parte, alinho-me ao uso do staccato caracterizador da medida econômica e autônoma de muitos versos, quando a miniatura se instala, mas contendo o macrocosmo representativo de uma cosmogonia singular, isto é, sem comprometer a originalidade. É nesse espectro que se catapulta minha imaginação”.

“Considero-me um homem realmente feliz”. “Meu maior prazer estético, para manter a felicidade, é escrever, ler e ouvir música, principalmente Bach e Vivaldi”.

* * *

JUNTO AO CORAÇÃO. “Pus os olhos nos da criatura, mais de uma vez, certo de que, postada à minha frente, não era deste mundo”. “Não se mexeu. Criei coragem, e fui quase correndo a seu encontro, movimentando os braços como se fossem hélices”.

VENDEDORAS DE VENTOS. “Digo sem receio: supunha que minha cunhada fosse, no mundo, a única vendedora de ventos, estocados em desordem num saco fechado com a corda de três nós”. “Dependendo do interesse dos compradores, bastava abrir determinado nó, com redobrado cuidado, para dele sair vento fraco (espécie de brisa doce), vento forte (violento, às vezes) ou tempestade de várias intensidades”.

PAISAGENS. “Elói recolheu a garrafa expulsa pelo mar. Aquela que lhe bateu nos pés, como se quisesse dizer algo”. “O irmão caçula, Jeremias, quando acordou, na manhã seguinte, ao olhar a garrafa ficou encantado com a sua forma oval”.

SONHOS. “Embaixo da cama, perto de onde deixei as botas de feltro, os lampiões de folha de flandres, os rótulos das garrafas, a bengala com volta na ponta e o colete de veludo, ouvimos o contínuo rumor de baratas, mas ficamos calados, na expectativa de que um de nós falasse alguma coisa”.

RABOS DE TIGRE. “Um tigre branco não me agrada. Prefiro a cor tradicional, sem retoques. Mas ele está ali, olhando para mim, cheio de vontades”.

NOVOS RELATOS DE LUIGI POMERANOS. “Nem todo cão se espanta com a cor que no mar flutua à espera dos heróis ainda encarcerados”. “Não late. Com fervor, estende a pata esquerda sobre o melancólico rosto da paisagem móvel”.

PASSAROMORFOSE. “O ornitólogo desceu a ladeira com habilidade, aos pulos, concentrando-se no que iria fazer no Laboratório da Universidade”. “Ao pular, passou-lhe pela mente, no instante do terceiro salto, a idéia que vinha se repetindo nos últimos anos: se fosse pássaro, não precisaria agir assim. Bastaria bater as asas, voar e chegar ao destino, rapidamente, sem necessidade de, sonolento, levantar-se da cama tão cedo”. Entretanto, seu desejo era o de ser um daqueles que os homens, fruto de milenar experiência, reconhecem como bons. A relação é grande, mas na realidade somente três foram convocados pela sua imaginação, compreendendo o simorgh, o rouxinol e a andorinha”. “O persa simorgh porque, além de curandeiro-confidente, possui a linguagem humana e conserva o hábito de transportar heróis a longas distâncias”.

HIPNOTIZADOR. “Sempre tive verdadeiro fascínio por relógios antigos. Sei tudo sobre eles, desde a origem. A partir do dia que não me recordo, passei a colecioná-los. Quando não mais cabiam em casa, resolvi abrir o antiquário, sediando-o na Rua dos Alquimistas 2491, após registrá-los, com minúcias técnicas, na caderneta presenteada pelo Comendador Carmine Baggio”.

ENTRE SOLUÇOS. “Desapareceu, em seguida, diante da platéia ainda perplexa”. “De nada adiantaram os aplausos e a exigência do retorno ao palco”. “Aquela era uma noite diferente das anteriores, pois ele já havia dito, na sessão retrasada, entre soluços, que desistira em definitivo da profissão”. “Seu pai, senhor de respeitáveis costeletas, orgulhava-se do magnífico sucesso do filho adotivo”.

VOCAÇÃO. “Meu pai, quando pela primeira vez, manifestei o desejo de ser adestrador de porcos, influenciado por um amigo, com desprezo e o dedo em riste disse que eu estava delirando”. “No início, fui auxiliar de geólogo, que com varinha de condão, localizava, sob encomenda, água pura nas profundezas da terra”.

Referências:

[1] Prade, Péricles; “Correspondências: narrativas mínimas”; 96p; ISBN 978-85-7195-151-8; Editora Movimento; Porto Alegre; (2009)

[2] Vasques, Marco; “Fantástico e estranho mundo de Péricles Prade (entrevista)”; Agulha – Revista de Cultura; 43; Fortaleza, São Paulo; (2005)

 http://www.revista.agulha.nom.br/ag43prade.htm 

Lili For-ever*

junho 17, 2010

de nosso últi­mo trago

coçam-me os dedos e sa­livam-me na boca

resquícios esmaecidos de seus lábios

                   

aliás, confesso que sempre gostei dessa sensação

se acaso alguém

de índole since­ra

indagasse os motivos reais de tal contentamento

não esta­ria mentindo

pois era batuta

                     

é ver­dade que sua gargalhada

ainda me enrubes­ce a face

creio ter sido aluno exemplar

tanto foi assim que

naquela mesma noite

os respiros de sexo pululavam pelas veias

                

mas, veja você como são as coisas,

nossa história quedará

perdida pelas vielas da memória

adormecida nas cinzas

              

seja como for

                

nos últimos tempos

creio que qualquer outro alucinógeno

lhe subtrairia a mesma reação

até agora me orgulha sua determinação

em contrariar o desengano

com a mesma desenvoltura de juventude

                       

penso já ser hora de retribuir o favor

ao lado de Lili 

                    

*Todos os versos foram extraídos (são retalhos) do conto “Um último trago”, do livro “Pára-raios de Loucos”, de Borboleta, Editora Assis, 2009.