Medicina for all

novembro 13, 2017

   

Ricola de Paula, meu irmão na poesia, está de livro novo. “Sobre Tudo: tarjas bulas caixas e outros poemas sobre mim”, seu sétimo livro de poesia, foi lançado neste ano de 2017 pela Tachion Editora, de São José dos Campos, ISBN 978-85-65111-78-2, com 140 páginas.

   

Ricola é desses raros poetas de verdade, seus versos saem da cartola (que ele não usa) nas mais variadas espécies, todas elas animais. Outrora derrete as palavras em cria divindade pura.

   

Para começo de conversa, o simples título dessa sua nova obra já dá ideia do tamanho da encrenca: Sobre Tudo, ou sobretudo? Tarjas, bulas e caixas, serão remédios? Poemas sobre mim. Mas para a cura de quem: do autor, do leitor? Responda se puder.

   

O sumário (ou sumério?) traz os poemas organizados em cinco capítulos: Outros Poemas. Sobre Mim. Caixas. Tarjas. Bulas. E gostei do que Oswaldo Almeida Jr, escreveu no prefácio: “É assim Ricola. O homem da cultura urbana fincado como uma estaca no ambiente rural. Como se vivesse, ele próprio, ‘o fim da linha imaginária que separa os sonhos’”.

   

Enfim, um livraço para despertar, sair do torpor quotidiano. Abaixo uma prescrição minha, em doses homeopáticas, para os não-iniciados. Uma seleção de trechos dos meus poemas prediletos. Over top. Se for ler, não dirija.

    

— Polar —

Extirpo

o que é podre

Do abismo fujo

enquanto posso

Não hesito

trans

flor

mar

pasto

em jardim

    

— Poeminha —

Hoje sei que sou pequeno

Viajei no tempo

Ferraduras

Não me acostumei

matadouros

homens bombas

seguro de vida

respostas prontas

site de compras

Mas lhe asseguro

Difícil é descer a ladeira

com pedregulhos

Desligo tudo

Destituído do cargo

de coisa nenhuma

Durmo

depois assalto

a geladeira

Calado

Eu penso em escadas

Nas penas

que se desprenderam

das suas asas

    

— Olhei para dentro —

Olhei para dentro e achei soluções

que desabrocham com um simples ato.

Com o desenrolar da língua

ao falar a frase, sim eu te amo.

Olhei para fora com outra lente

vi o fim e o meio de voltar

ao início da palavra amor.

Não me incomodo

Se meu sangue, células, poemas

multiplicam-se pelos cômodos

tronco, cabeça, membros

desta residência frágil e humana

onde minha alma insiste em habitar.

    

— Residência humana —

Sobre tudo

amor é alquimia

Transmuta

Aumenta nossa vibração.

    

— En ciclope dia —

Ontem era unicórnio

Se bobear

Hoje mula sem cabeça

Conhece a ti mesmo e não se engane

O resto é dialética ou imagens distorcidas

    

— Quando você transbordar —

Transbordaremos juntos

como o Rio Buquira

que vaza e se esparrama

por pastagens e várzeas.

As ingazeiras arqueadas

tantas garças boiadeiras

outros pássaros em fuga.

Mourões submersos

Vacas nos atoleiros.

    

— Cartilha da psicodelia —

O outro vulgo marvel

Atalaia centauro

Mestre do imprevisível

O que azara as trutas

Dorme pelado na gruta

Tem ciência dos seus pe(s)cados

    

— Metalquemia —

Leva consigo espectros da morte

(foice) o medo, o lince dos apegos

O choque com o morcego

Aceitar, redimir, retroceder, perdoar

Palavras chaves, transformadoras

chicoteiam amiúde o ego

    

— Relax ou esculacho —

Tá na veia que explode a capela.

Amarra seu destroyer na fivela.

Olha bem o seu presente paramilitante.

Bem alto “paranoid” é Black Sabbath.

Se seu amor for canino, fácil você cotrair raiva.

Todos de pedalinho na riviera dos enganos.

Praias de oil, sanguinolentas

na orla do stablishment.

Suco de etanol, pomada de tracajá.

Garatéias na espera

dos gordos agronegócios.

    

— Esculax ou relax —

Quem muito mentex

qualquer dia vira fritex

Tá durex se rende a marmitex

E assim vamos na mesma vibe

de Indra e Agne

As palavras vibram no tambor

vibrax e fica relax quando

rachar o concretex

    

— O que eu sei —

Presto-me a fazer versos

muita gente boquiaberta

por que não?

Fiz o inverso

na margem ou fora da linha

circulei por retas e planos

estorvo ciclone torvelinho

extasiado

normal rebelde ou maldito

filosoficamente estúpido

não é no final do mês passagem de ano

mudança de século

aniversário bodas lobotomia

que você deixa de ser poeta

    

— Sobre mim —

Nossa azul continência

a simetria dos cristais de água.

Os assédios da metafísica

as pesquisas espaciais.

As mensagens emanando cura

terra, astros, e fases da lua.

O banhado

envolto em brumas

se oculta

na espinha dorsal

da igreja matriz.

    

— Sobre mim —

Decretar um fim pacífico

a tantas guerras

que você trava consigo mesmo.

Canalizar energia mater.

Reconhecer vórtices

formadores de holocaustos

salas self tortura

repletas de baixa estima.

    

— Sobre mim —

A terra gira.

Vórtice magnético.

Tropeço no amanhã

deixo que o sol

ressurja

mesmo que de soslaio.

A vida e sua parte elétrica

ligo o dispositivo.

Disposto vou vivendo.

Não desisto

demoro

na filosofia.

    

— Tarjas mutantes —

Quando as luzes desaparecerem do céu…

Você pode desligar os impulsos

andar sobre os cacos das explosões,

conferir os danos nos estilhaços.

Corte a sílaba “bá” da palavra bomba

se ficar bom, olhe o mapa do céu.

Seu quadrado na parede,

moldura o tempo circular

Tempo perdido na curva

onde eclipsa os enganos.

    

— Tarjas sulphurosas —

Quilômetros de sedimentos são depositados

nos tubos de ensaio das redes sociais.

Sei que emburreço neste carnaval de ofertas.

Esgotado saio antes do recuo da bateria.

Sicário não deixo rastro na cripta

do seu desleixo.

São tiras de papel de embrulho

papiro intrigo. Suavemente acredito

que torpes pombas sacio.

Um bom exorcismo abrirá

novos caminhos, água benta sanitária

dissolvendo ladainhas.

Segura na mão uma granada

Sentinelaaaaaaaaaaaaaaaa

A explosão dos significados

O refil da bagaça neném

A cuca já vem pegar.

    

— Bulas sem lactose —

As tetas daquela jumenta

já não dão leite

Um dia foram úberes

Poesia fervente láctea

O arco e a rabeca

o sol ainda castiga

A mesma nota dó

ronda a caatinga

Repetida no pífaro

inicia a cantiga

No final do arco-íris

um saco de confeitos

cactos amanteigados

    

— Bulas com inspeções no controle de qualidade —

Rezo pela bondade

que emana dos seus atos

por palavras sinceras

que sempre hão de brotar

como relâmpago no silêncio

da sua boca

Rezo por quem jogou

seu manto azul-estrelado

sobre nós

Equilíbrio

e perdão sincero

permitam

que a consciência

iluminada

possa reinar

    

— Bulas para ninar monstros —

O melhor de cada um

(mesmo que você não veja)

repousa

no ventre da bondade

onde começa

o fraterno ser

Acho que o conteúdo seria

– Impróprio às 18 horas –

às 19 horas chove

e poderemos

felizmente gritar

palavras de amor na chuva

Incitar o amoroso

premia a todos

salva a todos

lava a alma

    

— Bulas encabuladas —

Ao entregar minha inteira pessoa

pude assim conseguir bons feitos.

Benefícios, religare, bons escritos.

Apesar dos calos e digitais gastas

me parece que nessa vida as coisas

sempre carecem de um bom polimento.

Os riscos e o embaço desaparecem.

Com um toque hábil

delicado

surgem novos cristais.

Novo brilho, novas facetas

o processo aplicado

beneficia

a todos

os seres vivos.

Vamos lentamente

morrendo aos poucos.

    

— Bulas de coisa nenhuma —

espreguiçar

o gozo o êxtase

o santo gostinho

cruz invertida nas argolas

os escolhidos

que cessem a dança das cabeças

que cessem o acesso a falsa salvação

os peixes não estavam na arca

   

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