Ubermensch

fevereiro 10, 2014

 ubermensch_jorge_xerxes

 Noite passada eu sonhei que era Você e decidi descrever a experiência.

A primeira imagem que me veio à mente foi a de um menino nu preso por um cadeado de bicicleta ao poste numa esquina qualquer do Rio. Calor, muito calor e humilhação. Depois, para refrescar, árvore à frente, a terceira vértebra quebrada numa descida rápida de esqui nos Jogos de Inverno em Sochi.

Se o sinal se fecha, é porque existe o cruzamento de vias a frente. Dualismo, observador e observado, sujeito e objeto. Quando o sinal ficou vermelho para mim? Quando o sinal ficou verde para Você? Será possível definirmos com precisão estes limites se nossos veículos têm velocidades diferentes? Isso vai dar merda; alguém bota a língua de fora. Relatividade. Saco o meu facão e corto o seu pescoço. Afinal, eu estou com a razão. Sua mulher chora; ouço-a entre soluços: “Discutir no trânsito não vale a pena”. Como é louco o universo onírico. Outra quebra.

Descontinuidade. Ciência, tecnologia, economia de escala. Muita informação e pouco conteúdo. Eu tenho de me desdobrar cada vez mais para sustentar o mercado. Cartão de crédito, i-pad, fast food, x-box, rodo anel, tv de plasma e banda larga: tudo isso para a minha comodidade. Por mais que eu trabalhe, me esforce, ninguém explica os porquês ou pra onde é que estamos indo. Por quê?

Mais um fragmento. Os três poderes vergonhosamente a se digladiarem no horário nobre; uma espécie de big brother às avessas. Eu assisto em tempo real a um desfile de mazelas elevadas às altas esferas da aristocracia. Espalham luxúria, ira, orgulho e inveja por todos os lados.

Pausa para a reflexão. Para o meu alívio ainda posso tomar umas cervejas depois do trabalho. Neste sonho existe ainda a realidade ampliada, os jogos eletrônicos e os ambientes virtuais. Eu posso ser outra pessoa – herói, vilão ou magnata. Três salves para Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg! Eles deram asas a minha absoluta incapacidade de imaginação. (Sonho dentro do sonho).

E foguete nas costas do cinegrafista é diversão. Preocupação com a minha segurança: o que será do Brasil se perder a copa? Por isso, créditos ilimitados à Fifa e amplos poderes ao Felipão.

Eu concordo com Você quanto ao desejo de potência de Nietzsche. Isso explica também a minha aspiração à Ubermensch. E este louco devaneio avaliza todo o espectro de possibilidades da conduta humana – para além do bem e do mal.

Mas eis que eu me deparo com o Fuhrer, que eu julgava morto. Ele aplaude qual Charles Chaplin, ovacionando as passadas velozes e saltos amplos de Jesse Owens. Quero crer que não estou sonhando, belisco o meu antebraço esquerdo com a mão direita. Sim, estou bem desperto!

Pergunto ao colega sentado do meu lado no estádio o que é que está se passando? Um Telê Santana sorridente me responde que é isso mesmo; a seleção de 82 é aquela dos sonhos, apesar da falta de um matador, pelo seu futebol arte desde que o sentido de sucesso fora expatriado ao âmbito transpessoal.

 – Você não assistiu àquela entrevista do Jô com o cara magrelo, de bigode, narigudo, vestido somente de tanga e estranhos óculos de armação circular? Fiquei pasmo de que, com tantos recursos, eu andasse por aí tão desinformado. Além do mais, esse cara devia ser feio para caralho.

 – Sim, foi ele quem difundiu esse sonho de persistência na verdade. Ele também denominava aquelas suas ideias de força do amor ou força da alma. O magrelo era convicto de que na busca pela verdade não era admitida a violência sobre o oponente, mas que este devia ser demovido do erro pela paciência e pela compaixão. Porque inicialmente aquilo que parece ser a verdade para um pode parecer o erro para outro. E a paciência é um exercício de auto-depuração. Então essa conduta veio re-significar o clamor pela verdade através, não da imposição de depuração ao outro, mas a si mesmo.

 – Você se lembra de quanto o Gordo gritava: “Bota ponta, Telê?” É mais ou menos isso.

Aquilo me soou familiar e esbocei um sorriso. À sensação de compreensão súbita sobreveio o desmoronamento do dualismo. Fusão do sujeito com o objeto, cessação da diferenciação entre acima e abaixo, uma confusão danada das ideias, por fim, o colapso da alma no corpo.

Despertei estupefato sem entender picas.

Noite passada eu sonhei que era Você, mas desisti de descrever a experiência.

Será que vamos nos entender um dia?

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