Esta é uma simples composição a partir de fragmentos do romance Enquanto Deus Não Está Olhando, de Débora Ferraz. O livro de 368 páginas, publicado em sua primeira edição pela Editora Record, foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2014. Espero que este texto ajude a divulgar o romance, cuja leitura vale muito à pena!

            

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Quando meu pai foi embora, a casa, subitamente, tornou-se obsoleta. Como se a decoração estivesse, agora, completamente fora de moda. Não faz sentido. Foi só uma semana, meu Deus! E nessa semana a casa tinha se tornado um mausoléu. Eu caminhava meio cabreira dentro dela. Ficou inexplicavelmente escura, como se tivesse mudado e o sol já não entrasse mais pela janela. (página 28)

 

A vontade de chorar vinha o tempo inteiro ultimamente, e por um segundo pensei: Meu pai se transformou em dígitos. Espalhado no inventário da casa, no valor do sedã que ficou na garagem, em contas espalhadas no Fundo de Garantia, na minha conta, na conta da minha mãe, na conta do meu irmão. Meu pai se depositaria distribuído em 50% para a esposa, 25% para cada um dos filhos, em parcelas. De vários pontos, em números reais positivos em umas partes, negativos em outras. Meu pai transformou-se em números, como em um tolo espetáculo de mágico amador que não sabia desfazer o truque. Olhei para o advogado querendo dizer-lhe: “Moço.” Então lhe olharia atencioso com seus papéis miraculosos e eu pediria: “Não podemos transformar esses números em meu pai, de novo?” (página 143)

 

Eu queria voltar ao ponto no qual o deixei sozinho e dizer-lhe: são laços delicados, pai. Rompem e ficam irrecuperáveis do dia pra noite. Nosso abandono precede o nosso encontro. Vem tudo de antes, muito antes, de nós dois. (página 119)

 

Eu era incapaz de chegar a um lugar e dizer o que eu queria. Sempre envolvida pelas possibilidades de estar querendo – ou acreditando querer – a coisa errada. Sempre que eu ia a uma lanchonete com o meu pai, eu precisava ver o cardápio inteiro, todas as vitrines de bolos, ponderando, desesperadamente, sobre as opções. Ele sempre se impacientava com isso. Em lanchonetes, ele caminhava decidido ao balcão e, sem perguntar o que serviam, sem ter em mãos o cardápio, pedia: Um misto quente e um café. Ele não se preocupava com as opções. E por que deveria? Eu é que tive opções demais na vida. Ele, não. Ele sabia o que queria. Adaptou-se ao fato de que qualquer birosca ofereceria misto quente e café. Ele teve uma só possibilidade.

– Tem que ser simples – ele dizia. (página 179)

 

A viagem não podia ter sido mesmo confortável. Eu estava partida, e Vinícius, ao meu lado, se machucava com os cacos. (página 14)

 

– Você vai querer me dizer que isso é muito natural? Que pais abandonam filhos e esposa neste estado? Veja só como estou.

– É natural, sim – ele diz, guardando o frasco –, mas não deixa de ser foda. É aí que entra a bebida. (página 10)

 

O estado de espírito leve havia ficado no quarteirão anterior. Ele sabia. O sol estava se pondo e aquela gravidade entre Vinícius e mim, agora, mais constrangia que machucava. Ele não sabia lidar com metáforas e todas as nuances da dor que eu arrastava e que ele, sem querer, acabava carregando junto, não como cúmplice, mas como um refém que vê tudo, e precisa colaborar para sobreviver, mas, simplesmente, não entende o mecanismo daquilo. (página 79)

 

Ele traga o cigarro com prazer, defende-se do sol debaixo da árvore e da crítica dos outros. Não é permitido fumar.

Escondo-me melhor por trás da janela basculante. Tenho que observar os detalhes. O cigarro é a mais nova invenção dos baixos teores (noto o padrão: no decorrer dos anos a cor do filtro vai clareando e as marcas na embalagem deixam o vermelho para variar entre gradações de azul, chegam ao tom prateado e agora são brancas). Suas unhas parecem arroxeadas. Ele também não fez a barba. A camisa, furada, foi minha mãe quem deu de presente em um Natal distante. Interrogo em silêncio para onde ele olha. (página 31)

 

Minha mãe já está lá quando entro. Escorada no espaço da porta dos fundos. Olhando, assim, para o nada que se perdia na parede salpicada, tomada de musgo, como se estivesse catatônica. Um cigarro numa das mãos, xícara de café na outra. Por um segundo penso em sair dali. Talvez ela não tenha me visto entrar. (página 36)

 

Então trocou, rapidamente, o disco e voltou rebolando ao som de um samba-canção regravado. Completamente bêbada, fazendo o vestido vermelho balançar. Sorri com o nó que se formou na minha garganta quando naquela imagem vi meu próprio pai cantarolando os versos de “A volta do boêmio”. No passo trôpego dela, eu o via em sua solidão ébria. Decadência era a palavra, mas não era qualquer uma, e sim uma decadência terna dos que não pararam de sonhar. (página 195)

 

Porque daquela vez tivemos todos muito medo. Ele garantia ter visto a morte de perto. Disse a mesma coisa quando veio o primeiro trombo venoso e quando se internou por tantas outras coisas. Esse era o problema. Ele via a morte com freqüência demais. E tudo que a gente vê demais, olho ao redor – a escrivaninha, a cama, a parede do meu quarto pintada de azul, a camisa de flanela de Vinícius –, tudo que a gente vê demais acaba se tornando invisível. (página 186)

 

Além do peso do meu corpo e algumas culpas, carrego comigo o fardo dessa falta. Ela que chega em madrepérola. Essa coisa só, que se arrasta comigo fazendo vultos pelos lados. Será imortal?

Segurei forte as mãos do meu fantasma. Temos andado abraçados e concretos. Temos sido tão pouco. Sou apenas eu de mãos dadas a esperanças que nem são reais. Eu as pinto em tinta a óleo e me convenço de que são minhas. (página 345)

 

Foi numa luta dessa natureza que troquei os sapatos de camurça azul Klein por um de verniz preto e, com certa descrença, cumpri todo o resto do processo: igualar o tom de pele com base, criar efeitos de pontos de luz, sombras e profundidade. Técnica: base, pó, blush (entre outros pozinhos coloridos) sobre a pele. Além de secar os cabelos com secador e escova, usar perfume, lingerie e vestir, delicadamente, a roupa. (página 282)

 

E ela me abraça, os fogos explodem e então eu começo a chorar como se tivesse acabado de acontecer. Enquanto os fogos explodem, o som deles se mistura ao de vários espumantes que espocam, milhares de pessoas a nossa volta batem as taças. E todas elas se abraçam. E ela quer me abraçar, quer fazer com que eu me sinta melhor. Quer que eu a faça sentir-se melhor. (página 221)

 

Primeiro era gostar da cerveja em ondas macias. Uma onda a rebentar. Um mergulho em útero macio. Depois era gostar da espuma com os lábios finos e roxos. Passando o inferior pelo superior, limpando um bigode inexistente há dez anos. Ar. Depois era sentir o gelo no estômago. Aquela sozinhez inteira de faltar raízes. (página 228)

 

– E sempre ao final ficamos não apenas com a impressão de ter feito tudo errado, mas que o outro havia feito, também, tudo errado. Passar o réveillon com você foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.

– Você ia morrer afogada.

– Bom, então você salvou minha vida. (página 269)

 

Não havia nada de errado com aqueles sonhos. Mas eu duvidava que isso pudesse se tornar realidade. Pensava, ao mesmo tempo, nos milhares de quinquilharias acumuladas por ele mesmo dentro do quarto. Eu via que ele já havia passado da adolescência e que apesar de ter sido um dos mais brilhantes do colégio não tinha alcançado um desempenho muito superior ao dos outros quando saiu dele. Isso eu não dizia para ele, mas pensava quanto exatamente custaria chegar aquele ponto. A essa solidão sagrada. Eu pensava na história da garota que tinha dispensado ele. Todos os sonhos dele exigiam desapego. Um desapego que ele parecia ostentar. Um desapego que era milimetricamente trabalhado em cada uma de suas aspirações e gestos. Em não ter carro, namorada, em não depender da família. (página 189)

 

As palavras são como cores. Misturando na proporção certa, é possível chegar a qualquer gradação. E eu não encontrava nenhuma. (página 37)

 

– Olhando você fazer, dá vontade de fazer também. Parece a coisa mais interessante do mundo.

– É… – concordei. – São coisas pequenas que salvam a vida. (página 271)

 

Acordei num salto quando vi que Vinícius estava ao meu lado.

– Calma – ele disse, e eu o abracei com força.

– Você me deixa mais perto – eu disse, como se a frase fizesse parte de um sonho quebrado. Não saberia explicar.

– Perto do quê?

Mas não respondi nada. Apenas fechei os olhos e me deixei acolher. (página 251)