Para Fabi

outubro 12, 2017

 

encontro a Paz no seu abraço

aqueles laços que nos unem

são de Luz

não existe mar revolto

ou tempestade

que nos alcance

mesmo sendo dois

as sístoles e diástoles compassadas

os nossos Corações

em uníssono cantam:

somos Um

 

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Dissolver ao vento

maio 29, 2016

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– É aqui?

– É aqui, Zigfiii, se achegue Zigfiii, entre aqui no quartinho dos fundos.

Atravessa um corredor estreito, cheio de lodo, entre a parede da casa e o muro. Caminha úmido, um cheiro de natureza a invadir os seus sentidos. No fundo da casa simples, observa a mangueira, a jabuticabeira, um pouco de mato, um pouco de grama, umas pedras paralelepipedicas  fazendo as vezes de calçamento, um gato preto e só. Uma edícula simples, mas muito limpa, as paredes brancas que só. Uns tapetes vermelhos levam até uma escrivaninha velha daquelas de ferro, severas, resistente aos anos, às gerações de gentes perdidas dos seus caminhos, que ela tenta consertar, sustentar um santo qualquer de gesso, umas três velas acesas. Nas cores branca, amarela e vermelha. Ah, descaminhos, isso sim!

 – Zigfiii pode se acomodar aí no banquinho. Enquanto isso vou fumar do palheiro, que é de modo a chamar o Pai.

 – Mas não quer que eu te diga nada, quem eu sou, o meu problema, o que me traz aqui?

 – Zigfiii veio aqui, não fui eu aí no seu terreiro, Zigfiii se acalme, que é de modo a chamar o Pai, viste?

 Percebe então um pequeno globo de luz, do tamanho de um limão, uma superfície anuvarada, fechada em si, de bola, e tênue de luz, que parece ser reflexo de um centro de luz, um brilho muito branco e claro do globo névoa flutuante, atravessa o pequeno quarto, lentamente, calmamente, enquanto o palheiro se esvaindo em combustão com o ar, num fenômeno estranho à natureza, razão de existir daquela luz, um movimento suave, quase um olho de luz, uma presença, que não era nada disso senão fumaça.

– Zigfiii, Zigfiii, mas por que isso, Zigfiii?

Olha os olhos arregaçados e deformados do Pai, que não eram dali, já não deviam nada a este mundo.

O observador dentro do globo névoa flutuante de onde compartilha daquela sensação. O amor que os une, um momento de profunda intimidade do casal, o tato, a penetração, a saliva trocada pelos lábios em chamas, o calor vasto da vida. Funde num centro de luz e brilha de uma fumaça em volta, numa superfície anuvarada, fechada em si, de uma bola. Para flutuar, flanar pelo ar incensado, sair pela janela, dissolver ao vento e ao sol.

– Zigfiii não precisa de nada.

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Labirinto

março 18, 2016

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Começamos observando o espaço,

sondando as estrelas,

olhando para o céus, as nuvens, o sol,

buscávamos fora de nós

as fronteiras do universo

até onde a vista alcança.

 

Forma de traçarmos um mapa,

um plano de fuga,

do conhecido e do que nos atormenta.

 

É passada a hora de voltarmo-nos

(in)(e)ternamente a essência.

 

A luz interior

é reflexo que faz morada

no peito.

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Luzes de Luisa Geisler

outubro 9, 2014

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Um breve comentário e trechos de Luzes de emergência se acenderão automaticamente, de Luisa Geisler, Alfaguara, 2014.

Eu gostei muito do Luzes de emergência; não sei dizer se é melhor ou pior que Quiçá. Acho que são livros com pegadas diferentes, igualmente interessantes; o que é ótimo e difícil de fazer (posto que a maioria dos escritores está sempre re-escrevendo o mesmo livro, aprimorando uma mesma ideia). Apesar de terem lá a sua similaridade na temática existencial e nalguma coisa de luminoso – tipo Green Light ou Luzes de emergência.

Eu achei muito interessante a estrutura do livro. A organização meio errática em cartinhas simples que vão se juntando, sendo colecionadas. Que a gente não sabe bem aonde é que vai dar. E, de repente, (perceba um arco sendo tensionado por uma flecha) zzzzzzzzip, acerta em cheio o coração! Um coração flechado de humanidade.

Minhas passagens prediletas:

Verdade seja dita, Administração é um curso longo demais. Acho que é alguma coisa ligada a comprar mais tempo para saber o que eu quero. Mas fazer o que se quer é uma ideia que me incomoda bastante. Daí eu fico escrevendo.

Aqui é o momento em que eu paro e penso em qual resposta te dar. Penso em dizer “se tu não quer ler, não precisa” ou “porque eu não tinha ninguém com quem falar.” Mas isso tudo ia soar depressivo e exagerado.

Eu cada vez mais me pergunto onde eu deveria estar e se eu ainda consigo pensar coisas novas. Conhece aquela história de que dez mil horas de prática te faz um especialista em qualquer coisa? Tipo essas crianças prodígio idiotas, sei lá. É isso. Se eu fosse bom em alguma coisa, eu já devia ser. Se alguma coisa fosse diferente pra mim, eu já saberia. Eu sei que eu sou igual a todo mundo, penso igual, ajo igual, tenho os mesmos problemas. E se alguém me perguntasse por que eu tenho que viver ao invés de outra pessoa, eu não saberia o que dizer.

Tu não devia deixar coisas idiotas como estágio ou faculdade te deixarem puto só porque eles têm essa coisa de ser relevante pra sociedade e influenciar a economia tipo fazer o mundo girar. Teus talentos refletiam teus interesses, e o que importava para ti era importante.

Acho que minha meta de vida é não acordar um dia aos cinquenta anos num emprego que eu odeio porque me forçaram a estabelecer metas de vida quando eu era novo demais.

Tenho a sensação de que eu vou ficar o resto da minha vida procurando o que é que eu quero fazer e tal e nunca vou saber exatamente. Esse sentimento adolescente meio que permanece. Eu aos dezoito vou achar que aos vinte e dois vou saber, e daí aos vinte e dois vou achar que vou saber aos vinte e cinco, aos vinte e sete, aos trinta, aos trinta e cinco. Quando tu vê, tu não tem mais chances de fazer o que tu quer porque tu passou todo esse tempo procurando o que era isso.

Queria voltar lá. Não mudar as coisas, mas mudar as coisas. Faz sentido isso? Acho que não queria mudar as coisas (talvez avisar pra mim mesmo alguns resultados esperados e evitáveis).

(Não sei se falei (ou só pensei) isso). Amor é andar de mãos dadas, meu velho. Mãos dadas é a coisa mais ridícula que um casal pode fazer. Cachorro e dono. Não é prático, alguém puxa prum lado, tem um ritmo estranho de caminhar. Isso é amor. Amor é pouco prático, desconfortável (mas tu não quer soltar). Porra.

De uma certa forma, um relacionamento são duas pessoas que se recusam a desistir uma da outra. Duas pessoas igualmente ferradas, claro.

Até porque cada livro tem uma última página. Toda novela tem um último capítulo. E aceitar que nenhuma dessas pessoas vai estar perto de ti de novo racha tua cara que nem uma pedra que atravessa o vidro da janela. Um buraco, daí os cacos em torno do buraco, as rachaduras, o eco da ausência. Em algum momento a fita VHS para. Sempre chega naquele troço colorido que faz piii, e depois o chiado que acabou. Som chiado, cores chiadas.