Este texto apresenta uma viagem ao espírito do rock brasileiro na década de oitenta. Sem a pretensão de ser um estudo abrangente sobre o assunto (veja dica de leitura ao final), explora quatro álbuns representativos e algumas músicas selecionadas destes discos (como eram chamados os vinis naqueles dias). Dezessete canções, para ser mais exato. O interesse aqui está mais nas letras dessas faixas, que dizem muito de quem viveu a adolescência nessa época em específico.

            

Eu ainda tenho estes álbuns, que comprei na época do lançamento de cada um deles, além de muitos outros – na verdade, uma coleção de pouco mais de trezentos discos de rock. Lembro com saudade daqueles tempos, em que economizava as minhas parcas economias para conseguir adquirir um disco a cada quinze dias, aproximadamente. Das muitas fitas cassete que gravávamos e trocávamos entre os amigos.

            

E tive a oportunidade de assistir a estes quatro shows, na época em que os respectivos álbuns foram lançados, com os hormônios correndo em altas concentrações pelo sangue, o coração na boca e aquele ímpeto juvenil. Todos eles no ginásio poliesportivo da Associação Atlética Caldense, em Poços de Caldas, MG; onde aconteciam os grandes shows de rock mais próximos da cidade em que nasci e vivi até o final da década de 80 – São João da Boa Vista, SP.

            

Acredito que esta seleção caberia bem numa fita cassete de 90 minutos (na verdade, ainda sobrariam alguns minutos, que poderiam ser preenchidos com Titãs ou Plebe Rude, por exemplo). Creio que este é um registro interessante para quem nasceu mais ou menos na mesma época que eu (não vou dizer o ano em que nasci, mas darei pistas).

           

Sem mais delongas, vamos aos álbuns e às canções, é o que interessa…

           

           

“Vivendo e não aprendendo”, álbum original da banda Ira! lançado no ano 1986. Este disco do Ira! se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e violão), Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria). Edgard Scandurra é o principal compositor. Lado “A”: (1) Envelheço na Cidade; (2) Casa de Papel; (3) Dias de Luta; (4) Tanto Quanto Eu; (5) Vitrine Viva. Lado “B”: (1) Flores em Você; (2) Vivendo e Não Aprendendo; (3) Nas Ruas; (4) Gritos na Multidão; (5) Pobre Paulista.

            

Casa de papel: “Na dura frieza do dia a dia / Que você aprendeu, pobre Daniel / Que as respostas não caem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Será que o prazer de tocar sua guitarra / E a gratidão de chutar uma bola / Vão lhe render juros ou não? // Foram bons os tempos das descobertas da juventude / Mas hoje você gosta de pernas bem mais grossas / O padrão tão baixo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel! // E quando você está inseguro / Fazendo sempre as mesmas perguntas / Esperando respostas caírem do céu // O que vai restar a seu filho mais novo / Já que o aço foi trocado pelo plástico / E sua casa é de papel? // Você não vai ouvir nada do céu / Será que não notou que nós vivemos num inferno? / E o padrão caindo da sua casa de papel / O seu filho mais novo, pobre Daniel!”

             

Dias de luta: “Só depois de muito tempo / Fui entender aquele homem / Eu queria ouvir muito / Mas ele me disse pouco… // Quando se sabe ouvir / Não precisam muitas palavras / Muito tempo eu levei / Pra entender que nada sei / Que nada sei!… // Só depois de muito tempo / Comecei a entender / Como será meu futuro / Como será o seu… // Se meu filho nem nasceu / Eu ainda sou o filho / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois? / Cantar depois!… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?… // Só depois de muito tempo / Comecei a refletir / Nos meus dias de paz / Nos meus dias de luta… // Se sou eu ainda jovem / Passando por cima de tudo / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?…”

               

Flores em você: “De todo o meu passado / Boas e más recordações / Quero viver meu presente / E lembrar tudo depois… // Nessa vida passageira / Eu sou eu, você é você / Isso é o que mais me agrada / Isso é o que me faz dizer… // Que vejo flores em você!…”

                 

Vivendo e não aprendendo: “Quando me sinto assim / Volto a ter quinze anos / Começando tudo de novo / Vou me apanhar sorrindo // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando // Vivendo e não aprendendo / Eis o homem, este sou eu / Que se diz seguro / Que se diz maduro // Seu amor hoje / Me alimentará amanhã / Eis o homem / Que se apanha chorando”

                  

                  

“Dois”, álbum original da banda Legião Urbana lançado em 1986 (quando eu tinha 15 anos). Este disco da Legião se enquadra nos gêneros pós-punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Renato Russo (voz, teclados e violão), Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria). Renato Russo é o principal compositor. Lado “A”: (1) Daniel na Cova dos Leões; (2) Quase Sem Querer; (3) Acrilic on Canvas; (4) Eduardo e Mônica; (5) Central do Brasil; (6) Tempo Perdido. Lado “B”: (1) Metrópole; (2) Plantas Embaixo do Aquário; (3) Música Urbana 2; (4) Fábrica; (5) Andrea Doria; (6) Índios.

 

Acrilic on canvas: “É saudade, então / E mais uma vez / De você fiz o desenho / Mais perfeito que se fez / Os traços copiei / Do que não aconteceu / As cores que escolhi / Entre as tintas que inventei / Misturei com a promessa / Que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três / Trabalhei você / Em luz e sombra // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que nunca quis deixar você tão triste / Sempre as mesmas desculpas / E desculpas nem sempre são sinceras / Quase nunca são // Preparei a minha tela / Com pedaços de lençóis / Que não chegamos a sujar / A armação fiz com madeira / Da janela do seu quarto / Do portão da sua casa / Fiz paleta e cavalete / E com as lágrimas que não brincaram com você / Destilei óleo de linhaça / Da sua cama arranquei pedaços / Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes // E fiz, então / Pincéis com seus cabelos / Fiz carvão do batom que roubei de você / E com ele marquei / Dois pontos de fuga / E rabisquei meu horizonte // E era sempre: Não foi por mal / Eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você / Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez / E era sempre, sempre o mesmo novamente / A mesma traição // Às vezes é difícil esquecer / Sinto muito, ela não mora mais aqui // Mas então, por que eu finjo / Que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim / Não foi desse jeito / Ninguém sofreu / É só você / Que me provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome / De amor-perfeito / E não-te-esqueças-de-mim”

           

Tempo perdido: “Todos os dias quando acordo / Não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo o tempo do mundo // Todos os dias antes de dormir / Lembro e esqueço como foi o dia / Sempre em frente / Não temos tempo a perder // Nosso suor sagrado / É bem mais belo que esse sangue amargo / E tão sério // E selvagem / Selvagem / Selvagem // Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos teus olhos / Castanhos // Então me abraça forte / E diz mais uma vez que já estamos / Distantes de tudo // Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo / Temos nosso próprio tempo // Não tenho medo do escuro / Mas deixe as luzes / Acesas agora // O que foi escondido / É o que se escondeu / E o que foi prometido / Ninguém prometeu / Nem foi tempo perdido // Somos tão jovens / Tão jovens / Tão jovens”

            

Fábrica: “Nosso dia vai chegar / Teremos nossa vez / Não é pedir demais / Quero justiça // Quero trabalhar em paz / Não é muito o que lhe peço / Eu quero um trabalho honesto / Em vez de escravidão // Deve haver algum lugar / Onde o mais forte / Não consegue escravizar / Quem não tem chance // De onde vem a indiferença / Temperada a ferro e fogo? / Quem guarda os portões / Da fábrica? // O céu já foi azul / Mas agora é cinza / O que era verde aqui / Já não existe mais // Quem me dera acreditar / Que não acontece nada / De tanto brincar com fogo / Que venha o fogo então // Esse ar deixou minha vista cansada / Nada demais”

              

Andrea Doria: “Às vezes parecia que de tanto acreditar / Em tudo que achávamos tão certo / Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais / Faríamos floresta do deserto // E diamantes de pedaços de vidro / Mas percebo agora que o teu sorriso / Vem diferente / Quase parecendo te ferir // Não queria te ver assim / Quero a tua força como era antes / O que tens é só teu / E de nada vale fugir / E não sentir mais nada // Às vezes parecia que era só improvisar / E o mundo então seria um livro aberto / Até chegar o dia em que tentamos ter demais / Vendendo fácil o que não tinha preço // Eu sei, é tudo sem sentido / Quero ter alguém com quem conversar / Alguém que depois / Não use o que eu disse contra mim // Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei / Com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei / Tenho o que ficou / E tenho sorte até demais / Como sei que tens também”

                

Índios: “Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que eu não tinha // Quem me dera ao menos uma vez / Esquecer que acreditei que era por brincadeira / Que se cortava sempre um pano de chão / De linho nobre e pura seda // Quem me dera ao menos uma vez / Explicar o que ninguém consegue entender / Que o que aconteceu ainda está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente // Quem me dera ao menos uma vez / Provar que quem tem mais do que precisa ter / Quase sempre se convence que não tem o bastante / Fala demais por não ter nada a dizer // Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto como o mais importante / Mas nos deram espelhos / E vimos um mundo doente // Quem me dera ao menos uma vez / Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três / E esse mesmo Deus foi morto por vocês / Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Quem me dera ao menos uma vez / Acreditar por um instante em tudo que existe / E acreditar que o mundo é perfeito / E que todas as pessoas são felizes // Quem me dera ao menos uma vez / Fazer com que o mundo saiba que seu nome / Está em tudo e mesmo assim / Ninguém lhe diz ao menos obrigado // Quem me dera ao menos uma vez / Como a mais bela tribo / Dos mais belos índios / Não ser atacado por ser inocente // Eu quis o perigo e até sangrei sozinho, entenda / Assim pude trazer você de volta pra mim / Quando descobri que é sempre só você / Que me entende do início ao fim // E é só você que tem a / Cura pro meu vício de insistir / Nessa saudade que eu sinto / De tudo que eu ainda não vi // Nos deram espelhos e vimos um mundo doente / Tentei chorar e não consegui”

            

            

“O passo do Lui”, álbum original da banda Os Paralamas do Sucesso do ano de 1984 (quando eu tinha 13 anos). Este disco dos Paralamas se enquadra nos gêneros new wave e ska. Os integrantes da banda são: Herbert Vianna (vocal e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria e percussão). Herbert Vianna é o principal compositor. A música “Assaltaram a Gramática” é de Lulu Santos e Waly Salomão. Lado “A”: (1) Óculos; (2) Meu Erro; (3) Fui Eu; (4) Romance Ideal; (5) Ska. Lado “B”: (1) Mensagem de Amor; (2) Me Liga; (3) Assaltaram a Gramática; (4) Menino e Menina; (5) O Passo do Lui.

             

Meu erro: “Eu quis dizer / Você não quis escutar / Agora não peça / Não me faça promessas // Eu não quero te ver / Nem quero acreditar / Que vai ser diferente / Que tudo mudou // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone // Mesmo querendo / Eu não vou me enganar / Eu conheço os seus passos / Eu vejo os seus erros / Não há nada de novo / Ainda somos iguais / Então não me chame / Não olhe pra trás // Você diz não saber / O que houve de errado / E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado / Bastaria / Ah! Meu Deus / Era tudo o que eu queria / Eu dizia o seu nome / Não me abandone jamais”

                   

Romance ideal: “Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros que eu nem sei se eu cometi / Ela é só uma menina / E eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal // Eu não pedi que ela ficasse / Ela sabe que na volta / Ainda vou estar aqui // Ela é só uma menina / E eu pagando pelos erros / Que eu nem sei se cometi // Se eu queria enlouquecer essa é a minha chance / É tudo que eu quis / Se eu queria enlouquecer / Esse é o romance ideal”

                   

Mensagem de amor: “Os livros na estante / Já não tem mais / Tanta importância / Do muito que eu li / Do pouco que eu sei / Nada me resta // A não ser / A vontade de te encontrar // E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor // A noite eu me deito / Então escuto / A mensagem no ar / Tambores rufando / Eu já não tenho / Nada pra te dar // A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu já nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ver / No teu rosto / Uma mensagem de amor // No céu estrelado / Eu me perco / Com os pés na terra / Vagando entre os astros / Nada me move / Nem me faz parar / A não ser / A vontade de te encontrar / E o motivo eu ja nem sei / Nem que seja só para estar / Ao teu lado só pra ler / No teu rosto / Uma mensagem de amor”

               

Me liga: “Eu sei, jogos de amor são pra se jogar / Ah, por favor, não vem me explicar / O que eu já sei, e o que eu não sei / O nosso jogo não tem regras nem juiz / Você não sabe quantos planos eu já fiz / Tudo que eu tinha pra perder eu já perdi / O seu exército invadindo o meu país / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Mas sei, que não se pode terminar assim / O jogo segue e nunca chega ao fim / E recomeça a cada instante a cada instante / Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto, seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se você lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga // Eu não te peço muita coisa só uma chance / Pus no meu quarto seu retrato na estante / Quem sabe um dia eu vou te ter ao meu alcance / Ai como ia ser bom se você deixasse / Se quiser lembrar, se quiser jogar / Me liga, me liga”

              

              

“A Revolta dos Dândis” álbum original da banda Engenheiros do Hawaii lançado no ano de 1987 (quando eu tinha 16 anos). Este disco dos Engenheiros se enquadra nos gêneros pós punk e rock alternativo. Os integrantes da banda são: Humberto Gessinger (voz e baixo), Augusto Licks (guitarra) e Carlos Maltz (bateria). Humberto Gessinger é o principal compositor. Lado “A”: (1) A Revolta De Dândis I; (2) Terra De Gigantes; (3) Infinita Highway; (4) Refrão De Bolero; (5) Filmes De Guerra, Canções De Amor. Lado “B”: (1) A Revolta De Dândis II; (2) Além Dos Out-Doors; (3) Vozes; (4) Quem Tem Pressa Não Se Interessa; (5) Desde Aquele Dia; (6) Guardas Da Fronteira.

                

A revolta dos dândis I: “Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato / Entre a loucura e a lucidez / Entre o uniforme e a nudez / Entre o fim do mundo e o fim do mês / Entre a verdade e o rock inglês / Entre os outros e vocês // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre mortos e feridos, entre gritos e gemidos / (A mentira e a verdade, a solidão e a cidade) / Entre um copo e outro da mesma bebida / Entre tantos corpos com a mesma ferida // Eu me sinto um estrangeiro / Passageiro de algum trem / Que não passa por aqui / Que não passa de ilusão // Entre americanos e soviéticos, gregos e troianos / Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos / Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos / Mas eu nunca sei pra onde vamos”

              

Terra de gigantes: “Hey, mãe! / Eu tenho uma guitarra elétrica / Durante muito tempo isso foi tudo / Que eu queria ter // Mas, hey mãe! / Alguma coisa ficou pra trás / Antigamente eu sabia exatamente o que fazer // Hey, mãe! / Tem uns amigos tocando comigo / Eles são legais, além do mais / Não querem nem saber / Mas agora, lá fora / Todo mundo é uma ilha / A milhas e milhas e milhas / De qualquer lugar // Nessa terra de gigantes / Eu sei, já ouvimos tudo isso antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // As revistas, as revoltas, as conquistas / Da juventude são heranças / São motivos pras mudanças de atitude / Os discos, as danças, os riscos / Da juventude / A cara limpa, a roupa suja / Esperando que o tempo mude // Nessa terra de gigantes / Tudo isso já foi dito antes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes // Hey, mãe! / Já não esquento a cabeça / Durante muito tempo / Isso foi só o que eu podia fazer // Mas, hey, hey, mãe! / Por mais que a gente cresça / Há sempre coisas que a gente / Não pode entender // Por isso, mãe / Só me acorda quando o sol tiver se posto / Eu não quero ver meu rosto / Antes de anoitecer”

              

Infinita highway: “Você me faz correr demais / Os riscos desta highway / Você me faz correr atrás / Do horizonte desta highway / Ninguém por perto, silêncio no deserto / Deserta highway / Estamos sós e nenhum de nós / Sabe exatamente onde vai parar // Mas não precisamos saber pra onde vamos / Nós só precisamos ir / Não queremos ter o que não temos / Nós só queremos viver / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e isto é tudo / É sobretudo a lei / Da infinita highway // Quando eu vivia e morria na cidade / Eu não tinha nada, nada a temer / Mas eu tinha medo, medo desta estrada / Olhe só! Veja você / Quando eu vivia e morria na cidade / Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor / Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava / E, à noite, eu acordava banhado em suor // Não queremos lembrar o que esquecemos / Nós só queremos viver / Não queremos aprender o que sabemos / Não queremos nem saber / Sem motivos, nem objetivos / Estamos vivos e é só / Só obedecemos a lei / Da infinita highway // Escute garota, o vento canta uma canção / Dessas que a gente nunca canta sem razão / Me diga, garota: Será a estrada uma prisão? / Eu acho que sim, você finge que não / Mas nem por isso ficaremos parados / Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão / Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre / Se tanta gente vive sem ter como viver // Estamos sós e nenhum de nós / Sabe onde quer chegar / Estamos vivos sem motivos / Que motivos temos pra estar? / Atrás de palavras escondidas / Nas entrelinhas do horizonte / Dessa highway / Silenciosa highway // Eu vejo um horizonte trêmulo / Eu tenho os olhos úmidos / Eu posso estar completamente enganado, posso estar correndo pro lado errado / Mas A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza / Eu vejo as placas dizendo / Não corra, Não morra, Não fume / Eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes // Minha vida é tão confusa quanto a América Central / Por isso não me acuse de ser irracional / Escute garota, façamos um trato / Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato / Eu posso ser um Beatle, um beatnik / Ou um bitolado / Mas eu não sou ator, eu não tô à toa do teu lado / Por isso, garota, façamos um pacto / De não usar a highway pra causar impacto // Cento e dez / Cento e vinte / Cento e sessenta / Só pra ver até quando / O motor aguenta / Na boca, em vez de um beijo / Um chiclet de menta / E a sombra do sorriso que eu deixei / Numa das curvas da highway / Infinita highway”

                  

Desde aquele dia: “Desd’aquele dia / Nada me sacia / Minha vida tá vazia / Desd’aquele dia / Parece que foi ontem / Parece que chovia / Um rosto apareceu / (Uma heroína) / O rosto era o seu / (Seu rosto de menina) / Parece que foi ontem / Parece que chovia // Desd’aquele dia / Minhas noites são iguais / Se eu não vou à luta / Eu não tenho paz / Se eu não faço guerra / Eu não tenho mais paz / Não aguento mais / Um dia mais, um dia a menos / São fatais / Pra quem tem sonhos pequenos / Sonhos tão pequenos / Que nunca têm fim // Eu só queria saber / O que você foi fazer no meu caminho / Eu não consigo entender / Não consigo mais viver sozinho”

              

              

Todas as letras das músicas foram extraídas do site https://www.letras.mus.br/ Isso vale para as dezessete canções elencadas. Para quem quiser se aprofundar no assunto, recomendo o ótimo “Dias de luta, o rock e o Brasil dos Anos 80”, do jornalista Ricardo Alexandre, 432 páginas, Editora Arquipélago, 2013, ISBN: 8560171398. Trata-se de um livro muito agradável de ler e fruto de extensa pesquisa. Bem interessante também por relacionar o rock nacional e o seu desenvolvimento ao contexto social e político daquela década.

               

Uma opinião pessoal

abril 28, 2017

um4 0p1n140 p35504l :: Em dias como estes que estamos vivendo no Brasil, vejo muita polarização das ideias. Alguém é a favor daquilo, outro é a favor disso. De repente, a gente se esquece de que somos todos seres humanos. Ninguém (em Absoluto) é Dono da Verdade. Esquecemos-nos que Dependemos (Todos) Uns dos Outros. E a melhor solução é aquela que satisfaz a totalidade da população. Vale lembrar que a grande maioria das Famílias do nosso País é extremamente pobre, não tem acesso às necessidades básicas, ao estudo, à saúde. Sim, somos um País orquestrado por minorias, que precisam entender que não há mais de onde tirar riqueza, se não abrirem mão de conchavos, da corrupção, de negociatas, de obras grandiosas que não trazem benefício para a maioria da população, a não ser para interesses próprios. Olhar Menos para o Próprio Umbigo. Estão sufocando um grande organismo que se chama Brasil. É pequeno pensar que não fazemos parte disso. Afinal, Somos Todos Brasileiros.

                 

Sobre a imagem: A cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem através de informação pré-processada ao nervo óptico, impressões para o sistema nervoso.

A cor de um objeto é determinada pela frequência da onda que ele reflete. Um objeto terá determinada cor se não absorver os comprimentos de onda que correspondem àquela cor. Assim, um objeto é vermelho se absorve preferencialmente as frequências fora do vermelho.

A cor é relacionada com os diferentes comprimentos de onda do espectro eletromagnético. São percebidas pelas pessoas, em faixa específica, e por alguns animais através dos órgãos de visão, como uma sensação que nos permite diferenciar os objetos do espaço com maior precisão.

Considerando as cores como luz, a cor branca resulta da sobreposição de todas as cores primárias (verde, azul e vermelho), enquanto o preto é a ausência de luz. Uma luz branca pode ser decomposta em todas as cores (o espectro) por meio de um prisma. Na natureza, esta decomposição origina um arco-íris. Ref.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cor

                  

simanca

Existia a vontade econômica e política por parte dos Estados Unidos de controlar os países de economia menos desenvolvida, impedindo-os de se ligarem ao bloco comunista, para assim vencerem a disputa mundial de poder com a URSS e o bloco comunista, negando a estes quaisquer novos parceiros comerciais e diplomáticos.

O governo dos Estados Unidos não aprovava as nacionalizações de empresas americanas realizadas pelo cunhado do Presidente João Goulart e governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola; nem os rumos que a política externa brasileira tomava, de suspensão de pagamento da dívida externa, de não alinhamento, e mantenedora de contatos com ambos os polos de poder (capitalista e comunista).

No governo Jânio Quadros, João Goulart, então vice-presidente, havia visitado, a mando do presidente, a China comunista. Jânio Quadros, mesmo que sem nenhuma ligação com setores de esquerda, condecorara o revolucionário e então funcionário do governo cubano, Ernesto Che Guevara. Isso tudo motivou os americanos a fornecerem aos militares brasileiros o apoio ao golpe. De lá veio ainda o aparato ideológico do anticomunismo, que já era pregado pela Escola Superior de Guerra das Forças Armadas do Brasil, através da doutrina de “Segurança Nacional”.

João Goulart procurava impulsionar o nacionalismo trabalhista através das reformas de base. Os setores mais conservadores, contudo, se opunham a elas. Entre as figuras históricas civis afinadas com o movimento militar, estão os governadores Magalhães Pinto (Minas Gerais), Adhemar de Barros (São Paulo) e Carlos Lacerda (Guanabara, atual Estado do Rio de Janeiro). Políticos influentes, como Carlos Lacerda e até mesmo Juscelino Kubitschek de Oliveira, magnatas da mídia (Roberto Marinho, Octávio Frias de Oliveira, Júlio de Mesquita Filho), a Igreja Católica, os latifundiários, empresários e parte da classe média pediam uma “contra-revolução” por parte das Forças Armadas para remover o governo.

Os Estados Unidos, que já vinham patrocinando organizações e movimentos contrários ao presidente e à esquerda no Brasil durante o governo de João Goulart, participaram da tomada de poder, principalmente através de seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, e do adido militar,Vernon Walters, e haviam decidido dar apoio armado e logístico aos militares golpistas.

Desta forma, os militares mais radicais se aglutinaram ao general Artur Costa e Silva, e os mais estratégicos ao marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Tropas militares, na madrugada do dia 31 de março de 1964, sob o comando do general Olympio Mourão Filho, marcharam de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro com o objetivo de depor o governo constitucional de João Goulart.

A partir do dia Primeiro de Abril de 1964, na prática uma junta militar governava o Brasil, porém formalmente foi declarado vago o cargo de presidente da república, pelo senador Auro de Moura Andrade, presidente do Senado Federal, que empossou o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli na presidência.

No dia 11, o Congresso Nacional ratificou a indicação do comando militar e elegeu o marechal Humberto de Alencar Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército. Como vice-presidente foi eleito o deputado pelo PSD José Maria Alkmin, secretário de finanças do governo de Minas Gerais, do governador Magalhães Pinto, que ajudou a articular o golpe. A posse de Castello Branco ocorreu em 15 de abril de 1964 e ele governou o Brasil até março de 1967.

Grande parte da imprensa, os chamados “Diários Associados”, que eram compostos por revistas, rádios, jornais e emissoras de TV, como O Globo, Rede Globo, Folha de São Paulo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo festejaram a deposição do governo de Goulart.

A repressão se instalou imediatamente após o golpe de Estado antes do começo da luta armada. As associações civis contrárias ao regime eram consideradas inimigas do Estado, portanto passíveis de serem enquadradas. Muitas instituições foram reprimidas e fechadas, seus dirigentes presos e enquadrados, suas famílias vigiadas.

Em seus primeiros quatro anos, o governo militar foi consolidando o regime. O período compreendido entre 1968 e 1975 foi determinante para a nomenclatura histórica conhecida como “anos de chumbo”. Sob a vigência do Ato Institucional Número 5 (AI-5) e da Lei de Segurança Nacional de 1969, os “anos de chumbo” foram caracterizados por um estado de exceção total e permanente, controle sobre a mídia e a educação e sistemática censura, prisão, tortura, assassinato e desaparecimento forçado de opositores do regime. A prisão arbitrária por tempo indeterminado (suspensão do habeas corpus) e a censura prévia foram especialmente importantes para a prática e o acobertamento da tortura.

A população era moldada pela propaganda institucional e pelos meios de comunicação com os programas de televisão de Amaral Neto, do Repórter Flávio Cavalcanti, dentre outros, com audiência de até dez milhões de telespectadores em horário nobre, número muito expressivo para a época. Havia muitos programas locais com publicidade de cunho institucional, as “maravilhas” e a grandeza do país eram enaltecidas, slogans eram distribuídos fartamente em todos os meios de comunicação.

As universidades brasileiras viviam sob uma verdadeira ocupação militar: professores foram aposentados compulsoriamente, alunos expulsos, livros censurados.

Dentre os maiores adversários políticos que os militares da ditadura percebiam como sendo perigosos, de esquerda e/ou comunistas estavam os sindicatos. Castelo Branco usou a lei trabalhista para eliminar a oposição sindical, interveio em sindicatos e afastou seus líderes. O governo passou a definir a política salarial, reorganizando o Conselho Nacional de Política Salarial de João Goulart. Em pouco mais de um ano, a ditadura impôs intervenção federal em cerca de quinhentos sindicatos: as diretorias foram destituídas e interventores nomeados pelo governo. Os dirigentes sindicais deveriam ter seus nomes aprovados pelo Ministério do Trabalho.

A política de arrocho salarial, além de diminuir o salário real dos trabalhadores, acabou promovendo uma concentração de rendimentos, considerada uma das mais escandalosas em todo o mundo. Em todos os anos da ditadura a renda real (descontada a inflação) média dos trabalhadores caiu.

A política salarial do governo prejudicou a alimentação da população. Estudos mostram que, entre 1963 e 1975, a desnutrição passou de 1/3 para 2/3 da população brasileira, e a desnutrição absoluta chegou a atingir 13 milhões, aproximadamente 1/7 da população. Em resposta a esse problema, o governo baniu a palavra “fome” da mídia.

A política econômica e social do regime militar é criticada pelo crescimento da desigualdade sócio-econômica e da extrema pobreza entre os 21 anos de sua duração, extendendo-se do ano de 1964 até aquele de 1985.

Em 2013, as Organizações Globo reconheceram e desculparam-se publicamente, através de um editorial publicado no jornal O Globo, por terem apoiado a ditadura militar instaurada no país depois do golpe militar de 1964. No texto do editorial, o jornal afirma: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio (ao golpe de 1964) foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

* * *

Nesse dia Primeiro de Abril de 2014 completam 50 anos do ínicio da Ditadura Militar no Brasil. Considerando a impossibilidade de simplesmente fazer vistas grossas as cicatrizes indeléveis calcadas na pele de toda a órfã nação: Que lições nós podemos levar desse triste período de nossa história recente? Conseguimos minorar os graves danos causados no âmbito econômico e social? Como estamos hoje frente ao cenário mundial?

Observam-se os danos causados pelo Regime Militar em duas grandes esferas: aquela da grave e inconcebível violação aos diretos humanos dos cidadãos e outra de natureza econômico e social.

O Produto Interno Bruto (PIB) nominal per capita é o valor final de bens e serviços produzidos num país num dado ano, dividido pela sua população nesse mesmo ano. O PIB em dólares é baseado nas taxas de câmbio correntes do mercado de moedas. Segundo o Banco Mundial (2008), o Brasil ocupava a 54ª posição no ranking do PIB nominal per capta (com o valor de 8400 dólares americanos) dentre 170 países, estando abaixo da média mundial, que é de 8983 dólares americanos.

A concentração de renda brasileira continua sendo das mais vergonhosas do mundo. O coeficiente de Gini do Brasil em 2001 era de 0.594, melhor apenas que a Guatemala, Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia. A concentração de renda permaneceu praticamente inalterada durante as últimas quatro décadas, com seus índices oscilando dentre as 10 últimas posições do mundo.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstrou que a desigualdade entre os rendimentos dos trabalhadores brasileiros caiu quase 7% entre o quarto trimestre de 2002 e o primeiro de 2008. Nesse período, o coeficiente de Gini na renda do trabalho, ou o intervalo entre a média dos 10% mais pobres da população e a média dos 10% mais ricos, caiu de 0.543 para 0.505. Entretanto, “para um país não ser primitivo, esse índice precisa estar abaixo de 0.45”, afirmou o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, em entrevista à BBC Brasil.

No Brasil, a alta concentração de renda no topo da pirâmide dificulta a sua medição através dos índices mais comuns como o P90/P10. Isso por causa da anormalidade da distribuição: a metade pobre da população brasileira ganha em soma quase o mesmo valor (12,5% da renda nacional) que os 1% mais ricos (13.3%).

Em 26 de outubro de 2006, a Unesco publicou o relatório anual “Educação para Todos” colocando o Brasil na 72º posição, em um ranking de 125 países.

Estudos sobre a qualidade da educação secundária avaliam os alunos com quinze anos de diversos países. Num estudo da OCDE de 2007, o Brasil ficou em 52º entre 57 países. Em 2010, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) realizado em 2009 mostrou o Brasil na 53º posição dentre 65 países. A avaliação feita com questões de literatura, matemática e ciências mostrou que quase metade dos estudantes brasileiros não atinge nível básico de leitura.

Após a ditadura militar pudemos experimentar os governos de um ex-sindicalista, Luiz Inácio Lula da Silva, e também de uma ex-revolucionária comunista, a atual presidente Dilma Vana Rousseff.

O Programa Bolsa Família é um programa do governo Lula (2003) de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, criado para integrar e unificar o Fome Zero a outros programas de cunho social implantados no governo Fernando Henrique Cardoso. A então primeira-dama, Ruth Cardoso, impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país.

“Vou fazer um governo comprometido com a erradicação da miséria e dar oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras. Mas, humildemente, faço um chamado à nação, aos empresários, trabalhadores, imprensa, pessoas de bem do país para que me ajudem.” – disse Dilma Vana Rousseff em seu primeiro pronunciamento como presidente eleita do Brasil.

Já o Brasil sem Miséria é o programa social do governo federal brasileiro, criado na gestão da presidente Dilma Vana Rousseff. Lançado em junho de 2011, o programa tem como objetivo retirar da situação de pobreza extrema 16.2 milhões de pessoas que vivem com menos de setenta reais por mês. O Brasil sem Miséria consiste na ampliação do programa anterior de combate à pobreza de Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsa Família.

Depois que o governo da ditadura militar brasileira baniu a palavra “fome” da mídia pela censura, parece terem sido bastante acertadas e bem sucedidas as iniciativas dos governos do ex-sindicalista e da ex-revolucionária no combate da fome e da miséria.

Entretanto, o salário real dos trabalhadores é baixo comparativamente aquele de outros mercados, fazendo do Brasil prioritariamente um fornecedor de matérias-primas, celeiro de mão-de-obra pouco qualificada, ainda assim mantendo certa massa consumidora de produtos manufaturados: condições favoráveis às economias mais fortes e aos cartéis dominantes para a pilhagem capitalista – abençoada e legitimada pela ONU – no ínicio desse terceiro milênio.

 

Lendo nos jornais, já na minguante desse mês de agosto de 2012, sobre o julgamento do mensalão – um esquema de corrupção do Executivo denunciado sete anos atrás – é difícil calar ante a minha indignação.

Se por um lado os envolvidos no esquema estão sendo condenados pelos seus crimes, se a imprensa de hoje tem “certa” liberdade para a expressão das ideias em maior sintonia com a gravidade dos fatos, a convalescença social brasileira parece-me ainda ter repercutido pouco frente a apatia dos cidadãos e o sorriso amarelo na cara da classe dominante.

Eu penso ser mesmo inconcebível que o alto nível dos Poderes Executivo e Judiciário – estes senhores que recebem contracheques ordens de grandeza superiores aqueles dos trabalhadores assalariados – esteja dispondo de tanto tempo e energia discutindo erros crassos, práticas internas tão evidentemente criminosas. O desvio de verba pública está anos-luz distante dos padrões mínimos de ética e de conduta profissional aceitáveis para os responsáveis pela administração do país.

Enquanto isso, o trabalhador assalariado – aquele que realmente paga o pão e o circo – sobrevive no limiar da dignidade humana. Convenhamos, a saúde pública, a educação pública, a infra-estrutura (o saneamento básico, a condição das vias e das praças) e a seguridade social mostram sinais inequívocos de sua falência iminente. Sim, estamos verdadeiramente flertando com uma falência múltipla de órgãos. E não adianta tapar o sol com a peneira da estatística, com essa lógica rasteira dos indicadores sociais: “se eu como muito e você come pouco então, na média, nos alimentamos bem.” Parece-me mesmo não termos evoluído muito desde o dia 13 de maio de 1888.

Morando no Rio de Janeiro há pouco mais de um mês, sinto-me ainda assombrado por essa cidade onde os contrastes mostram-se tão evidentes. Creio ainda não ter desenvolvido o sentido da visão seletiva. Por isso vejo o cartão postal mais bonito do Brasil maculado pela pior das chagas, pelo esgotamento do principal recurso de uma nação: o ser humano.

Precisamos urgentemente de coragem, de atitude, de um resgate da ética; de seres humanos realmente comprometidos uns com os outros – interessados em deixar um legado digno para os nossos filhos e para a nossa nação. Lugar de bandido é na cadeia, não no Planalto.