Este texto apresenta uma viagem ao espírito do rock brasileiro na década de oitenta. Sem a pretensão de ser um estudo abrangente sobre o assunto (veja dica de leitura ao final), explora quatro álbuns representativos e algumas músicas selecionadas destes discos (como eram chamados os vinis naqueles dias). Dezessete canções, para ser mais exato. O interesse aqui está mais nas letras dessas faixas, que dizem muito de quem viveu a adolescência nessa época em específico.

            

Eu ainda tenho estes álbuns, que comprei na época do lançamento de cada um deles, além de muitos outros – na verdade, uma coleção de pouco mais de trezentos discos de rock. Lembro com saudade daqueles tempos, em que economizava as minhas parcas economias para conseguir adquirir um disco a cada quinze dias, aproximadamente. Das muitas fitas cassete que gravávamos e trocávamos entre os amigos.

            

E tive a oportunidade de assistir a estes quatro shows, na época em que os respectivos álbuns foram lançados, com os hormônios correndo em altas concentrações pelo sangue, o coração na boca e aquele ímpeto juvenil. Todos eles no ginásio poliesportivo da Associação Atlética Caldense, em Poços de Caldas, MG; onde aconteciam os grandes shows de rock mais próximos da cidade em que nasci e vivi até o final da década de 80 – São João da Boa Vista, SP.

            

Acredito que esta seleção caberia bem numa fita cassete de 90 minutos (na verdade, ainda sobrariam alguns minutos, que poderiam ser preenchidos com Titãs ou Plebe Rude, por exemplo). Creio que este é um registro interessante para quem nasceu mais ou menos na mesma época que eu (não vou dizer o ano em que nasci, mas darei pistas).

           

Sem mais delongas, vamos aos álbuns e às canções, é o que interessa…

           

           

“Vivendo e não aprendendo”, álbum original da banda Ira! lançado no ano 1986. Este disco do Ira! se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e violão), Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria). Edgard Scandurra é o principal compositor. Lado “A”: (1) Envelheço na Cidade; (2) Casa de Papel; (3) Dias de Luta; (4) Tanto Quanto Eu; (5) Vitrine Viva. Lado “B”: (1) Flores em Você; (2) Vivendo e Não Aprendendo; (3) Nas Ruas; (4) Gritos na Multidão; (5) Pobre Paulista.

            

Casa de papel: “Na dura frieza do dia a dia / Que você aprendeu, pobre Daniel / Que as respostas não caem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Será que o prazer de tocar sua guitarra / E a gratidão de chutar uma bola / Vão lhe render juros ou não? // Foram bons os tempos das descobertas da juventude / Mas hoje você gosta de pernas bem mais grossas / O padrão tão baixo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel! // E quando você está inseguro / Fazendo sempre as mesmas perguntas / Esperando respostas caírem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Você não vai ouvir nada do céu / Será que não notou que nós vivemos num inferno? / E o padrão caindo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel!”

             

Dias de luta: “Só depois de muito tempo / Fui entender aquele homem / Eu queria ouvir muito / Mas ele me disse pouco… // Quando se sabe ouvir / Não precisam muitas palavras / Muito tempo eu levei / Pra entender que nada sei / Que nada sei!… // Só depois de muito tempo / Comecei a entender / Como será meu futuro / Como será o seu… // Se meu filho nem nasceu / Eu ainda sou o filho / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois? / Cantar depois!… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?… // Só depois de muito tempo / Comecei a refletir / Nos meus dias de paz / Nos meus dias de luta… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?…”

               

Flores em você: “De todo o meu passado / Boas e más recordações / Quero viver meu presente / E lembrar tudo depois… // Nessa vida passageira / Eu sou eu, você é você / Isso é o que mais me agrada / Isso é o que me faz dizer… // Que vejo flores em você!…”

                 

Vivendo e não aprendendo: “Quando me sinto assim / Volto a ter quinze anos / Começando tudo de novo / Vou me apanhar sorrindo // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando // Vivendo e não aprendendo / Eis o homem, este sou eu / Que se diz seguro / Que se diz maduro // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando”

                  

                  

“Dois”, álbum original da banda Legião Urbana lançado em 1986 (quando eu tinha 15 anos). Este disco da Legião se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Renato Russo (voz, teclados e violão), Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria). Renato Russo é o principal compositor. Lado “A”: (1) Daniel na Cova dos Leões; (2) Quase Sem Querer; (3) Acrilic on Canvas; (4) Eduardo e Mônica; (5) Central do Brasil; (6) Tempo Perdido. Lado “B”: (1) Metrópole; (2) Plantas Embaixo do Aquário; (3) Música Urbana 2; (4) Fábrica; (5) Andrea Doria; (6) Índios.

 

Acrilic on canvas: “É saudade, então / E mais uma vez / De você fiz o desenho / Mais perfeito que se fez / Os traços copiei / Do que não aconteceu / As cores que escolhi / Entre as tintas que inventei / Misturei com a promessa / Que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três / Trabalhei você / Em luz e sombra // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que nunca quis deixar você tão triste / Sempre as mesmas desculpas / E desculpas nem sempre são sinceras / Quase nunca são // Preparei a minha tela / Com pedaços de lençóis / Que não chegamos a sujar / A armação fiz com madeira / Da janela do seu quarto / Do portão da sua casa / Fiz paleta e cavalete / E com as lágrimas que não brincaram com você / Destilei óleo de linhaça / Da sua cama arranquei pedaços / Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes // E fiz, então / Pincéis com seus cabelos / Fiz carvão do batom que roubei de você / E com ele marquei / Dois pontos de fuga / E rabisquei meu horizonte // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você / Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez / E era sempre, sempre o mesmo novamente / A mesma traição // Às vezes é difícil esquecer / Sinto muito, ela não mora mais aqui // Mas então, por que eu finjo / Que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim / Não foi desse jeito / Ninguém sofreu / É só você / Que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome / De amor-perfeito / E não-te-esqueças-de-mim”

           

Tempo perdido: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo // Todos os dias antes de dormir / Lembro e esqueço como foi o dia / Sempre em frente / Não temos tempo a perder // Nosso suor sagrado / É bem mais belo que esse sangue amargo / E tão sério // E selvagem / Selvagem / Selvagem // Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos teus olhos / Castanhos // Então me abraça forte / E diz mais uma vez que já estamos / Distantes de tudo // Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo // Não tenho medo do escuro / Mas deixe as luzes / Acesas agora // O que foi escondido / É o que se escondeu / E o que foi prometido / Ninguém prometeu / Nem foi tempo perdido // Somos tão jovens / Tão jovens / Tão jovens”

            

Fábrica: “Nosso dia vai chegar / Teremos nossa vez / Não é pedir demais / Quero justiça // Quero trabalhar em paz / Não é muito o que lhe peço / Eu quero um trabalho honesto / Em vez de escravidão // Deve haver algum lugar / Onde o mais forte / Não consegue escravizar / Quem não tem chance // De onde vem a indiferença / Temperada a ferro e fogo? / Quem guarda os portões / Da fábrica? // O céu já foi azul / Mas agora é cinza / O que era verde aqui / Já não existe mais // Quem me dera acreditar / Que não acontece nada / De tanto brincar com fogo / Que venha o fogo então // Esse ar deixou minha vista cansada / Nada demais”

              

Andrea Doria: “Às vezes parecia que de tanto acreditar / Em tudo que achávamos tão certo / Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais / Faríamos floresta do deserto // E diamantes de pedaços de vidro / Mas percebo agora que o teu sorriso / Vem diferente / Quase parecendo te ferir // Não queria te ver assim / Quero a tua força como era antes / O que tens é só teu / E de nada vale fugir / E não sentir mais nada // Às vezes parecia que era só improvisar / E o mundo então seria um livro aberto / Até chegar o dia em que tentamos ter demais / Vendendo fácil o que não tinha preço // Eu sei, é tudo sem sentido / Quero ter alguém com quem conversar / Alguém que depois / Não use o que eu disse contra mim // Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei / Com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei / Tenho o que ficou / E tenho sorte até demais / Como sei que tens também”

                

Índios: “Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que eu não tinha // Quem me dera ao menos uma vez / Esquecer que acreditei que era por brincadeira / Que se cortava sempre um pano de chão / De linho nobre e pura seda // Quem me dera ao menos uma vez / Explicar o que ninguém consegue entender / Que o que aconteceu ainda está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente // Quem me dera ao menos uma vez / Provar que quem tem mais do que precisa ter / Quase sempre se convence que não tem o bastante / Fala demais por não ter nada a dizer // Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto como o mais importante / Mas nos deram espelhos / E vimos um mundo doente // Quem me dera ao menos uma vez / Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três / E esse mesmo Deus foi morto por vocês / Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Quem me dera ao menos uma vez / Acreditar por um instante em tudo que existe / E acreditar que o mundo é perfeito / E que todas as pessoas são felizes // Quem me dera ao menos uma vez / Fazer com que o mundo saiba que seu nome / Está em tudo e mesmo assim / Ninguém lhe diz ao menos obrigado // Quem me dera ao menos uma vez / Como a mais bela tribo / Dos mais belos índios / Não ser atacado por ser inocente // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Nos deram espelhos e vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui”

            

            

“O passo do Lui”, álbum original da banda Os Paralamas do Sucesso do ano de 1984 (quando eu tinha 13 anos). Este disco dos Paralamas se enquadra nos gêneros new wave e ska. Os integrantes da banda são: Herbert Vianna (vocal e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria e percussão). Herbert Vianna é o principal compositor. A música “Assaltaram a Gramática” é de Lulu Santos e Waly Salomão. Lado “A”: (1) Óculos; (2) Meu Erro; (3) Fui Eu; (4) Romance Ideal; (5) Ska. Lado “B”: (1) Mensagem de Amor; (2) Me Liga; (3) Assaltaram a Gramática; (4) Menino e Menina; (5) O Passo do Lui.

             

Meu erro: “Eu quis dizer / Você não quis escutar / Agora não peça / Não me faça promessas // Eu não quero te ver / Nem quero acreditar / Que vai ser diferente / Que tudo mudou // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone // Mesmo querendo / Eu não vou me enganar / Eu conheço os seus passos / Eu vejo os seus erros / Não há nada de novo / Ainda somos iguais / Então não me chame / Não olhe pra trás // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone jamais”

                   

Romance ideal: “Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros que eu nem sei se eu cometi / Ela é só uma menina / E eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal // Eu não pedi que ela ficasse / Ela sabe que na volta / Ainda vou estar aqui // Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros / Que eu nem sei se cometi // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal”

                   

Mensagem de amor: “Os livros na estante / Já não tem mais / Tanta importância / Do muito que eu li / Do pouco que eu sei / Nada me resta // A não ser / A vontade de te encontrar // E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor // A noite eu me deito / Então escuto / A mensagem no ar / Tambores rufando / Eu já não tenho / Nada pra te dar // A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ver / No teu rosto / Uma mensagem de amor // No céu estrelado / Eu me perco / Com os pés na terra / Vagando entre os astros / Nada me move / Nem me faz parar / A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu ja nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor”

               

Me liga: “Eu sei, jogos de amor são pra se jogar / Ah, por favor, não vem me explicar / O que eu já sei, e o que eu não sei / O nosso jogo não tem regras nem juiz / Você não sabe quantos planos eu já fiz / Tudo que eu tinha pra perder eu já perdi / O seu exército invadindo o meu país / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Mas sei, que não se pode terminar assim / O jogo segue e nunca chega ao fim / E recomeça a cada instante a cada instante / Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto, seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se quiser lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga”

              

              

“A Revolta dos Dândis” álbum original da banda Engenheiros do Hawaii lançado no ano de 1987 (quando eu tinha 16 anos). Este disco dos Engenheiros se enquadra nos gêneros pós punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria). Humberto Gessinger é o principal compositor. Lado “A”: (1) A Revolta De Dândis I; (2) Terra De Gigantes; (3) Infinita Highway; (4) Refrão De Bolero; (5) Filmes De Guerra, Canções De Amor. Lado “B”: (1) A Revolta De Dândis II; (2) Além Dos Out-Doors; (3) Vozes; (4) Quem Tem Pressa Não Se Interessa; (5) Desde Aquele Dia; (6) Guardas Da Fronteira.

                

A revolta dos dândis I: “Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato / Entre a loucura e a lucidez / Entre o uniforme e a nudez / Entre o fim do mundo e o fim do mês / Entre a verdade e o rock inglês / Entre os outros e vocês // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre mortos e feridos, entre gritos e gemidos / (A mentira e a verdade, a solidão e a cidade) / Entre um copo e outro da mesma bebida / Entre tantos corpos com a mesma ferida // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre americanos e soviéticos, gregos e troianos / Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos / Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos / Mas eu nunca sei pra onde vamos”

              

Terra de gigantes: “Hey, mãe! / Eu tenho uma guitarra elétrica / Durante muito tempo isso foi tudo / Que eu queria ter // Mas, hey mãe! / Alguma coisa ficou pra trás / Antigamente eu sabia exatamente o que fazer // Hey, mãe! / Tem uns amigos tocando comigo / Eles são legais, além do mais / Não querem nem saber / Mas agora, lá fora / Todo mundo é uma ilha / A milhas e milhas e milhas / De qualquer lugar // Nessa terra de gigantes / Eu sei, já ouvimos tudo isso antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // As revistas, as revoltas, as conquistas / Da juventude são heranças / São motivos pras mudanças de atitude / Os discos, as danças, os riscos / Da juventude / A cara limpa, a roupa suja / Esperando que o tempo mude // Nessa terra de gigantes / Tudo isso já foi dito antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // Hey, mãe! / Já não esquento a cabeça / Durante muito tempo / Isso foi só o que eu podia fazer // Mas, hey, hey, mãe! / Por mais que a gente cresça / Há sempre coisas que a gente / Não pode entender // Por isso, mãe / Só me acorda quando o sol tiver se posto / Eu não quero ver meu rosto / Antes de anoitecer”

              

Infinita highway: “Você me faz correr demais / Os riscos desta highway / Você me faz correr atrás / Do horizonte desta highway / Ninguém por perto, silêncio no deserto / Deserta highway / Estamos sós e nenhum de nós / Sabe exatamente onde vai parar // Mas não precisamos saber pra onde vamos / Nós só precisamos ir / Não queremos ter o que não temos / Nós só queremos viver / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e isto é tudo / É sobretudo a lei / Da infinita highway // Quando eu vivia e morria na cidade / Eu não tinha nada, nada a temer / Mas eu tinha medo, medo desta estrada / Olhe só! Veja você / Quando eu vivia e morria na cidade / Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor / Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava / E, à noite, eu acordava banhado em suor // Não queremos lembrar o que esquecemos / Nós só queremos viver / Não queremos aprender o que sabemos / Não queremos nem saber / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e é só / Só obedecemos a lei / Da infinita highway // Escute garota, o vento canta uma canção / Dessas que a gente nunca canta sem razão / Me diga, garota: Será a estrada uma prisão? / Eu acho que sim, você finge que não / Mas nem por isso ficaremos parados / Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão / Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre / Se tanta gente vive sem ter como viver // Estamos sós e nenhum de nós / Sabe onde quer chegar / Estamos vivos sem motivos / Que motivos temos pra estar? / Atrás de palavras escondidas / Nas entrelinhas do horizonte / Dessa highway / Silenciosa highway // Eu vejo um horizonte trêmulo / Eu tenho os olhos úmidos / Eu posso estar completamente enganado, posso estar correndo pro lado errado / Mas A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza / Eu vejo as placas dizendo / Não corra, Não morra, Não fume / Eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes // Minha vida é tão confusa quanto a América Central / Por isso não me acuse de ser irracional / Escute garota, façamos um trato / Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato / Eu posso ser um Beatle, um beatnik / Ou um bitolado / Mas eu não sou ator, eu não tô à toa do teu lado / Por isso, garota, façamos um pacto / De não usar a highway pra causar impacto // Cento e dez / Cento e vinte / Cento e sessenta / Só pra ver até quando / O motor aguenta / Na boca, em vez de um beijo / Um chiclet de menta / E a sombra do sorriso que eu deixei / Numa das curvas da highway / Infinita highway”

                  

Desde aquele dia: “Desd’aquele dia / Nada me sacia / Minha vida tá vazia / Desd’aquele dia / Parece que foi ontem / Parece que chovia / Um rosto apareceu / (Uma heroína) / O rosto era o seu / (Seu rosto de menina) / Parece que foi ontem / Parece que chovia // Desd’aquele dia / Minhas noites são iguais / Se eu não vou à luta / Eu não tenho paz / Se eu não faço guerra / Eu não tenho mais paz / Não aguento mais / Um dia mais, um dia a menos / São fatais / Pra quem tem sonhos pequenos / Sonhos tão pequenos / Que nunca têm fim // Eu só queria saber / O que você foi fazer no meu caminho / Eu não consigo entender / Não consigo mais viver sozinho”

              

              

Todas as letras das músicas foram extraídas do site https://www.letras.mus.br/ Isso vale para as dezessete canções elencadas. Para quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo o ótimo “Dias de luta, o rock e o Brasil dos Anos 80”, do jornalista Ricardo Alexandre, 432 páginas, Editora Arquipélago, 2013, ISBN: 8560171398. Trata-se de um livro muito agradável de ler e fruto de extensa pesquisa. Bem interessante também por relacionar o rock nacional e o seu desenvolvimento ao contexto social e político daquela década.

               

valente_hulk_jorge_xerxes                

Gosto de observar os detalhes. Os gestos singelos e os seus desdobramentos, a teia sutil que liga os acontecimentos (ou serão coincidências? Apenas algumas parcas minhocas se contorcendo aleatóriamente na minha telha quente?).

           

Desde a semana passada, navegando pelo FB, como de costume, venho observando os ânimos exaltados, as pessoas em pé de guerra, umas contra as outras, todos irritadiços com os problemas desses nossos tempos (difíceis). E eu tenho tentado me preservar, não me meter em discussões que estão além da minha alçada, sentindo meu próprio fardo já pesado o suficiente.

                

Eis que eu me pego, então, observando a figura da linda personagem de um conto de fadas que minha amiga Isadora Trombeta Fagá – funcionária da EESC/USP e doida por literatura, pelos filmes, pela arte – postou e, sem me atentar para o que estava escrito junto à figura, com o dedo no mouse, como que num impulso, cliquei em “curtir”.

                   

As horas se passaram, eu já nem me lembrava disso, quando recebo da Isadora uma mensagem inbox:

                 

“Oi Xerxes, como vai?”

                  

“Aí vai o desafio, se quiser participar:”

                   

“O desafio se baseia em você colocar a foto de um personagem que vou te designar e escrever isso: Tenho a intenção de encher o Facebook de desenhos animados para interromper a saturação de imagens e vídeos negativos. Se eu receber um ‘curtir’ vou escolher um personagem para você.”

                        

“Escolhi o valente Hulk pra você postar!”

                      

E eu, que tenho andado um bocado pra baixo, um fujão, covarde, cá pelos meus próprios motivos, fiquei até entusiasmado, animado com o “valente Hulk”; e pensei com os meus botões, até que a ideia é boa! E segui adiante.

                      

Daí foi a vez do meu amigo Andre Albuquerque – médico e contista de responsa – cair na armadilha. Então eu enviei a tal mensagem inbox para ele:

                     

“blah, blah, blah, blah….”

                     

“Escolhi o veloz Papa Léguas pra você postar!!”

                       

E tive como resposta:

                      

“Kkkkkkkkkkkkkkkkk”

                              

Imagino o André pensando, esse cara é doido de pedra, uma corrente de desenhos animados, que porra é essa?!

                          

Uns dois dias se passaram. Só então eu percebi que estava completamente equivocado: vi o Papa Léguas do André passando veloz como um raio. E, na sequência, o seguinte post no meu mural:

                 

“Jorge Xerxes, dando continuidade No âmbito de uma CORRENTE POÉTICA a que me ligaram, deixo aqui um poema seu e passo-lhe a missão de continuá-la:”

                  

“- durante 4 dias divulgue um poema (por dia) e desafie um poeta (por dia) a dar continuidade a este sarau virtual.”

                     

Daí foi a minha vez de ficar de queixo caído! Como assim escolher quatro poemas dentre tantos e tão bons poemas? Como assim indicar quatro poetas dentre centenas deles?

                  

A verdade é que eu fiquei emputecido com o André. Pensei: agora o cara pegou pesado comigo! Fazer o fujão, o covardão aqui, se posicionar, escolhendo os seus quatro poemas prediletos?! Poxa, isso é sacanagem demais. Mas ele vai ver… não vou deixar barato… e decidi que eu iria levar o desafio às últimas consequências.

                   

O resultado vocês leem abaixo. Revendo as minhas escolhas, eu percebo como se tratam de poetas de carne e osso, com fraquezas, temores, vícios e virtudes; enfim, seres humanos. Você poderia topar com um deles por aí, no corredor, na fila do banco, sentado num banco da praça e sequer se dar conta disso.

                       

Mas acredite: Eles existem.

                         

Só o Amor a Vida Nos Une!!

                    

                   

<<<  Rastros da noite  >>>    Betusko

        

Caminhar sobre vozes pegajosas

tropeçar em horas lentas

esmorecer na sombra da preguiça

até soltar um sonífero bocejo

ante a crua espera da luz da lua

e aplacar o longo desejo

de ver trincar o céu

em milhões de estrelas

exuberantes, singelas

que descem em delírio

como regidas pelo vento

e lavam as cabeças,

escorrem alma adentro,

levam os pecados

e depois, tanquilas

evaporam-se sorrindo

em rastros helicoidais

madrugada adentro

abandonando o sereno

em suas gotas humildes

na triste tarefa de abafar

o sonho e a fantasia

no coração dos boêmios.

         

         

<<<  De joelhos  >>>    Theresa Russo

        

De joelhos.

No chão!

Tu mereces ser muito bem fodida.

Empurro-te as ancas a responder-me como égua de quatro no quarto em penumbra.

Nesse fim de tarde, as rochas estão se rachando em fendas duras.

A tua, como carne aguada, quente fissura de fêmea no cio geme por meu entrave.

Não tenho sequer dó de tua carne.

A bela bunda emoldura de raios de sol me convida a dançar o amor.

Teus cabelos negros, lisos e inertes me imploram para viver.

Puxo-te a crina com a mão esquerda e te penetro com meiguice impaciente.

Teu riso de sol me transporta e agora sou teu macho alado a planar em teu universo azul.

Vem juntar-se a mim nessa viagem infinda a buscar todo o prazer que contém os céus prometidos.

Grita, chora, geme, reclama, proclama que teu gozo é teu,

mas é meu teu gozo com gosto de amor nosso.

Vira-te.

Quero entrar nos teus olhos e te espreitar por dentro.

Não me contenta o gozo limitado de mim mesmo em tuas fendas de carne.

Quero também comer tua alma de mulher, de menina, de puta, de santa.

Escuta a ti.

Ouve teu gemido.

Há um coro de anjos no retorno de nós.

Quanto mais entro em ti, mais sou teu.

Quanto mais me devora a carne fluida da imaginação, mais sou teu e tua.

Não me contenta teu sofrimento de crina estendida a esticar o couro cabeludo e a mente ardendo da paixão.

Reteso a palma das minhas mãos com marcas de mim mesma.

Espanco-te as nádegas para te castigar por teres roubado minha vontade de nada ser.

Sei que teu gozo vem galopando de encontro ao meu.

Seguro algo em mim a te esperar meu doce amor.

Não estás como a menina dessa manhã de hoje a transparecer o medo de viver.

Estás como Deusa, como Maria Quitéria, como Bárbara de Alencar,

como Afrodite

em teu reino a reinar.

És tão linda que dói dentro de mim essa beleza de ti.

Estás tão deliciosa que passaria anos num deserto a jejuar para esperar a tua carne e devorar.

Teu corpo padece com as estocadas e a força da minha surra.

Goza meu amor.

Goza tudo.

Meu presente de amor para ti nessa tarde de nós dois…

         

         

<<<  Tarja Sulphorósa  >>>    Ricola de Paula

          

Quilômetros de sedimentos estão depositados

nos tubos de ensaio das redes sociais.

Sei que emburreço nesse carnaval de ofertas,

Esgotado saio antes do recuo da bateria.

           

Surra neles! Chicote de cainana

barba e cabelo, outra cilada

com pouca grana.

          

Sicário não deixo rastros na cripta

do seu desleixo.

São tiras de papel de embrulho.

Papiro, intrigo

Torpes pombos sacio.

          

Um bom exorcismo abrirá

Novos caminhos,

Água benta sanitária

dissolvendo as ladainhas.

           

Esquálido pensa palavras estranhas

Abafa o diálogo interno que estimula

O irromper, o desistir.

esquálido pensa palavras estranhas

Eucaliptos glóbulos angu de mescalitos

Sambaquis e linfa pasteurizada.

           

Segura na mão uma granada

Sentinelaaaaaaaaaaaaaaaaa.

A explosão dos significados.

O refil da bagaça neném

A cuca já vem pegar.

              

              

<<<  IMACULADA  >>>    Elza Fraga

              

Todos os orifícios

tomados

maculados

conformados

com a sorte

            

sabendo que o gozo

é rápido

           

como a morte

              

               

<<<  DÁ NISSO  >>    Elza Fraga

             

Correr atrás de você

a cada novo sumiço

até perder todo o viço

afinalar meus cambitos

nos becos mais movediços

forçando um compromisso

enquanto escorrego omisso.

            

Rezar na sua cartilha

ceder a sua ousadia

perder a cabeça fria

crendo até em profecia

e esperar todo o dia

que a vida por ironia

decida à revelia

trazer numa ventania

toda a sua rebeldia

pra esta cama macia

onde descanso a agonia

             

e atiço o meu feitiço

quietinha

sem rebuliço

só pra lhe ver submisso

            

Dá nisso!

              

              

ps: Eu acabei selecionando estes dois poemas da Elza Fraga por observar uma certa coerência, achá-los complementares. Para mim eles são um só (eu sou humano e também posso me equivocar).