Sob as gárgulas de Monte Cristo

junho 12, 2009

Durante toda a noite ouviam-se os rugidos dos grandes felídeos – as panteras – que habitavam aquelas cercanias. Lá fora as brumas, o frio e a chuva incessante. Vez por outra alguns desses animais arranhavam com suas garras às portas do pequeno castelo. Como se requisitassem o direito sobre a posse da fortaleza, bem como do sangue fresco que fluía quente das jugulares de seus resistentes habitantes. Outrora, duas ou mais feras se digladiavam em portentosos embates. Aqueles rugidos, aquela potência animal constrangia Dom Luiz. Fazia-o encolher por debaixo das cobertas. Sentia o frio da alma que insistia em habitar as entranhas de seu corpo aquecido. Olhos semi-cerrados: impossível se entregar ao son(h)o.

 

Junto à claridade da manhã cessavam os movimentos das panteras. Homens e mulheres tinham de estar aos seus postos. Exercício (ou arte) de manutenção da vida. Os candelabros com velas alumiavam os corredores estreitos que separavam os cômodos da edificação. Lá fora, explosões das tristes gotas de chuva; beijavam a face de imensa terra. A tristeza dela era alegria das plantas. Não havia mais belas flores que aquelas úmidas da manhã nublada dessa época do ano. Jorgeana deixou o seu aposento para banhar-se nas pedras da sauna aquecida pelo fogo à lenha; exalava o aroma das folhas de eucalipto. Seu belo e viçoso torso nu era graça das mais supremas que o bom Deus havia permitido habitar esta esfera. A pele alva e suave contrastava ao rubro de seus lábios – doce o hálito do frescor da manhã.

 

Foi sacerdotisa Juliana quem preparou o café preto. Desígnio (ou indício) de que um de seus mais nobres discursos estaria por vir. Juliana trazia aos olhos grandes as esmeraldas de profundo conhecimento, talhado a ferro e fogo. Dias e noites de dedicação às escrituras. A observação atenta da cinemática dos corpos celestes; as correlações desta aos seus experimentos com os elementos dos reinos animal e vegetal. Também a interação deles com a morada do sutil e do singelo; reino que habita as profundezas de sua alma (asas da imaginação); mas isso ela não traduzia às palavras: trazia apenas nos movimentos de seu corpo miúdo e nas expressões do seu semblante – por vezes doce, noutras verdadeira a face da sanha.

 

Dom Luiz era espécie de DJ das xícaras, dos pratos, das louças em geral, garfos, facas e de todos outros talheres, que ele lavava ao alto e bom som do rock progressivo do início da década de setenta. Ou traduzido em miúdos: Pink Floyd. Seu instrumento era o espumante e perfumado dos talheres e das louças. Espalhava a música aos extremos da limpeza. Àquela hora se formava a fila dos pacientes para receberem os cuidados atentos e os bálsamos curativos de Jorgeana. Mas eles – Juliana, Dom Luiz e Jorgeana – permitiam breve instante para o desjejum e suas excelsas intenções.

 

Juliana fez às vezes de exímia oradora. Naquela manhã discursou sobre as técnicas de esquiva às artimanhas do satanás. “O tinhoso não habita apenas um corpo como muitos imaginam. Sendo ele fluido (análogo das idéias), na consecução do etéreo pode impregnar as almas daqueles que não se ocupam das tarefas elevadas.”

 

Já pela manhã sabíamos que este seria um dia interessantíssimo e rico de significados.

 

Porém, após o crepúsculo, outra noite viria…

 

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