O Lobo da Estepe para Microscopistas

novembro 7, 2014

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Essas letras, ordenadas de forma meticulosa ao longo de cinco breves páginas, são uma homenagem ao meu querido irmão Érico Teixeira Neto. Ele saberá porque…

O texto consiste numa coleção de onze excertos cuidadosamente selecionados de O Lobo da Estepe. Este romance foi publicado originalmente no ano de 1927 sob o título Der Steppenwolf pelo escritor suíço de naturalidade alemã Hermann Hesse. O escritor, por sua vez, recebeu o Nobel de Literatura em 1946 e tem entre as suas obras notáveis: Das Glasperlenspiel (O Jogo das Contas de Vidro), Demian, Der Steppenwolf (O Lobo da Estepe) e Siddhartha.

Posso elencar os três livros de Hermann Hesse que li, segundo a minha preferência, na seguinte ordem: Demian, O Lobo da Estepe e Siddhartha. Espero que eu tenha, em breve, a oportunidade de apreciar também O Jogo das Contas de Vidro.

E a Você, prestes a navegar através dessas onze passagens, eu desejo, de antemão, uma boa viagem!

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O burguês, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer seus prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega, à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio do caminho. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao asceticismo; nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tente plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite. Viver intensamente só se consegue à custa do eu. Mas o burguês não aprecia nada tanto quanto o seu eu (um eu na verdade rudimentarmente desenvolvido). À custa da intensidade consegue, pois, a subsistência e a segurança; em lugar da posse de Deus cultiva a tranqüilidade da consciência; em lugar do prazer, a satisfação; em lugar da liberdade, a comodidade; em lugar dos ardores mortais, uma temperatura agradável. O burguês é, pois, segundo sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou em lugar do poder a maioria, em lugar da autoridade a lei, em lugar da responsabilidade as eleições.

É compreensível que esta débil e angustiada criatura, embora existindo em número tão grande, não consiga manter-se, que, de acordo com suas particularidades, não possa representar outro papel no mundo senão o de rebanho de cordeiros entre lobos erradios. Contudo, vemos que, em tempos de governos fortes, os burgueses se vêem oprimidos contra a parede, mas nunca sucumbem; na verdade às vezes parecem mesmo dominar o mundo. Como será possível? Nem o numeroso rebanho, nem a virtude, nem o senso comum, nem a organização serão suficientes para salvá-lo da destruição. Não há remédio no mundo que possa sustentar uma intensidade tão débil em sua origem. E, todavia, a burguesia vive, é forte e próspera. Por quê?

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Não devemos surpreender-nos pelo fato de que mesmo um homem tão inteligente e educado quanto Harry possa tomar-se por um lobo da estepe e reduzir a rica e complexa imagem de sua vida a uma fórmula tão simples, tão rudimentar e primitiva. O homem não é capaz de pensar em alta escala, e mesmo o mais espiritual e altamente intelectualizado pode contemplar o mundo e a si próprio através das lentes de fórmulas enganosas e simplistas — especialmente a si próprio! Pois parece ser uma necessidade inata e imperativa de todos os homens imaginarem o próprio ser como unidade. E apesar de essa ilusão sofrer com freqüência graves contratempos e terríveis choques, ela sempre se recompõe. O juiz que se senta defronte ao criminoso e o fita no rosto, e por um instante reconhece todas as emoções, potencialidades e possibilidades do assassino em sua própria alma de juiz e ouve a voz do assassino como sendo a sua, já no momento seguinte volta a ser uno e indivisível como juiz, volta a encerrar-se na envoltura do seu eu quimérico e cumpre seu dever e condena o assassino à morte. E se em algumas almas humanas, singularmente dotadas e de percepção sensível, se levanta a suspeita de sua composição múltipla, e, como ocorre aos gênios, rompem a ilusão da unidade personalística e percebem que o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de eus, e chegam a exprimir essa idéia, então imediatamente a maioria as prende, chama a ciência em seu auxílio, diagnostica esquizofrenia e protege a Humanidade para que não ouça um grito de verdade dos lábios desses infelizes. Então, para que perder aqui palavras, por que expressar coisas que todos aqueles que pensam conhecem por si mesmos, quando sua simples enunciação é uma nota de mau gosto? Assim, pois, se um homem se aventura a converter numa dualidade a pretendida unidade do eu, se não é um gênio, é em todo caso uma rara e interessante exceção. Mas na realidade não há nenhum eu, nem mesmo no mais simples, não há uma unidade, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas, de matizes, de situações, de heranças e possibilidades. Cada indivíduo isolado vive sujeito a considerar esse caos como uma unidade e fala de seu eu como se fora um ente simples, bem formado, claramente definido; e a todos os homens, mesmo aos mais eminentes, esse rude engano parece uma necessidade, uma exigência da vida, como o respirar e o comer.

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Nosso mundo cultural era um cemitério, ali estavam Jesus Cristo e Sócrates, ali estavam Mozart e Haydn, Dante e Goethe; não passavam de nomes meio apagados numa placa de metal enferrujada, rodeada de assistentes falsos e hipócritas, que dariam tudo para continuar acreditando nas placas de metal, em outros tempos sagradas para eles; que dariam tudo para dizer ao menos umas honestas e sérias palavras de tristeza e desesperança sobre o mundo desaparecido, mas só sabiam em vez disso rodear o túmulo, gesticulantes e forçados. Acabei cortando o queixo no lugar de costume; gastei uns minutos para estancar o sangue, e tive de trocar o colarinho, sem saber por que fazia tudo aquilo, pois não sentia o menor prazer em atender àquele convite. Mas uma parte de Harry estava representando de novo uma comédia, dizendo que o professor era uma pessoa simpática; suspirava por um pouco de aroma de humanidade, de sociedade e de palestra; lembrou-se da bela mulher do professor, achou no fundo muito alentadora a idéia de passar a noite na casa daqueles amáveis anfitriões, e me ajudou a pregar no queixo um pedacinho de esparadrapo; ajudou-me a vestir e dar o nó à gravata decente, e me impediu com jeito de seguir meu verdadeiro impulso de permanecer em casa. Ao mesmo tempo, pensava comigo: “Assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isto contra a minha vontade, assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isto que os culpe de minha indigência pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os outros, como se funcionasse também para mim aquela mecânica, como se continuasse a pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!”

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Não — disse — não me aborrece, já estou acostumado. Venho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra. E por isso, não me perdoam, pois se julgam todos, sem dúvida, inocentes: o Kaiser, os generais, os grandes industriais, os políticos, os jornalistas… nenhum deles tem absolutamente nada de que recriminar-se, ninguém tem culpa alguma! Poder-se-ia até pensar que tudo foi melhor assim para o mundo, embora alguns milhões de mortos estejam embaixo da terra.

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Sua vida não será monótona nem estúpida, embora saiba que sua luta é inútil. É muito mais lisonjeiro, Harry, lutar-se por alguma coisa bela e ideal e saber ao mesmo tempo que não se conseguirá alcançá-la. Os ideais serão algo que se possa alcançar? Viveremos para acabar com a morte? Não, vivemos para temê-la e também para amá-la, e precisamente por causa da morte é que nossa vida vez por outra resplandece tão radiosa num breve instante.

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Aquelas imagens — eram centenas, com e sem nome — estavam ali de novo, surgiam novas e jovens do poço daquela noite de amor, e tornei a ter consciência do que havia esquecido na miséria, que elas eram o tesouro e os bens da minha vida e que continuavam existindo inalteráveis, acontecimentos culminantes que poderia esquecer, mas não destruir, cuja série formava a lenda de minha vida, cujo brilho era o indestrutível valor de minha existência. Minha vida fora penosa, transtornada e infeliz, conduzindo à destruição e ao niilismo, fora amargurada pelo sal de todo destino humano, mas havia sido rica, orgulhosa e senhorial; uma vida soberba até mesmo na miséria. E ainda que o resto do caminho até o ocaso fosse inteiramente desfigurado, o cerne desta vida fora nobre, tinha feição e estirpe, não girara em torno das moedas, mas em torno das estrelas.

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Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote.

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De um nicho na parede, tomou três copos e uma graciosa garrafinha, apanhou uma exótica caixa de madeira escura, encheu os copos com o licor da garrafa, tomou da caixa três finos cigarros, longos e amarelos; tirou do bolso de sua jaqueta de seda um isqueiro e acendeu nossos cigarros. Fumamos todos, atirando o corpo para trás sobre o respaldo de nossas cadeiras, fumamos lentamente o cigarro, cujo fumo era espesso como o do incenso, e bebemos um pequeno sorvo do líquido agridoce, desconhecido e estranho, cujo efeito logo nos reanimou, como se estivéssemos cheios de gás e tivéssemos perdido a gravidade.

Assim sentados, fumamos em pequenas tragadas, descansamos, libando lentamente a bebida, e nos sentimos mais leves e alegres.

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A noção de dever me é inteiramente desconhecida. Antes, em decorrência de minha profissão, tinha muito a ver com ela; era professor de Teologia. Além disso, fui soldado e tomei parte na guerra. O que me parecia o dever e o que as autoridades e as leis me haviam ordenado não era realmente bom, e de boa vontade teria feito exatamente o contrário. Mas embora admita que o conceito do dever não mais me atinja, conheço contudo o conceito da culpa; talvez sejam a mesma coisa. Desde o instante em que nasci, já era culpado, condenado a viver, obrigado a pertencer a um estado, a ser soldado, a matar, a pagar impostos para comprarem armas.

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As coisas não vão bem quando a Humanidade fatiga excessivamente sua inteligência e procura ordenar com o auxílio da razão as coisas inacessíveis à razão. Então surgem ideais, tais como os dos americanos ou dos bolchevistas; ambos são extraordinariamente racionais, mas desejando ingenuamente simplificar a vida, acabam por violentá-la de maneira terrível. A igualdade do homem, um ato ideal das épocas pretéritas, está a ponto de se tornar um clichê. Talvez nós, os loucos, consigamos enobrecê-lo um pouco.

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A vida é toda assim, meu filho, e temos de deixá-la ser assim, e se não formos idiotas devemos rir-nos dela. Pessoas do seu nível não devem criticar o rádio ou a vida. Aprenda primeiro a ouvir! Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!

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