Contra a parede

julho 18, 2016

contra_a_parede_jorge_xerxes

 

 

Por que não vou ser direta? É coisa que não devo fazer no calor do momento. Passa pela minha própria compreensão a ideia de que você está aí, do outro lado, e não cabe senão a si mesmo desfraldar este véu de delicadas filigranas que nos separa. É desejo seu o auto-engano, como forma de identificar-se consigo mesmo, este a quem ama aos pedaços, para só depois descobrir os próprios meandros da consciência (e também a falta que dela a clareza nos faz agora). Eu vou me esforçar para, gradualmente, deixar de ser hermética, prolixa, na medida em que você vem desvendando os meus mistérios pela laboriosa experiência do tato. Estes simples signos que ora esparramam-se frente as tuas vistas mais parecem um deserto. Leia novamente e perceberás que trocaram de lugar algumas dunas. Ainda assim, você insiste em querer apreender da minha areia mais do que consegue carregar dela (enquanto um só grão bastaria). São as simetrias, as reflexões e os arranjos a entorpecerem os teus sentidos. E você, fazendo deles escravos de mim mesma, quando era para reverberarem num uníssono, despertando em oásis, flor, vitória-régia e água cristalina. Não sou eu quem vai terminar com isso, é você quem vai botar o ponto final – quando este for imprescindível e não houver sombra de dúvida a rigidez do seu pinto. O mesmo que agora é vela de derreter a minha boceta. Entre a grafia de uma única letra em caixa-alta e o fim da sentença: casa de tudo aquilo que vale a pena. É arte milenar de juntar os abismos, cujo vão você ainda não pode vencer de um único salto. Vai e vem descabido. Agora você já pode clamar a minha loucura. Dos meus sonhos restaram a maquiagem borrada, as marcas roxas no pescoço, o cabelo desgrenhado, o mais puro devaneio. Novamente dou linha à imaginação para que flutues, tento te elevar ao sétimo céu da minha gruta, mas você resiste. Ah, sina de criança a brincar empinando sua pipa! O sopro que te levanta é o mesmo que me imprensa. Aceita, meu amigo, humildemente a ideia de que você mesmo está deserto, e posso ser eu este seu oásis. Para constatar, enfim, a resposta a tua pergunta. Aquela que você mesmo se fez tímido, enquanto sussurrava ao meu ouvido: Posso fazer amor contigo?

          

              

Nota: Prosa submetida ao 24º Concurso de Prosa e Poesia da Academia de Letras de São João da Boa Vista sob o pseudônimo de Andréa Beltrão.

Anúncios

Uma resposta to “Contra a parede”

  1. Entrei no ‘Blogs Recomendados do WordPress’ e lá estava o seu!
    Que bacana que entrei, Jorge! 🙂
    Parabéns pelo espaço. Super clean e ótimos posts. Sempre gosto de conhecer novos colegas de blog assim vou aumentando minha rede, e claro, conhecendo sobre diversos assuntos e até mesmo cultura.
    Bom, já estou seguindo para não perder as novidades. Sucesso.

    Estendo aqui o convite para conhecer o meu blog… Ficarei contente com sua visita! 🙂

    HuG! 😀

    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter
    📸 Instagram: @andrehotter

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: