Dissolver ao vento

maio 29, 2016

dissolver_ao_vento_jorge_xerxes

 

– É aqui?

– É aqui, Zigfiii, se achegue Zigfiii, entre aqui no quartinho dos fundos.

Atravessa um corredor estreito, cheio de lodo, entre a parede da casa e o muro. Caminha úmido, um cheiro de natureza a invadir os seus sentidos. No fundo da casa simples, observa a mangueira, a jabuticabeira, um pouco de mato, um pouco de grama, umas pedras paralelepipedicas  fazendo as vezes de calçamento, um gato preto e só. Uma edícula simples, mas muito limpa, as paredes brancas que só. Uns tapetes vermelhos levam até uma escrivaninha velha daquelas de ferro, severas, resistente aos anos, às gerações de gentes perdidas dos seus caminhos, que ela tenta consertar, sustentar um santo qualquer de gesso, umas três velas acesas. Nas cores branca, amarela e vermelha. Ah, descaminhos, isso sim!

 – Zigfiii pode se acomodar aí no banquinho. Enquanto isso vou fumar do palheiro, que é de modo a chamar o Pai.

 – Mas não quer que eu te diga nada, quem eu sou, o meu problema, o que me traz aqui?

 – Zigfiii veio aqui, não fui eu aí no seu terreiro, Zigfiii se acalme, que é de modo a chamar o Pai, viste?

 Percebe então um pequeno globo de luz, do tamanho de um limão, uma superfície anuvarada, fechada em si, de bola, e tênue de luz, que parece ser reflexo de um centro de luz, um brilho muito branco e claro do globo névoa flutuante, atravessa o pequeno quarto, lentamente, calmamente, enquanto o palheiro se esvaindo em combustão com o ar, num fenômeno estranho à natureza, razão de existir daquela luz, um movimento suave, quase um olho de luz, uma presença, que não era nada disso senão fumaça.

– Zigfiii, Zigfiii, mas por que isso, Zigfiii?

Olha os olhos arregaçados e deformados do Pai, que não eram dali, já não deviam nada a este mundo.

O observador dentro do globo névoa flutuante de onde compartilha daquela sensação. O amor que os une, um momento de profunda intimidade do casal, o tato, a penetração, a saliva trocada pelos lábios em chamas, o calor vasto da vida. Funde num centro de luz e brilha de uma fumaça em volta, numa superfície anuvarada, fechada em si, de uma bola. Para flutuar, flanar pelo ar incensado, sair pela janela, dissolver ao vento e ao sol.

– Zigfiii não precisa de nada.

zigfiii_jorge_xerxes

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